IMPEDIMENTO
IMPEDIMENTO Florianópolis | 10 de junho de 2014 | Edição 1 | Ano 1
O futebol além das quatro linhas
Livro investigativo desmascara a FIFA e mostra o que a mídia tradicional não cobre
A
ndrew Jennings carrega consigo uma bagagem pesada,de mais de três décadas de jornalismo investigativo de qualidade e não decepciona ao trocar a a corrupção na política pela que acontece esporte. Depois de anos de investigação, em 2010 o escocês lança Jogo Sujo e disseca a árvore de poder e corrupção dentro da Fédération Internationale de Football Association, a FIFA, e expõe o lado mais obscuro da instituição. Em 351 páginas o jornalista conta os casos de propina na escolha de cidades-sede para eventos esportivos, os detalhes internos das votações que mantiveram os cartolas no poder e as empresas que financiaram e se beneficiaram da sujeira. Jogo Sujo tinha tudo para ser um livro confuso e que só seria compreendido por um leitor que já estivesse imerso no mundo do futebol, mas a maestria do repórter na hora de colocar no papel uma quantidade pesada de informações impressiona, mesmo quando não segue uma ordem cronológica dos fatos. O maior mérito do livro é ele desmontar um império até então intocável, que por tanto tempo cercou o esporte-entretinemento que é futebol. Ele faz o mais fanático
dos torcedores sentir vergonha de vestir a camisa de uma seleção. Causa constrangimento em quem assiste às propagandas exibidas atualmente, na época da Copa. Faz a paixão pelo futebol bater um pouquinho mais fraca no peito, mesmo que por um tempo apenas. Esse mundo secreto de enredo complexo e feito de tantos personagens não é difícil se visualizar com a descrição de Jennings. Com uma narrativa extremamente detalhada, o autor conta tudo, da arquitetura de um prédio a espessura do bigode de um assistente. “Havelange tinha um ar presidencial. Seu nariz aristocrático era uma proa arrogante e imperial abrindo caminho entre as ondas de seres inferiores, e os olhos escuros e de sobrancelhas espessas penetravam até as profundezas das carteiras de seus interlocutores. Alto e atlético, a testa brilhante, os cachos pretos vistosos, as roupas bem cortadas, tudo contribuía para causar uma impressão de imponência” é uma das descrições de tirar o fôlego. A acidez é um ingrediente secreto na composição do livro feito de documentos oficiais e depoimen-
tos. Jennings acerta na medida de sarcasmo e ironia e consegue arrancar risadas do leitor. “Blatter está em boa forma, exibindo seu sorriso afetuoso e carismático. Mas há um estraga prazeres. Eu. Eu pego o microfone. O sorriso dele fica amarelo e depois desaparece. Não sou seu jornalista favorito”. Andrew não poupa ninguém. Não esconde nem os envolvidos nos negócios, nem as fontes que o fizeram chegar nessas informações. A credibilidade que ele passa dessa forma é grande, documentada no final do livro, nomeando todos os arquivos consultados e ainda mostra o esforço jornalístico e investigativo colocado em cima da obra. Apesar de não focar muito no Brasil e na Copa de 2014, nomes brasileiros não ficaram de fora. João Havelange, presidente da FIFA entre 74 e 98, têm sua carreira na entidade descrita por Jennings como “uma eficiente mistura de charme, ameaça e persuasão”. O rio de dinheiro que passou na mão de cartolas começou a correr e criar afluentes por causa de Havelange. A
parceria com Horst Dassler (então presidente da Adidas), a empressa de marketing ISL e de mãos dadas com a ditatura, desviou milhões de dólares. Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange e ex-presidente da CBF, também aparece em escândalos relacionados a corrupção, sendo investigado em 2001 em uma CPI que descobriu empresas laranja no nome de Teixeira. Quem não escapa do faro de Jennings é a Rede Globo, envolvida em um esquema de 60 milhões que deram uma rasteira até mesmo na Fifa e foram parar direto no bolso da ISL. Mais detalhes dessa transação complicada podem ser conferidos na matéria abaixo. Juca Kfouri, jornalista esportivo que escreve na aba da edição brasileira, é preciso ao descrever essa obra inédita no jornalismo e que, a cada capítulo, dá um soco no estômago do amante do futebol. “Leia como se fosse uma obra de ficção. Mas saiba que não tem nada de ficção. Leia como se fosse uma novela de poucos mocinhos e muitos bandidos. Mas saiba que é você quem perde no final. Leia como se fosse uma peça de humor. E ria à vontade, porque há mesmo momentos hilariantes. Mas não perca de vista que, ao cabo, você chorará”.
Globo detém o poder das concessões “A FIFA tem o prazer de anunciar a prorrogação de seu acordo de direitos de transmissão com a Rede Globo para a Copa do Mundo da FIFA Rússia 2018™ e a Copa do Mundo da FIFA Qatar 2022™”. É com esse tom de camaradagem que o site da FIFA anuncia a renovação na parceria antiga entre a entidade e a Rede Globo. O acordo para mais duas Copas foi firmado ainda em 2012, quando a Globo, sem concorrência, renovou o contrato com a FIFA. A Record emitiu um comunicado oficial questionando a entidade no modo como esses negócios foram feitos. “A Record foi informada em 2010, logo após o término da Copa do Mundo, pelo diretor de TV da Fifa, Sr. Niclas Ericson, de que haveria uma concorrência pelos direitos de transmissão dos eventos promovidos pela Fifa em 2018 e 2022”, disse em nota a emissora que afirma ter provas dessa conversa. A FIFA rebateu dizendo à Folha de São Paulo que “aborda cada mercado de forma diferente de acordo com as circunstâncias”. No Brasil, a Rede Globo, junto com a Bandeirantes, foram detentoras exclusivas dos direitos da Copa do Mundo de 2010 e 2014. Na televisão por assinatura, os seus subsidiários Sportv e BandSports também tiveram a exclusividade do
Receita Federal-Reprodução
FIFA e Brasil mantém as aparências, mas os choques são constantes. Desde 30 de outubro de 2007, quando o país foi oficializado como sede da Copa do Mundo de 2014, a relação entre o governo e a Fifa foi de muitos altos e baixos. Um dos principais tópicos de conflitos são os atrasos na conclusão das obras exigidas pela FIFA. Ainda em 2012 Jérôme Valcke disse que o Brasil precisava de um chute no traseiro para acelerarem o ritmo das obras. Porém, em visita ao Rio em setembro daquele ano, o secretário geral já adotou um tom mais otimista e disse que a cidade estava “trabalhando forte e bem”. Porém, a fragilidade dessa confiança é evidente. A pouco mais de um mês para a abertura do torneio, ele acusou a troca de comando no país e a falta de uma pré-aprovação do Congresso Nacional como umas das principais dificuldades para os preparativos do evento. - Encaramos uma eleição e não foi fácil sair de Lula para a nova presidente. Deve ser pelo menos parte do processo de candidatura que haja compromisso do país em uma série de pontos – afirmou Valcke. Ele fez até uma meaculpa no final do mês de maio se colocando como um dos culpados para essa relação instável, ao invés de colocar os desentendimentos na conta da FIFA. “Não acho que os problemas tenham sido entre a FIFA e o Brasil. Às vezes foi entre mim e o Brasil. Em uma ou duas ocasiões acho que as palavras usadas por mim foram muito fortes” disse em entrevista para a BBC. O presidente Joseph Blatter já esteve mais confiante em relação ao evento antes. “Essa será uma grande Copa. Não haverá problemas. No final tudo se resolve, principalmente no Brasil”, afirmou em janeiro desse ano. Com a aproximação do evento e as críticas a Copa aumentando, Blatter também tentou blindar a FIFA. No dia 6 de junho disse que não é responsável pelos problemas daqui. “Não estamos fechando os olhos às preocupações do público em geral, mas considerar a Fifa responsável pelas preocupações geradas de decisões políticas no Brasil é errado”, defendeu-se.
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Alex Yamaki - Panda Books
Brasil e FIFA mantêm uma relação instável
Curso de Jornalismo UFSC Atividade da disciplina de Edição Professor Ricardo Barreto Edição, textos, planejamento e editoração eletrônica Marina Gonçalves Serviços Editoriais Um Jogo Cada Vez Mais Sujo Colaboração: Vinicius Schmidt e Nicolas Quadro Impressão: Postmix Junho de 2014
Documento da Receita Federal que denunciaria caso de sonegação da Globo
torneio em 2010 e terão em 2014, assim como a ESPN Brasil. Contudo, o sossego do canal foi abalado no meio do ano passado, quando teriam vazado supostos documentos que indicam uma investigação do Ministério Público à emissora por sonegação fiscal. A Globo é acusada de sonegar impostos referentes aos direitos de exibição da Copa do Mundo de 2002 e teria recebido uma multa de R$ 600 milhões por isso. Segundo esses documentos, a Globo realizou algumas manobras para escapar do Leão ao pagar os direitos no exterior e enviar dinheiro a um paraíso fiscal. Em nota, afirmou que não tem nenhuma dívida em aberto com a Receita Federal. E mesmo as boas amigas têm
seus desentendimentos. Em Jogo Sujo, Andrew Jennings conta durante alguns capítulos a novela de um dinheiro pago pela Globo que passou direto pela FIFA e foi parar no bolso do assistente pessoal de Dassler, Jean-Marie Weber, responsável por fechar os negócios da ISL com grandes empresas esportivas. Os assistentes de Weber estavam rodando o mundo vendendo o direitos da ISL para recuperar as contas da empresa, que nessa época estava ruindo. Em 1998, a empresa negociou uma fatia dos direitos para a Rede Globo, que pagou com uma entrada de 60 milhões de dólares. 22 milhões dessa quantia deveriam ter ido direto para os cofres da FIFA, só que isso não aconteceu. O adiantamento pago pela empresa de
comunicação parou em Weber. Em setembro do mesmo ano, Michel Zen Ruffinen, secretário geral da FIFA naquele período, escreveu a Weber perguntando o paradeiro desse dinheiro e exigindo uma correção no contrato. O dinheiro continuou sumido e Weber nem tocou no contrato outra vez. Em 2001, a ISL não consegue reverter a situação econômica complicada e declara falência. A mídia tentou descobrir o que tinha por trás dessa história. Jennings perguntou ao presidente Blatter se ele já tinha recebido proprina da ISL. Blatter serenamente afirmou que jamais colocou dinheiro de propina no bolso, que a ISL era uma boa pagadora e - omitindo os anos de cobranças pelos milhões de dólares - disse que só recentemente tinham percebido que uma certa quantia não tinha chegado no cofre da FIFA. Com o desvio de dinheiro entre Globo e ISL evidente, a FIFA não teve outra opção a não ser prestar uma queixa-crime às autoridades de Zug (comuna da Suíça), alegando fraude e apropriação indébita por parte do grupo ISL. Em 2004, silenciosamente, Blatter retira a queixa-crime que acusava a ISL do desvio de dinheiro pago pela Rede Globo e abafa como pode o caso.
"Por instantes imaginei como seria minha vida como soldado raso no mundo da Fifa. Me belisquei e recusei o convite"