A primeira pancada revistacinetica.com.br/nova/a-primeira-pancada cinetica
March 29, 2019
Tamanha a estupefação diante da superficial profundidade do riso causado por Eugène Green neste curto – curto como um golpe – Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, somente uma lenda pode introduzi-los, o filme, a gargalhada, a travessura custosa que é a poesia. Lembramos bem (grande parte de nós?) do monólito escuro de Stanley Kubrick à aurora da humanidade, do fantasmático ressoar de ‘Rosebud’ pelos corredores do império morto do magnata Charles Kane, da diabólica orquestração em agudos de pássaros assaltando uma cabine telefônica com uma loura; e a lista, ainda que nos pareça hoje um tanto morta-viva, decerto é numerosa. Mas há quem tenha percebido a maestria poética de Roman Polanski ao fazer do desfecho entre Faye Dunaway e Jack Nicholson, em Chinatown, um ato da mais amarga estocada poética? A irmã da personagem, crucial para o desvendar da labiríntica morte do marido da primeira, já ao terceiro ato, retorna em questão, testemunha ocular que foi ao túmulo precoce. Ele, detetive, a questiona sobre essa terceira, e Dunaway responde: ela é minha irmã; sendo esbofeteada, porque disto ele já sabe, lança uma segunda: ela é minha filha, e um outro tapa antecede uma exigência derradeira pela verdade, sem imaginar que toda a crueldade do mundo recairia sobre o pedido pelo nó fatal de uma síntese: ela é minha irmã E minha filha. Meu pai e eu… Em absoluto, não se imaginava. A compreensão total do hediondo, aliás, sabe-se bem, pode vir a demorar. A dobra narrativa não alcança o choque do íntimo maculado de cicatrizes. Algo do filme escapa a si mesmo, mas só pode vir a sê-lo nele. Teoriza-se que, depois do arrebatamento poético, o mundo cessa com suas anteriores similitudes. Pois, para além da solução narrativa que, ao menos em impacto, se assemelha à ruidosa tarefa de Fernando Pessoa de conceber um slogan para o primeiro comércio da 1/6