PortfĂłlio EstĂşdio de pintura Faculdade de Belas Artes Universidade do Porto Ana Sofia Ribeiro
PortfĂłlio Ana Sofia Ribeiro up201506702 EstĂşdio de pintura MAP de Pintura Faculdade de Belas Artes Universidade do Porto 2019/2020
Introdução:
Natureza em toda a sua magnitude, propõe a génese, o propósito e a finalidade, sendo ela mesma verdade universal, infinita e mutável quando reinterpretada pelas diferentes culturas e gerações. A sua abordagem à arte estabelece a ideia de uma natureza omnipresente que vai ao encontro da sua aplicabilidade nas diferentes áreas da experiência humana e por essa razão, torna-se no foco da investigação plástica e teórica, desenvolvida no mestrado de pintura, no qual, a partir de uma problematização do estado de conservação da terra, que consequentemente levou a uma transformação pessoal na forma de pintar e de produzir, surge uma inquirição sobre um entendimento da natureza como matéria e conceito da espiritualidade e da ética ecológica na arte. Assim através de sobreposições entre a origem da obra de arte e o seu futuro, são estabelecidos encadeamentos entre a matéria, o símbolo, a forma, o tempo, a metáfora, a ética, a experiência física e transcendental. Estes acompanharam a identificação de exemplos concretos, conotados destas noções, como a pintura rupestre, haikus, stone circles, nazca lines e zen garden ou simplesmente influências dos fenómenos naturais e da biodiversidade, que suscitavam um interesse pela essência da religião e ética ecológica, que refletiam sobre os materiais e o seu carácter sustentável e procuravam modos de criar uma perceção da arte similar à experiência religiosa.
Consecutivamente, de forma cronológica é através de movimentos como a art povera, land art, Gutai art, auto-destructive art, environmental art, sustaineble art e Biomorphism que será descodificado o entendimento do Homem da natureza até à atualidade, questionando se será possível produzir arte sem natureza e se estará o Homem separado dela. Simultaneamente, parte da investigação passará por analisar artistas e pensadores como Gustav Metzger, Robert Smithson, Nancy Holt, Agnes Denes, Alan Sonfist, Joseph Beuys, Jirö Yoshihara, Richard Long, Wolfgang Laib, William Tucker, Yves Tanguy, Ana Mendieta, Johnny Warangkul Tjupurrula, Joaquim Rodrigo, Heidi Bucher, Gabriel Orozco, Jannis Kounellis, Andreas Feininger, Herman de Vries, Neri Oxman, Motoi Yamamoto, Germano Celant, Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, Ralph Waldo Emerson, entre outros, que estando também eles diretamente ligados à representação da natureza, levantam problemas derivados e projetados para o futuro da mesma, onde o artista poder ser pensado como profeta da realidade. Naturalmente, as preocupações referidas estabelecem ligações intrínsecas ao trabalho autoral que assenta sobre uma busca do espaço sagrado em face de um animismo dos fenómenos naturais e por isso influenciado pela essência das formas, pelo uso da luz, pelas características físicas, conceptuais e metafóricas dos materiais, mediante a consciência sustentável de produzir arte, por uma expressão micro e macro cósmica do mundo, proveniente da visão cientifica e percetiva/sensorial, que explora a criação como se fosse entendida pela primeira vez e que permite reflexão, contemplação e uma articulação com o espaço interior e exterior da obra de arte. Tendo sido desenvolvido em estúdio de pintura, será exposto neste relatório uma análise do percurso e evolução do trabalho ao longo do ano, com o intuito de refletir sobre o estado presente da exploração plástica e pictórica das obras e o caminho a seguir.
Estúdio de pintura:
Numa retrospetiva sobre a reflexão inicial acerca de pintura foram estipuladas certas preocupações. Por um lado, o material e matéria levantaram algumas questões que procuravam respeitar a natureza, podendo estes vir dela e ser alusivo das suas características ou de alguma forma repensar o seu impacto no ambiente. Sendo estes conotadores de significado e questionadores da sua conceptualização têm como objetivo estabelecer uma forma sustentável de produzir/pensar arte e transferir a posição do Homem como parte da natureza e não a cima dela. Claro está, que esta idealização material proporcionou outras ideias que vieram a ser desenvolvidas em futuros trabalhos, bem como resultou na exploração de novos conceitos e noções referentes ao mundo da arte e da função da obra de arte. Por outro lado, a forma e a sua temática indo também ao encontro do mesmo pensamento, buscava mais a essência da natureza, enquanto estrutura mimética e código genético da forma. Ainda que similares e coexistentes da obra de arte, a forma e matéria progressivamente foram se manifestando em diferentes campos da exploração plástica da natureza. Abrindo assim uma nova área de pesquisa, que estando diretamente interligados pela natureza e cultura envolvente, são comprometidas pelo tempo e o seu valor geracional, ou seja, a espiritualidade surge na estética das obras através da forma, refletindo sobre uma visão passada da natureza, enquanto a ecologia estando presente nos problemas sociopolíticos da sociedade do século XXI, relaciona-se antes com a conceptualização mais contemporânea da natureza. No entanto, com o progresso do ano e o desenvolver do trabalho, esta noção díspar do tempo artístico e do que é ou não relevante, tornou-se numa visão mesclada de ambas e foi elaborado um discurso coerente e coexistente da sobreposição das duas. Assim ao observar o progresso da investigação noto que a elaboração plástica foi ao encontro do desenvolver da investigação teórica e por isso foi importante esclarecer estes pontos em comum sob o qual era questionado se a pintura pode provocar mudança, levantar questões e criar experiências extraordinárias.
Tornou-se então essencial refletir sobre o futuro da natureza na arte, do qual a sua contextualização na atualidade revela o seu antagonista e simultaneamente o seu precursor. Logicamente, a ciência/tecnologia empenham a conduta humana a esta dualidade de ações comprometedoras da natureza, do qual a arte é extremista da sua aplicabilidade, quer isto dizer, com a tomada de consciência do espaço macro e microcósmico a arte em si mesma questionou a sua veracidade, naquilo que diz respeito à representação da perceção, produzindo assim um paradoxo entre uma realidade visível imperfeita e uma alta realidade invisível perfeita. E com a introdução da tecnologia para o mundo da arte, a espectativa modificou-se e concedeu vida ao objeto artístico, onde Douglas Davis afirma ser esperado da obra de arte um hibridismo/simbiose com a ciência, que nega a sua inércia e promove o dinamismo do ambiente imersivo do futuro. Porém, deverá ser, esta visão estimulada pela rápida mudança, apenas pensada com ultra tecnologia e artificialidade e precisará a arte de ser espetacular e desviante do seu ser. Ao analisar as obras de Alan Sonfist, Andreas Feininger e Neri Oxman notamos que através de estudos biológicos/arquitetónicos, da comparação de estruturas, designs, simetrias, semelhanças e ornamentos da natureza, da parceria com laboratórios e cientistas para a criação de novas matérias, é possível criar esta simbiose/hibridismo, sem que a mesma ultrapasse a sua essência e por essa razão o trabalho que venho a desenvolver promove uma ideia de equilíbrio com aquilo que é usado para a produção/exposição, uma vez que, que tudo aquilo que nos pertence também nos possuí e nega uma imagem da natureza demasiada massificada e um futuro ultra digital. Consequentemente, a preocupação com a ecologia na arte advém da constante insegurança do futuro, do receio do fim da natureza e da oposição entre a noção de world e de earth que enreda o extra-human e o pre-worldly, no qual o antropocentrismo residual de outros territórios parece ser substituído pelo Biocentrismo e pela imagem primordial de uma Terra sem a presença humana. A land art, indo ao encontro desta ideia, evoca os primeiros princípios da environmental art e Sustainable art rejeitando o framework do museu, usando materiais naturais e capturando a essência pré-histórica de estruturas que permitiam o diálogo direto com a natureza. Desde a Spiral Jetty de Robert Smithson ao The Lightning Field de Walter de Maria, de forma recorrente a land art busca formas inspiradas na natureza, que submetem para a metamorfose do homem e para o biomorfismo da forma. Contudo, a ecologia retoma a ideia de criar arte fora da manufatura/sistema industrial capitalista, cujo materiais usados proclamam a sua a presença sociopolítica, proveniente do conceito de objeto como agente social de Joseph Beuys, onde o material evocador de interpretação e de significado se torna visível quando as pedras de Richard Long e o pólen de Wolfgang Laib fazem a apropriação do exterior para o espaço interior, quando os objetos de Hans Haacke ainda que familiares do quotidiano e até mesmo massificados se tornam discurso para a critica institucional, quando o latex da Heidi Bucher evoca o sublime e o espectro ou quando as superfícies que utilizo feitos de Kombucha e os pigmentos naturais questionam as formas de produção de arte e demostram esta preocupação com o ambiente, havendo assim uma semântica por de trás de cada matéria, referenciando uma procura da sustentabilidade e naturalidade material, que acaba por trazer uma vertente alquimista para as obras.
De forma similar, dá-se uma procura da essência da natureza quando projetado o que pintar na superfície. Por vezes, esta busca inicia-se a partir de influências visuais e experiências fenomenológicas da biodiversidade e do ecossistema, por outras a ciência responde revelando o que não é visível, estabelecendo uma relação entre o macro e microcosmos, mas, ambas mantêm a ânsia de ver e analisar a natureza como se fosse entendida pela primeira vez, que se autorreferencia ao seu plano de introspeção da vida, morte e ciclo/ renascimento. De modo análogo, esta conceção converge com a liberdade e animismo dos materiais encontrados no Gutai movement, na exploração da essência do círculo de Jirö Yoshihara ou no museu da natureza de Herman de Vries, no qual a compreensão dos materiais enquanto seres mutáveis, surgem com o objetivo de criar uma simbiose entre a matéria orgânica e o corpo que compõe, sem que este a domine e retire a sua essência, onde também a própria natureza parece ser representada por si mesma, fundamentar a expressão da mancha/forma que a ilustra e conceder vida a objetos e imagens estáticas. Esta projeção do espírito para o objeto inanimado remete para um lado transcendental da natureza, que coincidentemente, procura explicar os fenómenos naturais e o cosmos através de uma relação causa efeito com a ação divina. Oriundo do primitivo, arcaico e do ritual, a experiência transcendental recria o animismo da mãe natureza, presente no folclore, xintoísmo, comunidades indígenas... Todavia, analisando o seu papel numa arte, que tem noção da sua própria existência, a espiritualidade é usada como forma de escapismo. Expandido desde o romantismo pelo sublime é espectável que na modernidade/contemporaneidade se expresse através da tomada do artista do próprio papel de Deus/criador, ou seja, olhando para o manifesto auto-destuctive art, Gustav Metzger mostra como o artista pode planear e conceber a destruição da sua obra de arte, através da desintegração natural, tecnológica ou manual. Dando assim vida à obra e concedendo valores efémeros, cíclicos, temporais e reminiscente do ciclo da vida. Esta visão do caos coloca o artista no patamar do criador, no qual através dos materiais, linguagem e ambientes impostos à obra, como é a luz, materiais naturais ou símbolos, é capaz de transportar o espectador para uma experiência transcendental etérica. Tendo assim como exemplo Nancy Holt, Motoi Yamamoto e James Turrell, que colocando o corpo como parte da obra, ligam a origem da arte à natureza
Em suma, a natureza na arte encadeia o seu futuro através do paradoxo que é a perceção da realidade, repensando a ciência/tecnologia que bipolarmente se situam no campo da simbiose/hibridismo ou na perda de autenticidade e massificação do artificial/ ultra digital. Refletindo também sobre o papel da ecologia e a sua motivação proveniente do medo do fim, que é expresso na arte como uma profecia, no qual, analogias com a espiritualidade e um animismo reformulado da natureza são impostas pelo artista e pela essência da forma e matéria, que expressão o automatismo e alienação promovente da ética da natureza e que posicionam o Homem como parte dela. Dado isto, com o desenvolvimento artístico em estúdio compreendi que as peças criadas deveriam ser uma procura do orgânico, tanto na sua composição como na sua apresentação física expositiva, isto é, estas podiam ser conseguidas através de uma matéria que provoca estranheza ao espectador e leva-o a questionar como, porquê ou com o quê foram feitas as peças, transpondo as suas próprias interpretações simbólicas, intrínsecas ao processo artístico, de forma a estimular o pensamento, funcionando como agentes sociais. Demonstrando-se eficientes tanto na sua aplicabilidade como na sua conduta ética. Transversalmente de um conteúdo pictórico, que procura a essência da natureza e é portador de uma mensagem, é utilizado o fundo como parte do desenho, padrões, a abstração, a repetição e composições estranhas, que influenciados pela própria biodiversidade e imagética primitiva estabelecem uma ligação à experiência espiritual e de união com a natureza. Como também através das molduras que devem ser pensadas como objetos simbólicos, no qual o seu limite pode remeter para uma natureza contida na arte ou até mesmo mostrar o contraste da ação humana com o natural, demonstram assim uma manipulação do vivo para o artificial (das árvores para a madeira ou do cobre para o metal), podendo ainda dar o exemplo de objeto sustentável, quando reutilizadas ou reaproveitadas. A fusão destes fatores transformam o espaço envolvente, criando um ambiente emersivo, onde a obra se torna no organismo vivo que se adapta à ação humana.
Trabalho de EstĂşdio de pintura MAP de Pintura 2019/2020
Retorno I, 2019 Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha Diâmetro: 110 cm
Retorno II, 2019 Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha Diâmetro: 110 cm
Retorno III, 2019 Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha Diâmetro: 110 cm
A obra reside num ambiente contemplativo e imerso numa realidade veiculada através de símbolos, que estabelecem relações mútuas entre o Homem, a Natureza, o espiritual e o tecnológico. Explorando a essência metódica e cíclica dos organismos, é através dos materiais que aceita a sua condição efémera, constituindo um modo de criação artística intrinsecamente mutável que aborda questões fulcrais para o futuro da sociedade e cultura contemporâneas. Cruza assim ideias entre o artificial, o natural, o animismo, a interconectividade e a transcendentalidade, materializadas através do desenho meditativo, da linguagem não verbal, do gesto conectado e da captura do silêncio, que asseguram analogias entre os processos naturais e os métodos pictóricos.
Sem tĂtulo, 2019 Diâmetro 50 cm Pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Casca de ovo, folha de ouros, pigmentos naturais sobre madeira
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Pigmentos naturais sobre madeira
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Pigmentos naturais sobre madeira
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Pigmentos naturais sobre madeira
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Pigmentos naturais sobre madeira
Sem tĂtulo, 2020 Medidas variadas Folha de cobre, fio de cobre, goma laca, pigmentos naturais sobre madeira
Iincorpรณreo, 2020 65 x 65 x 2 cm Latรฃo oxidado, fio de cobre, pigmentos naturais sobre scoby de Kombucha
Time Landscape, 2020 65 x 50 x 7 cm Folha de ouro sintĂŠtica, casca de ovo, pigmentos naturais e goma-arĂĄbica sobre madeira
Diafaneidade, 2020 diâmetro 1m Fio de cobre, folha de cobre, pigmentos naturais, encáustica e goma-arábica sobre scoby de Kombucha
Espectro, 2020 diâmetro 85 x 5 cm Cobre oxidado, pigmentos naturais e goma-aråbica sobre scoby de Kombucha
Luminescência, 2020 60 x 30 x 7.5 cm Goma-Laca sobre papel vegetal, com iluminação artifical
ExperiĂŞncias, 2020 Goma-Laca sobre papel vegetal
Produção de superficies, 2020 Scoby de Kombucha