Novo tempo: navegar o Brasil sem carta náutica Copa 2014
A citação de Daniel Cunha traz uma dimensão interessante para explicar como navegamos. Não há teoria revolucionária adequada. Além disto, o que estava colocado como certo em nosso tempo está sendo massivamente questionado (a tomar pelas manifestações de junho), mas ainda não há nada para colocar em seu lugar. O desenvolvimento, inclusive das próprias manifestações, é para qualquer lado, tanto para esquerda como, perigosamente, para a direita. A refutação doutrinária tem aberto os flancos da política para todos os lados. Mesmo assim, mais do que antes, nada explica melhor a política do que a economia, como diria Mariátegui. A dinâmica social emergente é de crise política e de rebaixamento das expectativas (ninguém espera nada diferente, apesar de tudo). Todos operam os fatos e vivem suas vidas buscando os maiores benefícios individuais, apesar da ansiedade estrutural que isto tem causado. É o “novo tempo do mundo”, nas palavras de Paulo Arantes. Um parêntese: segundo Arantes, o novo tempo tem o ponto de corte no aparecimento mundial das comunidades zapatistas, em 1994. Eis um sinal para prestarmos atenção. Mas o que se pode esperar deste “novo tempo do mundo”? Se tomamos algo novo por algo inesperado, que não tinha possibilidade de acontecer, mas aconteceu por conta de alguma condição excepcional, vamos a Hegel. Hegel escreveu que algo é revolucionário quando se realiza fora das potencialidades do seu próprio desenvolvimento. Virtual é a palavra que utilizou para caracterizar algo sem pro-
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Editorial
Ano 16 - nº 35 Junho 2014 POA/RS
babilidade de acontecer, algo, portanto, que revolucionaria as condições objetivas de realização. Neste sentido, junho de 2013 no Brasil, precedida por outras datas pelo mundo, foi uma tomada de ar. Por certo foi uma agitação política ainda irresponsável, sem autoproteção contra ataques e tomadas fascistas, sem direção política definida, mas que começa a colocar na rua uma geração que não conhecia este repertório – e que volta a respirar. Dentro das potencialidades de desenvolvimento (não revolucionárias, conforme Hegel) os movimentos de moradia, comunitários, sindicais, campesinos, etc., patinam diante de um repertório não dirigista da ação. Alguns, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST – com origem no MST) de São Paulo, começam a utilizar as manifestações de massa, dando atestado de que ainda é tempo de aprender com a atualidade. No início de junho de 2014 tomaram uma ponte estaiada entre 15 mil pessoas, contra a Copa do Mundo e reivindicando moradia popular
"Certas épocas exigem o abandono de antigos dogmas e a coragem para lançar-se ao mar teórico-prático desconhecido sem as certezas de uma carta náutica previamente navegada. Nossa época, que reúne a crise do capital, a necessidade de uma teoria radical emancipatória e a crise das teorias tradicionais, é uma delas." Daniel Cunha, Sinal de Menos nro. 10, v.11.
para quase 40 mil em situação precária. Outros movimentos ainda tentam pegar carona nas agitações de uma forma um tanto desajeitada. É claro, atravessamos um período tão “escabelado” que podemos, inclusive, transformar Copa do Mundo em disputa eleitoral, o que para os trabalhadores urbanos ou rurais pouco faz sentido, pois as políticas e programas sociais estão sendo duramente atacados enquanto os poderosos se engalfinham. Problemas reais, como o das pessoas brutalizadas pelas leis de exceção ou pela dinâmica urbana que a preparação da Copa potencializa, estão sufocadas na pauta positiva do crescimento econômico, tanto pela esquerda quanto pela direita. O que pesa na ação de todos, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau, é que a esperança de que algo inesperado (no sentido de Hegel) viesse à tona depois da ditadura militar tornou-se uma farsa já na década passada. Avança-se lentamente em melhorias de infraestrutura, reformas e na
erradicação da miséria. Fecha-se um curioso ciclo que iniciado no pós-ditadura, no qual programas de distribuição de renda, de alimentos, de acesso ao saber técnico/universitário ou de construção de casas, antes de estarem consensuados sob a sombra de um estado de bem estar, são tidos como “ameaça comunista” por ideólogos do ódio. Por isto precisamos clareza: a disputa das políticas sociais ainda é estruturante da correlação de forças. Afinal, não seria justo transformar os recursos públicos em consciência crítica e capacidade de produção autônoma, já que os governos raramente conseguem dar respostas a tempo para as precariedades sociais, enquanto cresce o ódio de classe? Meios para isto existem. Por exemplo: existem programas sociais do governo federal que permitem que movimentos sociais, associações ou cooperativas executem as ações, tais como o Programa de Aquisição de Alimentos ou o Minha Casa Minha Vida Entidades. Mas, para que se transforme os recursos públicos em
autonomia, é necessário que as organizações desenvolvam urgentemente uma autocrítica: operar programas para estruturar-se e se preparar para operar mais programas? Ou acessar estes recursos para beneficiar e autonomizar seus beneficiários, já que os programas podem desaparecer? O fim está em si mesmo ou na reorganização social do sujeito? Acreditamos que as respostas certas às perguntas acima contribuiriam para criar condições para algo inesperado (retomando o conceito em Hegel que desenvolvemos antes). Ao contrário da política do “quanto pior melhor”, para a cisão de classe, quanto mais condições de desenvolvimento humano, melhor. Ainda fica faltando a autocrítica das organizações na operação dos meios, isto é, dos programas. A disputa eleitoral é uma disfuncionalidade necessária para a garantia das condições. Afinal, sabendo que não há nada de novo por enquanto, e tendo em vista o crescimento do ódio à brasileira, queremos criar condições para que?