Zama (2017) de Lucrecia Martel apaladewalsh.com/2018/04/zama-2017-de-lucrecia-martel April 27, 2018
Lucrecia Martel é talvez a realizadora mais influente do século XXI. O seu cinema tornouse imagem de marca da produção cinematográfica argentina e, de modo mais lato, um modelo para muito do cinema de autor contemporâneo, um pouco por todo o mundo. O Luís Mendonça inventou a expressão dos filmes “martelados” e de facto, como o vidro do mesmo nome, o olho de cada realizador lucreciano torna-se difuso, sem fundo, abstracto. Nos seus filmes há sempre um mal-estar que ferve debaixo de uma aparente tranquilidade. Uma qualidade vegetal (para não dizer vegetativa) que observa o drama a partir de um ponto de vista narcotizado, indiferente, cerebral. Essa estranha sensação de incómodo surge através do seu gosto pelos planos longos, por um ritmo narrativo muito espaçado, pelo recurso às elipses nunca explicadas e pelo silêncio que quase sempre se impõe como um sublinhado – veja-se a sua curta Muta (2011) onde se cristaliza o seu olhar num exercício de estilo para a marca de roupa Miu Miu. Zama (2017) é um filme que parece construído sobre uma ideia de silêncio muito palavroso (e quando digo silêncio, penso em mudez, e de forma mais lata, nas várias formas de amputação do sentidos, que o filme investiga, um por um).
O novo filme de Martel segue, em certa medida, a investida da realizadora no cinema de género que La mujer sin cabeza (A Mulher Sem Cabeça, 2008) constituíra. Onde esse era uma thriller psicológico, este é um filme de época que se aventura pela fantasmagoria e termina como survival horror. Nesse sentido o modo como a cineasta argentina pensa o género do filme de época partir de uma perspectiva quase historiográfica, transforma Zama num tratado sobre o silenciamento histórico dos povos indígenas da América do Sul. Silenciamento literal por a sua presença no filme se resumir a gestos de serventia e, só muito raramente, a uma ou outra linha de diálogo. Gestos esses que Martel faz questão de salientar: o som do abanador que um escravo opera sobrepõe-se ao diálogo entre os senhores, a presença de vários servos mudos (e a referência de que a sua mudez lhes 1/3