«Nha Mila» – O Belo Gesto da Partilha (do Peso) da Memória cinema7arte.com/nha-mila-o-belo-gesto-da-partilha-do-peso-da-memoria Teresa Vieira
7 de agosto de 2020
Com gestos simples se compõe um quadro. Com a memória se constrói uma comunidade. Com o silêncio se cria um diálogo. Com uma câmara se captura o poder do olhar. Com um filme se (re)conquista um mundo. O coloquial desperta o potencial da aventura da memória. E assim começa o percurso de “Nha Mila”, de Denise Fernandes: numa casa-de-banho, enquanto Salomé (que conheceremos como Mila) enche uma garrafa com água da torneira. Neste (reconhecido) não-lugar, ocorre o primeiro cruzamento: Águeda, responsável pela limpeza do espaço, reconhece Mila, e interpela-a no sentido de indagar sobre o seu presente, jogando com lembranças do seu passado em comum. Pouco obtemos: sabemos que Mila está no aeroporto de Lisboa a fazer uma escala, antes de chegar ao seu destino: Cabo Verde. Águeda pouco recebe – porque Mila pouco lhe dá – e o encontro, com potencial terminado, é recuperado no hall de entrada do aeroporto. Um brinco perdido naquele momento fugaz de ida à casa-de-banho é devolvido a Mila, que já vagueava num ângulo de corte com todas as potenciais intersecções e todos os prováveis cruzamentos entre indivíduos (uma recusa de contacto inconsciente, cultural e partilhada). O (re)encontro com Águeda é o despoletar de uma viagem por Lisboa, pelas memórias partilhadas de Cabo Verde, de encontros de diálogo – palavras, silêncios, trocas – entre a antiga e mais recente geração de quem deixou o seu país em busca de uma vida melhor.
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