Organismo

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ORGANISMO

ANA SOFIA RIBEIRO


FACULDADE DE BELAS ARTES DA UNIVERSIDADE DO PORTO PROJETO 2018/2019

ORGANISMO

ANA SOFIA DE CASTRO AMARANTE E RIBEIRO DOCENTE DOMINGOS FERNANDO DA SILVA LOUREIRO


RESUMO Organismo é um reportório do trabalho artístico de Ana Sofia Ribeiro, desenvolvido no ano letivo de 2018/2019 na disciplina de Projeto da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, sob orientação do Professor Domingos Loureiro. Contêm obras de diferentes práticas, passando pela fotografia e vitral, destacando ainda a pintura como o principal meio de criação. As suas pinturas demonstram um interesse por uma natureza espiritual, assim como revelam uma posição no mundo que se preocupa com problemas sociais relativos ao meio ambiente. É sobretudo uma procura pictórica do orgânico em função de um papel mais ativista do seu próprio mundo, tendo ainda como influência Joseph Beuys, Matsuo Bashō, Peter Doig, Alan Watts e Anselm Kiefer.

BIOGRAFIA Ana Sofia Ribeiro, é natural de Valongo, com 22 anos, frequentou a Escola Artística de Soares dos Reis onde se especializou em Produção Artística - Têxteis. Atualmente é finalista na licenciatura de Artes Plásticas – Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A sua produção artística baseia-se na reutilização e criação de novos materiais e suportes tendo como preocupação o meio ambiente. Já expôs no Museu do vinho do Porto, em 2016, na exposição “Um olhar sobre o Douro: ligando fios”. Participou nas exposições coletivas “Epílogo” na FBAUP, em 2018 e “Suma” na Fundação da Juventude, no Porto, em 2019. Organizou e expôs na exposição “Ecossistema” também em 2019, que teve lugar no Fórum Cultural de Ermesinde. Dirigiu ainda vários workshops sobre as suas práticas artísticas.

PALAVRA-CHAVE Natureza; Ecossistema; Orgânico; Ético; Simbólico.


QUESTÃO

The morning glory blooms for an hour, Yet it differs not at heart From the giant pine which lives a thousand years. Alan Watts Este é um poema que relembra que a importância de todas as coisas não é medida pelo seu tempo ou capacidade de mudança, estas são antes um sintoma do presente. Mostra ainda que não havendo hierarquias o Homem, como indivíduo, é tão insignificante como um grão de areia, dado que tudo aquilo que nos pertence também nos possuí. Este pensamento para além de existencial remete para uma apreciação de todas as coisas pré-existentes, isto é, uma realização do nosso impacto no mundo face a uma apreciação pela natureza e pela sua magnitude. Que consequentemente levam a uma preocupação com o futuro e estado de conservação da Terra, perante um atual egocentrismo da Humanidade. Esta preocupação desenvolve-se nas minhas práticas artísticas através de um lado mais ativista concentrado numa transformação pessoal e do meio envolvente, do uso de materiais conscientes e simbólicos e de uma escolha iconográfica de um natural contaminado. Por outro lado, serão revisitados aspetos mais espirituais demonstrados através da simplicidade, do silêncio, da efemeridade e da personficação da natureza, que são aplicados através de formas simples, da não existência de narrativa, do uso de materiais mutáveis e através da valorização do imperfeito. Tentando assim atingir uma poesia da imagem.


7 000 + 01 OAK TREES Inspirado na obra 7000 oak trees, de 1982, de Joseph Beuys, foi plantado de forma simbรณlica um carvalho no monte em Valongo.




ENSAIOS


Como ponto de partida de investigação, para atingir a poesia da imagem pretendida, foram desenvolvidas novas estratégias de construção imagem. Com base na paisagem e motivos naturais, interessava então explorar o contorno, os desenhos angulosos, a simplicidade dos objetos, as linhas propositadamente irregulares, as composições estranhas, a utilização da tinta e da mancha como parte do desenho e as cores simbólicas de um paradigma entre o contaminado e o natural. A partir destas características pretendia que as pinturas transportassem o espectador para um estado de leveza e uma sensação de poder escapar ao eu, isto é, ser possível fundir a alma com a natureza através da perda de consciência própria, que possibilitava escapar à individualidade, ser verdadeiramente livre e esquecer o vazio do estado de alma, através do entendimento de que nada importa na infinidade do universo. A fim de compreender a essência da própria existência e apreciar o presente são ilustradas formas que relembram origem, génese e criação, pois tal como a natureza a vida também está em constante transformação, presa à efemeridade. Remetendo ainda para uma aceitação da morte como algo natural e que faz parte do ciclo da vida.








METODOLOGIA


Um estudo da worldwildlife afirma que para produzir 1 kg de algodão, equivalente a uma t-shirt e um par de calças, são necessários 20,000 litros de água. A partir da questão são exploradas então novas estratégias de criação, inspiradas na tradição e em formas mais rudimentares de produzir arte. De forma a respeitar mais o ecossistema e evidenciar a necessidade de coexistência do homem com a natureza. Assim, através de processos de questionamento da produção artística e da tentativa de encontrar soluções, vão surgindo experiências, desde produção de pigmentos naturais e de matérias reutilizadas, como pilhas, ferrugem e cobre (transformados mais tarde em tinta de óleo), a ensaios para produzir novos tipos de tela ou de madeira, como por exemplo o scoby de kombucha ou superfícies feitas de cal hidráulica, palha e serrim. As pinturas que se seguem testam a funcionalidade, a durabilidade e a estabilidade dos pigmentos sobre a superfície, assim como procuram a linguagem, a técnica e as composições mais adequadas ao argumento. São sobretudo a compreensão dos materiais enquanto seres mutáveis, com o objetivo de criar uma simbiose entre a matéria orgânica e o corpo que compõe, sem que este a domine e retire a sua essência.












Ana Sofia Ribeiro Diรกfano 62 x 22 cm Vidro reciclado





DEDUÇÕES


Após a análise dos ensaios e da metodologia compreendi que as peças posteriormente criadas deveriam ser uma procura do orgânico, tanto na sua composição como na sua apresentação física expositiva, isto é, estas podiam ser conseguidas através do desenho, dos materiais ou da forma da superfície: formas ovais, redondas ou em casos mais retos que mantivessem os cantos arredondados ou as laterais irregulares (elevação do imperfeito). Para além da forma da superfície será importante pensar as molduras como objeto simbólico, no qual funciona como limite, remetendo assim para uma natureza contida ou até mesmo como contraste da construção humana com o natural, demonstrando assim a manipulação do vivo para o artificial (das árvores para a madeira, do cobre para o metal). Por outro lado, as molduras poderão ainda por vezes dar o exemplo como objeto sustentável, quando este é reutilizado ou reaproveitado, indicando assim um pensamento mais verde. Para isso poderão ser aproveitados materiais já com propósitos de finitude ou poderão também ser usados materiais como canas de bambu que acarretam já o seu valor ecológico.

Ana Sofia Ribeiro Matérias verdes Instalação de Kombucha e pigmentos de couve roxa, beterraba, pólen de abelha, baga de sabugueiro, feijão preto, ferrugem, cobre, xisto argiloso, paprika e açafrão da índia.


Ecossistema Coletivo Alexandre Carreira, Ana Sofia Ribeiro, Catarina Dias e Juliana Silva Exposição de Pintura na Galeria Museológica do Fórum Cultural de Ermesinde



Ana Sofia Ribeiro Sem tĂ­tulo 32 x 20 cm Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha



Ana Sofia Ribeiro Sem tĂ­tulo 40 x 40 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrĂĄulica



Ana Sofia Ribeiro VĂ­nculo 70 x 65 cm Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha



Ana Sofia Ribeiro Sem tĂ­tulo 30 x 20 cm Pigmentos naturais sobre ardĂłsia



Ana Sofia Ribeiro Nascente 82 x 50 cm Pigmentos naturais e folha de ouro sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Horizonte 40 x 27 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Raiz 54 x 50 cm Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha



Ana Sofia Ribeiro Sem TĂ­tulo 40 x 30 cm Resina Loura sobre plantas



Ana Sofia Ribeiro Sem tĂ­tulo 56 x 56 cm Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha



Ana Sofia Ribeiro Sem tĂ­tulo 75 x 43 cm Pigmentos naturais e resina sobre serrim, palha e cal hidrĂĄulica



Ana Sofia Ribeiro Alvor 37 x 30 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Torso 75 x 23 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Breu 84 x 40 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Horizontes 94 x 70 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Zigoto 101 x 60 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Eixos 87 x 28 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



Ana Sofia Ribeiro Alicerces 110 x 85 cm Pigmentos naturais sobre serrim, palha e cal hidrรกulica



OBSERVAÇÕES


Após a observação das deduções pude concluir que estas revelam que o formato da obra tem tanta importância como o seu conteúdo. Este pode provocar uma estranheza ao espectador e levá-lo a questionar como, porquê ou com o quê foram feitas as peças. Por outro lado, os formatos mais orgânicos remetem para uma simbologia de origem e criação que vão ao encontro da questão. No entanto, foi notada uma preocupação com a forma de expor dada a fragilidade das peças em estado puro, assim foi entendido que em estado de produção as peças deveriam ser previamente preparadas para tal. Consequentemente, os materiais transpõem as suas próprias interpretações simbólicas, intrínsecas ao processo artístico, de forma a estimular o pensamento, funcionando como agentes sociais. Demonstrando-se eficientes tanto na sua aplicabilidade como na sua conduta ética. Contudo será ponderável uma expansão ou aperfeiçoamento destas ferramentas conforme as limitações plásticas existentes ou até mesmo novas exigências. Podendo assim utilizar novas matérias como por exemplo superfícies feitas de micélio de cogumelos ou tintas mais acrílicas feitas a partir de leite de vaca. Já no que diz respeito ao conteúdo, este parece funcionar enquanto portador de uma mensagem, apesar de por vezes o desenho e a plasticidade das obras desviarem o pensamento do espectador da questão. Para evitar que as qualidades plásticas distraiam o espectador são utilizados métodos como utilizar o fundo como parte do desenho, a abstração, a repetição, a simplificação do desenho, o uso de cores alegóricas ou de composições estranhas. Por fim as molduras como já referido representam o artificial ou o modelo a seguir. Porém estas podem relacionar-se também com a perfeição imperfeita, isto é, sendo a pintura em si mesma imperfeita e a moldura perfeita, esta faz uma analogia à natureza, que parecendo caótica à primeira vista se torna perfeita no grande esquema do universo. Fabricando assim um contraste com a construção humana que apesar de atingir linhas perfeitas, com o passar do tempo se revelam prejudiciais ao imperfeito. Em suma, a obra torna-se um organismo vivo que se adapta a uma limitação feita pela criação humana, podendo estar esta a ser prejudicada ou preservada.


Ana Sofia Ribeiro

Tronco vertical E um traรงo torcido Mutuamente 101 x 60 cm Pigmentos naturais sobre resina, serrim, palha e cal hidrรกulica




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