Foto: Diego Barros - Arte: Paulo Oliveira e Evelyn Domingues
a”Podridão dentro do Palmeiras”
aMatriz energética em xeque
aDe lamber os beiços
O barato sai caro Centrais sindicais convocam movimento integrado contra desindustrialização
Revista Repúplica 1
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Revista Repúplica 3
Expediente Publisher Responsável Donizete Fernandes
Editorial
Edição Tuga Martins - MTb 19.845 Colaboradores • Liora Mindrisz – MTb 57.301 • Roberto Barboza – MTb 17.692 • João Pedro Schleder • Shayane Servilha • Guilherme Oliveira Fotos • Diego Barros – MTb 36.327 Revisão Prof. Isaias Gomes de Lima Editoração eletrônica Evelyn Domingues - MTb 48.250 Tratamento de imagem Fabiano Ibidi Diretora comercial Tatiane Abreu Diretoria Executiva Presidente - Cícero Firmino da Silva Vice-Presidente - Adonis Bernardes Secretário Geral - Sivaldo Silva Pereira Secretário Adm. e Financ. - Adilson Torres dos Santos Primeira Secretária - Aldenisa Moreira de Araújo Segundo Secretário - Osmar César Fernandes Terceiro Secretário - José Ramos da Silva Diretor Executivo - Elenísio de Almeida Silva Diretor Executivo - Geraldo Ferreira de Souza Diretor Executivo - Geovane Correa de Souza Diretor Executivo - José Roberto Vicaria Diretor Executivo - José Braz da Silva Diretor Executivo - Joseildo Rodrigues de Queiroz Diretor Executivo - Aldo Meira Santos Diretor Executivo - Pedro Paulo da Silva Conselho Da Diretoria Executiva • Geraldo Alves de Souza • Manoel Severino da Silva • Wilson Francisco • Edilson Martins • Rafael William Loyola • Bertoni Batista Beserra • Maria Andréia Cunha Mathias • Jeferson Carmona Cobo • Marcos Antonio da Silva Macedo • Joelma de Sales Conselho Fiscal – Titulares • José Edilson dos Santos • Claudinei Aparecido Maceió • Claudio Adriano Fidelis • Conselho Fiscal Suplentes • Pedro Cassimiro dos Santos • Altamiro Ribeiro de Brito • Marcos Donisete Felix Comitê Sindical De Empresa • Adair Augusto Granato • Anderson Albuquerque Brito • Carlos Alberto Vizenzi • Carlos Roberto Bianchi • Clayton Aurélio Domingues de Oliveira • Cleber Soares da Silva • Gilberto Andrade de Lima • Givaldo Ferreira Alves • Hélio dos Santos • Jacó José da Rocha • Jânio Izidoro de Lima • Jessé Rodrigues de Sousa • José Moura de Oliveira • José Ramalho Guilherme Feitosa • José Ricardo da Cruz • José Romualdo de Araújo • Juscelino Gonçalves Ferreira • Lincoln Patrocínio • Lourenço Aleixo da Rocha • Luiz Fernando Malva Souza • Manoel Gabriel da Silva • Michele Raizer dos Santos • Nauro Ferreira Magalhães • Onésimo Teodoro da Silva • Otaviano Crispiniano da Rocha • Pedro Leonardo Rodrigues • Rossini Handley Apolinário dos Santos • Viviane Cristina Camargo Impressão Prol Editora Gráfica - Unidade Imigrantes: Av. Papaiz, 581 - Diadema SP - CEP 09931-610 - Fone: (11) 2169-6199 Tiragem: 10.000 exemplares
Contatos: Tel.: 11- 4438.7329 contato@revistarepuplica.com.br • redacao@revistarepuplica.com.br A Revista República é uma publicação do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá em parceria com a RP8 Publicidade – Comunicação - Marketing.
4 Revista Repúplica
A luta também é nossa
A
os menos atentos, o frenesi de consumo decorrente do aumento do poder aquisitivo enaltece o momento econômico brasileiro. Porém, os respingos da crise internacional já despertaram as centrais sindicais para os sintomas da desindustrialização. Vem aí uma batalha que propõe unir trabalhadores, empresários e governos em favor da produção nacional. Aproveitamos para lembrar a redução do IPI, resposta rápida do governo à passeata em julho de 2011 no ABC, que reuniu metalúrgicos de CUT e Força Sindical contra a desindustrialização, bem como a posição do Ciesp de Santo André que aposta no grito da classe trabalhadora em favor da isonomia de mercado. Para relaxar, levamos o leitor ao Parque Municipal Estoril Virgílio Simionato, em São Bernardo, patrimônio municipal que ganhou de volta a merecida relevância. O lugar é perfeito para quem quer se divertir e, ao mesmo tempo, estar em contato com a natureza. Aos casais oferecemos roteiros romântico e aventureiro. Escolha entre morangos na França ou murici na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A aventura exige fôlego na entrevista com o professor Maurício Waldman, que além de destrinchar os impactos que a usina de Belo Monte irá causar, aborda as relações comerciais do Brasil com a Alemanha e, para a surpresa de muitos, coloca em xeque o entronizado conceito da reciclagem como alternativa de sustentabilidade. Sustentabilidade que daqui a dois anos será cobrada para que todos os municípios e estados brasileiros elaborem plano de resíduos sólidos. Ou seja, o lixo passa a ser responsabilidade de todos. Bom seria se este apreço também recaísse sobre os mercados municipais da região, a maioria abandonada. Afinal, desde a segunda metade do século 20, mercados públicos são considerados patrimônios culturais e locais de encontro das populações. Também abordamos a construção do terceiro aeroporto no estado de São Paulo, que São Bernardo disputa com afinco e tem polarizado opiniões e suscitado dúvidas. Em ano de eleições, os leitores poderão conhecer melhor os parlamentares da região que atuam em Brasília. O ABC elegeu quatro deputados federais em 2010: Vicente Paulo da Silva, José de Filippi e Vanderlei Siraque, do PT, e William Dib, do PSDB. Nas próximas 84 páginas, a bola também rola solta. Seja no desafio assumido por Sérgio do Prado levar o Ramalhão de volta à elite estadual e nacional, até a Copa do Mundo de 2014, ou por meio das palhetadas. Como? Sim, o ABC tem time oficial de futebol de botão. Boa leitura! Donizete Fernandes Publisher
Sumário CONJUNTURAIS
06 a 08
O ABC em fatos
ESPORTES
28 a 34
Futebol de volta às mesas
Carta do leitor
10
Antes do embarque Fórmula 1 nas ruas Matriz revitalizada Lixo: responsabilidade de todos Ouvidoria nas redes sociais
12
Educação é a chave Canoagem adaptada Meninas em campo A volta de Sérgio do Prado
13 a 16
Sons de Cavallieri Arte de Melim Histórias de Frei Beto
O sonho de Salvador De pai para filho
CIDADE
Palavra dE Presidente
cultura
44 e 46
48 a 57
República chega a Brasília
FORMAÇÃO
MEIO AMBIENTE
58 a 63
Entrevista: Maurício Waldman Madeiras de boa origem
MEMÓRIA
36 e 37
10 anos sem Celso Daniel
POLÍTICA
64 a 67
Os federais do ABC
COMPORTAMENTO
17
TURISMO
Dia Internacional da Mulher
68 e 69
Parque do coração
CAPA
18 a 21
SINDICAL
Fantasma da desindustrialização
ECONOMIA
22 a 27
Importados mais caros Ciesp em favor dos nacionais Acisa de cara nova Guloseimas do alto da serra
70 a 72 QUALIDADE DE VIDA
38 a 43
De bem com a balança Trabalho sem sequelas Coisas de homem Riscos do esporte esporádico Colônia de Férias
Lado sindical de João Avamileno Finanças transparentes
DECORAÇÃO
74 e 75
Charme de segunda mão Praticidade do grafiato
TALENTOS
76 e 77
Conexão com o princípio da vida
CONSUMO
78 a 82
Mercados desvalorizados Feiras noturnas Revista Repúplica 5
conjunturais
Redação
Skarnaval no ABC
Salto para o ouro Foto: Divulgação
A
tradicional festa pré-carnavalesca Skarnaval idealizada pela banda do ABC Sapo Banjo migrou de São Paulo para São Bernardo e teve estréia regional em 05 de fevereiro. Há 10 anos, a festa em ritmo de ska e outros estilos jamaicanos é realizada na casa Hangar 110 e, pela primeira vez, aconteceu em espaço aberto e com entrada gratuita. O evento aconteceu das 10h às 18h no Parque da Juventude e teve apoio da Prefeitura. Duas bandas abriram a festa, El Cabong de Sorocaba e Rusty Machine de Americana. O grupo Sapo Banjo deixou a atração internacional para fechar o evento. Os americanos do The Slackers agitaram o público com a mistura do ska tradicional com outros estilos, como o blues. Workshop de instrumentos de sopro e projeção dos documentários InDUBtável e Pixoação complementaram o Skarnaval.
Foto: Divulgação
F
Sapo Banjo: Carnaval jamaicano na região
abiana Murer será a principal representante do ABC nos Jogos Olímpicos de Londres. A saltadora do Clube de Atletismo BM&FBovespa/ São Caetano retornou ao Brasil em meados de fevereiro depois de treinar por 40 dias no Centro de Alto Rendimento do Jamor, em Lisboa, Portugal, sob coordenação do ucraniano Vitaly Petrov, referência na modalidade e consultor do salto com vara da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt). “Essa fase sempre passava rápido, logo vinham as competições. Estava precisando ser mais detalhista, sem ter a pressa de saltar alto logo”, afirma. Os treinos visaram o principal objetivo da temporada: a tão sonhada medalha de ouro nas Olimpíadas. Agora, Fabiana segue se preparando em São Caetano e estreará na temporada no dia 16 de maio, no Grand Prix Internacional de São Paulo, na pista do Ibirapuera. Na sequência, saltará no GP Internacional do Rio, dia 20.
Fabiana Murer: atleta do ABC nas Olimpíadas de Londres
Samba do repeteco Foto: Andris Bovo/ABCDMAIOR
Escolas de samba: sem surpresas no pódio
S
ó repetecos nos pódios de Momo no ABC. Em Santo André, pela quarta vez a escola de samba Seci levantou o troféu. Totalizando 179,4 pontos ao som do samba enredo O Nordeste Feito a Mão, a tetracampeã inovou na avenida, levando sanfoneiros e violeiros. Em São Bernardo, a Mocidade Alegre de São Leopoldo faturou a melhor nota pela quinta vez consecutiva. Apesar de ter tido problemas com o carro de som, somou 198,25 pontos e cantou Da Grande Explosão, A Criação da Vida, Impérios, Sonhos, Ambição e Conquista. Três vezes campeã, a União da Ilha da Prosperidade levou a melhor em São Caetano, com o enredo Realidade ou Sonho, Sherazade e as Mil e Uma Noites. No desfile, colocou na avenida lâmpadas mágicas, sultões, tapetes voadores e dançarinas do ventre. Diadema também teve tricampeã. A escola Estopim da Fiel Torcida cantou o samba enredo Ronaldo Fenômeno, Artista da Bola, que lembrou a história do jogador da infância ao final da carreira no Corinthians.
Pronta para 2016
S
ão Bernardo é a cidade do ABC que mais teve instalações esportivas aprovadas no Processo para Cadastramento e Seleção de Locais de Treinamento Pré-jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016. Dos 176 locais selecionados, seis são do município. O anúncio foi feito pelo Comitê Organizador das Olimpíadas no fim de janeiro. A cidade do ABC vai oferecer o Centro de Desenvolvimento do Handebol Brasileiro, o Estádio de Atletismo, o Centro de Canoagem no Estoril, o Estádio Primeiro de Maio, o Estádio do Baetão e o Ginásio Poliesportivo. Destes equipamentos, os três primeiros estão em fase de construção. “Apresentamos esses seis equipamentos como sugestão para os países realizarem a aclimatização. Dos 49 locais escolhidos no Estado de São Paulo, mais de 10% está na cidade de São Bernardo”, afirma o secretário de Esportes e Lazer, José Luiz Ferrarezi. 6 Revista Repúplica
Quase um século de prisão Foto: Divulgação
Lindemberg Alves: mais longo cárcere da história
Buraco de cima a baixo
L
indemberg Alves foi condenado na noite de 15 de fevereiro a cumprir 98 anos e 10 meses de prisão pela morte de Eloá Pimentel e outros 11 crimes sucedidos em Santo André, há quatro anos. Trata-se do mais longo cárcere privado da história do país. A jovem foi assassinada com dois tiros de revólver após passar 101 horas refém do ex-namorado. Dos demais crimes estão duas tentativas de homicídio, contra Nayara Rodrigues, amiga de Eloá, e contra um policial militar; cinco cárceres privados, dois deles contra Nayara e dois contra colegas das jovens; e quatro disparos de arma de fogo. Lindemberg não poderá recorrer em liberdade.
Foto: Divulgação
A
avenida Índico está voltando aos poucos a sua rotina após ser palco do desabamento parcial do edifício Senador, em São Bernardo. O prédio comercial ainda contava com poucas pessoas na noite do dia 6 de fevereiro, quando todas as 13 lajes de 14 andares onde estavam os escritórios com final 4 desabou, e matou duas pessoas soterradas nos escombros – criança de três anos e enfermeira de 26. Ao todo seis pessoas ficaram feridas. O laudo final dos bombeiros com o motivo do incidente não foi concluído e o edifício segue interditado.
Edifício Senador: 13 lages no chão Revista Repúplica 7
conjunturais
Redação
IPTU Verde Foto: Divulgação
S
ão Bernardo é uma das cidades do Estado de São Paulo a adotar o IPTU Verde, modalidade de incentivo aos proprietários de imóveis que, de alguma forma, contribuem para reduzir impactos do crescimento das grandes cidades. O incentivo oferecido é na forma de desconto e para desfrutar do benefício o contribuinte deve preservar ou ampliar áreas verdes dos imóveis, aproveitar água da chuva, usar energia solar, adotar uso de descarga sanitária com duplo fluxo ou manter áreas permeáveis no quintal ou jardim. O desconto pode chegar a até 80%. A cidade de São Carlos, em 2007, foi pioneira na adoção desta modalidade de incentivo. O exemplo também foi seguido por São Vicente e Guarulhos.
Imposto: desconto pode chegar a até 80%
Irrespirável Foto: Divulgação
Paulo Saldiva: mais carros, mais poluição
A
qualidade do ar na Grande São Paulo em 2011 foi a pior dos últimos oito anos. Dados da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado der São Paulo) apontam que em 97 dias do ano passado o ar apresentou qualidade insatisfatória em diversos pontos da região metropolitana. A quantidade de ozônio na atmosfera excedeu os limites em 96 dias do período analisado. A situação é preocupante se comparada aos números de 2003, quando o gás passou dos limites toleráveis por 77 dias. O médico Paulo Saldiva, especialista em poluição ambiental da USP, atribui a piora dos índices ao aumento da frota de veículos.
Prejuízo dos feriados
Quem quer dinheiro?
O
Banco do Povo Paulista em parceria com as prefeituras municipais tem mais de R$ 10,2 milhões para empréstimos na região. O Banco do Povo Paulista é um programa de microcrédito produtivo do Governo do Estado, por meio da Secretaria Estadual do Emprego e Relações do Trabalho, em parceria com as prefeituras municipais. São Bernardo é o município com maior volume de recursos disponíveis, com R$ 7,8 milhões, seguido por São Caetano, Santo André, Mauá, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires. Desde o início do programa foram realizados na região mais de quatro mil empréstimos, totalizando mais de R$ 13 milhões. 8 Revista Repúplica
O
s feriados de 2012 causarão prejuízo de R$ 1,72 bilhão na economia da região por falta de operação das indústrias. Os números foram calculados pela Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), que contabilizou o prejuízo paulista pelos feriados de R$ 14,096 bilhões no ano. Serão 10 datas nacionais e uma estadual, que representarão custo diário de R$ 156 milhões para o setor. O cálculo não considera feriados municipais das sete cidades. Comparado com as perdas estaduais, a região fica com a Foto: Divulgação oitava posição. A economia que perderá mais será a de São Bernardo, com R$ 67 milhões. Santo André terá perdas de cerca de R$ 300 milhões e Diadema, R$ 250 milhões. Feriados: prejuízo de R$ 1,72 bilhão na região Revista Repúplica 9
CARTA DO LEITOR
Redação
Em 13 de dezembro de 2012, durante sessão da Câmara dos Deputados, o deputado federal Vicente Paulo da Silva, fez o seguinte pronunciamento: Notas Taquigráficas Concedo a palavra, pela ordem, ao nobre Deputado Vicentinho. S.Exa. disporá de 3 minutos. O SR. VICENTINHO (PT-SP. Pela ordem. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, nesta Casa dentre meus 90 projetos de leis, há três de extrema importância para a área da cultura e da comunicação: o PL nº 6.060, de 2009, que introduz a revista em quadrinhos de produção nacional como cultura nacional; o PL nº1.821, de 2003, que introduz gradativamente, na televisão brasileira, o desenho animado como cultura de paz e solidariedade, para gerar emprego e uma nova consciência, sobretudo, na cultura brasileira; e o PL nº 6.257, de 2009, que se refere à introdução do horário sindical na TV brasileira, um direito mínimo dos trabalhadores. Enquanto os projetos tramitam na Casa, nós acompanhamos posturas e acontecimentos de extrema importância para o nosso Brasil. Ontem eu tive a honra de participar do lançamento da Revista República (Exibe revista), uma iniciativa do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, liderado pelo seu Presidente, o nosso companheiro Martinha, que, juntamente com a diretoria e um corpo técnico de extraordinária qualidade, produziu essa revista dos trabalhadores para a sociedade. A tem extraordinária qualidade e não perde para nenhuma outra deste País, inclusive as da grande mídia. No entanto, ela não vai atuar de maneira mentirosa nem demagoga; vai ser uma revista para entreter, informar, formar e falar dos direitos dos trabalhadores. Ontem, foi muito bonito o lançamento dessa revista, que é uma iniciativa dos trabalhadores, através do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André. Portanto, quero mandar os meus parabéns à diretoria do Sindicato e ao nosso querido Martinha, companheiro de luta de longa data. Com certeza, essa revista será um grande sucesso. Olhem o nome: Revista República. E a qualidade é ímpar no sentido de garantir que os trabalhadores são capazes de produzir comunicação com qualidade. Quero saudar Donizete Fernandes, intelectual que criou a revista, que ajuda o companheiro Cícero Firmino da Silva, o Martinha, e dizer aos companheiros metalúrgicos de Santo André que eles estão construindo um verdadeiro sindicato cidadão, que não vê o trabalhador apenas como um ser produtivo, mas como um ser humano que tem direitos. Como diz aquele grupo musical, a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte. Parabéns. Sr. Presidente, peço a V.Exa. que esta revista seja colocada nos Anais desta Casa como mais um documento histórico. O SR. PRESIDENTE (Alberto Filho) - V.Exa. será atendido, com certeza. O SR. VICENTINHO - Obrigado a V.Exa.
Envie críticas, sugestões e comentários à Revista República para redacao@revistarepublica.com.br. As mensagens devem conter nome completo, telefone e e-mail.
10 Revista Repúplica
Revista Repúplica 11
palavra dE presidente
Cícero Martinha
Roberto Barboza
Educação sustentável
C
Foto: Diego Barros
ada vez mais vemos o Brasil despontar como chave para futuro do planeta. Mas de nada valem escala e diversidade de recursos naturais se a sustentabilidade não estiver enraizada na educação. Para buscar patamar de desenvolvimento condizente com as expectativas da humanidade consciente, o país terá de melhorar e muito a qualidade do ensino, bem como ampliar consideravelmente o acesso ao conhecimento. Somente com alicerces sociais instituídos será possível integrar à educação e à
aprendizagem princípios, valores e práticas do desenvolvimento sustentável. É este esforço que irá fomentar mudanças de comportamento necessárias para por o Brasil entre os países realmente desenvolvidos. Claro que o salto da economia nacional nos últimos anos desperta olhares do mundo inteiro. Não à toa, a mídia expõe orgulhosa a intenção de investimentos internacionais no país na ordem de US$ 250 bilhões. Que bênção seria se nossas universidades e centros de pesquisas estivessem na mira desses valores para que pudéssemos gerar futuro mais equânime, com integridade ambiental, viabilidade econômica e uma sociedade justa. Acredito que somente com uma nova visão da educação poderemos avançar. A educação que sonho para meu país não exige cotas por classe social ou etnia, é plena e capaz de incluir pessoas de todas as idades, cores e salários. É fundamental seguir apoiando o aperfeiçoamento das políticas nacionais, principalmente quanto à melhoria do piso salarial de professores e incentivo à pesquisa. Mas a prioridade recai sobre a emergente melhoria da Educação Básica, cujo acesso ainda é problema. O resultado dói. Acolhemos 33 milhões de analfabetos, dos quais 16, 7 milhões são totalmente sem instrução e outros 16,3 milhões, apesar de saberem escrever o nome, não completaram a quarta série fundamental. São os chamados analfabetos funcionais O envolvimento tem de ser coletivo, integrado, interessado, desprovido de recortes elitistas que por tanto tempo direcionaram o conhecimento aos mais afortunados. A sustentabilidade da educação demanda instituir educação cidadã. A proposta é de movimento imediato que contribua para o acesso de todos e, mais importante, tenha qualidade e respeite as diferenças culturais e regionais.
Cícero Martinha - Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá. E-mail: cicero.firmino@yahoo.com.br
Cultura
Amor é a medida
Fernando Cavallieri lança quarto CD com romantismo e homenagens
Foto: Divulgação
Fernando Cavallieri: muito além do Samba de Uma Noite Só
O
público amante da boa música brasileira tem mais um bom motivo para se orgulhar dos talentos do ABC. O quarto CD do violonista, cantor e compositor andreense Fernando Cavallieri, O Amor é a Medida de Todas as Coisas, brinda ouvidos exigentes com nova safra de canções, temperadas com romantismo e sutis doses de bom humor. Milton Nascimento, Chico Buarque e outros da MPB, assim como jazz e rock dos anos 1970, influenciam e inspiram as composições. Ainda criança e sem saber muito o que acontecia no fim dos anos 1960, o músico se encantava com as últimas edições dos festivais de MPB da TV Record. “Em Samba do Amor Perfeito presto homenagem ao amado mestre Nelson Cavaquinho”, diz Fernando Cavallieri.
A espiritualidade também conduz o trabalho do artista. “O respeito à natureza e a busca de uma vida na qual prevaleça a harmonia entre a espécie humana e as criaturas da terra são as notas que irão compor a sinfonia de um possível mundo melhor”, acredita. Oferecida à sambista Clara Nunes, Coroa do Divino foi encomendada por uma amiga e materializa a crença de ambos: “O homem é a síntese de todas as divindades”, afirma. Reconhecimentos e agradecimentos a parceiros e amigos que, de alguma forma, colaboraram para que ele atingisse seus objetivos constam dos quatro CDs. “As novas tecnologias eletrônicas facilitam bastante a produção musical e viabilizam o surgimento de novos talentos que optaram por lançamentos independentes”, diz. Como canhoto que não inver-
te as cordas, Fernando Cavallieri ficou conhecido por causa da música Samba de Uma Noite Só, premiada em festivais e tem a da novela Caminhos do Coração, da Rede Record. Autodidata, é um dos mais ativos artistas do Clube Caiubi de Compositores – www.clubecaiubi.ning.com (movimento musical de São Paulo que agrega compositores, cantores, poetas do quilate de Zé Rodrix, Tavito, Celso Viáfora, Guarabira). “Não conheço hoje no Brasil um movimento musical mais consistente, criativo e de alta qualidade”, afirma. Serviço: Os CDs podem ser comprados à terçasfeiras, quando toca no Shopping ABC, em Santo André, no Restaurante Shintori, na alameda Campinas, 600, em São Paulo, às quartas-feiras, ou ainda pela internet: cavallieri7@yahoo.com.br e www.myspace. com/fernandocavallieri. Revista Repúplica 13
Liora Mindrisz
Estêncil,
punk rock e metalurgia
Arte de Daniel Melim condensa efervescência das manifestações dos anos 1980
A
infância em São Bernardo nos anos 1980 em meio à efervescência das greves metalúrgicas, Diretas Já, movimento punk rock e outras manifestações populares forjou Daniel Melim, artista com trabalho consolidado, que expõe a própria história e a da região em suas obras. Herdeiro das mobiFoto: Diego Barros
lizações sociais do ABC, é afiado na crítica e interessado com o que acontece ao redor. Antes de colorir o mundo, trabalhou como metalúrgico nos anos 1990, mas não estava satisfeito. Feliz era com lápis e papel na mão, criando histórias em quadrinhos e outros desenhos. “Como em casa as referências eram meu pai, metalúrgico, e minha mãe, professora, resolvi tentar o caminho acadêmico e me inscrevi em faculdade de Educação Artística”, relembra. E por que não artes plásticas? Simples: “Na realidade da época parecia impossível viver de arte. Pensava em como iria me sustentar e dar aula era opção que combinava mais comigo do que trabalhar com manutenção de equipamento de medição”, conta. A então impossibilidade daqueles dias, hoje é realidade. Daniel Melim vive dos quadros que vende e dos trabalhos que cria ou para os quais é contratado, a maioria relacionada com a sua maior escola de artes, o grafite. Aulas, só no projeto que idealizou e que toca até hoje em favela próxima de onde foi criado e ainda mora,
Daniel Melim: impossibilidade de viver de arte ficou no passado 14 Revista Repúplica
o Jardim Limpão. “O projeto surgiu da ideia de trabalhar com intervenção urbana junto à comunidade, levando outras referências ao local, sensibilizando moradores por meio do grafite, fugindo da ideia hipócrita de deixar a favela mais bonita, mas de humanizar os espremidos becos e vielas”, detalha. O projeto começou em 2006, mas em 2010 foi contemplado pelo Programa para Valorização de Iniciativas Culturais (VAI-SBC). A vida artística nasceu nas ruas do ABC nos anos 2000. “Comecei a sair para grafitar com um grupo de amigos que denominamos Ducontra. O grupo foi minha escola porque tinha muitas referências de arte e a troca era muito grande”, relembra. No início, Daniel Melim desenhava à mão livre e utilizava o estêncil para ajudar. Com o tempo, a técnica do estêncil se tornou base para o trabalho, ao qual incorporou elementos à mão livre. Altos voos Em paralelo, fanzines ajudavam a divulgar o trabalho. Confeccionados de forma caseira e com poucos recursos, mostravam o que andava acontecendo pelas ruas principalmente para os colegas do ABC. Por volta de 2005, quando nem dar aulas estava trazendo mais alegria, montou portfólio e decidiu percorrer as galerias de arte de São Paulo. Quando chegou à então recém- inaugurada galeria Choque Cultural, já estava na mira de Eduardo Saretta, um dos sócios que conhecia e admirava o trabalho. Daniel Melim fez nome em São Paulo – onde até hoje é mais reconhecido do que na cidade natal. Expõe na galeria que o adotou e em 2006, levou as obras para o Museu Afro. Depois voou mais longe, participando da Bienal de Valência e expondo na Contemporary Galery de Londres, em 2007. No ano seguinte foi a Paris e a
Fotos: Divulgação
CULTURA
Exposição coletiva na Suíça: antes, Londres e Paris
Aulas no Jardim Limpão: intervenção urbana junto à comunidade Londres para mais exposições de pinturas nas ruas. No ano passado, participou de exposição coletiva na Suíça. Não tão distante, mas alto também foi o vôo de pintar no MASP (Museu de Arte de São Paulo) em 2009. De Dentro para Fora, de Fora para Dentro foi o nome da exposição que levou artistas urbanos brasileiros para um dos espaços de arte mais conservadores do país. Mas, de altura, pássaro não tem medo. Este ano, patrocinado pela empresa aérea holandesa KLM, pintou prédio na avenida Prestes Maia,
na região da estação da Luz, em São Paulo. Com proporções incomuns, o trabalho ganhou notoriedade e estampou até capas de jornais. Depois disso, foi convidado pela Prefeitura de São Bernardo para ajudar na revitalização de espaço no bairro Sítio Bom Jesus. Chamou cinco artistas da região e, juntos, coloriram um mural de 191 metros de extensão, com altura e texturas irregulares, intitulado projeto Mural 191. Por mais que pintar telas sempre tenha sido um desafio interessante, Melim revela que a rua tem um toque
especial. “Pintar na avenida Prestes Maia foi algo muito intenso. Foram 20 dias subindo e descendo e a gente acaba convivendo com quem utiliza o espaço público. No Sítio Bom Jesus também. Tinha morador que observava sem dizer nada e a senhora que convidava para almoçar na casa dela”, conta. Porém, a grande diferença entre rua e galeria é outra. “O artista que quer passar mensagem, precisa equalizar tudo quando pinta na rua, porque não há tempo de quem está passando pela sua obra de carro, condução ou a pé assimilar muitos elementos. O lado bom é que o alcance é maior. Já na galeria eu penso meu trabalho de outra forma, porque há mais tempo pra produzir e o espectador tem o tempo que quiser para observar e entender a mensagem”. Daniel Melim não nota só a evolução no próprio trabalho. Vê mudança na forma de a sociedade enxergar a arte urbana e os artistas. “Acho que estamos começando a ter abertura de pensar a cidade como um todo, unir o projeto arquitetônico à estética. Isso é algo que já aconteceu, principalmente nas décadas de 50 e 60, quando arquitetos e artistas se uniram para fazer projetos juntos”, diz. Revista Repúplica 15
Cultura
Liora Mindrisz
Shayane Servilha
Anagrama
de ouro
Frei Beto lança livro que conta história da mineração do Brasil
M
ineração no Brasil, saga familiar, romance policial. Tudo no novo livro de Frei Betto, Minas do Ouro, lançado em setembro de 2011 pela editora Rocco, quando da comemoração de 300 anos das cidades mineiras de Ouro Preto, Mariana e Sabará, que, como muitas outras, passaram por intenso processo de mineração. O autor percorre cinco séculos narrando a trajetória da família Arienim. Se existe? Sim, mas em cada geração que viveu em Minas Gerais na época. Não à toa, a escolha do nome é um anagrama: mineira, de trás pra frente. O tempo dedicado entre pesquisas e escrita foi de 13 anos. Mas a concepção da história data da infância. “Quando criança, convivi com babás e cozinheiras cujos familiares trabalhavam na mina de Morro Velho, em Nova Lima (MG), que no século XIX era a maior e mais profunda mina de ouro do mundo. As histórias que me contavam sobre acidentes, desabamentos, doenças pulmonares, impressionavam. Aquilo ficou em minha cabeça”, relembra. Nos anos 80, Frei Betto decidiu escrever algo sobre a fadada mina. “Ao iniciar a pesquisa, me deparei com a história de Minas Gerais e, em consequência, do Brasil”. Com o projeto ampliado, o resultado virou um romance de 270 páginas que, por meio da ficção, remonta a exploração de ouro e diamante. “O processo de criação literária, sobretudo de ficção, é sempre surpreendente. A imaginação trabalha o tempo todo. Cada livro consultado sobre a história de Minas suscitava inúmeras ideias para o desenrolar da narrativa”, conta. Minas do Ouro é o segundo romance histórico de Frei Betto. O primeiro, Um Homem Chamado Jesus, é versão romanceada dos evangelhos. Com 16 Revista Repúplica
Foto: Divulgação
Frei Beto: desafio é não deixar que a história supere a ficção a experiência, o escritor, que soma mais de 50 obras publicadas, aproveitou o crescimento do interesse dos leitores pelo gênero, mesmo sabendo das dificuldades. “O desafio do romance histórico é não deixar que a história supere a ficção, pois se isso acontece, o livro vira mera vulgarização da história. Pelo que diz a crítica especializada, consegui fazer com que a trama das 10 gerações dos Arienim prevalecesse sobre o fundo histórico, a ponto de o leitor ficar sem saber se tal fato é resultado de pesquisa ou fruto da imaginação do autor. Minas do Ouro tem, além disso, viés de romance policial, o mistério em torno de um mapa do tesouro que passa de geração em geração”, instiga. Em dezembro, Frei Betto voltou para o ABC para apresentar e autografar a a nova publicação na Livraria Alpharrabio, em Santo André. A carreira literária soma diversas obras sobre a ditadura militar, época em que esteve ativamente presente na região. “Trabalhei 22 anos no ABC, de 1979 a 2002, como assessor da Pastoral Operária e também do Sindicato dos Metalúrgicos, onde ministrei cursos de educação popular”, conta. “Me senti em casa no lançamento realizado no Alpharrabio, até pela amizade que tenho com os donos. Na ocasião houve boa afluência de público e um debate interessante em torno da criação literária, do trabalho ficcional, centrado no Minas do Ouro”.
COMPORTAMENTO
Feminista não, feminina Dia Internacional da Mulher reafirma necessidade de luta em favor da igualdade de gênero
M
ãe, avó, professora universitária, advogada e presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santo André, Heleni Barreiro de Paiva Lino sempre foi ligada a questões de gênero, mas garante que não é feminista. “Sou a favor do ser humano e dos não humanos também. Mas a mulher, especialmente, sempre foi mais vítima de violência. Sempre fomos tratadas com desigualdade e isso precisa acabar”, afirma. Foi pela luta a favor dos direitos de mulheres e homens que Heleni foi uma das ganhadoras do Prêmio Divas 2012, oferecido pela ONG ABCDS, que defende a causa LGBT. “O prêmio não faz parte apenas da classe LGBT. É para pessoas que fazem a diferença nas causas humanas, tanto para mulheres quanto para homens. A Heleni é exemplo de conduta e de Foto: Diego Barros
mulher”, diz o presidente da organização, Marcelo Gil. É na pluralidade que reside o grande diferencial das mulheres, que detêm capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo e funções distintas. “A mulher tem muitas obrigações que o homem não tem. Consequentemente, nossas prioridades também são diferentes. Enquanto a presidenta Dilma e a chanceler alemã, Angela Merkel, discutiam os rumos da economia mundial, na mesma semana os homens debatiam FIFA e Copa do Mundo. Nossa visão amplificada do mundo é o nosso grande diferencial”, diz a advogada. Na OAB, a comemoração ao Dia Internacional da Mulher deste ano trocou as tradicionais palestras jurídicas por estúdio para ensaio fotográfico de cada advogada da região. “Foi uma forma diferente que encontrei para mostrar a elas o quanto são importantes na sociedade. Que temos de ser fortes e sensibilizadas. É um mimo que elas estão adorando”, orgulha-se. Mesmo o ABC sendo o precursor de grandes lutas que transformaram o país, Heleni defende a tese de que a mulher teve papel ínfimo nessas conquistas. “Até nos dias de hoje, a participação ainda é pequena. Estamos caminhando para uma sociedade onde não terá divisão de gênero. Acredito que dentro de 10 anos vamos tomar as rédeas de tudo. O espaço das mulheres vai crescer muito mais”, profetiza. E o espaço cresce, apesar da discriminação. Aprovado recentemente, o projeto de lei do deputado federal Marçal Filho (PMDB-MS) prevê multa para empresa ou empregador que pagar mais para homens do que mulheres no exercício da mesma. O valor estipulado é de cinco vezes a diferença não recebida durante todo o período de prestação de serviços. Dados do Censo, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), revelam que em 2010 mulheres recebiam cerca de 70% do valor do salário de um homem. Na média, elas recebiam R$ 983 por mês, enquanto que eles somavam R$ 1.392.
Heleni de Paiva: PrêmioDivas 2012 pelo trabalho contra discriminação Revista Repúplica 17
capa
Tuga Martins
Foto: Diego Barros
A
ntes que etiquetas Made in Brazil sumam das prateleiras do país e do mundo, as centrais sindicais preparam verdadeira batalha em 2012 que propõe unir trabalhadores, empresários e governos contra os efeitos da crise internacional. Mobilizadas em defesa da indústria nacional, desenvolvimento e emprego, exigem políticas que estanquem processos que levem à desindustrialização. “Tem de ter cabeça e agir em conjunto com empresariado, bem como com demais setores produtivos. Temos diversas demandas junto ao governo e ao empresariado para deter este movimento antes que comprometa a produção nacional”, alerta Miguel Torres, vicepresidente nacional da Força Sindical e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes. Embora ainda pareça discreto, o movimento em direção à desindustrialização já deu sinais devastadores. A maior parte dos produtos de tecnologia que agregam valor à mão de obra é importada.
Desindustrialização: sinais macabros começam a aparecer 18 Revista Repúplica
Déficit na balança comercial da indústria foi de R$ 93 bilhões em 2011
Miguel Torres: carros importados que entram no país em 2011 equivalem à produção da Fiat ou GM
Foto: Mário Cortivo
Centrais sindicais se unem em defesa da produção nacional antes que processo de desindustrialização atinja o país
Foto: Yugo Koyama\Sindicato de Mogi
Antes que o pior aconteça
Cícero Martinha: nos últimos 10 anos, massa salarial dos associados em Santo André não cresceu CEI (Coeficiente de Exportação e Importação) aponta que o consumo de importados é o maior dos últimos nove anos. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior endossa o fato com o registro de déficit comercial em 2011 da maioria das montadoras. O déficit na balança comercial
da indústria foi de R$ 93 bilhões em 2011. “Só de automóveis importados, em 2011 entraram 880 mil unidades no país, número equivalente à produção de Fiat ou GM, que geram cerca de 30 mil empregos cada uma”, diz Miguel Torres. O aumento do IPI dos importados ajuda a segurar o consumo desenRevista Repúplica 19
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Fotos: Arquivo
rios de outros setores antes que tenhamos o famoso abraço dos afogados”, diz Miguel Torres, que assumiu em dezembro de 2012 a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da Força Sindical cuja linha de atuação está focada em acordo coletivo unificado, data base, política de segurança e saúde, jornada e piso nacional. “Temos muita atuação nas greves relacionadas às obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), afirma.
Banda Nacional usa instrumentos chineses, assim como o projeto de música em escolas mantido pelo governo federal
20 Revista Repúplica
Agosto de 2011: mobilização em frente à Assembléia Legislativa em favor da aprovação das 40 horas freado, mas como tem prazo, demanda políticas mais estruturais voltadas à inovação tecnológica. Embora definidos no Plano Brasil Maior, os Conselhos de Desenvolvimento ainda não foram instituídos e assim as ações em favor da produção nacional acabam postergadas. “Temos de debater vantagens e dificuldades para deixar nossos produtos mais competitivos”, defende o sindicalista. O crescimento na importação da Volkswagen de São Bernardo em 2011 foi de 31,7%, exportou US$ 1,9 bilhão e importou US$ 2,2 bilhões. A Ford exportou US$ 1,5 bilhão e importou US$ 1,8 bilhão. O desequilíbrio da balança comercial das montadoras deságua em toda a cadeia. “Estamos levantando as demissões desse início de 2012 em razão da diminuição de pedidos para autopeças”, afirma o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino da Silva, o Martinha. A principal preocupação é o sucateamento da mão-de-obra nacional enquanto o mundo avança em qualificação. “Já virou lenda a história de que metalúrgico do
ABC ganha bem”, dispara o sindicalista. Martinha defende ação conjunta de medidas que envolvam trabalhadores, empresários e a sociedade civil, na qual leve o governo a montar estratégias de médio e longo prazo para a desoneração tributária. “Os empresários também precisam descartar o pensamento imediatista e reduzir a margem de lucro a fim de tornar os produtos mais competitivos”, afirma o sindicalista. Para ter ideia das preocupações das centrais, a farda do Exército brasileiro vem da China. “A indústria nacional de instrumentos musicais está acabando. É uma das mais antigas do país”, lamenta Miguel Torres, e continua: “A Banda Nacional usa instrumentos chineses, assim como o projeto de música em escolas mantido pelo governo federal”. A contrapartida todos conhecem: os chineses compram apenas commodities brasileiras. Em plena campanha pelo trabalho decente, o mercado brasileiro absorve produção chinesa que não segue regras trabalhistas. “Acredito que pela primeira vez vamos conseguir a união de trabalhadores e empresá-
Defensores do emprego: dirigentes participaram da paralisação em defesa da indústria nacional
Fibra local Eleito em 2009 presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, Miguel Torres acentua gestão direcionada à base geográfica. São 12 mil empresas que empregam 260 mil trabalhadores. A principal meta é ampliar a atuação do sindicato na base por meio de grupo de coordenadores de área. “Na base, a luta é pela redução de jornada porque ainda não existe legislação que reduza para 40 horas”, afirma. As vitórias são conquistadas em negociações individuais, mas cerca de 45% das empresas já acataram redução para 42 horas ou 40 horas. “Nos últimos anos conseguimos aumentos consideráveis da PLR e instituímos cursos para ativistas e delegados sindicais”, diz Miguel Torres. A ampliação da oferta de cursos atingiu cerca de mil delegados sindicais que fazem elo entre a entidade e a fábrica. “São trabalhadores atuantes e demandam formação e reciclagem constante do conhecimento”, afirma o presidente. Com a formação, no início de março cerca de 30 delegados serão incorporados à assessoria do sindicato nas bases e vão atuar junto aos diretores. “O projeto até o fim do ano é englobar 90 delegados nessa nova função”, adianta Miguel Torres. O sindicato mantém convênio com faculdades e mantém Etec (Escola Técnica) própria onde oferece cursos de tecnologia. A escola tem reconhecimento do MEC (Ministério da Educação) para emitir certificação.“Com certeza até junho de 2012 a escola será orgulho dos metalúrgicos”, orgulhase Miguel Torres. A capacidade inicial é para atender 400 alunos, mas existe a intenção de ampliar. Além dos cursos próprios, o sindicato mantém convênio com colégios, faculdades e escolas de idiomas em toda a Região Metropolitana. A proposta é tornar o ensino mais acessível a fim de reduzir a desigualdade social. A comunicação artística com a classe trabalhadora também recebe investimentos da entidade. Parceria com grupo de teatro comunitário enfatiza a dramaturgia social para debater a cidadania, despertar o senso crítico com relação à realidade de um cotidiano muitas vezes desumano e formar pessoas com sensibilidade social para mudar esta mesma realidade. O grupo de teatro comunitário está sediado no Palácio do Trabalhador. O lazer fica por conta do Clube de Campo em Mogi das Cruzes, que ocupa área de 92 mil metros quadrados, totalmente estruturados para entretenimento e descanso, e o Centro de Lazer em Praia Grande, colônia de férias que passou por reforma e foi reinaugurada em 2011. Os 13.620 metros quadrados valorizam a qualidade de vida da família metalúrgica.
Achatamento No meio disso, os trabalhadores da indústria acabam espremidos. “Verificamos achatamento salarial muito acentuada”, diz Martinha. Para ter ideia, levantamento feito recentemente mostra que nos últimos 10 anos a massa salarial dos trabalhadores associados do sindicato de Santo André simplesmente não cresceu. “O valor que o associado pagava é igual ou até menor”, testemunha o presidente. Em janeiro de 2002, média era de R$ 27 por associado/mês, equivalente a 1,5% da média salarial. Hoje o valor é de R$ 26. “O que aconteceu neste período foi a substituição de trabalhadores com salários mais altos por novatos contratados pelo piso”, detalha Martinha. A conta fica ainda mais assustadora se considerar que nos últimos 10 anos a categoria conquistou reajustes anuais em torno de 10%. A base metalúrgica de Santo André e Mauá acolhe cerca de 25 mil trabalhadores cuja média salarial é de pouco mais de R$ 1,6 mil. Mais de 70% da categoria recebe piso ou algo próximo do piso. “Vamos deflagrar campanha de aumento do piso empresa por empresa ao mesmo tempo em que negociamos a PLR do ano”, adianta o presidente. Revista Repúplica 21
economia
Shayane Servilha
Baque nos importados Foto: Mario Cortivo
De volta em dezembro de 2011, aumento do IPI atende reivindicação dos metalúrgicos e freia processo de desindustrialização
A
resposta do governo foi rápida à passeata em julho de 2011 no ABC, que reuniu metalúrgicos de CUT e Força Sindical contra a desindustrialização, motivada pela avalanche no mercado de produtos fabricados no exterior. Suspenso pelo STF (Superior Tribunal Federal) até a segunda quinzena de dezembro, o aumento de 30% do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para automóveis não fabricados no Brasil está de volta e protege a produção brasileira, bem como a empregabilidade no setor. Os percentuais ancorados no índice de nacionalização seguram os efeitos contra o conhecido processo de globalização, por meio do qual as grandes corporações multinacionais adotam estratégias de localização mundial das plantas industriais, sempre com o objetivo de reduzir custos e aumentar margens de lucro. Estão livres do aumento os automóveis com conteúdo nacional acima de 65% e produzidos no Mercosul e México, além das montadoras que mantêm centros de desenvolvimento tecnológico no Brasil.
A freada nas importações também colocou ponto de interrogação no sonho dos consumidores. Dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram que o crescimento das importações de veículos em setembro de 2011 foi de apenas 9,9% em relação a setembro de 2010, atingindo US$ 935 milhões. Em agosto do ano passado, quando a medida ainda não estava em vigor, as importações de automóveis somaram US$ 1,1 bilhão, com alta de 29% em relação ao mesmo período de 2010. O engenheiro Paulo Fernandes Carmo planejava comprar um importado até o fim de 2011, mas por conta da majoração dos preços vai repensar o investimento. “Quem quer um bom importado não vai comprar um carro fabricado no Brasil. O governo fez isso por causa dos chineses, então que o imposto subisse apenas para esses importados, que competem diretamente com os nacionais. Um carro que custa mais de R$ 100 mil não tem porquê ter aumento do IPI”, protesta. O objetivo declarado do governo é melhorar a competitividade do produto brasileiro e estimular a produção dentro do país. No entanto a medida interessa às líderes de mercado Fiat, Volkswagen, General
Motors e Ford, donas de 70% das vendas. Como o engenheiro não é o único a postergar o desejo de consumo, o aumento tributário começou a impactar as vendas a partir de outubro, quando o fluxo caiu bastante. “A loja já sente os efeitos da alta do imposto”, afirma Tom Pessoa, gerente de vendas da concessionária Kia Motors de Santo André. “Agora o cliente não tem incentivo de compra. Não vamos deixar de vender, porém foi bem mais complicado fechar o ano em alta, como estava planejado”, diz o gerente. Os importados ainda não concorrem diretamente com o nacional porque representam 25% das vendas. “No longo prazo, os automóveis estrangeiros podem vir a ser preocupação para as montadoras daqui, mas por enquanto as fábricas podem ficar tranquilas”, acredita Tom Pessoa. A Abeiva (Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores) defende que a importação também gera empregos e movimenta a economia do país. A atividade de importação responde por 35 mil empregos diretos de brasileiros, com investimentos de empresários que acreditam no setor de distribuição dos importados.
A Arte da comida Chinesa COMBINADOS
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Tom Pessoa: importados ainda não concorrem diretamente com o nacional 22 Novembro 84 Revista Repúplica de 2011
Revista Repúplica 23
Guilherme Oliveira
Emanuel Teixeira: indústrias brasileiras têm gastos 50% a mais que chineses e americanos
Grito pela isonomia
Diretor do Ciesp aposta no sindicalismo forte do ABC para conter desindustrialização
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iretor titular do Ciesp (Centro das Indústrias de São Paulo) de Santo André desde outubro de 2011, Emanuel José Viveiros Teixeira, tem o desafio de preservar os interesses do parque industrial do ABC. A tarefa é árdua uma vez que a região sofre processo de desindustrialização, assim como todo o país, em razão da avalanche de produtos importados no mercado nacional. “O ABC é muito observado no cenário nacional. As medidas e mudanças 24 Revista Repúplica
para amenizar a crise de 2008 partiram de negociações que ocorreram por aqui”, destaca. A aposta é na força do sindicalismo do ABC que vai gritar em nome de uma nova estrutura de desenvolvimento, a exemplo do que fez na década de 1970. “Nós não queremos medidas de simplificação e redução de custos do governo, queremos isonomia para poder competir com o mercado internacional”, enfatiza o diretor. Mesmo com incremento da
economia regional, o diretor coloca esse crescimento em alerta. “O setor automotivo está sendo basicamente montado no país, mas o desenvolvimento e o ferramental estão em outros países. Estamos exportando empregos, dando nosso mercado a outros países e nossa indústria não pode se comportar como plateia”, afirma. A restrição da circulação de caminhões na região, dificuldades em logística e obtenção de matéria-prima são fatores que dificultam o crescimento industrial local. “Precisamos saber se a região quer efetivamente a preservação da indústria, uma vez que com estes complicadores, a situação é preocupante. Isso sem dizer que já estamos perdendo mercado para cidades do interior de São Paulo”, diz. Mesmo com participação considerável do produto industrial brasileiro no mercado internacional, a competitividade em alto nível tem sido ínfima devido aos altos custos tributários. Dados da Ciesp/Fiesp revelam que 83% das indústrias não estão em dia com os impostos. “As indústrias brasileiras abrem a planilha de gastos com 50% a mais de custos que chineses e americanos. Se não tivermos isonomia, não vamos crescer. Qual o modelo que o país quer seguir? Ser apenas um exportador de commodities?”, indaga. Além das medidas para a preservação econômica, ele ressalta que também são necessários investimentos em questões sociais, principalmente em educação. “A indústria gera emprego de qualidade e é importante que o governo tenha boa educação para essa qualificação da mão-de-obra. Somente assim poderemos competir com os mercados internacionais de igual para igual”, defende.
Resgate
de virtudes Novo presidente da Acisa está disposto a gastar sola de sapato para conquistar novos associados
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epois de mais duas décadas sem alterar o comando, a Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) está prestes a passar por mudanças saudáveis rumo ao desenvolvimento da economia regional. A eleição de Evenson Robles Dotto para presidente, gestão de 2012 a 2014, foi ancorada na proposta de resgatar as virtudes da entidade. “Foi uma disputa positiva e saudável e espero que se torne rotina porque é daí que se tiram ideias para melhorar o relacionamento com o associado“, avalia.
Advogado com MBA em Gestão Empresarial, Evenson Dotto é diretor executivo do Diário do Grande ABC. “Vamos gastar sola de sapato para fazer contatos com comerciantes, principalmente nos bairros”, afirma. A proposta de buscar novos associados inclui apresentar aos empresários as vantagens que a Acisa oferece. “Vamos mostrar os serviços que disponibilizamos aos cerca de 3,5 mil associados, como proteção, cobrança, seguro-saúde e crédito, bem como destacar a im-
ECONOMIA
portância de unir a classe empresarial”, detalha. Antes de assumir a Presidência, Evenson Dotto foi diretor da entidade e admite que as ações tomadas até então eram insuficientes para acompanhar as necessidades do mercado. “A Acisa pode ser mais representativa, voltar a ser a instituição que todo mundo conhecia e respeitava, uma vez que buscava o crescimento contínuo do comércio e da indústria”, diz. A largada para o processo de resgate da Acisa está agendada para março, quando Evenson Dotto irá iniciar reuniões em bairros para ouvir de cada comerciante as dificuldades que envolvem a gestão dos negócios. Reclamações sobre violência e má iluminação serão encaminhadas à prefeitura. Como este ano haverá eleição municipal, o novo presidente irá abrir a Acisa para ouvir os projetos dos candidatos, principalmente os vinculados ao desenvolvimento econômico do município.
Evenson Dotto: reuniões em bairros para ouvir cada comerciante
Revista Repúplica 25
Foto: Diego Barros
Shayane Servilha
Foto: Diego Barros
economia
economia
Liora Mindrisz
Fotos: Divulgação
Chocolateiras: melhoria contínua dos produtos e divulgação sistemática em datas comemorativas
Capricho da produção artesanal contribui para o marketing dos produtos
Delícia regional Ribeirão Pires quer ser marco gastronômico com título definitivo de Cidade do Chocolate
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illy Wonka, personagem principal de A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl, que se prepare para a concorrência porque Ribeirão Pires caminha a passos gulosos em direção ao título definitivo de Cidade do Chocolate. Engana-se quem pensa que o frenesi
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em torno das delícias de origem asteca se limitam ao festival realizado a cada inverno. As Chocolateiras recebem constantes incentivos e apoio da Prefeitura e apostam na melhoria contínua dos produtos, bem como na divulgação sistemática, principalmente em datas comemorativas.
A aposta é ainda maior na páscoa, quando o chocolate reina nas mais diversas traduções. Desde fevereiro toda produção das Chocolateiras tem sido destinada ao feriado. Na campanha do último ano, o grupo de empreendedoras independentes vendeu cerca de dois mil itens, mesmo número registrado no Natal, quando foram comercializados bombons, trufas e até barras de chocolate. “Consideramos a venda dos produtos um sucesso, garantido pela qualidade dos chocolates e pela criatividade e cuidado que as Chocolateiras possuem com cada item”, revela Luciana Nagy, assessora de vendas das Chocolateiras. O capricho da produção artesanal contribui para o marketing dos produtos, cada vez mais conhecidos na cidade e na região. “Em janeiro já tínhamos pessoas interessadas em comprar itens do catálogo de Páscoa”, comemora a assessora. Ovos e bombons terão embalagens e rótulos exclusivos, com a marca do grupo. Sem espaço específico para comercializar a produção, as Chocolateiras de Ribeirão Pires vendem por encomenda. Assim como no Natal, as empreendedoras divulgam ca-
tálogo com as delicias pascais, que podem ser solicitadas por telefone. O número é divulgado pela Prefeitura mais próximo à data, que em 2012 cai em 8 de abril. Novidade na Páscoa deste ano é a exposição dos produtos em empresas da cidade. Além da campanha de Páscoa, estão previstas ações para fomentar as vendas para o Dia das Mães, Dia dos Namorados, além do carro-chefe, o 8º Festival do Chocolate. Fomento A Prefeitura esta empenhada em tornar a cidade marco gastronômico, com expertise em chocolates. Por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Emprego e Renda da cidade, apóia as Chocolateiras com formação e qualificação profissional que incluem cursos, palestras e seminários, além de orientação sobre empreendedorismo. “O apoio da Prefeitura ao trabalho das Chocolateiras é um instrumento de incentivo à produção que contribui para a divulgação da cidade. Além do Festival do Chocolate, trabalhamos para que Ribeirão Pires seja conhecida também pela qualidade dos chocolates”, conta Marcelo Dantas, secretário-adjunto. Revista Repúplica 27
João Schleder
Foto: Diego Barros
ESPORTES
Dennis Albarello, Vinícius Ramalho e Denis Constantino: Brasil tem pelo menos três modalidades de botão profissional
Brincadeira de gente grande Febre por gerações, botão vira esporte reconhecido e passa a chamar-se futebol de mesa
N
ão se sabe ao certo quando nem onde surgiu o futebol de botão. O fato é que essa brincadeira de criança acabou se tornando um esporte reconhecido que ganhou até outro nome: futebol de mesa. Mas o praticante é chamado de botonista. Há quem se lembre do tempo em que qualquer pecinha redonda se transformava em atacante, a caixinha de fósforo era o goleiro e uma superfície lisa o próprio estádio do Morumbi. “Meu primeiro contato com o botão foi ainda durante a infância, com 7 anos. Eu e meus dois irmãos fazíamos campeonatos entre a gente. Tinha a Copa do Mundo, o 28 Revista Repúplica
Mundial de Clubes, o Campeonato Brasileiro. Jogávamos durante meses, mas às vezes o torneio era interrompido por conta de discussões. Era muito divertido”, lembra o engenheiro civil Denis Constantino. Naqueles tempos, mesa de jantar e tapete eram campo ideal para receber diversos clássicos brasileiros e mundiais. “Nós comprávamos os times em bancas de jornal. Vinham 10 botões, um goleiro com uma haste de plástico atrás, a trave e dois disquinhos que eram as bolas. Cheguei a reunir mais de 50 equipes. O grande barato era ir atrás de relíquias, como times de escalações diferentes”, conta.
modalidade 12 toques Conhecida popularmente como Regra Paulista, a modalidade 12 toques, como o próprio nome já diz, permite que o botonista tenha posse de bola por no máximo 12 toques, sendo que se até o décimo segundo não houver chute a gol, será punido com tiro livre indireto, cobrado do local onde a bola estiver estacionada. Cada botão, obedecendo limite coletivo, terá direito a três toques e se ocorrer um quarto será punido com tiro livre indireto, cobrado onde ocorreu o toque excedente. As partidas duram 20 minutos e são disputadas em dois tempos de 10, com intervalo máximo de cinco entre a primeira e a segunda fase. Para mais informações acesse o site da Federação Paulista de Futebol de Mesa: http://www.futmesa.com.br.
Hoje, a brincadeira é séria. O engenheiro é botonista profissional desde 2001. “Comecei a pensar em me associar junto à Federação Paulista de Futebol de Mesa, em 2000. Após um ano, encontrei equipe em Mauá. Foi quando, em 2002, ajudei a montar o time de botonistas do Meninos Futebol Clube, em São Bernardo”. Apesar de toda a seriedade, Denis Constantino sempre houve gozações. “O pessoal sempre tira um sarro, mas porque não conhece. Eu mostro, explico que a coisa é séria, com regras, federações, campeonatos”, diz. Norma, aliás, é o que não falta no futebol de mesa. No Brasil existem pelo menos três modalidades do botão profissional: um, três e 12 toques (veja box), que é a mais difundida no Estado de São Paulo. Ronaldo e Sócrates juntos Corintiano fanático, o bancário Dennis Albarello, acredita que a regra 12 toques é a mais equilibrada. “Com certeza é a modalidade mais técnica, pois permite pensar mais o jogo e desenvolver jogadas. Quem joga o 12 toques, dificilmente se acostumaria com as outras modalidades. Independentemente do número de palhetadas permitidas, o que não pode faltar na mesa de jogo para o bancário são 11 jogadores do Timão. “Hoje estou atuando com os melhores atletas que vi vestindo a camisa do Corinthians. A equipe é formada por Ronaldo (goleiro), Gamarra, Chicão, Kléber, Vampeta, Ricardinho, Tevez, Neto, Ronaldo fenômeno e por aí vai”, vibra. Com coleção de 20 times, Dennis Albarello acredita que o grande barato do futebol de mesa é justamente este. “O engraçado é que você pode unir craques que nunca teriam a possibilidade de jogar juntos. Por exemplo, você consegue
colocar o Sócrates junto com o Ronaldo”, afirma. Paixão de pai para filho Influenciado pelo pai, o analista de serviços Vinícius Ramalho sempre encarou o futebol de botão com seriedade. “Meu pai jogava no Clube da Volks. Então, com cinco anos eu já usava botões oficiais e aos 14 anos, mesmo amador, encarava jogadores federados em torneios oficiais”, orgulha-se A primeira equipe que Vinícius Ramalho integrou era de Socorro, no interior paulista, onde tinha parentes. Por conta da distância, resolveu que deveria montar time próprio e realizar antigo sonho do pai. “Este sempre foi o desejo dele. Por isso, em 25 de fevereiro de 2002, fundamos equipe de botonistas no Meninos Futebol Clube. A sala dedicada ao esporte leva o nome Márcio Roberto Ramalho, que infelizmente, faleceu antes”, emociona-se. Prova de que o botão está no sangue da família Ramalho, Vinícius é um dos melhores atletas da modalidade no estado e, recentemente, tornou-se vice-presidente da Federação Paulista de Futebol de Mesa. “Até o ano passado, o pessoal brincava que eu era o Vasco, pois sempre chegava na final e perdia. Mas essa sina acabou e, em 2011, fui campeão da série bronze (equivalente a terceira divisão do esporte)”, comemora.
Noutras épocas, mesa de jantar e tapete eram campo ideal para receber clássicos brasileiros e mundiais
Serviço: Se estiver interessado em conhecer mais sobre a modalidade, o Clube dos Meninos permite que novos praticantes façam alguns treinos, sem necessidade de ser sócio. Depois, se houver interesse, é preciso filiarse ao clube. Meninos Futebol Clube - Av. Caminho do Mar, 3222, Rudge Ramos – São Bernardo. Dias dos treinos: quinta-feira, às 20h; sábado, às 14h. Revista Repúplica 29
esportes
João Schleder
Liberdade a remo
Luis Carlos e Thiago Cenjor: recomeços e medalhas
Modelo de determinação
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ditado esporte é vida recebe contornos mais definidos quando se torna chave para recomeços. Depois de vencer a batalha da sobrevivência, deficientes físicos e sequelados de acidentes encontram no desporto nova motivação. Baleado durante assalto em 2001, Thiago Caro Cenjor ficou paraplégico. A busca pelo esporte veio cinco anos depois e hoje, o então estudante de Engenharia, é campeão brasileiro de kart adaptado e campeão nacional de canoagem da modalidade V1 200 metros. “Sempre gostei da prática esportiva, mas, naquele momento precisava retomar minha vida. Por isso priorizei o tratamento médico e em apenas um mês voltei a trabalhar e a estudar. Foi quando em 2006, foi convidado a participar das 500 milhas da Granja Viana de Kart”, conta. Não satisfeito com o automobilismo, Thiago Cenjor queria novos desafios. No ano passado, foi apresentado à canoagem pelo amigo Fernando Fernandes, ex-BBB que ficou paraplégico em 2000. “Como sempre gostei do contato com a natureza, já que surfava, aceitei o desafio. Gostei desde o primeiro dia, pois a canoa me deu sensação de liberdade. Na água, todos são iguais, não dá para ver a cadeira de rodas”, diz. Com apenas dois meses 30 Revista Repúplica
de treinamento, voltou do Campeonato Brasileiro de Paracanoagem com quatro medalhas na mochila. Este ano, o para-atleta, que faz parte do projeto da prefeitura de São Bernardo, EcoJuventude, participará dos campeonatos Mundial, Sul-Americano e Pan-Americano. O objetivo é garantir experiência para participar dos Jogos Paraolímpicos
Programa EcoJuventude, da Prefeitura de São Bernardo, funciona no Parque Estoril e oferece várias atividades adaptadas voltadas ao meio ambiente além da canoagem de 2016, no Rio de Janeiro. “Desde a primeira vez que entrei no caiaque, já pensava em Olimpíadas. O esporte pelo esporte, não tem significado para mim. Quero vencer”, determina-se. O então dançarino profissional Luís Carlos Cardoso da Silva ficou paraplégico em 2009 em razão de bactéria que atingiu a medula. Um ano depois, acompanhou reportagem na TV sobre as vitórias de Fernando Fernandes. “Comecei a pres-
tar atenção e me identifiquei. Ele falou que a canoagem estava sendo o combustível da vida e eu pensei: também quero este combustível para mim”, lembra. Não demorou muito para Luís Carlos estar dentro de uma canoa no Parque Estoril, em São Bernardo, dando as primeiras remadas em direção à liberdade. “Fernando e o técnico Paulo Barbosa me ajudaram demais. Eu estava com medo, me sentindo fragilizado, mas eles me tranquilizaram. Quando percebi que estava dentro d’água, livre, foi como se tivesse renascido. Infelizmente eles deixaram de treinar lá e eu tive de parar”, lamenta O hiato de treinamento foi breve e Luís Carlos retomou a atividade por meio do EcoJuventude, que além de canoagem, oferece gama de atividades voltadas ao meio ambiente. “Este programa me ajudou a descobrir que tenho talento para a coisa”, brinca. Assim, como Thiago Cenjor, com poucos meses de treino, conquistou duas medalhas no brasileiro da categoria. “A canoa é 60% de mim hoje. Comecei sem nenhuma intenção, pensando em me divertir, e vi que posso ir mais longe. Voltei do campeonato brasileiro com medalhas e quero mais. A canoagem deu forças para voltar a estudar e buscar uma nova profissão. Faço convite a
Foto: Divulgação
Deficientes físicos encontram nova motivação na prática da canoagem
todos, deficientes ou não, para experimentar a sensação da canoa, é maravilhoso”, sugere. O esporte adaptado data da primeira década do século 20 com competições para deficientes auditivos. Mas a oficialização da prática foi entre 1944 e 1952, quando os soldados da Segunda Guerra Mun-
dial voltaram para casa com vários tipos de mutilações e outras deficiências físicas. As primeiras modalidades tiveram origem na Inglaterra e nos Estados Unidos. No Brasil, o esporte adaptado surgiu em 1958 e desde 1960 acontecem os Jogos Paraolímpicos. Nos últimos cinco anos, o Esporte Adap-
O modelo Fernando Fernandes que ficou conhecido pela participação na segunda edição do Big Brother Brasil, da TV Globo, teve a carreira interrompida por acidente de carro. Paraplégico, iniciou na canoagem ainda no Centro de Reabilitação Sarah, em Brasília, onde o esporte é utilizado de forma lúdica. “Quando me vi sentado em um caiaque no Lago Paranoá, com o vento batendo em meu rosto e aquela natureza incrível ao meu redor, aquilo me proporcionou sensação de liberdade tão grande, e mais do que isso foi sentir novamente a sensação de capacidade”, diz. A partir dali, passou a encarar o esporte com seriedade e com objetivo ambicioso: participar do Campeonato Mundial da modalidade, marcado para agosto de 2010. “Passei mais quatro meses em Brasília treinando e aprendendo as técnicas da canoagem com a Diana Nishimura, e no fim de março finalmente voltei para casa, em São Paulo, onde conheci meu treinador e amigo Paulo Barbosa”, conta. Em dia 29 de agosto daquele ano, Fernando Fernandes tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar um campeonato mundial de canoagem.
tado brasileiro vem evoluindo, mas por falta de informação e, principalmente, de condições específicas para a prática, muitos portadores de deficiência ainda não têm acesso. Para mais informações sobre o EcoJuventude, acesse o site www. saobernardo.sp.gov.br ou ligue para 4126-3717. Revista Repúplica 31
esportes
João Schleder
Nem tão
redonda assim
Adorável gorducha dos brasileiros começa a ganhar novos contornos com crescimento do rugby
32 Revista Repúplica
Aprenda mais A versão mais tradicional do rugby é o 15-a-side, ou simplesmente Rugby 15. O número faz referência à quantidade de jogadores em cada equipe. De qualquer forma, outras modalidades como Rugby 7, Tag e Beach Rugby vêm ganhando musculatura nos últimos anos. Principalmente o Rugby 7, modalidade dinâmica do esporte com apenas sete jogadores em cada equipe, tem chamado a atenção de torcedores e atraído novos praticantes em todo mundo depois do retorno às Olimpíadas, com estréia prevista em 2016 no Brasil.
acompanhar a modalidade pela televisão. “Ele sempre se reunia com os amigos para assistir aos jogos em casa e eu acabei me interessando. Vim, treinei, gostei e nunca mais larguei”, garante a atleta do ABC Rugby Clube, time formado em 2008 por ex-alunos da Universidade Federal do ABC (UFABC). As Seleções Brasileiras de Rugby também são bom referencial do otimismo e evolução do esporte não somente no ABC, mas no país. Nos últimos três anos, o Brasil projetou-se da 45ª para a 27ª posição no ranking da International Rugby Board (IRB) na categoria Masculina Adulta.
Já no Feminino, a Seleção Brasileira conquistou a 10ª posição no último Campeonato Mundial realizado em Dubai-EAU, em 2009 – a melhor posição alcançada por uma equipe brasileira em Mundiais. Além disso, a Seleção Brasileira Feminina é reconhecida como a melhor equipe da América Latina, à frente de países tradicionais no rugby como Uruguai, Chile e Argentina. Murillo Ichikawa, presidente e capitão do ABC Rugby, tem explicação para posição feminina. “Os outros países da América Latina sempre tiveram fortes equipes masculinas, mas não femininas. Então, logo que o Brasil montou um time feminino, se destacou. Porém, acredito que em poucos anos o mesmo acontecerá no masculino”, afirma. Rugby x Violência Na mesma proporção em que o rugby floresce no Brasil, as críticas ao esporte ficam cada vez mais em evidência. Para a maioria dos praticantes, o principal é o preconceito. “As pessoas acham que o esporte é muito violento, pois não o conhecem”, contesta Ichikawa. De acordo com o capitão, não há violência no rugby, mas agressividade controlada. “Trata-se de esporte de contato, como muitos outros. Existem regras e o respeito
Jéssica Ferreira: costas machucadas e dois dedos quebrados
Fotos: Diego Barros
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oi-se o tempo da supremacia das bolas redondas nos gramados brasileiros. A crescente paixão pelo rugby atribuiu novos contornos à gorducha mais amada do país. Não à toa, o número de praticantes do esporte não para de crescer no ABC, principalmente depois do anúncio do Comitê Olímpico Internacional (COI) em outubro de 2011, de que a partir dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o rugby voltará a fazer parte do cronograma permanente de modalidades da competição. “A cada treino, pelo menos, 10 novas pessoas aparecem interessadas em praticar”, afirma Alejandro Johnston Johnston, capitão e um dos fundadores do São Bernardo Templários Rugby, principal time da região. A equipe foi montada em 2007 e no início de 2012 reuniu 70 jogadores, dos quais 40 homens, 15 mulheres e 15 crianças. “Este ano tem sido um verdadeiro boom”, garante o capitão dos Templários. Para ele, a valorização do esporte deve-se também à massiva cobertura do esporte pelos veículos de comunicação. Nicoli Rodrigues é prova do aquecimento do interesse pelo rugby. Incentivada pelo irmão, que já praticava o esporte, começou a
Seleção Brasileira Feminina: reconhecida como melhor equipe da América Latina prevalece tanto entre adversários quanto pelo próprio árbitro”, sublinha Ichikawa. Se homens são alvos de preconceito por praticar esporte combativo, mulheres então causam espanto. “Quando falo que jogo rugby, primeiro as pessoas não sabem do que se trata. Quando explico, não acreditam”, diverte-se Nicoli. A prática já rendeu costas machucadas e dois dedos quebrados a Jessica Ferreira. “Também não tenho medo, muito pelo contrário. Quanto
mais me machuco, mas tenho vontade de jogar”, garante. Profissionalização Impasse para os praticantes de rugby no Brasil é a profissionalização do esporte. Cada vez mais, atletas talentosos emergem nos quatro cantos do país. Contudo, não encontram estrutura adequada para evoluir na modalidade. É o caso de Alejandro Johnston Johnston. Por falta de espaço no país, foi jogar no Chile. “Joguei
Nicole Rodrigues: preconceito por praticar esporte combativo três anos por uma universidade de lá, ganhando bolsa de estudos e ajuda de custo. Não era muito, mas algo que não se encontra por aqui”, lamenta. Das diversas equipes existentes no Brasil, apenas três pagam salários. “A maioria acaba jogando por amor ao esporte. É uma pena. Tenho dois amigos que foram atuar na terceira divisão da França, que oferece estrutura invejável. Quero seguir o mesmo caminho”, conta o atleta. Revista Repúplica 33
esportes
João Schleder
O bom filho à casa torna Sérgio do Prado trocou o Palmeiras pelo Santo André, clube que chama de lar
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O Santo André passa um dos momentos mais complicados da história. Depois de ter sido vice-campeão Paulista, em 2010, quando foi superado pelo supertime do Santos, a equipe dispensou grandes talentos, a exemplo de Bruno César, e despencou de forma meteórica. Atualmente, disputa a Série A2 do Paulista e a Série C do Brasileiro. Há três meses na função, Sérgio do Prado reconhece que não terá vida fácil. “Sei de todas as dificuldades, mas resolvi encarar o desafio. Entendi que tinha de voltar para ajudar a reconstruir o Santo André. Estou em casa, no clube que gosto”, afirma. Apesar de não ter nascido na reFoto: Diego Barros
ntes de reassumir o cargo de diretor de futebol do Santo André, Sérgio do Prado teve passagem conturbada pelo Palmeiras, onde foi contratado em 2009 para dividir a gerência do futebol com Toninho Cecílio. A missão era árdua: fazer com que o Alviverde voltasse a conquistar título nacional. Não deu certo e, após três anos, foi demitido por conta de discórdias com a comissão técnica, chefiada por Luiz Felipe Scolari. No ABC, porém, o desafio é completamente diferente de tudo o que já experimentou na função: levar o Ramalhão de volta à elite estadual e nacional, até a Copa do Mundo de 2014.
gião, o diretor tem motivos mais que sólidos para afirmar que está à vontade. Depois de ter sido árbitro por 13 anos, Sérgio foi convidado para supervisionar os campeonatos internos de futebol do Esporte Clube Santo André em 1993. Foi crescendo até se tornar o homem mais forte do clube, ficando apenas abaixo do presidente. Durante os 16 anos em que esteve à frente do futebol do Ramalhão, Sérgio foi fundamental na montagem do time campeão da Copa Estado de São Paulo, em 2003, e da Copa do Brasil, em 2004. No último ano na equipe do ABC, em 2008, conduziu o clube de volta à elite estadual e também à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. “Entendi que tinha encerrado meu ciclo e que era hora de sair”, justifica. Podridão Sérgio do Prado ficou nacionalmente conhecido por ter batido de frente com antigos peixões da cartolagem palmeirense, um dos clubes brasileiros mais conturbados politicamente. Suportou a pressão até ser demitido pelo atual presidente, Arnaldo Tirone. “O Palmeiras vive crise política. O ambiente é péssimo. Fui desligado juntamente com todos dos departamentos Administrativo, Jurídico, além da Assessoria de Imprensa. Não houve motivo. Existe uma podridão dentro do Palmeiras que está contaminando todo o Centro de Treinamento. O tempo vai dizer. O Campeonato Brasileiro deste ano vai trazer à tona toda a verdade”, profetiza. O desgaste no Palmeiras fez com que o dirigente negasse convites de outros grandes clubes e aceitasse a proposta do time do ABC.
Sérgio do Prado: levar Ramalhão de volta às elites até a Copa do Mundo de 2014 34 Revista Repúplica
Concurso de Fotografia Amador “Gente em Atividade” Regulamento Concurso Fotográfico “Gente em Atividade” 1. Disposições Gerais 1.1 O Concurso de Fotografia “Gente em Atividade”, promovido pela Revista República e a Agência RP8 Publicidade-Comunicação e Marketing, é aberto a fotógrafos amadores e sem limite de idade, desde que sejam Associados do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá e seus funcionários; 1.2. Poderão ser fotografadas apenas pessoas que estejam exercendo alguma atividade de TRABALHO – HOBY – LAZER ou semelhantes. 1.2 1.3. A seleção das fotos levará em consideração critérios estéticos da imagem; a mensagem transmitida pelo fotógrafo, aspectos da composição e cores da fotografia. 1. 4. Cada fotógrafo poderá participar com, no máximo, 03 (três) fotos. 1.5. haverão 02 (dois) ganhadores. Sendo 01 (um/uma) associado/da do sindicato e 01 (um/uma) funcionário/a do sindicato. 2. Das inscrições 2.1 As inscrições serão feitas exclusivamente por email no período de 20 de março de 2012 a 20 de abril de 2012. Para efeitos de recebimento das inscrições, será considerada a data de envio do email constante na mensagem. Não serão aceitas fotos entregues pessoalmente. 3. Do Material 3.1. Poderão ser enviadas somente fotos digitais. a) Devem ser enviadas em anexo no formato JPG, no tamanho mínimo de 20x30cm, em 300 dpi de resolução; b) Cada arquivo deverá ser nomeado com a seguinte informação: nome do participante. Ex: josedasilva_1.jpeg. 3.2. As fotos não poderão ser manipuladas digitalmente; 3.3. O material deverá ser enviado por email juntamente com o nome do participante, nº do RG, nº de associado, endereço e telefone. No caso de funcionário do sindicato, enviar documento que comprove. 4.0 A divulgação dos selecionados será realizada no dia 30 de abril de 2012 no site do sindicato. Após o comunicado de seleção, os autores das fotos terão uma semana para assinar e enviar o termo de liberação de imagem para fins de exposições públicas, incluindo no site da Revista República e do Sindicato. 5. Do julgamento: 5.1. As fotos serão avaliadas por uma comissão julgadora composta por profissionais da RP8 Publicidade – Comunicação e Marketing e jornalistas e fotógrafos da Revista República. 5.2.Os ganhadores serão notificados por e-mail ou telefone até 15 dias antes da premiação. 7. Da premiação: 1º lugar: matéria na Revista República e divulgação das fotos. 8. Disposições finais: 8.1. Todos os participantes do concurso asseguram desde já que são os detentores dos direitos autorais patrimoniais pertinentes à sua respectiva obra, mas permitindo o uso pelo Concurso para a divulgação nas mídias eletrônicas e impressas. 8.2. As fotos enviadas não serão devolvidas. 8.3. A comissão julgadora é soberana, compete a ela avaliar e resolver sobre os casos omissos neste regulamento, não cabendo recurso. 8.4. Este concurso é exclusivamente cultural, sem qualquer modalidade de sorte ou pagamento pelos participantes, nem vinculação destes ou dos vencedores à aquisição ou uso de qualquer bem, direito ou serviço, promovido pelos organizadores, de acordo com a Lei nº 5768/71 e decreto nº 70.951/72, artigo 30. 8.5. Serão sumariamente excluídos os participantes que cometerem qualquer tipo de fraude comprovada, ficando, ainda, sujeitos à responsabilização penal e civil. 8.6. Os organizadores do concurso não se responsabilizam por quaisquer custos incorridos pelos participantes para inscrição, confecção e envio dos trabalhos, divulgação dos vencedores, ou quaisquer outros custos relacionados ao concurso. 8.7. Não poderão participar do concurso quem não é associado do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá ou funcionário. 8.8. Quaisquer dúvidas sobre o concurso ou sobre o presente regulamento devem ser encaminhadas ao e-mail: concurso@ revistarepublica.com.br. 9. O não cumprimento de quaisquer das regras deste Regulamento poderá causar, a critério da Organização, a desqualificação da (s) fotografia (s) inscrita (s), e, conseqüentemente, do respectivo participante. 10. O ato de inscrição neste concurso implica na aceitação e concordância com todos os itens deste Regulamento.
Endereço de email para envio das fotos: concurso@revistarepublica.com.br *Funcionários e Associados do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá podem enviar sugestões de Concurso para a próxima edição da Revista República, que sairá no mês de maio/12. Revista Repúplica
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memória
Tuga Martins
Fotos: Diego Barros
Fotos: Divulgação
região acabou contagiada por nova expectativa de desenvolvimento, até então pressionada pela desindustrialização prometida para a década de 1990. Época de vacas magras e densa deterioração de indicadores sociais, as alternativas que brotavam no Paço de Santo André, atribuíam novas responsabilidades a cada cidade da região e ampliavam as dimensões do conceito de regionalidade. Direitos sociais e participação popular entraram para sempre no vocabulário do ABC. Da herança constam ainda ações no paisagismo urbano, programas de iluminação pública, além de parques e praças que expandiram o acesso ao lazer. Celso Daniel fomentou ainda a abertura de créditos internacionais, que permitiram a projeção de planos audaciosos. Projeto Eixo Tamanduatehy e Cidade Pirelli posicionaram Santo André em cenário empreendedor. A cidade ganhou
Celso Daniel: trajetória marcada pela ousadia deve virar documentário
Herança da transformação
A
expressão emocionada da socióloga Ivone de Santana denuncia que a tarefa de fazer balanço da produção intelectual do marido Celso Daniel pode despertar a região da abstinência de 10 anos da ousadia política implementada em Santo André nos governos 1989-1992, 1997-2000 e 2001-2002. A catalogação do acervo pessoal do então prefeito, que inclui biblioteca, manuscritos e estudos possibilitará à região, bem como ao país, reencontrar, estudar e adotar o modo inovador de pensar a sociedade brasileira, administrar a coisa pública e desenvolver o presente ancorado em percepção aguçada do futuro. “Decidimos doar porque acreditamos se tratar de legado imprescindível para o desenvolvimento do ABC”, afirma Ivone de Santana. Celso Daniel foi assassinado há 10 anos, 36 Revista Repúplica
quando exercia o terceiro mandato como prefeito de Santo André. A doação do acervo ao Consórcio Intermunicipal, do qual Celso foi idealizador, constitui riqueza contemporânea e referência para todo o país. Não fosse a morte prematura, talvez hoje o ABC despontasse como exemplo vivo desse novo conceito de cidades e relação regional. “Dado o pensamento do Celso sobre desenvolvimento em todas as áreas, tenho certeza que teríamos a cidade mais desenvolvida economicamente e, principalmente, no sentido urbano, Santo André seria referência”, afirma Michel Mindrisz. Vale lembrar que os últimos 10 anos revelaram Brasil pungente, detentor da sexta economia do planeta, que enriquece com prestígio e justiça social, o que potencializaria ainda mais ações progressistas. Quando assumiu a Prefeitura de Santo André em 1989, Celso Daniel promoveu verdadeiro choque na cidade. As práticas inovadoras romperam os limites de Santo André e a
Ivone de Santana: legado imprescindível para o desenvolvimento do ABC
arte com a revitalização da rua Oliveira Lima e a construção do modelo de saneamento integrado implantado no Semasa, serviu de base para a área de saneamento do Ministério das Cidades. Embora exista consenso de que a marca de Celso Daniel era ousadia, Ivone de Santana e Liora Santana Daniel planejam documentário que mostre os diferentes ângulos do então prefeito, professor e cidadão. Para se ter idéia, além das assertivas em administração pública, do acervo consta curso completo de Engenharia Civil,
manuscrito detalhado em cadernos universitários. A cineasta Tata Amaral está na lista de possíveis diretores. Antes de a homenagem ir para as telas, ato público realizado em 20 de janeiro de 2012, na Fundação do ABC, reuniu amigos e eternos aprendizes de Celso Daniel. Par ticiparam os prefeitos Luiz Marinho, de São Bernardo, Mário Reali, de Diadema, e Oswaldo Dias, de Mauá, os deputados Carlos Grana e Vanderlei Siraque, além do senador Eduardo Suplicy.
Direitos sociais e participação popular entraram para sempre no vocabulário do ABC
QUALIDADE DE VIDA
Calcule seu IMC
Shayane Servilha
Vida leve
O cálculo do IMC é feito dividindo o peso (em quilogramas) pela altura (em metros) ao quadrado.
Resultado Situação Abaixo de 17 Muito abaixo do peso Entre 17 e 18,49 Abaixo do peso Entre 18,5 e 24,99 Peso normal Entre 25 e 29,99 Acima do peso Entre 30 e 34,99 Obesidade I Entre 35 e 39,99 Obesidade II (severa) Acima de 40 Obesidade III (mórbida)
Cirurgia contra obesidade cresce no país, onde metade da população está acima do peso
38 Revista Repúplica
mitos e verdades • O paciente normalmente engorda em um ano de pósoperatório. Mito. Acontece se o paciente não seguir as recomendações médicas, como adotar dieta saudável e praticar exercícios físicos regularmente. • Mulher pode engravidar no pós-operatório. Verdade. O recomendado é que a paciente engravide depois de 15 meses da cirurgia. Anticoncepcionais orais devem ser evitados.
Alzira Nicoleti: tomar banho, dormir e pegar ônibus eram tarefas que torturavam
• A cirurgia causa problemas renais. Mito. Não há fatos comprovados de tendência para problemas renais. • Há tendência à anemia no pós-operatório. Verdade. As mulheres têm maior tendência à anemia, por conta da menstruação. Essa situação pode ser minimizada com a ingestão de alimentos ricos em ferro, ou, se necessário, com a utilização de suplementos vitamínicos. • O paciente sente muitas dores no primeiro mês do pósoperatório. Mito. As dores se manifestam somente no primeiro dia do pós-operatório. Devido ao gás carbônico inflado no abdômen na cirurgia, para a manipulação dos órgãos internos. • O paciente que sofre de gastrite pode ser operado. Verdade. Não existe nenhuma restrição cirúrgica para paciente com gastrite. • O paciente é obrigado a fazer cirurgia plástica corretiva depois da cirurgia bariátrica. Mito. Nem sempre é necessário fazer cirurgia plástica após o procedimento bariátrico.
Fotos: Diego Barros
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excesso de peso atinge quase metade da população adulta no país e são vários os fatores que causam obesidade mórbida, entre os quais alimentação excessiva, falta de atividades físicas, tendência genética e problemas hormonais. Hipertensão arterial, diabetes, problemas articulares e dificuldades respiratórias, devido ao excesso de peso, foram preponderantes para Alzira Moura Nicoleti realizar a cirurgia de redução de estômago. “Era impossível andar mais que três minutos. Tomar banho, dormir e pegar ônibus eram tarefas que me torturavam. Meu psicológico estava terrivelmente abalado. Sempre tive medo de cirurgia, mas não dava para continuar do jeito que estava. Depois da cirurgia, minha vida mudou completamente. Sou muito mais feliz do jeito que estou”, conta a dona-de-casa que aos 58 anos perdeu 65 kg depois da cirurgia bariátrica. A cirurgia de redução do estômago é indicada quando o índice de massa corpórea (IMC) é maior que 40kg/m² ou quando o indivíduo tem IMC inferior a 40kg/m², mas apresenta comorbidades, como hipertensão arterial, diabetes, hérnia de disco ou apneia do sono. Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE revela que no país inteiro e em todas as faixas etárias aumentou o percentual de pessoas com excesso de peso e obesas. O país tem 38,6 milhões de pessoas com peso acima do recomendado, o equivalente a 40,6% da população adulta. Deste total, 10,5 milhões são obesos. Como reflexo, o Brasil perde apenas para os Estados Unidos em número de obesos mórbidos e cirurgias de obesidade no mundo. As cirurgias bariátricas realizadas em hospitais particulares aumentaram cerca de 300% na última década. Em hospitais vinculados ao SUS (Sistema Único de Saúde), o aumento foi de 800%. Em 2011, o país realizou aproximadamente 60 mil, atrás do EUA com 300 mil. “Parecem ser muitas, mas o número de obesos cresce a cada dia. Seria necessário realizar no mínimo 500 mil cirurgias no ano para poder solucionar o problema gradativamente”, afirma Marçal Rossi, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). A decisão de operar deve ser acompanhada por uma equipe multidisciplinar, composta por endocrinologista, cirurgião, cardiologista, pneumologista, psicólogo e profissional de educação física. Dificuldade diante de simples tarefas do dia-a-dia, como andar,
Fabiana Freitas: qualidade de vida caiu demais depois que engordou
comprar roupa e dirigir, levaram Fabiana Monteiro de Freitas a procurar especialista para realizar a cirurgia. “Minha autoestima está muito baixa, ainda mais como mulher. Não tenho vontade de fazer atividades que fazia antigamente. Minha qualidade de vida caiu demais depois que eu engordei. O preconceito em ser obeso é outro fator que incomoda”, diz. O pré-operatório exige série de exames, como endoscopia, ultrassom abdominal e exames laboratoriais, que assegurem o bom resultado da cirurgia. “Essa é a parte mais chata e mais importante”, diz Fabiana, que tem incidência de obesidade na família. Apesar da relevância dos fatores genéticos, a situação pode ser evitada com educação alimentar desde a infância. Doces, frituras e refrigerantes podem ser consumidos, mas com moderação. “Alimentação rica em vegetais, carne magra e frutas, aliada a prática de exercícios físicos são fundamentais para uma vida saudável”, aconselha a nutricionista Gabriela Lopes Amaral. Cirurgias Atualmente há dois métodos mais utilizados, a videolaparoscopia e a laparotomia (aberta). Na cirurgia por vídeo são feitas de quatro a sete mini-incisões de 0,5 a 1,2 centímetros por onde passam cânulas das câmeras de vídeo. Na aberta é necessário um corte de 10 a 20 centímetros no abdômen do paciente. Das 60 mil cirurgias bariátricas realizadas em 2010 no Brasil, 35% foram feitas por videolaparoscopia, com taxa de mortalidade média é de 0,23%, contra 0,8% a 1% da cirurgia aberta. A videolaparoscopia é a mais recomendada pelo médico, porque oferece menos possibilidades de infecções. “A incidência de hérnia nos minicortes ocorre em apenas 2% a 3% dos pacientes. Na cirurgia aberta, 30% dos pacientes desenvolvem hérnia no corte”, explica a cirurgiã Simone Siqueira Revista Repúplica 39
Shayane Servilha
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oi por conta de rompimento na vértebra, devido ao excesso de peso nas horas de trabalho, que Edson Aparecido Marques foi demitido da empresa onde trabalhava. Sem informações, ele não sabia que tinha garantia de emprego no mínimo, 21 meses. “Alegaram que eu tinha o problema antes de entrar na fábrica. Com investigação, graças ao trabalho do sindicato, foi comprovado que meu problema foi devido ao esforço repetitivo onde trabalhava. Hoje sei que a saúde é o bem mais precioso”, afirma Edson. O diretor executivo do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Elenísio Almeida Silva, acredita que os trabalhadores precisam ser mais atentos em relação à saúde
Guilherme Oliveira
Sem saúde,
não dá
Acidentes de trabalho ultrapassaram 40 mil casos no país em 2011
Foto: Diego Barros
Foto: Diego Barros
QUALIDADE DE VIDA
Sindicato dos Metalúrgicos realizou seminários e palestras para informar e conscientizar sobre os direitos em relação a acidentes de trabalho
José Braz Filho: ABC rumo a maior conscientização sobre a doença
Edson Aparecido Marques e Elenísio Silva: trabalhador vende mão-de-obra e não saúde dentro e fora do ambiente de trabalho. “Quando ocorrer dor, mesmo que seja pequena, é importante ver a causa. O trabalhador vende mãode-obra e não saúde. As empresas têm de saber diferenciar isso. Se a saúde do trabalhador vier em primeiro lugar, consequentemente, a empresa será beneficiada financeiramente”, diz. Para ajudar na prevenção desses casos, no último dia 29 de fevereiro, o Sindicato dos Metalúrgicos realizou seminários e palestras para informar e conscientizar sobre os direitos em relação a acidentes de trabalho. Muitos estudos apontam que 40 Revista Repúplica
acidentes de trabalho são mais comuns, principalmente, entre funcionários de empresas terceirizadas. Pesquisa divulgada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) mostra que quatro em cada cinco acidentes de trabalho, inclusive os que resultam em mortes, envolvem trabalhadores terceirizados. O número de acidentes de trabalho que resultam em mortes ou mutilações no Brasil aumentou. O Ministério da Saúde revela que entre janeiro e outubro de 2011, 40.779 trabalhadores foram vítimas de acidente de trabalho. Desse total, 1.143 casos foram fatais. Os dados do ministério englobam trabalhadores de diversos setores de atividade. Entre os casos mais presenciados por Elenísio Silva, LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) são os mais comuns. O diretor também acredita que algumas modificações dentro das empresas podem ajudar na redução de ocorrências. “A estrutura de cada lugar, especialmente em fábricas, pode ser adaptada para os trabalhadores. São medidas simples que vão deixar o trabalhador mais confortável nas tarefas”, sugere.
Toque
da vida
Desconfortável e necessário, o exame de próstata pode evitar câncer mais comum entre homens
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ntre os mais jovens o assunto é motivo de piada, porém chegar aos 40 anos significa direcionar a atenção também para a saúde. É nesta faixa etária que devem ser feitos os primeiros exames de prevenção ao câncer e outras doenças relacionadas à próstata. “As piadas dos amigos até valem como lembrete para realizar o exame. Afinal, todos os homens passam ou deveriam passar por isso”, diz João Fantin, que aos 43 anos passou pela experiência do exame. O Inca (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva) prevê que mais de um milhão de brasileiros receberão, nos próximos dois anos, diagnóstico de câncer no país. Estima-se que os novos casos da doença devem
QUALIDADE DE VIDA
atingir 50,8% da população masculina. Também é de conhecimento dos especialistas que a cada seis homens, um será diagnosticado com câncer de próstata. Na avaliação do urologista José Braz Filho, o ABC segue na contramão das estimativas rumo a maior conscientização sobre a doença. Com mais de 30 anos de profissão, o especialista percebe mudança de comportamento da sociedade. “Antes o paciente só procurava o consultório quando apresentava sintoma de dor. Agora, tenho caso de neta trazer o avô para realizar o exame”, diz. A realização do exame de próstata é sugerida a partir dos 45 anos. No caso de incidência da doença no histórico familiar, é recomendado iniciar os exames ao completar 40 anos e repetir ano a ano. Apesar dos avanços da doença, o especialista só consegue chegar a diagnóstico final por meio do toque retal, que mesmo sendo desconfortável não dura mais que um minuto. Depois dos 80 anos, o toque de próstata não é mais necessário. A partir dessa idade, o acompanhamento é realizado apenas com exames de sangue. Esperar por sintomas do câncer de próstata é a mesma coisa que acender bomba de pavio curto porque a doença só aparece em grau mais avançado. “Sinal comum é o crescimento da próstata, mas nesse estágio o câncer pode ter proliferado para outras partes do corpo”, adverte Braz. Os indícios mais comuns estão relacionados à dificuldade de urinar. Quando o pior se concretiza, a pessoa é submetida a uma cirurgia e a sessões de radioterapia. Em uma segunda fase, é realizado bloqueio hormonal. Porém, se o câncer resistir às duas etapas o paciente passa por quimioterapia para retardar a proliferação da doença e prolongar a vida. Revista Repúplica 41
QUALIDADE DE VIDA
João Schleder
João Schleder
Peladas perigosas Prática esporádica de atividade física não oferece benefícios e pode causar danos à saúde
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ma vez por semana, depois do trabalho, é sagrado a bola rolar para os peladeiros. O momento é para relaxar, se exercitar um pouco e aliviar a culpa do sedentarismo crônico da sociedade moderna. Porém, a prática esporádica de atividade física esconde riscos. “Como o coração não está adaptado, a frequência sobe e em alguns casos, a pessoa pode até ter infarto”, explica José Luís Aziz, cardiologista e diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Além de problemas do coração, se o corpo não estiver preparado para praticar atividades competitivas como o futebol, dores e lesões são inevitáveis. Torções, luxações, distensões musculares e até fraturas podem acontecer aos chamados atletas de fim de semana. Aos 47 anos, Givaldo Ferreira Alves não dispensa convites para a famosa pelada. Apaixonado por futebol, ele afirma que a atividade é um dos maiores prazeres. “Depois de uma semana cheia de compromissos profissionais, nada como um futebolzinho. É o único esporte que eu pratico”, diz. Conhecido entre os boleiros como Gil Baiano, confessa que
benefícios • Ansiedade e depressão: redução importante da ansiedade e depressão, com melhora do humor, benefícios no sono e no convívio social, além de aumento da autoestima. • Pressão arterial: o exercício, principalmente aeróbicos, reduzem a pressão arterial diretamente e consequentemente reduzem a probabilidade de infarto do coração e as possibilidades de derrame cerebral. Exercícios resistidos, como musculação com cargas altas, aumentam a pressão arterial e são contraindicados para indivíduos hipertensos e cardiopatas. • Osteoporose: exercício com pouco impacto estimula a produção de cálcio. • Obesidade: aliado a alimentação adequada, certamente o exercício contribui para a redução de peso.
Quarentona
gostosa
Colônia de Férias em Praia Grande é endereço certo para acabar com cansaço e preocupações
sabe dos riscos. Quando sinto que estou ficando ofegante, fico plantado, como bom zagueiro que sou”, brinca. Para José Santana, o Zoinho, melhor que a bola em campo é o churrasco que vem depois. “Não pode faltar cervejinha. É por isso que mesmo com 57 anos não deixo de jogar,” admite. Acostumado com os caminhos do campo, Zoinho aposta na própria experiência para driblar possíveis exageros. Mesmo com todos os cuidados, o cardiologista recomenda: “Se for praticar atividade física uma vez por semana que seja algo leve, como uma caminhada, lembrando que não terá nenhum benefício. Qualquer atividade, para dar resultado, tem de ser praticada pelo menos três vezes por semana”. Antes de começar uma atividade, é importante passar por consulta médica.
Gil Baiano e Zoinho (em pé): drible nos riscos 42 Revista Repúplica
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Foto: Diego Barros
Colônia de Férias: três pavimentos, 39 apartamentos, piscinas, área de lazer e restaurante
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Colônia de Férias do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, em Praia Grande, comemora 40 anos de atividade mais atraente que nunca. Vedete para quem passa a semana toda dando duro, a Colônia acolhe associados com estrutura que põe para correr qualquer estresse, cansaço ou preocupações. Piscinas, restaurante e diversas áreas de lazer garantem recarregar as baterias para mais uma semana de trabalho. Ambiente ideal para diversão, a Colônia de Férias atrai centenas de associados todas as semanas do ano. Severino Raimundo da Silva, funcionário da Tupy de Mauá, já foi seis vezes e adora o passeio. “É muito divertido. Não só
QUALIDADE DE VIDA
para mim, como para minha família. Minha esposa e meus filhos adoram, principalmente a piscina e o momento de irmos à praia, lógico”, diz. Colega de fábrica, Luiz Pereira afirma que a esposa sempre cobra sobre idas à Colônia. “É um dia de lazer muito agradável, quando nos divertimos com a família e também com amigos. A Praia Grande é um lugar maravilhoso”, afirma. Inaugurada em 1972, a Colônia era bem mais simples do que hoje. “Quando eu comecei a ir em 1976, trabalhando no caixa do bar, eram apenas dois andares. Como o movimento era muito grande, resolveram fazer mais um. Não tinha piscina, nem apartamentos térreos para os portadores de necessidades especiais”, explica Luís Carlos Lima Ribeiro, o Luizinho, responsável pelo local. Atualmente, a Colônia tem três pavimentos, com 13 apartamentos cada. Todos os quartos têm TVs, ventiladores, beliches ou treliches e camas de solteiro ou de casal. “O local é extremamente confortável. Dependendo do quarto, cabem até seis pessoas”, afirma Luizinho. Para quem vai passar apenas um dia, como os funcionários da Tupy, a Colônia oferece piscinas para adultos e infantil, área de lazer com mesa de sinuca e de pinguepongue, vestiário, restaurante, sem contar o passeio até a praia. Há mais de 35 anos na Colônia de Férias, Luizinho é responsável pela acolhida de associados e familiares. Com 12 funcionários, atende cerca de 300 trabalhadores da Tupy em um único dia de passeio. “Tenho o maior prazer em receber as pessoas. Em todos estes anos fiz muitos amigos. Sou eternamente grato ao sindicato pela oportunidade de trabalho, pois é o melhor do mundo”, brinca. Revista Repúplica 43
FORMAÇÃO
Roberto Barboza
O futuro à
Cristina Beltran: teatro, música e esportes,sempre acompanhados por profissionais capacitados
educação pertence Sonho realizado de Salvador Arena vincula qualidade e democratização do acesso à educação
CEFSA: quatro cursos universitários e dois de pós-graduação desde 2002 44 Revista Repúplica
recebem três jogos de uniforme, mochila e todo material didático. Almoço, lanches e jantar, supervisionados por nutricionista, são oferecidos também aos estudantes da FTT. Alunos com problemas de obesidade recebem dieta balanceada após avaliação de nutricionista. Há ainda assistência psicológica e odontológica. A maioria dos cursos mantidos pelo CEFSA é em período integral. “Oferecemos ainda a possibilidade de participar de teatro, música e esportes, sempre acompanhados por profissionais capacitados e com material didático gratuito”, acrescenta a diretora pedagógica, Cristina Beltran. A instituição oferece desde 2002, quatro cursos universitários e dois de pós-graduação. “O CEFSA formou 3.383 jovens até 2011. Além da capacitação para o mercado de trabalho, temos o Núcleo de Formação Cidadã
onde o aluno participa de forma voluntária de projetos técnico-sociais”, enfatiza Wilson Junior. A adaptação de estudantes transferidos de outras instituições se dá no início dos semestres. “Os novos alunos passam por um período de nivelamento. Nosso objetivo é oferecer as mesmas oportunidades a todos”, esclarece Cristina Beltran. A promoção automática nas diversas fases de ensino ocorre sempre que o estudante consegue média igual ou superior a sete. “Não praticamos a retenção do aluno por dificuldades no acompanhamento. Quando isso ocorre o estudante conclui o nível que está cursando e tem que prosseguir os estudos em outra escola. Pode acontecer tanto do aluno não se adaptar aos métodos da nossa instituição quanto da instituição não corresponder às ex-
Fotos: Diego Barros
O
Centro Educacional da Fundação Salvador Arena (CEFSA) valida a tese dos economistas Eduardo Giannetti da Fonseca e Dan O’Brien de que o Brasil só vai mal na educação porque falta pensar no futuro. O engenheiro Salvador Arena pensou. Em 1975, tinha a clara avaliação da defasagem do ensino no país e apresentou ao governo federal o projeto Livro Ensino, com propostas inovadoras de educação. “Como a expectativa de ver o projeto implantado em todas as escolas públicas do país foi frustrada pela falta de interesse dos governantes, o empresário arregaçou as mangas e assim nasceu o Colégio Termomecânica”, conta Wilson Carlos da Silva Junior, diretor acadêmico da Faculdade de Tecnologia Termomecânica (FTT). Fundado em 1989 e ancorado na qualidade de ensino vinculada à democratização do acesso à escola, o Colégio Termomecânica adotou critério diferenciado de admissão: sorteio da Loteria Federal. “É o meio mais imparcial possível, o qual promove diversidade social e cultural. Era isso que Salvador Arena queria: uma troca de conhecimentos e experiências”, detalha o diretor acadêmico. Os cursos da pré-escola ao Ensino Médio são gratuitos e os alunos
pectativas do estudante”, diz a diretora pedagógica. Administrado pelo Conselho Curador da Fundação Salvador Arena, o CEFSA está instalado em 131 mil metros quadrados no Bairro Alvarenga, São Bernardo, na antiga sede desativada do Clube Comodoro. O
projeto arquitetônico dos primeiros blocos do colégio é assinado pelo próprio Salvador Arena. Além de contemplar salas multimídia, amplas e confortáveis, onde teoria e prática caminham juntas, os blocos foram posicionados no terreno de maneira a aproveitar o máximo da iluminação
natural. “Trata-se de princípio fundamental na prática de construções sustentáveis que, lamentavelmente, ainda é menosprezado em muitos empreendimentos imobiliários”, comenta Cristina Beltran. A estrutura é invejável. São quatro bibliotecas interativas, conjunto aquático com duas piscinas, uma semiolímpica, Estádio Olímpico Bronze TM 23 com dimensões oficiais, arquibancadas e pista de atletismo, além do Teatro Salvador Arena. “Com acomodações para 600 pessoas, recebe espetáculos de grandes companhias além de servir como palco para produções internas”, diz o assessor de comunicação Luiz Henrique Pion Vieira. A programação da casa é compartilhada com estudantes da rede pública municipal das Escolas Municipais de Ensino Básico (EMEBs) e aberta à comunidade. Da agenda de março, consta apresentação do maestro e pianista João Carlos Martins, um dos grandes nomes da música erudita contemporânea. Quanto aos equipamentos pedagógicos, o CEFSA dispõe do que há de mais moderno no mundo. Os laboratórios do CIM (Manufatura Integrada por Computador), de Eletrônica, Jogos de Empresas e de Redes de Computadores, bem como o de Alimentos, contam com infraestrutura de última geração. Isso faz com que o curso Superior de Tecnologia em Alimentos tenha sido avaliado como o melhor do Brasil. “Empresas do setor buscam nossos alunos ainda durante o processo de formação”, orgulha-se o diretor acadêmico da FTT.
Restaurante: almoço, lanches e jantar são supervisionados por nutricionista Revista Repúplica 45
FORMAÇÃO
Roberto Barboza
Rafael e Onício Loyola: mesmos passos
Q
uando Onício Loyola, mais conhecido como Kiki, começou a trabalhar como operador de empilhadeiras, não imaginava que tempos depois o chão de fábrica na então Cofap, atual Magneti Marelli, iria acolher o filho mais velho Rafael. O metalúrgico mudou aos quatro anos com os pais do Tatuapé, na capital paulista, para Mauá. Aos 63 anos, cansou da aposentadoria e continua manobrando o veículo que conhece como ninguém na Transpiratininga, terceirizada da Prysma. “Acho que foi apenas um ano de férias. Não consigo ficar parado, é o ritmo de uma vida inteira”, esclarece o bem humorado metalúrgico. Foi aos 19 anos que Rafael Willian Loyola decidiu seguir os passos do pai. Na época fazia curso de soldador pelo Senai e por indicação e com boas referências do patriarca, ingressou na Magneti Marelli. “Para a empresa é interessante ter pais e filhos trabalhando no mesmo local, as responsabilidades 46 Revista Repúplica
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Arte de soldar relações e empilhar conquistas Saga dos Loyola une pai e filho no chão de fábrica e na militância sindical
do mais jovem são duplamente cobradas, tanto pelo chefe quanto pelo pai. Eles só não contavam que eu iria me aproximar das atividades sindicais”, comenta Rafael Loyola. Eleito em 2008 para a Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), foi indicado dois anos depois para a Diretoria de Base do sindicato.
Para a empresa é interessante ter pais e filhos trabalhando no mesmo local “Atividade sindical envolve conflitos de interesses entre patrões e empregados. A união dos trabalhadores é que torna a missão gratificante”, afirma o soldador. Com 29 anos e considerável bagagem de luta, Rafael
Loyola sabe que o aprendizado veio da infância, quando testemunhou o pai atuante nas greves que fortaleceram os metalúrgicos do ABC. Casado desde 2010 e pai do pequeno Ângelo, Rafael Loyola acredita que o futuro profissional do filho também será influenciado por ele. “É inegável que o país está mudando, está mais rico. Só que as riquezas devem ser mais bem distribuídas, aplicadas prioritariamente em educação, saúde, segurança e transporte. Em tudo que implique em melhorar a qualidade de vida dos brasileiros”, defende. O fato de a base metalúrgica ter encolhido devido à modernização da produção e à saída de empresas da região requer cada dia mais qualificação profissional. “Na Cofap eram 12,5 mil metalúrgicos, hoje somos 1,5 mil. A parceria do sindicato com o Senai nesse processo é muito saudável”, afirma. Rafael Loyola completou o Ensino Médio e pretende iniciar graduação ligada ao setor metalúrgico. Revista Repúplica 47
cidade
Guilherme de Oliveira
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Será que decola?
Projeto de aeroporto em São Bernardo enfrenta panes e turbulências
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construção do terceiro aeroporto no estado de São Paulo tem promovido discussões blindadas a sete chaves, polarizado opiniões e suscitado dúvidas que envolvem principalmente o nãocomprometimento da eficácia dos aeroportos em operação. Entre vantagens e desvantagens esboçadas por prefeituras dispostas a promover a economia do município, São Bernardo entrou na disputa sob a égide de impulsionar o desenvolvimento da região e ancorado na proximidade do porto de Santos. “Se considerarmos logística e desempenho da economia, a proximidade com maior porto da América Latina e o pré-sal talvez justifiquem um grande aeroporto para aviação executiva e carga. Estamos estudando o assunto. O ABC tem interesse nesse tema e estará preparado para oferecer essa possibilidade”, afirma o prefeito. Área próxima à rodovia dos Imigrantes tem sido cogitada para a 48 Revista Repúplica
construção do terminal e das justificativas consta a possível instalação de cinturão de indústrias na área da defesa no município. Já durante a formulação da peça orçamentária de 2012, realizada em outubro, Marinho adiantou o assunto com conselheiros do Orçamento Participativo e reafirmou as intenções de acolher o terminal aéreo no município. O empenho de Luiz Marinho é tanto que o interesse do Paço foi levado pessoalmente à presidenta Dilma Rousseff. A decisão sobre a instalação de aeroporto passa obrigatoriamente pelo governo do Estado, contudo, a União pode ser fundamental para viabilizar o projeto. O ministro-chefe da SecretariaGeral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse que o projeto de construção de aeroporto em São Bernardo está em análise no governo federal. “O Marinho tem vindo com essa história nova do aeroporto. A presidenta já ouviu dele, nos parece
bem interessante”, analisou Carvalho. Mesmo com bons argumentos e aliados de peso, Marinho terá de se desdobrar para provar a viabilidade de aeroporto no município uma vez que as adversidades têm causado turbulências às ambições do prefeito. A constante neblina da região não é o único empecilho perceptível a olho nu. Se levada a cabo, a construção do aeroporto implica em desapropriações, desvalorização imobiliária e impacto ambiental. “As desvantagens são grandes e isso não só no ABC. As condições para construção de outro aeroporto são ruins em todo o estado de São Paulo”, afirma Silvana Zioni, especialista em mobilidade urbana e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC). Para ela, a construção de um novo aeroporto deveria incluir planejamento em forma de malha, focando integrar diversos tipos de transporte. “Seria mais eficiente para o Estado o desenvolvimento dos meios de mas-
sa como trem de alta velocidade e ligação de ferrovias. Atualmente não existe nova demanda do gênero”, diz Silvana. Também contra a pretensão do prefeito, Marcelo Guaranys, diretorpresidente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), considera ineficiente construir o terceiro aeroporto em São Paulo. Para ele, Cumbica e Viracopos atenderão à demanda dos próximos 20 anos. A construção de um terceiro aeroporto em São Paulo é apontada pelas autoridades paulistas como uma das prioridades da Região Metropolitana. O plano é defendido pelo governador Geraldo Alckmin e foi apresentado pelo prefeito Gilberto Kassab entre os principais temas em reuniões do Conselho da Região Metropolitana. Retomada A possibilidade de implantação de um novo aeroporto no estado não é novidade. No ABC, as propostas surgiram desde a intensificação da pro-
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Luiz Marinho: interesse do Paço foi levado pessoalmente à presidenta Dilma Rousseff
dução industrial na região. A primeira tentativa do empreendimento no ABC aconteceu no início da década de 70, quando foi cogitada a construção em Rio Grande da Serra. No entanto, a iniciativa não vingou por conta da forte neblina da cidade. Em 1975, funcionários da Pirelli, em Santo André, encaminharam à Prefeitura pedido de abertura de aeroporto, mas o Paço descartou qualquer hipótese do projeto vingar. Por fim, em 2007, o ex-prefeito de Mauá Leonel Damo, diante do caos aéreo nacional da época, afirmou que a cidade reunia condições de acolher o aeroporto. A área oferecida foi no bairro Sertãozinho. O projeto acabou engavetado pela Agência Nacional de Aviação Civil. A questão foi retomada no ABC
em abril de 2011, quando o dirigente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, Valter Moura, assumiu a presidência da Agência de Desenvolvimento do Grande ABC, vinculado ao Consórcio Intermunicipal. Na ocasião, Moura defendeu a hipótese de que o terminal fosse construído na cidade por meio de parceria público-privada. Outro exemplo mais recente, agora fora do limite das sete cidades, foi o esforço da prefeitura de Caieiras para atrair os investimentos do novo aeroporto privado. Entre argumentos e apelação das mídias local e nacional havia de tudo: ótima localização, apoio das companhias do setor, capacidade igualável à de Cumbica, e no início do ano de 2010, almejava a construção pronta antes da Copa do Mundo de 2014. Nos moldes de Cumbica, Caieiras seria internacional. Porém, em dezembro de 2011 o projeto foi rejeitado por conta de requisito fundamental: a falta de funcionalidade de aeroporto no local. Em outubro do ano passado, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) avaliou que o plano apresentado a 30 quilômetros do Centro de São Paulo, era inviável, pois causaria interferências nos aeroportos de Cumbica, Viracopos, Congonhas e Jundiaí.
Silvana Zioni: construção do aeroporto implica em desapropriações e impacto ambiental Revista Repúplica 49
cidade
João Schleder
F1 imortalizada A
velocidade permitida no interior do Conjunto Habitacional Ayrton Senna Nova Aurora, no Jardim Alzira Franco, em Santo André, não ultrapassa os 40 quilômetros por hora, mas as placas das 16 ruas aceleram o pensamento em direção ao automobilismo. A idéia de imortalizar ícones da F1 em logradouros foi de Jacinto Ezequiel de Medeiros, que em 1993, auge da carreira de Ayrton Senna, decidiu homenagear a modalidade esportiva. “Foi uma burocracia danada. A Administração Pública estudou e analisou a possibilidade. Depois, tivemos de consultar os Correios para viabilizar a entrega das correspondências. Apesar da demora, deu tudo certo”, conta Jacinto Medeiros. Antes, o apaixonado por corridas teve de conversar e convencer os outros moradores. “Usei o argumento de que seria algo inédito, que chamaria a atenção”, diz. Alguns torceram o nariz, queriam as ruas com nomes de peixes e flores, mas a maioria gostou. “Todos os domingos, dias das provas, acordava para acompanhar o Senna. Vibrava muito quando ele ultrapassava a linha de chegada em primeiro lugar, e sempre tive vontade de demonstrar esse carinho. 50 Revista Repúplica
Quando cheguei aqui, o conjunto tinha sido loteado recentemente e as ruas não tinham nome. Foi aí que idealizei tudo”, detalha. A denominação das ruas exigiu profundo estudo e dedicação. A avenida principal não poderia ter outro nome: Ayrton Senna. “Esta foi a primeira que decidimos. A segunda, onde moro, iria se chamar McLaren, equipe pela qual o piloto brasileiro conquistou três campeonatos, mas reclamaram, pois achavam que seria difícil escrever”, diverte-se. Mais simples, ou não, a rua passou a se chamar Copersucar, escuderia brasileira fundada em 1975 pelos irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi Jr. “Para falar a verdade, não sei o que significa. As pessoas sempre pedem para repetir o nome, perguntam como escreve e querem saber a origem”, confessa o morador José de Alves Lima. Outras como Sauber, Benetton e Tamburello também causam estranheza e aguçam a curiosidade de visitantes. “Sempre que trago amigos, faço questão que conheçam o conjunto. A maioria gosta e admite que nunca viu nada igual”, conta o morador Antônio Francisco Pereira de Menezes. “É um orgulho morar aqui”, completa.
Foto: Diego Barros
Ruas de conjunto habitacional em Santo André homenageiam ícones do automobilismo
Diretores Antônio, Jacinto e Zezé, da Associação Conjunto Ayrton Senna Nova Aurora: homenagem à velocidade Sonho O próximo desejo de Jacinto, atual presidente da Associação Conjunto Ayrton Senna Nova Aurora, é que a comunidade passe a se chamar, oficialmente, Conjunto Habitacional Ayrton Senna. “Não conseguimos que a associação tivesse só o nome dele. Conversamos com a irmã do campeão Viviane, presidente da Fundação Ayrton Senna, mas a exigência era de que parte da verba arrecada fosse destinada à fundação. Esperamos que agora dê certo. Seria a coroação da homenagem que fizemos a um dos maiores ídolos do esporte brasileiro.”
As 16 ruas n Ayrton Senna – piloto brasileiro, três vezes campeão da Fórmula 1 n Senninha – mascote do Instituto Ayrton Senna n Sauber – equipe suíça que já teve Felipe Massa entre os pilotos n Toleman – primeiro carro pilotado por Senna na Fórmula 1, em 1984 n Copersucar – escuderia brasileira fundada em 1975 pelos irmãos Emerson e Wilson Fittipaldi Jr n Estoril – autódromo que abrigou o Grande Prêmio de Portugal de 1984 a 1996 n Benetton – equipe italiana que esteve na F1entre 1986 a 2001 n Tamburello – curva do autódromo de Ímola, na Itália, que ficou famosa pelo acidente fatal de
Senna
n Ferrari – escuderia mais tradicional da modalidade n Jordan – equipe que esteve na F1 de 1991 a 2005 e teve Rubens Barrichello entre os pilotos n Monza – autódromo que abriga o Grande Prêmio da Itália n Ímola – cidade italiana que recebia o Grande Prêmio de San Marino n Prost – Alain Prost é francês e ex-piloto de F1 que conquistou quatro títulos da categoria n Minardi – equipe que participou da F1 de 1985 a 2005; n Interlagos – autódromo que recebe o Grande Prêmio do Brasil n Jacarepaguá – autódromo, que se chama Internacional Nelson Piquet, sediou o GP do Brasil de
1978 a 1989
Revista Repúplica 51
200 anos
de bênçãos Marco do início da urbanização do ABC, largo da Matriz de São Bernardo é revitalizado
Rua Marechal Deodoro
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piso, iluminação, bancos, paisagismo e acomodação do largo para acessibilidade. A entrega do espaço público à população está prevista para abril. A banca de jornal mudará de lugar para destacar a capela. Junto à banca, será construído espaço de convivência com café e banheiros. “Queremos melhorar a visualização do pedestre e do passante de condução da rua Marechal. Vamos tirar a banca do lugar, mas manter o uso no centro da praça, que é mais rebaixado e fica camuflada pela perspectiva, para valorizar a capela e a Igreja Matriz”, revela Raukauskas. O espaço de convivência terá cerca de 60 metros quadrados e será construído no nível da rua Marechal Deodoro, para permitir o uso mais contínuo da praça. As obras também valorizam o
Fotos: Divulgação
P
restes a comemorar 200 anos em outubro, a praça da Igreja Matriz de São Bernardo passa por grande revitalização. Palco de eventos marcantes da história, inclusive não religiosos, o lugar é simbólico não só para a cidade, mas para a região. “Em termos de urbanização, o largo da Matriz foi o primeiro espaço do ABC, construído em 1812”, pontua o jornalista e memorialista do ABC, Ademir Medici. As obras de revitalização e reforma realizadas pela Prefeitura irão valorizar paróquia e igreja. “O abandono da praça, que não passava por manutenção, motivou a intervenção”, afirma Fabio Raukauskas, assessor da Secretaria de Planejamento Urbano. A ação já estava no plano de governo e inclui limpeza, requalificação do
patrimônio histórico. “A Igreja Matriz é ponto marcante e notamos que os moradores têm certa sensibilidade quando se trata desse espaço. A praça é um espaço-chave para o município, centro antigo de São Bernardo, onde tudo começou. Não se trata só do patrimônio material do edifício, mas do imaginário das pessoas”, diz o assessor. O espaço abriga hoje a Igreja Matriz e a Capela de Nossa Senhora de Boa Viagem, mas nenhuma das duas é original da data de 1812. De lá para cá, ambas foram remodeladas. Antes de se tornar o marco cor-derosa, a Igreja Matriz esboçou moldes coloniais, típicos portugueses, feitos de madeira. Na segunda metade da década de 1940, a nova Igreja foi construída em cima, obra realizada pelo padre Fiorente Elena. “Na época houve consulta a especialistas e artigos de jornais que iam contra a mudança, mas no fim a nova Igreja foi construída maior, abraçando a original”, conta Medici. Centro de tudo Com a fundação da Freguesia de São Bernardo, foi projetada a primeira rua principal, a Marechal Deodoro com as transversais e, no centro de tudo, a igreja. Nesse entorno também estava o primeiro cartório. Assim
Década 1930
Foto: Nilson Sandre/PMSBC
Liora Mindrisz
Praça da Matriz: revitalização inclui limpeza, requalificação do piso, iluminação, bancos, paisagismo e adequação à acessibilidade formou-se o Centro. Durante 99 anos todos os moradores da região tinham de ir à praça da Matriz para casar ou batizar os filhos. Isso porque Igreja e Estado eram um só e a Paróquia N. S. da Boa Viagem era a única no ABC e abrangia todas as cidades – com exceção de São Caetano, ligada a Paróquia do Bras. Em 1911 a preferência terminou com a construção de paróquias em Ribeirão Pires e Santo André, mas o largo do Centro de São Bernardo não perdeu a importância. “Por mais que fosse apenas um distrito de Santo André da Borda do Campo, a Freguesia de São Bernardo tem grande importância, pois foi a origem de
Década 1970
tudo, mesmo que tenham se separado mais para frente. Então a data de 1812 é comemorativa para todo o ABC”, diz Jorge Magyar, responsável pela Pesquisa e Documentação da Prefeitura de São Bernardo. Para Ademir Medici, a escolha do local acabou, realmente, significando a construção de um centro urbano no ABC. “Tudo de importante acontece lá, inclusive organização do movimento dos trabalhadores, com manifestações e até do abrigo que os padres deram a grevistas”, conta. O largo da Igreja Matriz nunca deixou de ser um ponto de manifestação, vide as missas de 1º de maio, que até hoje
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CIDADE
lotam o local. Desde a fundação, a Matriz recebe gente importante. Reza a lenda que até Dom Pedro II, a caminho do Ipiranga por ocasião da proclamação da República, passou pela paróquia para pedir benção a Nossa Senhora da Boa Viagem, em 1889. O ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, também foi figura carimbada durante grandes encontros de grevistas que aconteciam no local. Mas a imagem mais conhecida e lembrada é a do largo cercado por policiais militares na concentração de 120 mil sindicalistas durante a greve dos 41 dias, em plena ditadura dos anos 1980.
Década 1980
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Guilherme Oliveira
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CIDADE
Não basta mais Cidades do ABC terão de correr para atender às disposições da Política Nacional de Resíduos Sólidos
F
altam apenas dois anos para que todos os municípios e estados brasileiros elaborem plano de resíduos sólidos. O prazo é estipulado na lei federal que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a qual organiza o tratamento do lixo em todo o país, com incentivo à reciclagem e à sustentabilidade. A partir da PNRS, foi elaborado o Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que passou por processo de consulta pública e o texto final entra em vigor ainda este ano. As sete cidades 54 Revista Repúplica
só recolher
do ABC terão de correr para dar conta do recado. Dados do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem) mostram que diariamente o Brasil produz 150 mil toneladas de lixo, das quais 40% são despejadas em aterros a céu aberto. O destino adequado do lixo é um problema que afeta a maioria das cidades – apenas 8% dos 5.565 municípios adotam programas de coleta seletiva. No ABC, o olho desse furacão tem nome: aterro sanitário Lara, que desde 1991 recebe o lixo de quase
todo o ABC. Sem data de validade explícita, o aterro recebe diariamente média de duas mil toneladas de lixo. “Não se sabe quanto o aterro ainda vai suportar. Quando esgotar, os municípios terão de encontrar outra solução”, diz Angela Baeder, professora de Educação Ambiental e Sustentabilidade do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA). Em 2011, 720 mil toneladas de resíduos domiciliares chegaram ao aterro Lara. A maior quantidade é de São Bernardo, que envia 700 toneladas de lixo por dia para o local, dobro
Principais pontos da PNRS n fechamento de lixões até 2014: até 2014 não devem mais existir lixões a céu aberto no Brasil. Devem ser criados aterros controlados ou aterros sanitários. Os aterros têm de preparar o solo para evitar a contaminação de lençol freático, bem como captação do chorume, que resulta da degradação do lixo, e ainda contar com a queima do metano para gerar energia; n só rejeitos poderão ser encaminhados aos aterros sanitários: os rejeitos são a parte do lixo que não tem como ser reciclada. Apenas 10% dos resíduos sólidos são rejeitos. A maioria é orgânica, que em compostagens pode ser reaproveitada e transformada em adubo, e reciclável, que deve ser devidamente separada para a coleta seletiva; n elaboração de planos de resíduos sólidos nos municípios: os planos municipais serão elaborados para ajudar prefeitos e cidadãos a descartar de forma correta o lixo. n logística reversa: uma vez descartadas, embalagens são de responsabilidade dos fabricantes, que devem criar sistema para reciclar o produto.
de Diadema, que descarta 312 toneladas. O volume de lixo produzido no ABC, cerca de 828 mil toneladas em 2011, equivale ao peso de dois Boeing 747, um dos maiores aviões do mundo, que acomoda 524 passageiros. O esgotamento do aterro sanitário em Mauá preocupa. “Não sabemos ao certo o quanto de vida útil o aterro, que fica a 15 km de São Bernardo ainda tem. Se esgotar daqui a 10 ou 15 anos, teremos gasto a mais para o transporte do lixo”, avalia Maurício Cardozo, diretor do Departamento de Limpeza Urbana, da Secretaria de Serviços Urbanos de São Bernardo. Como medida de precaução, São Bernardo planeja criar usina de inci-
neração. Denominada Unidade de Recuperação Energética, o novo sistema promete transformar lixo em energia elétrica. “Trata-se de sistema integrado de limpeza, firmado com empresa privada, que por meio de licitação, irá atuar no município por 30 anos. A empresa será responsável pelo tratamento do lixo na cidade, desde a coleta até a destinação”, adianta Cardozo. A usina deverá gerar 26 MW/h a 30 MW/h, energia que Cardozo estima ser suficiente para suprir iluminação de todas as ruas e prédios públicos. O custo médio mensal do novo sistema gira em torno de R$ 8 milhões. Hoje a prefeitura gasta R$ 3,6 milhões para depositar os resíduos no Lara. O local destinado à usina é o antigo Lixão do Alvarenga, que funcionou por 28 anos. Desativado há 12 anos, o espaço foi decretado de utilidade pública para efetivar o projeto, previsto para entrar em operação nos próximos cinco anos. A construção da usina de incineração é polêmica. “A partir do moRevista Repúplica 55
CIDADE
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mento em que o lixo é incinerado, não poderá mais se tornar matéria-prima para cadeia produtiva. Principais objetos utilizados pelas cooperativas de reciclagem são plástico e borracha, justamente as fontes de energia destas usinas de incineração”, detalha a ambientalista Angela Baeder. Danos à saúde, decorrentes de substâncias tóxicas expelidas da usina também podem criar complicações. “Os gases produzidos pela usina vão causar danos ambientais e prejudicar a saúde humana. Substâncias como o urânio podem atacar a mucosa nasal e o pulmão”, diz a professora, que defende processos de reciclagem. A prefeitura de São Caetano elabora Termo de Referência para contratação do Plano Municipal de Gestão Integrada, no qual empresas serão parceiras do município e ajudarão no descarte correto do lixo. “O lixo tem que começar a ser pensado logo no início da sua produção”, diz o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Rogério Alvarenga. Atitudes relacionadas ao PNRS estão sendo tomadas com cautela em São Caetano. “Apesar do prazo para entrega do Termo de Referência estar nos conformes, deixa todos apreensivos pela magnitude do projeto que envolve desde a sociedade civil e cooperativas de reciclagem até a rotina de grandes empresas”, afirma. Empresas do segmento de supermercado, sucatas, ferro velho, caçambas, postos de gasolina e borracharia estão no plano da cidade, mas por enquanto não existe um número exato de quantas irão participar. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos está em elaboração na cidade de Santo André. “Nosso prazo é agosto deste ano, mas trabalhamos com a possibilidade de alinharmos até fim de maio o plano (internamente, envolvendo Semasa, Prefeitura e sociedade) para que possa ser encaminhado à Câmara”, notifica a assessoria de imprensa do Semasa. Mauá pretende entregar o texto final do plano agora em março. “Entre as principais iniciativas está curso preparatório de catadores que conta com o apoio do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e a criação de um galpão central de reciclagem em parceria com a empresa Braskem”, conta José Afonso Pereira, secretário de Meio Ambiente da cidade. No ABC, a produção de resíduos sólidos é de 2,3 mil toneladas por dia e a reciclagem não passa da média de 1%. O índice da região passa longe dos observados em países da União Europeia. Suíça e Suécia, por exemplo, reciclam 33,9% do lixo produzido. Mesmo as nações com taxas menos expressivas reciclam até quatro vezes mais que o ABC. Caso de Portugal, que chega a 8,6%. Não é só o ABC que segue atrasado em iniciativas para combater o descarte competente, mas o Brasil. Para ter ideia, os EUA conseguem reaproveitar pouco mais da metade do que vai parar nas lixeiras. Para a redução do lixo industrial, a União Européia financia projetos em que uma indústria transforma em insumo o lixo de outras fábricas. Até a fuligem das chaminés de algumas é aproveitada para a produção de tijolos e estruturas metálicas. Em Genebra, na Suíça, quem não recicla é intimado a comparecer na delegacia para se explicar e pagar multa de 35 euros. “O Brasil tem 5.565 municípios, dos quais apenas 3.205 possuem algum tipo de sistema de coleta seletiva”, expõe Adriana.
Lixo no ABC: produção de resíduos sólidos é de 2,3 mil toneladas por dia e reciclagem não passa da média de 1% 56 Revista Repúplica
cidade
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Guilherme Oliveira
Alô, alô, Saul Gelman e Ronaldo Martim: popularizar Ouvidoria por meio de redes sociais
responde Ouvidoria de Santo André aposta em redes sociais para ter mais proximidade com moradores
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izem que a voz do povo é a voz de Deus. Mas ouvir mais sete mil reclamações em apenas um ano é trabalho que demanda paciência e discernimento. Criada há 13 anos na gestão de Celso Daniel, a Ouvidoria de Santo André lida diariamente com a insatisfação popular e ainda busca estreitar laços com os moradores da cidade. “Nossa função é sempre intermediar problemas, ou seja, receber demandas e buscar respostas”, diz Saul Gelman, que parte para o quarto mandato de dois anos como ouvidor da cidade. Na nova gestão, a Ouvidoria tem planos de popularizar o serviço por meio de redes sociais. “Quando a fã-page do Facebook estiver pronta, teremos mais um meio de interagir com o cidadão. Afinal, todo mundo agora reclama primeiro nas redes sociais”, diz Ronaldo Martim, ouvidor adjunto de Santo André. Para não deixar reclamações virarem desavenças, a Ouvidoria intermedia a relação munícipe-prefeitura com informações precisas de toda a municipalidade. Dessa maneira, consegue atender ás expectativas do morador sobre questões corriqueiras e outras mais densas. “Dá para informar quando a Secretaria de Obras irá realizar a poda de uma determinada árvore”, aponta Gelman. A cidade oferece mais de 500 serviços aos cidadãos e, entre tantas demandas, uma pode não sair como planejado. Os problemas com a Secretaria de Obras são os mais comuns. Das 7.145
solicitações efetuadas em 2011, 22,9% foram da SO. Pedidos de reparo de buraco em vias públicas e calçadas, queixas de pontos de alagamento, bem como insatisfação com a área de saúde pública constam da média de 600 atendimentos mensais da Ouvidoria. Em comparação com o ano de 2010, o acréscimo foi de 25%. As demandas dos moradores servem para a Ouvidoria traçar panorama da qualidade dos serviços prestados pela prefeitura. O material produzido é repassado para o Poder Executivo a cada três meses. O feed back custa pouco aos cofres municipais. Consome 0,02% do orçamento, cerca de R$ 675 mil em 2012. A verba é direcionada para pagamento do aluguel do imóvel onde funciona o serviço, manutenção do veículo e folha de pagamento dos 12 funcionários. “Temos R$ 60 mil livres para investimento este ano”, diz Saul Gelman. Serviço: O cidadão interessado dispõe de três meios para entrar em contato com a Ouvidoria de Santo André. Telefone: 4437-1150. E-mail: ouvidoria@santoandre.sp.gov.br. Ou pessoalmente à rua Cesário Motta, 58 – Centro - de segunda à sexta das 10h às 16h. Revista Repúplica 57
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Roberto Barboza
construção da usina hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, sul do estado do Pará, ultrapassa o enfoque economicista clássico e exige debate com considerável aporte político, bem como obriga a mudanças culturais de consumo. A avaliação é de Maurício Waldman, ambientalista e ativista social brasileiro, com contribuições a diversas áreas do conhecimento. Em 2011, o professor fez alerta sobre a geração de detritos superior ao que a Terra pode suportar no livro Lixo: Cenários e Desafios, da Cortez Editora, que foi finalista do Prêmio Nacional Jabuti. Doutor em Geografia pela USP, pós-doutor em Geociências pela Unicamp e pós-doutorando em Relações Internacionais pela USP, Waldman coleciona argumentos tão consistentes que, caso fossem realmente ouvidos, embargariam a construção de Belo Monte. Como o professor mesmo diz, o controle centralizado da geração de energia implica na negação da liberdade. O que mais impressiona em mega projetos são números. Com capacidade prevista de gerar 11,2 mil megawatts, a hidrelétrica de Belo Monte será a terceira maior usina do gênero no planeta quando estiver concluída. A maior é a chinesa Três Gargantas, no rio Yng-Tsé, que desbancou Itaipu, no rio Paraná. “São modelos cabalmente antiecológicos, indutores da exclusão social e do enriquecimento de minorias que usufruem dessa calamidade”, afirma quando avalia os constrangimentos ambientais que a obra irá gerar. Em entrevista à Revista República, além de destrinchar os impactos que a usina irá causar, Waldman aborda as relações comerciais do Brasil com a Alemanha e, para a surpresa de muitos, coloca em xeque o entro58 Revista Repúplica
Negação da
liberdade
Professor Maurício Waldman adverte sobre modelo caduco de controle centralizado da usina de Belo Monte nizado conceito da reciclagem como alternativa de sustentabilidade. Revista República - Professor Maurício Waldman, numa escala de zero a 10, qual seria o grau de prioridade da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte em longo prazo? Maurício Waldman: No longo prazo, o grau de prioridade seria zero. Pensar no futuro implica em estabelecer projetos com dimensões estratégicas. Levar efetivamente a sério a dimensão tempo significa considerar, no caso de um mega projeto como Belo Monte, um amplo rol de sequelas desprezadas pela ótica do imediatismo e da manipulação terrorista do apagão. O fato é que não somente os mega projetos hidrelétricos, mas todos os demais que adotam como cerne o controle centralizado da geração de energia, são implicitamente negadores da liberdade. Para complicar, temos deletérios efeitos ambientais que se perpetuam numa vasta escala do tempo e do espaço. Daí que em muitos países movimentos contrários às barragens estão avançando dia a dia. RR – E qual a alternativa para suprir as demandas de energia? O fato é que o consumo tem crescido enormemente e a própria urbanização da po-
pulação humana reclama maiores insumos energéticos. Como equacionar o problema? MW – Este é o foco central da discussão. Na realidade, o que se deve conferir são as expectativas culturais de consumo e o quanto estão adequadas à conservação dos recursos naturais, uma inferência de prioridade 10. Um caso icônico é o alumínio. Metal que se confunde com o próprio imaginário da modernidade, é eletro-intensivo por excelência. Cálculo interessante fornecido pelos próprios conglomerados metalúrgicos indica que uma latinha de alumínio incorpora energia suficiente para manter uma lâmpada de 100 watts acesa durante aproximadamente três horas e meia ou manter a televisão ligada por pouco mais de três horas. A tradução desses dados é que a latinha é um produto caríssimo em termos energéticos. Mesmo reciclando o vasilhame, ainda assim a conta ambiental não fecha. RR - Mas a reciclagem energética não seria a solução? MW - A reciclagem, energética ou não, faz parte de pacote de gestão ambiental. Contudo, não é a solução por definição. Note que todos os materiais que integram a vida moderna são, em maior ou me-
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meio ambiente
Usina de Belo Monte: modelo antiecológico, indutor da exclusão social e do enriquecimento de minorias
nor grau, devoradores de energia. No ciclo produtivo, para obtermos uma tonelada de vidro precisamos de 4,83 mil kilowatts por hora. O papel incorpora 4,98 mil kilowatts por hora a cada tonelada. O plástico solicita 6,74 mil kilowatts por hora por tonelada. Uma tonelada de aço corresponde a consumo de 6,84 mil kilowatts por hora. Mesmo os produtos agrícolas agregam proporção cada vez maior de energia. Esse conteúdo energético decorre tanto da produção em si quanto pelo fato de que os alimentos viajam cada vez mais para chegar à mesa. Nesse sentido, precisamos de mais inteligência: vasilhames de vidro retornáveis são infinitamente mais adequados do que latinhas descartáveis. Promover cultivos próximos dos consumidores também. Sacolas reutilizáveis idem. RR – E qual é a saída? MW - Antes de falar em reciclagem energética, terminologia que virou verdadeira panacéia, é preciso pri-
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meiramente rever e repensar o estilo de vida contemporâneo. Algumas dicas: usar menos embalagens, ter mais critério na hora de adquirir produtos, não jogar comida fora, abrir a torneira apenas quando necessário, dispor adequadamente o lixo, incentivar a horticultura urbana e assim por diante. RR - Ainda assim as demandas energéticas não irão parar de crescer. Existem países que estão ingressando na chamada produção em massa e necessariamente solicitam mais energia. MW - Isso não significa que mega projetos sejam indispensáveis. Ainda recentemente o governo da República Federal da Alemanha (RFA) decidiu encerrar a geração de energia nuclear e restringir centrais movidas a carvão, responsáveis por elevadas emissões de carbono. Os alemães pretendem expandir o uso das energias renováveis como a fo-
tovoltaica, eólica e biomassa, que saltarão dos atuais 16% da matriz energética da RFA para 80% até 2050. É interessante registrar que a potência instalada a partir dessas fontes renováveis atingirá 163,3 gigawatts. Dito de outro modo, é como se os alemães construíssem em quarenta anos 14 usinas tipo Belo Monte, com a vantagem, é claro, de que o plano alemão não possui os constrangimentos ambientais que essa obra irá fatalmente gerar. RR - Como o senhor interpreta o fato de o Brasil não levar adiante a reforma da matriz energética? MW - Muitos se esquecem que o debate da energia insere considerável aporte político. Incentivar a utilização dos ventos e do Sol incomoda o status quo, pois constitui formas de conversão de energia que promove autonoRevista Repúplica 59
meio ambiente
O Brasil é a maior nação solar do Planeta. O território recebe por dia o equivalente à energia gerada por 320 mil hidrelétricas de Itaipu
mia. O cidadão capta a energia no próprio telhado e pronto, fica cortado o vínculo com os gigantescos sistemas de fornecimento energético. Isso esvazia o poder do Estado, põe em xeque o modelo das grandes empreiteiras e os esquemas de financiamento. Ao mesmo tempo, é justamente essa sistemática que cria obstáculos para o aproveitamento da energia solar. O Brasil é a maior nação solar do Planeta. O território recebe por dia o equivalente à energia gerada por 320 mil hidrelétricas de Itaipu. Mas praticamente nada disso é aproveitado. Pelo contrário, as autoridades insistem em modelos cabalmente antiecológicos, indutores da exclusão social e do enriquecimento de minorias que usufruem dessa calamidade. E com certeza nesse recorte, está Belo Monte, com certa justiça considerada a Itaipu do Norte. RR - Então não é apenas tecnologia é que está no centro dessas preocupações? MW - Não apenas a tecnologia em si. Os procedimentos são tão ou mais importantes do que aparatos tecnológicos. Precisamos de regras incentivando o consumo consciente e, simultaneamente, aplicar melhorias na eficiência energética. Para citar boa prática ambiental, caso seja incentivada a implantação de placas solares nas residências, provendo água quente a partir do Sol, com certeza a demanda por instalações jurássicas como Belo Monte diminuirão ou deixarão de existir. Outra frente promissora adviria do barateamento de materiais, que induzem melhor aproveitamento da luz solar na geração de eletricidade, o que pode ser alcançado mediante apoio governamental.
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RR - O senhor compactua com aqueles que defendem existir a possibilidade de interesses de grupos que confundem, deliberadamente, aceleração do crescimento com a imediata e oportunista aceleração de crescimento das fortunas pessoais? MW - Quando se coloca em pauta a revisão do way of life contemporâneo, tal consideração obriga ponderar sobre o assustador abismo social existente na sociedade global. A renda média dos 20% mais ricos da população mundial era 30 vezes maior do que os 20% mais pobres em 1960. Entretanto, em 2000, a diferença subiu para 74 vezes. Neste último ano, a fortuna das 358 pessoas mais ricas do mundo era superior à renda de 2,7 bilhões de pessoas que habitavam países mais pobres. Esse padrão de concentração de riquezas, além de iníquo, é pura e simplesmente inaceitável. Quem quer que defenda um padrão sustentável para o planeta deve contemplar a satisfação das necessidades de vasto segmento de excluídos. RR - O senhor está satisfeito com a dimensão do debate atingido na sociedade? Acredita que uma abordagem mais aprofundada, numa linguagem acessível ao cidadão comum, choca frontalmente com interesses de quem deveria promovê-los? MW - Não, não estou. Como lembrava o geógrafo Milton Santos, a tendência de um debate político que não se volte para as causas reais é empapar-se cada vez mais de ideologia. É o que podemos observar no debate sobre energia. Além da hidrelétrica de Belo Monte, há também outro belo monte de propostas preocupantes. O Ministério de Minas e Energia pretende instalar quatro novos complexos atômicos,
dois no Nordeste e mais dois no Sudeste. Poucos têm conhecimento de que o único resíduo que não foi inserido no Plano Nacional de Resíduos Sólidos foi o lixo nuclear. Com Fukushima à vista de todos, fica uma pergunta no ar: se nem dos descartes domiciliares o poder público brasileiro dá conta, o que dizer então dos rejeitos atômicos? A sociedade precisa se mobilizar e mais, cobrar mobilização internacional. Se a Alemanha deseja livrar-se das centrais nucleares, como pode continuar a exportar para nós uma tecnologia que ela mesma repudia? RR – As cifras que envolvem Belo Monte podem, de alguma forma, corresponder a distorções, tantos
dos defensores quanto dos contrários à construção da mega-usina? MW - Eu acredito que a polêmica conquista contornos enviesados quando tudo passa a ser aquilatado a partir de uma noção abstrata de preço. Fala-se de fraudes de preço, de grupos que ganham ou perdem a partir da estipulação de preços, a imprensa denuncia preços aviltados, outros põem em discussão orçamentos, que são preços, e os desvios de verbas, que têm preço, e assim por diante. Preços, preços, preços. É isso que estamos discutindo: preços? Acontece, como é colocado pelo economista catalão Joan Martinez Alier, que a questão ambiental põe a nu a incomensurabilidade dos bens naturais. Qual é o preço de uma cascata? E o de um lago? E de uma espécie de anfíbio? Quanto vale um modo de vida tradicional destruído para sempre pelo lago de uma represa? Ora, numa única expressão preço não é valor. Nesse sentido, os impactos de uma obra como Belo Monte ultrapassam o enfoque economicista clássico. Seria o mesmo que argumentar o quanto se ganha ou se perde financeiramente quando
Maurício Waldman: riqueza biológica, social e cultural do Xingu é acervo que não tem preço
se para de fumar. Na verdade, só temos dois pulmões. Caso percamos um deles ou mesmo ambos, simplesmente deixamos de existir. Assim, o que se perde com a riqueza biológica, social e cultural do Xingu não tem preço porque se trata de um acervo que não é precificável. Então precisamos falar mais de valores que de preços. RR - Se assim for, resta ao cidadão fazer a média e chegar ao resultado que somos alimentados homeopaticamente com meias verdades? MW - Antes assim fosse. Na realidade, somos alimentados com manipulação em estado puro e assoberbados por uma mídia cuja liquidez é mantida por interesses voltados contra a liberdade do homem. Daí seu lastro ser a continuidade da exclusão e sua justificativa, a crença de que nada pode ser mudado. Entretanto, como ponderava Milton Santos, o que comumente é alçado como realidade é uma construção elaborada pelo prisma hegemônico. Entrementes, seu movimento é contraditório e sendo assim, gera antinomias e consecutivamente, percepções de mundo que se opõem. Por isso a importância do debate livre, da contestação, da exposição das ideias. Dar livre curso a novas interpretações é o primeiro passo. O que se segue é a formatação de projetos em contraponto ao que detém supremacia. Mas, enquanto tal, isso é algo que não constitui tarefa de um iluminado de gabinete. Antes, é uma prerrogativa do coletivo, das pessoas empenhadas com a mudança. Trata-se de uma expectativa que se constrói pela interação de muitas vontades, alicerçadas pelo anseio de superação. Revista Repúplica 61
meio ambiente
Shayane Servilha
Não dá mais para
ser cara de pau Fotos: Diego Barros
“S
e for bom, bonito e barato eu levo.” A afirmação é do comerciante Miguel Antonio Mello sobre a porta de madeira que planeja comprar para a casa nova. A animação do consumidor atrelada a preço e qualidade passa longe da preocupação ambiental, uma vez que não há resquício de preocupação com a legalidade da madeira. Apesar de comum nos noticiários, a apreensão de madeira ilegal no país é vista com distanciamento. Relatório do Instituto Real de Assuntos Internacionais do Reino Unido indica redução na exploração ilegal de madeira nos países com as maiores matas tropicais. A proporção de madeira ilegal no Brasil em comparação à madeira legal, caiu de 60% em 2002 para 34% em 2010. Os números do Greenpeace Brasil são mais pessimistas. Por meio do cruzamento de dados de produção e consumo de toras, a ilegalidade gira em torno de 59%. Em 2004, a produção madeireira na Amazônia brasileira foi de 24,5 milhões de metros cúbicos em tora. O volume autorizado era de 14 milhões de metros cúbicos, sendo 9,4 milhões por meio de planos de manejo e 4,6 milhões por meio de
Clodoaldo Orlandini: clientes estão cada vez mais preocupados com a procedência da madeira 62 Revista Repúplica
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Consumidores não se preocupam com legalidade da madeira na hora da compra e veem problema com distanciamento Madel: fornecedores e produtores dentro da lei autorizações de desmate. A dimensão da exploração ilegal de madeira no Brasil é gigantesca e esbarra em confronto de informações e em cadeia que envolve desmatamento e violência. “O lucro da venda de madeira ilegal, geralmente financia o desmatamento, a ocupação desordenada e as queimadas. Ninguém imagina, mas o aumento da violência também tem relação”, afirma Fabrício França, diretor da ONG Instituto Triângulo, que tem o objetivo de incorporar atitude sustentável ao cotidiano, O Mapa da Violência elaborado pela OEI (Organização dos Estados IberoAmericanos) mostra que dos 100 municípios com maiores índices de desflorestamento, 61 estão entre os que apresentam as maiores taxas de assassinatos no Brasil. Não ser cúmplice exige conduta. “As pessoas não sabem do selo FSC (Conselho de Manejo Florestal), que é garantia da madeira, desde a origem até o ponto de venda”, diz. Trata-se de documento que pode e deve ser solicitado pelo cliente. Há também como procurar online no Cadmadeira (Cadastro de Comerciantes de Madeira no Estado de São Paulo), criado pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado, que lista
as empresas identificadas pelo Certificado Madeira Legal. O estudante de administração André Torres acredita que o governo tem de agir com mais rigor na fiscalização. “O consumidor não tem embasamento para saber se o certificado ou site são originais ou não. O mínimo que o governo pode fazer é cuidar disso. Sei que o planeta é nosso, mas o poder está nas mãos das
Dos 100 municípios com maiores índices de desflorestamento, 61 estão entre os que apresentam as maiores taxas de assassinatos no Brasil autoridades”, diz. Na contramão da maioria, Fernanda Ortega se preocupa com a questão. Alertada por comerciante de móveis sobre a diferença nos preços de uma loja para outra, passou a atentar sobre o tema. “Nunca havia passado isso pela minha cabeça. Quando perguntei para a loja mais em conta sobre legalização eles desconversaram. Hoje eu faço questão
de perguntar e saber da procedência. Não só na compra de madeira, mas em todos os produtos”, afirma. O gerente executivo da Madel, Clodoaldo Orlandini, diz que os clientes estão questionando mais sobre a certificação da madeira. “Registramos preocupação maior em todas as classes sociais. Isso também é importante para as lojas que procuram fornecedores e produtores dentro da lei. Já que temos um custo maior do que os que vendem produto irregular”,diz. A produção ilegal de madeira é crime. As penas variam de seis meses a cinco anos de prisão e multas elevadas, mas a exploração criminosa continua em larga escala, principalmente da construçãocivil. Dados da WWF-Brasil mostram que o Estado de São Paulo consome 15% da madeira amazônica e, deste total, 70% são utilizados no setor da construção. “A solução não é banir a madeira da obra. A madeira de reflorestamento tem sido a melhor alternativa. Cerca de 8% é a diferença de preço entre a madeira certificada e a ilegal. Não existe motivo para fazer uma compra sem consciência ambiental”, diz o engenheiro civil Anderson Araújo Revista Repúplica 63
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Tuga Martins
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ABC elegeu quatro deputados federais da região em 2010. Vicente Paulo da Silva, José de Filippi e Vanderlei Siraque, do PT, e William Dib, do PSDB somaram perto de 500 mil votos, 25% dos quase dois milhões de eleitores da região, apesar de nem todos os votos terem saído das urnas das sete cidades. Mais que propor e votar leis, os parlamentares fiscalizam ações do Executivo Federal e destacam verbas para áreas de interesse. Ou seja, quanto maior a representatividade política de cidade ou região, maiores as possibilidades de destinação de recursos a determinada localidade ou setor. Tais ações
Aliados
em Brasília Deputados federais do ABC mantêm relações cordiais em favor do desenvolvimento da região influenciam diretamente o desenvolvimento socioeconômico e desencadeiam geração de emprego e renda, além de promover bem estar social. Embora não haja agenda instituída de interesses regionais, os deputados federais do ABC mantêm relações cordiais nos corredores do Congresso Nacional. Das principais conquistas, a criação da UFABC (Universidade Federal do ABC) certamente uniu esforços. Óbvio que o alinhamento partidário de prefeitos e parlamentares facilita acessos às reais demandas dos municípios, mas rixas ideológicas causam constrangimentos. “Destaquei R$ 600 mil para projeto de assistência social de Santo André e o prefeito Aidan Ravin (PTB) não quis”, lembra o petista Vicente Paulo da Silva. Veterano em Brasília, Vicentinho está no terceiro mandato. Assumiu a função parlamentar depois de presidir a CUT Nacional e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. “Encaro a missão como contínuo aprendizado”, afirma. Em 2011, ficou entre os sete melhores dos 513 deputados federais do país, o melhor entre os 87 petistas e ainda entre os três melhores dos 70 eleitos por São Paulo. A atuação de Vicentinho segue dois eixos: luta em defesa dos direitos dos trabalhadores e contra qualquer tipo de discriminação. O mandato é acompanhado por Conselho Popular de mil pessoas, com poder deliberativo, inclusive em relação à solicitação de destinação de verbas federais. “Quero estender a atuação para questões ambientais e culturais”, adianta o deputado. Dois projetos de lei de Vicentinho, ainda em trâmite, devem impactar positivamente a região. Um proíbe o Poder Público de comprar carros importados e outro obriga montadoras a usar pelo menos 70% de peças nacionais. “Acredito que essas medidas protegem o emprego não apenas no ABC, mas em outras regiões do país”, afirma. Prefeito de Diadema por três gestões, José de Filippi Junior assumiu o primeiro mandato de deputado federal com participação em duas Comissões Permanentes: Desenvolvimento Urbano e Educação e Cultura. “Este primeiro ano foi de
intenso trabalho junto à bancada do PT para dar suporte ao governo de Dilma Rousseff”, orgulha-se. Das principais conquistas, Filippi destaca o fortalecimento do salário mínimo, o maior dos últimos 40 anos. Mais encorpado, o salário mínimo amplia os horizontes da inclusão e da dignidade dos trabalhadores de todo o país. “Em 2015 chegaremos ao equivalente a US$ 500, valor impensável há 10 anos, quando o salário mínimo era de US$ 70”, comemora. A adoção de políticas econômicas pelo governo garantiu a
empregabilidade no ABC. “Temos os melhores índices dos últimos 30 anos”, afirma. A redução de impostos e o fomento ao crescimento estrutural do país colocaram a região em reforma. Obras para todos os lados. “O ABC é região altamente industrial e estratégica em inovação”, defende. Engenheiro civil com pós-graduação em Harvard, Filippi foca o primeiro mandato no desenvolvimento urbano e na mobilidade das regiões metropolitanas. “Faltam opções de investimento estrutural de transportes de alta capacidade”, diz.
Rixas ideológicas causam constrangimentos como recusa do prefeito Aidan Ravin a R$ 600 mil destacados pelo deputado Vicentinho
Voz de trabalhador No segundo mandato como deputado federal e pré-candidato a prefeito de São Paulo, Paulo Pereira da Silva (PDT) acumula experiência de metalúrgico combativo e sindicalista progressista. Presidente da Força Sindical, sempre despontou entre os candidatos mais bem votados do país. O foco de luta é a incansável defesa do trabalhador. Leia-se: redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, aumento do poder de compra dos aposentados e regulamentação da terceirização. “Não faz muito tempo, o trabalhador não tinha acesso a cargos públicos. Quem ocupava estes cargos eram apenas empresários, ou seja, a elite brasileira. Hoje, a classe trabalhadora elege reais representantes e ganha voz na política brasileira”, orgulha-se. A experiência frente à Presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em época de grandes dificuldades econômicas e sociais, credencia Paulinho como estruturador de uma das maiores centrais sindicais da América Latina. Idealizador do Centro de Solidariedade ao Trabalhador, Paulinho também esteve à frente da construção do Palácio do Trabalhador, sede do sindicalismo moderno. A rotina de deputado é apertada. De terça a quinta, dedica-se ao Congresso Nacional e entre sexta e segunda-feira, cumpre agenda na Força Sindical e sindicatos filiados. Os assessores recebem demandas públicas do partido e do movimento sindical. “Todo o trabalho parlamentar é voltado a valorizar as pessoas como seres humanos e não apenas visando o lucro. Vou engrossar a luta pela melhoria de condições de vida das famílias porque entendo como vivem as pessoas. A maioria vem da classe média baixa e precisa de representantes preocupados com a coletividade”, afirma.
Foto: Antonio Cruz\ABr
política
Paulinho: rotina apertada Vicentinho: mandato acompanhado por Conselho Popular de mil pessoas 64 Revista Repúplica
Revista Repúplica 65
política
Tuga Martins
Políticas de paz Com pouco mais de 20 anos de trajetória política, Vanderlei Siraque iniciou a militância nos núcleos da paróquia Santa Maria Gorette, em Utinga, Santo André. Depois foi vereador e deputado estadual. Advogado atuante no Sindicato dos Bancários do ABC, Siraque foca o primeiro mandato na Câmara Federal na área em que fez doutorado: Políticas na Área de Segurança Pública, pela PUC/SP. A preocupação com a escalada da violência, bem como as greves das polícias militares e das forças estaduais de segurança da Bahia e do Rio de Janeiro, levou o deputado a propor PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que formalize e institucionalize a criação de nova Força Nacional de Segurança Pública, de modo que passe a compor o texto do artigo 144 da Constituição Federal. “A Força Nacional de Segurança Pública irá prestar apoio às polícias estaduais e aos governadores dos Estados, constituindo ciclo completo, ou seja, poderá agir de forma ostensiva e repressiva, combatendo e investigando crimes”, resume. Siraque também é defensor ferrenho do Susp (Sistema Único de Segurança Pública), projeto de lei 1937/2007, que tramita na Câmara dos Deputados. O deputado recebe demandas dos eleitores em escritório político em Santo André. Geralmente, reserva um dia da semana para os eleitores. “Realizamos reuniões de Prestação de Contas do Mandato em vários bairros da cidade”, diz. O tucano William Dib estreou na Câmara Federal como defensor da PEC 300, que cria piso salarial para policiais militares e bombeiros. Com experiência de vereador, secretário de Saúde e prefeito de São Bernardo, o médico cardiologista de formação traz no coração a satisfação de ter 66 Revista Repúplica
Vanderlei Siraque: criação de nova Força Nacional de Segurança Pública sido reeleito chefe do Executivo com a maior votação do país, 76,37% dos votos válidos. “Continuo pautando a minha atuação no bem das pessoas. O eixo central é a melhoria da qualidade de vida do cidadão”, afirma.
Oposição ao governo Dilma Rousseff, William Dib discute questões regionais com colegas petistas William Dib assina projeto de lei que torna obrigatória a presença de profissional de Odontologia nas UTI´s de hospitais. Mas o que mexeu mesmo com o deputado foi ser relator do Projeto Antibullying. Dib apresentou substitutivo às 12
José de Filippi: maior salário mínimo dos últimos 40 anos
William Dib: zelar pela boa aplicação dos recursos públicos
propostas em tramitação, 11 da Câmara dos Deputados e uma do Senado Federal. “Estudos demonstram que cerca de um terço da população escolar está envolvida em bullying”, afirma. Membro da principal bancada de oposição ao governo Dilma Rousseff, William Dib não vê problema em discutir questões regionais com os colegas petistas. “Como sempre ressalto, o que conta são os projetos em benefício da coletividade e não a coloração partidária ou ideológica”, defende. Para o deputado, uma das principais funções da Câmara Federal é fiscalizar a administração orçamentária do Executivo. “Isso significa zelar pela boa aplicação dos recursos públicos. Confesso que hoje não é fácil para a oposição. Mesmo assim, procuro cumprir com lealdade e espírito público a missão que os meus eleitores me deram”, diz. Revista Repúplica 67
Turismo
Shayane Servilha
Fotos: Raquel Toth e Wilson Magão\PMSBC
Teleférico percorre 800 metros e cruza todo o parque em 20 minutos
Eu Revitalização resgata potencial turístico e devolve ao parque a merecida relevância
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emorou, mas aos poucos o Parque Municipal Estoril Virgílio Simionato, em São Bernardo, começa a ter de volta a merecida relevância. Patrimônio municipal, o lugar é perfeito para quem quer se divertir e, ao mesmo tempo, estar em contato com a natureza. Considerado o mais completo da 68 Revista Repúplica
região, o parque passou período no ostracismo, com manutenção insuficiente e escassos investimentos, condições que ameaçaram seriamente a qualidade dos serviços e afastaram turistas. O governo de Luiz Marinho decidiu resgatar o potencial turístico do lugar, que está na segunda etapa
da revitalização. Com conclusão prevista para 2012, as reformas atingem prédios administrativos, sanitários e estacionamento. O projeto ainda contempla a construção de bicicletário, ciclovia, novos restaurantes, um centro de eventos, setor exclusivo para churrascos, novos píeres, decks para embarcações, centro de eventos e palco aberto para shows ao ar livre. “São etapas importantes para valorizar mais o passeio. Hoje, podemos dizer que aqui tem tudo para um dia de lazer com amigos e familiares”, afirma a gerente operacional, Marlucia Carneiro dos Santos. Além de receber visitantes, o parque se dedica a estudos, reprodução de animais silvestres e educação ambiental. “O trabalho que realizamos aqui consegue mostrar a importância dos animais na nossa fauna. Principalmente as crianças têm de aprender desde cedo a preservar o meio am-
biente”, defende o veterinário do parque, Marcelo da Silva Gomes. Pelos ares Atração imperdível é o teleférico. Com 800 metros de extensão, o equipamento cruza todo o parque em percurso de ida e volta em cerca de 20 minutos. Fundado na década de 70, o teleférico atrai público até de outros estados, mesmo depois de permanecer desativado por 15 anos. Para desfrutar da visão panorâmica é necessário desembolsar R$ 7. “Voltei por causa do teleférico. É incrível a paisagem nesse lugar, do alto então é impressionante”, comenta a paranaense Andreia Bocatto, em férias em São Paulo. Outro destaque do parque é o zoológico, com visitação já incluída no valor da entrada. Inaugurado em 1985, o zoo conta com 140 animais e 55 espécies de répteis, aves e ma-
míferos, entre os quais, espécies em risco de extinção, como o papagaiode-peito-roxo, arara azul, jacaré-dopapo-amarelo e cachorro-vinagre. Há ainda museu com visitas monitoradas, biblioteca para uso interno e ambulatório. Há diversão para todos. Opção para casais, o pedalinho custa R$15. A família pode aproveitar o pedalão, que comporta até quatro pessoas e sai por R$ 30. A volta de escuna é ideal para grupos e custa R$ 15 por pessoa. A canoagem também é muito procurada pelos visitantes e até por esportistas profissionais, a prática é de R$ 10 por pessoa. Na prainha do parque também é permitida pesca e banho sob orientação de bombeiro e salvavidas. A aventura pode continuar em circuito de arvorismo a R$ 5, tirolesa a R$ 8 e escalada a R$ 5. Todas as atividades duram até 30 minutos. Aos atletas de plantão, o parque
oferece três academias de ginástica ao ar livre, especialmente criadas para crianças, terceira idade e deficientes. Com 73 anos, Maria Menezes vai ao parque todo fim de semana para usufruir dos equipamentos. “É bem mais prazeroso cuidar da saúde e bem-estar com a natureza em volta. Não tem desculpa para escapar da ginástica”, brinca a aposentada. Como a entrada de alimentos é permitida, piqueniques enfeitam os bosques. Mas quem não quer se preocupar em preparar comes e bebes, restaurantes e bares servem petiscos e pratos à base de peixe. Questão importante e sempre orientada pelos funcionários é a preservação ambiental. “Não jogar lixo, não vandalizar equipamentos e áreas são coisas básicas. Pedimos aos visitantes que tenham cuidado com o parque para deixar o mais intacto possível”, diz a funcionária Dirce Sobreira. Inaugurado em 1955, o parque possui 373 mil metros quadrados, sendo 220 mil metros quadrados de área verde reservados para a prática de esportes e lazer. Um dia no parque é pouco para aproveitar todas as atrações oferecidas. “Aqui até parece o paraíso”, sintetiza Fernanda Murtosa, que adora visitar o local em dias de sol. Serviço: O parque fica na Rua Portugal, 1.100, Bairro Estoril, Riacho Grande. Aberto de quarta a domingo, das 9h às 17h. Telefone 4354-9087. Moradores da cidade com a carteirinha do munícipe e crianças de até 7 anos não pagam a entrada. Visitantes pagam R$ 5. O estacionamento para carros é R$ 16, moto R$ 14, ônibus R$ 300 e microônibus R$ 50. Com a carteirinha de munícipe, os valores caem pela metade. Revista Repúplica 69
sindical
Tuga Martins
História Viva
Foto: Diego Barros
Federação dos Metalúrgicos em São Paulo, mas a gente não falava nada, só assistia”, lembra. O envolvimento aumentou com a primeira grande greve do ABC em 1978, deflagrada na Scania em 12 de maio. “Era a chamada greve branca, dentro da fábrica, e nós decidimos parar também a Pirelli”, conta. A paralisação não foi apenas solidária. A data base da Pirelli era em junho, mas como a data base da Scania era em abril e continuava sem solução até maio, os trabalhadores anteciparam a mobilização. “Paramos a Pirelli em 25 de maio e ficamos em greve por três dias”, detalha João Avamileno. O reajuste foi conquistado. Um ano depois, o movimento grevista foi ampliado e as greves romperam os portões das fábricas do ABC. João Avamileno era operador de máquina e a militância sindical se dava no chão de fábrica. “Assistia a negociações e orientava os companheiros”, afirma. O trabalho junto aos companheiros teve resultado positivo e a Pirelli parou em 1 de abril em assembléia simultânea à realizada por Lula em São Bernardo. “Depois de quase duas semanas de greve voltamos ao trabalho”, diz.
João Avamileno: trajetória de mais de 40 anos se mistura com história comtemporânea do Brasil
Inesquecíveis meses de abril
A
bril sempre traz à tona memórias que transformaram o ABC e desencadearam mudanças profundas na relação capital-trabalho em todo o país. Data base do setor metalúrgico, o mês coleciona a maioria dos marcos históricos da luta sindical. Na fala tranquila de João Avamileno, os fatos testemunhados soam como romance e instigam a curiosidade acerca da trajetória de mais de 40 anos que se mistura com a história contemporânea do Brasil. Dono de lembranças combativas, o ex-metalúrgico traz na bagagem experiência de delegado sindical no chão de fábrica, tesoureiro, secretário Geral e presidente do Sindicato dos 70 Revista Repúplica
Metalúrgicos de Santo André e Mauá. Militante desde 1971, João Avamileno trabalhava na Pirelli quando, motivado pelas injustiças sociais, se tornou ativista em favor dos trabalhadores. Na época, as responsabilidades de pai de família falavam alto por conta do nascimento do segundo filho, Fabrício. O primogênito Fabiano chegou em 1969 e o caçula Fred, em 1980. “Comecei namorar a Ana em 20 de abril de 1964 no Cine Tangará. Casamos em 3 de setembro de 1966, tivemos nossos filhos e em 14 de abril de 1994, adotamos João, então com 10 anos”, emociona-se. A vida pessoal encorajava e em 1975, quando era cipeiro, participou em plena ditadura militar de negociações trabalhistas como delegado sindical. “A Pirelli permitia indicação para a
Intervenções A conjuntura política começou a apertar. Em 1979 os sindicatos do ABC sofreram intervenção com afastamento das diretorias, o que forçou os trabalhadores a retomar as atividades. Em abril de 1980, mais paralisações, algumas por mais de 40 dias. Em consequência, novas intervenções. “Santo André ficou dois anos sob intervenção e São Bernardo por um ano”, lembra. Enquanto São Bernardo elegia Jair Meneghelli presidente, Santo André passava por situação tumultuada. “Tivemos muitas demissões e por isso muitos associados perderam direito a voto. No fim, não conseguíamos quórum”, conta. Depois de três tentativas de eleições em 1981, o novo interventor enxugou a lista de associados à realidade, realizou novo pleito e o sindicato voltou às mãos dos trabalhadores. “Duas chapas disputaram. A apoiada por empresários perdeu para a chapa encabeçada por Miguel Rupp”, conta João Avamileno, que foi eleito tesoureiro. Mas a entidade estava praticamente falida e desacreditada. O desafio foi resgatar o caráter de luta. “Como tesoureiro, minha tarefa era a recuperação financeira para devolver a saúde moral à entidade e poder voltar às portas das fábricas”, diz. Na greve geral dos metalúrgicos de 1983, João Avamileno foi detido enquanto panfletava porta de fábrica. “Eu tinha mais coragem que medo”, orgulha-se. O sindicato retomou a credibilidade. Em agosto de 1984 lançou a campanha por 40 horas semanais. “Fomos pioneiros nesta luta no país”, afirma. Depois da grande greve pelas 40 horas em 1985, os trabalhadores conquistaram a redução para 44 horas. A conquista acabou incluída na Constituição de 1988 para todos os trabalhadores de todos os setores.
Anos de ferro: mais coragem do que medo De 1985 a 1988, João Avamileno respondeu como secretário Geral. “Era tempo de inflação muito alta e a principal batalha era pelo 14° salário e antecipação do pagamento do dia 10 para o dia 31 para evitar perdas aos trabalhadores”, afirma. Em 1988 veio a Presidência, onde ficou até 1991. No ano seguinte foi eleito vereador pelo PT. “O aprendizado é indescritível”, garante. João Avamileno aposentou-se como metalúrgico em 1993. Assumiu a carreira política como presidente do PT, vice-prefeito até assumir o Executivo Municipal em 2002, em razão da morte prematura de Celso Daniel. “Foi um dos momentos mais difíceis de minha vida”, admite. Reeleito em 2004, governou Santo André até 2008. Tentou candidatura à Assembléia Legislativa e não teve sucesso. Hoje, participa da vida orgânica do partido e das campanhas em geral. “Integro a coordenação das eleições municipais de 2012”, afirma.
SINDICAL
Liora Mindriz
Gente Nossa
Associado é
quem manda
D
esde que assumiu a Secretaria Administrativa e Financeira do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá em junho de 2005, Adilson Torres dos Santos, o Sapão, buscou atender às reivindicações antigas dos associados e também ficar atento às novas necessidades que surgem dia após dia. Depois de trabalhar como diretor em fábrica desde 1999, a primeira ação na nova função foi construir a piscina para adultos na Colônia de Férias na Praia Grande. “Era uma reivindicação antiga. Na rua da nossa colônia há muitas outras de outros sindicatos, e todos tinham piscina de criança e adulto, enquanto a nossa só possuía para as crianças”, relembra. “Em 2006 foi debatido pela Diretoria e iniciou-se a construção, sendo inaugurada para a categoria em outubro de 2006, com grande festa que contou com a presença de mais de três mil pessoas entre trabalhadores e familiares”, lembra. 72 Revista Repúplica
Foto: Diego Barros
Adilson dos Santos, Sapão: ampliações para acompanhar crescimento da base Ao longo dos anos, com o crescimento do parque industrial de Mauá, outras necessidades surgiram. A primeira – e talvez uma das maiores ações de Adilson à frente da Secretaria -, foi ampliar a sede no município. Em 2007, o espaço dobrou de tamanho com a concessão da Prefeitura de terreno nos fundos do local, que antes comportava apenas atividades da Diretoria. “Por não ter espaço físico, diversos serviços como os do Departamento Jurídico, só eram oferecidos em Santo André. Diante da nova realidade, além dos serviços também pode haver assembléias no novo auditório que comporta cerca de 100 pessoas e aulas em parceria com o Senai em sala para 50 alunos”, comemora. Também por esse crescimento no número de trabalhadores na base, houve a necessidade de ampliar a frota de veículos, sendo hoje quatro para Santo André e quatro para Mauá. Mas a sede de Santo André também não ficou para trás e passa por reformas desde 2009. Salão de assembléias, portaria, salas da Diretoria e dos departamentos e escadas passaram por transformação. Foi ainda construído auditório para reuniões e assembléias com capacidade para 160 pessoas. “Conforme a gente nota a necessidade, vai planejando novas melhorias”, relata Adilson. Por isso, em fevereiro deste ano a sede de Santo André começou a passar por uma nova reforma: a instalação de um elevador. “O prédio era antigo e não tinha essa acessibilidade. Mas até por questão de consciência, era uma necessidade latente. Não só para os portadores de necessidades especiais, mas pelos muitos idosos que frequentam nosso sindicato”.
Revista Repúplica 73
Shayane Servilha
Shayane Servilha
Usados não,
renovados
Móveis de segunda mão atraem diversos públicos interessados em decoração inusitada aliada a baixo preço
Foto: Diego Barros
Benjamin Sneider: 43 anos dedicados a móveis de segunda mão
U
ma demão de tinta aqui, um retoque ali e o que parecia desprezível no canto da loja de móveis usados ganha cor, brilho e principalmente bons motivos para ser usado. Em bairros ou nos centros, lojas de móveis usados garantem espaço entre consumidores dispostos a decorar a casa com peças renovadas. Com público diversificado, é equivocada a ideia de que apenas a falta de dinheiro leva ao garimpo de itens de segunda mão. Muitas lojas têm peças diferenciadas, que não são mais fabricadas e traduzem outras épocas. “Não tenho vergonha nenhuma de dizer que compro usados. Existem relíquias que servem como luva em alguns cantos da casa e dão charme e ineditismo, coisa que os novos não conseguem”, afirma a promotora Maria Ferreira. O preço baixo atrai, mas não é primordial para os consumidores, que são atentos na hora de decidir a compra. Odair Junqueira, que estava à procura de um banco para o quintal, pesquisou em três lojas antes de fechar 74 Revista Repúplica
negócio. “Tem de procurar para ver se a qualidade é boa e para não correr risco de ter de comprar duas vezes, porque senão, dói no bolso”, diz. Para Filomena Aparecida Santos a vantagem está na simplificação do negócio. “Se eu compro agora, em menos de uma hora já está na minha casa. Não tem aquela coisa de ficar assinando papelada e ficar comprovando renda. O bom de poder comprar perto de casa é que a gente pode vir trocar se tiver algum problema”, diz. Dono de loja no Centro de Santo André há 43 anos, Benjamin Sneider abriu mão dos novos em favor dos usados e hoje não troca o comércio por nada. A decisão foi devido à concorrência das grandes marcas. “Minha loja de novos não me dava lucro algum, só trabalho. Essas lojas populares colocam o preço muito abaixo para móveis novos. Por isso, decidi pela venda de usados e não me arrependo”, comenta. Depois de se firmar no negócio, o lucro aumentou até 50% em razão da diversidade de público. “Tem gente mais humilde que compra móveis para a casa toda e pessoas mais afortunadas que compram uma ou duas peças porque acham que é chique”, brinca o comerciante. Lojas de usados também são comuns em bairros. O casal Milton Costa e Fátima da Silva, que há 10 anos possui negócio na Vila Humaitá, em Santo André, resolveu agregar eletrodomésticos às vendas. “Nosso ganha pão é com os móveis. A maioria vem buscar isso. Os eletrodomésticos são opção para quem quer comprar barato”, avalia Milton. “Vimos na venda de outros produtos meio de aumentar o poder de compra e venda no bairro”, completa Fátima.
decoração
Rosivaldo Aragão: mais fácil que pintura porque não precisa se preocupar com emendas
Passo a Passo Materiais • Lixa. • Espátula. • Desempenadeira de PVC para fazer grafiato nos tamanhos 15x25 e 8x16. • Desempenadeira de aço. • Massa de grafiato.
Arranhado chique
Foto: Diego Barros
Decoração
Grafiato agrega valor ao acabamento de fachadas e interiores
T
odo o conforto desejado a ambientes residenciais e de trabalho depende do acabamento. Quem quer economizar na hora de terminar os detalhes da reforma ou da construção pode optar pelo grafiato. Tendência em revestimentos internos e externos, a técnica combina praticidade, durabilidade e preço acessível. O famoso arranhado casca de árvore é o atual queridinho e pode ser feito por todos sem dificuldades. “É mais fácil que pintura comum porque não precisa se preocupar tanto com as emendas”, afirma Rosivaldo Dias Aragão, pintor há 20 anos. A técnica é procurada para fachadas de casas e edifícios por ser hidrorrepelente. A proteção contra
chuva e a pouca manutenção é uma das principais vantagens do grafiato. “A durabilidade é maior do que uma pintura convencional. A cor não desbota facilmente, além deixar o lugar mais elegante”, fala a decoradora Elainne Freitas. O efeito final do grafiato também combina com ambientes internos, mas a decoradora alerta para possíveis abusos. “Como é possível ser aplicado pelo próprio morador, é sempre bom lembrar para não sair fazendo por todas as paredes. Aplique apenas para destacar a principal do ambiente.” O grafiato convencional rende até 16 metros quadrados, dependendo das condições da superfície. Hoje
Como fazer Limpe e lixe a superfície da parede para tirar todas as imperfeições. Deve estar limpa, seca, sem poeira e mofo. Com o auxílio da espátula de aço coloque o grafiato na desempenadeira para poder aplicá-la na parede. Com desempenadeira de aço, aplique a massa na parede em apenas um sentido. Quanto mais grossa for a camada mais visível será a textura, mas cuidado para não exagerar. Não se esqueça de deixar a massa uniforme na superfície. Faça o grafiato sobre a superfície revestida ainda úmida. Passe a desempenadeira de acordo com o efeito desejado, podendo ser na vertical, horizontal ou em movimentos circulares. Quanto mais executar o movimento, mais risco terá sobre a superfície. Utilize a desempenadeira branca menor para fazer retoques, acabamento em áreas pequenas e superfícies arredondadas. A secagem total é de 48 horas.
está à venda em casas de tintas por volta de R$ 70 o colorido e R$ 50, o branco. Apesar de o consumidor poder passar cor por cima do grafiato neutro, porém o mais recomendável é comprar na cor para evitar gastos desnecessários. Revista Repúplica 75
talentos
Guilherme Oliveira
Dedos do ABC na
recriação do universo Físico Eduardo Gregores integra equipe que busca reproduzir origem do universo
O
professor na Universidade Federal do ABC (UFABC), Eduardo Gregores, trabalha com físicos do mundo inteiro em pesquisas que propõem recriar o início universo. O estudo é desenvolvido na Organização Européia para Pesquisa Nuclear (Cern), na fronteira FrancoSuíça, onde são desenvolvidos vários campos de pesquisas, entre os quais o LHC (Grande Colisor de Hádrons, na sigla em inglês), acelerador de partículas que tenta reproduzir o Big Bang. Outros brasileiros também participam da equipe. Da UFABC, o professor Pedro Mercadante, e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os professores Sergio Novaes e Sandra Padula. O trabalho dos brasileiros é extrair dados do LHC para novos experimentos voltados à área gravitacional e quem sabe descobrir um novo buraco negro ou uma nova dimensão. A proposta do grupo é provar que a força gravitacional é distribuída por dimensões extras no espaço. “Com esse experimento a gente pretende descobrir ou responder à maioria das questões que ainda estão em aberto no mundo da ciência”, explica Gregores. Os pesquisadores acompanham e desenvolvem estudos sem necessariamente sair do país, por meio de cloud computing, modelo no qual processamento, armazenamento e softwares são acessados via internet. “O acompanhamento dos experi76 Revista Repúplica
Foto: Bruno Dup
Energias, Instrumentacem papel fundamental Sonho de transformar alunos em ção e Ciência Computapara o processo científico. novos cientistas, além de querer recriar Big Bang cionais) via programas Um físico sem equipe não da Fapesp (Fundação consegue alcançar objetiPara felicidade de Gregores e de de Amparo à Pesquisa do Estado de vos. Nesse caso, alunos são mão de obra valiosa”, defende. A ambição é outros cientistas, o paradigma brasi- São Paulo). ousada, uma vez que as principais leiro começou a ser quebrado com a dificuldades no desenvolvimento criação do Exame Nacional do Ensino Novo COMEÇO O LHC (Large Hadron Collider) é e apropriação de pesquisas estão Médio (Enem) e o Sistema de Seleção ancoradas no modelo educacional Unificada (SiSU). As iniciativas promo- o maior experimento do Cern. Apeliveram mudança no comportamento dado da máquina do fim do mundo, brasileiro. Por muito tempo, só depois de nas escolas de Ensino Médio, e agora o equipamento está instalado no formado o cientista poderia produzir os alunos são preparados para todas subterrâneo entre Suíça e França e ocupa 27 quilômetros. algo substancial. Por conta do foco no as universidades do país. O modelo nacional de financiaO LHC acelera e aumenta a curto prazo, o país ainda não tem inmento também preocupa. Difícil exenergia de dois feixes de hadrons dústria automobilística genuinamente nacional, por exemplo. “Para formar plicar para o Cern a necessidade de (partículas subatômicas) ou de íons profissional pesquisador é preciso em recomeçar toda a negociação do pro- de chumbo, que viajam em diremédia 25 anos. Além disso, a educa- jeto por conta de troca de ministros”, ções opostas dentro do acelerador, ganhando energia a cada volta. As ção científica tem de começar no critica o físico. Dos objetivos de Gregores cons- colisões dessas partículas recriam as ensino básico com incentivos à área”, aponta Gregores, que se interessou ta conseguir financiamento para o condições imediatamente seguintes Chepics (Centro de Física de Altas ao Big Bang. por ciência na adolescência.
Eduardo Gregores: respostas a questões ainda em aberto no mundo da ciência mentos é possível para cientistas do mundo todo e as reuniões são feitas por vídeo conferências”, diz o físico. Para se ter ideia, cada centro de processamento conta com cerca de 700 processadores e um petabyte em disco, que corresponde a 1024 terabytes. “O Cern não para nunca e tudo é monitorado, o que gera grande quantidade de informação. O LHC chega a realizar 10 milhões de colisões de partículas por segundo”, detalha Gregores. O Brasil está envolvido diretamente com os trabalhos do Cern, inclusive financeiramente com recursos do governo. A ambição de desenvolver tais trabalhos vem da consolidação de novas estruturas de desenvolvimento de pesquisa como equipamentos, financiamento, interligações entre universidades, países e cientistas. “A participação dos cientistas brasileiros em grandes experimentos significa incluir o país em um grande jogo em busca de soluções. Se não fosse a participação dos brasileiros, ficaríamos atrás do progresso da ciência internacional”, afirma. Chave mestra Além de querer recriar Big Bang e buracos negros, o principal sonho de Gregores é transformar alunos em novos cientistas. “Estudantes exerRevista Repúplica 77
consumo
Shayane Servilha
Fotos: Diego Barros
Mercado Municipal de Santo André: 15 anos de abandono
Mercado Municipal Hélio Masini: 600 visitas por dia e quase o dobro nos fins de semana
Potencial desperdiçado Mercados municipais não recebem merecida atenção dos poderes públicos
D
esde a segunda metade do século 20, mercados públicos são considerados patrimônios culturais e locais de encontro das populações. Não à toa, o Mercado Municipal de São Paulo é visita obrigatória para turistas e querido pelos moradores. Mas, o mesmo não acontece com os de São Bernardo e Santo André. Para se ter idéia da importância desses espaços na dinamização da vida urbana, os 40 mercados municipais de Barcelona são alvo de revitalização constante. Na região, as condutas seguem na mão oposta. Desativado em 2004, o então mercado municipal de São Bernardo, em frente ao Paço, é complicador da paisagem e ninho de problemas. O descaso com o próprio público fomenta pichações e 78 Revista Repúplica
abrigo a consumidores de droga. Na cidade, restou o Mercado Municipal Hélio Masini, localizado em Rudge Ramos, considerado o único da região que resiste ao tempo. Com cerca de 70 boxes, entre lojas de roupas, sapatos, lanchonetes e os tradicionais estandes de frutas e especiarias, o lugar recebe em torno de 600 visitas por dia e quase o dobro nos fins de semana. “Eu não sabia que existia mercado municipal em São Bernardo. É a primeira vez que venho aqui. É muito bom para quem gosta de diversidade na hora da compra”, declara Ana Luisa Santos, moradora há 34 anos na cidade. Mesmo relativamente movi-
Elza Maria Lopes: mais antiga no local
mentado, os permissionários ainda acreditam em melhorias no estabelecimento para atrair mais público. A reforma realizada para comemorar os 43 anos do mercado, em novembro de 2011, foi insuficiente para suprir as necessidades dos lojistas e da clientela. “O esgoto ainda é antigo, os banheiros precisam ser mais equipados e quando chove, chega a subir água aqui dentro por conta das goteiras”, fala o comerciante Claudio Molina. A preocupação também é com a reciclagem do público, que na maioria é da terceira idade. “As pessoas mais jovens têm de ser atraídas para consumir. Nosso público fiel um dia vai se esgotar e precisamos de novos consumidores”, diz a floriculturista Graça Alburquerque.
O hábito de ir ao mercado foi passado de geração em geração na família Antunes. Frequentadora desde a infância, Ana leva a filha Beatriz para ajudar nas compras. “É um local que merece ser prestigiado, apesar de algumas falhas, como o estacionamento que não possui tantas vagas”, aponta. Minoria entre os corredores, os mais novos marcam tímida presença no mercado. “Só venho para comprar lanche. São os mais saborosos, por serem feitos na hora. A gente acaba criando amizade com o dono e temos liberdade de pedir para caprichar no recheio”, brinca Mirella Lopes, de 15 anos. Abandonado Completamente vazio, o Mercado Municipal de Santo André não é mais administrado pela prefeitura. Com cerca de seis lojas abertas, o local virou depósito de sapatos e bebidas. Há quase 50 anos, a adega de Elza Maria Lopes é a mais antiga no local. “Era sempre muito cheio. A família toda vinha para visitar. Esses corredores chegavam a ser pequenos de tanta gente que vinha”, lembra emocionada Inaugurado em 1960, o mercado deixou de ter apoio da prefeitura e passou a ser totalmente privatizado há cerca de 15 anos. Inclusive, esse é o motivo do abandono apontado pelos comerciantes. “A prefeitura não quis mais saber e nem dá satisfação de possível parceria para nos ajudar”, lamenta Rogério Sorrentino.
O aumento da quantidade de shoppings e supermercados na região também é mencionado como causa da pouca clientela. “As pessoas preferem outro lugar pela comodidade, por ter onde estacionar, enfim por ter estrutura melhor do que a nossa. O mercado municipal vai ser a última opção para fazer compras”, completa Rogério. O que sobrou para o Mercado Municipal de Santo André são os clientes fiéis, como Maria Medeiros Franquine, que compra com Rogério há mais de 10 anos. “Cria-se vínculo e boa amizade com o comerciante. Isso não tem em nenhum outro lugar. Esse contato direto com quem produz não deveria se perder”, afirma a freguesa. As prefeituras de São Bernardo e de Santo André não responderam à reportagem.
Serviço: O Mercado Municipal de São Bernardo fica à avenida Caminho do Mar, 3.344, Rudge Ramos. Funcionamento de segunda a sábado, das 8h às 19h. Mercado Municipal de Santo André está localizado à avenida Santos Dumont, 371, Casa Branca, de segunda a sábado das 7h às 18h.
Graça Alburqueque: necessidade de novos consumidores porque público fiel vai se esgotar Revista Repúplica 79
consumo
Shayane Servilha Fotos: Diego Barros
Percentual considerável para o bolso do brasileiro.” O economista lembra que pesquisar preços entre as barracas é mais uma maneira de conter gastos. “Comprar o produto de primeira pode ser erro. O consumidor tem de aprender a pesquisar, além de usar o poder de barganha com o feirante pelo pagamento ser à vista”, detalha Rocha. Atualmente, algumas bancas oferecem aos clientes a possibilidade
Rogério Segala: aliar diversidade de produtos com preço
Feiras livres: preço e variedade garantem fidelidade do público
Fresquinhos
adoráveis
Mesmo com a praticidade dos supermercados, feiras livres são as preferidas na hora de comprar alimentos
S
eja para o irresistível pastel ou para compras de frutas, legumes e verduras, a feira livre ainda é a preferida entre os consumidores, tratando-se de qualidade e economia. Mesmo com a perda de clientes devido à praticidade de supermercado, sacolões e internet, a feira continua atraindo multidões. O motivo do favoritismo é unânime: “Os alimentos são mais fresquinhos”, diz a dona de casa Sidineia de Paula. No ABC, são mais de 3,2 mil feirantes que trabalham em cerca de 200 feiras. Toda semana, as feiras diurnas atraem mais de 60 mil consumidores. A alta frequência comprova que mesmo com modernidades a tradição prevalece entre as famílias. “É perceptível a necessidade de comprar os alimentos nas feiras”, relata Luiz Antonio de Brito, supervisor de abastecimento da Craisa (Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André). Preço e variedade são fatores que mantêm as feiras sempre cheias. “A feira 80 Revista Repúplica
conquista a preferência popular devido aos preços e as classes mais altas por oferecer mais opções”, afirma Odair Roberto Loureiro, presidente do Sindicato do Comércio Varejista dos Feirantes ABDMRP. Ainda entre a minoria, os homens são os que mais exigem dos feirantes. Rogério Segala, que sente orgulho em dizer que faz feira toda semana sozinho, apesar de ser casado, busca tanto preço quanto variedade na hora da compra. “Avalio bem tudo o que compro. Procuro aliar diversidade de produtos com preço, se for para escolher prefiro a qualidade. Sou muito chato para comprar, ainda mais se tratando de alimentos.” O economista Giovanne Rocha aconselha compras de verduras, legumes e frutas em feiras livres. “Se em um supermercado um quilo de laranja custa R$ 5, nas feiras livres você consegue comprar por R$ 2,50. Em alguns casos é possível economizar até 70% comprando nas feiras livres.
Marisa Zigante: dog mais gostoso da feira noturna de São Bernardo de pagar com cartão e vale refeição. Caso da feirante Alessandra Sorrentino, que implantou o sistema há pouco mais de seis meses e garante que as vendas cresceram cerca de 40%. “As pessoas compram mais com cartão. É mais seguro e minha banca acaba tendo diferencial”, conta. Damas da noite E para quem não tem como ir às compras durante a semana nos horários habituais, na região é possível encontrar feiras noturnas. O cenário é diferente do das tradicionais diurnas. Se na parte da manhã, idosos e famílias são comuns, na feira noturna casais e jovens são maioria. Os advogados Natália e Anderson Bezerra garantem que o passeio ajuda na convivência em casa. “Entrou em nossa rotina fazer feira durante a noite. É o único horário que podemos vir juntos. É prazeroso poder dividir esse momento com a minha mulher”, diz Anderson Bezerra. “Acaba sendo programa a dois bem inusitado e saudável para o relacionamento”, completa Natália. Além de manter os alimentos em casa sempre fresquinhos, Ana Lucia Farias resolveu frequentar feiras à noite pela temperatura mais amena. “É desconfortável fazer compras debaixo do sol. Na feira noturna me divirto mais e vejo
pessoas diferentes das que eu via pela manhã”, justifica a aposentada de 73 anos. As bancas de pastéis, lanches, grãos e materiais de utilidades também atraem e, embora secundárias na lista de compras, têm público fiel. Izidio de Marchi é um dos consumidores que sempre leva utensílio doméstico para consertar na feira. “É bem melhor poder ver como está sendo arrumado. Se não ficar bom, posso vir na semana seguinte e o serviço é feito na hora. Hoje só vim para arrumar o cabo da panela, mas acabei comprando umas coisinhas”, afirma. O trailer de cachorro quente de Marisa Damaceno Zigante na feira noturna de São Bernardo, ao lado do Poliesportivo, é o mais movimentado. São jovens, adultos, crianças e idosos que saboreiam o famoso dogão, que geralmente é o último a fechar. “É o dog mais gostoso do ABC. Enfrento fila, só que não deixo de comer aqui. Eles são super caprichosos e tratam todos muito bem. Sabem até o que vai e o que não vai em meu lanche”, fala o empresário Felipe Novaes. Para Marisa, o segredo é trabalhar alegre e motivada. “Nossa obrigação é fazer com que os clientes se sintam bem. Dedicação e carinho são a chave do sucesso”, aconselha Revista Repúplica 81
consumo
Shayane Servilha
Completas
e precisas
Norma da Abravest obriga confecções a incluir novas informações nas etiquetas
A
dificuldade do consumidor na hora de comprar roupa devido à diversidade de tamanho das confecções é comum. O Projeto Vestibilidade da Abravest (Associação Brasileira de Vestuário) propõe reduzir o problema com novas informações na etiqueta. Além das peças serem marcadas com os tamanhos conhecidos, também terão de apresentar numeração correta que os manequins vestem. “As compras serão feitas com precisão. Não vai mais ter aquela dúvida se a pessoa usa P ou M. O padrão de numeração que conhecemos hoje nas etiquetas será complementado com medidas do corpo”, diz Roberto Chadad, presidente da Abravest. O projeto já foi normatizado no início desse ano para os setores infantojuvenil/bebê, uniformes escolares e meias socks. Os vestuários masculinos e femininos estão em etapa de reuniões e têm previsão de conclusão até o início de 2013. Das etiquetas das calças deverão constar medidas em centímetros da cintura e do quadril. O projeto será enviado para consulta pública depois das reuniões. Após 60 dias de análise, a ABNT emite as normas. “As trocas vão diminuir em 70% já no segundo ano da norma em vigor”, completa Chadad. A maior vantagem será para os compradores da internet. Uma pesquisa da consultoria e-bit revela que, atualmente, o comércio de Moda e Acessórios
ocupa a sexta posição nas vendas do mercado na web. Com a nova norma, o número tende a crescer. “Não gosto de tumulto, prefiro comprar via internet e na comodidade da minha casa. E o melhor é que não terei de gastar com estacionamento e gasolina. Isso será muito bom para a maioria dos consumidores que tem a vida atribulada”, diz a secretária Kiani Lima. Outra mudança importante, se a nova norma for regulamentada para todos os vestuários, é a venda de peças separadas, no caso de biquínis e ternos. “A mulher que tem mais busto e quadril estreito não terá de fazer ajustes. A medida servirá para melhorar o atendimento e até mesmo a fidelização do cliente”, acredita Alexandre Melo, diretor de normas técnicas da Abravest. Para a consultora de moda Astrid Skkel, as marcas devem apresentar certa resistência diante da nova norma, devido a possível aumento de custo. “É um processo de adaptação que dará trabalho. A importância para o consumidor é imensurável, é como se o remédio viesse com a bula. Será uma revolução no mercado”, defende.
Fotos: Diego Barros
Kiani Lima: novas regras facilitam compras pela internet
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