Marti fsp 2013 pesadelo americano

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Folha de S.Paulo - Ilustríssima - Pesadelo americano - 28/07/2013

28/07/2013 - 03h23

Pesadelo americano SILAS MARTÍ DE SÃO PAULO RESUMO Casos como o pedido de concordata de Detroit, arruinada pela crise econômica, sinalizam a decadência dos subúrbios como modelo urbanístico nos Estados Unidos. Em contraponto, a reocupação dos centros das grandes cidades atesta o renascimento das metrópoles como símbolo de um urbanismo mais espontâneo. * BRUSH PARK é um bairro de Detroit conhecido por suas mansões de arquitetura vitoriana, com telhados inclinados e grandes colunas em estilo romano. Só que essas mesmas casas, antigas residências dos barões da indústria automotiva, estão caindo aos pedaços. Têm suas portas e janelas lacradas, rachaduras nas fachadas e tetos que ruíram, deixando à vista seus interiores em frangalhos. Um passeio pela região, como fez o fotógrafo Kevin Bauman numa série estarrecedora de imagens, revela estruturas apodrecendo no rastro da maior crise a atingir uma cidade dos Estados Unidos. Detroit, que já foi a terceira maior metrópole do país, com população de 1,8 milhão, hoje tem só 700 mil almas e acaba de entrar em concordata. Soterrada em dívidas que beiram US$ 20 bilhões, cerca de R$ 44,7 bilhões, Detroit acaba de pedir resgate ao governo do Estado de Michigan, o caso mais grave desse tipo na história dos EUA. Enquanto políticos e moradores perplexos tentam se reerguer na terra arrasada deixada pela crise econômica que se arrasta há seis anos, sinais de vida vão sumindo, a prova de que Detroit -e todo o modelo de centros financeiros rodeados de subúrbios que pautou o urbanismo americano no século 20- está em franca decadência. Mais de um terço das luzes nas ruas de Detroit está apagado, metade de seus parques está fechada, e a cidade, que hoje tem o maior índice de homicídios nos Estados Unidos -54,6 em 100 mil habitantes-, tem 80 mil prédios e casas abandonadas. É a massa falida de hipotecas não honradas, fósseis de uma bolha de especulação imobiliária que estourou causando estrago maior do que a mais pessimista das previsões. Detroit é também um microcosmo da derrocada e não está sozinha no panorama de subúrbios arruinados do país. San Bernardino e Riverside, condados nos arredores de Los Angeles conhecidos como o Inland Empire, reforçam a imagem da crise, com casas abandonadas ao longo de largas vias expressas que rasgam o deserto. Nessa que é talvez a maior comunidade dormitório do país, vivem 4,1 milhões de pessoas, as quais dependem do carro para chegar ao trabalho, em geral uma jornada de uma hora e meia. Em Penn Hills, subúrbio de Filadélfia, na Pensilvânia, um estudo mostrou que os moradores gastam tanto com gasolina quanto com o aluguel. Outros números também atestam a crise. Em 2010, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, o índice de pobreza foi maior nos subúrbios do que nas grandes cidades em torno das quais eles gravitam. Na última década, o número de pobres também cresceu duas vezes mais rápido nessas comunidades do que nas metrópoles do país, revelando o lado mais sombrio do sonho americano. De certa forma, esse urbanismo que começou a tomar forma com a difusão do uso do carro nos anos 1920 e se configurou como modelo americano por excelência nos anos 1960 começa a ruir. DEFESA Depois da Segunda Guerra Mundial e no auge das teorias conspiratórias da Guerra Fria, a ideia de desfazer tools.folha.com.br/print?url=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrissima%2F2013%2F07%2F1317254-pesadelo-americano.shtml&site=emcim…

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