O HISTÓRICO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO E AS CONTRIBUIÇÕES DE HUMMBOLDT E RITTER PARA A CONSTRUÇÃO DA GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA.1 Mariane de Oliveira FERNANDES marianejf@gmail.com Graduanda em Geografia Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora
Resumo: Para uma melhor compreensão do avanço das técnicas no nosso espaço de vivência e no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência geográfica, necessitamos conhecer as origens do pensamento geográfico, desde os tempos mais remotos quando o homem mesmo sem o desenvolvimento da ciência já tinham ideias geográficas, perpassando por diversas concepções filosóficas até chegarmos a sua sistematização. Pesquisar, descrever e analisar as transformações ocorridas no espaço geográfico é de fundamental importância, destacando a necessidade de retomarmos aos clássicos, a fim de conhecermos a sua história, bem como refletirmos sobre as contribuições de grandes pensadores como Humboldt e Rittter para a construção do pensamento geográfico contemporâneo. O presente trabalho tem como objetivo descrever e analisar essas contribuições para a construção da Geografia como ciência.
Palavras-chave: ciência; Geografia Clássica; Positivismo; espaço; sistematização.
INTRODUÇÃO
Desde a antiguidade o homem vem se preocupando em estudar o espaço em que vive. Entre os povos primitivos, aqueles que viveram na pré-história mesmo sem conhecimentos da escrita já eram ideias geográficas. Transmitiam os conhecimentos através da oralidade e dos manuscritos em rochas, demonstrando ter uma concepção de mundo. Andrade (1992) considerava que o homem através das suas experiências, desenvolviam ideologias de ordem geográfica e lançavam as sementes que no futuro seriam desenvolvidas com caráter científico. Os homens vivendo da caça, da pesca e da agricultura primitiva tinham contato com o meio natural e dele retiravam o seu sustento. Desde então o espaço vem sendo alvo de estudo por parte do homem. Pelo fato de viver no espaço e se sentir parte dele, indagações, na medida em que a humanidade ia adquirindo experiências, foram desenvolvidas. Saber os motivos e o porquê dos fenômenos tornou-se necessário. Com o desenvolvimento da ciência, no século XIX, a concepção filosófica inserida tinham suas bases no Positivismo no qual a Geografia Clássica estava inserida. Neste
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Epistemologia da Geografia
período as máximas geográficas começavam a ser levantadas e discutidas, porém sem a inserção do homem como indivíduo. É no século XIX que ocorre a sistematização da ciência geográfica tendo seu inicio com o desenvolvimento do capitalismo e suas relações com diversas partes do mundo no qual a ciência geográfica contribui de forma gratificante para este processo. Este trabalho vem descrever o histórico do pensamento geográfico e sua importância para o que conhecemos como a ciência geográfica nos dias de hoje, a Geografia Clássica e seus precursores como Humboldt e Ritter, no qual o olhar geográfico nasce da visão destes dois pensadores alemães que deveriam ser discutidos e repensados no que chamamos de Geografia contemporânea. HISTÓRICO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
Desde os tempos mais remotos, no período da Antiguidade, os povos viviam em grupos os quais se deslocavam em busca de meios de subsistência e assim conheciam o espaço em que viviam. Tinham conhecimento do mecanismo das estações do ano e, através dessas migrações, novos caminhos eram percorridos. A partir daí, os primeiros esboços com representações da superfície terrestre eram construídos, surgindo os primeiros mapas. O mapa mais antigo já registrado foi encontrado na cidade de Ga Sur, na Babilônia, datado de 2500 a.C. Neste mapa havia representações do vale de um rio que possivelmente representava o rio Eufrates acompanhado de montanhas, assinalando os pontos cardeais. As civilizações do Egito e Mesopotâmia desenvolviam a agricultura, e por isso, dependiam das irrigações, servindo de grande importância para o estudo hidrológico da região. Ainda na Antiguidade com a expansão política, comercial e marítima no Mediterrâneo, aconteceu a construção de mapas marítimos contendo a descrição de lugares e de seus habitantes. Segundo Andrade (1992), deve-se ressaltar a importante contribuição de Aristóteles para o desenvolvimento do conhecimento geográfico. Este filósofo admitiu a esfericidade da Terra, mas não apenas tratou deste tema, fez também relações aos aspectos físicos e humanos, como a variação do clima com a latitude e a relação entre as raças humanas. Os gregos na costa do Mediterrâneo instauraram colônias em que desenvolviam o comércio e o conhecimento dos lugares. Entre os romanos pode-se destacar a expansão do Cristianismo, religião oficial de Roma no século IV. Neste período, estudiosos afirmavam que os princípios religiosos sobrepunham às ideias científicas já estabelecidas pelos gregos, como por exemplo, a negação aos estudos feitos sobre a esfericidade da Terra, dificultando assim o avanço do conhecimento científico. Ferreira e Simões (1994) relatam que na Idade Média a reorganização do espaço vem com a queda do Império Romano no Ocidente, já que mudanças territoriais foram
ocorrendo, pois por meio das invasões bárbaras, guerras foram acontecendo e novas fronteiras foram sendo consolidadas. O pensamento geográfico passa a não ser formalizado em termos científicos. “Neste ambiente, a Igreja torna-se o maior poder, já que é o único poder central europeu. As respostas às questões colocadas passam a ser dadas a partir de interpretações bíblicas.” (FERREIRA E SIMÕES, 1994, p. 45). O sistema feudal desencadeado a partir da crise romana é instaurado. Este sistema dominou a vida dos reinos europeus do século X ao século XIII, quando o comércio havia se tornado uma atividade de muito pouca importância. No final da Idade Média temos importantes relatos de viagens como as Cruzadas, tendo como consequência a dinamização das relações comerciais entre Ocidente e Oriente. Segundo Ferreira e Simões (1994), com o ressurgimento das curiosidades pelo mundo desconhecido, há o renascimento do comércio entre a Europa e o Oriente e as peregrinações aos lugares santos. Sendo assim, torna-se necessário o desenvolvimento dos instrumentos de navegação, com a utilização de uma Cartografia denominada realista e não mais uma Cartografia religiosa como no início da Idade Média quando a busca por respostas se encontrava numa ordem religiosa. A Cartografia foi reformulada, passando a ser produzidos os chamados portulanos, que para Ferreira e Simões (1994, p. 52) “O nome portulano vem provavelmente da designação <<mapas de piloto>> (do italiano portolano)”, que são os mapas que tinham a capacidade de descrever com detalhes as rotas marítimas. Descrições de viagens entre o Ocidente e o Oriente eram feitas, trazendo importantes informações das regiões desconhecidas. Ao mesmo tempo em que o conhecimento do espaço geográfico vinha sendo ampliado, o relacionamento entre sociedade e natureza era estabelecido. Entre os séculos XV e XVIII há o aperfeiçoamento do estudo sobre o magnetismo terrestre, estabelecendo com melhor exatidão a medida das longitudes, podendo-se fazer correções em antigos mapas. Para Ferreira e Simões (1994) este é um período importante para a ciência geográfica, pois a Geografia retoma os dois rumos que vinha seguindo na Antiguidade, a Geografia matemática e a descritiva. Através das viagens e da grande expansão das navegações ao novo mundo, os cientistas puderam fazer observações astronômicas e descrever os lugares. Ferreira e Simões (1994, p.53) descrevem que “A concepção geográfica do mundo mudou mais rapidamente no primeiro quartel do século XVI do que qualquer outra época.” Correções de mapas eram feitas; o primeiro globo terrestre foi construído nessa época e, no século XVII por meio das observações de estudiosos como Galileu, Copérnico e Kepler, muda-se a concepção sobre a posição da terra no Universo, deixando de ser geocêntrica e passa a ser heliocêntrica. Ferreira e Simões (1994) relatam que na França desenvolve-se uma cartografia de maior escala podendo atender às necessidades de representações territoriais, como administração política, engenharia: estradas e canais; estratégias de guerra, entre outras.
Porém, com o tempo, a manipulação das experiências praticadas pelo homem vinha sendo feita, alargando a capacidade do desenvolvimento das atividades humanas. Com a manipulação desses problemas respeitando uma ordem preestabelecida por meio de técnicas, surgiu o que chamamos de ciência. E o que compete à Geografia no campo da ciência? Segundo Ferreira e Simões,
Compete a geografia descobrir quais os processos que produzem essas estruturas espaciais, descobrir qual a sua ordem, de modo a integrar essa ordem na experiência, para que possam ser manipulados os conhecimentos adquiridos.(FERREIRA E SIMÕES, 1994,p.10)
Portanto, a Geografia encontra-se inserida no campo científico, permitindo ao homem obter respostas mais eficazes sobre problemas espaciais, suas respectivas estruturas e consequências. Segundo Andrade (1992) o desenvolvimento das ciências acelerou-se nos séculos XVIII e XIX. Com o desenvolvimento do capitalismo comercial a partir do século XV, o interesse por matérias-primas e a conquista de territórios para a produção de alimentos pelos países europeus que eram os detentores dos meios de produção promoveu a expansão econômica e territorial desse continente. Com isso, a burguesia ia enriquecendose através das relações comerciais, e intensificando as relações entre os povos. Foram necessárias revoluções políticas como a Revolução Gloriosa, na qual a burguesia tomava o poder enriquecendo-se. A burguesia “[...] provocou verdadeira revolução de ordem cultural e técnica”. (ANDRADE, 1992, p. 47). A Revolução Industrial estabelecida na Inglaterra no século XVIII chega à França provocando verdadeira revolução de ordem técnica e industrial. A França, assim como outros países, começou a desenvolver a cartografia com representações de larga escala que representavam o território, mais precisamente, para atender as necessidades da política, de guerras e de revoluções, como a Revolução Francesa. Através desse enriquecimento, crescia o estímulo para o desenvolvimento das técnicas e das pesquisas e, consequentemente, o crescimento da exploração do espaço natural. Desde o século XVIII, os filósofos posicionavam-se em relação aos problemas e se preocupavam com o avanço da ciência, sua classificação. Andrade (1993) descreve que a classificação das ciências deveria ser uma tentativa de conjugar o amplo saber e a capacidade do homem em expandi-lo, sendo isto objetos de estudos de Immanuel Kant (1724–1804), filósofo e professor de Geografia Física na Alemanha. A sua importância para
a ciência geográfica não foi pelo fato de relatar viagens, mas, por trazer a esta ciência suas reflexões sobre a natureza do conhecimento, pois, para Kant, o conhecimento se dava pela experiência
e
raciocínio.
Nesta
época,
o
conhecimento
científico
vinha
sendo
compartimentado e, esta classificação vinha preocupando estudiosos. Para Moreira, (2008a) Kant argumentava que, o conhecimento deveria estabelecer relações entre natureza e homem, pois, para este filósofo,
[...] é necessário encontrar o ponto comum de pensar a natureza e pensar o homem , seja no plano empírico trilhado pela ciência, seja no abstrato que é característico da Filosofia. E vai buscar os pontos de apoio na Geografia e na História. Na Geografia vai buscar os conhecimentos empíricos concernentes à natureza. (MOREIRA, 2008a, p.14)
Para Kant, dados empíricos eram necessários, pois, a ciência vem das experiências dos homens. Este filósofo assume uma grande e singular importância ao levantar questões sobre a natureza do conhecimento geográfico. Segundo Moreira (2008a), Kant, mesmo não sendo geógrafo de formação, percebe que o avanço da ciência encontrase na interpretação da natureza, com isso, a Geografia ganha sentido por meio do olhar humano e da descrição, gerando o registro dos lugares de forma corográfica.
Assim, a corografia ganha o sentido geométrico da localização e distribuição que a Geografia vai usar para o aperfeiçoamento da representação cartográfica, através da combinação rigorosa da percepção sensível com o registro e precisão matemáticos dos mapas. (SANTOS, 2002 apud MOREIRA, 2008a, p. 14).
A Geografia para Kant é organizada em classificações de conhecimentos empíricos num mundo físico, a descrição das paisagens terrestres, fazendo dela uma ampla e densa corografia, ou seja, o estudo geográfico das diversas localidades eram realizados. Para os geógrafos do século XIX, levantar questões sobre as características dos lugares, distribuição no espaço e problemas de ordem espacial, eram aspectos fundamentais. Portanto, a Geografia encontra-se inserida neste campo científico, pois a ciência consiste em dar explicações às indagações do homem. A GEOGRAFIA CLÁSSICA No início do século XIX cientistas e intelectuais preocupavam-se com a expansão da ciência vinculada às observações e experimentações. O pensamento científico do século
XIX tinha suas bases no Positivismo, uma concepção filosófica instaurada por Auguste Comte (1798-1857), filósofo francês, defendendo a perspectiva da observação já discutida por Immanuel Kant. Ferreira e Simões (1994) descrevem que esta corrente filosófica está firmada em três regras ditas como essenciais, que são
1)A observação é a única base do conhecimento; 2)O estudo dos fenômenos deve basear-se apenas no que é observável, renunciando a qualquer especulação sobre a sua origem ou o seu destino; 3)As leis positivistas destinam-se a prever. (FERREIRA E SIMÕES, 1994, p.67)
Segundo Moraes (1992), a concepção filosófica em que os geógrafos do século XIX vão buscar suas orientações é o Positivismo, no qual a Geografia Tradicional está fundamentada. Moraes (1992, p. 21) diz que “Os postulados do positivismo (aqui entendido como o conjunto das correntes não-dialéticas) vão ser o patamar sobre o qual se ergue o pensamento geográfico tradicional, dando lhe unidade.” Na Geografia tradicional, a descrição, enumeração e classificação são elementos presentes neste dado momento histórico. Neste momento, as máximas geográficas vão sendo elaboradas e transmitidas, sendo tratadas como elementos principais do pensamento geográfico. Eram traçados como princípios fundamentais, como a citada por Moraes (1992, p. 23) “A Geografia é uma ciência de contato entre o domínio da natureza e o da humanidade”. Através da leitura desta máxima geográfica, verifica-se que o homem não está inserido nos estudos geográficos como indivíduo, apenas através de dados numéricos como estudo populacional, sem uma visão social, mas como um elemento da paisagem. Para Moraes (1992), a Geografia só conquista sua sistematização no início do século XIX, pois, até então
[...] trata-se de todo um período de dispersão do conhecimento geográfico, onde é impossível falar dessa disciplina como um todo sistematizado e particularizado. Nélson Werneck Sodré denomina esse período de “préhistória da Geografia”. (MORAES, 1992, p.34).
No início do século XIX, a sistematização da Geografia tem seus princípios na expansão do capitalismo, pois neste período há o desenvolvimento do capitalismo em países como a Alemanha e a Europa estabelecia relações econômicas com diversas partes
do mundo, sendo uma excelente contribuição para esta ciência. Neste momento a Terra já era toda conhecida e com o desenvolvimento do comércio, o intercâmbio por diversos lugares do planeta aumentava. Humboldt e Ritter, pensadores alemães, são considerados os fundadores da Geografia moderna e vão dar à ciência geográfica um caráter sistematizado, contribuindo para a continuidade desta ciência. A SISTEMATIZAÇÃO DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA COM HUMBOLDT E RITTER No século XVIII o mundo passava por uma revolução científica, uma delas, o renascimento cultural na qual estava presente o senso crítico, permitindo ao homem observar mais atentamente os fenômenos naturais. Segundo Gomes (2007), esta revolução científica do século XVIII tinha uma busca epistemológica, substituindo uma visão metafísica. Nela continha o uso do método e uma organização lógica do saber, sendo assim, duas tendências são discutidas: o humanismo e o racionalismo. A Geografia passa a ser interpretada através das relações entre o homem e a natureza, relacionando os aspectos sociais ao meio ambiente. Segundo historiadores e pensadores, Alexander Von Humboldt e Karl Ritter são os fundadores da ciência geográfica moderna. A Alemanha é o berço das primeiras metodologias e correntes do pensamento geográfico. A partir do início do século XIX temos a sistematização do conhecimento geográfico. O território alemão até meados do século XIX não era unificado, e com isso, a Geografia surge para atender a duas necessidades, sendo estas: a unificação territorial e a sua expansão de domínio. A Alemanha só vem unificar-se em 1870, considerada uma unificação tardia. Segundo Moraes (1992), devido a esta falta de constituição de um Estado Nacional neste território, fez-se necessário uma discussão geográfica no século XIX, fazendo com que a Geografia percorresse novos rumos. Para Moraes (1992)
Temas como domínio e organização do espaço, apropriação do território, variação regional, entre outros, estarão na ordem do dia e na prática da sociedade alemã. É, sem duvida, deles que se alimentará a sistematização geográfica. (MORAES, 1992, p.46-47)
É nesta temática que irão surgir dois pensadores alemães membros da aristocracia prussiana e estudiosos da época. Humboldt e Ritter, sendo o primeiro, naturalista e o segundo, filosófico e historiador.
Alexander Von Humboldt (1769-1859) nasceu em Berlim, na Alemanha, dedicandose aos estudos da Botânica foi considerado um naturalista. Estudou Geologia, Física, Astronomia, entre outras ciências e, por pertencer a uma família aristocrata, fez inúmeras expedições por todos os continentes, fazendo excelentes observações na América Latina. Através dessas expedições, ele pode observar os diferentes climas e paisagens e registrouos em suas obras, nas quais temos ricas informações através dos seus relatos. Para Gomes (2007), Humboldt descrevia os fenômenos, e pela sua grande cultura, proporcionou um novo modelo à ciência geográfica, fazendo com que se realizassem novas descobertas, descrevendo-as. Andrade (1992, p. 52) relata que “Apesar de ser naturalista, tinha grande curiosidade pelos homens e pela sua organização social e política, achando que esta tinha relação íntima com as condições naturais.” Sendo assim, Humboldt fez relações entre o uso da terra e o homem, das mais diversas formas, pois acreditava que através destas relações poderia obter os recursos disponíveis. Segundo Gomes (2007, p. 151), “Seu olhar tinha por objeto os elementos mais variados do meio físico, mas não se limitava a eles, Humboldt observara também a sociedade local”. Através das suas observações estabelecia relações com tudo o que estava inserido no espaço geográfico. Este pesquisador a partir de suas viagens escreveu obras como Cosmos (1845) um livro contendo cinco volumes, sendo que um deles foi publicado posteriormente a sua morte. Para Humboldt, a Terra tem uma ordem estabelecida, constituída de uma totalidade de todas as coisas deste Universo de forma ordenada; nestas obras o pesquisador descreve os fatos concretos e paisagens detalhadas. Dessa forma, Moraes (1992) descreve que a ciência geográfica seria uma disciplina sintética dotada de métodos, pois
Em termos de método, Humboldt propõe o “empirismo raciocinado”, isto é, a intuição a partir da observação. O geógrafo deveria contemplar a paisagem de uma forma quase estética (daí, o título do primeiro capítulo do Cosmos: “Dos graus de prazer que a contemplação da natureza pode oferecer”). (MORAES, 1992, p.48)
A Geografia, como uma ciência sintética e metodológica, procurava buscar uma relação entre os objetos observados e a razão, propondo a ideia de que tudo que é apreciável deve ser pensado e construído pelo sujeito. Karl Ritter (1779-1859), discípulo e amigo de Humboldt, foi um grande pesquisador e estudou Filosofia, Matemática, História entre outros ramos do conhecimento. George et.al (1975, p. 10) descrevem que Ritter “Propõe determinar as relações entre a Geografia e História, entre o meio e as características originais das sociedades e das civilizações.”
A formação de Ritter é bem diferenciada da de Humboldt, mas tinham fatores comuns: são contemporâneos e pertenceram ao seleto grupo de pesquisadores que viveram a Revolução Francesa, contribuindo para os ideais revolucionários da época, formulando ideias de nível intelectual e filosófico e proporcionando a busca pelo conhecimento, levando a Geografia a conquistar sua sistematização. Pereira (1993, p.118) descreve que “Para ele, a geografia é essencialmente uma disciplina histórica que tem o seu próprio centro no estudo das relações entre o ambiente natural e o desenvolvimento dos povos.” Moraes (1992, p. 48-49) relata que “Ritter define o conceito de “sistema natural”, isto é, uma área delimitada dotada de uma individualidade.” Para Ritter, cabe a Geografia se valer dos estudos dos lugares, mas em busca de suas individualidades. Ritter analisou diferentes fenômenos da superfície da Terra sem deixar de lado a ação humana. Por isso, a proposta de Ritter é antropocêntrica e regional, ou seja, fazendo relações entre a natureza e o homem, fazendo uso das individualidades dos lugares, não deixando o empirismo, pois para fazer tais relações fazia uso da observação. Moreira (2006) relata que,
Para chegar à “individualidade regional”, Ritter compara recortes de áreas diferentes, com o fim de identificar as suas características comuns e assim chegar a um plano de generalização (método indutivo). De posse desse plano de comparação possível, individualiza e analisa cada área separadamente, com o fim agora de identificar o que é específico a cada uma, distinguir o que as separa e assim classificar as áreas por suas propriedades comuns a todas (método dedutivo). Obtém-se com isto a individualidade de cada área, isto é, a construção teórica da região, que Ritter concebe de maneira a ver cada área como recorte de uma unidade de espaço maior, sendo uma unidade em si ao mesmo tempo que é parte diferenciada do conjunto maior da sua superfície terrestre. (MOREIRA, 2006, p.21)
Neste fragmento, fica clara a preocupação de Ritter sobre o conceito de individualidade regional, dando uma visão humanística ao espaço geográfico. Para Ritter, dever-se-iam buscar semelhanças entre as regiões formulando comparações mas sem perder sua individualidade. Nessa busca por semelhanças e explicações, é perceptível os desígnios do Criador, pois para este pensador, os acontecimentos dos fenômenos têm um fim previsto por Deus. Humboldt e Ritter partem do princípio holístico, ou seja, pensar, ou considerar a realidade, segundo a qual nada pode ser explicado pela mera ordenação ou disposição das partes, mas antes pelas relações que elas mantém entre si e com o próprio todo. Segundo Moreira (2006), para Humboldt a superfície terrestre seria a globalidade do planeta, partindo
de diversas interações orgânicas e inorgânicas e, para Ritter, parte das individualidades, de um ser único. Gomes (2007) discute a ideia de que o geógrafo era um mero observador do espaço natural que experimentava a fim de compreender as leis da natureza. Descreve ainda que a noção de “olhar geográfico” nasce a partir de Humboldt e Ritter. Além disso, Gomes destaca que estes pensadores têm suas bases num discurso científico de meados do século XIX, ou seja, o racionalismo e positivismo. Gomes (2007) descreve que,
Paradoxalmente, a geografia de Ritter, mais influenciada pelos conceitos românticos, utiliza uma linguagem muito mais próxima da ciência racionalista/positivista do que a linguagem de Humboldt. Esse último, a despeito de uma retórica por vezes poética, tinha, de uma maneira geral, uma aproximação muito maior com os cânones da ciência racionalista, tal como ela era definida no séc.XIX. (GOMES, 2007, p.174)
Filósofos e pensadores de diversas épocas da história da humanidade discutiam ideias e mostravam as oposições da ciência positivista e racionalista. Humboldt tinha ideias racionalistas, ou seja, sempre estabelecendo e propondo caminhos para alcançar determinados fins como a exploração racional dos recursos econômicos do Novo Mundo. Já Ritter além do racionalismo, construiu uma imagem lógica do mundo e, com ideias positivistas, sempre esclarecendo aspectos conceituais dos métodos, ideias e descobertas da ciência, fez relações com as experiências práticas a fim de provar hipóteses. Humboldt e Ritter morrem em 1859, já final do século XIX. Para Moraes (1992, p.51), “[...] a Geografia seguia constituída de levantamentos empíricos e enumerações exaustivas sobre os diferentes lugares da Terra.” Segundo Andrade (1992) a obra destes dois pensadores alemães correspondeu ao desafio em que a Europa vivia naquele século, mais precisamente na Alemanha, onde aspiravam à unificação nacional e política. A partir destes dois pensadores, ficou estabelecida a metodologia da Geografia descritiva, proporcionando maior desempenho na propagação e ampliação do conhecimento. CONCLUSÃO No conteúdo deste trabalho podemos perceber a importância de conhecermos a história do pensamento geográfico até mesmo antes de sua sistematização. Ao relatarmos que na Antiguidade com a expansão política, comercial e marítima no Mediterrâneo, aconteceu a construção de mapas marítimos contendo a descrição de lugares e de seus habitantes e na Idade Média a reorganização do espaço vem com a queda do Império Romano no Ocidente é de total relevância pois, mesmo sem a sistematização da Geografia
como ciência , o pensamento geográfico estava inserido nestas transformações, pois o espaço geográfico estava sendo alvo de debate. Ao pensarmos na sistematização da Geografia no seu período clássico, as máximas geográficas sendo elaboradas e transmitidas, sendo tratadas como elementos principais do pensamento geográfico, mesmo o homem não fazendo parte de tais discussões, porém a partir destas máximas o pensamento geográfico foi desenvolvido. Destacamos o pensamento de Humboldt e Ritter, pensadores alemães que através de viagens e dos seus relatos e mesmo estabelecendo uma Geografia descritiva, faz-se necessário a realização de observações empíricas a fim de facilitar a sistematização de conceitos, A importância de tais observações retoma à consolidação do pensamento geográfico moderno. Tanto Ritter quanto Humboldt formularam ideias importantes para a época, trazendo alicerces para esta ciência. REFERÊNCIAS
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A evolução
do
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MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia Pequena História Crítica. 11.ed.São Paulo: Hucitec,1992.
MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006.
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PEREIRA, Raquel Maria Fontes do Amaral. Da Geografia que se ensina à gênese da Geografia moderna. 2.ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 1993.