9 DEDOS

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9 Dedos take.com.pt/9-dedos by Aníbal Santiago

​10​ de ​outubro​ de ​2018

“É preciso uma autoridade! Algo que mande no Tempo, senão o tempo estende-se! Nós é que temos de nos impor a ele!” comenta Ferrante (Pascal Greggory) num estado visivelmente alterado quer pelos revezes de uma viagem que adensa a paranóia, quer pelo álcool que consumiu em excesso. Se este gangster anseia por algo que controle o tempo, já F. J. Ossang demonstra ser exímio nesta tarefa. Hábil a transmitir a rapidez e a intensidade com que os personagens sentem tudo o que ocorre no primeiro acto de “9 Doigts” (9 Dedos), o realizador é igualmente competente a explanar a lentidão com que as figuras que percorrem o enredo vivem os episódios do segundo e terceiro acto. Essa sensação de tempo está indubitavelmente associada ao espaço. Note-se como no segundo e terceiro acto a presença prolongada de uma parte considerável dos personagens no interior de um barco contribui para exponenciar todo um ambiente de imobilidade e incerteza. Fora do veículo marítimo, em particular, no primeiro acto, tudo decorre com mais ritmo, seja pelas perseguições e fugas, ou pelo contacto de Magloire (Paul Hamy), o protagonista, com o gang liderado por Kurtz (Damien Bonnard). Mais do que tomar a iniciativa dos acontecimentos, Magloire depara-se com uma série de eventos que mexem com o seu quotidiano sem rumo, sobretudo a partir do momento em que encontra um indivíduo prestes a falecer. O moribundo entrega vinte mil dólares ao protagonista e logo o avisa para fugir. Com mais dinheiro no bolso, Magloire começa a correr desenfreadamente, enquanto é perseguido por um grupo de criminosos. São trechos pontuados por alguma tensão e uma utilização sublime do contraste entre luz e sombras ao serviço do enredo, ou não estivéssemos diante de uma obra marcada por uma série de ingredientes associados aos filmes noir. Não faltam as sombras salientes e vincadas, dignas herdeiras do expressionismo e capazes de adensarem a inquietação e a sensação de malaise, os personagens de moral ambígua, a insegurança no espaço citadino, os ângulos de câmara que acentuam a inquietação, o fumo dos cigarros que exacerba a fugacidade e a transitoriedade da vida. Diga-se que a influência dos noir é notória em diversas situações que parecem surgir como referências a outras fitas, sejam estas menções propositadas ou casuais. Observe-se o aquário que cedo traz “The Lady From Shanghai” à memória, ou uma fuga à “The Third Man”, ou uma ameaça atómica que muito tem de “Kiss Me Deadly”. Temos ainda um assalto e um grupo de criminosos que faz recordar ao de leve alguns noir franceses, tais 1/3


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