O Perú Molhado

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5 de outubro de 2011 • Edição 1055 • ANO XXXI • www.operumo­lha­do.com.br

Um jornalzinho que só sai quando tem mesada!

o i e d O s a ç n a i r c O MAIOR ­ AL JORN

BÚZIOS

Por Lula Vieira

U

ma vez eu estava trabalhando em Miami e por circunstâncias outras perdi o avião que iria me trazer de volta para o Rio. Amiga minha, operadora de turismo em Miami, me conseguiu uma passagem num vôo fretado por uma grande empresa brasileira de excursões, que tinha o nome de uma velhinha, voltando para o Rio. Era a única oportunidade de voar naquela semana. A representante da empresa aérea tentou de todos os modos me fazer desistir da idéia, mesmo que eu voasse de classe executiva. “Você vai descobrir o que é o inferno. Vai querer matar as crianças e se suicidar em seguida. Vai se trancar no banheiro. Vai chorar de ódio, impotência e desesperança. Não vá. Ouça o que eu digo”. No conforto de meu hotel, preocupado com minha volta, achei que dez horas num avião cheio de crianças, ainda que desconfortável, daria para agüentar. Tenho saco e paciência surpreendentes. Consigo ouvir discurso de senador, acompanhar posse de imortal na Academia, show de Axé e palestras de motivação. Não seriam algumas dezenas de crianças que me tirariam do sério. Idiota que sou! Tomei dois Lexotan e uma garrafa de vinho, que me deixaram absolutamente calmo e sonolento. Daria para agüentar uma peça inteira de teatro experimental. E aceitei voar. Cheguei no Brasil com os nervos em frangalhos, catatônico, com traços evidentes de esgotamento quase com crise de choro. Foi a pior viagem de minha vida, em companhia de dezenas de representantes dos filhos da alta

classe média brasileira, estudantes de escolas caríssimas e com diversas atividades extracurriculares. Era um berreiro só, uma violência de presídio para criminosos de alta periculosidade, palavrões dos mais cabeludos, falta de educação, de modos, de um mínimo de civilidade. Os guias, extenuados, não falavam com as crianças, que por sua vez tratavam os guias como animais inferiores. Houve guerra de travesseiros, de latinhas de refrigerantes, de comida e saquinho de vômito. Um luxo. Dezenas de Mickeys, Pato Donalds e super heróis dos mais variados tamanhos e de diferentes materiais atulhavam os porta bagagens, os corredores e numa certa altura voavam pela aeronave. Cogitei seriamente em pular do avião, me homiziar na cabine de comando (naquele tempo dava para entrar – não era um cofre) ou tocar fogo em tudo para morrer torrado mas encontrando finalmente alguma paz. Não morri por pouco. Dito assim, parece que não gosto de crianças. Gosto muito. Desde que em pequenas quantidades. Goste delas quando filhas de pais razoavelmente educados e que se lhes exerçam alguma autoridade. Minha mulher, então, é absolutamente louca por crianças. Perigosamente encantada. Mas Graças a Deus sabe estabelecer com elas um mínimo de convivência saudável. Assim como fazemos com cachorros, galinhas e com os sagüis que enfeitam meu quintal. Há que haver respeito. Todos temos o sagrado direito de comer em paz, tirar um cochilo ou simplesmente ouvir o último CD do Chico Buarque. Não aporrinho nenhum dos meus animais quando se deitam ao sol gozando a paz depois de uma boa re-

feição. Que eles também me dêem um pouco de sossego. Outro dia fui a um restaurante de shopping num fim de semana. Você, meu leitor, há de perguntar: “o que você espera de um restaurante de shopping num fim de semana?” Eu respondo: comer. Matar minha fome. Beber. Matar minha sede. Se possível um pouco de silêncio para ouvir minha mulher. Já na base do sonho encantado, uma música de fundo e o sussurrar longínquo de pessoas conversando. O que tivemos, eu e Silvana? Alarido histérico de crianças irritadas por estarem num restaurante. Gritos de mães. Correrias. Pobres babás, arremedos de enfermeiras, tentando apaziguar filhotes de babacas treinando babaquices comportamentais. Hamburgueres, batatas fritas, pizzas, homens aranhas e x-mans. Uniformes do Flamengo, Botafogo e Fluminense. Bermudas e tênis de grife. Treinamento para torcida organizada. Uma zona desagradável, barulhenta e hostil. As crianças de hoje batem em professoras, os pais se consideram clientes das escolas, os educadores são meros empregados. O discurso politicamente correto é que os jovens delinqüem porque a sociedade não lhes deu oportunidade. Ou a culpa é da propaganda que lhes transformam em consumistas empedernidos. Premidos por culpas de diversas origens, papai e mamãe a tudo permitem, pois não se pode traumatizar ou castrar o desenvolvimento da Djulia ou do Thiago, que já falam inglês com três anos e não cantam atirei o pau no gato porque da boca pra fora não se deve tratar mal os bichinhos. Enfim, mudo o título. Não detesto crianças. Detesto pais de crianças mal educadas.

Um jornalzinho ceguinho, surdinho e mudinho


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