"O filme do Bruno Aleixo": Se fosse mesmo um filme, não era tão bom 24.sapo.pt/vida/artigos/o-filme-do-bruno-aleixo-se-fosse-mesmo-um-filme-nao-era-tao-bom Tomás Albino Gomes
23 de janeiro de 2020
Um cão de peluche que é ao mesmo tempo um Ewok, um busto de Napoleão Bonaparte, o Monstro da Lagoa Negra e um ser de semblantes pré-históricos sentam-se à mesa. Podia ser o cenário de uma anedota, mas é o início de “O filme do Bruno Aleixo”. Portanto, e fazendo a tradução para o universo da já mítica figura coimbrã, o filme começa assim: O Bruno Aleixo, o Busto, o Renato Alexandre e o Homem do Bussaco foram tomar um café ao parque verde, junto ao Mondego, em Coimbra. Se estes quatro não precisam propriamente de uma razão para se encontrarem, desta feita havia um grande motivo: Bruno Aleixo tinha recebido uma chamada. "Ligou-me um homem que tem uma empresa que faz filmes. E quer que eu lhe faça um filme lá para a empresa dele", conta. Carente de ideias, Aleixo convoca toda a trupe, numa espécie de concílio dos deuses versão Aleixo, para debater e levar ao limite todas as ideias. O filme acontece numa espécie de tertúlia em que a filosofia aleixiana, da simples conversa de café aos episódios mais estapafúrdios, é levada ao esdrúxulo, encaixando cada ideia num género cinematográfico específico, da sitcom ao noir , da novela aos filmes de terror, ao mesmo tempo que leva os fãs do cão de peluche rezingão a sítios como o café do Aires, que a série mitificou. O Bruno Aleixo já anda a falar ao país e ao mundo debaixo da sua manta, sentado no seu sofá em Coimbra, há 12 anos. Durante este período nunca teve medo de dar o salto, ora para a televisão, para a rádio, ora para os livros ou até mesmo para o palco onde, no ano passado, João Moreira e Pedro Santo, os autores da série, estrearam "Bruno Aleixo Biografia Não Autorizada". Se em algum momento gostávamos de ver algo mais de Bruno Aleixo, algo fora da sua zona de conforto, entendamos que a grande razão pelo qual o projeto nunca fracassou foi por nunca ter tentado ser mais do que aquilo que sempre foi. O Aleixo nunca se tornou numa personagem política ou futeboleira, nunca saiu dos ecrãs para ganhar uma outra vida que não a do rezingão que um dia, bêbedo, estragou o autorrádio por tentar enfiar lá um rissol que queria guardar para comer no dia seguinte e que nos lembra constantemente para não comermos cornetos no café do Aires porque ele desliga a arca durante a noite para poupar luz e a bolacha fica mole.
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