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REVISTA DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA SBPC
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VOL. 43 DEZEMBRO 2008 R$ 9,95
NANOTECNOLOGIA
UMA REVOLUÇÃO NA SAÚDE
EM DIA ARQUITETURA Estudo analisa igrejas ucranianas construĂdas hĂĄ mais de um sĂŠculo no Brasil
Arquitetos de fĂŠ
Igreja da Imaculada Conceição, em Antônio Olinto (PR)
ĂĄ pouco mais de um sĂŠculo, imigrantes de vĂĄrias partes da Europa desembarcavam em terras paranaenses. Distantes de suas origens e incentivados por atraentes projetos do governo provincial, preparavam-se para colonizar uma regiĂŁo desconhecida. Alguns deles, italianos e principalmente alemĂŁes, instalaram-se em centros urbanos maiores. Mas outros se lançaram Ă sorte, aventurando-se por territĂłrios atĂŠ entĂŁo inexplorados, rumo Ă s longĂnquas terras interioranas. Foi esse o destino dos ucranianos, que, sem alternativas melhores, ocuparam as regiĂľes mais inĂłspitas do estado, desbravando caminhos que Ă ĂŠpoca nĂŁo passavam de um remoto sertĂŁo sem fronteiras. A colonização ucraniana deixou suas mar-
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cas, como o bordado em ponto de cruz e a fina pintura em casca de ovo (pessanka). Mas poucos poderiam imaginar que entre aqueles humildes camponeses de mĂŁos calejadas havia hĂĄbeis construtores de igrejas, que, com machados e ferramentas rudimentares, nos deixaram um legado cultural de inestimĂĄvel valor: as capelas ucranianas e sua inconfundĂvel arquitetura. As peculiaridades dessa arquitetura jamais foram estudadas. Mas recentemente o arquiteto Key Imaguire Junior, do Instituto Arquibrasil, de Curitiba, começou a investigĂĄ-las no âmbito do projeto ‘Arquitetura da imigração no ParanĂĄ: capelas ucranianas’, que prevĂŞ o levantamento sistemĂĄtico das construçþes deixadas pelos imigrantes ucranianos no estado. O trabalho, realizado com o apoio
de antropĂłlogos, historiadores e fotĂłgrafos, deverĂĄ render uma exposição itinerante de circulação nacional, um CD-Rom e um livro de autoria dos arquitetos FĂĄbio Batista, Sandra MagalhĂŁes e Marialba Imaguire. A iniciativa, financiada pela Petrobras, pretende alertar a sociedade para a importância desse patrimĂ´nio arquitetĂ´nico e destacar sua relevância cultural para o paĂs. “O estado de conservação da maioria dessas igrejas ĂŠ admirĂĄvelâ€?, diz Imaguire Junior. Um fato notĂĄvel, considerando-se que foram construĂdas com tĂĄbuas de araucĂĄria (madeira de baixa densidade e bastante vulnerĂĄvel ao cupim). Segundo o coordenador do projeto, uma explicação para tamanha resistĂŞncia ao tempo ĂŠ que os construtores dominavam boas tĂŠcnicas de carpintaria. Mais do que apenas cortar as ĂĄrvores adequadamente, eles sabiam que parte do tronco utilizar.
FOTOS RAMON GUSSO
H
EM DIA “Hoje, porĂŠm, parte dessa tĂŠcnica construtiva se perdeuâ€?, lamenta o arquiteto FĂĄbio Batista. Prova disso, diz ele, ĂŠ a rĂŠplica da Igreja de SĂŁo Miguel Arcanjo, construĂda em 1998 pela prefeitura de Curitiba em um dos parques da capital paranaense. Em menos de 10 anos, a obra precisou ser restaurada, ao passo que a construção original, situada na cidade de Mallet, regiĂŁo sul do ParanĂĄ, perdurou por mais de um sĂŠculo em excelente estado de conservação.
Peculiaridades da arquitetura ucraniana As igrejas erigidas pelos ucranianos diferenciam-se das demais construçþes religiosas luso-brasileiras em muitos aspectos. Segundo Imaguire, dois deles merecem destaque: o desenho da planta e a presença de cĂşpulas. As plantas das igrejas ucranianas normalmente se baseiam no formato de uma cruz grega, embora encontremos tambĂŠm plantas retangulares e octogonais. Na arquitetura luso-brasileira, porĂŠm, prevalece a planta em cruz latina. Quanto Ă s cĂşpulas, raramente as encontramos na arquitetura ocidental. Na tradição bizantina, entretanto – da qual a cultura ucraniana herdou alguns elementos –, a presença dessas estruturas ĂŠ quase uma regra. ConstruĂdas normalmente em madeira, podem adquirir vĂĄrios formatos. Igrejas russas, por exemplo, caracterizamse por cĂşpulas lisas e arredondadas. JĂĄ a arquitetura ucraniana opta por cĂşpulas facetadas, construĂdas sempre com oito lados. Outra diferença significativa entre as igrejas ucranianas e lusobrasileiras ĂŠ a localização do campanĂĄrio (estrutura semelhante a uma torre onde ficam os sinos). Na tradição luso-brasileira, tais construçþes estĂŁo acopladas Ă estrutura principal da igreja; na tradição ucraniana, encontram-se separadas. Ainda hĂĄ outro traço distintivo entre esses dois estilos
BREVE HISTĂ“RICO DA IMIGRAĂ‡ĂƒO 'PJ FN RVF B QSJNFJSB MFWB EF JNJHSBO UFT VDSBOJBOPT DIFHPV BP #SBTJM %JWJEJEPT FOUSF P D[BSJTNP EB 6DSÂşOJB 0SJFOUBM F P SFHJNF EF TFSWJEÂťP JNQPTUP QFMPT TFOIPSFT GFVEBJT EB 6DSÂşOJB 0DJEFOUBM OÂťP SFTUBWB PVUSB BMUFSOBUJWB TFOÂťP NJHSBS QBSB P /PWP .VOEP .BT P RVF QBSFDJB VNB TPMV¿P QBSB TFVT QSPCMFNBT MPHP TF SFWFMPV VNB HSBOEF JMVTÂťP -VEJCSJBEPT QFMB QSPQBHBOEB EBT BHĂ‚ODJBT JNJHSBUĂ‹SJBT PT VDSBOJBOPT RVF BRVJ DIFHBSBN BQĂ‹T WJBHFOT GFJUBT FN DPO EJÂżĂ?FT TVCVNBOBT OÂťP FODPOUSBSBN OBEB BMĂ N EF GBMTBT QSPNFTTBT "MHVOT EFTFN CBSDBSBN OP 3JP EF +BOFJSP PVUSPT FN 1B SBOBHVš 13 &N TFHVJEB GPSBN MFWBEPT QBSB $VSJUJCB POEF SFDFCFSBN EP HPWFSOP MPUFT EF UFSSB OP JOUFSJPS EP FTUBEP 1BSUJSBN FOUÂťP QBSB PT OPWPT EFTUJOPT FN DBSBWBOBT EF DBSSPÂżBT B DBWBMP PV B QĂ 1SVEFOUĂ‹QPMJT 6OJÂťP EB 7JUĂ‹SJB (FOFSBM $BSOFJSP $SV[ .BDIBEP .BMMFU 1BVMB 'SFJUBT F 3JP "[VM TÂťP BMHVOT EPT MPDBJT POEF TF JOTUBMBSBN .BT B EFTJMVTÂťP BJOEB FTUBWB QPS WJS &ODPOUSBSBN BQFOBT NBUBT GFDIBEBT BOJNBJT TFMWBHFOT JOEĂ…HFOBT
de arquitetura: a presença de alpendre (pequena varanda situada na entrada principal das igrejas, onde se encontram os chamados limpa-pĂŠs). “Era uma necessidade dos camponeses devotos, pois nos limpa-pĂŠs eles tiravam o barro dos sapatos antes de entrar no templo sagradoâ€?, conta Batista. As igrejas construĂdas pelos imigrantes no interior do ParanĂĄ em geral nĂŁo apresentam vitrais exuberantes, como os que observamos nas igrejas de tradição cristĂŁ no ocidente. De acordo com Imaguire, uma possĂvel explicação para isso ĂŠ que a fabricação desses ornamentos exige o emprego de tĂŠcnicas muito sofisticadas e materiais caros, nĂŁo condizentes com a realidade social daquelas pequenas comunidades que colonizaram o interior do estado (ver ‘Breve histĂłrico da imigração’).
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Igreja de SĂŁo Miguel Arcanjo, em Mallet (PR)
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EM DIA Vista interna da Igreja da Anunciação de Nossa Senhora, em Cândido de Abreu (PR)
Sincretismo arquitetĂ´nico As igrejas construĂdas pelos ucranianos no ParanĂĄ sĂŁo, em alguns casos, muito diferentes das construĂdas em sua terra natal. “Na Ucrânia, observamos uma tradiVista interna ção cristĂŁ de mais de mil anos, da cĂşpula tempo suficiente para o desenvolda igreja da vimento de uma arquitetura basTransfiguração tante avançadaâ€?, afirma Imaguire. de Cristo, em PrudentĂłpolis (PR) “LĂĄ, encontramos estruturas incrĂ-
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veis, feitas de troncos de ĂĄrvore com tĂŠcnicas muito elaboradas. Mas os ucranianos que aqui chegaram muitas vezes nĂŁo detinham esse conhecimento. Fizeram entĂŁo algo simplificado, com os recursos disponĂveis na regiĂŁo.â€? As prĂłprias cĂşpulas contĂŞm detalhes que ilustram a diferença entre as capelas do Brasil e da Ucrânia. Algumas delas, alĂŠm de possuir formatos inĂŠditos, sĂŁo revestidas de telhas, o que seria inconcebĂvel na Europa. AlĂŠm disso, certas igrejas daqui foram feitas com tĂĄbuas e ripas, em um sistema genuinamente brasileiro. Na opiniĂŁo de Marialba Imaguire, essas construçþes revelam acentuado sincretismo arquitetĂ´nico, que incorpora Ă s caracterĂsticas ucranianas alguns elementos regionais do sul do Brasil. “O que nĂŁo diminui a importância histĂłrica dessas obrasâ€?, ressalta a pesquisadora, “pois, embora tenham empregado tĂŠcnicas menos vir-
tuosas, os construtores dessas igrejas foram movidos pelo mesmo sentimento de devoção de seus conterrâneosâ€?. Segundo os pesquisadores, ĂŠ preciso desfazer a idĂŠia de que construçþes em madeira tĂŞm menos valor que as em alvenaria. Esse ĂŠ um dos objetivos do trabalho, e jĂĄ se observam resultados positivos. “As pessoas começam a entender que essas igrejas sĂŁo fruto de trabalho e dedicação de seus antepassados, que muitas vezes enfrentaram condiçþes bastante desfavorĂĄveis para construĂlas. Na opiniĂŁo de Imaguire, nĂŁo devemos valorizar apenas as grandes igrejas, jĂĄ consagradas pela tradição histĂłrica. “Queremos mostrar que a histĂłria nĂŁo ĂŠ feita apenas por quem fez o melhor, mas tambĂŠm por quem fez o mais simples.â€? Henrique Kugler Especial para CiĂŞncia Hoje/PR