Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO
DEZEMBRO 2013 | n.º 64 8.280 EXEMPLARES
www.issuu.com/postaldoalgarve ricardo claro
Grande ecrã: d.r.
Natal recheado em Tavira
p. 3
Espaço AGECAL: d.r.
Ondjaki: Prémio José Saramago à conversa com o Cultura.Sul p. 4 e 5
Cultura em meio rural Espaço ALFA:
p. 3
d.r.
Cor e criatividade em mostra fotográfica p. 7 Na senda da cultura d.r.
Orquestra Clássica do Sul: a música como palco da responsabilidade social p. 10
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06.12.2013
Cultura.Sul
Editorial
Espaço CRIA
Cai o pano sobre 2013
Novo quadro, novas oportunidades
Ricardo Claro
Editor ricardoc.postal@gmail.com
Fechamos o ano de 2013 e prometemos regressar em 2014, com a mesma vontade de sempre de dar a conhecer aos algarvios o que por cá se faz em termos culturais, o muito e o muito bom que por cá se faz e, ainda, o muito que cada artista no seu campo, cada gestor cultural, cada musólogo, cada actor da realidade cultural dá de si ao Algarve e aos algarvios em cada momento. Somos neste momento em que cai o pano sobre o palco de 2013, apenas isso, um veículo que dá voz à cultura no Algarve. Somos isso mesmo e não queremos ser mais porque sê-lo é já de si relevante o quanto baste. Este que é o único caderno cultural em formato jornal na região, não quer o relevo das luzes da ribalta, quer ser antes o foco que dá luz a quem verdadeiramente a merece, os ‘fazedores’ de cultura. Não somos nunca o palco que desajamos ser, somos, não obstante, sempre ferverosos perseguidores do sermos melhores naquilo que fazemos a cada edição e contamos com todos e muito em particular com quem dá, mês após mês, a sua colaboração a estas páginas para atingirmos esse objectivo. É para os colaboradores que fazem do Cultura.Sul uma realidade, é para as mulheres e homens da cultura e para os leitores que vão nesta última edição deste ano os nossos agradecimentos. Fazemos o Cultura.Sul por cada leitor que percorre as nossas páginas e é por ele que o contiunaremos a fazer em 2014. Neste virar de página importa apenas mais um desejo que estendemos a todos. Tenham um óptimo 2014 pessoal e cultural. Em Janeiro regressamos para dar início a mais um ano de Cultura.Sul porque continuamos a creditar que vale a pena fazer cada uma destas páginas a pensar em si que nos lê.
Hugo Barros Coordenador do CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da Universidade do Algarve
O passo mais difícil é o primeiro! Consumidos pelo fluxo de informação dos jornais, televisão, ou que incessantemente circula nas redes sociais, não podemos deixar de sentir um misto de euforia e desespero. Muito embora os recentes sucessos da seleção nacional ou os anunciados sinais de recuperação económica, a realidade continua a refletir uma elevada taxa de desemprego, particularmente elevada entre os jovens, a diminuição do poder de compra das famílias, e o desafio de inúmeras empresas em ultrapassarem a barreira nacional e assegurarem a sua competitividade no exterior. Mas acredito que o copo está “meio cheio”. E acredito que apenas pode subir. Impulsionadas pelos apoios financeiros disponibilizados pelo atual Quadro Comunitário, as empresas têm vindo a concretizar esforços no senti-
do de uma maior competitividade, apostando em inovação e conhecimento como forma de captação de novos mercados, de otimização de processos, ou de desenvolvimento de novos produtos. Estes apoios têm permitido capacitar um conjunto de novas empresas inovadoras, constituídas e geridas por re-
Ficha Técnica:
logia (entre outros), mas redescobrindo o potencial dos setores tradicionais, como o Mar ou a Agricultura. Estas empresas nascem ou reinventam-se a partir de um ambiente difícil, conscientes dos problemas e dos riscos, mas seguros das suas competências e certos do seu caminho. Consciente das dificuldades d.r.
cursos humanos qualificados, e orientadas na sua génese para mercados internacionais. Igualmente relevante é a constatação das áreas de incidência destes novos projetos, não apenas atuando nas áreas da computação ou biotecno-
de comunicação ainda existentes, e do contínuo trabalho de aproximação necessário, é imperativo salientar neste processo de dinamização empresarial o papel das Universidades, não apenas enquanto entidade de formação de quadros
qualificados, mas também (e essencialmente) como centro de geração e transferência de conhecimento. Esta interação Universidade-Empresa tem permitido consolidar a transferência de conhecimento científico entre as empresas e os centros de conhecimento, traduzindo um conjunto de benefícios mútuos entre os agentes públicos e privados envolvidos, necessários à competitividade das empresas, das regiões e do País. Dando continuidade a esta realidade, a política de “Especialização Inteligente” proposta às regiões, e consolidada no programa de apoio financeiro denominado “Horizonte 2020”, vem reforçar a necessidade de relacionamento entre as entidades detentoras e geradoras de conhecimento científico e os agentes económicos no mercado, fomentando a geração de mais-valias económicas através da diferenciação. Reforço que não é tarefa fácil, para nenhum dos intervenientes. No entanto, a resignação não é opção, como têm demostrado as empresas, as Universidades e a própria comunidade civil, que combatem diariamente a adversidade, adotam novas estratégias de crescimento e consolidam mercados internacionais. Termino portanto como comecei… entre um misto de euforia e desespero… Consciente das dificuldades e dos desafios, mas seguro do potencial da região e das competências das instituições.
Juventude, artes e ideias
Para o ano é que é! Vanessa Caravela Aprecio imenso o entusiasmo de algumas pessoas, nesta época do ano. Uma certa espécie de parvos alegres com esperança no novo ano que aí vem. Como se o simples facto do ano mudar, mudasse alguma coisa. À falta de capacidade de resolver os problemas, o melhor é esquecer. Arrumam tudo no passado e fazem promessas
para o futuro. Tomam decisões épicas! As mesmas do ano anterior. Esquecendo que os mesmos caminhos levam, inevitavelmente, aos mesmos sítios. E a meio do ano já começam a pensar novamente no próximo. Para o ano é que é! É a esperança do recomeço de quem não consegue dar a volta ao que não tem volta a dar. De quem perante as adversidades desiste, volta a começar de novo ou deixa andar. Culpam o Cristo, o carpinteiro que fez a cruz e o ferreiro pôs os pregos, lavam as mãos como Pilatos e não fazem nada. Uns não pensam muito nis-
d.r.
Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Emanuel Sancho Hugo Barros Hugo Oliveira Paulo Serra Vanessa Caravela Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com
on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve
Tiragem: 8.280 exemplares
to, porque não têm tempo e outros acham que pensar é perda de tempo. E passam a vida entre uma bica e um café, sem fazer uma pausa para a vida. E andam nisto! As coisas não mudam por decreto, só porque decidimos e pronto. Há que mudar a atitude e os
comportamentos. Ter coragem para enfrentar medos e orgulhos, romper com o conformismo e a preguiça e arriscar. Perceber o que realmente se quer e lutar por isso. Ou continuar, eternamente, a colocar alpista no aquário à espera que o douradinho cante!
Cultura.Sul
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Grande ecrã Cineclube de Faro
Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPJ | 21.30 HORAS | ENTRADA PAGA CICLO VARIAÇÕES EM MAL MAIOR 10 DEZ | REINO ANIMAL, David Michôd, Austrália, 2010, 113’, M/16
Um Natal recheado em Tavira
Cineclube de Tavira
Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30 horas d.r.
SEDE | 21.30 HORAS | ENTRADA LIVRE TRIBUTO A PATRICE CHÉREAU 12 DEZ | O SEU IRMÃO, França, 2003, 92’ 19 DEZ | 18.30 HORAS | GABRIELLE, França, 2005, 90’ (Leg. Ingl.) 21.30 HORAS | PERSEGUIÇÃO, 2009, 98’ (Leg. Ingl.)
07 DEZ | OPHIUSSA: UMA CIDADE DE FERNANDO PESSOA - Fernando Carrilho - Portugal 2013 (70’) M/6 12 DEZ | DANS LA MAISON (DENTRO DE CASA) - François Ozon - França 2012 (105’) M/12
BIBLIOTECA MUNICIPAL | 21.30 HORAS | ENTRADA LIVRE O FILME FRANCÊS DO MÊS 20 DEZ | MIA ET LE MIGOU, Jacques-Rémy Girerd, França, 2008, 91’ FÁBRICA DOS SENTIDOS | 18.30 HORAS E SOCIEDADE ARTÍSTICA FARENSE | 22.30 HORAS 21 DEZ | O DIA MAIS CURTO – exibição de seis curtas-metragens portuguesas numa sessão de 56’
Cena do filme Comboio Noturno para Lisboa Em Dezembro iremos exibir seis filmes (atenção: duas sessões terão lugar num sábado), dos quais três nacionais ou pelo menos em co-produção com Portugal. Um destaque para a sessão de Curtas Metragens no âmbito do “Dia Mais Curto”, no
pouco resta para dizer ou para escrever. Contudo, os nossos mais sinceros votos de festas felizes! Desejamos a todos uma entrada pacífica em 2014, com grandes filmes para alimentar a nossa imaginação! Positive thinking!
sábado, 21 de Dezembro. E para quem não conseguiu estar presente na nossa sessão ao ar livre no passado mês de Julho, no dia 19 iremos trazer de volta Night Train to Lisbon (Comboio Noturno para Lisboa), de Bille August. Os filmes falam por si próprios,
19 DEZ | NIGHT TRAIN TO LISBON (COMBOIO NOTURNO PARA LISBOA) - Bille August - Alemanha/Suíça/Portugal 2013 (111’) M/12 21 DEZ | “O DIA MAIS CURTO” - 10 CURTAS METRAGENS EUROPEIAS Vários - Europa 2000 - 2013 (89’) M/12 26 DEZ | IO SONO LI (SHUN LI E O POETA) - Andrea Segre - Itália/França 2011 (98’) M/12
Espaço AGECAL
Cultura em meio rural d.r.
Emanuel Sancho AGECAL
Para a população rural, o sentimento permanente da sua condição marginal parece ter sobrevivido até aos nossos dias. Compreensivelmente, as cidades maiores sempre exerceram a sua natural hegemonia. Aí estavam os poderes político, religioso, as famílias economicamente poderosas, muitas vezes com acção mecenática importante, e os estrangeiros residentes, às vezes cultos, mas sempre ligados aos negócios mais rentáveis. Aí se ergueram teatros e mais tarde cinemas. Fundaram-se clubes e associações, onde as elites culturais desempenharam um papel fundamental na dinamização cultural citadina: os saraus, os concursos literários, as palestras. Também no meio rural, as pessoas procuravam organizar-se. Contudo, o panorama era diverso:
Cestaria em cana, actividade exercida pela população rural construíam-se réplicas simplificadas do que se via na cidade com os clubes e sociedades recreativas a organizarem bailes ao fim de semana e a instituírem bibliotecas populares que pouco mais eram
do que umas prateleiras de livros fechados à chave. Algumas famílias destacavam-se no gosto pela leitura, pela música tocada ao piano ou ouvida na grafonola. Paralelamente havia (e há) a chamada
cultura popular: um conjunto de saberes nascidos quase sempre da luta diária pela sobrevivência que persiste na memória das pessoas. São disso exemplo a poesia, a música e um instrumental próprios que chegaram aos nossos dias. Neste ponto da reflexão convém referir a clara dificuldade em se estabelecerem os limites entre o rural e o urbano, conscientes que, tanto na cidade como no campo, as duas realidades convivem lado a lado. Talvez a predominância seja o factor chave deste difuso jogo de relações. Por isso, a provocação deliberada do uso que fazemos - quase indiferenciado destes conceitos/contextos sociais. Desde há muito que as elites culturais passaram a interessar-se pela cultura popular, promovendo incursões e “recolhas” que terminavam sempre nas reservas e arquivos dos museus e universidades. Também, como acontece frequentemente com as manifestações culturais em geral, o poder político sempre procurou usar-se delas em seu favor, moldando-as aos seus interesses. Exemplo paradigmático desse fenómeno é o caso do movimento folclórico que chegou aos nossos dias.
Apesar das múltiplas abordagens exteriores, a identidade rural sempre teve a consciência da distância que a separava do poder, vendo nisso inconvenientes mas, por vezes, também algumas vantagens. E nos nossos dias? Existirá ainda uma identidade rural e um modo de vida próprio capaz de reflectir nas suas raízes e, a partir daí, produzir valores e cultura para o tempo presente? Sabemos que o esquema de relações entre a cidade e o campo alterou-se profundamente. Entre a globalização e a massificação dos nossos dias, as economias rural e urbana aproximaram-se em muitos aspectos, mas isso não reduziu os contrastes que sempre existiram entre elas. A cultura citadina foi ao campo e de lá trouxe o que melhor lhe aprouve. Ao invés, sabemos que ainda hoje o rural vive fascinado pelo brilho da cidade. Ouvimos hoje falar do “regresso à terra”, das “slow cities”, da dieta mediterrânica, do património cultural imaterial e sentimos, os rurais, afinidades bastantes com estes movimentos culturais emergentes. Serão os sinais de um despertar assente nos valores de uma cultura própria?
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Cultura.Sul
Panorâmica
Ondjaki: mais do que o escritor, o homem e o pensador O pseudónimo que usa para a arte da escrita é Ondjaky e é sob este nome - cujo significado, entre outros, é guerreiro - que assina vários livros premiados ao longo dos últimos anos até chegar a 2013 e ser escolhido para ganhar o Prémio José Saramago, atribuído pela Fundação Círculo de Leitores. Depois de em 2000 ter arrebatado a Menção Honrosa do Prémio António Jacinto pelo seu primeiro livro de poesia “Actu Sanguíneu”, soma-lhe com o livro de contos “E se amanhã o medo”, em 2005, o Prémio António Paulouro, a
que acrescenta em 2007 o Grande Prémio APE fruto da obra “Os da minha rua”. Três anos depois, em 2010, é a vez de o livro “AvóDezanove e o segredo do soviético” ser reconhecido com Prémio Jabuti na categoria juvenil. A escrita para os mais novos volta a garantir-lhe o reconhecimento com o Prémio Bissaya Barreto 2012, na sequência da obra “A bicicleta que tinha bigodes”, também distinguida, no Brasil, com o Prémio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Não espanta, pois, de todo, que Ondjaki tenha ganho, com a obra “Os transparentes”, o Prémio José Saramago, afinal, está traduzido em mais de uma dezena de idiomas e há muito que o reconhecimento o coloca entre os nomes mais sonantes da escrita angolana da actualidade. Depois de uma visita que o Cultura.Sul acompanhou às escolas olhanenses do Agrupamento Professor Paula Nogueira, onde Ondjaki arrebatou os alunos com uma impressionante veia de contador de histórias e uma rara capacidade de comunicação, conversámos com o escritor, mas ouvimos também o homem, Ndalu de Almeida, e o pensador sobre a realidade africana e mundial. “Os Transparentes”, uma incursão para fora da ficção pura Escrever é também um acto político e se até agora, como o próprio reconhece, Ondjaki, se detinha na “ficção pura”, com “Os Transparentes” o escritor traz-nos uma história literária, cheia de factologia sobre a Luanda dos dias de hoje e em larga medida sobre Angola e o mundo da actualidade. “Há [em “Os transparentes”] um manancial de informação sobre Luanda que eu tenho e usei para contar uma história que é literária, mas que permite abrir caminhos para o debate e que apresenta premissas para a discussão sobre aquilo que eu chamo de abandono do outro, seja o abandono crescente que temos uns face aos outros enquanto cidadãos, seja o abandono dos políticos em relação
ao povo”, refere Ondjaki. “Há este abandono a que temos que dar atenção e que não podemos de todo ignorar”, refere, defendendo que não podemos ser transparentes, na medida em que não podemos ser ignorados, nem ignorar quem está ao nosso lado. “Não é um abandono que seja exclusivo de Angola, isto é um facto, é uma realidade generalizada, muito embora no livro o que se aborde seja Angola”, sublinha. Democracia a cada quatro anos “Esta coisa a que chamamos democracia, tornou-se uma realidade em que se convocam as pessoas de quatro em quatro anos para cumprir uma agenda eleitoral e depois não queremos saber, só voltamos novamente a querer saber delas daqui a quatro anos”, remata. Há, entende o escritor, um alheamento de parte a parte que não é positivo e que condiciona o presente, mas também o futuro e dá o exemplo: “basta vermos o que acontece nas principais cidades dos países africanos que neste momento não estão em guerra e que beneficiam de uma conjuntura de crescimento favorável. Em Lagos, Cidade do Cabo, Pretória, Joanesburgo e Luanda, por exemplo, há dinheiro e paz e isso fez surgir uma febre de construção civil que na sua ânsia voraz descura o planeamento e ao fazê-lo põe em causa o presente e o futuro daquelas cidades”. “O que importa é construir e negligencia-se o planeamento urbano e daqui a 20 anos não teremos argumentos para termos cidades atractivas e competitivas por exemplo na área do turismo”, diz o escritor, que antecipa que, “daqui a 20 ou 30 anos todos já foram a Londres, Madrid ou Nova Iorque e vão querer descobrir as capitais africanas como Luanda que tem uma arquitectura colonial que importava preservar, quer do ponto de vista histórico, quer do ponto de vista turístico. Se não planificarmos o urbanismo e salvaguardarmos o património, nessa altura nada teremos para mostrar, o que nos fará ser pouco apetecíveis como destino turístico”, conclui.
Cultura.Sul
“Temos que pensar em que termos devemos definir o presente e em que medida é que as decisões que tomamos definirão também o futuro”, entende o escritor, que vê a participação cívica como a forma por excelência de encontrar as melhores soluções, daí a importância de evitar que os povos se tornem transparentes. Há cada vez mais transparentes no mundo
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“Os transparentes são os transparentes para os poderes políticos e económicos instituídos e são uma vaga crescente em Angola como o são na Colômbia ou no Brasil, onde vivo há quatro anos”. Para Ondjaki, “há uma ideia crescente no mundo, liderada pelos Estados Unidos da América, de que a democracia, tal como a conhecemos hoje, independentemente de estarmos perante um regime parlamentar, presidencialista ou semi-presidencialista ou qualquer outro, é um sistema ideal”. “Não acho que seja, acho que é mais interessante do que certas ditaduras, porque há uma certa representatividade, mas não creio que seja um regime perfeito e fechado sobre a sua perfeição”, defende o escritor, que aposta noutro rumo, “acredito cada vez mais nos poderes locais e na proximidade destes com os cidadãos e com as suas necessidades básicas, que só podem ser satisfeitas através de um sistema que as conheça, algo a que a actual democracia não responde, porque existe uma enorme distância entre os cidadãos e os círculos da decisão política”. “Temos que chegar ao poder local ao nível do nosso bairro, da nossa rua, e temos de ter interlocutores válidos na base do sistema político. É importante a eficiência do poder local e é fundamental a sensação de que quem manda somos nós, os cidadãos”, preconiza. “Por outro lado, a democracia, tal como a conhecemos e a despeito das regras de limitação de mandatos, continua a ser terreno fértil para a criação e perpetuação de poderes”, diz o novo Prémio José Saramago. “É claro
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que depois de eleito bastam dois ou três anos para construir uma rede que permita que estando ou não no poder mantenha uma situação de favorecimento pessoal ou do meu partido ou grupo”, refere Ondjaki. Democracia 1.0 “O que defendo é que nos devemos manter alerta, seja do ponto de vista político, seja filosófico, quanto a todas estas questões e quanto às suas implicações e para isso é fundamental preservar e fomentar a ideia de que a democracia também ela tem de sofrer upgrades”, sublinha. “Estamos na democracia 1.0 e não podemos acreditar que chegámos a uma solução suficiente, há lugar para uma democracia 2.0 e 3.0 e por aí em diante. Há sempre lugar para melhorias”, remata. “No mundo global a democracia é vendida sob medida de acordo com a vontade de alguns imposta a milhões, a democracia é exigida ao Iraque de forma diferente daquela que é exigida à China ou à Coreia do Norte. Os Estados Unidos da América lideram este discurso e a Europa embarca volta e meia no mesmo barco pouco sério”, lembra Ondjaki, defendendo que “nós somos o elo de ligação entre o animal e o homem social e político, não somos o fim da evolução, somos apenas um dos seus momentos. Com a democracia é o mesmo, não é o fim é um caminho e não podemos dar-nos por satisfeitos”, conclui. “A realidade que se vive em Angola não é neste capítulo muito diferente daquela que se vive em Portugal, na Itália, no Brasil ou nos Estados Unidos da América”, refere o escritor. “Por isso é que digo que há corrupção em Angola como há em qualquer outra parte do mundo e defendo que não se deve criticar a corrupção em Angola com se fosse um exclusivo nosso, somos apenas mais um país com a sua corrupção típica. Em Angola é mais gritante? Talvez seja, mas na China também o é e sobre a China ninguém ao nível das esferas do poder fala”, diz Ondjaki.
Em “Os Transparentes”, segundo o autor, a personagem Odonato “é a personificação da transparência, é um personagem ingénuo que acha que é possível fazer coisas em Luanda sem dinheiro, quando até uma criança sabe que para fazer coisas em Luanda é preciso dinheiro e que é necessária uma conversa paralela à conversa principal e ao sistema para se conseguir alguma
Unidos da América há casos de pessoas que quiseram ser verdadeiramente de esquerda e que vão perdendo tudo e vendo as portas fecharem-se sucessivamente, mesmo quando Barak Obama está no poder e se diz ser um presidente de esquerda”. O olhar do escritor é uma mirada analítica sobre a sua Angola, mas sobre este que é o seu mundo e sobre o cami-
nificativo que não aguento com ele sozinho e dividi-o com Angola” sublinha. “Por outro lado, o prémio é de Angola na exacta medida de que este é um livro também sobre Angola em que o que tento também é chamar a atenção dos Angolanos convidando-os a ler o livro e a tentarem descobrir se ali encontram razões para conversarmos todos sobre o país”, diz. fotos: ricardo claro
Ondjaki conquistou os estudantes olhanenses coisa”, lembra. A Luanda de hoje vivida por Odonato “Este é o nosso modus vivendi actual, que espero seja provisório e que é fruto de toda uma soma de factores onde se incluem 500 anos de ocupação, quase 40 anos de várias guerras civis, contra os portugueses, contra a ocupação sul-africana, marcado pelos efeitos das disputas associadas à guerra fria. Angola é um país que de facto só está em paz há 12 anos”, recorda o escritor. “Estamos no começo das coisas e é um começo interessante, começamos com dinheiro, com um sistema político que não sei se é uma democracia mas é pluripartidário”, refere Ondjaki, questionando retoricamente sobre “onde é que existe democracia, nos Estados
“COMMON GROUND” 7 DEZ | 21.30 | Cine-Teatro Louletano Mazgani, escritor de canções, cantor e guitarrista, regressa a Loulé com um espectáculo intimista integrado numa digressão que está a percorrer o país, celebrando a sua música de geografias muito personalizadas
nho que trilhamos e como há tudo ainda por descobrir e por aprender a fazer melhor, de forma mais justa e participativa. É esse o desafio que Ondjaki deseja que “Os Transparentes” lance aos angolanos, como aos portugueses, como a qualquer cidadão de qualquer país. Para isso conta já com o peso e a voz que ganha quem é um Prémio José Saramago e o escritor tem disso consciência. “Este prémio é de Angola porque eu ainda estou numa fase em que preciso de dividir os prémios com o meu país”, diz Ondjaki. “Eu formei-me em Angola enquanto indivíduo, estudei sempre em Angola em escolas públicas. Eu tenho essa proximidade com esse universo pessoal que é o meu e inclui Angola e neste caso, que é um prémio muito importante, era impossível não o dividir com o meu país, é tão grande e tão sig-
“Quando me falam sobre Angola e a política em Angola e a realidade angolana, o que sempre digo é que temos que reivindicar o direito ao debate, ao espaço de discussão das ideias”, reforça o escritor. “Esse deve ser o nosso principal propósito no panorama actual, debater. Em Angola já se pode falar, até se pode falar, só que ninguém ouve. O problema é que os interlocutores que deveriam ser os primeiros a ouvir a a responder porque têm especiais obrigações sobre cada tema discutido, ignoram a discussão e passam ao lado do debate como se nada tivesse a ver com eles”, conclui. A lusofonia Para Ondjaki não existe uma lusofonia plena. “Mantenho esta opinião porque ainda não vi uma realidade que me fizesse
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ter uma opinião diferente”, refere o escritor. “Existe sim um espaço afectivo da língua portuguesa, para o bom e para o mau. Quanto a uma lusofonia que permita antever um espaço económico comum não há no médio ou longo prazo nada que indique essa possibilidade, para além de alguns pequenos privilégios absolutamente incidentais, nem existe ou se pode antever um verdadeiro espaço político e de cidadania comuns” diz. “Se perguntarmos a qualquer escritor, já não digo a outros quaisquer profissionais, o que é a CPLP?, a resposta é a de que se trata de um grupo de políticos que se reúne em bons hotéis para assinarem qualquer coisa de pouco relevo em termos do que poderia ser feito em prol dos povos lusófonos”, refere o autor. Mesmo a expressão lusofonia é, diz Ondjaki, “em regra aplicada para definir pessoas de países africanos e apenas isso, Timor fica tão longe que mal se ouve falar a respeito, Portugal é Europa, o Brasil é Brasil porque é um poderio emergente e lusófonos somos nós, os africanos”, sublinha. Por isso, diz, “para muitos africanos lusofonia é vista com desconfiança, como a tentativa de recuperar um espaço onde o gigante económico é o Brasil, que pouco se importa com lusofonia, o epicentro é o anão Portugal, que tenta recuperar espaço político de manobra no sentido de ganhar alguma influência, Angola é o segundo país em termos de relevo económico, mas que tem uma atitude de indiferença face à lusofonia, e o resto é o resto. “Se queremos brincar aos primos vamos brincar a sério”, diz o escritor e remata com um exemplo que é vivido na própria pele: “é inadmissível o que os cidadãos lusófonos ainda têm que fazer para circularem e se estabelecerem livremente em qualquer dos países lusófonos. Só isto basta para sabermos que estamos longe de ser uma comunidade na verdadeira acepção do termo”. Ricardo Claro
“ESPECTÁCULO DE NATAL” 6 e 7 DEZ |19.30 | Centro Cultural de Lagos Apresentação de diversas coreografias interpretadas pelos alunos e professores da Escola de Dança de Lagos, das seguintes modalidades: ballet clássico, iniciação à dança, dança contemporânea, dança moderna, dança do Egipto, flamenco, hip hop, entre outras
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Cultura.Sul
Letras e Leituras
O fantástico mundo encantado de Juliet Marillier
Paulo Serra
Investigador da UAlg associado ao CLEPUL
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Juliet Marillier, nascida em 1948, na Nova Zelândia, é uma daquelas escritoras que, na senda de damas como Marion Zimmer Bradley, está a tornar-se uma autora de culto do género fantástico. É claro que escritores que lançam um livro por ano podem ser discutíveis, tal como se podia aqui discutir se todo o tipo de obras do género fantástico cabe efetivamente nesse magnânimo e sempre estranho campo do que é a literariedade. Mas a verdade é que todos nós temos os nossos próprios prazeres culposos (soa muito melhor em inglês: «guilty pleasures», mas estava a tentar evitar estrangeirismos). Por isso é tão irritante quando certas pessoas andam em transportes públicos com livros forrados de um horrível papel celofane, como quem embrulha uma sandes. Talvez por terem vergonha de revelarem o que estão realmente a ler? Bem, assumo a minha quota parte de culpa. Tenho autores para todos os gostos, mas também sou um adepto desta senhora que, a cada novo livro, consegue surpreender-nos, ainda que ligeiramente, com uma fórmula previamente estereotipada. Que é como dizer, por exemplo, que quando se ouve um álbum de Enya ela consegue sempre a proeza de se igualar a si mesma. Todavia, há sempre autores (e pessoas), iguais a si próprios, e que valem por isso mesmo, alimentando certos prazeres de pura fruição estética, em que podemos regressar a um mundo que se vai revelando cada vez mais familiar, como quem chega a casa e se encosta num sofá com uma manta e uma chávena de chá. Ainda mais agora, quase em pleno Inverno, é reconfortante podermos contar com o último romance desta autora neozelandesa, cujas paisagens desse ambiente inóspito e primitivista parecem ressaltar nas suas páginas e talvez igualar-se ao mundo céltico dos seus livros, transportando-nos a um sentimento de princípio dos tempos, em que os homens já se organizam em sociedades tribais e clãs, mas são ainda as mulheres quem tece os fios do destino, interligando assuntos
deste mundo e do outro. A ascendência de Juliet Marillier é escocesa e irlandesa, tendo enveredado pela música, ensinando, interpretando, e trabalhando depois, durante cerca de 13 anos, em agências governamentais como a Commonwealth. Até que em 1999 a sua vida muda com Filha da Floresta, livro em que é mais claramente notória a inspiração que a autora bebe em lendas célticas com a fantástica história de uma jovem que tem de salvar os seus sete irmãos transformados em cisnes por meio das artes maléficas de uma terrível feiticeira. Sendo bem recebida por leitores e críticos entre o público leitor anglófono, seguiram-se outros dois volumes da saga em menos de dois anos. Em 2003 dedicou-se completamente à escrita, e enveredou ainda mais longe no folclore das ilhas gaélicas e terras nórdicas, presenteando-nos com Filho de Thor e Máscara de Raposa. Consegue ainda ter tempo para acarinhar quatro filhos e seis netos, e ter transformado a sua casa de campo centenária, na Austrália, num asilo para cães abandonados. É também membro da ordem druídica, sendo claramente notório um espiritualismo associado ao tom elegíaco das suas histórias de jovens donzelas que, sem se aperceberem bem disso, são postas à prova, e vencem as adversidades com a natureza singela de um espírito indomável. Nestes livros, que não são livros mas sim trilogias, o tom é quase o mesmo, mas estas jovens têm sempre características marcantes e personalidades vincadas, que ajudam a demarcá-las de entre um bando de irmãs e primas, pois acabam muitas vezes por se tecer relações entre a complexa rede de famílias e romances. Os seus romances combinam ficção histórica, fantasia e folclore, lenda e romance, porque, felizmente, estas jovens encontram sempre um amado improvável no decurso das suas viagens e aventuras. Mesmo em A Vidente de Sevenwaters, único livro em que se defende que a castidade é fundamental para manter o dom intacto da jovem rapariga, a jovem psíquica acaba por conseguir conciliar o seu dom com o seu amor. Com Shadowfell, um dos poucos títulos não traduzidos para português, foi iniciada outra nova trilogia (ainda que tal não tenha ficado claro nem no início - e provavelmente nem no fim -, mas agora a culpa é das editoras
que andam a publicar ao desbarato, saltando a ordem de certos volumes e sem esclarecer que pertencem a um conjunto maior), agora retomada com O Voo do Corvo. Ainda que a autora tenha protelado esse hábito, retoma na continuação da saga a mesma protagonista. A jovem Neryn prossegue a sua jornada, com a missão e o fardo de ser uma das poucas Vozes que ainda restam, capaz de ver os chamados Boa Gente, que povoam o Outro Mundo, como donzelas das florestas e criaturas feitas de galhos d.r.
Juliet Marillier é autora de várias obras de literatura fantástica e rochas, com longos toucados onde se enredam ninhos e aves. Pode assim tornar-se uma estratega ou diplomata essencial num mundo em guerra, pois como quase sempre o ambiente fantástico remete-nos para um mundo medievalizante. Temos, inclusive, como forma de espreitar o mundo da desordem e disputa masculina, o apaixonado de Neryn, Flint, que vive na corda bamba enquanto espião du-
“UM NATAL MAIS ECOLÓGICO” Até 31 DEZ | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira Exposição de trabalhos executados pelos estabelecimentos de ensino, lares e centros de dia do concelho que a partir da utilização de materiais reciclados aceitaram o repto para produzir diversas peças originais
plo, e conduz-nos ao seio do grupo de Rebeldes que se constituiu à margem da corte. Apesar de Neryn e Flint não estarem tão próximos fisicamente como no volume anterior, em que a proximidade e convivência eram eivadas da desconfiança dela em relação a ele, julgando-o um inimigo, desta feita, agora que se distanciam fisicamente, o amor entretanto desabrochado com um beijo roubado nas últimas páginas,
tornou-se tanto mais forte quanto a distância aberta entre os dois. A força do sentimento que os une não deixa, no entanto, margens para dúvidas, até porque se comunicam em sonhos... São reveladores e inovadores os episódios protagonizados por Flint, que nos permitem entrar na corte e conhecer melhor o rei Keldec. Pode até tornar-se desconcertante observar a duplicidade deste agente infiltrado, empenhado em ganhar a confiança do monarca, mesmo quando se pressente que afinal não são os políticos que dão a cara os verdadeiros culpados, mas sim outras “Vozes” conselheiras. O estilo da autora é escorreito e detém-se nos meandros da natureza humana, dos receios e esperanças, mas sem nunca cair, mesmo sendo as personagens jovens quase-mulheres, em tom lamechas. Transporta-nos para os contos tradicionais da nossa infância (isto fica bem de dizer mas a verdade é que muitos de nós não tivemos esse prazer na nossa primeira fase de vida), dentro de um estilo muito característico da autora, que, como dizia no início, nos permite sentir o embalo e um marulhar ritmado que nos permite evadir por momentos da realidade mais crua para mergulharmos nos recessos do nosso coração. Afinal, homens ou mulheres, não somos todos jovens donzelas em perigo, muitas vezes divididos pela angústia das nossas próprias escolhas e desejos?
“LAGOS, OS ESPELHOS DA MEMÓRIA” Até 31 DEZ | Centro Cultural de Lagos Procurando dar realce ao acervo da Fototeca Municipal de Lagos a câmara local apresenta um conjunto de fotografias e postais ilustrados incidindo sobre a primeira metade do séc. XX. São imagens que retratam a cidade e os arrabaldes
Cultura.Sul
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Momento
“Adeus” Foto de Vítor Correia
Espaço ALFA
Cor e criativiade de mãos dadas em mostra fotográfica A ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve vai dinamizar no primeiro semestre de 2014, uma mostra fotográfica onde a criatividade e as cores primárias são as musas inspiradoras e os participantes podem demonstrar todo o seu talento. Podem participar nesta iniciativa fotógrafos amadores, sócios e não sócios que são convidados a enviar uma foto por mês independentemente do tema, tendo sempre presente as cores primárias: branco, vermelho, verde, azul, amarelo, preto, que vão mudando mês após mês. E agora? Pois é bastante simples. Para Janeiro a cor eleita é o branco e devem enviar as fotografias durante o mês de Dezembro. Branco é fotografar as férias de Natal da família numa estância de esqui, fotografar a neve na Serra da Estrela, é aquela foto da noiva, é a magia das amendoeiras em flor, é fotografar as cegonhas, o papa Francisco, é a paz. Tudo é possível. Mais ainda, em fotografia, balanço de cores refere-se aos ajustes que são efectuados pelo fotógrafo ou pela câmara fotográfica para se obter
imagens com fidelidade de cores próximas àquelas que os objectos apresentam sob iluminação ideal. O júri escolherá a imagem vencedora do mês. A foto será publicada no início da página de internet www. alfa.pt, identificada com o nome do autor e a cor correspondente. Além disso, será divulgada como foto premiada no facebook, na newsletter e restantes canais da associação. As restantes fotos serão também colocadas na internet com link a uma página correspondente à mostra fotográfica. A mostra é de acesso gratuito a todos. A intenção é demonstrar os novos talentos fotográficos. Para participar basta enviar a fotografia para o endereço mostra.fotografica. alfa@gmail.com com o teu nome completo e o número de sócio, caso aplicável. No final será realizada uma exposição na Galeria ARCO em Faro com as fotografias vencedoras de acesso ao público em geral. Direcção da ALFA info@alfa.pt
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Cultura.Sul
O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N
Dezembro
Pedro Jubilot
pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt
A Visita fotos: d.r.
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São quase três da tarde e há muito barulho no antigo café do centro da cidade onde espero o Jaime. Entretenho-me a ler uma revista do jornal de domingo enquanto ele não vem. Pouco depois chega. Toma uma bica, acende um cigarro lights e diz simplesmente: Vamos?! Vamos visitar os pais como quase todas as quartas à tarde. Também costumo ir sozinho quando me apetece. Acho que ele faz o mesmo. Deixamos os carros estacionados no centro, junto às ruas das lojas e dos cafés. Fazemos o caminho a pé. Porque é perto e porque gostamos de ir assim um ao lado do outro, vagarosamente, conversando. Amanhã deve vir muita gente, comenta o Jaime. Pois. É feriado. É natural. As pessoas aproveitam, vou murmurando. Então e que tal de semana? Não trabalhas hoje, pois não!? Ontem pensei que não me ias ligar, que tivesses ido para Lisboa, Sevilha ou… Não! Não! Continuas sem ser aumentado… precisas que te empreste algum? Não!, respondo de novo. Que tens hoje? Estás aborrecido? Apenas sonolência de meio de tarde neste clima esquisito. Foste sair ontem à noite, é o que é, diz sorrindo. Sim. E depois fiquei a ler até quase de manhã, confirmo-lhe. Chegamos ao portão. Há bancas a vender flores e lamparinas e outras coisas que não sei
o que são. Quase nunca trazemos flores. Queres levar flores? Não! Mas dá qualquer coisa àquele homem ali. Aponto-o com um gesto de cabeça. O homem disse obrigado ao Jaime, e mais qualquer coisa que não entendi, e continuamos o trajecto até à campa onde estão enterrados juntos. Sentamo-nos numa pedra ali ao lado e cada um de nós deixa-se ficar a falar com eles em silêncio. Às vezes também falamos os dois em voz alta, mas hoje está muita gente em volta. E apenas nos despedimos: Adeus pai! Adeus mãe! Até depois. Que o meu irmão repete. E vamos embora. Lá fora confesso-lhe: Tive muitas saudades dos dois esta semana, mais do que nunca. O Jaime não responde e passado um bocado pergunta-me se já não ando com aquela rapariga que conheceu há uns meses. Não! Foi trabalhar para Lisboa, informo-o. Queres ir lá jantar hoje? Recuso o convite. Vou jantar fora com o Mário e o Filipe… Então aparece lá amanhã. Está bem. Depois telefono-te. Ele entra no carro, baixa o vidro automático e dá-me um cd. Eu agradeço enquanto ele liga o motor. Depois diz: Ah! É verdade… a Carla foi hoje ao médico. Vou agora buscá-la. Acha que está grávida. Não temos primos, tios, nem avós. Isso acontece. Não estou a divagar, nem a inventar. É de facto assim. Ele tem a mulher com quem vive. São uma família. Eu tenho-o a ele. Mesmo só duas pessoas podem ser uma família.
Paco de Lucia
deixar ver de um lado o Mar Mediterrâneo e do outro o Oceano Atlântico; para avistar a sul o começo da terra de África, e do outro encontrar a velha Europa. Todas estas dicotomias criaram a sua vincada personalidade humana e artística contagiada pelo ritmo nervoso e histérico do flamenco, mas que é no entanto uma expressão ao mesmo tempo triste, representando como que o grito dos obstinados. É que, quando ouvimos flamenco, esta música ao contrário do que possa parecer, não é só fiesta, mas é também introspecção, é melancolia e fado, só que apresentada doutro modo. Há guitarra, e há canto com origens árabes. É também (para além de bem) mal de vida. Paco (Francisco, filho) de Lucia, tinha pela sua progenitora um amor inabalável. Dedicou-lhe dois dos seus trabalhos: «Castro Marin» (1987,philips) e «Luzia» (polygram 1998), tocados através das recordações dos olhos e das palavras da mãe, que há muito deixara a villa vieja da infância.
“CONCERTO DE NATAL” 21 DEZ | 21.30 | Cine-Teatro Louletano O cantor Nuno Guerreiro, emblemático vocalista da Ala dos Namorados, volta a pisar o palco da sala de espectáculos da cidade que o viu nascer e irá entoar algumas canções de Natal, bem como os grandes êxitos do grupo
Litão
Estofo de Maré fecharam já todas as livrarias da cidade estão simplesmente de portas e montras cerradas, ao pó das horas ou outros comércios tomaram as suas prateleiras encerraram as salas dos cinemas da cidade ficam agora os assentos das cadeiras muito tempo colocados na vertical ou esperam por acontecimentos efémeros vagueio junto ao molhe da doca da cidade o único lugar ainda dedicado à poesia das imagens e das palavras resta essa biblioteca litoral que respira do mar
… as águas
De seu verdadeiro nome Francisco Sanchez Gomez (21.12.1947), teve pelo lado paterno o espanhol Don António Sanchez, homem de muitos ofícios, entre eles o de guitarrista. Pelo lado materno, estava Luzia Gomes, portuguesa, natural da vila de Castro Marim, ali junto ao Guadiana, onde o grande rio do sul separa o Algarve da Andaluzia. Paco de Lucia nasceu em Algeciras. Ali mesmo onde o mar estreita, para
de irem para a cama. No dia seguinte Sílvia, David e José preparam fatias douradas para a mesa do pequeno-almoço quando ouvem os passos arrastados de Maria. Bom dia mãe! Estávamos à tua espera. Vem ver as prendas. Bom dia! responde estremunhada. Pergunta: que dia é hoje? Hoje é dia de… Esperem lá meninos… acho que me rebentaram as águas.
Depositam ali mesmo no hall de entrada, o pequeno pinheiro, as pinhas resinosas e o azevinho que carregavam nos braços, mas com o cuidado necessário para não sujarem os sacos azul claro e castanho ali já prontos para quando muito em breve o momento chegar. Ao serão o pai coloca uma rodela de vinil no prato do gira-discos. Poisa-lhe a agulha nas estrias exteriores. Recosta-se feliz a escutar enquanto os miúdos decoram a árvore. Penduram-lhe enfeites coloridos e depois fazem uma coroa de azevinho colocando-a sobre a porta da sala. A brincadeira resulta em cheio. Quando a mãe se assoma à porta, para dizer que vai para o quarto descansar, pára sob o arranjo. Logo o pai se levanta e dá-lhe um beijo na boca. Como numa tradição estrangeira que aprenderam num filme. Mas eles também querem a sua parte de mimo antes
Ali em Olhão, no dia da noite de natal (ou quando o filho de Olhão quiser) já o litão (peixe seco, a que os autóctones também chamam peixe de couro) foi demolhado e está pronto para ir para o tacho, como prato principal típico da ceia nesta terra de pescadores. Um pouco de azeite, cebola, dentes de alho picados, tomates sem peles nem sementes, salsa, um pouco de filha de louro; batatas cortadas às rodelas; litão. Tempera-se com sal e pimenta, acrescenta-se muito pouca água, tapa-se o tacho e deixa-se cozer. Ele há quem não goste… Mais sobra! E de um dia para o outro ainda está mais apurado. À nossa!
Praia de Alvor No fim do ano as pessoas procuram as pequenas localidades costeiras a sul. Dizem que por aqui os dias são maiores, mais claros, mais brilhantes… mas sobretudo mais quentes. E isso permite-lhes pensar melhor sobre o tempo dos dias que se foram e do que farão no tempo dos que virão. Sei que quando chega esta altura do ano páras de trabalhar, mas não páras de pensar. Até páras só para pensar e não trabalhar. E escolhes o destino que te atulha a alma de uma irremediável saudade de estio. Da costa que te serve de ancoragem. O aqui, onde sabes que sempre estou.
“SENTINELAS DE OLHÃO” Até 31 MAI 2014 | Museu Municipal de Olhão Exposição composta por oito painéis e duas réplicas de torres, cuja temática é centrada num conjunto de estruturas militares de carácter defensivo
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Espaço ao Património
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Sala de leitura
A Arqueologia no concelho de Olhão Fast-books
Hugo Oliveira
Técnico superior na área de Arqueologia, na Câmara de Olhão
Localizado sensivelmente a meio da Ria Formosa, o concelho de Olhão, tem vindo a ganhar o seu espaço como destino turístico no Algarve. Este aumento no fluxo de turistas, deve-se sobretudo à beleza natural proporcionada pela Ria Formosa, à sua gastronomia composta por uma variedade de sabores, à singularidade da arquitectura de expressão cubista, mas também, à diversão proporcionada pelos grandes eventos, que animam as noites quentes de Verão. Para muitos, a realidade cultural do concelho de Olhão é apenas esta; a face mais visível, o lado mais mediático. Quem vive ou trabalha em Olhão, lerá esta afirmação com alguma desconfiança, pois reconhece uma outra realidade inegável. Foi feito um claro investimento em infra-estruturas culturais: o Auditório, a Biblioteca, ou o Museu Municipais, serviram de rampa para o surgimento, de um certo sentimento de “necessidade cultural ”. Estes equipamentos deram a conhecer outras realidades, e formaram novos públicos cujo gosto não se cinge só ao binómio sol/praia – este público aprecia teatro; vai a exposições e assiste às apresentações de livros de uma forma bastante regular.
Cristina Araújo: a carta arqueológica de Portugal. Este importante trabalho não esqueceu o território olhanense. Na verdade, deu-lhe uma nova perspectiva cronológica, localizando não só sítios de cronologia romana, presentes em maior número em levantamentos anteriores, mas acaba por situar outros cronologicamente mais antigos, como é o caso da gruta da Ladroeira Grande, até então desconhecidos da comunidade científica. Outro exemplo, são as referências às épocas medieval islâmica e cristã, através da identificação de um conjunto de estruturas de carácter defensivo – as
menos aprofundados, têm no entanto, ajudado a completar o mosaico arqueológico do concelho, sendo uma parte importante do trabalho científico. O quadro geral de trabalhos de investigação arqueológica do concelho que tentamos traçar, não se cinge, contudo, ao meio terrestre. Em 2006, inicia-se o estudo da Fortaleza de São Lourenço. Um sítio arqueológico, construído em meados do século XVII, e que se encontra situado em plena Ria Formosa, junto à actual barra velha. A especificidade da localização deste sítio levou à intervenção de uma equipa especializada foto: h.o.
Paulo Pires
Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com
Bem mais saudáveis do que a fast-food, os micro e-books estão aí para ficar. Basta deambular pela Internet para perceber que a short reading, inspirada nos singles musicais, está ganhando nos últimos tempos um crescente impacto junto dos amantes da leitura e das novas tecnologias. Numa era em que abundam os conteúdos curtos, fragmentados, precisos – é pertinente a analogia com um postulado da Física: maior brevidade = maior intensidade –, os “singles de ler” (como são apelidados no Brasil) ou mini e-books (nos EUA) revelam bem como os hábitos de leitura de muitos indivíduos têm vindo a incorporar a chamada snack culture,
Basta atentar, por exemplo, na organização TED, a qual fomentou algumas das primeiras publicações deste tipo, replicando assim a abordagem sintética dos seus mediáticos talks. Os chamados TED BOOKS são produzidos a partir das conhecidas conferências e apostam na originalidade, provocação e criatividade, estando vocacionados para a difusão de ideias inovadoras e cativantes. Apresentam uma média de 20 mil palavras por e-book, tamanho suficiente para, na opinião dos promotores, produzir uma narrativa poderosa e atractiva e, ao mesmo tempo, passível de ser lida de uma assentada. No site da Amazon os KINDLE SINGLES estão também a ganhar crescentes adeptos. A um preço unitário muito barato, pode aceder-se na store da KINDLE a publicações em áreas como Arte & Entretenimento, Ensaios e Ideias, Ficção (categoria com maior número de oferta), História, Humor, Sociedade, Ciências, entre outras. Este formato pretende divulgar ideias e temas realmente persuasivos, criteriosamente pesquisados, bem arquitectados e com uma ilustração de qualidade. Além dos mini e-books que já foto: d.r.
Os primeiros passos A arqueologia, por seu lado, está muito longe destas realidades. De uma forma geral, os primeiros trabalhos de cariz arqueológico têm início no séc. XIX e XX, com Estácio da Veiga e Santos Rocha. Estes dois arqueólogos iniciaram um levantamento exaustivo do potencial arqueológico no actual espaço do concelho, com especial incidência no período compreendido entre o séc. I e IV d.C.. Desta época, localizaram estruturas e vias de comunicação e recolheram vestígios materiais da presença humana por todo o espaço concelhio. No entanto, o destaque foi para o estudo daquele que é um dos sítios mais emblemáticos e menos conhecidos do Algarve em contexto da presença latina, desde o séc. I. d.C.: a Quinta de Marim. A realidade arqueológica e científica actual Em meados da década de noventa, do século XX, o então Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPA), realizou um levantamento dirigido por Teresa Marques e Ana
Atalaia Quinhentista de Bias torres de Atalaia – cuja utilização efectiva padece ainda de caracterização. A década de noventa do séc. XX, regista também, um acréscimo, no que respeita aos trabalhos arqueológicos realizados no concelho. No ano de 1998, são levadas a cabo novas escavações na já referida Quinta de Marim, que reposicionam um conjunto de estruturas relacionadas com a produção de garum e outras de carácter religioso. Nos anos seguintes, este local foi alvo de mais três intervenções com resultados muito positivos e conclusivos. O conhecimento do potencial arqueológico do concelho passa também pelo acompanhamento de obras, que se encontrem a decorrer em zonas sensíveis ou de interesse arqueológico. Estes trabalhos, necessariamente
em arqueologia em meio aquático. Este trabalho inédito no concelho, só foi possível, através da formação de uma parceria, entre universidades nacionais e estrangeiras e a Câmara de Olhão. Esta síntese, não reflecte na totalidade o trabalho desenvolvido pelos técnicos de Arqueologia e de Património – na elaboração de uma carta arqueológica do concelho ou no levantamento do património imaterial, só para citar dois exemplos. O longo caminho que ainda falta percorrer, será feito ao lado da comunidade. O diálogo resultante desta união, será certamente bastante positivo, e contribuirá para um conhecimento ainda maior da história de Olhão.
Os Ted Books apostam na originalidade em que predomina o formato M&M’s. Se civilizacionalmente, depois da oralidade dos primórdios, a escrita permitiu conteúdos mais longos e precisos, não tão dependentes da memória, agora chegou o tempo das mensagens curtas, ainda mais precisas, como apontava há tempos um criativo brasileiro. No caso dos singles para leitura, trata-se, geralmente, de textos maiores do que um post/notícia e menores do que uma novela ou conto convencionais, empacotados em formato digital para consumo portátil e de fácil/cómodo acesso, e que podem ser lidos no WC, na cama, nos transportes públicos ou na sala de espera do médico.
nascem, à partida, em formato textualmente reduzido, há ainda editoras que, a nível de estratégia de marketing, têm vindo a apostar gradualmente no lançamento de livros-miniatura (uma espécie de redução inicial ou amostra [teaser] de uma obra mais vasta) para abrir o apetite do público-alvo para o surgimento posterior do “prato principal”. Estas versões curtas ou pequenos trechos são mais baratos e mais rápidos de ler, dando visibilidade antecipada aos autores e criando um inquietante horizonte de expectativa entre os leitores. Isto porque o menos pode, de facto, ser mais…
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Cultura.Sul
Na senda da Cultura
Orquestra Clássica do Sul: a música como palco da responsabilidade social
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A cultura é em si mesma um valor inestimável e a música enquanto expressão cultural também, naturalmente, o é. Nesta perspectiva e por si só a actividade da Orquestra Clássica do Sul é um trabalho de meritório relevo, mas tudo ganha um novo ângulo quando se junta à criação cultural a responsabilidade social e se faz do muito que a orquestra faz em prol dos seus públicos ainda mais. Há um agigantar da herdeira da Orquestra do Algarve que passa por ser, agora, a orquestra de todas as gentes a sul do Tejo e esta majoração do âmbito da orquestra encerra em si um enorme desafio a que os responsáveis da instituição se não fizeram rogados. Sob a direcção artística do maestro titular, Cesário Costa, a orquestra supera as expectativas e procura dar uma resposta à sua nova realidade, ultrapassando aquilo que à primeira vista seriam as responsabilidades de índole social. Prova deste novo estar é a demonstração de uma crescente responsabilidade social da instituição para com aqueles que são no fim de contas o seu público natural e nota disso é o ciclo de concertos Música em Comunidade que a orquestra levou a cabo entre 20 e 22 de Novembro. Pela mão dos músicos da Orquestra Clássica do Sul a música clássica abriu as portas de unidades hospitalares a sul do Tejo e na Andaluzia e deu asas ao encanto e aos sorrisos de quem enfrenta dificuldades de saúde ao som de notas musicais solidárias. Almada, Faro, Beja e Huelva foram os palcos escolhidos pela orquestra para dar início a esta nova forma de abordagem do conceito de proximidade e de aproximação aos públicos. O Hospital de Faro e o Garcia de Horta em Almada receberam um quarteto de cordas que interpretou obras de Mozart, Pachelbel, Schubert e Scott Joplin, com os músicos Laurentiu Simões e Emil Chitakov, violinos, Ivetta Naztkaya, em viola, e Vasile Stanescu, no violoncelo, a serem os protagonistas de momentos únicos. Já o Hospital José Joaquim Fer-
fotos: d.r.
zzz nandes de Beja e o Hospital Juan Ramon Jimenez de Huelva, acolheram um quinteto de sopros, composto pelos músicos Stefania Bernardi, flauta, Eun-Hee Sohn, no oboé, Pedro Nuno, no clarinete, Joaquim Moita, no fagote e Thomas Gomes, na trompa, que deram som a obras de Haydn, Farkas Ferenc e Daniel Léo Simpson. De acordo com a Orquestra Clássica do Sul, este projecto é o primeiro de um conjunto de intervenções no plano social que a formação pretende desenvolver em conjunto com os mais diversos parceiros. Neste caso específico “aproveita-se o papel terapêutico que a música pode ter junto dos diferentes grupos etários abrangidos: crianças, pessoas em cuidados continuados, doentes em geral, bem como profissionais da área médica”. Neste caminho de responsabilidade social para com todos aqueles que são ouvintes potenciais da orquestra, numa busca pela não discriminação no acesso à cultura, a Orquestra Clássica do Sul ‘invadiu’ as enfermarias e fez a música clássica chegar mais longe, a pacientes oncológicos, crianças e jo-
vens em tratamento nas unidades pediátricas.
Imperdível a proposta da Orquestra Clássica do Sul para esta sexta-feira e indispensável a ajuda que pode dar à APATRIS com a presença no concerto. Até ao início de 2014 a orquestra apresenta-se ainda em concertos de Natal em Setúbal, no dia 13, no Fórum Municipal Luisa Todi, em Ayamonte (Espanha), no dia seguinte no Teatro Cardenio, em Quarteira, no dia 15, na Igreja de São Pedro do Mar, ainda, em Lagos, no Centro Cultural local, no dia 20, seguindo-se, no dia 21, em Tavira, o concerto de Natal a realizar na Igreja do Carmo e finalmente o de Faro, que terá lugar dia 22, no Teatro das Figuras. Para o Ano Novo estão agendados os concertos de Loulé, dia 1, no Cineteatro Louletano, e de Beja, no teatro Pax Julia, no dia 2. A 5 de Janeiro a Orquestra Clássica do Sul regressa a Faro e ao Teatro das Figuras para o tradicional Concerto de Reis, que terá lugar pelas 18 horas. Ricardo Claro
Concerto solidário Apatris Entretanto e porque a responsabilidade social e a solidariedade não podem ser incidentais, a Orquestra Clássica do Sul agendou já para esta sexta-feira, 6 de Dezembro, um concerto beneficente a favor da APATRIS - Associação de Portadores de Trissomia 21 do Algarve. O maestro António Saiote dirige a Orquestra Clássica do Sul no palco do Teatro das Figuras em Faro, pelas 21.30 horas, onde marcará presença o solista Rui Baeta, barítono, e onde o programa promete obras de Mozart (Abertura de Don Giovanni, “Deh, vieni, alla finestra”, de Don Giovanni, e “Hai Gia Vinta La Causa”, de As Bodas de Fígaro), Bizet (“Votre toast, je peaux vous le rendre”, de Carmen e Jeux d’enfants, Op. 22, Petite Suite), bem como de Edward Elgar (Nimrod, Variações Enigma, Salut d’Amour, Op. 12 e Elegia, Op. 58), Alain Oulman (Madrugada de Alfama e Gaivota), Frederico Valério (Boa Nova) e Brahms (Danças Húngaras nº 1, 5 e 6).
“RECORDANDO ALBUFEIRA” Até 31 JAN 2014 | Edifício dos Paços do Concelho de Albufeira Mostra de fotografias antigas que fazem parte da colecção de Henrique Ferreira. As temáticas são muito variadas com prevalência para aspectos panorâmicos, arquitectónicos e urbanísticos
Cesário Costa, director artístico da Orquestra Clássica do Sul “CONVERSA… INFORMAÇÃO… COMUNICAÇÃO” Até 21 DEZ | Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé Exposição reúne os artistas António Dias e Charlie Holt que começaram a trabalhar em colagens há dois anos. Estas colagens formaram um diálogo entre os dois artistas que levou à presente instalação
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Cultura.Sul
Da minha biblioteca
Ondjaki – Os Transparentes Adriana Nogueira
Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Há cerca de um mês, a 5 de novembro, Os transparentes, romance do escritor angolano Ondjaki, foi anunciado como o vencedor do prémio literário «José Saramago 2013», galardão que distingue escritores de língua portuguesa com menos de 35 anos. E há pouco mais de uma semana Ondjaki esteve no Algarve. Quem teve o privilégio de o ver e ouvir pôde apreciar o grande contador de histórias que ele é. Apesar da sua idade, imaginamo-nos como crianças a escutar um mais-velho, com toda a sua sabedoria de uma longa vida, a falar de um povo que luta para não ser transparente. «era um prédio, talvez um mundo»
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O romance, de 427 páginas, tem 9 divisões de folhas negras com letras brancas, como se fossem nega-
tivos de fotografias, onde se vê a realidade de outra maneira. É assim que o livro começa e acaba. A preto e branco, contrastando com o que vamos lendo, a branco e preto. O texto dessas páginas vai fazendo sentido ao longo do livro. São sensações de personagens, saber do povo, anotações do autor, textos que nunca ninguém leu. Como o primeiro, que contém apenas 3 linhas «do bilhete amarrotado de Odonato», que nos dá acesso a um conteúdo lido apenas por nós, ali, pois o papel foi ingerido, «letra por letra, palavra por palavra» (p.422), por um galo. «era um prédio, talvez um mundo para haver um mundo basta haver pessoas e emoções, as emoções, chovendo internamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos» (p.75) Com estas palavras, o narrador consegue descrever as pessoas boas desta história: os habitantes de um prédio e aqueles que o visitam, um prédio que escolhe quem acolhe, que tem água a escorrer em permanência pelos degraus e paredes, que refresca os corpos cansados dos seus moradores. Um prédio onde ainda se oferece um copo de água fresca ou um prato de comida a quem os pede, sem nada em troca. Mas, ao contrário destas páginas, o mundo não é todo a preto e branco ou branco e preto.
fotos: d.r.
O escritor angolano Ondjaki venceu o prémio literário José Saramago 2013 Há outras personagens (sempre, de alguma maneira, ligadas a este prédio) que estão em níveis diferentes: por exemplos, os gémeos DestaVez e DaOutra, fiscais de ministérios (nunca se sabe qual ou quais), sobrinhos de SantosPrancha, Assessor do Ministro, apresentados num registo quase cómico, sempre a tentar explorar o povo e a inventar esquemas para ganhar dinheiro à custa dos outros. O próprio SantosPrancha (até pelo nome, a remeter para Sancho Pança) é uma sátira, um boneco de todos os assessores que, infelizmente, não existem só em Angola. Como não é só em Angola que existem personagem tenebrosas como as do senhor Cristalino, homem discreto, que não quer protagonismo, mais culto e educado que a maio-
“LENITA VISITA OLHÃO” Até JUN 2014 | Casa João Lúcio – Olhão Através de uma pequena história em banda desenhada, são dados a conhecer os locais mais emblemáticos de Olhão, quer pelo seu valor histórico, patrimonial e cultural, quer pela sua importância no desenvolvimento económico-social da cidade
ria, que consegue do governo a concessão da distribuição de um bem vital: a água. Quando todos se distraem com a prospeção de petróleo no subsolo de Luanda, esburacando a cidade e abalando as suas fundações, Cristalino aproveita os canais abertos para instalar uma rede, privada, de abastecimento de água. E, como na vida real, nada acontece a este homem sinistro. Fora do prédio há gatunos que matam por um telemóvel e ladrões azarentos que sempre se deixam capturar e que são espancados e, alguns deles, mortos. Há um bar, o BarcaDoNoé, de um senhor chamado Noé que tinha uma arca frigorífica que nunca se desligava, mesmo quando a luz faltava. Nesse bar paira uma personagem, o Esquerdista, que tem um discurso, entre as pp. 252-
255, que vale a pena ler e do qual destaco apenas uma frase, que lembra o poema de José Gomes Ferreira, musicado e orquestrado por Lopes Graça: «acordem, homens…» E quando percebe que não o querem ouvir, diz, «com ar irónico, e triste, e desapontado, e sério (…) – durmam, enquanto vos anestesiam com doses de suposta modernidade!» Mas, afinal, quem são os transparentes? Nesta história há apenas uma personagem, Odonato, que está a tornar-se, literalmente, transparente. No entanto, apesar de ele ser o único para quem todos olham com surpresa, os verdadeiramente transparentes são muito mais. Odonato tornou-se uma metáfora viva (pp.281-4):
«Odonato arregaçou as mangas e a jornalista teve de disfarçar o susto, os seus braços estavam ainda mais transparentes do que o seu rosto, eram visíveis, perfeitamente visíveis os movimentos dos ossos e o fluxo do sangue que corria de um canto do corpo para o outro, os tendões obedecendo aos movimentos dos nervos, ou talvez o inverso (…) – como é que começou? – (…) começou com a fome. tinha fome e não tinha o que comer – aqui em Luanda, neste prédio? há sempre uma mão amiga – mas é que eu estava farto de comer de mão amiga. queria comer da mão do meu governo, mas não comer como os governantes comem, queria comer com o fruto do meu trabalho, da minha profissão (…) – fui comendo cada vez menos para que os meus filhos pudessem comer o pouco que eu não comia. e foi assim (…) – a transparência é um símbolo. (…) um homem pode ser um povo, a sua imagem pode ser a do povo… – e o povo é transparente? – o povo é belo, dançante, arrogante, fantasioso, louco, bêbado… Luanda é uma cidade de gente que se fantasia de outra coisa qualquer – não é o povo que é transparente… – tentou a jornalista – não, não é todo o povo. há alguns que são transparentes. acho que a cidade fala pelo meu corpo» Apesar de o final parecer apocalíptico, este livro revela uma profunda crença no ser humano e na capacidade de salvação: «nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata, progride, desencanta, permanece. A humanidade está feia – de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permanece porque tem bom fundo» Ondjaki (2012). Os transparentes. Lisboa: Caminho.-
“CONCERTO DE DINO D’SANTIAGO” 13 DEZ | 21.30 | Cine-Teatro Louletano No dia em que celebra o seu 31º aniversário, o cantor fará ecoar os sons de “Eva” no concelho que o viu nascer, naquele que será o primeiro espectáculo em Portugal após o lançamento do seu novo disco
12 06.12.2013
Cultura.Sul
Espaços patrimonializados e ação educativa: um desafio estratégico
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d.r.
O ambiente de contingência financeira que vivemos faz esquecer que os desafios das políticas culturais não são propriamente orçamentais mas sobretudo estratégicos. Os criadores não podem continuar a produzir cultura como se o fizessem somente para si próprios e de costas voltadas para o público, como se a este fosse exigido situar-se num patamar cultural mínimo para poder, só então, ter acesso à produção cultural «de qualidade». Sendo essencial promover a formação de públicos, é necessário investir em educação para a cultura de uma forma coordenada entre as respetivas tutelas, e não apenas investir em equipamentos escolares, por um lado, e, por outro, em equipamentos culturais sem promover projetos concertados geradores de hábitos culturais. Também os espaços patrimonializados e os equipamentos que lhes estão associados (infraestruturas museográficas nos monumentos, centros de interpretação, museus de sítio) podem desempenhar um papel importante na programação de atividades educativas: na mediação de saberes, na conceção e curadoria de exposições, na mobilização de recursos, mormente voluntariado, e na angariação de financiamentos. Mais do que serviços educativos que estendam para os equipamentos culturais os curricula e a pedagogia dos equipamentos de aprendizagem formais, necessita-se, em espaços de aprendizagem informal, de projetos educativos que estimulem a criatividade,
formem o gosto e incentivem as práticas e os hábitos de consumo culturais. Neste âmbito, a Direção Re-
educativo para os Monumentos Megalíticos de Alcalar, desenvolvido em parceria com o Museu de Portimão), quer em parceria
No Algarve, é frequente que se reivindique a requalificação de equipamentos escolares e a criação de novos equipamentos culturais. Contudo, subestima-se o uso dos lugares patrimonializados como espaços informais de atividades geradoras de hábitos culturais. E menospreza-se a necessidade de promover ações concertadas entre a comunidade escolar e os criadores, que são geradoras de hábitos culturais gional de Cultura do Algarve tem procurado promover alguns projetos educativos dirigidos ao público em idade escolar, quer em colaboração com alguns dos museus da região (de que é exemplo o projeto
com organismos não governamentais (de que é exemplo o projeto «Lugares Mágicos», desenvolvido em parceria com o Ateliê Educativo). Direção Regional de Cultura do Algarve d.r.
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