Reportagem
O VELHO NÃO QUER SÓ COMIDA (quer direitos, diversão, arte... e fazer amor)
Vinte e quatro horas observando idosos em um residencial e outras nove em um centro-dia revelam que a terceira idade está sem voz e sem visibilidade no país PATRÍCIA ZAIDAN / FOTOS FILIPE REDONDO
E
m uma festa agitada em São Paulo – dessas que amanhecem com o néon iluminando a pista, energéticos, DJs e música contagiante –, uma mulher atravessa o corredor de gente que está fumando na área lateral, ao ar livre, única passagem para se chegar ao banheiro. Ela pede licença, vai abrindo caminho no mar de pessoas. Madura, 58 anos, adora dançar. Tem espírito alternativo, estética hipster, braços tatuados. Mas eles estão cobertos pela manga longa da blusa de seda que lhe dá um ar chique e eleva a sua idade à beira dos 65. Uma garota se espanta com a estranha no ninho e dispara, alto, a sua surpresa: “Olha, uma senhorinha!!!!!” O corredor polonês se concentra naquela figura como se ela fosse um macaco raro pulando fora do galho. Só falta atirarem pipocas. Como assim? Por que essa mulher deveria estar em casa jogando baralho com seus iguais? O Brasil não conhece seus velhos. Não sabe que são 26,3 milhões (13% da população), que muitos ainda trabalham, vivem mais (hoje, 75,4 anos, em média; em 2000, 69,8), detêm 20% do poder de compra (ante 5% registrados há duas décadas), com 30% deles gastando 1 34
CLAUDIA
ABRIL 2015
além do que despendiam antes da aposentadoria. Mas é o idoso o último a opinar sobre qualquer assunto, na família e na sociedade. Essa falta de direito de se expressar fica evidente na reportagem que leva CLAUDIA a uma dupla jornada: nove horas no Centro Público de Atendimento ao Idoso, em Jundiaí (SP), serviço que cuida dos velhos enquanto suas famílias trabalham; e outra, de 24 horas, no Lar Sant’Ana, no Alto de Pinheiros, na capital paulista, onde a mensalidade varia de 11,5 mil reais a 14 mil reais. As duas estruturas figuram como oásis: a região de Jundiaí tem 52 mil cidadãos com mais de 60 anos para as 30 vagas desse único centro-dia. No Lar, da Liga Solidária, vivem 97 pessoas em confortáveis apartamentos; e elas praticam atividades físicas e de desenvolvimento da autonomia. No nosso enorme país, residenciais como esse ou com menor requinte não passam muito de mil. Chamados Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), eles baniram do vocabulário o assombroso termo asilo. Mas são moradias coletivas. 1 João José da Silva, 90 anos, e 2 Marina Reghine Dini, 84, ambos do centro-dia de Jundiaí. 3 Cecília Penteado Cardoso de Almeida, 96 anos, e 4 Odair Buarque de Gusmão, 93, do Lar Sant’Ana, em São Paulo