Cultura.Sul 61 - 6 SET 2013

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

SETEMBRO 2013 | n.º 61 9.189 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve d.r.

Espaço AGECAL: d.r.

Gestão cultural e recursos culturais p. 3 Letras e leituras: d.r.

Salman Rushdie: Apanhem esse escritor!

p. 6

Orquestra Clássica do Sul arranca em Outubro p. 5

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Contos de Verão na Ria Formosa: d.r.

Alice do Outro Lado do Monitor p. 8

Espaço ao património: d.r.

Urbano Tavares Rodrigues: Eterno, não efémero

p. 11

Arqueologia em Albufeira

p. 9


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06.09.2013

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

A nova saison

Ciência, o que andas a tramar?!

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Setembro marca a época das rentrées. O país regressa de banhos e com as cidades a entrarem em pleno funcionamento a Cultura regressa, também ela, aos cânones mais costumeiros. O Cultura.Sul, que não fez férias em Agosto, renova a vontade de acompanhar - enquanto único caderno cultural em formato jornal da região - o que se vai fazendo no Algarve em termos culturais. Este mês começamos por falar da nova Orquestra Clássica do Sul, que sucede à Orquestra do Algarve e promete fazer, a partir de 1 de Outubro, as delícias dos melómanos de todo o sul do Tejo. Não posso deixar de aproveitar para nesta edição de Setembro agradecer, uma vez mais, a todos os colaboradores do Cultura.Sul que fazem deste caderno de cultura uma realidade. É pela pena destes esmerados amigos da Cultura que saberemos, mês após mês, cada vez um pouco mais, da Cultura na região e no país. Da literatura, aos espectáculos, do teatro à música, da ciência e tecnologia ao cinema, passando pelo património, pela gestão cultural e pelas bibliotecas, sem esquecer a fotografia e tudo o muito mais que o Cultura.Sul mostra a cada edição aos leitores, nada seria possível sem os colaboradores que apoiam com o seu esforço e esmero esta odisseia chamada Cultura.Sul. Prometemos o mesmo esforço de sempre em dar nota diversificada e alargada da realidade cultural nas suas mais diversas facetas. Queremos manter o regozijo de saber que escrevemos para todos e que temos fiéis seguidores. Nesta senda que é dar a conhecer aos algarvios o muito de Cultura que se faz na região e o muito que há para ver, ler, ouvir e sentir nesta área no Algarve, renovamos os votos de que continuem lado a lado connosco. Afinal é para os leitores e pelos leitores que existimos e trabalhamos. Boa nova saison cultural são os nossos votos.

Ana Lúcia Cruz Gestora de Ciência e Tecnologia do CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

As férias acabaram e um novo ciclo vai começar. O sol e a praia passam a ser apreciados ao fim-de-semana, enquanto os dias da semana representam a azafama de sempre e são passados a trabalhar, planear o dia/semana seguinte, tratar das tarefas domésticas, cuidar dos filhos ou, ainda, a estudar. Eu divido o meu ano em dois períodos marcantes: 1) período de trabalho; e 2) período de férias. O que não significa que tenha preferência por algum, simplesmente faço esta divisão devido ao estilo de vida que adoto em cada um. Independentemente dos períodos em causa, e da forma como lidamos com os mesmos, há algo que nunca nos abandona: a ciência. Este mês, a nossa companheira de uma vida, terá uma atenção especial: a Noite Europeia dos Investigadores 2013. Um dia inteiramente dedicado à ciência, aos cientistas e a quem dela beneficia (todos nós), que terá

como principal palco o Ria Shopping. No ano passado a NEI foi dedicada ao desporto, este ano será subordinada ao tema Futuro 2020. Inevitavelmente, com a presente temática, não consigo parar de focar a minha atenção nas novas tecnologias, na forma como estas estão presentes na nossa vida e como nos

esforçamo-nos para colocar de lado o smart (o que para a maioria se torna uma missão impossível) e focarmo-nos nos colchões e pistolas de água, protetor solar, repelente de mosquitos e uma ventoinha, pois com tanto calor e a ausência de ar condicionado, esta parece-nos a coisa mais smart inventad.r.

tornámos dependentes das mesmas para a realização das atividades do dia-a-dia, estejamos a trabalhar ou de férias. Por exemplo, quando estamos a trabalhar a tendência é para olharmos para os nossos companheiros smart (smartphone, smart tv, etc.). No período de férias,

da até ao momento e a coisa mais smart a fazer. Para além, da aplicabilidade das descobertas científicas, não consigo deixar de observar outro aspeto: o tempo que os nossos cientistas necessitaram para desenvolverem todos estes pequenos dispositivos. O que, para nós,

não passa de uma novidade na prateleira de uma superfície comercial, para eles aquele produto pode ter levado anos a ser investigado, produzido e eventualmente melhorado, até chegar ao mercado. Juntando os dois pontos anteriores à grande iniciativa que se aproxima, e para ajudar a levantar o véu, só resta uma questão a colocar: O que será que os cientistas estão a preparar, neste momento, para transformar as nossas vidas na próxima década? Impressoras 3D?? carros autónomos?? smartwatches?? Que outras “smart coisas” estão a ser desenvolvidas para facilitarem (ainda mais) o nosso dia-a-dia? O que vos posso garantir é que, apesar de algumas serem previsíveis, até porque surgem diariamente nos jornais e revistas de referência, todas elas vão abranger as áreas da saúde, ambiente, transportes, entre outras. Posto isto, e tal como no ano passado, convido-vos mais uma vez a serem cientistas por um dia, no dia 27 de setembro, entre as 10 e as 22 horas, no Ria Shopping, em Olhão, pois a Noite Europeia dos Investigadores Futuro 2020, preparou um dia cheio de surpresas para todos e ninguém vai querer ficar de fora, independentemente da idade, género ou interesses de cada um.

Novos desafios António Pina

Vice-presidente do município de Olhão

Setembro é, para os jovens, o início de um novo ano lectivo. A cada ano lectivo que começa, inicia-se um ciclo cheio de novos desafios. Uma nova oportunidade para vencer, ultrapassar as adversidades e fazer dos obstáculos trampolins para o sucesso.

Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Ana Lúcia Cruz António Pina Luís Campos Paulo Paulo Serra Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve

Juventude, artes e ideias

Muitas vezes ouvimos os jovens dizerem de forma conformada: É mais um ano lectivo, é mais uma obrigação que temos que cumprir. Não! Há que mudar essa mentalidade; é necessário avançar para o futuro que começa nesta data, ano após anos, com a certeza que somos capazes de conquistar os nossos sonhos, as nossas aspirações. Há que olhar à nossa volta e verificar o muito que já conquistámos. Perceber que hoje somos melhores e mais fortes. Somos mais capazes. Estamos preparados para enfrentar os novos desafios que o presente nos oferece. Desafios que são

Ficha Técnica:

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diferentes dos anteriores e por isso obrigam a uma atitude positiva e empreendedora. Os jovens têm que deixar

de olhar para a escola, para o ensino como “uma chatice”. Hoje, cada vez mais, o saber faz falta, torna-nos mais experientes, informados e conscientes da realidade que nos rodeia, bem como nos prepara para termos um futuro melhor. Temos também que deixar de ver o nosso vizinho (colega de carteira) como o nosso adversário. É um parceiro, é um cúmplice que connosco partilha das mesmas angústias e partilhará as nossas alegrias. Unidos poderemos vencer melhor as adversidades. Há que aprender a cooperar e partilhar para vencer os novos desafios.

e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 9.189 exemplares


Cultura.Sul

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Grande ecrã

Setembro, Cinema de Contrastes

Cineclube de Tavira

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com

Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt

A rentrée da actividade do Cineclube de Faro, sendo modesta, é uma retoma de contrastes, mas vibrante e audaciosa nas suas propostas. Prenúncio, aliás, de um final de ano auspicioso no que diz respeito ao Cinema na sua vertente não comercial e mais desafiadora e artística. Após um curto período de pausa para recarregar baterias, o CCF volta às sessões a partir de 17 de Setembro. Após os sucessos que foram a Mostra de Verão nos claustros do Museu Municipal e o ciclo estival dedicado a Tony Gatlif na Esplanada d’Os Artistas (aproveitamos para agradecer mais uma vez a colaboração de todas as entidades envolvidas), em Julho e Agosto, Setembro traz à tela três momentos imperdíveis. Começando pelo final, o CCF alia-se a 26 de Setembro à estreia nacional do filme Brasileiro “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, um filme que chega agora às salas portuguesas, tido como um dos mais belos e poéticos filmes brasileiros da década passada, em que o road-movie, o documentário e a ficção se entrelaçam num objecto ímpar. A 20 de Setembro, mais um episódio da excelente parceria entre o CCF, a Biblioteca Municipal de

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SESSÕES REGULARES Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30 horas 12 SET | EM SEGUNDA MÃO, Catarina Ruivo, Portugal 2012 (110’) M/12 19 SET | THE ICEMAN (UM HOMEM DE FAMÍLIA), Ariel Vromen, E.U.A. 2012 (105’) M/16

A Batalha de Tabatô recebeu uma menção honrosa na Berlinale Faro e a Alliance Française de l’Algarve, com o filme “Dernier Étage, Gauche Gauche”, uma comédia que venceu o prémio Panorama FIPRESCI no Festival de Berlim2010. Para terminar, iniciamos actividade a 17 de Se-

tembro com um autêntico OVNI do cinema Português, “A Batalha de Tabatô”, de João Viana, que saltou para as bocas do mundo (mais desatento) após a menção honrosa na Berlinale em Março deste ano.

26 SET | À PERDRE LA RAISON (OS NOSSOS FILHOS), Joachim Lafosse, Bélgica/Luxemburgo/França/Suíça 2012 (111’) M/16

Espaço AGECAL

Gestão cultural e recursos culturais “Podemos definir Inventário como o levantamento sistemático, atualizado e tendencialmente exaustivo dos bens culturais existentes num determinado território, com vista à respetiva identificação. Inclui os bens classificados e os outros bens materiais – imóveis, móveis, paisagens, solos e depósitos de origem antrópica – aos quais, embora não estando classificados, se atribui igualmente interesse histórico e cultural. Para os gestores culturais estes bens constituem, no seu todo, um recurso insubstituível, e não renovável, de criação de conhecimento, de afirmação de identidade, de educação e de inclusão social. Nesta medida, a sua gestão deve procurar assegurar a prevalência do seu uso público sobre a sua apropriação em prol dos interesses particulares de este ou aquele cidadão. Isto é, os gestores culturais devem fazer prevalecer o seu valor de uso sobre o seu valor de troca. Os bens culturais cujo achado tenha resultado de todas as ações arqueológicas realizadas numa determinada área – prospeções de terreno, escavações, achados fortuitos… –, constituem o chamado património arqueológico. Podemos assim definir Carta Arqueo-

fotos: m.j. neves

/ dryas, 2009

Escavação arqueológica das ruínas da gafaria medieval de Lagos, no âmbito da construção de um parque de estacionamento subterrâneo lógica como a transposição do respetivo inventário para um mapa corográfico. A transposição para um mapa das áreas arqueologicamente sensíveis (onde se evidencia, ou onde, com fundamento, se presume, a existência de bens culturais arqueológicos) que resultam da referida Carta Arqueológica constitui a chamada Carta de Sensibilidade Arqueológica, que, na prática, se traduz

numa graduação das restrições de uso do solo, com uma definição dos correspondentes procedimentos de salvaguarda de caráter preventivo. A proteção dos bens culturais imóveis inventariados – incluindo aqueles que constituem património arqueológico – cuja preservação in situ se justifique deve assentar, desde logo, na sua classificação como bem cultural imóvel, cujo procedimento de submissão ao regime ju-

rídico do património cultural português se encontra estipulado pelo Decreto-Lei n.º 309/2009. Mas, por imperativo legal de proteção do património, definido na Lei de Bases do Património Cultural, Lei n.º 107/2001, atualmente em vigor, a conservação das Áreas de Sensibilidade Arqueológica e das áreas limítrofes traduz uma efetiva proteção legal de todo o património arqueológico – que inclui os bens imóveis, os bens móveis e os solos e depósitos de origem antrópica –, que impõe procedimentos de salvaguarda dos bens arqueológicos, estejam estes classificados ou não. Isto é: impõe regras restritivas do uso do solo. Esta singularidade jurídica coloca aos gestores de bens culturais públicos problemas específicos de natureza diversa dos inerentes aos imóveis classificados e às respetivas zonas de proteção, uma vez que impõe restrições ao uso do solo, não permitindo o descontrolado remeximento do subsolo e visando, assim, assegurar a proteção do património arqueológico cuja preservação in situ possa não se justificar mas cujo interesse público tem de prevalecer sobre os interesses privados de uso da propriedade. No regime jurídico do património cultural português esta prote-

ção de natureza preventiva assenta atualmente em dois princípios básicos: o princípio da conservação pelo registo científico; e o princípio do poluidor-pagador, na sua transposição direta para o regime jurídico do património cultural. O primeiro destes princípios legitima a remoção (isto é, a destruição), desde que controlada por arqueólogos, dos bens culturais não classificados, pelo que o seu rigoroso registo deve ser assegurado com métodos científicos e técnicas internacionalmente aceites e em permanente aperfeiçoamento, que somente os arqueólogos são autorizados a praticar. O segundo destes princípios transfere os custos desse registo científico para os promotores das operações urbanísticas e outras formas de uso com remeximento do subsolo. Contudo, pode incluir mecanismos compensatórios, a estabelecer pelos municípios (por exemplo, no âmbito do Regulamento de Urbanização e Edificação e dos regimes de Taxas e Licenças Municipais), que tenham em conta o volume financeiro do investimento, ou a capacidade económica do promotor. AGECAL - Associação de Gestores Culturais do Algarve


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Cultura.Sul

Aqui há espectáculo

Tempo de palcos interiores de fotografia aquática que sucede à exposição de fotografia de João Bracourt iniciada dia 13. Razões de sobra para não perder a agenda destas três salas de espectáculo da região e para não deixar a Cultura na gaveta, regressados que estamos da época de banhos. As salas de espectáculo do Algarve mantêm, ainda que em tempos de crise, uma luta acesa pela manutenção de um programa recheado e diversificado, muito por obra de pro-

13 e 14 SET | Open Hamlet, por João Miguel Garcia (teatro), 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 7,5 € 24 e 25 SET | Workshop de Dança Contemporânea, 18 horas, duração: 6h, preço: 15 € (10 €, adquirindo bilhete para o espectáculo Azul Infinito) 27 SET | Azul Infinito (dança), 21.30 horas, duração: 0h55, preço: 10 €, 7 € para maiores de 65 anos

Destaques

Ainda estamos debaixo dos efeitos do calor e dos rigores do astro rei, mas a arte anseia por regressar a palcos interiores. Setembro marca este regresso ao conforto das cadeiras ergonómicas, ou a outras quaisquer, um pouco por toda a região, mas decerto dentro de portas e debaixo de tecto. As expressões culturais deste mês que abriu com o primeiro Dia Nacional das Filarmónicas (1 de Setembro) em reconhecimento do esforçado trabalho que as mesmas desenvolvem

Teatro Municipal de Faro Programação: www.teatromunicipaldefaro.pt

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27 SET | Azul Infinito (dança), 21.30 horas, duração: 0h55, preço: 10 €, 7 € para maiores de 65 anos Em Azul Infinito reflete-se a busca da libertação, a procura e o sentimento de harmonia e desarmonia, a angústia e paz e a sensação que o Infinito nos traz enquanto coberto de Azul. A

verticalidade e a horizontalidade são bem delineadas conjugando a técnica de dança contemporânea com o trapézio aéreo. A linguagem de movimento expressa a fluidez, a leveza, o abandono e a resistência, o equilíbrio e o desequilíbrio, a harmonia e a desarmonia, a visceralidade no movimento, e a inércia; a permanência e a marca deste azul em cada indivíduo.

AMO - Auditório Municipal de Olhão Programação: www.cm-olhao.pt/auditorio

Destaque

7 SET | “Mê menine... e o tê pai?” (teatro), 21.30 horas 13 SET | Ana Moura – “Desfado” (música), 21.30 horas De 13 SET a 26 OUT | Diálogos Pétreos, por Leandro Sindoncha (escultura) 21 SET | Xana Toc Toc (teatro infantil), 16 horas 28 SET | Guru, com Rui Unas, Custódia Gallego, Heitor Lourenço e Susana Mendes, 21.30 horas

nos quatro cantos das terras lusas, espraiam-se numa paleta de muitos tons. João Miguel Garcia apresenta Open Hamlet no Teatro Municipal de Faro e de arte de palco se faz também Mê menine... e o tê pai, por terras de Olhão, saído do trabalho da Gorda, bem como Guru ainda na cidade cubista, com Rui Unas e Custódia Gallego aos comandos de um elenco invejável. Por terras do Arade sobe ao palco o Intruso com Marco Horácio. A dança mostra-se em Faro em workshop e com Azul Infinito e em Portimão Hollywood marca o ritmo. Xana Toc Toc anima com teatro os mais miúdos em Olhão, enquanto em Portimão a proposta vai para um workshop

gramadores hábeis, capazes de com o pouco fazerem muito e de manterem vivo o pulsar cultural dos grandes auditórios. O desafio se é feito desta arte e mestria é-o também da aposta cultural que as autarquias de sotavento a barlavento fazem em prol da Cultura. Na magreza imposta pelo fim dos tempos áureos e despesistas de outrora rasgam-se rumos de inovação e inventividade capazes de dar aos algarvios aquilo que realmente merecem. Uma Cultura digna e capaz de garantir a todos os públicos a possibilidade de crescerem com aquilo que os artistas, grandes senhores de toda esta obra, são capazes de lhes entregar sem qualquer reticência, arte. Ricardo Claro

Não há outra voz no fado como a de Ana Moura. Uma voz que se passeia pela tradição livremente, sem deixar de flirtar elegantemente com a música pop, alargando de uma for-

ma muito pessoal o raio de acção da canção de Lisboa. Mas aquilo que a distingue é não apenas um timbre grave e sensual como há poucos – Ana Moura transforma instantaneamente em fado qualquer melodia a que encoste a sua voz. É um rastilho imediato, uma explosão emocional disparada sem contemplações ao coração de quem a ouve.

TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Programação: www.teatromunicipaldeportimao.pt 13 e 14 SET | Manta de Retalhos (teatro), 16 e 21 horas (dia 14, às 16 horas), preço: 2,50 € De 13 SET a 2 NOV | Exoastose – Exposição de fotografia de João Bracourt, de terça a sábado, das 14 às 19 horas, entrada livre 14, 15 e 17 SET | Workshop de Fotografia Aquática, com João Bracourt, preço: 90 € 21 SET | Hollywood, Escola de Danças do Boa Esperança, 21.30 horas 27 SET | Concerto para Dois Pianos e Orquestra, de Bernardo Sassetti, 21.30 horas, preço: 6 €, 3 € para menores de 12 e maiores de 65 anos 28 SET | O Intruso – Marco Horácio, “Sem nada a perder”, 21.30 horas, duração: 1h10, preço: 10 €, 8€ para menores de 12 e maiores de 65 anos.

Destaque

Azul Infinito, dança em Faro

13 SET | Ana Moura – “Desfado” (música), 21.30 horas

28 SET | O Intruso – Marco Horácio (stand-up comedy), 21.30 horas, duração: 1h10 Marco Horácio, actor, apresentador, humorista, criador e intérprete, volta aos palcos para ajudar a contornar a crise que o país atravessa. Se a receita não resultar há sempre a boa disposição que, por momentos, ajuda a esquecer as dificuldades. Olhar a crise de frente, rir na cara da crise e demonstrar as formas mais criativas de tornar o conceito low

cost uma prática corrente no quotidiano dos portugueses é a fórmula que o humorista encontra para, pelo menos, divertir as plateias. Rir a bom rir num espectáculo a não perder, onde além do stand-up, há música, sapateado e outras surpresas que prometem agarrar o público durante uma hora bastante divertida.

28 SET | Dia Zen, com Sílvia Duarte e outros, das 10 às 19 horas, entrada livre sujeita a inscrição prévia.


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Panorâmica

Orquestra do Algarve alarga horizontes como “Clássica do Sul” Nos idos de 2002, tendo como pano de fundo o Festival Internacional de Música do Algarve, estreava-se a orquestra regional, uma ambição dos algarvios e, muito em particular, da massa crítica da região que ganhava assim corpo com a designação de Orquestra do Algarve. Pensada e estruturada para ser uma orquestra clássica, pelo maestro Álvaro Cassuto, a Orquestra do Algarve nasceu de um programa promovido pelo Ministério da Cultura ao qual aderiram autarquias e entidades públicas regionais, fazendo dela um dos raros exemplos de agregação das vontades algarvias em prol da Cultura. Aos fundadores Turismo do Algarve, Universidade do Algarve e Câmaras de Albufeira, Faro, Lagos, Loulé, Portimão e Tavira, juntaram-se, com o decorrer do tempo, os municípios de Alcoutim, Castro Marim, Olhão, Lagoa, São Brás de Alportel, Silves, Vila do Bispo e Vila Real de São António. Ninguém, à data, preveria que a Orquestra do Algarve se fizesse um marco da identidade regional e fosse capaz de levar de forma tão relevante o nome da região algarvia aos palcos mais notáveis. Para tanto, somaram-se às vontades públicas o esforço daqueles que com a sua intervenção aos mais variados níveis determinaram que o sonho tornado realidade se faria consubstanciar primando pela qualidade. Um crescimento natural

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O nome que a Orquestra do Algarve granjeou num percurso de 11 anos, ditou pela sua notoriedade e expressão aquele que é o destino desejado de todas as instituições que vingam de forma peremptória, o crescimento. Não se trata de um crescimento pelo simples facto de o ser, mas sim o decurso natural de quem com mestria tem provas dadas. Esta é a razão pela qual desde o passado dia 1 de Setembro a Orquestra do Algarve se apresenta como Orquestra Clássica do Sul. A partir de 1 de Outubro, com abertura daquele que é o último trimestre da temporada 2012/2013, a Orquestra Clássica do Sul dará então início às suas apresentações em palco. Só os residentes significam mais de milhão e meio de pessoas como público potencial

fotos: d.r.

Não serão já somente os palcos algarvios a casa natural da orquestra, mas sim todos os palcos a sul do Tejo. De Nisa, no distrito de Portalegre, a Sagres e de Setúbal a Vila Real de Santo António, o espaço vital da Orquestra Clássica do Sul passa a ser constituído por uma área territorial de 33.707 quilómetros quadrados, que albergam um público residente potencial de um milhão, 671 mil e 930 pessoas. O público potencial da orquestra, considerados apenas os residentes do seu novo território de implantação, ultrapassa assim o milhão e meio de pessoas, um número extraordinariamente expressivo. Num quadro onde se não vislumbra qualquer possibilidade de politicamente se admitir a criação de novas orquestras regionais, o que determina que apenas as três já existentes (Orquestra das Beiras, Orquestra do Norte e Orquestra Clássica do Sul) se manterão no panorama cultural nacional, a expansão da Orquestra do Algarve para os territórios a sul do Tejo, que ainda não estavam abrangidos verdadeiramente por nenhuma orquestra regional, torna o processo de evolução agora concretizado uma realidade ainda mais natural e necessária. Orquestra responde a uma necessidade das populações e dos territórios “A nova abrangência da orquestra é, assim, uma exigência da Cultura,

Maria Cabral, presidente da OCS, considera o crescimento da orquestra uma resposta às necessidades das populações do Sul do Tejo mais do que somente uma necessidade da instituição”, referiu ao Cultura.Sul, Maria Cabral, presidente da Orquestra Clássica do Sul. “Trata-se

da junção da necessidade das populações terem acesso a actividades culturais na área da música erudita, com as respostas estratégicas que as

Cesário Costa, o maestro titular da Orquestra Clássica do Sul

instituições culturais já existentes no país podem dar”, conclui. “Assim se conjuga um conjunto de factores que determinam que a Orquestra Clássica do Sul se projecte em todo este território cumprindo de forma ainda mais cabal a missão que lhe foi confiada inicialmente apenas para o Algarve”, remata a responsável da instituição. Sem aumento dos custos associados ao desenvolvimento do trabalho da orquestra, para além daqueles que decorrem necessariamente da expansão da sua área de intervenção e que, naturalmente, serão cobertos pelos dividendos de uma actividade mais abrangente e preenchida, a Orquestra Clássica do Sul opera aquilo a que se pode chamar uma verdadeira dupla descentralização da Cultura na área da música erudita. Fruto de uma descentralização inicial nasceu a Orquestra do Algarve e Lisboa deixou de ser o único palco de concertos clássicos de excelência - agora, depois de o Algarve muito ter ganho em qualidade cultural com a orquestra, chega a vez de territórios mais interiores do país e, a seu par, toda a faixa litoral a sul do Tejo terem o privilégio de receber aquela que é já, também, a sua orquestra clássica. Não é o Algarve que perde a sua orquestra, é o sul do país que ganha uma orquestra. Porque a excelência não deve ser privilégio de uns poucos, mas sim ser realidade diária de tantos quanto possível. É isto que retiramos da conversa com Maria Cabral, que faz ponto de honra em “destacar as virtudes de um projecto em prol do verdadeiro crescimento do serviço público prestado pela orquestra”. A batuta de Cesário Costa, maestro titular da Orquestra Clássica do Sul, a mestria dos seus 31 músicos e o empenho de uma pequena equipa que transporta o esforço dos ensaios para os palcos da orquestra, a que se soma uma direcção capaz de garantir sustentabilidade a um projecto fundamental, podem agora ser vistos e reconhecidos por um universo ainda mais alargado de ouvintes. A nossa orquestra é agora ainda mais nossa, porque somos mais a poder chamar-lhe assim, somos mais a deliciar-nos com a excelência dos seus músicos e somos sempre melhores quando somos mais.

“WEEKEND”

“12º FESTIVAL DE FLAMENCO”

Exposição de esculturas de Carlos No da série intitulada “Vila Bidão”: cujas obras procuram chamar a atenção para as precárias condições da vida de muitos milhões de seres humanos

As três formas de ver e sentir o flamenco - o cante, o toque e o baile - fundem-se e tornam-se espectáculo, um espectáculo de vanguarda, fantasia e ilusão flamenca

Até 14 SET | Galeria Artadentro - Faro

12 a 14 SET | 21.30 | Centro Cultural de Lagos


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Cultura.Sul

Letras e Leituras

Salman Rushdie - Apanhem esse escritor! d.r.

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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Salman Rushdie é um nome sobejamente conhecido pois os media cobriram a sua vida durante quase uma década, enquanto o Islão prometia uma recompensa de dois milhões a quem matasse esse escritor arrogante, prepotente, mal-encarado... A primeira obra deste autor britânico, nascido na Índia, foi Os Filhos da Meia-Noite, uma narrativa alegórica sobre o nascimento da Índia, ou seja, os primeiros trinta anos após a independência enquanto colónia inglesa, contestando o poder autocrático aí exercido e reflectindo igualmente sobre as tensões religiosas entre hindus e muçulmanos. Não é acidental que o nascimento do protagonista Saleem coincida com a hora exacta da independência da Índia. É uma leitura marcante, nomeadamente devido ao humor de situação, que serve um certo propósito de parodização e de reescrita da História, o que valeu justamente ter sido premiado com o Booker Prize, em 1981, bem como o melhor Booker a ter sido premiado nos 25 anos de vida do prémio, e, ainda, o Best of the Booker, em 2008. Os Filhos da Meia-Noite só chegou a Portugal em 1989 e foi recentemente adaptado ao cinema, realizado por Deepa Mehta, tendo estreado já em vários países (crê-se que estreará nos ecrãs portugueses em Setembro). Saleem possui o extraordinário dom de comunicar por telepatia com os outros filhos da nação, igualmente dotados de estranhos poderes, o que, entre outros aspectos, leva a classificar esta obra como realismo mágico. Aliás, Salman Rushdie é um autor tão referenciado na crítica literária como o colombiano Gabriel García Márquez. Rushdie alega justamente que para expressar a realidade sócio-política do país em que viveu até à adolescência, sendo que depois foi estudar para a Grã-Bretanha num colégio e possui nacionalidade britânica, o realismo e a sua linguagem são desadequados e obsoletos. Existem episódios absolutamente indeléveis e hilariantes como

O escritor Salman Rushdie o momento em que a mãe de Saleem e outra mulher se digladiam entre si, conforme se aproxima a meia-noite do dia que assinalará justamente a independência da ex-União Indiana, enquanto uma mulher faz força para a criança nascer antes do tempo, para receber o prometido prémio, enquanto a outra tenta aguentar a criança que já está em vias de sair. Outro momento emblemático é o do penico voador, que substitui aqui outros objectos mágicos próprios das narrativas fantásticas das Mil e Uma Noites e que pululavam nas histórias que o autor ouvia em criança da boca do seu pai, e depois de ter sido aparentemente esquecido capítulos depois acaba por aterrar na cabeça da personagem. A obra Os Versículos Satânicos, por outro lado, é uma alegoria que remete para uma reinterpretação do Islão e em que, inclusivamente, o autor reescreveu passagens do Corão. Esta narrativa tem início com o diálogo entre Gibreel e Saladin, em plena queda livre de um avião, personagens que parecem remeter para o anjo Gabriel e Satã. Foi com este livro que a própria realidade bateu de chapa na cara do autor pois valeu-lhe, em 1989, uma condenação à morte, com a fatwa do ayatollah Ruhollah Khomeini, que o levou a esconder-se e a andar sob permanente protecção de uma força policial. A obra Joseph

Anton - Uma memória é justamente um relato extenso e denso em que o autor faz um balanço dos cerca de nove anos em que viveu arredado do mundo e teve de mudar de nome, escolhendo a combinação de dois nomes próprios dentre alguns dos seus escritores favoritos: Joseph Conrad e Anton Tchékov. Talvez por ser forçado a estar distante do próprio filho e do seu círculo de amigos e colegas, que constituíam uma família por opção que substituía a que ele deixou na Índia, ou por ter sido forçado a esconder-se do mundo, adoptando um nome de código, enquanto que pelo mundo inteiro tantos jornalistas, escritores e políticos se referiam a Rushdie como se fosse ele o culpado, o merecedor, o Satã que brincou com o fogo, talvez por ter deixado de se reconhecer a si próprio, este livro de memórias é completamente narrado na terceira pessoa. O livro fornece minuciosa informação em que podemos acompanhar os momentos mais decisivos durante esses nove anos de pesadelo, em que toda a gente se achava no direito de o criticar e acusar, enquanto o próprio Reino Unido, sob governação da Dama de Ferro, confessou não poder fazer nada enquanto não mudasse o regime no Irão, conforme afirmou Margaret Thatcher, enquanto o tocava no braço. Devido a interesses económicos e

políticos (como os acordos comerciais que permitem a compra de petróleo), diversos países receavam incorrer na fúria do Islão por causa deste “autorzeco” que tinha decidido contestar abertamente o Corão e o fundamentalismo islâmico, pois “ele sabia bem o que estava a fazer”, pois, afinal, ninguém deve ter a liberdade de expressão para dizer abertamente o que pensa ou o que acha, nem sequer atrever-se a colocar em causa verdades sagradas. Basta lembrar o caso de José Saramago quando foi similarmente atacado por ter escrito O Evangelho segundo Jesus Cristo. Em contrapartida houve diversos amigos que se mantiveram sempre ao seu lado, por vezes disponibilizando as suas próprias casas, como Ian McEwan,

Angela Carter, Gunter Grass, Nigella Lawson, Harold Pinter, etc. Enquanto isso o Governo britânico evitava a sua questão delicadamente e uma visita à Casa Branca onde foi recebido por Bill Clinton foi delicadamente arrastada e estrategicamente referida mas nunca fotografada, pois isso já seria ir longe de mais. Entretanto, o mundo foi deixando que a liberdade de expressão e o direito à revisão de toda e qualquer “verdade oficial” fosse posta em causa, o que resultou num atentado ao World Trade Center em 2001, com uma prequela em 26 de Fevereiro de 1993. O próprio processo de escrita do autor viu-se seriamente comprometido enquanto via a sua vida a ser controlada e acompanhada permanentemente por polícias e motoristas, “fazendo o Estado gastar consigo rios de dinheiro”, enquanto na verdade ele tinha que ir alugando casas temporárias que tivessem determinadas características ditadas por outrem que poderiam ajudar a manter a sua segurança e só poder comparecer aos eventos para os quais a força policial o autorizava. Todavia o autor acabou por escrever Harun e o Mar de Histórias, um romance infanto-juvenil a pedido do seu filho, Zafar, a que se seguiu anos depois Luka e o Fogo da Vida. O outro grande romance que se seguiu, com este complicado parto, foi O Último Suspiro do Mouro: a saga de uma poderosa família que diz descender de Vasco da Gama, num torvelinho de relações com outras famílias como os Lobos, os Mirandas, os Meneses, brincando com a presença e a colonização portuguesa na Índia. A ironia é absolutamente deliciosa, quando se diz que o encontro do Oriente e do Ocidente (uma temática cara ao autor) começa afinal com um grão de pimenta, de onde se expande uma rocambolesca saga familiar em que as barreiras de judaísmo, cristianismo, islamismo e hinduísmo são dissolvidas em nome do amor.

“TRANSPARÊNCIAS”

“AGARRA QUE É MILIONÁRIO”

João Moraes Rocha, artista autodidacta, natural de Lisboa, privilegia as paisagens, especialmente as marinhas, tendo eleito a aguarela como a sua técnica pictórica

Comédia que conta com a participação de artistas muito conhecidos do grande público, como Tó Zé Martinho, Carlos Areia, Patrícia Candoso, Marta Fernandes, entre outros

Até 30 SET | Galeria Municipal de Albufeira

6 SET | 21.30 | Centro Cultural de Lagos


Cultura.Sul

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Momento

O Verão e as férias Foto de Vítor Correia

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Cultura.Sul

Contos de Verão na Ria Formosa

Alice do Outro Lado do Monitor

Pedro Jubilot

pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

«Afinal, amigos, a vida não é isto». Mas emendou colocando ‘só’ entre parêntesis antes de ‘isto’. E continuou o seu estado no WorldGuestBook (a rede social mais na moda): ‘Vou de férias, está bom tempo, é preciso aproveitar depois de um inverno tão rigoroso. Vou deixar-vos por uns tempos. Passem bem’. Esta frase que publicara era mais uma forma indirecta para ‘Alice’ expressar a já longa espera de notícias a que João Coelho a tinha votado. Assim que entrou, João foi logo abrir as janelas do apartamento para renovar o ar, depois de quinze dias fechado. Recolocou o telescópio na varanda e limpou-lhe o pó ganho no tempo em que estivera ausente. Tinha de esperar pacientemente que o céu escurecesse bem para voltar ao seu passatempo. Uma obsessão, diziam os amigos, que mesmo esses o achavam um bocado estranho. A toda a hora se metiam com ele por não ter namorada e passar tantas horas a olhar o céu, mesmo quando estava com eles: ‘Estás à espera que uma miúda te caía do céu. Elas brilham é no firmamento das redes sociais’. Para não o chatearem sempre com aquilo acabou por aceitar uma rapariga que lhe adicionaram como amiga no WGB, e interagir com essa pessoa virtual. Mas inesperadamente os contactos começaram a ser mais frequentes com a tal de Alice. Falavam quase todos os dias. ‘Ela’ conseguira cativá-lo, com certas coisas que disse que achou interessantes, agradáveis, assuntos tocantes, delicados. Mas ele não quis dar grande importância ao facto e apenas usava a rede nos períodos de pausa junto do telescópio. Só que a dada altura a sua amiga começou a interessar-se pela sua astronomia. Levava o pc para junto da janela e tentava deslindar as constelações através das coordenadas por ele transmitidas. De novo em casa e com tempo para relaxar um pouco, João sentiu de repente a falta dela. Era estranho

ter saudades de alguém que nem sequer conhecia. Com todas as preocupações e a azáfama dos últimos dias, nem tinha ligado o computador. Fê-lo enquanto esperava o momento de voltar ao céu . Viu as mensagens na caixa de entrada, algumas com as mais recentes novidades sobre o fascinante mundo da astronomia, acumuladas naqueles dias em que estivera desligado do mundo global e apenas

conhecer-te». De vez em quando ia olhar a foto dela no pc. Mas com o passar vagaroso dos minutos nas horas, começou a impacientar-se. Não aguentou esperar mais. Inventou uma má disposição para sair mais cedo e pôs-se a caminho da praia. Apanhou alguns semáforos fechados, o trânsito um pouco congestionado junto ao centro comercial. Apesar de ser verão, não

d.r.

Vista aérea da Praia de Faro ligado ao restrito núcleo familiar e do trabalho. Não tivera tempo, oportunidade ou disposição para se ligar à conversa com Alice. Tentava agora contactá-la. Não obteve resposta. Talvez fosse melhor assim, pensou. Mas depois começou a ficar apreensivo. Por qualquer razão que não sabia explicar achou que aquilo se tratava de uma espécie de jogo, preparado por ela, do qual ele não sabia o nome, ou mesmo se tinha um. Enviou-lhe uma mensagem: «Se vives tal como existes, se sentes tal como escreves, se queres tal como dizes… eu preciso parar de te imaginar ou corro o risco de perder o bem da tua realidade…» Passou quase toda a noite de olhos postos no céu e no monitor, mas só na manhã seguinte algo novo surgiu, quando já se encontrava a trabalhar. Ela publicou uma foto sua na praia, legendada: ‘Estou aqui’. Ele respondeu em força de mensagem: «Trabalho no BTP, é na R. de Stº António. Saio às 5h. Não posso esperar mais. Quero

havia muito movimento ao pé do aeroporto. Só faltava passar a ponte. A esta hora eram mais as pessoas que saíam da praia. Iria conseguir chegar a tempo. João enfiou pelo areal já com a gravata desabotoada. Ela, de paréu, com o cabelo desarranjado, sem maquilhagem, pensando se não seria uma loucura o que estava a fazer, entrou na agência. Sentiu o choque térmico devido ao ar condicionado que lhe embargou um pouco a voz ao perguntar pelo sr. João Coelho. Foi informada que ele se sentira mal e saíra. Estava confusa, nem parecia dela, estar envolvida numa situação destas. Foi para casa, tomou um banho, ligou o ipad. Mesmo assim ainda esperou por uma resposta, ou qualquer sinal ou ideia que lhe pudesse trazer algo de concreto, uma explicação qualquer para o que estava a acontecer. Nada. Ficar sozinha faria com que voltasse a pensar em tudo outra vez e se baralhasse mais ainda. Arranjou-se e saiu. Ia

“LIGAÇÕES

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a um bar na ilha ter com os amigos. Depois de ter procurado Alice de uma ponta à outra da praia sentou-se exausto na areia. Ficou por ali a pensar como as coisas não lhe corriam bem, mas também culpando-se por não saber lidar adequadamente com este tipo de situações. Após o sol se pôr, João saía dali decidido a acabar com aquela fantochada, antes que alguém se magoasse. Ao colocar

20 SET a 26 OUT | CECAL - Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé

Exposição mostra como o Projecto TASA liga artesãos, designers, gerações, saberes, materiais, tradição e inovação, arte e uso, origem e tendências, passado, presente e futuro

a chave na ignição reparou pelo espelho retrovisor que estava um carro a tapar-lhe a saída. Apitou, uma vez e depois outra. Como não veio ninguém, saiu do carro para ir à procura do dono. Andando na sua direcção vinha uma mulher que pediu desculpa por não ter ouvido buzinar. Quando ela já ia a entrar no carro, João interpelou-a: Você chama-se Alice?! Virou-se surpreendida. Tu és a Alice, não és? Eu sou o João, Coelho. …Mas tu não estavas doente, não tinhas ido para casa? E tu não eras para estar ali na praia… passei horas a procurar-te. O quê?! Será que estou a perceber? Tinhas vindo para aqui quando eu cheguei ao banco. Ficaram parados, rebobinando o filme dessa tarde, nos olhos um do outro, tentando perceber como se tinham desencontrado na ânsia de se encontrarem, e agora sem querer encontravam-se. Queres tomar um café aqui? Pode-

mos falar melhor… tens tempo? Já percebi que temos muito que falar, vou é …estacionar melhor. Riram-se quando ela contou como tinha entrado e saído do banco, tendo ficado todos os bancários a olhar para ela. E como no dia seguinte iriam olhar para ele com risinhos e boquinhas… acerca da descabelada em roupa de praia… que o procurava. As gargalhadas continuaram quando se soube de como ele andou na praia vestido de fato e gravata, com uma fotocópia dela na mão a perguntar se a tinham visto. Nem imaginas as bocas que ouvi, tipo: perdeste a mulher no casino e não sabes, se calhar ela fugiu com algum tubarão… Quer dizer que ambos tínhamos pressa em procurar o outro… E que tu estavas realmente a fazer bluff, Alice!? Fez-se um silêncio. Ela olhou na direcção do mar. Que foi? disse alguma coisa errada. Não. Até tens razão. É verdade, mas precisava saber se continuavas interessado em conhecer-me. Mas eu posso explicar-te o que me aconteceu, para além de não estar muito à vontade com estas coisas das conversas na net, o meu pai foi operado, e estive a trabalhar em Lisboa… mas no dia em que cheguei, a dado momento percebi que tinha mesmo de conhecer a Alice do outro lado do ecrã. E agora estás deste lado da realidade. Tens um corpo, uma voz, e uns olhos… ainda mais bonitos que na fotografia. E como a Alice do País das Maravilhas tens o cabelo loiro amarrado por uma faixa preta. Sorriu, sentindo-se um pouco envergonhada. Sabes João, tenho amigos que minimamente sabiam quem tu és. Não me entreguei totalmente à aventura com um desconhecido. Ah! Eu não me chamo Alice, sabias?! São as mesmas letras. Mas o meu nome verdadeiro é Célia. Deu uma última olhadela através do telescópio apontado ao céu, pois não conseguia mais suportar o peso das pálpebras a fecharem-se de cansaço. Recebeu uma mensagem no telemóvel: «Assim como uma estrela que já estava há muito tempo no céu quando a conhecemos, também o amor começa antes de sê-lo». Esboçou um sorriso de felicidade. Virou-se para o lado da parede e adormeceu ignorando por uma noite as mil luzinhas piscando lá fora.

“GURU

28 SET | 21.30 | Auditório Municipal de Olhão Divertida comédia, onde Custódia Gallego é Helena Pinto Macedo, a ministra das Finanças à espera de inspiração para entregar o Orçamento de Estado


Cultura.Sul

06.09.2013

Espaço ao Património

Sala de leitura

Arqueologia em Albufeira

Os novos Imaginadores da Palavra

Luís Campos Paulo

Arqueólogo, Câmara Municipal de Albufeira

Albufeira é um concelho conhecido como um dos principais destinos turísticos a nível nacional, reconhecido pela qualidade das suas praias, gastronomia e outras ofertas que proporciona a quem visita. Esta é a face mais visível da “Capital do Turismo”. Mas é igualmente um município que tem sentido um acentuado crescimento de população residente, acompanhado com a melhoria de infraestruturas e equipamentos económicos, sociais e culturais. A Arqueologia em Albufeira, ainda que menos difundida, resulta de um trabalho que se vem a intensificar na última década. Com efeito, este tema pode levar alguns a pensar que podemos terminar o nosso artigo por aqui. De que nada subsistiu ao terramoto de 1755 ou à construção civil que se fez sentir a partir da 2ª metade do século XX. Ou ainda que é um território que apenas tem o Castelo de Paderne erguido durante a ocupação islâmica em elevação junto à ribeira de Quarteira, esquecendo-se a grande riqueza patrimonial nos concelhos de Loulé e Silves, sendo apenas lógico que as sociedades antigas aproveitassem os mesmos recursos naturais do Litoral e do Barrocal independentemente das fronteiras dos municípios. Retrospetiva Na verdade, o património cultural do concelho de Albufeira nunca chamou a atenção da comunidade científica, até à realização das primeiras expedições de Estácio da Veiga, no século XIX, que revelaram o potencial que este território oferece. Infelizmente o seu trabalho não teve a continuidade que urgia manter, surgindo apenas algumas notícias de achados pontuais, como a da necrópole de cistas de Vale de Carro, descoberta na década de quarenta, em Olhos de Água. Figura incontornável é a do Padre Semedo Azevedo, arqueólogo e pároco de Albufeira, que realizou diversas escavações nos concelhos vizinhos, e várias descobertas neste município, das quais se salienta a placa apotropaica exposta no Museu Municipal de Arqueologia, importante legado do património islâmico nacional e que foi encontrada durante a construção do Hotel Sol e Mar. Foi apenas a partir da década de oitenta do século XX que se começaram a esboçar os primeiros inventários de sítios arqueológicos de uma forma sistemática, bem como, as primeiras escavações arqueológicas no Castelo de Paderne, hisn rural em taipa militar nos

séculos XII-XIII e que se manteve habitado até ao século XVI. Em contrapartida foi apenas no ano de 2000 que se efetuaram as primeiras escavações na área urbana de Albufeira, identificando parte de dois silos do período medieval islâmico, contendo vasto espólio arqueológico que testemunha o quotidiano daquela população. Descobrir, estudar, salvaguardar A afirmação das competências das autarquias locais na valorização e salvaguarda do património cultural nos territórios que administram, levou à criação

tre o casario e que se pensava totalmente desaparecido. Também a antiga igreja de Santa Maria, o primeiro templo medieval cristão de Albufeira, destruído com o terramoto de 1755, foi redescoberta em escavações arqueológicas ainda em curso, mostrando a grande dimensão do outrora edifício de culto, bem como, importante conjunto de espólio arqueológico, salientando-se os diversos azulejos policromos, das oficinas de Lisboa ou do Porto, da segunda metade do século XVII que decoravam o seu interior e de onde provêm várias pedras esculpidas do século XVI, sendo a mais impressiod.r.

Escavações arqueológicas no Sítio de Santa Eulália (2013) do Gabinete Municipal de Arqueologia em 2004, com a missão de proceder à investigação, proteção e fiscalização do património arqueológico concelhio. No âmbito da sua missão salienta-se a atualização da Carta Arqueológica, que já permitiu localizar e georreferenciar mais de 150 sítios, acrescentando novos testemunhos de interesse histórico e patrimonial aos 81 conhecidos em 2003 e aos 18 em 1992. É evidente a relevância deste projeto para a gestão do património, mas também para o conhecimento do povoamento, nomeadamente de época muçulmana de Paderne, ou ainda, da rede viária medieval com a identificação das diversas pontes e caminhos antigos, sendo um dos melhores conservados o do Vale de Santa Maria que ligava Albufeira a Alfontes da Guia. É permanente o trabalho de salvaguarda em parceria com outros serviços municipais de obras públicas e privadas, reabilitação, planeamento e ordenamento do território, permitindo a realização de intervenções arqueológicas que, como resultado, vem aumentando o conhecimento histórico, revelando o rico património ainda existente e contribuindo para a compreensão da evolução urbana, testemunhados pelos vestígios de casas das épocas medieval e moderna encontradas no Centro Antigo ou na Baixa de Albufeira. São diversos os projetos e descobertas já realizadas pela equipa municipal, onde se destaca a identificação de parte da muralha medieval da cidade de Albufeira, junto à antiga Porta de Santana, assim como recentemente temos vindo a encontrar outros troços daquele muro de defesa da cidade escondidos por en-

nante o capitel com representações de animais exóticos, numa clara alusão aos descobrimentos portugueses e à navegação aos “quatro cantos do mundo”. Santa Eulália – da fábrica à ermida No topo de uma arriba na praia de Santa Eulália encontramo-nos a realizar escavações arqueológicas dos vestígios de uma antiga fábrica de salga de peixe do período romano, que já havíamos identificado em 2004, reconhecendo-se até ao momento cerca de seis tanques, colocados em torno de um pavimento central e de uma calçada de acesso ao complexo. Este conjunto inédito é um dos mais bem conservados do género e destaca-se pela sua localização, uma vez que os seus congéneres dispõem-se junto ao areal. Mas a relevância deste sítio centra-se na dimensão da fábrica de molhos e pastas produzidos a partir da fermentação do peixe em salmoura dentro das cetariae, aquecidos pelo sol e, posteriormente, transportados em ânforas pelas galés que certamente ancoravam na baía junto à praia e que partiam em direção do Mediterrâneo. Naquele mesmo local, a tradição oral refere a existência de ermida do século XVI, que ainda não nos foi possível encontrar. Mas são vários os testemunhos que atestam a sua existência, como os artefactos e sepulturas, algumas sobrepondo os muros e pavimentos romanos. Este breve panorama demonstra como a realidade patrimonial de Albufeira está em transformação. Sabemos que ainda muito está por descobrir. Mas isso é que torna mais desafiante estudar a Arqueologia de Albufeira.

Paulo Pires

Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

Ao longo dos últimos anos vários autores têm-se afirmado no panorama literário português pela sua originalidade, versatilidade, criatividade e actualidade. A título de sugestões de leitura, deixo aqui três exemplos ilustrativos ligados à ficção. “Ler é preciso para ter lucidez” – diz-nos Gonçalo M. Tavares, que tem vindo a privilegiar em várias obras a exploração dos sótãos/caves mais escuros da condição humana, como o medo, a solidão, a violência e o mal, mas também os “gestos surpreendentemente bons”. GMT tem apostado também na microficção, em livros como Short Movies, Canções Mexicanas e, mais recentemente, Animalescos. É, aliás, neste registo mais minimal que sugiro a sua série de micronarrativas “O Bairro” (com 10 vols. editados entre 2002 e 2010), em que o intenso diálogo com a filosofia, os exercícios lógicos e a exploração dos paradoxos, e a criação de universos lúdicos, engenhosos, inventivos e humorados inserem-se numa lógica de investigação dos limites do mundo e da linguagem, de modo a pôr a nu as limitações das nossas formas convencionais de olhar para o mundo, tanta vezes baseadas numa redutora e superficial visão binária (branco/preto). Rui Cardoso Martins é o segundo destaque, com a obra Deixem passar o homem invisível (2009). Num cenário apocalíptico, um invisual – encarado aqui na sua dimensão humana e não como metáfora ou alegoria – e uma criança caem num buraco em Lisboa e a sua incursão iniciática pelas entranhas da terra aprofunda uma relação de cumplicidade e de partilha que mostra o quão salvadores as palavras, as histórias e os livros podem ser quando os atravessamos por dentro. Muitas vezes, é preciso descer ao inferno, quer para desnudarmos as nossas fragilidades individuais e colectivas, quer para aprofundarmos os corredores da nossa interioridade enquanto seres humanos. Uma escrita em que se funde passado e presente, numa visão estratigráfica da cidade das sete colinas, que recupera – na senda de autores como Chatwin – o tópico do poder curativo da caminhada e, também, da urgência de encontrar uma via de sobrevivência esperançosa no meio da incompetência institucional e da indiferença/incom-

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preensão revelados por um certo colectivo social, em que a realidade continuamente conspira contra o indivíduo e o coloca em eminente perigo (como, aliás, nos relembra/adverte, desde logo, uma das epígrafes do livro). A reflexão sobre o papel de Deus, a fé, os milagres e outras preocupações metafísicas, bem como acerca do livre-arbítrio humano e das receitas infalíveis, percorrem igualmente o texto, não escapando à pena crítica do autor, para quem Deus só pode ser uma má pessoa, visto nos colocar perante a eminência do milagre e depois o retirar. Uma obra que também “abala” e reformula claramente o nosso modo de olhar, escutar e de deambular por Lisboa… Fecho esta lista com Valter Hugo Mãe, sugerindo o romance o apocalipse dos trabalhadores (2008), uma reflexão sobre os caminhos, sempre tão relativos, da felicidade e do amor, em que a procura de um paraíso terreal por parte de várias personagens principais (maria da graça, figura central, sonha literalmente em morrer de amor) se torna o objectivo primeiro das suas vidas, pontuada por uma esperança difícil, pela precariedade e pelos limites tantas vezes subjectivos do engenho e vontade humanos. Duas mulheres-a-dias protagonizam a acção, higienizando o real e, assim, resolvendo os problemas e limpando as sujidades – à imagem de um deus (mas, assim também, por contraponto a uma divindade aparentemente indiferente e arredada da realidade dos homens) – que a sociedade vai acumulando. Nas entrelinhas desta visão do mundo reside um inequívoco enternecimento perante, por um lado, a hercúlea capacidade de sofrimento e de resistência humana, e, por outro, a manutenção da dignidade humana (não obstante todas as vicissitudes quotidianas) não só do elemento feminino como de todos aqueles que se situam na frágil e vulnerável base da pirâmide social: a anónima classe trabalhadora. Paralelamente, o livro aborda o tema da imigração numa perspectiva de humanização da visão do Outro, desconstruindo assim uma certa pequena xenofobia que a sociedade vai alimentando face aos estrangeiros, nomeadamente dos países de Leste, fruto de uma manifesta incapacidade de compreensão dos seus antecedentes, motivações, preocupações, dilemas e sonhos. Numa escrita acelerada, que precipita a urgência de uma história feita de minúsculas, de um notório fulgor poético e de uma dimensão humorística ausente dos seus romances anteriores, a morte assume-se como derradeira oportunidade de alcançar a felicidade… uma morte plena de maturidade, sabedoria e calma rente à felicidade, numa clara indiferença face ao juízo final e à existência ou não de Deus.


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Cultura.Sul

Na senda da Cultura

Farcume mostra curtas em Faro e promete continuar a crescer As iniciativas de exibição cinematográfica nos meses de Verão sob a forma de mostras de cinema ou festivais, ao ar-livre e não só, atraem cada vez mais aficionados da sétima arte, bem como alguns residentes e turistas mais interessados em diversificar as actividades com que ocupam o tempo livre durante as férias. Assim se posiciona o Farcume – Festival de Curtas-Metragens de Faro que, na passada semana, teve a sua terceira edição, num certame cada vez mais focado na criação de público para esta forma de cinema. Pela tela do Farcume passaram, ao longo de quatro dias, mais de cem curtas-metragens nacionais e internacionais. Entre os dias 28 e 31 de Agosto, na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro (EHTA), estiveram a concurso 108 curtas, na sua maioria portuguesas, mas com um grande incremento de filmes brasileiros, aos quais se juntaram realizadores provenientes de países como Espanha, Canadá, Estados Unidos, Argentina ou Alemanha. Com organização “única e exclusiva” da Faro 1540, associação de defesa e promoção do património ambiental e patrimonial de Faro, o Farcume mudou, este ano, o formato do concurso e alargou por mais um dia o festival, dada a “qualidade de curtas apresentadas e que não mereciam ficar de fora”, sublinhou ao POSTAL Bruno Lage, presidente da associação e director do festival. No que se refere ao evento deste ano,

ÔÔ Ficção: fotos: d.r.

1.º - (ex aequo) Bué Sabi Patrícia Delgado O Cheiro das Velas Adriana Martins da Silva 2.º - Dios por el Cuello José Trigueiros 3.º - Poesia de 2.ª Categoria Luís Santo Vaz MH* - A Viuvez da Carpideira Anderson Legal/Bruno Little MH - Noite Gélida em Castelo Branco Luís Diogo MH - Rafael e Maria Ricardo Machado

ÔÔ Animação:

Mais de mil pessoas estiveram presentes na terceira edição do Farcume o responsável mostra-se muito satisfeito com os resultados alcançados. “Este ano quase dobrámos o número de espectadores e durante os quatro dias foram quase mil pessoas que assistiram ao festival”. Mas ao balanço positivo com que Bruno Lage se congratula acresce também o maior número de realizadores presentes, “inclusive do Brasil, que começam a fazer do Farcume um ponto de encontro cada vez mais internacional nesta forma de arte”. “A qualidade das curtas apresentadas, o espaço fantástico de um edifício com 500 anos de história e a interacção entre realizadores e público são mais-valias

inequívocas do festival”, refere o director, que destaca a presença de “muitos jovens, com idades inferiores a 30 anos”, que, segundo Bruno Lage, é uma prova de “existir uma nova geração atenta e que aprecia eventos culturais”. As curtas premiadas Das 164 curtas-metragens enviadas foram seleccionadas 108 que estiveram a concurso em quatro categorias: ficção, animação, documentário e videoclip. No final os vencedores foram, na categoria de ficção e em ex aequo, “Bué Sabi”, de Patrícia Delgado e “O Cheiro

A vertente ambiental da mostra é um evento carbono zero “PINTURA DE SÓNIA REIS”

Agendar

Classificação Farcume 2013:

9 SET a 4 OUT | Antigos Paços do Concelho de Lagos

Sónia Reis nasceu em Lagos em 1977. Desde sempre manifestou interesse pelo mundo das artes, nas áreas do desenho, ilustração, pintura sobre tela, pintura mural, colagem e decoração

das Velas”, realizado por Adriana Martins da Silva. Na categoria de animação o primeiro lugar foi para a curta-metragem brasileira “ED”, de Gabriel Garcia; e no género documental, o primeiro lugar foi entregue a Luís Moya, com “Mia Mia Sudan Taman Taman”. Na categoria de videoclip, a curta premiada foi “João Lum – Chama de Mil Cores”, de Sonat Duyar. Farcume alarga horizontes Como tem acontecido, de edição para edição, o Farcume tem ganho o seu espaço de referência no mundo das curtas-metragens a nível nacional, mas também a nível internacional como prova a crescente procura de realizadores de outras latitudes de se mostrarem no festival farense. A edição de 2014 está, portanto, assegurada, garantia dada ao POSTAL por Bruno Lage. O director do festival vai mais longe e anuncia, desde já, a clara intenção de alargar o festival a outras cidades algarvias e até além-fronteiras, onde está a ser estudada a “real hipótese de estender o festival ao Brasil em Fevereiro ou Março do próximo ano”. Ainda este ano há também a intenção de realizar o certame em mais duas cidades da região, estando Tavira e Portimão na linha da frente para a concretização do projecto. Pedro Ruas/Ricardo Claro

1.º - ED Gabriel Garcia 2.º - Forbidden Room Ricardo Almeida/Emanuel Nevado 3.º - Luminaris Juan Pablo Zaramella MH - A Ria, a Água, o Homem Matos Barbosa MH - Gata Má Eva Mendes/Joana de Rosa/Sara Augusto

ÔÔ Documentário: 1.º - Mia Mia Sudan Taman Taman Luís Moya 2.º - Aldeia dos Tísicos Hugo Dinis Neves 3.º - Areia Humberto Kzure-Cerquera MH - Brincadeiras dos nossos avós Flávio Farias MH - Crooner Vieira - A potência da voz e o romantismo nada têm a ver com a idade Catarina Neves MH - Faro do Comboio ao Avião Lena Campelo/Fábio Léria/Carla Santos/José Cabecinha

ÔÔ Videoclip: 1.º - João Lum – Chama de mil cores

Sonat Duyar 2.º - Indie Nice Weather for Ducks – Back to the Future

Bruno Carnide/Cláudio Cigarro 3.º - Orblua – Aviãozinho Militar

Carlos Norton MH - Tribal Baroque – Gipsi Dance

Nuno Sá Pessoa MH - Vol 2 – Sai e Vem

Joel Duarte

* Menção Honrosa

“ARTE COM LATA”

Até 29 SET | Museu de Portimão

Exposição composta por uma série de imagens criadas pelo artista holandês Eric de Bruijn, com base nas antigas ilustrações litográficas coloridas das latas de conserva


06.09.2013  11

Cultura.Sul

Da minha biblioteca

Urbano Tavares Rodrigues: Eterno, não efémero Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Tinha programado para Dezembro, mês em que Urbano Tavares Rodrigues faria 90 anos, um texto dedicado a este escritor, mas o seu recente falecimento, no passado dia 9 de agosto, levou-me a adiantá-lo, em jeito de homenagem póstuma. Urbano Tavares Rodrigues é autor de cerca de meia centena de livros de ficção (romances, novelas e contos) e de outro tanto de ensaística, patenteando as duas atividades em que mais se evidenciou: a escrita e a vida académica, como professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (onde só pôde lecionar após o 25 de abril), tendo muitas das suas obras sido premiadas. Portugal, anos 60 – o «amanhã» é para todos. Urbano Tavares Rodrigues foi um escritor corajoso, múltiplas vezes preso, que acabou por ter de sair deste seu país, devido à ditadura, e que revela as suas inquietações sociais na sua obra ficcional. Escolhi falar da novela «Imitação da Felicidade», de 1966 (que dá o nome ao volume, do qual fazem ainda parte outros pequenos contos), para exemplificar como exprimia as suas preocupações. A história acompanha duas francesas em três contextos diversos, cada um narrado por uma terceira personagem que com elas interage durante a sua estada, estendida por três meses (que dão o nome aos capítulos) no nosso país. A linguagem de cada um dos narradores adequa-se à sua classe social (um taxista, uma

datilógrafa e um «pobre rico, ou rico pobre», como o próprio se define), mas todos coincidem na crítica à situação em que Portugal se encontrava, com a Guerra Colonial a levar os jovens e com o povo a viver com salários de miséria, sentindo-se a necessidade de uma mudança (que só se daria daí a oito anos). «Maio» passa-se no Algarve, na zona de Portimão. O narrador é Bernardo, um chofer dono do seu próprio carro de praça (alguns de nós ainda se lembram de serem assim chamados os taxistas e os táxis), que conduz as estrangeiras para todo o lado, dando-nos uma ideia do contraste entre a população mais simples e humilde (engraxadores, vendedores de peixe, mendigos) e as duas mulheres que dizem querer conhecer a realidade portuguesa e se insurgem contra a atitude passiva dos portugueses, sem, no entanto, mudarem alguma coisa: «Todos dizem o mesmo, fartinho estou eu de lhes ouvir a esta cantilena. Mas quem é que faz alguma coisa por nós?! Admiram-se, criticam e afirmam que estão inteiramente do nosso lado, mas vá de comerem ricos bifes e beberem o nosso bom vinho» (p.28). O 2º capítulo, «Junho», em que a miséria das pessoas e a Guerra Colonial são os temas mais prementes (sob um pano de fundo de uma jóia roubada às francesas, pelo desespero de uma criada de quarto), é narrado por uma sobrinha de um rico capitão. No 3º, «Julho», um aristocrata falido vende-se a um casamento, porque não quer perder regalias. Com excertos como os que se seguem (algumas partes, infelizmente, ainda atuais), não admira que o livro, que ganhou o Prémio da Imprensa Cultural, tivesse sido apreendido pela censura: «É bem verdade que os carrascos do povo, destas criaturas tidas pouco mais ou me-

fotos: d.r.

Urbano Tavares Rodrigues nos como vis, entre nós, são os intermediários, como a D. Almerinda. Os carrascos diretos. Porque o meu rico tio capitão, tão boa pessoa, tenho de o reconhecer, está por de-

Se somos todos irmãos em Deus, no seu Deus, que o sejamos também na terra, irmãos nos mesmos direitos e não só alguns de nós nas mesmas escravidões. O que nos faz falta, mãe, não é a resignação: é a revolta» (p.59). «País das rosas de Abril, estrumeira da Europa rica… Quando é que nasce «amanhã»? Até a mim me acontece pensar nisso. Não sei se gostarei de «amanhã», mas é urgente que desponte, para todos nós, outro dia, para os que o merecem, para os que o não merecem, para os que o desejam, para os que o temem, para os que o detestam. Isto assim, este vómito de angústia, é que não pode continuar» (p.96). O efémero amor

trás» (p.55). «Não, mãe (…), não me venha com a resignação: é ela que tem a culpa de tudo o que nos acontece. Porque, afinal, somos ou não somos todos seres humanos com direito à

“METÁFORA DAS FORMAS”

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vida, quero eu dizer, com direito a escolhermos a nossa vida? Quando a mãe, por exemplo, que fala constantemente em resignação, vive apenas a vida que lhe deram por castigo. E

Até 30 SET | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira

Aldamir Soares apresenta peças a três dimensões, elaboradas a partir de diversos materiais reciclados, como o ferro, madeira, pedra e alumínio

eu, que teria gostado de ser médica, ou enfermeira, e sou modista? Eu, que aturo todo o dia senhoras idosas e tenho de lhes fazer boa cara e de lhes gramar as más-criações para não perder a freguesia!

O tema do amor é recorrente na obra de Urbano Tavares Rodrigues. Tanto o amor como o sexo e as suas variantes: sexo sem amor e amor sem sexo. E com o amor vem, muitas vezes, a morte e a efemeridade. Por exemplo, em Filipa Nesse Dia (1988), o amor é des-

truição, mas também aqui as classes sociais surgem como determinantes do tipo de relacionamento e até de sentimentos possíveis: «Mas estarei eu verdadeiramente apaixonado? Não serei, afinal, como tantos da minha geração, do meu meio social, incapaz de paixão?» (p.75). Hélio, como muito bem o «vê» um velho cego com quem se cruza, não consegue encontrar, literalmente e metaforicamente, o caminho que o leva a casa do pai e ao encontro do amor. Paralela à demanda do herói, temos a crítica ao que, depois do 25 de abril de 74, deveria ter mudado, mas não mudou. Dizem os trabalhadores de um latifúndio alentejano: «Estes cabrões exploram-nos sem dó nem piedade. Para eles somos animais, ou nem isso, que eles tratam de outra maneira os animais de estimação. Como as máquinas é que nós somos, dessas que nem vale a pena consertar, das que se atiram fora em não prestando» (p.99). Urbano Tavares Rodrigues consegue, com muita elegância, alternar a linguagem de diferentes narradores e personagens, de um modo tão límpido, que parece que ora estamos a ouvir a rudeza das vozes revoltadas dos trabalhadores do campo, explorados sem pejo, ora nos surpreendemos com a delicadeza da voz da francesa Brigitte, ora nos condoemos com a fragilidade de doentes e moribundos e coramos com a excitação dos amantes. Inspirando-me no nome de um seu romance, O Eterno Efémero (2005), repito o título deste artigo: Urbano Tavares Rodrigues, eterno, não efémero.

Edições citadas: Imitação da Felicidade, Publicações Europa-América, 1966 (3ª edição: 1988). Filipa Nesse Dia, Publicações Europa-América, 1988.

“ESPECTÁCULO COM SEU JORGE”

11 OUT | 22.00 | Portimão Arena

Para além de interpretar temas do novo disco, intitulado “Músicas para Churrasco nº 2” , o cantor e compositor promete incluir no alinhamento do concerto canções bem conhecidas


12 06.09.2013

Cultura.Sul

A Direção Regional de Cultura do Algarve: um parceiro (in)visível para quem faz cultura Uma das atribuições legalmente cometidas à Direção Regional de Cultura do Algarve, pelo Decreto-Lei n.º 114/2012, de 25 de maio, é apoiar iniciativas culturais locais ou regionais, de caráter não profissional, que, pela sua natureza, correspondam a necessidades ou aptidões específicas da região. A isso acresce, ainda, as atribuições de promover a sensibilização e a divulgação de boas práticas para a defesa e valorização do património cultural, e articular-se com outras entidades, com a finalidade de incentivar formas de cooperação integrada, mediante protocolos ou contratos-programa. Nesta medida, tem a Direção Regional de Cultura do Algarve procurado otimizar os recursos disponíveis, através do programa de Apoio à Ação Cultural e das parcerias de promoção cultural e de dinamização dos monumentos, aplicando fundos provenientes de receitas próprias, essencialmente receitas de ingresso, lojas e concessão

de espaços dos oito monumentos históricos que, no Algarve, lhe estão afetos. Nos últimos anos foram realizados diversos eventos que tiveram como fio condutor criar ligações entre património e contemporaneidade, assim como proporcionar uma maior fruição cultural e criar hábitos culturais na região, conseguindo chegar a um universo cada vez maior de pessoas. De entre as iniciativas de promoção cultural que resultam de parcerias entre a Direção Regional de Cultura do Algarve e outras entidades que, na região, prosseguem objetivos afins, podemos destacar a realização de exposições temporárias nos monumentos afetos, quer de tema histórico (na Fortaleza de Sagres), quer de arte contemporânea (na Casa Rural de Milreu, Estoi); o ciclo Filarmónicas nos Monumentos (uma parceria anual de divulgação musical com a Associação Regional de Filarmónicas do Algarve, de sensibilização para a

importância do trabalho das Associações Filarmónicas na afirmação da identidade cultural da região, e a promoção e divulgação do património histórico através de um roteiro de atuações nos monumentos); os Encontros de Teatro Amador, reunindo os grupos de teatro amador do Algarve em torno da reflexão e debate; os Algarve Design Meetings, promovidos em parceria com o Departamento de Comunicação, Artes e Design, da Universidade do Algarve, um espaço que coloca sob análise e reflexão a temática do design de comunicação na região; os concursos de leitura «Ler Com...», realizados anualmente na Fortaleza de Sagres em parceria com a Direção Regional de Educação e as Escolas da região para sensibilização e promoção da leitura e da língua portuguesa junto das crianças do 1.º ciclo; o projeto «Lugares Mágicos», em parceria com o Atelier Educativo e a participação de várias instituições IPSS, com três tipos de oficinas edu-

d.r.

cativas, barro/cerâmica; performance/teatro e fotografia; os ciclos «Música nos Monumentos», uma parceria com a Orquestra do Algarve para a realização de concertos de música de câmara em monumentos da região; ou o projeto «Palato», uma parceria com a Xerém onde, usando as tecnologias de informação e comunicação e cozinhando na paisagem, se cruzam arte, gas-

tronomia e património. Este fio condutor – criar hábitos culturais e proporcionar a fusão entre identidade/território/património e criação/ reflexão contemporânea – tem permitido, num trabalho assente no tecido cultural regional e nas pessoas que estão no terreno, de forma (quase in)visível a continuar projetos por toda a região e, ao mesmo tempo, garantir

que se continua a fazer cultura no Algarve. Conscientes de que há muito caminho a percorrer, e muito trabalho a fazer, continuaremos a apostar nas parcerias para fazer mais e na capacidade de inovar para chegar a mais pessoas, garantindo que a cultura é um factor de desenvolvimento e de diferenciação. Já no domínio do apoio a iniciativas culturais, de caráter não profissional, através do programa de Apoio à Ação Cultural, foi, ao longo dos últimos dois anos, apoiada financeiramente quase centena e meia de projetos na região, nomeadamente nas áreas das artes visuais, cinema/vídeo, dança, música, teatro e edição (particularmente ensaio, narrativa e poesia), abrangendo mais de cento e vinte agentes culturais da região. Continuaremos a nossa missão de criar novas oportunidades e caminhos para quem todos os dias faz cultura na região. Direção Regional de Cultura do Algarve PUB


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