5ano manual aluno

Page 1

Caminhos de encontro Edu Educação Moral e Religi e Religiosa Católica

5º ano

MANUAL DO ALUNO

Apoio na internet www.emrcdigital.com


CAMINHOS DE ENCONTRO Manual do Aluno — EMRC — 5.° Ano do Ensino Básico SUPERVISÃO E APROVAÇÃO

COMISSÃO EPISCOPAL DA EDUCAÇÃO CRISTÃ D. Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes (Presidente), D. António Francisco dos Santos, D. Anacleto Cordeiro Gonçalves Oliveira e D. António Baltasar Marcelino; Mons. Augusto Manuel Arruda Cabral (Secretário) COORDENAÇÃO E REVISÃO GERAL

Jorge Augusto Paulo Pereira EQUIPA DE REDACÇÃO

Maria Luísa Trincão de Paiva Boléo (Coordenação de ciclo) Sara Gomes Andrade e Guardado da Silva (Coordenação de ciclo) Carla Maria Gomes de Andrade Mónica Virgínia Paiva Rocha da Maia Henriques Susana Isabel Santos Correia Pereira Vítor Hugo Ribeiro da Silva Carmona REVISÃO GRÁFICA

Maria Helena Calado Pereira GESTÃO EXECUTIVA DO PROJECTO E DIRECÇÃO DE ARTE

ID Books Ricardo Santos CAPA Maria João Palma ILUSTRAÇÃO Maria João Palma Carla Andrade TIRAGEM

2.ª edição - 70000 ISBN

978-972-8690-26-7 DEPÓSITO LEGAL

291174/09 EDIÇÃO E PROPRIEDADE

Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã — Lisboa, 2009 Quinta do Cabeço, Porta D; 1885-076 Moscavide Tel.: 218 851 285; Fax: 218 851 355; E-mail: educacao-crista@sapo.pt Todos os direitos reservados à FSNEC IMPRESSÃO

Gráfica Almondina


APRESENTAÇÃO CAMINHOS DE ENCONTRO Aos alunos e às alunas de Educação Moral e Religiosa Católica Um livro é o resultado de muito trabalho de quem o produziu: um ou mais autores. Por isso, deve ser acolhido com respeito e tratado com cuidado. Qualquer que seja o seu estilo, contém uma mensagem, interpela o leitor e desperta a sua imaginação. Um livro escolar é um instrumento para a aprendizagem dos alunos. É sempre educativo. Transmite informações ligadas aos conteúdos dos programas de ensino, contém interrogações e propostas de trabalho, e convida ao estudo. É para se usar na aula e fora dela. É um companheiro de viagem para o percurso anual de cada um na escola. Só assim, tornando-se um objecto familiar, que se utiliza com frequência, o livro escolar facilita o progresso na aquisição e desenvolvimento de competências. Os manuais de Educação Moral e Religiosa Católica, quer se revistam da forma de um volume por ano de escolaridade quer se apresentem como conjuntos de fascículos, têm todas estas características. Convido os alunos e as alunas a receberem-nos com interesse e entusiasmo, mas, sobretudo, a utilizarem-nos para proveito do seu crescimento humano e espiritual. Deste modo, e com a ajuda indispensável dos vossos professores ou professoras de Educação Moral e Religiosa Católica, podeis melhor fazer as vossas opções e elaborar um projecto de vida sólido e com sentido. Que Deus vos ilumine e ajude na caminhada de ano escolar que ides iniciar. Bom trabalho! D. Tomaz Pedro Barbosa Silva Nunes Bispo Auxiliar de Lisboa Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã


APRESENTAÇÃO DOS CONTEÚDOS

No teu manual, vais encontrar diferentes espaços e formas de organizar os textos e os documentos que te vão ajudar a caminhar e a interpretar melhor a sua mensagem.

unidade 1

17

MAIS UM ANO 2.ª feira, 2 de Setembro Para trás ficou um longo Verão quente, dias de férias sem pensar em nada e diante de mim um novo ano escolar. Estou desejosa de rever as minhas colegas de turma, de as reencontrar, na escola e fora da escola. Não voltei a ver algumas delas desde que tocou a campainha no fim do ano. Estou contente, vamos poder falar da escola e contar umas às outras as nossas pequenas infelicidades e as nossas grandes alegrias. Estamos de novo todas juntas. 3.ª feira, 10 de Setembro Passámos uma semana a arranjar os livros, os cadernos e todo o material, a contar umas às outras as nossas férias na praia, na montanha, no campo, no estrangeiro. Todas nós fomos a qualquer sítio e temos muitas coisas para contar. 5.ª feira, 19 de Setembro Também começaram as aulas na escola de música. Duas vezes por semana tenho aulas de piano e de solfejo. As aulas de ténis também recomeçaram, e estou agora no grupo dos grandes. Zlata Filipovic. Diário de Zlata

PARA SABERES MAIS Zlata Filipovic, nascida em 1980, tinha 11 anos quando começou a escrever um Diário que veio a ser publicado e se tornou conhecido pelo facto dela descrever o seu dia-a-dia em Sarajevo, na Bósnia, durante a guerra que perturbou a vida dos habitantes desse país, ao longo de mais de dois anos.

PARA SABERES MAIS

Dá-te informações interessantes que te permitem aprofundar os assuntos abordados ou conhecer um pouco os autores dos diferentes textos.

CAMINHA NA NET...

Dá-te sugestões de aspectos que podes pesquisar na Internet sobre assuntos relacionados com a Unidade Lectiva.


CONSULTA NA BíBLIA

Ex, D

eut

Dá-te informações sobre passagens bíblicas que poderás consultar em cada Unidade Lectiva.

TEXTO BÍBLICO

Indica-te que o texto que vais ler é uma passagem bíblica. A lupa foca o livro da Bíblia a que pertence o texto.


ÍNDICE Unidade Lectiva 1 · Caminhar em grupo

UM NOVO ANO ESCOLAR

16

APRENDER A ESTUDAR... APRENDER A VIVER!

18

INTEGRO UM NOVO GRUPO

22

OS DEZ MANDAMENTOS

27

O MAIS IMPORTANTE DOS MANDAMENTOS

30

A BÍBLIA

31

O povo onde nasceu a Bíblia

31

Origem da palavra Bíblia

32

Organização da Bíblia

34

As línguas em que foi escrita a Bíblia

36

Como encontrar um texto na Bíblia

37

Como citar textos da Bíblia

38

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE

39


Unidade Lectiva 2 · A Água, Fonte de Vida

A ÁGUA NA VIDA QUOTIDIANA

42

RECURSOS HÍDRICOS ORGANIZADORES DAS SOCIEDADES

44

A ÁGUA E AS POPULAÇÕES

49

A ÁGUA NA EXPRESSÃO ARTÍSTICA

52

Na música

53

Na literatura religiosa

56

Na literatura

60

SIMBOLOGIA JUDAICO-CRISTÃ DA ÁGUA

63

O Dilúvio e a arca de Noé

64

Nuvem

66

Fonte

67

Peixe

68

JESUS - A ÁGUA DA VIDA

69

TERRA - O PLANETA AZUL

75

A ÁGUA, INDISPENSÁVEL À VIDA

77

A ÁGUA, UM DIREITO DE TODOS

79

Os rios são nossos irmãos

80

A ÁGUA NO MUNDO ACTUAL

81

A ÁGUA AMEAÇADA

84

Em defesa da água

85

Uma responsabilidade de todos

87

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

88

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE

89


Unidade Lectiva 3 · Jesus de Nazaré

JESUS: UM MARCO NA HISTÓRIA

92

O NASCIMENTO DE JESUS

94

Jesus, o messias prometido

95

JESUS NA ARTE

97

OS ENSINAMENTOS DE JESUS

100

O amor infinito de Deus

102

O projecto de Deus

103

Prioridade dos valores espirituais

104

O CONFLITO COM O PODER

106

JESUS É PRESO, JULGADO E CONDENADO

108

DEUS QUER A VIDA E NÃO A MORTE

112

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

114

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE

115


Unidade Lectiva 4 · Promover a Concórdia

A LIBERDADE HUMANA

118

O AGIR MORAL

120

A DESCONFIANÇA E O MEDO

122

MAL MORAL E PECADO

127

MANIFESTAÇÕES DO MAL

131

A ruptura com o ambiente PROMOVER A CONCÓRDIA O perdão promove a concórdia

137 139 145

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

148

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE

149


Unidade Lectiva 5 · A Fraternidade

O PASSADO COMUM DA HUMANIDADE

152

Organização em grupo

153

A espiritualidade

154

OS GRUPOS A QUE PERTENCEMOS

155

IGUALDADE ENTRE AS PESSOAS

158

O UNIVERSO E A TERRA SÃO A NOSSA CASA

160

A FRATERNIDADE CRISTÃ

162

A amizade

165

QUANDO NEGAMOS OS IRMÃOS...

169

A LUTA NÃO-VIOLENTA PELA FRATERNIDADE

172

A Declaração Universal dos Direitos Humanos

175

EXPRESSÕES DA FRATERNIDADE NA ARTE

178

VIVER COM OS OUTROS COMO IRMÃOS

182

Misericórdias portuguesas: um exemplo de fraternidade

183

A origem cristã dos valores da Misericórdia

186

VAMOS CONSTRUIR UM MUNDO FRATERNO

187

A alegria da fraternidade

189

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

191

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE

192


INTRODUÇÃO Bem-vindo ao 5.º ano! Este ano é muito importante para ti. Já cresceste muito desde que entraste para a escola e começaste a aprender a ler, a escrever e a fazer contas. O teu corpo cresce e a tua inteligência desenvolve-se. Sabes mais e queres aprender muitas outras coisas novas. Já realizas actividades sozinho e o resultado obtido é também muito melhor; os adultos atribuem-te novas responsabilidades. Observam-te, dão-te conselhos e ajudam-te a mudar. Estás, portanto, a começar uma nova etapa da tua vida. A disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica vai ajudar-te a crescer como pessoa, proporcionando-te o enriquecimento da tua personalidade e o reconhecimento da dignidade humana. Nela vais contactar com património religioso, histórico, cultural e científico que te vai facultar o conhecimento dos outros e reforçar o respeito pelos direitos humanos. Nesta caminhada, vais mergulhar em experiências de aprendizagem que te possibilitam construir relações baseadas no entendimento e no encontro, através da descoberta do valor do outro. Nesta disciplina, vais contactar com muitas manifestações e referências à vivência religiosa e espiritual da pessoa humana. O conhecimento da mensagem cristã ajuda-te a descobrir o outro e a respeitar a sua diferença e riqueza. Através de Jesus Cristo e da forma como ele ensinou as pessoas a viverem, de acordo com a vontade de Deus, vais aprender a construir um mundo melhor. São estes os temas ou Unidades Lectivas que irás trabalhar com o teu professor ou a tua professora e os teus colegas, ao longo do ano: UNIDADE LECTIVA 1

CAMINHAR EM GRUPO UNIDADE LECTIVA 2

A ÁGUA, FONTE DE VIDA UNIDADE LECTIVA 3

JESUS DE NAZARÉ UNIDADE LECTIVA 4

PROMOVER A CONCÓRDIA UNIDADE LECTIVA 5

A FRATERNIDADE



UNIDADE LECTIVA

1

Caminhar em grupo


16

unidade 1

UM NOVO

ANO ESCOLAR Mafalda! Mafalda!... Deves ver o lado positivo das coisas: começou agora um novo ano escolar...

Lembra-te que vais encontrar os antigos colegas e também é bestial conhecer novos amigos...

...e a alegria dos recreios...

Sim, tens razão... O quê? Apontaste isso num papel?

Acabou o Verão! A praia, o sol, o mar e o calor começam a ser imagens e recordações que ficam na nossa memória. A verdade é que, por esta altura, já começamos a sentir falta dos nossos amigos, das brincadeiras no recreio, dos nossos professores, do cheirinho dos livros e cadernos novos. Nas lojas, já se fazem campanhas de regresso às aulas e todos querem materiais novos. Os pais estão, na maior parte dos casos, de volta ao trabalho enquanto nos tentam ajudar: compram livros, vão à escola ver horários, conciliam os horários do trabalho deles com o do nosso estudo. Ufa! O mês de Setembro é uma azáfama! Enquanto tudo isto acontece, já os professores trabalham há algum tempo para nos receberem na escola. Os dias estão a tornar-se cada vez mais curtos; as manhãs e as tardes mais frias. As folhas das árvores começam a amarelecer por causa da aproximação do Outono, e o vento, que se vai começando a sentir, levanta-as do chão, fazendo-as esvoaçar. À medida que os dias vão passando, os teus olhos observam tudo isto e sabes que tudo à tua volta está a mudar. Caminhas com firmeza para uma nova escola, onde vais contactar com um novo ciclo de ensino, conhecer muitas pessoas diferentes e tornar mais fortes as amizades iniciadas no 1.º ciclo. Não estás sozinho nesta caminhada, todos passamos por estas alterações na nossa vida.


unidade 1

MAIS UM ANO 2.ª feira, 2 de Setembro Para trás ficou um longo Verão quente, dias de férias sem pensar em nada e diante de mim um novo ano escolar. Estou desejosa de rever as minhas colegas de turma, de as reencontrar, na escola e fora da escola. Não voltei a ver algumas delas desde que tocou a campainha no fim do ano. Estou contente, vamos poder falar da escola e contar umas às outras as nossas pequenas infelicidades e as nossas grandes alegrias. Estamos de novo todas juntas. 3.ª feira, 10 de Setembro Passámos uma semana a arranjar os livros, os cadernos e todo o material, a contar umas às outras as nossas férias na praia, na montanha, no campo, no estrangeiro. Todas nós fomos a qualquer sítio e temos muitas coisas para contar. 5.ª feira, 19 de Setembro Também começaram as aulas na escola de música. Duas vezes por semana tenho aulas de piano e de solfejo. As aulas de ténis também recomeçaram, e estou agora no grupo dos grandes. Zlata Filipovic. Diário de Zlata

PARA SABERES MAIS Zlata Filipovic, nascida em 1980, tinha 11 anos quando começou a escrever um Diário que veio a ser publicado e se tornou conhecido pelo facto dela descrever o seu dia-a-dia em Sarajevo, na Bósnia, durante a guerra que perturbou a vida dos habitantes desse país, ao longo de mais de dois anos.

17


18

unidade 1

APRENDER A ESTUDAR... Aprender a viver! BIBLIOTECA

Neste novo ano, talvez encontres alguns colegas que já conheces. Mas há tantas coisas novas, tantas coisas diferentes! Há novas matérias para estudar, lugares e espaços diferentes e muitas pessoas que nunca tinhas visto. Vais aprender muito, e aprende-se de tantas maneiras! Se leres com atenção o poema que se segue, vais ver como é bonito e importante descobrir coisas novas acerca de ti mesmo(a), dos outros e do mundo em que vivemos.

APRENDER A ESTUDAR Estudar é muito importante, mas pode-se estudar de várias maneiras... Muitas vezes estudar não é só aprender o que vem nos livros. Estudar não é só ler nos livros que há nas escolas. É também aprender a ser livres sem ideias tolas. Ler um livro é muito importante, às vezes, urgente. Mas os livros não são o bastante para a gente ser gente. É preciso aprender a escrever, mas também a viver, mas também a sonhar. É preciso aprender a crescer, aprender a estudar.


unidade 1

Aprender a crescer quer dizer: aprender a estudar, a conhecer os outros, a ajudar os outros, a viver com os outros. E quem aprende a viver com os outros aprende sempre a viver bem consigo próprio. Não merecer um castigo é estudar. Estar contente consigo é estudar. Aprender a terra, aprender o trigo e ter um amigo também é estudar. Estudar também é repartir, também é saber dar o que a gente souber dividir para multiplicar. Estudar é escrever um ditado sem ninguém nos ditar; e se um erro nos for apontado é sabê-lo emendar. É preciso, em vez de um tinteiro, ter uma cabeça que saiba pensar, pois, na escola da vida, primeiro está saber estudar. Contar todas as papoilas de um trigal é a mais linda conta que se pode fazer. Dizer apenas música, quando se ouve um pássaro, pode ser a mais bela redacção do mundo... Estudar é muito mas pensar é tudo! José Carlos Ary dos Santos. Obra Poética

No entanto, não cresces sozinho, estás acompanhado por adultos que te ajudam neste processo de mudança tão grande. Tanto em casa como na escola, os adultos apoiam-te nas dificuldades que tiveres. Tal como acontece com os teus amigos da tua idade. É isso que a canção Crescer contigo pretende exprimir.

CRESCER CONTIGO Ainda, ainda não sabias ler, Escrever ou mesmo contar, E já, já encantavas o mundo E muito me fazias sonhar! Imaginas, imaginas muitas coisas, Aventuras, histórias de arrepiar, Ao ouvir-te, ao ouvir-te eu aprendo Que há muitas maneiras de pensar. Todos os dias me mostras Um ponto de vista diferente, É surpreendente.

19


20

unidade 1

Ouve, ouve, ouve lá o que tenho a dizer; Quero mostrar-te tudo o que sei fazer. Gosto, gosto, gosto muito que acredites em mim; Desejo ser importante para ti. Há todo, há todo um abecedário A de Amor, B Bestial Para, para eu poder dizer Que sei o quanto és genial. Com o F, com o F tu és Franco E podes ser também um Furacão Contigo ao meu lado na vida É tudo, tudo pura emoção! Com o L Lições de Moral À minha imagem me ensinas Que há coisas que faço mal. Ouve, ouve, ouve lá o que tenho a dizer; Quero mostrar-te tudo o que sei fazer. Gosto, gosto, gosto muito que acredites em mim; Desejo ser importante para ti. Com M, com o M tu tens Medos, Mas é importante aceitar, E sei que também tens alguns Quês... quem os não tem pode avançar. Tens R, tens um R de Reguila, Tens também um V de Valentão; Importa, é importante dar-te voz, Muito amor, afecto, compreensão. Dizem para não ligar, que és miúdo, Mas sei que quem ouve os seus filhos Aprende e cresce muito! Ouve, ouve, ouve lá o que tenho a dizer; Quero mostrar-te tudo o que sei fazer. Gosto, gosto, gosto muito que acredites em mim; Desejo ser importante para ti.

Música: Óscar Lopes/Letra: Ana Teresa Silva Canta: Joana — CD: Cresce Connosco, 8


unidade 1

21

As mudanças que estás a viver são como um degrau na tua vida: és mais alto, mais forte, estás mais desenvolvido. Já sabes muitas coisas, mas ainda tens muitas para aprender. Com certeza gostaste desta canção, porque tem muito a ver com a tua vida. Mas nem sempre é fácil lidar com tanta mudança! Para além do esforço que tens de fazer para acolher as mudanças interiores e exteriores, também te é pedido que trabalhes em parceria com os outros e que sejas capaz de fazer tudo isso com vontade e coragem. No início deste ano lectivo, uma das coisas importantes que tens a fazer é conhecer as pessoas que agora começaram a fazer parte da tua vida. Não basta aprendermos muitas coisas novas. As pessoas são mais importantes do que tudo quanto pudermos vir a saber. Por isso vale a pena conhecê-las e relacionarmo-nos com elas.

CONHECER OS OUTROS Na janela em frente da janela do meu quarto, no prédio do lado de lá da rua, a minha vizinha cose à máquina. Através da sua varanda consigo ver tudo o que lá se passa. Acho estranho tudo isto. Como se explica que eu saiba tanta coisa dos romanos, e dos mouros, e não saiba nada da minha vizinha. Como se explica que eu saiba quantas toneladas pesava a espada de D. Afonso Henriques e não saiba quanto pesa a máquina de costura da minha vizinha. Como se explica que eu saiba como viveram as pessoas há milhares de anos e não saiba como vive a minha vizinha. Como se explica que eu saiba que Isabel era o nome da mulher de D. Dinis e não saiba nem o nome da minha vizinha. Olho às vezes para as janelas dos prédios da minha rua e fico a pensar que não sei nada de quem lá vive, que não sei nada do que se passa ao pé de mim, todos os dias. Parece-me que as janelas dos prédios são assim uma espécie de gavetas de um móvel muito grande de que se perdeu a chave. Alice Vieira Alice Vieira. Rosa, Minha Irmã Rosa

Somos diferentes uns dos outros. Às vezes, essas diferenças conduzem a conflitos. Porque os outros não pensam da mesma maneira que nós, porque não têm os comportamentos que desejaríamos que tivessem, e por tantas outras razões, vemo-los como inimigos ou são para nós indiferentes. Mas esta forma de nos relacionarmos com eles não é positiva. De facto, as diferenças entre as pessoas são uma das maiores riquezas: podemos receber muito dos outros e também temos muito a dar-lhes.

PARA SABERES MAIS Alice Vieira nasceu em Lisboa, em 1943. É jornalista e escritora, tendo publicado muitas obras para crianças e colaborado em programas televisivos infantis.


22

unidade 1

INTEGRO UM NOVO GRUPO

A vida em sociedade decorre num determinado tempo e lugar e organiza-se em grupos. Somos membros de uma família, de grupos desportivos e musicais, participamos na catequese, nos escuteiros, integramos uma turma... o que pressupõe uma certa ordem, ainda que não tenhamos consciência disso. Nos diferentes grupos a que pertencemos, cada um tem características e necessidades próprias que quer ver respeitadas e satisfeitas. Se cada um procurasse satisfazer apenas as suas necessidades e pontos de vista, sem ter em conta as necessidades dos outros, as nossas relações sociais tornar-se-iam impossíveis, uma vez que os comportamentos de cada um poderiam pôr em causa os direitos e o bem-estar dos outros. Viver com os outros exige que sejamos capazes de criar consensos. Quando não estamos de acordo com eles, só há uma maneira de podermos continuar juntos, é procurar encontrar soluções que sejam aceites por todos, ou pelo menos pela maioria. O resultado final não será o que nós propusemos, mas também não será exactamente o que os outros propuseram: é fruto de um consenso. O trabalho que conduz ao consenso é difícil e, por vezes, demora algum tempo. Chamamos negociação ao esforço que fazemos para conseguir alcançar consensos com os outros. Só assim é possível viver em comunidade. E como nós somos seres sociais, precisamos de viver em conjunto com outros seres humanos para nos sentirmos felizes. O consenso é então necessário.


unidade 1

As regras, normas ou leis que orientam a vida em grupo, são o resultado de consensos numa sociedade (o que não significa que todos estejamos de acordo com elas). As normas representam os valores e os padrões de comportamento considerados fundamentais para o bom funcionamento de cada grupo. Há normas que regulam o funcionamento do país, e outras que regulam o funcionamento de instituições, ou ainda de grupos. Também as escolas, enquanto organizações, precisam de algumas normas para que todos possamos viver em paz e harmonia, sem conflitos desnecessários. Temos, pois, o regulamento de escola, que define os comportamentos considerados correctos e desejáveis para a vida escolar e, por outro lado, também determina penalizações para os casos de não cumprimento das normas. O problema coloca-se quando as pessoas não cumprem essas normas e passam por cima dos direitos dos outros. Se isso acontecer, estão a agir de forma egoísta, pondo em causa a vida em comunidade. É verdade que podem existir normas que são humanamente más. Isso acontece especialmente em alguns regimes de ditaduras, em que a ideia de um pequeno grupo é imposta a todos. Não se gerou consenso nenhum, porque não houve nenhuma negociação, nenhum debate. Mas, em geral, as normas existem porque fazem sentido; devem, por isso, ser respeitadas.

UMA TERRÍVEL SANÇÃO Depois do toque de saída, o Francisco saiu da sala apressadamente, seguido pelo Pedro. A agitação era muita. O Francisco tinha tido conhecimento de alguns acontecimentos vividos pelo André e a Vera. Virou-se para o Pedro e perguntou-lhe: — Sabes o que aconteceu com o André e a Vera? — Não. Porque é que estás tão agitado? Aconteceu alguma coisa de grave? — Bateram num miúdo mais novo. Ele tinha-os insultado, só porque eles não o deixaram jogar pingue-pongue. Então, passaram-se os dois e deram-lhe um par de estalos. Mas o miúdo foi fazer queixa deles. Agora, haverá consequências. Só não sabemos quais serão. O André e a Vera estão desesperados. — Podemos ir ver ao regulamento interno da escola que tipo de sanções é que se aplicam nestes casos. Tens o regulamento da escola? — Não. — Pois, eu também não. Mas acho que sei onde encontrá-lo. Vamos à página electrónica da escola que deve lá estar. Os dois amigos correram para a biblioteca, pediram para usar um computador disponível, pesquisaram a página da escola e lá encontraram o regulamento interno. Na parte referente às infracções disciplinares acharam o que queriam. — A coisa é séria — disse o Pedro —. Vamos falar com o André e a

23

VOCABULÁRIO Ditadura: Sistema político em que o poder se concentra nas mãos de um ou de poucos e suprime as liberdades individuais.


24

unidade 1

Vera, para ver como os podemos ajudar. O regulamento fala de infracção grave, mas também refere atenuantes. Pode ser que nos lembremos de alguma coisa que os livre de um castigo severo, embora tenham agido mal. Um pouco mais tarde, os quatro amigos delineavam uma estratégia. Mas não havia consenso entre eles. O André dizia que o melhor era procurarem testemunhas falsas que negassem os factos. A Vera respondia que isso não era nada bom. Por um lado, era mentira, por outro, podiam ser descobertos e então não só eles seriam castigados como também as suas testemunhas. O Pedro avançava a hipótese de acusarem o miúdo de lhes ter batido em primeiro lugar; deste modo, seria legítima defesa. Mas nem assim concordaram: uma mentira traz sempre inúmeros perigos; poderá ser mais um problema a somar ao problema anterior. Continuaram a discussão até que, quando o André e a Vera já estavam quase desesperados, o Francisco propôs que fizessem uma lista de atenuantes; e começou a ditar: 1) Vocês foram insultados pelo miúdo, antes de lhe terem feito qualquer espécie de mal; 2) Os insultos atingiram a dignidade das vossas mães; 3) Nesse dia, estavam nervosos porque tinham feito uma ficha de avaliação e iam fazer outra logo a seguir (o pingue-pongue era uma forma de descontrair)... Pouco depois, já tinham uma lista de atenuantes bastante completa e bem elaborada. O André disse: — E se pedíssemos desculpa ao miúdo e mostrássemos arrependimento? — Boa ideia — disseram todos. Seria mais uma forma de diminuir o castigo. — Podemos até prometer não voltar a infringir o regulamento interno até ao final do ano — disse a Vera. Todos concordaram. Pouco depois, já estavam mais animados. Afinal, valia a pena discutir os assuntos em conjunto e chegar a consensos razoáveis. Muitas cabeças pensam sempre melhor do que uma só.

Todos os grupos têm de ter regras ou normas para organizar a convivência entre as pessoas. Se assim não for, instala-se a desordem e ninguém sabe com o que pode contar. Algumas regras são mais importantes do que outras, mas todas contribuem para que se possa viver bem no grupo. No regulamento da escola, há normas que são indispensáveis para o seu funcionamento como instituição de ensino; e há outras que pretendem facilitar o relacionamento entre as pessoas. Os países também têm normas para que se possa organizar a vida de todos os seus cidadãos. A sociedade precisa de normas ou leis para funcionar. Por isso, as leis não podem ser respeitadas só por algumas pessoas, mas por todas. A Constituição da República Portuguesa é a lei fundamental que rege o nosso país. Lê os artigos da Constituição que a seguir se transcrevem.


unidade 1

25

CAMINHA NA NET: Faz uma pesquisa em http://dre.pt sobre a Constituição da República Portuguesa: • Quando foi aprovada? • Quando entrou em vigor? • Quem a elaborou?

Assembleia da República

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA Artigo 11.º 2. O Hino Nacional é A Portuguesa. 3. A língua oficial é o Português. Artigo 12.º Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição. Artigo 13.º Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. Artigo 74.º Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades, de acesso e êxito escolar.


26

unidade 1

Como vês, todos nós precisamos de normas para viver bem. Aliás, as regras ou normas são fundamentais para se estar e viver em grupo. O texto que encontras a seguir fala de alguns valores muito importantes para que possamos viver com os outros em harmonia.

UMA HISTÓRIA PEQUENINA “Conta, mamã, uma história, uma história pequenina...” Sim, meu filho: ouve uma história, pequenina, pequenina... O sol é oiro! A lua é prata! As estrelas, pérolas! “Mamã, eu quero o sol!” Sim, meu filho: terás na vida o sol se fores sincero... “Mamã, eu quero a lua!” Sim, meu filho: terás na vida a lua se fores honesto... “Mamã, quero as estrelas!” Sim, meu filho: terás na vida as estrelas Se fores justo e humano... Vasco Cabral. A Luta é a minha Primavera

PARA SABERES MAIS Vasco Cabral era natural da Guiné-Bissau. Nasceu em 1926 e faleceu em 2005. Lutou pela independência do seu país quando este ainda era uma colónia portuguesa e, depois de obtida a independência, ocupou nele diversos cargos políticos. Os seus poemas foram reunidos numa colectânea com o nome A luta é a minha Primavera. Vasco Cabral


unidade 1

OS

DEZ MANDAMENTOS

Moisés e as Tábuas da Lei, por Rembrandt

Imagina-te há mais de 3000 anos, escravo, sem dinheiro, sem autonomia, sem poderes dispor do teu tempo como entendesses, sem nenhuma certeza quanto ao futuro... mas com uma vontade imensa de ser livre, de construir a vida, de poder louvar, de poder amar, de acreditar nas pessoas que te rodeiam, de ser feliz, de ter fé! É uma história com todos estes ingredientes que vamos conhecer agora.

27


28

unidade 1

Monte Sinai

Ex, D

eut

Há muitos séculos atrás, um pequeno povo, o povo hebreu, conseguiu sair do Egipto onde era maltratado. Homens, mulheres e crianças caminhavam pelo deserto em direcção à sua terra, conduzidos pelo seu chefe, Moisés. Um dia, Deus falou a Moisés no cimo do monte Sinai (também conhecido por monte Horeb). Deu-lhe um conjunto de regras, de mandamentos, para que todas as pessoas daquele povo pudessem viver em paz umas com as outras.

DEUS FALOU A MOISÉS eus pronunciou as seguintes palavras: 2“ Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egipto, da terra da escravidão. 3Não tenhas outros deuses, além de mim. 4 Não faças para ti imagens esculpidas representando o que há no céu, na terra e nas águas debaixo da terra. 5Não te inclines diante de nenhuma imagem, nem lhes prestes culto. 7 Não faças mau uso do nome do Senhor, teu Deus. 8 Recorda-te do dia de sábado, para o consagrares ao Senhor. 9Podes trabalhar durante seis dias, para fazeres tudo o que precisares. 10Mas o sétimo dia é dia de descanso, consagrado ao Senhor, teu Deus. Nesse dia, não faças trabalho nenhum, nem tu nem os teus filhos nem os teus servos nem os teus animais nem o estrangeiro que viver na tua terra. 11Porque, durante os seis dias, o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que há neles, mas descansou no

1

sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e declarou que aquele dia era sagrado. 12 Respeita o teu pai e a tua mãe, para que vivas muitos anos na terra, que o Senhor, teu Deus, te vai dar. 13Não mates. 14Não cometas adultério. 15Não roubes. 16 Não faças uma acusação falsa contra ninguém. 17 Não cobices a casa do teu semelhante: não cobices a sua mulher nem os seus escravos nem o seu gado nem os seus jumentos nem coisa nenhuma do que lhe pertence.” Ex. 20, 1-5.7-17

Se cumprirmos fielmente estes mandamentos que ele nos deu, o Senhor há-de tratar-nos com bondade. Deut. 6, 25


unidade 1

Os mandamentos vieram ajudar as pessoas daquele povo a viverem melhor, respeitando Deus, respeitando-se umas às outras, bem como tudo aquilo que pertence aos outros. Estas leis foram gravadas em pedra, que ficaram conhecidas pelo nome de Tábuas da Lei e ao conjunto destas leis costuma chamar-se Decálogo ou Dez Mandamentos. Se leres com atenção o texto, podes verificar que é possível dividi-lo em duas partes. A primeira diz respeito às obrigações das pessoas para com Deus (os primeiros quatro mandamentos: vv 2-11); a segunda refere as obrigações das pessoas umas para com as outras (últimos seis mandamentos: vv 12-17). Assim, os primeiros mandamentos revelam a fé do povo de Israel em Deus, o Libertador, aquele que os retirou da escravidão do Egipto. Os últimos revelam a consciência de que não é possível viver em comunidade sem regras que orientem os comportamentos individuais. O povo de Israel sabia bem que as pessoas tendem a ser egoístas, a olhar só para os seus interesses e desejos particulares e a esquecer os outros, os seus interesses e necessidades. Por isso, era necessário estabelecer regras claras que guiassem o comportamento das pessoas, no respeito pelos direitos e a dignidade dos outros. O decálogo foi, pois, uma dádiva de Deus para a construção da paz entre os hebreus.

29


30

unidade 1

PARA SABERES MAIS Doutores da Lei: No tempo de Jesus, era dado este título a homens que tinham estudado muito e conheciam bem as leis civis e religiosas. No entanto, só depois dos quarenta anos adquiriam este estatuto. Até aí eram chamados escribas.

O MAIS IMPORTANTE DOS MANDAMENTOS Muitos anos depois de Moisés, Jesus Cristo veio clarificar o aspecto mais importante destes mandamentos. Ao longo dos séculos, os judeus tinham multiplicado as leis, ao ponto de ser difícil conhecê-las todas. Só quem se dedicava ao estudo delas é que estava apto a cumpri-las. A maior parte do povo simples era desprezada pelos sábios porque não tinha condições para cumprir todas aquelas regras. Também se discutia muito, entre os doutores da Lei, qual era o mais importante de todos os mandamentos. Por isso, Jesus deixou uma proposta, que torna tudo mais simples, mas não menos exigente.

Mt

O MANDAMENTO MAIS IMPORTANTE 35

m doutor da Lei, fez-lhe esta pergunta, para o experimentar: 36“Mestre, qual é o mandamento mais importante

da lei?” 37 Jesus respondeu-lhe: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma e com todo o entendimento. 38Este é

que é o primeiro e o mais importante dos mandamentos. 39O segundo é semelhante a este: Ama o teu próximo como a ti mesmo. 40 O essencial de todo o ensino da lei e dos profetas está nestes dois mandamentos.” Mt. 22, 35-40

Para Jesus, afinal, todos os mandamentos são apenas diferentes maneiras de amar a Deus e de amar as pessoas com quem se convive. Nada mais simples, em vez dos complicados códigos de leis dos sábios judeus. Mas este é igualmente um grande desafio e uma grande exigência: amar a Deus e amar o próximo, ou seja, todo aquele com quem nos cruzamos e com quem convivemos. Todos sabemos que não é nada fácil sermos amigos dos outros, sem estabelecermos barreiras aos que se mostram diferentes de nós. Pelo contrário, com muita frequência, viramos as costas a quem não concorda connosco, discutimos com quem não partilha connosco o mesmo ponto de vista, cortamos relações com aqueles que pertencem a culturas distintas da nossa. Mas, para Jesus, o grande desafio de Deus é que todos saibamos viver em comunidade com os outros, independentemente das suas ideias, das suas formas de vida, da sua religião, etc., desde que essas diferenças não prejudiquem a vida dos outros.


unidade 1

Para vivermos juntos, no mesmo bairro, na mesma escola, na mesma turma, precisamos de partilhar alguns valores essenciais que permitem a nossa convivência pacífica. Esses valores são-nos transmitidos desde o nosso nascimento e vão crescendo dentro de nós à medida que também vamos crescendo. As regras e as leis são tentativas de criação de um conjunto de valores que permitam a convivência pacífica. Mas se acolhêssemos a mensagem de Jesus, não precisaríamos de mais nenhuma regra: o amor é o valor central, tudo o resto vem por acréscimo. Só com base no amor poderemos construir relações de respeito, de justiça e de paz, fundadas na bondade e na verdade. Como estabelecer relações deste tipo na turma? Seremos capazes de nos pôr de acordo quanto a um conjunto de regras que orientam a nossa convivência durante as aulas? Quais as regras mais importantes e porquê?

A BÍBLIA Os textos Deus falou a Moisés e O Mandamento mais importante foram retirados de um livro chamado Bíblia. A Bíblia é o livro sagrado dos judeus e dos cristãos.

O povo onde nasceu a Bíblia O povo judeu ou hebreu era um pequeno povo que surgiu no Médio Oriente, há quase 4000 anos. O grande antepassado deste povo chamava-se Abraão. Era natural de Ur, uma cidade que ficava no território onde actualmente é o Iraque. Abraão sentiu-se chamado por Deus e partiu com a sua mulher, Sara, e tudo o que tinha, à procura de uma nova região que Deus lhe havia de mostrar. Acabou por se fixar numa faixa de terra à beira do Mar Mediterrâneo, atravessada pelo rio Jordão. Foi aí que se foi desenvolvendo o povo que veio a ser conhecido com o nome de povo hebreu, israelita ou, mais tarde, judeu.

31


32

unidade 1

Ninive

Harran Assur

o

Ti

re

g

Alepo

Ri

Mari

ACAD

Ugarit

Rio

Hebron

at

Nipur

ELAM

Ur Damasco

Siquém

Eufr

es

Biblos

Mar Mediterrâneo

Susa

Babilónia

SUMER

Golfo Pérsico

CANAÃ Bersabela

Zoão Nof (Mênfis)

On

Rio Nilo

EGIPTO

El-Amarna

Mar Vermelho

Percurso de Abraão Cidades mencionadas em Gn 12

Deslocação de Abraão de Ur até Canaã

PARA SABERES MAIS Os textos da Bíblia foram escritos em diversos materiais: pequenas placas de argila, em papiro (que era feito através do cruzamento de folhas muito finas da planta do papiro) e em pergaminho (feito de peles de animais curtidas).

Através de todas as dificuldades que viveu, este pequeno povo foi descobrindo cada vez mais quem era Deus: alguém grande e bom que o protegia no meio das tempestades da vida. Assim, ao longo dos séculos, foi registando por escrito acontecimentos da sua história, ensinamentos e orações. Foi, portanto, surgindo um Livro Sagrado, formado por textos muito diferentes, escritos em diversas épocas e por variadíssimos autores. Esse livro sagrado chama-se Bíblia e começa por contar o encontro e a relação do povo hebreu com Deus. Cerca de dezanove séculos depois de Abraão, houve um homem desse povo que “passou pela terra, fazendo o bem”: ajudou os mais fracos e necessitados e ensinou a todos como ir ao encontro de Deus. Esse homem foi Jesus Cristo. Aqueles que acreditaram nele e nos seus ensinamentos passaram a chamar-se cristãos. Houve pessoas do povo hebreu que se tornaram cristãs, mas outras permaneceram na sua religião de origem. Os primeiros cristãos também registaram por escrito a vida e ensinamentos de Jesus Cristo, bem como a sua maneira de viver a fé. Esses textos passaram a fazer parte da Bíblia cristã.

Origem da palavra Bíblia A palavra Bíblia é de origem grega — τα βιβλια — e significa “os rolos, os livros”. Byblos é também o nome de uma famosa cidade Fenícia (actual Líbano), onde os barcos egípcios faziam escala ao transportarem os papiros egípcios (em grego: byblos) para o ocidente.


unidade 1

33

5

4

1

2 1. Papiro

6

2. Tira-se a casca 3. Corta-se às fatias fininhas 4. Estende-se em cruz 5. Cobre-se com uma peça

3

de linho 6. Pisa-se com uma pedra ou um maço

Processo de fabrico do papiro no Antigo Egipto

Ânfora de Qumran

Região do Líbano

Rolo de Isaías, encontrado em Qumran


34

unidade 1

Organização da Bíblia Para os judeus, a Bíblia é constituída pelo conjunto de livros sagrados escritos antes de Jesus Cristo. A Bíblia dos judeus divide-se em três partes: a Lei (Torá, na língua hebraica), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Kethuvim). A Bíblia católica é um conjunto de 73 livros e está dividida em duas partes: a que foi escrita antes de Jesus Cristo chama-se Antigo Testamento (A. T.) e contém 46 livros; a que foi escrita depois de Jesus Cristo chama-se Novo Testamento (N. T.) e contém 27 livros. Actualmente, os católicos costumam dividir o Antigo Testamento em quatro partes: o Pentateuco (cinco livros, que correspondem à Torá), os Livros Proféticos, os Livros Históricos e os Livros Sapienciais, que contêm ensinamentos, provérbios, orações e poemas. A estante da página seguinte mostra a divisão e a distribuição dos livros da Bíblia Católica.

Papiro antigo com um excerto da Epístola aos Hebreus

Egípcio

Pirâmides de Gizé

Moisés atravessa Mar Vermelho


unidade 1

Evangelhos e Actos

Pentateuco

Livros Históricos Josué Juízes Rute I Samuel II Samuel I Reis II Reis I Crónicas II Crónicas Esdras Nemias Tobias Judite Ester I Macabeus II Macabeus

Génesis Êxodo Levítico Números Deuteronómio

35

Antigo Testamento

Novo Testamento

Mateus Marcos Lucas João Actos dos Apóstolos

Cartas de São Paulo Livros Sapienciais Livro de Job Salmos Provérbios Eclesiastes Cântico dos Cânticos Livro da Sabedoria Livro de Ben Sira

Romanos I Coríntios II Coríntios Gálatas Efésios Filipenses Colossenses

Cartas aos Hebreus e Cartas Católicas

Livros Proféticos Isaías Jeremias Lamentações Baruc Ezequiel Daniel Oseias Joel Amós

Abdias Jonas Miqueias Naum Habacuc Sofonias Ageu Zacarias Malaquias

Neo-babilónico

I Tessalonicences II Tessalonicences I Timóteo II Timóteo Tito Filémon

Hebreus Tiago I Pedro II Pedro I João II João III João Judas

Apocalipse


36

unidade 1

As línguas em que foi escrita a Bíblia A Bíblia começou a ser escrita por volta do século X a.C. e os últimos textos do Novo Testamento foram terminados já no fim do século I d.C. ou princípio do século II d.C. Para os crentes, os autores desses textos foram homens inspirados por Deus. A Bíblia foi redigida em três línguas: o hebraico, que é aquela em que foi escrita a maior parte do Antigo Testamento; o aramaico, que foi usado mais tarde na redacção de alguns livros e passagens do A. T.; e o grego, que foi a língua em que foram escritos originalmente alguns livros do A. T., e em que, dois séculos antes de Jesus Cristo, foi traduzido todo o A. T. O grego, é também, a língua em que foram redigidos todos os livros do Novo Testamento. O aramaico era a língua falada pelos judeus no tempo de Jesus.

Página do Novo Testamento da Bíblia impressa por Gutemberg

PARA SABERES MAIS

Retrato de Johannes Gutenberg

Bíblia impressa de Gutemberg Actualmente, a Bíblia encontra-se traduzida em 2403 línguas, segundo a Scripture Language Report, e é o livro mais traduzido do mundo. Foi o primeiro livro a ser impresso por Johannes Gutenberg, entre 1450 e 1455, e é o livro mais lido, da literatura mundial. São Jerónimo (século III d.C.) chamou pela primeira vez ao conjunto de livros que formam o Antigo Testamento e o Novo Testamento “Biblioteca Divina”. No final do século XIII, no reinado de D. Dinis, foram traduzidos os primeiros excertos da Bíblia para a língua portuguesa. A primeira Bíblia completa, em língua portuguesa, foi publicada em 1753.


unidade 1

37

A tradução para o grego de toda a Bíblia, no séc. II a. C., ficou conhecida como Tradução dos Setenta ou Bíblia de Alexandria. A tradução foi pedida pela comunidade judaica de Alexandria, no Egipto, que já não falava o hebraico, mas o grego. A lenda relata que setenta sábios, isolados na ilha de Faros, traduziram cada um por si, durante setenta dias, toda a Bíblia; no final, confrontaram os textos e todos eles eram iguais! Para os sábios, esta foi a forma de Deus aprovar aquela tradução. Claro que se trata de uma lenda e não de factos históricos. O que sabemos ao certo é que a tradução foi feita, tendo sido usada pelos judeus que já não compreendiam o hebraico.

Como encontrar um texto na Bíblia O texto da Bíblia sobre a entrega dos Mandamentos a Moisés pertence ao livro do Êxodo, que faz parte do Pentateuco (ou da Lei para os judeus). O texto bíblico sobre o mandamento mais importante é do Evangelho de S. Mateus, que foi um dos discípulos de Jesus.

PARA SABERES MAIS • Discípulo quer dizer aluno. Os discípulos de Jesus eram homens que deixaram as suas casas e as suas famílias para o acompanharem e aprenderem com ele. • Doze desses discípulos foram escolhidos por Jesus para formarem um grupo que ficasse mais perto dele e o seguisse para todo o lado. • Apóstolo quer dizer enviado. Apóstolos foram os discípulos de Jesus que foram enviados por ele a proclamar a sua mensagem a todos os povos.

A Bíblia tem os livros organizados conforme a estante que pudeste ver mais acima. Se abrires a Bíblia na página do índice, poderás confirmar essa mesma organização. Os livros da Bíblia encontram-se divididos em capítulos e versículos para que a sua citação e pesquisa seja mais fácil e rápida. A pesquisa de um texto da Bíblia é feita através de três elementos: o nome do livro, que pode pertencer ao Antigo Testamento ou ao Novo Testamento, o capítulo e os versículos. Por isso, a primeira coisa a procurar, quando queremos encontrar um determinado texto, é o nome do livro onde o texto está escrito.

Bíblia do Séc. XII com iluminura


38

unidade 1

PARA SABERES MAIS

Os livros da Bíblia não foram escritos inicialmente em capítulos e versículos numerados. Depois de várias tentativas de divisão do texto, a actual, em capítulos, foi feita, no século XIII, por Estêvão Langton, professor em Paris e futuro arcebispo de Cantuária (Inglaterra). No século XVI, Robert Étienne, impressor e editor parisiense, dividiu-a em versículos.

Os nomes dos livros podem ser procurados no índice da Bíblia e estão também, em geral, no cimo de cada página. Depois de se encontrar o livro, procura-se o capítulo. Cada capítulo está normalmente assinalado por algarismos de grandes dimensões. A seguir ao capítulo, procura-se o versículo, indicado por pequenos algarismos inseridos no meio do texto.

Como citar textos da Bíblia Uma citação bíblica é a indicação do livro, capítulo e versículo (ou versículos) necessários para se encontrar um determinado texto. Quando pretendemos fazer uma citação da Bíblia, isto é, quando queremos indicar o texto que queremos ler, ou no qual se encontra uma passagem que tencionamos assinalar, devemos seguir as normas das citações Bíblicas. Numa citação, o nome do livro aparece em primeiro lugar. Normalmente os nomes dos livros da Bíblia são abreviados; as abreviaturas estão sempre indicadas no princípio ou no fim da Bíblia. A indicação do capítulo aparece em segundo lugar e os versículos em terceiro lugar. Os números que indicam os versículos separam-se do número indicativo do capítulo com uma vírgula.

ÊXODO   20,1-7

Nome do Livro Capítulo

Versículo

Página da Bíblia Interconfessional


unidade 1

As citações que se seguem são alguns exemplos que te ajudam a compreender o que acabaste de ler. Ex 20, 1.2: esta citação refere-se ao livro do Êxodo, capítulo 20, versículos 1 e 2. Ex 20, 1-10: esta citação refere-se ao livro do Êxodo, capítulo 20, versículos 1 a 10. Ex 20, 1-10. 12-17: Esta citação refere-se ao livro do Êxodo, capítulo 20, versículos 1 a 10 e versículos 12 a 17. No teu Manual de Educação Moral e Religiosa Católica vais encontrar, em cada Unidade Lectiva, textos bíblicos que te ajudarão a conhecer um pouco desse grande livro que é a Bíblia. Também vais encontrar citações de muitos outros textos bíblicos que poderás procurar em tua casa, na biblioteca da tua escola, ou até na Internet.

A primeira Bíblia impressa em gráfica, feita por Johannes Gutenberg

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE: • Identificar as mudanças por que passamos na vida e a forma como podemos aprender com elas, descobrindo novas maneiras de viver. • Viver em conjunto com pessoas diferentes que vão cruzando o meu caminho, enriquecendo-me no contacto com os outros. • Respeitar regras de convivência para viver bem com todos. • Identificar o decálogo, reconhecendo a sua importância e as suas consequências para a vida quotidiana, pessoal e colectiva. • Compreender e apreciar obras de arte que representam acontecimentos importantes, como a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés. • Usar a Bíblia, localizando textos bíblicos a partir das respectivas citações. • Viver com todos de acordo com os valores do respeito, da justiça, da verdade, da solidariedade, para a construção de relações pacíficas.

39



UNIDADE LECTIVA

2

A รกgua, fonte de vida


42

unidade 2

A ÁGUA NA VIDA QUOTIDIANA

Facilmente percebemos a importância da água no nosso dia-a-dia: na higiene matinal que nos refresca e revigora, no gole de água fresca que nos reconforta quando a sede aperta, na limpeza das nossas casas ou na frescura do jardim regado. E parece-nos tudo tão fácil, basta abrir a torneira! Quando percorremos as ruas, gostamos de as ver limpas e lavadas. Os jardins frescos, com os seus belos chafarizes, convidam-nos a um agradável passeio. Nos momentos de lazer, como é divertido mergulhar na piscina, apanhar as ondas do mar com a prancha, descer um rio de canoa ou simplesmente chapinhar e brincar na água! A água também tem um lugar de destaque na economia. Ela é essencial na confecção dos produtos e em todo o funcionamento das fábricas. É indispensável na agricultura e na pastorícia, sendo utilizada na rega dos campos e na criação dos animais. Também é o elemento fundamental da actividade piscatória.


unidade 2

43

Se visitamos uma igreja, a água benta, da pia baptismal, convida-nos à interioridade, à presença de Deus. Aqui, ela assume um valor sagrado, ganhando outro sentido. De fonte da vida física transforma-se em fonte da vida espiritual. No campo ou na cidade, a vida organiza-se em torno da água.

PARA SABERES MAIS

A Bíblia tem 664 referências à água, sendo 591 do AT e 73 do NT.

ONSULTA C NA BÍBLIA Ex 17, 1-6; Gn 2, 5; Jo 21, 3. 10

Na Bíblia, aparecem muitas referências ao uso quotidiano da água, associadas à frescura, aos banhos, à limpeza, à agricultura e à pesca.


44

unidade 2

RECURSOS HÍDRICOS ORGANIZADORES DAS SOCIEDADES

VOCABULÁRIO • Recursos Hídricos: Conjunto de todos os recursos naturais de água — rios, lagos, mares, oceanos, nascentes e aquíferos, etc. • Nómada: Nome atribuído à pessoa ou povo que não se fixa num território ou local específico e que vive em constante mudança de lugar, à procura dos recursos necessários à sua sobrevivência. • Sedentário: Nome atribuído a pessoa ou povo que se fixa num território ou lugar por encontrar nele condições de sobrevivência.

A existência da água esteve, desde sempre, associada à organização da vida das comunidades humanas. Já na pré-história, as comunidades nómadas deslocavam-se entre territórios, mantendo-se sempre próximas de recursos hídricos. Estes ofereciam-lhes as condições necessárias à sua sobrevivência. A água fertilizava as terras e estas eram abundantes em frutos, raízes, caça, peixes e moluscos. Estes elementos eram a base da alimentação dos grupos recolectores. Quando se tornaram sedentários, os seres humanos começaram a fixar-se próximo de recursos hídricos que lhes ofereciam as condições necessárias à sua sobrevivência. A água, indispensável à vida, era também necessária para a confecção de alimentos, para o fabrico de utensílios e para a higiene. Permitiu que as primeiras comunidades desenvolvessem a agricultura, a pesca e a pastorícia. Desde muito cedo, os seres humanos perceberam que a água também era um importante meio de deslocação e de defesa contra os agressores. As pessoas viajavam em jangadas ou em pequenos barcos. Assim, é fácil compreender o aparecimento de grandes civilizações em torno dos recursos hídricos mais importantes: rios, lagos e oceanos.


unidade 2

45

VOCABULÁRIO Civilização: Conjunto de instituições, técnicas, costumes, crenças, etc., que caracterizam uma sociedade ou um grupo de sociedades.

Pintura rupestre representando uma embarcação (Davidson’s Arnhem, Holanda).

A história da humanidade encontra-se intimamente ligada aos grandes rios. A concentração de habitantes nas regiões à volta dos grandes rios — Tigre, Eufrates, Nilo, Indo e Amarelo — deu origem a importantes civilizações — suméria, egípcia, harappeana e chinesa — nos 3.º e 2.º milénios a. C. As extensas planícies banhadas por estes grandes rios, com regime de cheias periódicas, foram depositando, ao longo de milhares de anos, materiais fertilizantes nas suas margens. Assim, nestas regiões, formaram-se planícies aluviais muito férteis.

Ri o

Ni

lo

0

Região do Crescente Fértil

PARA SABERES MAIS Harappa: Nome de Cidade e actual sítio arqueológico da antiga civilização harappeana, antes chamada civilização do Vale do Indo.


46

unidade 2

O Egipto, onde viveu e cresceu Moisés, é um território desértico atravessado pelo rio Nilo. Os terrenos férteis limitam-se a uma estreita faixa de campos verdejantes nas suas margens, e a um espaço mais extenso junto à foz, na região do Delta.

Percurso do Nilo

A riqueza do Egipto provinha do rio Nilo, dependendo dele toda a sua economia. Inundava regularmente a maior parte das terras e, quando recuava, as terras fertilizadas voltavam a ser semeadas. Os camponeses lavravam e semeavam os campos antes que o solo endurecesse. Nas margens do Nilo abundavam árvores de fruto e legumes, e criavam-se animais. O próprio rio era rico em peixe. Para além do vale fértil do Nilo, os terrenos que não eram tocados pelas suas águas, eram secos e inférteis.

Margens do Rio Nilo


unidade 2

47

A CHEIA DO NILO A cheia do Nilo é um fenómeno verdadeiramente inacreditável. Na verdade, enquanto que todos os outros rios diminuem o seu caudal por volta do solstício de Verão, o Nilo vai aumentando dia-a-dia, até inundar praticamente todo o Egipto. Diodoro da Sicília (historiador Grego do séc. I a.C.). Biblioteca Histórica

No Egipto, o ano tinha apenas três estações. Este número de estações estava relacionado com o ciclo das cheias do Nilo. Quando o rio inundava as terras, tínhamos a estação da inundação – akhit. Depois vinha a estação do nascimento – périt, estação fresca em que se realizavam as sementeiras. Por fim, a estação quente – chemu, durante a qual se faziam as colheitas. Todos os anos se repetia o ciclo.

ONSULTA C NA BÍBLIA Gn 2, 10-14

HINO AO NILO Salve, ó Nilo, Que sais da terra E vens dar de beber ao Egipto! Misteriosa é a tua saída das trevas. Ao irrigar os prados criados por Rá Tu fazes viver todo o gado, Tu, que dás de beber à terra! Tu crias o trigo, fazes nascer o grão, Garantindo a prosperidade aos templos. Se paras a tua tarefa e o teu trabalho, Tudo o que existe cai no desespero [...] Se, ao contrário, te levantas, A terra inteira grita de regozijo, Os dentes mastigam, Os ventres alegram-se, As costas sacodem-se de riso! Hino ao Nilo (3.º milénio a.C.)

A Civilização Mesopotâmica surgiu na região entre os rios Tigre e Eufrates. A palavra Mesopotâmia significa o país “entre-os-rios”. A região da Mesopotâmia era um imenso oásis verdejante, exaltado pela literatura, como podemos ler no poema sumério. Na memória dos hebreus, este local era o paraíso terrestre, lugar ideal que nos é descrito na Bíblia, também chamado Éden, perfeito para viver: um local muito belo e verdejante, cheio de árvores de fruto, banhado por um rio do qual saíam o Tigre, o Eufrates, e ainda outros dois cursos de água.

VOCABULÁRIO Oásis: Região fértil em pleno deserto, devido à presença da água.


48

unidade 2

POEMA SUMÉRIO Altas águas espalhou o Tigre sobre os campos E tudo na terra se regozijou; Os campos produziram grão abundante, A vinha e o pomar deram os seus frutos, As colheitas foram armazenadas nos celeiros. Deus fez desaparecer o luto da terra E encheu os espíritos de alegria. Uruk (3.º milénio a.C.)

A Civilização Hebraica desenvolveu-se na região do crescente fértil, que inclui o território das civilizações egípcia e mesopotâmica. Os Hebreus eram o antigo povo de Israel. Estabeleceram-se junto do Mediterrâneo e nas margens do rio Jordão. Foi este o povo que escreveu parte da Bíblia.

PARA SABERES MAIS • A região dos Grandes Lagos, na África oriental, está associada ao aparecimento dos primeiros seres humanos. • Outras civilizações desenvolveram-se junto do Mediterrâneo: a grega, a romana e a islâmica.

Canaã

Ri

CAMINHA NA NET

o Ni

• A região dos Grandes Lagos, na África Oriental. • O Mar Mediterrâneo. • O povo hebreu.

lo

Faz uma pesquisa na Internet sobre:

0

Canaã na zona do crescente fértil


unidade 2

49

A ÁGUA E AS POPULAÇÕES Desde que os seres humanos se começaram a concentrar em determinadas regiões e se organizaram em povoações, tiveram de garantir a existência de água para satisfazer as suas necessidades. Inicialmente, procuraram estabelecer-se onde existisse água. Contudo, com o decorrer do tempo, começaram a ocupar zonas onde a água não existia ou era escassa. Nessa altura, foi necessário construir estruturas que permitissem transportá-la para perto dos locais onde se tinham fixado. Eram estruturas muito simples. Depois, à medida que o ser humano adquiriu mais conhecimentos, começou a construir estruturas mais complexas e grandiosas. Estas construções permitiam conduzir muita água a partir de grandes distâncias. São exemplo disso os grandes aquedutos, canais e galerias, construídos para transportar água. Assim, civilizações localizadas em regiões sem rios e sem correntes de água também basearam nela o seu desenvolvimento. Esta foi conseguida à custa de grandes esforços humanos. É o caso dos qanats no Irão: grandes galerias para captar e transportar água para as populações.

Localização de qanats no actual Irão

PARA SABERES MAIS Os qanats são galerias com cerca de 0,70 m de largura e 1 m de altura, utilizadas desde o séc. V a.C., para captar água subterrânea.


50

unidade 2

Ruínas de Termas Romanas, em Conímbriga

Os romanos foram dos povos que mais se destacaram na utilização privada e pública das águas. Para isso construíram grandes canais e aquedutos, cisternas, termas e redes de irrigação para a agricultura. Nas termas encontravam-se os amigos e falava-se de negócios. As tardes eram passadas nestes centros de vida social. A utilização que os romanos faziam das termas mostra-nos a preocupação que tinham com a higiene pública.

Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa

Em Portugal também foram construídos aquedutos e canais, de grande dimensão, semelhantes a estes, para transportar a água. Muitos deles são património arquitectónico de grande importância como, por exemplo, o Aqueduto das Águas Livres, na região da grande Lisboa.


unidade 2

Como a vida e a organização económica das populações dependem da água, desde cedo começaram as disputas pela sua posse, especialmente quando se tornava um bem escasso. Foi então necessário legislar sobre o seu uso, fazendo-o, por vezes, através de posturas. O texto O Chafariz dos Canos, do Século XV, manifesta a importância que a água tinha na organização das povoações. Através dele, a população queixava-se ao rei da falta de água na vila de Torres Vedras. Informavam-no ainda de que a vila tinha um aqueduto condutor da água até à povoação, o Chafariz dos Canos. Todavia, o aqueduto estava com problemas; por isso, solicitavam ao rei a sua reparação.

O CHAFARIZ DOS CANOS [...] Senhor, nesta vila há edifícios de canos por que vem água a um chafariz que está na dita vila, que os reis que Deus tem, com a ajuda dos moradores dela, fizeram. E por não poder ser reparado como deve, por causa deste concelho ser pobre e sem dinheiro, pode haver quatro ou cinco anos que a água não vem ao chafariz da vila, por causa dos canos que necessitam de grande reparo. E porque tal edifício não é justo se perder, por ser honra e proveito, e todos vos escrevemos já uma vez sobre ele e vos pedimos ajuda [...] Dada em a cidade de Lisboa, a quatro de Julho. El Rei o mandou por Fernam da Silveira, coudel mor dos seus reinos, que agora por seu especial mandado tem cargo de escrivão da puridade. Diogo Lopes a fez. Ano de mil iiijcLix (1459). Chancelarias Portuguesas: D. Duarte. Adaptação de Carlos Guardado da Silva

Chafariz dos Canos, em Torres Vedras

51

VOCABULÁRIO • Posturas: Normas destinadas às populações locais dos Concelhos. • Coudel Mor: Capitão da Cavalaria. • Escrivão da puridade: Funcionário régio de alta importância, a quem competia, de modo especial, cuidar dos negócios secretos. Tinha à sua guarda o selo particular do rei.

PARA SABERES MAIS Existem outros aquedutos de grande importância e que exerceram a mesma função para as populações, nomeadamente os seguintes: aqueduto da Fonte da Prata, em Évora; da Amoreira, em Elvas; da Usseira, em Óbidos; de S. Sebastião, em Coimbra; do Convento, em Vila do Conde; do Convento de Cristo, em Tomar, etc.


52

unidade 2

A ÁGUA NA EXPRESSÃO ARTÍSTICA Ao longo dos séculos, a humanidade expressou de forma criativa o respeito e o encanto que sentia pela água, pois esta transmite aos seres humanos bem-estar e tranquilidade. Da arte e da literatura recebemos importantes testemunhos que nos permitem conhecer a relação de respeito e de dependência que o ser humano, desde sempre, estabeleceu com este elemento natural. A água influenciou a arquitectura, a pintura, a escultura, a literatura, a música e a dança. É também utilizada como elemento de embelezamento, de conforto e de festa.

Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright


unidade 2

53

Fontanário do Rossio, em Lisboa

As fontes, os fontanários, os chafarizes, os aquedutos, as piscinas e alguns jardins são exemplos de produções artísticas intimamente ligadas à utilização da água para os mais diversos fins. A presença da água na arquitectura surge, em primeiro lugar, porque o ser humano não sobrevive sem ela.

PARA SABERES MAIS

Chafariz dos Canos, em Torres Vedras

Na música Na música, a água serviu de fonte de inspiração a peças eruditas, religiosas e populares. A canção O mar enrola n’areia” faz parte do património popular português.

Os sons da água são utilizados frequentemente nas composições musicais. São reproduzidos sons da chuva, das correntes dos rios e das ondas do mar.


54

unidade 2

O MAR ENROLA N’AREIA O mar enrola n’areia; Ninguém sabe o qu’ele diz; Bate n’areia e desmaia, Porque se sente feliz. 1.

O mar também é casado, O mar também tem mulher; É casado com a areia, Dá-lhe beijos quando quer. O mar enrola n’areia... 2.

Até o mar é casado, ai, Até o mar tem filhinhos; É casado com a areia, ai, E os filhos são os peixinhos. O mar enrola n’areia... 3.

Ó mar, tu és um leão, ai, A todos tu queres comer; Não sei como homens podem, ai, As tuas ondas vencer. O mar enrola n’areia... 4.

Ó mar que te não derretes, ai, Navio que te não partes, Ó amor que não cumpriste, ai, O que comigo trataste. O mar enrola n’areia... 5.

Ouvi cantar a sereia, ai, No meio daquele mar, Quantos navios se perdem, ai, Ao som daquele cantar. O mar enrola n’areia... Canção popular portuguesa


unidade 2

NINGUÉM É DONO DO MAR 1.

Se um dia não voltar, Desenha o meu nome no chão, Pede um desejo às ondas do mar E guarda-o na tua mão. Sempre que a noite vier, Quando não houver luar, Dá o desejo a uma onda qualquer E pede-lhe para eu voltar. Trago o destino das águas P’lo aguardar dos rochedos; Dizem que o tempo é que apaga as mágoas, Quem será que apaga os medos? O mar não é de ninguém, Ninguém é dono do mar, Nem aqueles que lá sabem navegar. 2.

E se depois eu vier, Foi porque o mar te escutou. Deixa os sorrisos correrem pela praia, Que o temporal acabou. Que havemos nós de fazer, Se a sorte está decidida? As mãos que nos têm presos à morte, São de quem nos prende à vida. Trago um coral de ansiedades, Por te querer saber deitada; Maior que a dor que vem nas tempestades É a de esperar pela chegada. O mar não é de ninguém... 3.

Vou embalado p’lo vento; Ando sem hora marcada. Na barca anda um lamento Que eu nem sei de onde vem. Andam rezas pela praia, A aguardar pela chegada. Faz-se o destino cinzento, Sempre que a barca não vem E ninguém, e ninguém... O mar não é de ninguém... Grupo Quadrilha. Quarto Crescente

55


56

unidade 2

Pia Baptismal por Rosselini, na Igreja S. João, Itália

A água tem também uma dimensão religiosa. Nas igrejas, encontramos pias baptismais e pias de água benta. Na pintura e na escultura religiosa, ela aparece como elemento sagrado, nomeadamente nas representações do baptismo ou da crucifixão de Jesus.

Na literatura religiosa Em todas as religiões, a água é símbolo de maternidade e de fecundidade. Muitos textos antigos, de diferentes religiões e culturas, exprimem a ideia de que, para esses povos, a água está na origem da vida e reconhecem-lhe valor purificador e espiritual.

Hino dos Vedas às Águas Vós, Águas, que reconfortais, trazei-nos a força, a grandeza, a alegria, a visão! …Soberanas das maravilhas, regentes dos povos, as águas! …Vós, Águas, dai a sua plenitude ao remédio, a fim de que seja uma couraça para o meu corpo, que assim eu veja por muito tempo o sol! …Vós, Águas, levai daqui isto, este pecado, qualquer que ele seja, que eu cometi, esta injustiça que fiz a quem quer que seja, este falso juramento que proferi. (a partir da tradução francesa de Jean Varenne, VEDV, 137)


unidade 2

57

Hindus a banharem-se no rio Ganges, ao pôr-do-sol

PARA SABERES MAIS • Denominam-se Vedas os quatro primeiros livros religiosos do Hinduísmo, uma religião muito antiga do Oriente, escritos em sânscrito, cerca do ano 1500 a.C. No primeiro Veda — o Rig Veda ou Livro dos Hinos — são exaltadas as águas que trazem a vida, a pureza e a força, tanto para o corpo como para espírito. • Na Religião Islâmica, os crentes não entram no templo sem purificar o corpo.

A água é muitas vezes referida na Bíblia, livro sagrado do Judaísmo e do Cristianismo. Nela, surge enquanto elemento presente na criação — são as águas da criação. Quando todas as coisas foram criadas, a água já existia; foi, portanto, o elemento primordial a partir do qual tudo foi feito. Mas a Bíblia também alude à água noutros contextos, nomeadamente, a água enquanto elemento indispensável à prosperidade, por exemplo na agricultura e na pesca, como elemento necessário à vida e como elemento purificador. Também surge ligada à presença de Deus.

CONSULTA NA BÍBLIA Gn 1, 2; 2, 1.5; 21, 15-19; Zc 14, 8


58

unidade 2

PARA SABERES MAIS • Em hebraico não existe a palavra água no singular. Esta apresenta-se sempre no plural — águas. Diz-se maim, cuja pronúncia lembra a palavra mãe em português. E céu (shamaim, em hebraico) significa: lá tem águas. • A água é um termo feminino que representa a fertilidade. Segundo a tradição judaica, a vida começou nas águas.

Neve na Rua Carcel, por Paul Gauguin

Dn

No Cântico dos três jovens (três israelitas que foram salvos da fogueira pela acção de Deus), a água está inserida no contexto de toda a criação. Ela, que esteve presente na origem da vida, é também obra do Criador e, por isso, é chamada a louvá-lo. Este cântico, do livro de Daniel (Antigo Testamento) integrou a água em todos os seus estados e nos diferentes lugares em que está presente na natureza.

CÂNTICO DOS TRÊS JOVENS 60

guas e tudo o que está acima dos céus, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! 64 Chuvas e orvalhos, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! 68 Orvalhos e geadas, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! 70 Gelos e neves, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno!

77 Mares

e rios, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! 78 Fontes, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! 79 Monstros marinhos e animais que se movem nas águas, bendigam o Senhor, a ele a glória e o louvor eterno! Dn 3, 60. 64. 68. 70.77-79


unidade 2

Na Bíblia, o Livro dos Provérbios é o primeiro e o mais representativo documento da literatura sapiencial de Israel. Trata-se de uma antologia de provérbios, de origens e datas diferentes, que abrange o período de tempo que vai do séc. X ao séc. V a.C. Este livro transmite ensinamentos morais, que visam aconselhar e educar. Sendo textos de grande riqueza literária, são, em parte, atribuídos ao Rei Salomão por ser tradicionalmente considerado um rei dotado de grande sabedoria.

VOCABULÁRIO

Pr

• Sapiencial: Conjunto de textos que, na Bíblia, está representado pelo livro dos Provérbios, de Job, de Eclesiastes, do Eclesiástico e da Sabedoria. A estes são acrescentados dois livros poéticos: Salmos e Cântico dos Cânticos. São textos que pretendem educar e transmitir uma mensagem moral com o objectivo de orientar a vida das pessoas. • Provérbios: Pensamentos, máximas, adágios. • Antologia: Compilação de textos.

PROVÉRBIOS

23

vento norte traz a chuva; a má língua provoca a cólera dos outros. 25 Uma boa notícia que vem dum país distante é como água fresca para uma boca sedenta. 26 Como uma nascente ou uma fonte com a água suja, assim é o inocente que tem medo diante do culpado. Pr 25, 23.25s

1 Honrarias

para um insensato são tão impróprias como neve no verão e chuva no tempo das colheitas. Pr 26,1

59


60

unidade 2

Na literatura O gole de água que sacia a sede, depois de uma longa caminhada, reconforta o corpo, e traz um novo significado ao simples gesto de beber água. Esta alegria desperta-nos os sentidos para o som e o movimento da água. Também nos podemos ver no seu reflexo, como num espelho. Tomada depois de um grande esforço ou quando é escassa, liberta em nós a alegria de uma festa. É fácil reconhecer-lhe estas propriedades, que assumem características espirituais.

O POÇO O poço que tínhamos descoberto não se parecia com poços saarianos. Os poços saarianos são simples buracos cavados na areia. Este assemelhava-se a um poço de aldeia. Mas não havia ali nenhuma aldeia, e parecia-me estar a sonhar. — É estranho! — disse eu ao principezinho. — Está tudo pronto: a roldana, o balde e a corda... Ele riu, pegou na corda, fez girar a roldana. E a roldana gemeu como geme o velho cata-vento quando o vento esteve muito tempo adormecido. — Ouves? — perguntou o principezinho. — Despertámos este poço e ele canta... Não queria que ele fizesse esforços: — Deixa-me ser eu a fazer isso — disse-lhe eu. — É demasiado pesado para ti. Lentamente icei o balde até ao bocal do poço. E pu-lo ali bem a prumo. Nos meus ouvidos prolongava-se o canto da roldana e na água que tremia ainda, via tremer o sol. — Tenho sede desta água — disse o principezinho. — Dá-me de beber... E compreendi o que ele tinha procurado! Ergui o balde à altura dos seus lábios. Ele bebeu, de olhos fechados. Era suave como uma festa. Aquela água era bem mais do que um alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas, do canto da roldana, do esforço dos meus braços. Era boa para o coração, como um presente. Quando eu era rapazinho, a luz da árvore de Natal, a música da missa da meia-noite, a suavidade dos sorrisos faziam brilhar assim o presente de Natal que eu recebia. Antoine de Saint-Exupéry. O Principezinho


unidade 2

61

Na sabedoria popular também se revela, através dos provérbios, o conhecimento que o povo tem das propriedades da água, recorrendo a imagens ricas, relaciona-as com regras sociais ou morais.

PROVÉRBIOS 1. Quem não poupa água e lenha, não poupa nada que tenha. 2. A água fervida tem mão na vida. 3. A água lava tudo, menos quem se louva e as más-línguas. 4. Águas passadas não movem moinhos. 5. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Provérbios Populares Portugueses

Também na literatura portuguesa há muitas referências à água. Podemos encontrá-las em vários textos literários, que demonstram a importância da relação dos portugueses com a água. A nossa localização geográfica permitiu-nos desenvolver actividades piscatórias marítimas, bem como partir à descoberta de novos mundos. A literatura portuguesa relatou, em vários momentos, as proezas e as aventuras dos Portugueses. Luís Vaz de Camões, na sua obra Os Lusíadas, uma obra de referência mundial, cantou a grande epopeia dos Portugueses nos Descobrimentos. O poeta Fernando Pessoa, no seu poema Mar Português, refere as dificuldades que os portugueses tiveram de vencer, quando enfrentaram o poder do mar. Encontramos muitos outros textos, em língua portuguesa, que falam da água. Também a poetisa brasileira Cleonice Rainho escreveu um belo poema sobre a água e as suas muitas utilizações em benefício do ser humano.

Réplica dos Navios Portugueses dos Descobrimentos

PARA SABERES MAIS Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu na mesma cidade, em 1935. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa. O seu poema Mar Português faz parte de um livro com o título Mensagem, publicado no ano anterior à sua morte.

Fernando Pessoa, Parque dos Poetas


62

unidade 2

MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa. Mensagem

A ÁGUA VOCABULÁRIO Bojador: Cabo que se situa na costa ocidental de África. A primeira passagem pelo Bojador deve-se a Gil Eanes, em 1434. Antes deste navegador o ter passado, julgava-se que era intransponível.

VOCABULÁRIO • Remanso: Sossego. • Cachoeira: Cascata. • Borbotões: Jacto de líquido. • F orça motriz: Força que faz mover.

Subterrânea e purificada por um filtro natural, a água vem, jorra nas fontes, faz gluglu nas torneiras para nosso bem. Água de silêncio dos remansos e lagos, mar, rio, cachoeira que se despenha em borbotões — força motriz e energia também. Na pia baptismal, no corpo e no campo, na flor e no fruto, na seiva e no sumo, no orvalho e no vinho, a água faz leito e caminho de bela missão. Cleonice Rainho (poetisa brasileira)


unidade 2

SIMBOLOGIA JUDAICO-CRISTÃ Os seres humanos são os únicos seres capazes de reflectir sobre a importância da água. Nas diferentes culturas, são atribuídos à água significados simbólicos. É uma representação universal de fertilidade, de fecundidade e de purificação. A água é também utilizada nos ritos comunitários de várias religiões e culturas. Simboliza, habitualmente, a purificação da pessoa e a sua admissão num determinado grupo.

VOCABULÁRIO • Cultura: Conjunto de conhecimentos, leis, tradições, artes, costumes e manifestações religiosas que definem um determinado grupo constituído em sociedade. • Fertilidade: Capacidade de produzir ou de se reproduzir; fecundidade. • Ritos: Conjunto de cerimónias que se praticam numa religião, com a intenção de ligar as pessoas ao Sagrado. • Símbolo: Elemento visível que remete para outras realidades (ex.: o sinal de sentido proibido remete para a proibição de circular numa via em determinado sentido).

63


64

unidade 2

Arca de Noé - Os animais saem da arca, por Jacob Boutatts

O Dilúvio e a Arca de Noé CONSULTA NA BÍBLIA Gn 7, 1-5. 17-24; 8, 1-5. 15-19

CAMINHA NA NET Faz uma pesquisa na Internet sobre histórias de dilúvios nas culturas hebraica, grega, hindu, babilónica, inca e maia.

A Bíblia conta, no Livro do Génesis, a seguinte história: há milhares de anos, tendo Deus verificado que todos os seres humanos se tinham afastado do caminho do bem, fez cair uma chuva muito intensa e prolongada que inundou toda a superfície da Terra — o Dilúvio universal. Apenas se salvaram, dentro de uma “arca”, Noé e a sua família, assim como um casal de animais de cada espécie. Noé era um homem bom e honesto, por isso Deus poupou-o à terrível catástrofe. Esta história simbólica pretende dizer-nos que a água teve um efeito purificador e que a humanidade pôde então renascer para uma vida verdadeiramente humana, de acordo com a vontade de Deus. A arca também simboliza a protecção de Deus contra toda a destruição; é uma espécie de paraíso onde convivem todos os animais numa relação de harmonia com o ser humano. O arco-íris, que apareceu após o dilúvio, simboliza a aliança de Deus com a humanidade (por isso é que antigamente se chamava arco-da-velha ao arco-íris, por ser o arco da velha aliança). O poema que se segue, de um poeta brasileiro, tem como tema fundamental o fim do dilúvio e a repovoação da terra.


unidade 2

A ARCA DE NOÉ Sete em cores, de repente O arco-íris se desata Na água límpida e contente Do ribeirinho da mata.

A Arca desconjuntada Parece que vai ruir Aos pulos da bicharada Toda querendo sair.

O sol, ao véu transparente Da chuva de ouro e de prata Resplandece resplendente No céu, no chão, na cascata.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro? As aves, por mais espertas Saem voando ligeiro Pelas janelas abertas.

E abre-se a porta da Arca De par em par: surgem francas A alegria e as barbas brancas Do prudente patriarca

Enquanto, em grande atropelo Junto à porta de saída Lutam os bichos de pêlo Pela terra prometida.

Noé, o inventor da uva E que, por justo e temente Jeová, clementemente Salvou da praga da chuva.

“Os bosques são todos meus!” Ruge soberbo o leão “Também sou filho de Deus!” Um protesta; e o tigre — “Não!”

Tão verde se alteia a serra Pelas planuras vizinhas Que diz Noé: “Boa terra Para plantar minhas vinhas!”

Afinal, e não sem custo Em longa fila, aos casais Uns com raiva, outros com susto Vão saindo os animais.

E sai levando a família A ver; enquanto, em bonança Colorida maravilha Brilha o arco da aliança.

Os maiores vêm à frente Trazendo a cabeça erguida E os fracos, humildemente Vêm atrás, como na vida.

Ora vai, na porta aberta De repente, vacilante Surge lenta, longa e incerta Uma tromba de elefante.

Conduzidos por Noé Ei-los em terra benquista Que passam, passam até Onde a vista não avista.

E logo após, no buraco De uma janela, aparece Uma cara de macaco Que espia e desaparece.

Na serra o arco-íris se esvai... E... desde que houve essa história Quando o véu da noite cai Na terra, e os astros em glória

Enquanto, entre as altas vigas Das janelinhas do sótão Duas girafas amigas De fora a cabeça botam.

Enchem o céu de seus caprichos É doce ouvir na calada A fala mansa dos bichos Na terra repovoada.

Grita uma arara, e se escuta De dentro um miado e um zurro Late um cachorro em disputa Com um gato, escouceia um burro.

Vinícius de Moraes. A Arca de Noé

65


66

unidade 2

Nuvem

CONSULTA NA BÍBLIA

Nos textos bíblicos, a nuvem simboliza a presença de Deus. Neles narram-se acontecimentos em que Deus se manifesta ao povo de Israel através das nuvens, com o objectivo de o guiar.

Ex

• Ex 13, 21-22; Ex 24, 15-16 • Mt 17, 1-8

A Transfiguração, por Giovanni Lanfranco

9

ogo que Moisés entrava na tenda, a coluna de nuvem descia e mantinha-se à entrada, e o Senhor falava com Moisés. Ex 33, 9

PARA SABERES MAIS • O povo bíblico introduziu e assimilou algumas tradições e símbolos de povos com os quais contactou. Também encontramos a simbologia da nuvem na tradição suméria “do deus que viajava, utilizando para tal as nuvens.” • Moisés significa possivelmente salvo das águas; o nome ter-lhe-ia sido atribuído porque foi recolhido pela filha do Faraó das águas do rio Nilo (Ex. 2, 1-10).


unidade 2

Fonte A fonte ou nascente é o local de onde surge a água, como dádiva para todos os que dela precisam. Nela podemos saciar a nossa sede. Dela surgem os cursos de água, os riachos, os ribeiros, os rios... Nas nascentes, a água é pura e jorra como se tivesse vida.

CONSULTA NA BÍBLIA

Ex

• Zc 13, 1; 14, 8 • Sl 23(22), 1-2

5

DO ROCHEDO BROTA A ÁGUA

Senhor respondeu-lhe: “Coloca-te à frente do povo e faz-te acompanhar de alguns anciãos de Israel. Leva também a vara com que bateste no rio e segue em frente.

6Eu

estarei à tua espera junto do monte Horeb, em cima do rochedo. Bate com a vara no rochedo e dele sairá água para o povo beber.” Ex 17,5-6

67


68

unidade 2

PARA SABERES MAIS Os cristãos das primeiras comunidades, quando queriam saber se determinada pessoa acreditava em Jesus, desenhavam um arco. Se a outra pessoa fosse cristã, desenhava um outro arco a cruzar-se com esse, formando-se assim a imagem de um peixe.

Pormenor do Medalhão de Thalassa na nave da Igreja dos Apóstolos, Salamanca

Peixe A água é o ambiente natural dos peixes. Por isso, estes aparecem, naturalmente, como o símbolo desse elemento. O peixe é um dos primeiros símbolos utilizados pelos cristãos para se identificarem. Logo após a morte de Jesus, este símbolo era utilizado quando se referiam a Jesus Ressuscitado. Quando os cristãos começaram a ser perseguidos, passou a ser usado como sinal secreto para comunicarem uns com os outros. Surgiram assim desenhos de peixes nas casas, nas roupas e nos túmulos dos primeiros cristãos.

PARA SABERES MAIS Na língua grega, que era a língua mais falada, quando o Cristianismo surgiu, a palavra peixe soava mais ou menos assim: ictys. É essa a origem da palavra portuguesa ictiologia, que quer dizer “estudo dos peixes”. Cada uma das cinco letras dessa palavra grega correspondia à inicial das palavras Jesus Cristo, (de) Deus Filho, Salvador (ou seja: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador). ΙΧΘΥΣ − ICTHYS PEIXE Ιησουσ Χριστοσ Θεου Υιοσ Σωτηρ

Iesus Cristos Theou ‘Yios Soter

Jesus Cristo (de) Deus Filho Salvador


unidade 2

69

JESUS — A ÁGUA DA VIDA Jesus aproveita muitos acontecimentos da vida quotidiana para transmitir a sua mensagem. No Evangelho segundo S. João, relata-se o diálogo que Jesus teve com uma mulher samaritana. S. João foi um dos seus discípulos, tendo presenciado os seus comportamentos e os seus ensinamentos durante perto de três anos. Para melhor compreenderes esse texto, é importante que conheças um pouco da história do povo de Israel.

Mapa da Palestina

No século VIII a.C., os assírios — um povo que vivia perto da Palestina — invadiram e conquistaram a Samaria, uma região de Israel. Muitos samaritanos foram deportados e substituídos por populações assírias. As famílias assírias misturaram-se com as samaritanas e introduziram em Israel muitos costumes da sua civilização, que eram contrários à fé de Abraão e de Moisés, na qual os judeus acreditavam. Este acontecimento originou uma divisão profunda entre judeus e samaritanos, divisão que se foi agravando e se prolongou até ao tempo de Jesus. Os samaritanos desse tempo adoravam um Deus único como os judeus, respeitavam o dia de Sábado por ser o dia do Senhor, mas só aceitavam como sagrados os cinco primeiros livros da Bíblia, a Torá.

VOCABULÁRIO Deportar: Expulsar do seu país.


70

unidade 2

Os judeus nunca perdoaram o facto de os samaritanos terem sido influenciados por costumes pagãos. Judeus e samaritanos eram, pois, irmãos que não se falavam. Se observares bem o mapa da Palestina, podes verificar que para se deslocarem entre a Judeia e a Galileia os judeus tinham de atravessar a Samaria. Foi neste contexto que São João relatou o episódio do encontro com a samaritana. Neste texto é relevante o facto de Jesus se ter dirigido em público a uma mulher. Não só era samaritana, como era mulher, e naquele tempo não se aceitava que um homem falasse em público com uma mulher. A sociedade era patriarcal, fundada no poder dos homens, por isso o espaço das mulheres era apenas o da vida familiar, o espaço da casa. Jesus rompeu com estas tradições: para ele, um samaritano era tão digno como uma pessoa de qualquer outra região, uma mulher era tão digna como qualquer homem.

Cf Jo

JESUS E A MULHER SAMARITANA Narrador Cansado da caminhada, Jesus sentou-se, à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Nisto, chegou uma mulher samaritana que ia tirar água ao poço. Jesus Dá-me de beber. Samaritana Mas tu és judeu! Como é que te atreves a pedir-me água a mim que sou samaritana?

Jesus Quem bebe desta água volta a ter sede, mas quem beber da água que eu lhe der, nunca mais há-de ter sede. A água que eu lhe der torna-se dentro dessa pessoa numa fonte que lhe dá a vida eterna. Samaritana Senhor, dá-me então dessa água, para eu nunca mais ter sede, nem precisar de vir buscar água a este poço. Cf. Jo 4, 6-11.13-14.16

Jesus Se tu soubesses aquilo que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que havias de lha pedir, e ele dava-te água viva. Samaritana Nem sequer tens um balde e o poço é fundo! Donde é que tiras a água viva?

Jesus junto ao poço com a Samaritana, por Gustave Doré


unidade 2

Jesus apresenta-se à Samaritana como aquele que dá a Água Viva. De que água se trata? Estaria Jesus a falar da água do poço, como a mulher interpreta? Certamente que não. Para os cristãos, ele é a Fonte de Água Viva. A água é importante para saciar a sede. Mas a água não mata definitivamente a sede das pessoas. Jesus — Fonte de Água Viva — sacia eternamente a sede da humanidade. Neste texto, Jesus não está a falar da sede do corpo, mas de tudo aquilo que nós desejamos espiritualmente e de que temos necessidade para vivermos uma vida com sentido. Jesus vem dar sentido à vida. Quem experimenta a sua presença não deseja mais nada, porque, quando ele está connosco, Deus torna-se presente.

Baptismo de Jesus por João Baptista, Igreja de Madeleine, Paris

Na vida de Jesus, há outras ocasiões em que encontramos referências à água. Uma das mais importantes é o acontecimento do baptismo de Jesus. Junto do rio Jordão, muitas pessoas respondiam aos apelos de um homem que os aconselhava a mudar de vida, a praticarem o bem. Esse homem chamava-se João e era conhecido por Baptista, devido ao facto de baptizar aqueles que aceitavam os seus conselhos. Baptizar significa mergulhar na água. Antigamente era mesmo assim que se realizavam os baptismos e o rito ainda é praticado deste modo por alguns grupos religiosos. Um dia, também Jesus se aproximou de João para ser baptizado nas águas do rio Jordão. Este acontecimento é-nos relatado nos Evangelhos.

71


72

unidade 2

Mc

O BAPTISMO DE JESUS

7

oão dizia assim ao povo: “Depois de mim virá alguém com mais autoridade do que eu, e nem sequer mereço a honra de me curvar diante dele para lhe desatar as correias das sandálias. 8Eu baptizo-vos com água, mas ele há-de baptizar-vos com o Espírito Santo.”

9 Por

essa altura, veio Jesus duma povoação chamada Nazaré, na província da Galileia, e foi baptizado por João Baptista no rio Jordão. 10No momento em que saía da água, Jesus viu abrir-se o céu e o Espírito Santo a descer sobre ele, como uma pomba, 11e ouviu uma voz do céu: “Tu és o meu Filho querido: tenho em ti a maior satisfação.” Mc 1, 7-11

CONSULTA NA BÍBLIA Mt 3, 13-17; Lc 3, 21-22

Pormenor do Baptismo de Cristo, por Giotto

João baptizava para purificar do mal as pessoas que o procuravam. Já que a água também serve para lavar, o baptismo significa simbolicamente a lavagem da consciência humana, a purificação de todo o mal praticado. Jesus não precisava desta purificação, porque nele não havia mal, mas quis passar por este rito antes de começar a sua missão. Este momento da sua vida foi muito importante: Deus manifestou a todos os que estavam presentes que Jesus era o seu Filho muito querido, que vinha em seu nome, para trazer a boa notícia da salvação. Este acontecimento marcou assim o início de uma vida nova para Jesus: a partir daí, ele começou uma fase da sua vida a que é costume chamar-se vida pública. Deixou a sua casa, a terra onde vivia, a sua família e o seu trabalho. Depois de ter sido baptizado por João, percorreu o país, ensinando a mensagem do amor infinito de Deus e chamando todos a uma mudança radical de vida, porque a vontade de Deus é que todos se amem e sejam solidários uns com os outros.


unidade 2

73

CONSULTA NA BÍBLIA Jo 7, 50-52; 19, 39

VOCABULÁRIO

Baptismo de uma criança pelo Papa Bento XVI

O baptismo cristão usa a água como elemento simbólico fundamental. Jesus refere-se à vida nova que se recebe no baptismo, na conversa que tem com Nicodemos, um fariseu, membro do Sinédrio. Como muitos homens do seu tempo, procurou Jesus porque acreditava que ele tinha sido enviado por Deus. De facto, todas as suas obras eram sinais da presença de Deus. Nicodemos era um homem importante na sociedade da época, por isso preferiu ser discreto, procurando Jesus de noite.

• Fariseus: Grupo religioso cujos membros observavam rigorosamente a Lei dada a Moisés e as tradições. • Sinédrio: Conselho que se reunia no Templo de Jerusalém, funcionava como tribunal e como governo supremo; era composto por 71 membros e presidido pelo sumo-sacerdote.

Jo

1

ENCONTRO DE JESUS COM NICODEMOS

avia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, que era um dos chefes dos judeus. 2 Certa noite foi ter com Jesus e disse-lhe: “Mestre, sabemos que Deus te enviou para nos ensinares. Ninguém pode fazer as obras que tu fazes, se Deus não estiver com ele.” 3 Jesus respondeu-lhe: “Fica sabendo que ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.” 4 Nicodemos perguntou-lhe então: “Como é que um homem idoso pode voltar a nascer? Pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez?”

5 Jesus

respondeu: “Fica sabendo que só quem nascer da água e do Espírito é que pode entrar no Reino de Deus. 6 O que nasce de pais humanos é apenas humano, o que nasce do espírito é espiritual. 7 Não te admires por eu te dizer que todos devem nascer novamente. 8 O vento sopra onde quer; ouves o seu ruído, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece também com aquele que nasce do Espírito.” Jo 3, 1-8


74

unidade 2

Jo

Para representar: Narrador: Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, que era um dos chefes dos judeus. Certa noite foi ter com Jesus.

quer; ouves o seu ruído, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece também com aquele que nasce do Espírito. Jo 3, 1-8

Nicodemos: Mestre, sabemos que Deus te enviou para nos ensinares. Ninguém pode fazer as obras que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus: Fica sabendo que ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo. Nicodemos: Como é que um homem idoso pode voltar a nascer? Pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Jesus: Fica sabendo que só quem nascer da água e do Espírito é que pode entrar no Reino de Deus. O que nasce de pais humanos é apenas humano, o que nasce do espírito é espiritual. Não te admires por eu te dizer que todos devem nascer novamente. O vento sopra onde

Jesus e Nicodemos, por autor anónimo

Jesus, neste diálogo com Nicodemos, diz-lhe que não basta achar que as suas obras vêm de Deus, é necessário ir mais além, ou seja, nascer de novo. Nicodemos não consegue perceber do que é que Jesus está a falar. Ele entende que “nascer de novo” é voltar a entrar no ventre materno para renascer de forma física. No entanto, Jesus não se refere ao nascimento físico, mas ao nascimento espiritual. O que será este nascimento espiritual? Trata-se de viver ligado a Deus, aceitar a sua presença no coração humano e deixar-se conduzir pela sua vontade. Se lermos com atenção as palavras de Jesus, verificamos que, para além de referir o Espírito, menciona também que este nascimento acontece através da água. A água tem, nas suas palavras, um significado simbólico: receber o Baptismo representa, portanto, nascer de novo, é deixar-se marcar pela vida de Deus, uma vida que é espiritual. Trata-se de nascer para uma vida nova, pelo baptismo da água e do Espírito. Recebemos dos nossos pais a vida humana e recebemos no Baptismo uma vida nova e interior, que vem de Deus.


unidade 2

75

TERRA — O PLANETA AZUL

A água surgiu na Terra há cerca de 3,5 mil milhões de anos. Cerca de dois terços da superfície da Terra estão actualmente preenchidos pelos oceanos. A água é o elemento mais abundante na natureza. De toda a água que se encontra no planeta, 97% é salgada e encontra-se nos mares e oceanos; por isso, não é potável. Apenas aproximadamente 3% é doce; mas, sensivelmente 2,5% encontra-se sob a forma de gelo, nas calotes polares ou em regiões subterrâneas de difícil acesso ao ser humano, os aquíferos. Deste modo, apenas 0,5% da totalidade da água se encontra em rios, lagos e na atmosfera, sendo acessível ao consumo humano. É, portanto, um bem muito escasso!

2,5 Gelo 0,5 Água Potável

97% Água Salgada

VOCABULÁRIO • Água Potável: Própria para beber. • Aquíferos: Lençóis subterrâneos de água.


unidade 2

A água encontra-se distribuída pelos oceanos, continentes e atmosfera, nos estados líquido, sólido e gasoso, em movimentos cíclicos, formando o ciclo hidrológico. A totalidade da água da Terra constitui a hidrosfera. Pensa-se que a quantidade total de água existente na Terra se tem mantido constante desde o início.

Ciclo da água Ec

76

odos os rios correm para o mar, mas o mar nunca se enche. Voltam para a sua origem para retomarem o mesmo caminho.”

“Se as nuvens estiverem carregadas, deixam cair chuva sobre a terra.” Eclesiastes 1,7; 11,3

PARA SABERES MAIS O Eclesiastes, ou Qohelet, é um livro da Bíblia, mais precisamente do A.T., escrito por volta do séc. IV a.C. Pertence ao grupo dos Livros Sapienciais, porque contém reflexões cheias de sabedoria sobre a vida e o sentido das coisas.


unidade 2

77

A ÁGUA, INDISPENSÁVEL À VIDA A água é um recurso natural indispensável à sobrevivência de todas as espécies que vivem à face da terra. Todos os seres vivos — os seres humanos, os animais e as plantas — necessitam de água para viver. Esta está na base da cadeia alimentar. A água está presente desde o início da nossa vida, na protecção do embrião e ao longo de todo o nosso crescimento. É indispensável à manutenção das células e permite o bom funcionamento do nosso organismo.

PARA SABERES MAIS • Cada ser humano necessita, por dia, de dois a quatro litros de água, incluindo a que é ingerida através dos alimentos. • Este consumo de água é muito importante. O nosso corpo perde água constantemente, através da transpiração, da urina e das fezes. Por isso, é necessário repor a água que perde para manter a quantidade indispensável à saúde. • A desidratação está associada à falta de água e pode conduzir à morte.

Nos seres vivos, plantas e animais, encontramos uma percentagem de água semelhante à que existe no planeta. O corpo de um adulto humano é, em média, composto por 70 a 75% de água. No caso de um feto, essa mesma percentagem é de 85%, enquanto que num idoso é de aproximadamente 50%.


78

unidade 2

PARA SABERES MAIS • As árvores, apesar do aspecto seco e duro que têm, também são compostas por cerca de de água. • H2O é a fórmula científica da água e significa que em cada molécula de água existem dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio.

TUDO DEPENDE DO DESTINO DA ÁGUA Os seres humanos e as comunidades em que eles vivem não podem sobreviver sem água, uma vez que este elemento corresponde às necessidades primárias e constitui uma condição fundamental da sua existência. Tudo depende do destino da água. O acesso à água potável e ao saneamento é indispensável para a vida e para o pleno desenvolvimento de todos os seres humanos e das comunidades espalhadas pelo mundo. Declaração da Delegação da Santa Sé presente no II Foro Mundial sobre a água, Quioto, 2003


unidade 2

79

A ÁGUA, UM DIREITO DE TODOS A água é um dos bens da criação. Sendo dádiva de Deus, é destinada a todos os seres que dela dependem e às respectivas comunidades. Deus quis que a Terra, e toda a obra da sua criação, fosse gerida em benefício de todos. Naturalmente, todos os bens da criação devem ser compartilhados pela humanidade, com justiça e solidariedade. Tudo depende da água. Ela é um bem comum universal e pertence a toda a família humana. O direito do acesso à água não pode ser condicionado apenas aos habitantes dos países onde há água em abundância. A água potável deve estar à disposição de todos de forma igual.

PARA SABERES MAIS O Papa é o chefe da Igreja Católica, ou seja da grande família constituída por todos os católicos. Vive no Vaticano, Estado independente que fica dentro da cidade de Roma. A palavra Papa significa Pai.

Como dom de Deus, a água é instrumento vital, imprescindível para a sobrevivência e, portanto, um direito de todos. João Paulo II. Mensagem aos Membros da Conferência Episcopal do Brasil (19 de Janeiro de 2004)

PARA SABERES MAIS

O direito à água está intimamente relacionado com outros direitos fundamentais do ser humano, como o direito à vida, à alimentação e à saúde. Normalmente, os direitos humanos são garantidos por convenções internacionais, que defendem iguais direitos para todos os indivíduos e para todas as comunidades. Contudo, relativamente ao actual sistema internacional dos direitos humanos, falta uma referência clara ao direito de acesso à água potável. Não podemos ver a água apenas como um direito dos seres humanos. Ela é também um direito dos próprios ecossistemas. Da água depende a vida de milhões de espécies animais e vegetais, aquáticas e terrestres. A forma como, muitas vezes, utilizamos e exploramos os recursos hídricos tem influência negativa sobre a fauna e a flora e, consequentemente, sobre todo o equilíbrio do ecossistema. De forma directa ou indirecta, os seres humanos também são afectados.

João Paulo II nasceu em Wadovice, nos arredores da cidade de Cracóvia, na Polónia, em 1920. Foi Papa desde 16 de Outubro de 1978 até 2 de Abril de 2005, data em que morreu em Roma (Vaticano). Viajou por todo o mundo, fazendo apelos à paz e defendendo incansavelmente os direitos humanos.

Papa João Paulo II


80

unidade 2

Os rios são nossos irmãos Em 1854, depois de o Governo norte-americano ter proposto a compra do território ocupado pela tribo Duwamish, do Estado de Washington, em troca da concessão de uma reserva, o chefe índio Seattle respondeu ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, com uma carta que ficou célebre. A carta é um canto de amor pela natureza: todos os elementos naturais são considerados irmãos dos seres humanos e, por isso, devem ser respeitados; cabe a cada um esforçar-se por cuidar da natureza, como se ela fosse o próprio corpo.

TALVEZ UM DIA SEJAMOS IRMÃOS O Grande Chefe de Washington comunicou-nos o seu desejo de comprar as nossas terras. Mas, como se pode comprar ou vender o céu e o calor da Terra? Tal ideia é estranha para nós. Se não somos os proprietários da pureza do ar ou do resplendor da água, como podes comprá-los a nós? Cada torrão desta terra é sagrado para o meu povo, tal como cada praia arenosa e cada véu de neblina na floresta escura. A água cintilante dos rios e dos regatos não é apenas água, é o sangue dos nossos antepassados. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e deverás ensiná-lo aos teus filhos e fazer-lhes saber que cada reflexo na água límpida dos lagos fala do passado e das recordações do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, matam-nos a sede, transportam-nos nas canoas e alimentam os nossos filhos. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar e ensinar aos teus filhos que os rios são nossos e vossos irmãos, e terás de dispensar-lhes a bondade que darias a um irmão. Nós sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Na sua voracidade arruinará a Terra e deixará atrás de si apenas um deserto. Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia. Ensinem aos vossos filhos o que temos ensinado aos nossos: que a Terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a Terra fere os filhos da Terra. Uma coisa sabemos: a Terra não pertence ao ser humano, é o ser humano que pertence à Terra. Disto temos a certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo o que acontece à Terra acontece aos filhos da Terra. Não foi o ser humano quem teceu a teia da vida, ele não passa de um fio da teia. Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como um amigo, pode fugir ao mesmo destino de todos os seres humanos. Por isso, poderíamos ser irmãos. Vamos ver. Talvez julgues agora que podes possuir Deus da mesma maneira que desejas possuir a nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e o seu amor para com o homem vermelho é igual ao amor que tem para com o homem branco.


unidade 2

Assim, se vendermos as nossas terras, amem-nas como as temos amado e cuidem delas como nós cuidámos. E com toda a vossa força e o vosso poder, conservem-nas para os vossos filhos e amem-nas como Deus nos ama a todos. Sabemos uma coisa: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele ama esta terra. Seattle. Talvez Sejamos Irmãos (excerto)

PARA SABERES MAIS A capital actual do Estado de Washington chama-se Seattle, o nome do Chefe Índio que escreveu esta carta, que é considerada um dos mais belos manifestos ecológicos. Após a cedência das terras, os Índios Duwamish migraram para a reserva Port Madison, onde está sepultado o Chefe Seattle.

A ÁGUA NO MUNDO ACTUAL A ausência de água potável está sempre associada a contextos de pobreza e de desigual distribuição dos bens que se encontram na Natureza. Por este motivo, em muitas regiões do mundo, existem grandes conflitos pela posse da água, porque é escassa ou se encontra poluída. A água pode ainda ser utilizada como instrumento de hostilidade. Em algumas situações de conflito, entre povos ou países, o impedimento do acesso à água, enquanto recurso essencial para a vida dos seres humanos, pode ser uma arma cruel.

81


82

unidade 2

UM GOLE DE ÁGUA A expressão “beber um gole” designa uma actividade mecânica e comum que leva cerca de quinze segundos. E, quando se trata de água, não se pensa mais nela do que no ar que se respira. No entanto, naquele ano de 1992 em que a guerra rebentou, quiseram os acontecimentos que este simples gesto se tornasse consideravelmente mais difícil para os habitantes de Sarajevo. A cidade, situada num vale, viu-se, um belo dia, cercada. Os atacantes tinham decidido cortar todos os abastecimentos de gás, electricidade e água. Era preciso habituarmo-nos a viver sem gás e sem electricidade. Claro, não é muito agradável tactear na escuridão. As pessoas não são morcegos. Mas a falta de água é uma calamidade à qual ninguém pode habituar-se. Arranjar água tinha-se tornado um problema crucial naquela luta pela vida. Os atacantes controlavam quase todos os recursos de Sarajevo em matéria de água, e metade da cidade ficara limitada a abastecer-se em cerca de quarenta torneiras, o que era muito pouco para cento e cinquenta mil habitantes. Que trabalhos para “beber um gole” naqueles anos de 92–95! Levávamos, por vezes, cinco horas para percorrermos os dois, três ou quatro quilómetros que separavam o nosso domicílio do ponto de distribuição da água, onde cada qual vinha recolher algumas gotas de vida. Quando, finalmente, entramos em casa sãos e salvos, toda a família se apressa a matar a sede. E eis que surgem novas solicitações: um banho, uma barrela, uma refeição a preparar... A necessidade de água é constante! Mal se teve tempo de descansar depois daquele trabalho esgotante e já os recipientes começam a alinhar-se diante da porta. Vazios. É preciso recomeçar tudo. É preciso que se saiba que, para “beber um gole de água”, cada habitante de Sarajevo investiu em média, no decurso dos quatro anos que durou a guerra, quatro mil trezentas e oitenta horas, isto é, cerca de cento e oitenta e dois dias completos... Excerto de Aida Ademovic. Une guerre en Europe


unidade 2

Existe uma clara relação entre a presença de água numa região e a existência de alimentos e de qualidade de vida, porque a água está presente em todos os processos que produzem a riqueza de um país e é essencial a todas as formas de vida. A pobreza, sendo visível através da fome e da doença, traz a morte precoce dos seres humanos. Nos países onde a falta de água é evidente, os habitantes não conseguem produzir o suficiente para a sua alimentação. Assim, a pobreza, a fome e a doença são muitas vezes resultado de escassez prolongada de água, ou seja, de períodos de seca.

Escassez de água no mundo

83


84

unidade 2

A ÁGUA AMEAÇADA O aumento do número de pessoas nas povoações passou a exigir maiores quantidades de água. A sua utilização excessiva e descontrolada levanta sérios problemas para o futuro. A sociedade tem descuidado o facto de a água ser um recurso escasso: apenas sensivelmente 0,5% é potável e acessível ao ser humano. Porém, mesmo esta pequena percentagem disponível corre sérios riscos. Os rios e lagos sofrem o impacto da poluição, servindo de escoamento a esgotos domésticos, públicos e industriais. Muitas vezes estas águas são restituídas aos meios naturais sem antes serem tratadas. Nestes casos, tornam-se prejudiciais ao ambiente, mesmo quando não nos apercebemos disso, pondo em perigo a vida das plantas, dos animais e até das pessoas. Os adubos e pesticidas utilizados na agricultura são arrastados pela água da chuva para os rios e oceanos, contaminando-os. Também são lançados directamente nos cursos de água outros elementos que dão origem a contaminações prejudiciais para os seres vivos (por exemplo, os metais pesados). O ciclo da água já não é suficiente para purificar naturalmente a água que os seres humanos poluem.

Ciclo hidrológico com elementos de desequilíbrio


unidade 2

A Igreja Católica, tendo em conta que a água é um bem essencial à vida, tem alertado as comunidades mundiais para a necessidade de uma intervenção urgente. A água é um bem que se pode esgotar. Se não tivermos cuidado, os nossos descendentes não terão acesso a este bem essencial.

PERIGO PARA A HUMANIDADE Devemos ter em conta “a limitação dos recursos naturais, alguns dos quais não são renováveis, como se diz. Usá-los como inesgotáveis, com absoluto domínio, põe em perigo seriamente a sua disponibilidade, não só para a geração presente, mas sobretudo para as gerações futuras.” João Paulo II. Sollicitudo Rei Socialis

PARA SABERES MAIS • Os documentos da Igreja Católica são, em geral, escritos em latim e identificados pelas palavras com que iniciam. • Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% dos internamentos hospitalares, no mundo inteiro, são devidos a doenças transmitidas pela água. • A água contaminada transmite doenças que são causa de morte no mundo inteiro como a hepatite, meningite, cólera, febre tifóide, etc.

Em defesa da água Surge em todo o mundo uma grande preocupação com a escassez das reservas e com a perda de qualidade da água. A água é de tal modo indispensável que o Conselho da Europa reflectiu sobre a sua importância e, em Maio de 1968, elaborou a Carta Europeia da Água.

85


86

unidade 2

CARTA EUROPEIA DA ÁGUA I. Não há vida sem água. A água é um bem precioso indispensável a todas as actividades humanas. II. Os recursos hídricos não são inesgotáveis. É necessário preservá-los, controlá-los e, se possível, aumentá-los. III. Alterar a qualidade da água é prejudicar a vida do homem e dos outros seres vivos que dela dependem. IV. A qualidade da água deve ser mantida em níveis adaptados às utilizações e, em especial, satisfazer as exigências da saúde pública. V. Quando a água, após ser utilizada, volta ao meio natural, não deve comprometer as utilizações que dela serão feitas posteriormente. VI. A manutenção de uma cobertura vegetal apropriada, de preferência florestal, é essencial para a conservação dos recursos hídricos. (...) X. A água é um património comum cujo valor deve ser reconhecido por todos. Cada um tem o dever de a economizar e de a utilizar com cuidado. (...) XII. A água não tem fronteiras. É um bem comum que impõe uma cooperação internacional. Conselho da Europa. Carta Europeia da Água

Sede da ONU, em Nova Iorque

Mais tarde, a 22 de Fevereiro de 1993, também a Assembleia-geral da Organização das Nações Unidas, decidiu que, no dia 22 de Março de cada ano, se comemore o Dia Mundial da Água. Estes gestos levam-nos a tomar consciência de que é necessário fazer um esforço para reduzir o consumo de água, que tem vindo a aumentar ano após ano. Por isso, todos temos de poupar água e tu podes fazê-lo através de gestos concretos no teu dia-a-dia. A ONU publicou, em 22 de Março de 1992, um documento intitulado Declaração Universal dos Direitos da Água. O texto merece profunda reflexão e divulgação por todos os amigos e defensores do Planeta Terra.

PARA SABERES MAIS • Conselho da Europa: Organização intergovernamental, fundada em 1949. Tem como objectivos principais: - Proteger os direitos humanos; - Promover a consciência de que há uma cultura comum na Europa; - Procurar soluções para os problemas da sociedade europeia. • Não se confunde com a União Europeia, embora muitos países, entre os quais Portugal, sejam membros de ambas as organizações. • Organização das Nações Unidas (ONU): Organismo fundado em 1945 que tem como objectivos levar os povos a trabalharem juntos na construção da paz, no respeito pelos direitos humanos, no desenvolvimento dos laços entre todos os povos do mundo e na promoção da justiça e do desenvolvimento.


unidade 2

87

PARA SABERES MAIS • 2003 foi o ano Internacional da Água Doce. • A ONU — Organização das Nações Unidas, declara que o acesso à água potável é um direito humano.

Barragem

Uma responsabilidade de todos A água é uma responsabilidade de todos. Aos Estados e Organismos Internacionais compete a responsabilidade de intervir, para promover a cooperação entre os Estados e as populações, e para criar leis e normas que orientem a utilização e o consumo da água. E cada um de nós, o que é que pode fazer?

QUE INTERVENÇÃO?

PARA SABERES MAIS

Esta intervenção deveria orientar-se para a promoção de uma maior cooperação dos reservatórios de água, a fim de prevenir que sejam contaminados e inoportunamente utilizados, ou explorados de maneira a obter exclusivamente algum tipo de lucro ou de privilégio. No contexto de tais esforços, o primeiro objectivo deve consistir no bem-estar daqueles povos que vivem nas regiões mais pobres do mundo e, por conseguinte, mais sofrem devido à escassez ou à utilização inadequada dos recursos aquíferos [...] João Paulo II. Angelus (13 de Outubro de 2002)

Por vezes, os nossos hábitos de consumo de água manifestam alguma falta de responsabilidade social. Consumimos quantidades excessivas desnecessariamente ou contribuímos para a sua poluição, porque não pensamos na sua importância. Todas as pessoas têm o dever de proteger e utilizar a água com respeito, preservando as suas qualidades e a sua presença, de forma harmoniosa, na natureza.

• Em 1972, a Assembleia Geral das Nações Unidas decretou o dia 5 de Junho como dia Mundial do Ambiente. • 1 de Outubro é o dia Nacional da Água. Este dia foi criado por iniciativa da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos (APRH) e aprovado pelo governo português, a 9 de Fevereiro de 1983.


88

unidade 2

PROJECTO INTERDISCIPLINAR DISCIPLINAS

PROPOSTAS DE ACTIVIDADES

LÍNGUA PORTUGUESA

• Leitura e exploração de diversos tipos de textos relacionados com o tema da água. • Construção de textos de banda desenhada, teatro e cartazes informativos relativos a campanhas sobre a água. • Recolha de produções do património oral: provérbios. • Pesquisa de literatura (histórias, lendas, contos, cantigas, poesia, provérbios) com referências à água.

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PORTUGAL

• Realização de trabalhos sobre toponímia local. • Pesquisa de sinais da importância da água na vida humana, tais como nomes de ruas e largos, pelourinhos, fontes, baptistérios e outros monumentos. • Estudo de monumentos relacionados com a água e a sua importância para o desenvolvimento das populações. • Análise de documentos de época relacionados com a água. • Identificação, comparativa, da relação entre custo e localização geográfica. • Pesquisa sobre os hábitos de higiene ao longo do tempo. • Levantamento ou inventário de património local relacionado com a água. • Identificação dos recursos hídricos na Península Ibérica.

CIÊNCIAS DA NATUREZA

• Estudo da água nas suas diferentes formas e presença na natureza. • Investigação sobre o ciclo da água. • Análise da relação entre a alimentação equilibrada e o consumo de água. • Identificação dos elementos que manifestam a importância da água para os seres vivos.

MATEMÁTICA

• Identificação de figuras geométricas nos monumentos estudados. • Análise e interpretação de gráfico de barras.


unidade 2

EDUCAÇÃO VISUAL E TECNOLÓGICA

• Ilustração de textos. • Criação de cartazes. • Elaboração de banda desenhada. • Investigação sobre o ambiente: natureza; poluição e defesa do ambiente; parques e jardins.

EDUCAÇÃO MUSICAL

• Análise e execução de cantigas tradicionais. • Análise de composições musicais relacionadas com sons hídricos.

EDUCAÇÃO FÍSICA

• Promoção de hábitos de higiene, hidratação e alimentação do atleta. • Exploração de actividades desportivas relacionadas com a água.

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE: • Identificar a importância da água para a vida de todos os seres vivos e, portanto, também para a dos seres humanos. • Reconhecer a simbologia da água nos rituais das diversas religiões, bem como a sua significação (símbolo de vida, purificação e fertilidade). • Compreender o papel simbólico da água nos textos bíblicos. • Identificar Jesus com a Água Viva, a fonte de toda a vida verdadeira. • Interpretar o significado da água no Baptismo cristão: sinal de purificação e de pertença a uma vida nova na comunidade dos cristãos. • Reconhecer que a água, tão necessária à vida, é escassa na Terra e que depende de nós conservá-la e velar pela sua pureza. • Contribuir para a distribuição racional e equitativa de água potável por todas as pessoas e povos e também para a melhoria da qualidade da água no Planeta que é a nossa casa.

89



UNIDADE LECTIVA

3

JESUS de Nazaré


92

5

unidade 3

Pormenor de Jesus Cristo de Noli Me Tangere, por Giotto

JESUS: UM MARCO NA HISTÓRIA Jesus de Nazaré começou por ser conhecido na sua terra pelo bem que fazia e pela forma como ensinava. Falava do Reino de Deus, um reino que não é como os outros reinos do mundo: pode estar em todos os países, em todas as cidades e aldeias, porque está dentro de cada pessoa. O Reino de Deus é o poder do amor de Deus a reinar no coração de cada um. Jesus de Nazaré foi uma figura pública muito importante: a sua mensagem, as suas atitudes e o seu destino marcaram profundamente a história da humanidade. É tão marcante que o calendário por nós usado foi construído a partir da data que se supunha ser a do seu nascimento. Todavia, hoje sabemos, que Jesus terá nascido por volta do ano 6 ou 7 a.C. Se hoje observarmos um jornal, veremos que a data inscrita é o testemunho da importância de Jesus. De acordo com o calendário que usamos, centrado no nascimento de Jesus, ficamos a saber que ele nasceu há pouco mais de 2.000 anos. Um calendário é um conjunto de unidades de tempo (dias, meses, estações, anos…) organizadas com o propósito de medir e registar acontecimentos. Existem indícios de que, em tempos muito antigos, alguns homens já se preocupavam em marcar o tempo.


unidade 3

Na Europa, há 20.000 anos, homens que viviam da caça e ainda não se tinham tornado sedentários, escavavam pequenos orifícios e riscavam traços em pedaços de ossos e madeira, possivelmente contando os dias entre as fases da Lua. Os povos do Crescente Fértil e do Egipto já tinham calendários, há perto de 5.000 anos. Também os havia entre os chineses e os hebreus, há muitos séculos atrás, assim como se conhecem outros elaborados pelos índios na América. Sempre houve a necessidade de contar o tempo. Sabe-se que existiram aproximadamente 40 calendários, muitos dos quais já não são usados.

93

Calendário Egípcio, em pedra, com o zodíaco

Nascimento de Cristo, por Fra Angelico

O calendário usado no Ocidente chama-se Calendário Gregoriano, por causa do Papa Gregório XIII. Este papa reuniu um grupo de especialistas que, ao fim de cinco anos de estudos, elaboraram um calendário. Promulgado, por Gregório XIII, a 24 de Fevereiro de 1582, foi sendo lentamente implementado até se tornar o mais universal. Ainda hoje se usam, em certas circunstâncias, alguns outros calendários, como, por exemplo, o calendário chinês, o calendário islâmico ou o calendário hebraico. Mas aquele à volta do qual tudo está organizado em todo o mundo é o calendário centrado no nascimento de Jesus. Assim, os acontecimentos históricos anteriores ao nascimento de Cristo denominam-se a.C. (antes de Cristo) e os posteriores d.C. (depois de Cristo). Muitos povos que não são cristãos, ao usarem este calendário, em vez de dizerem antes ou depois de Cristo dizem antes ou depois da Era Comum. A organização de um calendário está centrada num acontecimento importante, a partir do qual se começam a contar os anos. No caso do calendário gregoriano o ponto de referência é o nascimento de Jesus, porque ele transformou a história da humanidade.

Papa Gregório XIII

PARA SABERES MAIS No século VI, um monge chamado Dionísio, teve a ideia de contar os anos a partir da data do nascimento de Jesus. Segundo investigações mais recentes, Jesus nasceu 6 a 7 anos antes da data apontada por este monge.


94

unidade 3

A Adoração dos Magos, por autor do Séc. XIX

O NASCIMENTO DE

JESUS

O evangelista São Lucas relata-nos que Jesus nasceu em Belém, de Judá, durante o domínio do império romano. O pai de Jesus era um homem de nome José, carpinteiro de Nazaré, pequena cidade da Galileia. A sua mãe chamava-se Maria. Os seus pais eram judeus, e viviam em Nazaré, na pequena província da Palestina, que fica no Médio Oriente. Os Judeus, que viviam na Palestina no tempo de Jesus, eram cerca de um milhão e falavam aramaico. Estes tinham ficado sob o domínio romano quando, no ano 63 antes do nascimento de Jesus, as legiões de Pompeu tomaram Jerusalém. As populações, conquistadas pelo império, eram forçadas a contribuir para o sistema fiscal de Roma, através do pagamento de impostos. Os governadores de Roma realizavam, periodicamente, recenseamentos para a actualização do registo dos seus contribuintes. São Lucas, na narrativa do nascimento de Jesus, conta-nos que o imperador romano, César Augusto, deu ordens para que todos os povos da Palestina, que estavam sob o domínio do império romano, se recenseassem nos lugares de origem, ou na terra de origem dos seus antepassados. Foi nestas circunstâncias que José e Maria fizeram uma viagem de Nazaré até Belém quando Maria estava grávida de Jesus, já próximo do seu nascimento.


unidade 3

Mapa da Palestina

Jesus, o Messias Prometido

Mq

O nascimento de Jesus é-nos relatado pelos evangelistas Lucas e Mateus, nos dois primeiros capítulos dos seus evangelhos. Mateus revela a intenção de mostrar que Jesus é o Messias a que se referiam as profecias do Antigo Testamento. Na narrativa do nascimento de Jesus do evangelho de Mateus, Jesus é aquele que cumpre a profecia do Antigo Testamento, referida no Livro de Miqueias. Este profeta anuncia o nascimento de um Messias, um Salvador enviado por Deus e esperado pelo povo, que haveria de nascer em Belém, cidade do rei David: o Messias seria um descendente deste importante rei.

BELÉM, TERRA DO REI SALVADOR 1

uanto a ti, Belém, embora sejas tão pequena entre as terras de Judá, de ti farei sair aquele que vai ser o guia de Israel; ele descende duma família, cuja origem vem dos tempos mais antigos.

3 Quando

esse guia vier, conduzirá o seu povo com firmeza, graças ao seu poder e à presença de Deus. O seu povo viverá em segurança, porque a grandeza do Senhor será reconhecida até aos confins da terra; 4e assim vai reinar a paz. Mq 5, 1.3-4

95


96

unidade 3

ONSULTA C NA BÍBLIA

Nos evangelhos de Lucas e de Mateus, encontramos duas genealogias de Jesus; as personagens comuns entre ambas e também as mais importantes são as que se encontram no friso cronológico a seguir.

LC 2, 1-12

Peregrinos em Belém no Dia de Natal

Vale do Rio Jordão (Palestina)

A terra de Jesus, a Palestina, fica na Ásia, mas muito próxima de África e da Europa. É um ponto de passagem entre estes três continentes e era percorrida, em tempos antigos, por caravanas que viajavam de África para a Ásia e vice-versa. Tem a ocidente o Mar Mediterrâneo e é atravessada, de norte a sul, pelo rio Jordão. Uma parte considerável da Palestina do tempo de Jesus corresponde, actualmente, ao Estado de Israel.

PARA SABERES MAIS

Cristo pantocrator, Santa Sofia

Jesus é conhecido como Jesus Cristo. Jesus é o seu nome, que quer dizer, em hebraico, “O Senhor salva”. Cristo vem de uma palavra grega, correspondente a Messias em hebraico, que significa ungido e exprime a sua missão. Ele é o Cristo, o ungido, isto é, consagrado com óleo, porque destinado a uma missão especial: é ele que vem para salvar em nome de Deus.


unidade 3

97

JESUS NA ARTE

As Bodas de Caná, por Giotto di Bondone

O conto O Suave Milagre, de Eça de Queiroz, fala-nos da vida e personalidade de Jesus. Trata-se de um texto da literatura portuguesa. Desde o seu nascimento, Jesus é fonte de inspiração para escritores, pintores e escultores, que nos deixaram, em mais de 2000 anos, uma importante e vasta obra. A presença de representações e alusões à vida de Jesus, em todo o mundo e em todas as épocas, desde o seu nascimento, revela a importância da sua vida na história da humanidade.

O SUAVE MILAGRE Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade — mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar. Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. (…)

VOCABULÁRIO • Galileia e Issacar: regiões da Palestina • Tiberíade (ou Tiberíades): lago situado na Galileia • Profeta: homem que fala em nome de Deus • Rabi: mestre


98

unidade 3

VOCABULÁRIO • E nganim e Cesareia: • • •

cidades da Palestina C erro: pequeno monte E nxerga: cama pobre S alomão: rei que reinara muitos séculos antes naquele país, famoso pela sua sabedoria e pela sua riqueza (c. 1009 a 922 a.C.) T rilho: caminho

Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. (…) Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! Quantos o desejavam, que se desesperançavam! (...) Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. (…) E todos voltavam como derrotados, com as sandálias rotas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus. A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, a mãe mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males, ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada: — Oh filho! E como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? (...) A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou: — Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar! E a mãe, em soluços: — Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse… Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes. De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou: — Mãe, eu queria ver Jesus… E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança: — Aqui estou. Eça de Queiroz. Contos — O Suave Milagre


unidade 3

99

PARA SABERES MAIS Eça de Queiroz foi um dos maiores escritores do nosso país. Nasceu em 1845, na Póvoa de Varzim, e escreveu um número considerável de romances e também alguns contos. Entre estes últimos está “O Suave Milagre”. Faleceu em 1900. Eça de Queiroz

Fresco Ortodoxo Grego do Milagre dos Peixes

Jesus cura um cego, por El Greco


100

unidade 3

Pater Noster, ilustração de Jesus Cristo com os discípulos, por James Tissot

OS ENSINAMENTOS DE

JESUS

Jesus percorreu o seu país, ajudando todos os que precisavam e ensinando uma mensagem cheia de grande novidade. As suas palavras surpreendiam muitas pessoas. O que Jesus dizia acerca de Deus não era o que as pessoas estavam habituadas a ouvir. Nas unidades lectivas anteriores, foram referidas palavras de Jesus que se encontram nos evangelhos. Evangelho significa Boa Notícia. É o nome dado à mensagem que Jesus veio trazer à humanidade, anunciando que o Reino de Deus já está entre nós. Ele veio inaugurar um reino de amor e justiça, um reino interior, que está dentro do coração de cada um. A este reino todos podem pertencer, porque todos podem acolher na sua vida a presença de Deus. O reino de Deus é a presença do poder de Deus (um poder de amor e de justiça) no íntimo de cada pessoa. Cabe a cada um acolhê-lo ou recusá-lo. Também se chama evangelho ao relato da vida e ensinamentos de Jesus. Depois da sua morte, os discípulos transmitiram o que tinham visto e ouvido no tempo em que tinham partilhado a sua vida com ele. Depois, começaram a registar por escrito os acontecimentos marcantes da vida de Jesus, para que todas as pessoas de todas as épocas o conhecessem e não se perdesse a memória do que tinha dito e realizado. Existem quatro versões, escritas por autores diferentes, por isso há quatro evangelhos — Mateus, Marcos, Lucas e João — que fazem parte da Bíblia, no Novo Testamento. Pormenor dos 4 símbolos dos evangelistas no Baptistério de Callisto

O texto que se segue está integrado no evangelho segundo S. Lucas e é um exemplo dos ensinamentos de Jesus.


unidade 3 Lc

CONFIANÇA EM DEUS 22

esus disse aos seus discípulos: “ É por isso que eu vos digo: não andem

preocupados com o que hão-de comer, nem com a roupa de que precisam para vestir. 23A

vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa. 24 Reparem nos corvos: nem semeiam, nem colhem, nem têm despensas nem celeiros, mas Deus dá-lhes de comer. Ora vocês valem muito mais do que as aves. 25 Qual é de vocês que, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da vossa vida? 26Portanto, se nem as coisas mais pequenas são capazes de fazer,

por que se preocupam com as outras? nos lírios, que não fiam nem tecem. Contudo, digo-vos que nem o rei Salomão, que era riquíssimo, se vestiu como qualquer deles. 28Ora, se Deus veste assim as plantas que hoje estão no campo e amanhã são queimadas, quanto mais vos há-de vestir a vocês, gente sem fé? 29 Portanto, não estejam preocupados nem inquietos com o que hão-de comer e beber. 30Tudo isso procuram os que só pensam neste mundo, mas vocês têm um Pai que sabe muito bem do que precisam. 31Procurem primeiro o Reino de Deus que tudo isso vos será dado.” 27 Reparem

Lc 12, 22-31

Este excerto faz parte de um conjunto de textos que contêm os ensinamentos de Jesus aos seus discípulos. Para ele, não há dúvida de que Deus é tão bom que não se esquece de nos dar tudo aquilo de que precisamos; afinal, tudo o que temos e tudo o que existe é dom de Deus. Por vezes, é muito difícil vivermos cada dia sem estarmos obcecados com o dia de amanhã. E assim deixamos de viver o momento presente; preocupamo-nos com o que vamos comer e vestir e olhamos o futuro com alguma apreensão. Mas se, pelo contrário, dermos mais importância àquilo que é mais valioso na vida — o amor, a solidariedade, a justiça — poderemos concentrarmo-nos no presente, construindo na nossa vida e na vida daqueles que convivem connosco um mundo mais belo e feliz. Diante disto, tudo o resto perde importância. Jesus diz-nos que se pusermos em Deus a nossa confiança, conseguiremos viver de forma mais pacífica os problemas de cada dia; dificilmente desanimaremos, apesar das dificuldades. É esta certeza que distingue os cristãos: Deus está presente, embora nem sempre nos apercebamos da sua presença. Jesus fala-nos dos pássaros e das flores como exemplos de sabedoria: vivem felizes, confiando naquilo que a natureza lhes oferece. Também nós, se confiarmos, seremos mais felizes, porque estaremos mais disponíveis para amar e saborear a vida. Não nos sentiremos esmagados pelas preocupações diárias nem pelo desejo de acumular bens materiais.

101


102

unidade 3

O amor infinito de Deus Jesus anunciava que Deus ama e se interessa por todas as pessoas. Para Deus não existem pessoas mais importantes do que outras. Todos, pequenos, pobres, os que ninguém respeita, os de quem ninguém gosta, têm o mesmo valor, e são amados por Deus. No tempo de Jesus, não era esta a ideia que se tinha de Deus. A maioria das pessoas pensava que Deus amava os bons e desprezava ou, pelo menos, era indiferente em relação aos maus. Pelo contrário, para Jesus, a bondade e o amor de Deus são tão grandes que ele não abandona nem esquece ninguém. Para mostrar isto, através do seu comportamento, Jesus convivia com todas as pessoas, ia a casa de todos os que precisassem dele, mesmo que fossem consideradas pessoas de atitudes duvidosas ou mesmo de má reputação, nomeadamente, fraudulentos, ladrões e prostitutas.

Pormenor de Maria Madalena a lavar os pés de Cristo, por Giotto

ONSULTA C NA BÍBLIA Mc 1, 40-45 Lc 17, 11-19 Jo 5, 1-18 Mt 12, 22-30

Jesus chamava à conversão aqueles que tinham cometido qualquer espécie de maldade; aproximava-se dos mais pobres, dos que estavam doentes ou tinham qualquer enfermidade. Muitas dessas pessoas eram marginalizadas, porque se pensava que a situação em que se encontravam era um castigo divino por algum mal que tinham feito. De facto, para alguns judeus, se uma pessoa sofria ou lhe tinha acontecido alguma desgraça, por exemplo uma doença, era porque Deus a tinha abandonado. Era, portanto, um rejeitado por Deus e, sendo rejeitado por Deus, devia também ser rejeitado pelas pessoas de bem. O que Jesus veio mostrar é que o mal que acontece às pessoas não é um castigo; Deus não quer a doença, o sofrimento e a morte. Por isso, as pessoas sujeitas a esta experiência não são abandonadas por Deus e não devem ser abandonadas pelas outras pessoas. O coração de Deus é tão grande que cabem lá todos, mesmo os desprezados, os pecadores ou os doentes. Algumas doenças levavam mesmo à expulsão do convívio social, nomeadamente, a lepra. Nos evangelhos, vemos Jesus a conversar com leprosos e a curá-los: todos são objecto da sua atenção, porque todos são objecto da atenção de Deus, o Pai misericordioso.


unidade 3

JESUS DE NAZARÉ O amor de Deus fez-se visível na pessoa de Jesus de Nazaré, para que os homens voltem a ser homens, uns para os outros, no amor. Jesus é o amor visível de Deus. Em Jesus, Deus colocou-se ao lado dos pobres, dos fracos, dos que nada têm. Nele se revelou o princípio do bem. O Evangelho consiste na renúncia ao poder e à posse; na opção por cada ser humano, sobretudo pelos pobres e pelos marginalizados; na libertação de toda a escravidão. Adaptado de Phil Bosmans. Amor

O projecto de Deus No tempo de Jesus, acreditava-se que a vontade de Deus estava expressa nas leis escritas que Moisés tinha recebido de Deus. Jesus veio dizer que a vontade de Deus não se pode reduzir a um código de leis, porque o essencial é o amor a Deus e ao próximo. O amor vale mais do que qualquer norma. Para Jesus, o próximo não é só aquele de quem gosto, que é meu amigo, que é do meu grupo, da minha aldeia ou cidade, do meu país. Próximo é todo o ser humano que precisa de mim, seja ele quem for. Jesus ensina-nos que, quando não somos amigos dos outros, quando prejudicamos ou desprezamos o nosso próximo, ou simplesmente quando não fazemos o bem que poderíamos fazer, estamos a agir mal, contra a vontade de Deus. Todos nós já fizemos a experiência de nem sempre nos comportarmos como deveríamos e como gostaríamos. Nem sempre fazemos as melhores escolhas.

ONSULTA C NA BÍBLIA Mt 7, 24-28; 9, 10-13 Lc 6, 36-38; 7, 47-48 Tg 2, 1-9 Lc 18, 9-13

Médico examina criança, no campo de refugiados de Tug-Wajale

103


104

unidade 3

Jesus acolhia todos, mesmo aqueles que tinham feito escolhas erradas. Isso não quer dizer que ele concordasse com os comportamentos incorrectos. Pelo contrário, aconselhava o arrependimento aos que tinham errado e a conversão dos seus corações, para serem bons, honestos e justos. O arrependimento consiste em reconhecer que se agiu mal e não querer voltar a fazer o mesmo. A conversão é uma mudança radical da forma de pensar e de agir, procurando contribuir para o bem de todos. Muitas pessoas importantes do povo judeu, no tempo de Jesus, achavam que Deus estava sempre pronto a castigar severamente os pecadores, os que tinham praticado o mal. Jesus mostrava a todos que Deus, na sua bondade infinita, acolhe os pecadores e oferece-lhes constantemente o seu perdão.

Cristo e a mulher adúltera, por Nicolas Colombel

Prioridade dos valores espirituais

ONSULTA C NA BÍBLIA Mt 13, 44-46

Jesus quis que soubéssemos que Deus não nos abandona, qualquer que seja a situação em que estejamos. Quando praticamos o mal, ele chama-nos à razão; quando nos arrependemos, acolhe-nos, perdoa-nos e ajuda-nos a reiniciar a vida. Jesus transmitiu a necessidade de se conhecer Deus e aquilo que ele deseja para os seres humanos. A vontade de Deus é que cada ser humano se relacione com ele e que saiba viver numa relação de respeito e amizade com os outros. Mas isso significa pôr em primeiro lugar aquilo que tem mais importância: valorizar mais as riquezas espirituais do que os bens materiais. Na sociedade actual, mais


unidade 3

preocupada com o lucro, o dinheiro e a acumulação de bens materiais, é um pouco difícil perceber esta mensagem de Jesus. Mas se olharmos atentamente, verificamos que muitas pessoas com abundância de bens materiais vivem profundamente infelizes. Os bens materiais são importantes para o bem-estar das pessoas, no entanto, não trazem a felicidade, porque esta é conquistada com outro tipo de valores: a relação com as pessoas, a solidariedade, a bondade, a compaixão, a justiça, o amor. Na passagem bíblica do evangelho de São Lucas (12, 33), Jesus transmite a prioridade dos bens espirituais e morais sobre os bens materiais. Lc

A VERDADEIRA RIQUEZA endam o que têm e dêem o dinheiro aos pobres. Arranjem bolsas que nunca se estraguem e depositem no céu uma riqueza que não se esgota. Lc 12, 33

Festa africana dos Zulus

Jesus pretende dizer-nos que o que tem mais valor não são as riquezas que se podem juntar na terra. Esta mensagem vai ao encontro das palavras de Jesus acerca do mandamento mais importante. Na verdade, o que Deus quer para nós é que sejamos amigos uns dos outros, porque é isso que nos pode dar uma vida melhor e fazer-nos mais felizes. Ele apresenta-nos uma nova ordem de valores: os valores espirituais e morais são mais importantes do que os valores materiais; devem, por isso, ter a nossa preferência. A proposta de Jesus leva-nos a concluir que é mais importante ser do que ter.

105


106

unidade 3

Os fariseus tomando decisões contra Jesus, por James Tissot

O CONFLITO COM O PODER Mas apesar da mensagem de amor de Jesus, nem todos gostavam dele nem apreciavam o que ele fazia. Havia alguns grupos de homens da Palestina, no seu tempo, que eram muito importantes e poderosos: os Saduceus, os Fariseus e os Sacerdotes. Os Saduceus eram um grupo que se caracterizava pelo apego às tradições e que dava especial importância às leis que se encontram na Bíblia, sobretudo no que diz respeito ao culto. Pertenciam à classe aristocrática, constituída por Levitas e Sacerdotes. Neste grupo estavam, ainda, incluídos os ricos proprietários de terras e os comerciantes. Era um grupo que detinha muito poder e influência. Por seu lado, os Fariseus eram um grupo religioso cujos membros observavam, rigorosamente, a Lei dada a Moisés e as tradições. Tratava-se de um grupo de classe média. Formavam as suas próprias comunidades, quer em aldeias distintas, quer em zonas restritas da cidade. Nicodemos, amigo de Jesus, era fariseu. Os Sacerdotes eram religiosos que serviam no Templo. O chefe máximo dos Sacerdotes era chamado Sumo-sacerdote. A maior parte dos sacerdotes eram de Jerusalém, porque trabalhavam no Templo. Por causa desta grande ligação ao Templo, muitos sacerdotes perderam o contacto com o povo da região. Os Levitas eram ajudantes dos Sacerdotes no culto do Templo de Jerusalém.


unidade 3

Fariseus, Saduceus e Doutores da Lei

A estes grupos não agradava ver que muitas pessoas seguiam Jesus, admirando-o e aclamando-o. Jesus falava de um Reino e eles não compreendiam que esse reino era, afinal, a presença de Deus no coração de cada pessoa. Jesus não queria o poder deles, não estava interessado em mandar nas pessoas, porque o seu poder era outro: ajudar as pessoas a serem boas, a voltar os seus corações para Deus. Jesus era também muito crítico em relação à forma como estes grupos religiosos viviam a religião. Para eles, a pessoa religiosa era a que cumpria todos os ritos e obedecia a tudo o que estava prescrito nas leis. Reduziam a religião a um culto exterior. Para Jesus, o culto a Deus deve ser verdadeiro e de ordem espiritual, ou seja, tem de brotar do interior do ser humano e revelar uma relação de amor com Deus. Não se trata apenas de dizer palavras que não são sentidas ou cumprir rituais sem convicção. Trata-se de falar com Deus como com um amigo, prestar-lhe homenagem, dar-lhe glória porque é ele quem nos dá a vida. E esta forma de culto, para Jesus, não pode estar desligada da relação com os outros. Se presto culto a Deus, estou obrigado a tratar os outros como meus irmãos e a ser bondoso para com eles. A vida e a religião estão intimamente ligadas.

Os fariseus fazendo perguntas a Jesus, por James Tissot

ONSULTA C NA BÍBLIA Jo 4, 24

107


108

unidade 3

Esta maneira de compreender a religião não era bem aceite pelos chefes religiosos. Para eles, Jesus criticava os rituais sagrados. Como era possível que alguém se atrevesse a criticar o culto a Deus? Não percebiam que Jesus não tinha nada contra os rituais, ele apenas não aceitava o facto de se viver uma vida religiosa desligada do dia-a-dia e não autêntica, porque não resultava do amor a Deus e aos outros.

ONSULTA C NA BÍBLIA Mc 14, 32-42 Mc 14, 45-50

Instituição da Eucaristia, por Fra Angelico

JESUS É PRESO,

JULGADO E CONDENADO

Monte das Oliveiras, Jerusalém

Jesus tinha consciência de que havia muitos que não gostavam dele e que queriam a sua morte. Um dia, depois de ter jantado com os seus discípulos — a Última Ceia — saíram todos de casa, já de noite. Num campo de oliveiras chamado Getsémani, Jesus ficou a rezar, enquanto os discípulos, cansados, adormeciam. Na escuridão da noite, chegaram homens armados, enviados pelos chefes que não gostavam de Jesus. Vinham prendê-lo, guiados por um dos discípulos, Judas Iscariotes, que tinha aceitado dinheiro para lhes indicar onde Jesus estava. Quando o prenderam, todos os discípulos fugiram com medo. Foi levado à presença do chefe dos sacerdotes, que se chamava Caifás. Começou então o seu julgamento. Contudo, não conseguiam encontrar razões para o condenarem. Jesus não respondia às perguntas deles, porque sabia que já tinham resolvido condená-lo. No texto que se segue, podemos ler a última pergunta do sumo-sacerdote e a resposta que Jesus lhe deu.


unidade 3

109

Mc

JULGAMENTO DE JESUS 61

as Jesus continuava calado e nada respondia. Então o chefe dos sacerdotes tornou a perguntar-lhe: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?”

E ele disse: “Sim, sou eu. Hão-de ver o Filho do Homem à direita de Deus todo-poderoso chegar sobre as nuvens do céu.”

62

Ao ouvir isto o chefe dos sacerdotes rasgou a roupa, em sinal de protesto, e disse: “Não precisamos de mais provas. 64Ouviram como ele ofendeu Deus! Que lhes parece?” Depois disto, todo o tribunal decidiu que Jesus devia ser condenado à morte.

63

Mc 14, 61-64

PARA SABERES MAIS Jesus foi acusado de afirmar ser o Messias-rei o que, no contexto político da Palestina, no seu tempo, era equivalente a traição. A política utilizada por todos os prefeitos da Judeia, para que fosse mantida a ordem no império romano, era destruir, logo no início, qualquer rebelião, ou levantamento contra o poder instituído.

Para este tribunal, aquilo que Jesus tinha dito era afirmar que Deus lhe tinha dado autoridade para falar da maneira como falava e agir da maneira como agia. O que o tribunal contestava é que Jesus tivesse alguma autoridade. Como é que um homem que fala contra a religião pode vir de Deus? Para eles era claro: Jesus era um charlatão; dizia-se investido da autoridade de Deus, mas o seu objectivo era enganar o povo e alcançar o poder. Tinha, portanto, cometido o pior crime que alguém podia cometer. Mas os chefes religiosos não podiam condenar ninguém à morte, porque a Palestina estava dominada pelos romanos, e só o prefeito romano podia tomar tal decisão.

VOCABULÁRIO Prefeito: Chefe de uma Província do império romano, que representava o poder do imperador em determinada região.


110

unidade 3

PARA SABERES MAIS Pôncio Pilatos chegou à Judeia no ano 26 d. C. Os relatos históricos descrevem-no como um homem ambicioso e cruel, que não respeitava os costumes dos Judeus, ao contrário dos seus antecessores.

Por esta ocasião, por causa da festa da Páscoa judaica, o prefeito da Judeia — Pôncio Pilatos — subiu a Jerusalém. Era hábito que este se deslocasse com as suas tropas, de Cesareia para Jerusalém, por ocasião destas festas, para desencorajar qualquer manifestação que causasse perturbação da ordem pública, uma vez que grande número de pessoas acorria à cidade. Durante as festas, os soldados romanos circulavam da torre Antónia até aos pórticos do Templo. O prefeito instalava-se no palácio de Herodes, que era a sua residência oficial, na cidade alta. Foi, provavelmente, neste palácio que se realizou o julgamento político de Jesus.

ONSULTA C NA BÍBLIA Mc 15, 1-5.15

A descrição que a Sagrada Escritura nos apresenta do julgamento de Jesus condiz com o que conhecemos dos julgamentos daquela época nas províncias do império romano. Para a realização do julgamento, era necessária a presença de testemunhas e a pessoa acusada tinha o direito de examinar, por duas vezes, os seus depoimentos. Ao acusado, eram ainda dadas três oportunidades de se defender e de recusar a acusação. Caso se recusasse a fazê-lo, era considerado culpado. Jesus, durante o seu julgamento, não quis exercer o seu direito de defesa. No tempo de Jesus, os julgamentos romanos decorriam, em geral, ao ar livre. Uma vez que os julgamentos eram públicos, normalmente, eram assistidos por uma multidão de espectadores que expressavam a sua opinião. Na acusação de Jesus também participaram os príncipes dos sacerdotes e os anciãos.

Ecce Homo, por Antonio Ciseri


unidade 3

Para conseguirem que Jesus fosse condenado à morte, logo de manhã, levaram Jesus ao palácio do prefeito romano, que se chamava Pôncio Pilatos. Como sabiam que ele não se importava com questões relacionadas com a religião judaica, para o convencerem a condenar Jesus, disseram-lhe que ele afirmara que era rei, ameaçando assim o poder do imperador romano. De facto, Jesus tinha pregado o Reino de Deus, mas era claro que esse reino não era político, era o poder amoroso de Deus no coração de cada pessoa. Mas os chefes religiosos conseguiram convencer Pilatos de que Jesus era uma verdadeira ameaça à paz. Por isso, o prefeito condenou Jesus à morte, através da crucifixão, tendo sido primeiro flagelado.

111

PARA SABERES MAIS A palavra ‘paixão’ vem do grego e significa ‘sofrimento’. Chama-se “Paixão de Jesus” ao sofrimento por que ele passou desde que foi preso até à sua morte na cruz.

Durante o percurso que os condenados faziam até ao lugar onde eram crucificados, tinham de carregar com uma parte da cruz. Chegados ao monte Gólgota (ou do Calvário), fora da cidade de Jerusalém, pregaram Jesus à cruz. Os evangelistas não são unânimes, mas o mais provável é que Jesus tivesse morrido completamente sozinho, sem a presença de nenhum dos seus discípulos, que tinham fugido com medo de serem condenados com ele.

ONSULTA C NA BÍBLIA Mc 15, 20-28.33-38

Pintura da Estação da Cruz, por autor desconhecido (colecção Godong)

O Cristo Amarelo, por Gauguin


112

unidade 3

Noli me Tangere, por Fra Angelico

DEUS QUER A VIDA E NÃO A MORTE Com a morte de Jesus parecia ter acabado o Reino que ele tinha vindo inaugurar. Estaria tudo perdido? Afinal Jesus não era o Enviado de Deus? Se ele vinha em nome de Deus, como podia Deus permitir que ele morresse daquela maneira, desprezado por todos? Mas Deus quer a vida e não a morte: Jesus não ficou morto. Voltou a viver, ressuscitou! Os seus amigos e discípulos puderam vê-lo ressuscitado.Os cristãos sabem que Jesus está vivo e é isso que lhes tem dado alento ao longo dos séculos, porque têm Jesus com eles, presente nas suas vidas. Os cristãos acreditam que Jesus é o Filho de Deus, viveu fazendo e ensinando o bem, morreu e ressuscitou por ter defendido a dignidade de todas as pessoas e o amor universal e infinito de Deus. Por isso a festa cristã mais importante é a Páscoa que celebra a ressurreição de Jesus.

NÃO TENHAS MEDO Há uma vida escondida em ti, Ancorada no fundo do teu coração. A esperança que é Cristo eleva o teu ser. E na dor, e na dúvida, segue junto a ti.

Acolhe a vida, deixa Deus entrar. Ele é o Caminho, deixa-te guiar! Não tenhas medo, a Vida só quer que tu sejas feliz! Não tenhas medo, a Vida só quer que tu sejas feliz! Canção do Itinerário Catequético Juvenil do SDPJ de Lisboa para grupos pós-Crisma


unidade 3

Cristo, vivo para sempre, é vida, é caminho, é esperança para todos os que acreditam nele. Deus quer realmente a vida, mas esta vida que nos foi dada é frágil e pode ser comparada a um vaso de barro. Se não a preservarmos com cuidado pode quebrar-se. A canção que encontras a seguir diz-nos que somos frágeis, mas que Deus está connosco para nos fazer fortes. Nele encontramos toda a força de que precisamos.

VASOS DE BARRO Nós não nos pregamos a nós, mas ao Senhor, e apenas o fazemos por Seu Amor. Das trevas resplandece a Luz, disse Deus, e foi Ele quem brilhou no coração dos Seus. Trazemos, porém, este Tesouro em vasos de barro, para que se possa ver vir de Deus esse poder. Em tudo somos atribulados e perseguidos, mas não desamparados e nunca vencidos. No nosso corpo levamos sem cessar a morte de Jesus, para a Sua Vida manifestar. Trazemos, porém, este Tesouro em vasos de barro, para que se possa ver vir de Deus esse poder. Sabemos que Aquele que O ressuscitou também ressuscitará aqueles para quem olhou. E assim jamais iremos perder a Alegria, grande é o peso da Glória que nos espera um dia. Trazemos, porém, este Tesouro em vasos de barro, para que se possa ver vir de Deus esse poder. Grupo das Terças, Corpo Nacional de Escuteiros

113


114

unidade 3

Que podemos nós fazer para termos uma vida feliz? A vida é uma história que se vai construindo passo a passo. Jesus ensinou que uma vida feliz é aquela que se vive a amar os outros e a procurar ajudá-los.

Creio que Deus nos colocou neste mundo encantador para sermos felizes e apreciarmos a vida. (...) O melhor meio para alcançar a felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Baden Powell. Última Mensagem

Robert Baden Powell

Vale a pena procurar a felicidade dos outros, procurando construir um mundo onde todos tenham lugar e possam sentir-se na sua própria casa. Isso exige de nós atenção aos outros, aos seus problemas e necessidades, para não vivermos fechados sobre nós próprios, como se fôssemos um reduto sem janelas para cada pessoa que connosco partilha o mundo em que nos foi dado viver.

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

DISCIPLINAS

PROPOSTAS DE ACTIVIDADES

LÍNGUA PORTUGUESA

• Análise de textos literários ligados a tradições pascais.

INGLÊS

• Trabalho de pesquisa sobre a origem dos “Easter Bunnys” (coelhinhos da Páscoa).

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PORTUGAL

• Investigação sobre os calendários e métodos de datação, com relevo especial para o calendário cristão. • Interpretação de imagens, arte religiosa, sinais relacionados com a Páscoa, presentes no manual do aluno.


unidade 3

MATEMÁTICA

• Revisão da numeração romana, utilizada no império romano antes, durante e depois da vida de Cristo.

EDUCAÇÃO VISUAL E TECNOLÓGICA

• Realização de um mural bipartido com imagens da ressurreição de Jesus e sinais da festa da Páscoa hoje.

EDUCAÇÃO MUSICAL

• Análise parcial da pauta do ALELUIA de Haëndel e audição da música.

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE: • Reconhecer que Jesus de Nazaré dava valor a todas as pessoas e defendia a dignidade humana. • Reconhecer, como Jesus, que todas as pessoas têm valor e merecem o nosso respeito. • Identificar Deus, tal como foi anunciado por Jesus, com a misericórdia, a bondade para com todos, o perdão e o acolhimento de todas as pessoas. • Contar com o amor e a ajuda de Deus quando não fui capaz de ser bom e amigo dos outros. • Compreender a ressurreição de Jesus, à luz do amor de Deus, que quer a vida e não a morte. • Interpretar obras de arte sobre a morte e a ressurreição de Jesus. • Analisar textos da Bíblia sobre a morte e a ressurreição de Jesus, retirando ensinamentos para a vida concreta. • Respeitar sempre a vida, permitindo que cresça e procurando torná-la melhor para si e para os outros.

115



UNIDADE LECTIVA

4

Promover a Conc贸rdia


118

unidade 4

A LIBERDADE HUMANA

PARA SABERES MAIS Na tradição Bíblica, o coração simboliza o lugar da vida interior. Simbolicamente, é o lugar da inteligência e da sabedoria onde se encontra o princípio do bem e do mal.

CONSULTA NA BÍBLIA Pr 6, 16-18; 12, 2-3; 15, 4 Sl 52, 4-5; Sl 109, 3

Vivemos com os outros e em comunidade adquirimos valores, princípios e padrões de comportamento próprios, com os quais nos identificamos, sentindo-os como nossos. O ser humano é, desde o seu primeiro momento, um ser aberto à diversidade. Está sempre a aprender e a assimilar, através de experiências sucessivas que lhe permitem avaliar, julgar e fazer escolhas. Como seres livres que somos, temos a possibilidade de escolher, de optar por um modo de comportamento, de decidir qual a melhor conduta para nós e até de fazermos escolhas que se revelam más. A liberdade de escolher e, consequentemente, de pensar e agir, influencia toda a nossa vida. Torna-nos responsáveis pelos nossos actos, desde que estes sejam uma opção pessoal e livre. Como os seres humanos dependem uns dos outros, as suas decisões e os seus actos têm consequências que podem marcar para sempre a vida de outras pessoas. A liberdade é, assim, uma característica fundamental do ser humano. Mas o seu uso, na convivência com os outros, pode levar ao desentendimento e provocar dificuldades. Deste modo, o exercício da liberdade, para ser responsável, deve respeitar o exercício da liberdade dos outros e a procura do bem comum.


unidade 4

ESCOLHAS Parecia fácil, mas havia confusão. Já não sabia se dizer sim ou não. Entrar na onda, era fácil aguentar. O que assustava era como ia acabar. Os pensamentos começaram a correr e, de repente, eu já estava sem saber se tudo aquilo em que eu sempre acreditara (sempre acreditara), no meio de toda esta loucura, ia acabar por ser só mais uma mentira. Foi como ouvir alguém dizer: Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém. Tenho liberdade p’ra viver a minha vida, mal ou bem. Sei que posso fazer tudo, mas nem tudo me convém. O que escolho fazer hoje vou vivê-lo amanhã. Tinha vontade de deixar de lutar contra o que sabia que era melhor evitar. Só uma vez não iria mudar nada. Pensar no fim é que ainda me assustava. Os pensamentos começaram a correr (os pensamentos a correr), mas, de repente, eu já estava sem saber (estava sem saber) se tudo aquilo em que eu sempre acreditara (acreditara), no meio de toda esta loucura, ia acabar por ser só mais uma mentira. Foi como ouvir alguém dizer: Sei que posso fazer tudo... Sara Tavares & Shout. Escolhas (CD), 1996

O Pensador, por Auguste Rodin

119


120

unidade 4

O AGIR MORAL A procura do bem é um desejo universal, que está inscrito no coração de cada ser humano e, por isso, é acessível a todos. Compreendemos muito cedo que devemos fazer o bem e evitar o mal. A justiça, a solidariedade, a compaixão, a verdade e a benevolência são alguns dos valores essenciais que orientam o comportamento humano na procura do bem. Associados a estes valores estão os princípios morais fundamentais, como por exemplo: faz o bem e evita o mal; faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti; não transformes os outros em instrumentos dos teus interesses; sê justo para com todos... Os princípios morais fundamentais são bons orientadores do nosso comportamento quotidiano.

Jovem voluntária na alfabetização dos sem-abrigo

O ser humano, enquanto ser social que vive em constante interdependência com os seus semelhantes, pode condicionar a vida destes, através dos seus comportamentos. Cada acto que pratica tem geralmente consequências para si próprio e para os outros. Existe uma relação directa entre o que se faz e os efeitos dos nossos actos na vida dos outros, sejam amigos, colegas ou membros da mesma família. Os nossos comportamentos podem ser bons ou maus, conforme respeitem ou não os valores e os princípios morais, promovam ou não o bem, para nós e para os outros, podendo ser motivo de felicidade ou de infelicidade.


unidade 4

A fábula A raposa e o lenhador, de Esopo, dá-nos uma grande lição sobre a importância da coerência entre as nossas atitudes e as nossas palavras.

A RAPOSA E O LENHADOR Uma raposa era perseguida por caçadores. Viu um lenhador e suplicou-lhe que a ajudasse a esconder-se. O homem aconselhou-a a entrar na cabana dele. Pouco depois chegaram os caçadores e perguntaram ao lenhador pela raposa. Ao mesmo tempo que lhes dizia não saber do paradeiro dela, com a mão indicava onde ela estava escondida. Os caçadores não compreenderam os sinais da mão e confiaram no que ele disse. A raposa, ao vê-los partir, saiu sem dizer palavra. O lenhador repreendeu-a por não ter agradecido o facto de ter sido salva por ele. Então, a raposa respondeu: — Eu até te agradecia, mas era preciso que as tuas mãos e a tua boca tivessem dito o mesmo.

Esopo. Fábulas

Esta fábula apresenta a contradição entre as palavras e as acções. Situações deste género ocorrem com frequência no nosso dia-a-dia, quando temos dificuldade em ser coerentes, ou seja, em nos comportarmos de tal maneira que os nossos actos estejam de acordo com as nossas palavras. Ser incoerente é, por exemplo, mostrar carinho e apreço por alguém e depois prejudicar essa pessoa.

PARA SABERES MAIS Esopo foi um escritor grego que viveu, provavelmente, no século VI a.C., na Grécia Antiga. Foi autor de muitas fábulas, isto é, de histórias curtas em que as personagens são animais, e das quais se pode retirar uma lição moral para vida das pessoas.

121


122

unidade 4

A DESCONFIANÇA E O MEDO Agir mal significa comprometer a relação com os outros. As acções injustas e desonestas fazem com que fiquemos cada vez mais isolados das outras pessoas, porque provocam rupturas no relacionamento humano. Mas, muitas vezes, o facto de os outros serem bastante diferentes de nós ou desconhecermos a sua forma de vida, cultura, religião... provoca em nós desconfiança e medo, mal-estar e reacções mais ou menos agressivas. A fábula do Tigre velho e do veado novo apresenta-nos um exemplo de uma situação de desentendimento, provocada pela dúvida e pela desconfiança.


unidade 4

O TIGRE VELHO E O VEADO NOVO O tigre queria construir a sua casa. Encontrou um lugar esplêndido junto ao rio. E a mesma ideia teve um jovem veado. No dia seguinte, antes do sol nascer, o veado cortou as ervas, as árvores e foi-se embora. A seguir chegou o tigre e, ao ver tanto material de construção já reunido, exclamou: “Alguém que gosta de mim veio ajudar-me!” E pôs-se a construir os muros da casa. Na manhã seguinte, o veado voltou bem cedo. Viu o panorama e disse: “Que belos amigos que eu tenho: Ajudam-me e nem querem que eu agradeça!”. Fez o tecto da casa, dividiu-a em duas partes e instalou-se numa delas. Quando o tigre chegou e viu a casa terminada, julgou que era obra do amigo desconhecido e instalou-se na outra parte da casa. No dia seguinte, ocorreu que os dois saíram ao mesmo tempo. Compreenderam então o que tinha acontecido. Mas o veado atreveu-se a dizer “Já que ambos construímos a casa, porque é que não vivemos os dois juntos e em paz?”. O tigre aceitou: “Boa ideia. Assim ajudamo-nos também. Hoje irei eu procurar a comida. Amanhã vais tu...”. E foi para o bosque. Regressou ao entardecer. Trazia um veado já crescidinho. Atirou-o para a frente do seu sócio e, com a voz muito seca, disse: “Toma, faz a comida”. O veado, a tremer de medo, preparou a comida, mas nem conseguiu provar. E muito menos conseguiu dormir durante toda a noite. Receava que o seu feroz companheiro sentisse fome e viesse buscá-lo. No dia seguinte tocava ao veado procurar a comida. Que havia de fazer? Encontrou um tigre a dormir. Era maior que o seu companheiro. Teve então uma ideia. Procurou o urso, e disse-lhe: “Ali está um tigre a dormir. Um dia destes, ouvi-lhe dizer que tu és um mole e que não tens força...”. O urso foi em silêncio até ao tigre, agarrou-o e estrangulou-o. O veado conseguiu arrastar o tigre morto para casa. Deitou-o junto do tigre seu sócio e disse-lhe com desprezo: “Toma, come: só consegui encontrar este fracote...”. O tigre não disse nada, mas ficou muito inquieto e desconfiado. Não comeu absolutamente nada. Nem pôde dormir toda a noite. Disse para consigo: se o veado matou um maior que eu, deve ter alguma arma secreta, não é tão fraco como parece... O veado também não dormiu, pois pensava: o tigre vai vingar-se enquanto eu durmo. Já de dia, ambos caíam de sono. A cabeça do veado bateu sem querer na parede que separava os quartos. O tigre, pensando que o seu companheiro o ia atacar, fugiu; mas, sem querer, fez barulho com as garras. O veado, convencido de que o tigre vinha atacá-lo, também fugiu. No caminho encontrou-se com o urso-formigueiro que lhe perguntou: “Porque vais a correr tanto?”. Explicou-lhe, quase sem respirar, mas continuou a correr. O urso pensou: são mesmo tolos. Fizeram uma óptima casa e não sabem desfrutá-la, baseiam-se mais nas diferenças que têm do que na ajuda que podem dar um ao outro. Vou procurar quem queira partilhá-la comigo. Ocuparemos a casa e seremos felizes. In Educar através de Fábulas

123


124

unidade 4

VOCABULÁRIO: • Pagãos: do latim paganus, isto é habitante da aldeia, do campo, não cristianizado. • I dade Média: período da história que vai do século V ao século XV.

CONSULTA NA BÍBLIA Sir 11, 1-6: O perigo de julgar pelas aparências.

Embora as personagens desta história sejam animais, a sua mensagem moral é dirigida aos seres humanos. Ajuda-nos a compreender como as pessoas, ao longo dos tempos, manifestaram em várias circunstâncias ter dificuldade em estabelecer um bom relacionamento com os outros. Esta dificuldade foi alimentada pela desconfiança que é, normalmente, maior para com aqueles que são diferentes (os deficientes, os estrangeiros, os de raça, etnia ou cor da pele diferente...). O que faz surgir o medo é, em grande parte, a estranheza perante gente cuja maneira de viver, de se alimentar, de se vestir ou de se comportar é distinta da nossa. O desconhecimento da língua e a incapacidade de comunicar também criam obstáculos às relações. Esta desconfiança em relação a estranhos não é exclusiva do nosso tempo. Na Idade Média, os cristãos temiam sobretudo os pagãos e, de um modo geral, aqueles que não eram cristãos, assim como as populações vizinhas. As invasões dos povos e as pilhagens, que na época atormentavam a Europa marcaram fortemente a memória destes povos, e quando o perigo já não existia, a recordação deixava-os inquietos, temendo novos ataques. Estes povos, saqueadores, acabavam por integrar-se nos hábitos e costumes de cada civilização onde se instalavam. Sabe-se que o primeiro sinal de integração era fazerem-se cristãos.

Pormenor da Conquista de Inglaterra pelos Normandos (tapeçaria do ano 1080)

A história Um estranho perto de minha casa está relacionada com o desconhecimento do outro e permite-nos compreender como, muitas vezes, criamos dificuldades desnecessárias à relação interpessoal. Os medos podem ser prejudiciais à nossa maneira de estar em sociedade.


unidade 4

UM ESTRANHO PERTO DA MINHA CASA Um velho camponês observava, descontente, um jovem que construía uma cabana perto do seu arrozal. — Pergunto-me de onde veio — disse à mulher, nessa mesma noite. — Não é daqui da terra. A julgar pelas roupas, é originário das montanhas. Que vem fazer para aqui? Isto não me agrada nada. Isto não me agrada mesmo nada... — Porque não vais cumprimentá-lo amanhã? — Aconselhou a mulher. — Dá-lhe as boas vindas. De certeza que não conhece ninguém por estes lados. — Nem penses nisso — ripostou o camponês. — Não sabes que os habitantes das montanhas são todos uns ladrões? Ignoremo-lo; com sorte, talvez até se vá embora. Todos os dias, o camponês trabalhava no arrozal. Com a água pela barriga das pernas, arrancava as ervas daninhas e punha-as num balde. Uma manhã, descobriu que o balde não estava no sítio do costume. — Eu sabia. — Vociferava, enquanto levantava a cama e espreitava por detrás do armário. — Eu sabia. O homem roubou-me. Roubou o meu balde! A mulher perguntou-lhe: — Quem te roubou o balde? — Ora quem! — Sussurrou o homem — O montanhês! — Ninguém te roubou nada — assegurou a mulher. — Sabes muito bem que passas a vida a perder tudo. Procura bem o balde e acabarás por encontrá-lo! Mas o camponês não lhe deu ouvidos. Saiu de casa à socapa e foi espiar o vizinho. O jovem estrangeiro cuidava tranquilamente das suas tarefas, mas o camponês achou que ele tinha um ar suspeito. — Não há dúvida — disse para consigo, semicerrando os olhos enquanto observava o montanhês. — Tem ar de ladrão de baldes, anda como um ladrão de baldes: é um ladrão de baldes! — Bom-dia, vizinho — saudou-o o jovem, ao aperceber-se de que o camponês o espreitava por detrás de uma árvore. O velho fugiu a correr. Quando chegou junto da mulher, disse-lhe, esbaforido: — Estás a ver, até me cumprimenta para que não desconfie dele. É mesmo arrogante! Desafia-me! Ri-se de mim! O camponês barricou-se em casa com a mulher, as dez galinhas e os três porcos. — Meu pobre amigo — disse-lhe a mulher, abrindo a porta. — Perdeste mesmo a cabeça! — Mas — gemeu o camponês — Agora que tem o meu balde, vai querer tudo o que eu tenho. E ainda não te disse tudo — acrescentou o homem, batendo os dentes. — Quando não são ladrões, os montanheses são assassinos! A mulher encolheu os ombros e foi dedicar-se às tarefas do dia. Ao cair da tarde, o camponês saiu de casa para beber água do poço. E o que viu ele, pousado no parapeito do poço? O seu balde! Lembrava-se agora que tinha ido buscar água para dar de beber aos animais. Tinha-se esquecido completamente de pôr o balde no lugar. — Mas — repetia para si mesmo, envergonhado — O montanhês tinha mesmo ar de ladrão... Johanna Marin Coles & Lydia Maria Marin Ross. O balde

125


126

unidade 4

Com a intensificação das relações entre os povos, passou a existir um maior conhecimento dos outros, facilitando a aceitação das diferenças. A Organização das Nações Unidas, após ter produzido a Declaração Universal dos Direitos Humanos, abriu caminho para uma nova era na promoção e na protecção desses direitos. Também os meios de comunicação social, as novas tecnologias e os transportes reduziram as distâncias e diminuíram substancialmente o desconhecimento das outras culturas. Contudo, a fome, a pobreza, a guerra, a violência, a solidão, a doença e todas as manifestações de desigualdade, continuam a representar manifestações do mal e expressões de ruptura no relacionamento humano.


unidade 4

127

MAL MORAL E PECADO Já vimos que as pessoas podem agir contra os valores e os princípios morais, ou seja, contra a sua consciência. Às consequências desse comportamento chamamos “mal moral”. Todos temos a experiência de nem sempre fazer o bem; pelo contrário, em algumas ocasiões, o que nós fazemos é mau para os outros ou para nós. É nestas situações de ruptura entre as pessoas que a Igreja Católica fala de pecado. Para quem acredita em Deus, o mal moral não afecta só o relacionamento consigo próprio e com os outros; afecta igualmente a relação com Deus. Por isso, o crente entende que agir moralmente mal é também não fazer a vontade de Deus, desobedecer a Deus; e como Deus quer a felicidade do ser humano, não fazer a sua vontade é procurar a própria infelicidade e a infelicidade dos outros. O pecado é, então, o comportamento moral incorrecto que é interpretado como uma desobediência ao amor de Deus, como uma deslealdade para com ele. Assim, pecar é rejeitar a amizade de Deus.

Madalena arrependida, por Antonio Canova

VOCABULÁRIO: Consciência: Fonte do juízo moral, interior ao ser humano, que funciona como juiz. Através da consciência, distinguimos o bem do mal, aprovamos ou desaprovamos condutas, actos ou intenções próprias ou dos outros, e tomamos decisões com base em critérios morais (valores e princípios).


128

unidade 4

AS DUAS FONTES DO PECADO Como as duas fontes dos nossos pecados são o orgulho e a preguiça, Deus revelou-nos duas qualidades suas para as curar: a misericórdia e a justiça. A justiça abate o orgulho, por santas que sejam as obras; e a misericórdia combate a preguiça convidando às boas obras. Pascal. Pensamentos

VOCABULÁRIO: • Concórdia: P az, harmonia, entendimento. • Súplica: Pedido insistente e humilde. • Salmos: O rações em forma de poesia que fazem parte do Livro Bíblico dos Salmos.

As dificuldades que resultam dessas atitudes de ruptura podem ser ultrapassadas quando estamos dispostos a procurar a concórdia e a reatar os laços quebrados. Na Bíblia, surgem muitos textos que nos falam de pecado e de arrependimento. O Salmo 51 é uma oração de súplica, em forma de poema, onde se reflecte sobre a condição pecadora do ser humano, se exprime o arrependimento pessoal e se implora o perdão de Deus.

PARA SABERES MAIS noção de pecado está presente em várias culturas: A — Na antiga cultura chinesa encontra-se a ideia de pecado e suas consequências. Em 1766 a.C., o imperador Tang afirmou que “o grande Deus deu ao homem o bom senso, mas o homem tem tendência a errar”. — Para os índios americanos, a noção de pecado só faz sentido quando se cometem faltas, primeiramente contra a natureza e, seguidamente, contra o outro e contra si próprio.

PARA SABERES MAIS

Blaise Pascal

Blaise Pascal nasceu a 19 de Junho de 1623 e morreu a 19 de Agosto de 1662. Foi filósofo, físico e matemático francês. Uma das suas afirmações mais célebres foi: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”, ou seja, nem tudo nos é explicado através da razão, o coração, a afectividade, o amor, também podem justificar os nossos comportamentos e crenças. Após uma “visão divina”, abandonou as ciências para se dedicar exclusivamente à religião.


129

Sl

unidade 4

VOCABULÁRIO: TEM COMPAIXÃO DE MIM!

• Compaixão: Sentimento

Deus, pelo teu amor, tem compaixão de mim; apaga os meus pecados, pela tua grande misericórdia! Lava-me completamente da minha maldade; purifica-me dos meus delitos. Reconheço as minhas faltas e estou sempre consciente dos meus pecados.

Pequei contra ti, somente contra ti, fazendo o mal que tu condenas. O respeito pela verdade é o que tu preferes encontrar no coração do homem; ensina-me a sabedoria! Ó Deus, dá-me um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito. Faz-me sentir de novo a alegria da tua salvação. Sl 51, 3-6.8.12.14

de tristeza com o mal dos outros, que se traduz em auxílio para superar a situação em que se encontram. • Delito: Crime.


130

unidade 4

O documento “O Exemplo do Santo”, do início da História de Portugal, fala-nos do valor da prática do bem. A Igreja Católica vê nos santos exemplos a seguir. VOCABULÁRIO: • Arcediago: S acerdote encarregado pelo bispo da responsabilidade num determinado território. • Hagiografia: Relato de vidas de santos. • Prudência: V irtude que se relaciona com calma, ponderação, sensatez, paciência.

O EXEMPLO DO SANTO O arcediago Telo (...) sobressai como um luzeiro de entre todos os companheiros da sua cidade, desde os primeiros tempos da sua vida, pela prudência de espírito, pela rectidão de costumes. Filho de Odário, seu pai, e de Eugénia, sua mãe, pessoas modestas, era, todavia, forte de corpo, formoso de rosto, prendado no aspecto físico, mas mais prendado na alma, (...) respeitador dos superiores, compreensivo para com os inferiores, compassivo para com os necessitados, fiel para com os senhores, afável para com todos, justo, mas terno pela misericórdia, casto de espírito e de corpo, mas firme em humildade extrema, cheio de sabedoria, sobressaía em prudência, fazia-se notar pela honestidade do seu comportamento e mantinha-se firme em qualquer momento de perturbação. Aires A. Nascimento. Hagiografia de Santa Cruz de Coimbra

PARA SABERES MAIS D. Telo viveu no Séc. XII, tendo marcado a vida do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, do qual foi fundador.

São Domingos de Gusmão, por Fra Angelico


unidade 4

131

MANIFESTAÇÕES DO MAL Quando utilizamos a palavra mal estamos muitas vezes a referir-nos a realidades bem diferentes umas das outras. É mal, por exemplo, a ofensa que uma pessoa faz a outra, mas também é mal uma situação de doença ou de morte. Enquanto que a primeira foi provocada pela vontade livre de alguém, as outras duas, em princípio, decorrem da condição humana e não têm necessariamente a ver com acções livres. Também há situações que provocam angústia às pessoas e que derivam das condições da natureza: uma inundação, uma avalanche, um terramoto ou uma tempestade marítima. Mas aquilo que é comum a todas estas situações é o sofrimento causado. Assim, todo o sofrimento é um mal, tenha ou não origem na vontade livre do ser humano. Quando nos referimos ao mal moral, estamos a fazer referência àquele mal que resulta da acção livre de alguém.

CONSULTA NA BÍBLIA Gn 2, 9.15-17; 3, 9-19

PARA ANNE F. Querida Anne, O que escreves é verdade. Os adultos agem sem pensar. Bombas mandam atirar, para de um país se apoderar. Poluem o ar, a praia e o mar. Conduzem muito depressa, bebem até perder a cabeça.

Separam-se os casais ou fazem cenas teatrais. Mas eu tenho um sonho belo: Um dia... de outra maneira havemos de fazê-lo! A tua amiga Kitty Theo Olthuis. A Guerra em histórias e poemas

PARA SABERES MAIS Anneliese Marie Frank, mais conhecida como Anne Frank, nasceu em 1929. Era judia e durante o Holocausto nazi (Segunda Guerra Mundial) foi obrigada a viver escondida. No seu diário, corresponde-se com uma amiga imaginária — Kitty. S. Francisco consolando o sofrimento de um moribundo, por Giuseppe Mentessi


132

unidade 4

PARA SABERES MAIS Segundo a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, refugiado é aquele que se encontra fora do seu país em virtude de perseguição por causa da sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política.

O sofrimento faz, pois, parte da condição humana. Nascemos, crescemos e morremos, e este processo traz inevitavelmente experiências de dor. Contudo, é importante distinguir as situações de sofrimento que surgem, naturalmente, no decurso da vida das que são provocadas pela maldade humana. Muitas manifestações do mal no mundo poderiam ser evitadas, se o comportamento das pessoas fosse mais correcto. Mas haverá sempre situações inevitáveis de sofrimento, mesmo que todos os seres humanos se comportem de forma moralmente irrepreensível.

Refugiados iraquianos, durante a Gerra do Golfo (1990)

Encontram-se no mundo muitos seres humanos deslocados das suas casas e das suas terras. São refugiados, vítimas de perseguições ideológicas, políticas, religiosas e étnicas, ou deslocados por causa de catástrofes naturais. Grande parte deles fugiu de perseguições, as quais são consequência da intolerância dos seres humanos em relação às diferenças que se manifestam nas ideias, nos comportamentos, nas religiões, nas culturas, entre outras. As pessoas têm muita dificuldade em aceitar a diversidade e tendem a querer uniformizar o ser humano a partir de um único molde.


unidade 4

REFUGIADOS E DESLOCADOS INTERNOS FORAM 37,4 MILHÕES EM 2007, DIZ ONU O número de refugiados cresceu pelo segundo ano consecutivo e bateu um recorde em 2007, revertendo uma tendência de queda que vinha sendo observada por cinco anos até 2005, revela um relatório das Nações Unidas divulgado nesta terça-feira. Em 2007, o número de refugiados totalizou 37,4 milhões, dos quais 11,4 milhões estariam fora de seus países e 26 milhões seriam refugiados internos, afirmou o levantamento anual da agência da ONU para os refugiados (ACNUR), com estatísticas de mais de 150 países. O documento ressalta que o número de refugiados aumentou de 9,9 milhões para 11,4 milhões entre 2006 e 2007, enquanto o número de refugiados internos cresceu em 1,6 milhão no mesmo período. Segundo a agência, o cenário actual apresenta uma série de factores que contribuíram para o aumento no número de refugiados e podem causar ainda mais deslocamentos forçados. “Enfrentamos uma combinação global de desafios que ameaçam causar ainda mais deslocamentos no futuro”, afirmou em Londres o Comissário da ACNUR, António Guterres, no lançamento das comemorações do Dia do Refugiado, celebrado em 20 de Junho.

“[Os desafios] são diversos: emergências relacionadas com novos conflitos em algumas áreas, má governação, degradação ambiental relacionada com o clima que provoca um aumento na competição por recursos escassos e o aumento dos preços, que atingiu os mais pobres de maneira mais forte e que está a gerar instabilidade em diversos locais”, disse Guterres. in Folha On-line da BBC, 17/06/2008

António Guterres Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados

Refugiados no Darfur, Sudão

133


134

unidade 4

O DOBRO Quando um país vencia o outro país, tornava-se duas vezes maior e ficava duas vezes mais cansado. E duas vezes mais destruído. Quando um país vencia o outro país, tinha duas vezes mais mortos e feridos e duas vezes mais estômagos vazios. Quando um país vencia o outro país, tornava-se duas vezes maior e ficava duas vezes mais cansado. Theo Olthuis. Het geluit van vrede – A Guerra em histórias e poemas

O triunfo dos mortos, por Peter Brueghel

As guerras são conflitos que surgem habitualmente por causa do desejo de poder e pela falta de diálogo entre os governantes das nações; provocam grande sofrimento, não só aos que nela participam directamente, como também às vítimas civis. São uma das principais causas da existência de refugiados. Pela guerra, o ser humano desencadeia de forma cruel a morte, o sofrimento físico, as doenças, as deslocações de pessoas, a destruição e a perda de bens. É este o resultado da prepotência humana!


unidade 4

A CRUELDADE DAS GUERRAS

135

PARA SABERES MAIS

Apesar dos gravíssimos prejuízos, quer materiais quer morais, que as últimas guerras causaram ao nosso mundo, a guerra continua ainda diariamente as suas devastações nalguns pontos da Terra. Além disso, empregando na guerra armas científicas de toda a espécie, a sua natureza cruel ameaça levar os combates a uma tal desumanidade que ultrapassa em muito a dos tempos passados. Concílio Vaticano II. Gaudium et Spes, 79

Mas o mal no mundo também se manifesta de muitas outras maneiras. Apesar da produção de bens ser suficiente para todos os seres humanos, existe muita fome e pobreza no mundo. Verifica-se uma desigual distribuição de riquezas, que coloca em contraste pessoas muito ricas, que possuem bens em excesso, com pessoas muito pobres, que não têm o indispensável para a sua sobrevivência. Estas desigualdades sociais levam a que muitas pessoas não consigam ter acesso à habitação, à educação, à saúde e à alimentação, e põem em causa a dignidade humana, pois todos os seres humanos têm direito a condições essenciais de vida. A pobreza é uma manifestação grave do mal, provocado pelo egoísmo da própria humanidade.

Um Concílio Ecuménico é uma reunião de todos os bispos do mundo com o Papa para reflectirem sobre assuntos importantes para a Igreja Católica. O último que se realizou (1962-1965) teve lugar no Vaticano (Roma) e, como já tinha havido outro no mesmo local, chamou-se Vaticano II.

PARA SABERES MAIS A pobreza e a subnutrição desencadeiam doenças que, em situações graves, podem conduzir à morte.


136

unidade 4

AS CONSEQUÊNCIAS DA FOME Hoje ninguém pode ignorar que, em continentes inteiros, são inumeráveis os homens e as mulheres torturados pela fome, inumeráveis as crianças subalimentadas, a ponto de morrer uma grande parte delas em tenra idade, e o crescimento físico e o desenvolvimento mental de muitas outras correrem perigo. E todos sabem que regiões inteiras estão, por este mesmo facto, condenadas ao mais triste desânimo. Papa Paulo VI. Populorum Progressio, 45

Muitas situações de sofrimento estão relacionadas com sentimentos e atitudes que fazem parte da condição humana, mas que cada um é chamado a superar. Assim, muitas pessoas já fizeram a experiência de sentir vontade de reagir com violência, física ou verbal, a certas situações e quando o fazem é porque se deixaram dominar por sentimentos negativos e errados. O ser humano manifesta, em algumas circunstâncias, tendência para o egoísmo, para centrar tudo nos seus interesses, esquecendo os interesses dos outros; a mentira, a maledicência, a ganância, a avareza ou a injustiça são manifestações dessa tendência egoísta do ser humano. Estas são as raízes do conflito e da violência entre as pessoas e os povos. Lutar contra o mal no mundo é, antes de mais, aprender a dominar estes impulsos e atitudes. Seremos tanto mais livres, quanto mais nos conseguirmos libertar de tudo o que nos faz menos humanos: o ódio, a ganância, a ira, a vontade de poder, o egoísmo...

PARA SABERES MAIS Paulo VI nasceu em 1897, em Concessio (Itália). Foi Papa de 21 de Junho de 1963 a 6 de Agosto de 1978. Escreveu muitos documentos importantes para a vida da Igreja Católica e foi o primeiro Papa a viajar pelo mundo. Esteve em Portugal (Fátima), no dia 13 de Maio de 1967.


unidade 4

A ruptura com o ambiente As catástrofes naturais também são causa de sofrimento e de deslocação de pessoas em todo o mundo. Os tornados e furacões, as inundações, os maremotos, e os terramotos são exemplos de catástrofes naturais. Estes acontecimentos são assim chamados porque têm causas naturais, são consequência do funcionamento próprio da natureza e não dependem directamente da acção humana. Às vezes, porém, são originados pelo mau uso que os seres humanos fazem dos recursos naturais. Algumas secas e cheias, por exemplo, sendo desastres da natureza, na verdade acontecem por influência do comportamento humano sobre o ambiente.

137


138

unidade 4

VOCABULÁRIO • Ecossistema: Sistema que inclui os seres vivos e o ambiente, com as suas características físico-químicas e as relações entre ambos. • Economia: Ciência que estuda os fenómenos relacionados com a produção, distribuição e utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar.

O egoísmo, a ganância ou mesmo a simples necessidade levam os seres humanos a explorar indevidamente os recursos da natureza. Quando acções humanas causam alterações prejudiciais à harmonia da natureza, surgem consequências ambientais negativas. Sempre que a actuação das pessoas não respeita os ritmos naturais, mais cedo ou mais tarde, a reacção acontece. As alterações introduzidas provocam desequilíbrios dos ecossistemas, contribuindo para que ocorram catástrofes ambientais de grande dimensão. As secas, as inundações, o aquecimento global, o degelo dos pólos, a poluição dos solos, a desflorestação e outros fenómenos ameaçam grandemente a vida da humanidade: são causas directas da escassez de alimentos, do aparecimento de doenças e de graves problemas na economia mundial.

CONSULTA NA BÍBLIA Lv 19, 18; Sir 16, 17; 17, 19-24 Mt 5, 43-47

Degelo de glaciares do Ártico, causado pelo aquecimento global

Quando observamos o mal que existe, podemos assumir uma de duas atitudes. Ou ficamos esmagados pela tristeza e pessimismo, o que nos torna incapazes de agir, ou assumimos a tarefa de contribuir para alterar as condições negativas do mundo em que vivemos. Estar aberto à realidade, conhecer o mundo tal como ele é, sem esconder os problemas, é o único caminho que nos pode levar a melhorá-lo.


unidade 4

O Perdão de Jacob, por autor anónimo

PROMOVER A CONCÓRDIA O texto bíblico que se segue pertence ao Antigo Testamento e faz parte de um livro conhecido como Livro de Ben Sira. Em 50, 27, o autor apresenta-se: “Fui eu, Jesus Ben Sira, neto de Eleazar, de Jerusalém, que escrevi este livro cheio de palavras de sabedoria e instrução a fim de ensinar as pessoas”. Ben significa filho em hebraico. O autor chamava-se, portanto, Jesus e o nome do seu pai era Sira. Não se trata, evidentemente, de Jesus Cristo, mas de um homem com o mesmo nome que viveu quase duzentos anos antes. De entre os Livros Sapienciais, é considerado o mais rico em ensinamentos práticos. Os seus ensinamentos são apresentados de modo paternal e convincente, pretendendo mover os seus leitores à prática do bem e à rejeição do mal. Ben Sira chama a atenção para a importância de se ser fiel, mesmo nas dificuldades, e para a necessidade de se confiar em Deus. Refere, ainda, a importância da prudência das palavras e da influência que elas exercem sobre os outros, da verdadeira amizade, da correcção fraterna, da compaixão para com os pobres, da hospitalidade e da distribuição dos bens. Ben Sira alerta também para o perigo da ambição desmedida, das aparências, das discórdias e da maledicência.

139


140

Sir

unidade 4

O PERDÃO 2

erdoa a injustiça que o teu amigo fez contra ti, e assim, quando orares, Deus perdoará os teus pecados. 3 Se tu guardares mágoa de alguém, como é que vais pedir a Deus que te perdoe? 4 Se alguém não tem pena dos outros, como é que vai orar pedindo o perdão dos seus próprios pecados? 5 Se tu, uma criatura mortal, guardas o ódio contra alguém, como é que os pecados que tu praticaste poderão ser perdoados?

Lembra-te de que um dia vais morrer e o teu corpo vai apodrecer; portanto, pára de odiar e obedece aos mandamentos de Deus. 7 Lembra-te dos mandamentos e não guardes ódio contra o teu amigo; lembra-te da aliança do Deus Altíssimo e perdoa os erros dos outros. 6

Sir 28, 2-7

O texto menciona o perigo que existe em cultivar o espírito de vingança ou de ódio. Revela assim uma atitude de enorme sabedoria, pois a vingança provoca novos males e injustiças. Alerta-nos para o facto de que todos têm necessidade da misericórdia de Deus. Esta consciência deve levar as pessoas a serem benévolas e a estarem dispostas a perdoar os outros, não guardando qualquer rancor.


unidade 4

141

Mateus foi apóstolo de Jesus. No evangelho que escreveu, narra os ensinamentos de Jesus sobre a vontade de Deus, as suas acções e atitudes, o seu destino. O apóstolo conta-nos que, a certa altura, Pedro, também apóstolo, perguntou a Jesus quantas vezes se devia perdoar. Os doutores da lei costumavam discutir sobre este assunto. Questionavam-se e argumentavam sobre o número de vezes que uma pessoa tinha de perdoar. Alguns defendiam que um homem devia perdoar ao seu irmão até três vezes. Esta tradição vinha do Antigo Testamento. Pedro adianta, em jeito de questão, a possibilidade de perdoar até sete vezes. Pensava, com certeza, ter dado um grande passo em generosidade, ultrapassando em bondade os mestres judeus.

Jesus e Pedro, por James Tissot Mt

O HOMEM QUE NÃO SABIA PERDOAR 21

edro aproximou-se de Jesus e fez-lhe esta pergunta: ‹‹Senhor, quantas vezes devo perdoar ao meu irmão, se ele continuar a ofender-me? Até sete vezes?›› 22 Jesus respondeu: ‹‹Não até sete, mas até setenta vezes sete! 23 “Por isso, o Reino dos céus pode comparar-se a um rei que decidiu arrumar as contas com os seus administradores. 24 Quando começou a conferir as dívidas, trouxeram-lhe um que lhe devia uma soma muito elevada de dinheiro. 25Como esse administrador não tinha aquela quantia, o rei deu ordens para que ele, a mulher e os filhos, e tudo quanto tinha, fossem vendidos para pagar a dívida. 26O tal homem pôs-se então de joelhos diante do rei a pedir: “Tem paciência comigo que eu pagarei tudo.” 27O rei teve tanta pena dele que lhe perdoou a dívida e o deixou ir em liberdade.

Mas quando este mesmo homem ia a sair, encontrou um colega que lhe devia uma pequena soma de dinheiro. Deitou-lhe as mãos ao pescoço, começou a afogá-lo e dizia: “Paga-me o que me deves!” 29 O companheiro lançou-se-lhe aos pés e suplicou: “Tem paciência comigo, que eu pagarei tudo.” 30Mas o outro não quis esperar. Pelo contrário, mandou meter o companheiro na cadeia até pagar a dívida. 31 Quando os outros colegas viram o que se tinha passado, ficaram muito tristes e foram contar tudo ao rei. 32Então o rei mandou chamar esse administrador e disse-lhe: “Seu malvado! Eu perdoei-te a dívida toda, porque mo pediste. 33Não devias tu ter pena do teu companheiro como eu tive pena de ti?” E ficou tão zangado com ele que o meteu na prisão para ser castigado até pagar tudo quanto devia. 35 Assim também vos há-de tratar o meu Pai do céu, se cada um de vocês não perdoar de boa mente ao seu irmão.›› 28

Mt 18, 21-35


142

unidade 4

Mt

O HOMEM QUE NÃO SABIA PERDOAR (No palácio do rei) Rei: Vou arrumar as contas com os meus administradores. Que entre o tesoureiro! (Para o tesoureiro:) Diz-me quem são os administradores dos meus bens que têm dívidas para comigo. Tesoureiro: Majestade, tenho aqui alguns, mas o Malaquias é o que te deve mais. A soma é tão grande que muito dificilmente vai conseguir pagar tudo o que te deve. Rei: Chamem-no e tragam-no à minha presença. (Entra o Malaquias) Rei: Malaquias, sei que tens uma dívida para comigo muitíssimo elevada. Como pensas pagar-ma? Malaquias: Senhor, agora não tenho como, mas se esperares mais uns dois meses, hei-de conseguir pagar tudo. Rei: Malaquias, já esperei tempo suficiente. Há vários anos que me vais pedindo dinheiro e nunca amortizaste nada. Como vais conseguir, em dois meses, pagar-me uma tão grande soma? (Para o ministro:) Vendam-no como escravo, bem como a sua mulher, os seus filhos e tudo quanto tem. Malaquias: (Ajoelha-se e começa a soluçar:) Senhor, imploro-te por amor de Deus misericordioso, tem piedade dos meus filhos e da minha mulher; tem piedade de mim também. Tem paciência que eu pagarei tudo o que te devo.


unidade 4

Rei: Malaquias, tu nunca hás-de ter dinheiro para me pagar esta dívida, mas o meu coração deixou-se levar pela compaixão, por isso, vai em paz. Nada me deves a partir de agora. És um homem livre. Malaquias: Obrigado, Senhor, não sei como te agradecer. (Sai) (Na rua. José aproxima-se de Malaquias) José: Olá Malaquias, como estás? A tua cara transparece felicidade. O que te aconteceu? Malaquias: Nada tens a ver com isso! Paga-me imediatamente o que me deves. Preciso do dinheiro que te emprestei para refazer a minha vida. José: Malaquias, meu amigo, neste momento não tenho com que te pagar. Mas se puderes esperar uns dias, já terei dinheiro disponível para te dar o que te pertence, afinal a soma é tão pequena.

(No palácio do rei) Rei: Então o que vos traz aqui? Conselheiros do rei: Senhor, o Malaquias, assim que saiu do palácio, encontrou um homem que lhe devia pouquíssimo dinheiro. Mandou-o para a prisão e não teve o mínimo de compaixão por ele. Rei: Ah, homem malvado. Tragam-no imediatamente à minha presença. (Trazem Malaquias e o rei dirige-se a ele:) Homem sem coração; perdoei-te a tua enorme dívida, não devias ter tido compaixão do pobre José que te devia tão pouco? Não te mostraste digno da minha misericórdia. (Para o soldado:) Leva-o para a prisão. Não sairá de lá enquanto não me pagar tudo quanto me deve, pois nunca aprendeu o que é o perdão. Cf. Mt 18, 21-35

Malaquias: (Atira-se ao pescoço de José) Meu grande patife, deves-me este dinheiro há um longo mês e não me queres pagar já? Achas que foi pouco tempo? A minha paciência esgotou-se. (Para um soldado que chega:) Leva este homem e coloca-o na cadeia até que ele me pague o que me deve. (O soldado sai com o prisioneiro)

O número sete não aparece neste texto por acaso. Sete é um número simbólico, que corresponde aos sete dias da semana, às sete cores do arco-íris e que simboliza a perfeição, a plenitude. O número sete é frequentemente utilizado na Bíblia (cerca de 390 vezes). Através dos exemplos seguintes podemos ficar com a ideia da importância de que este número se reveste na Bíblia: o rei Salomão construiu o templo em sete anos; no sétimo ano de escravatura, os escravos hebreus deviam ser libertos; na conquista de Jericó, sete sacerdotes com sete trombetas deram, no sétimo dia, sete voltas à cidade; o profeta Eliseu reza diante de um menino que morrera, mas que espirra sete vezes e volta a viver. O número setenta é um múltiplo de sete e, por isso, implica também a ideia de totalidade.

CONSULTA NA BÍBLIA 1 Rs 6, 38 Ex 21, 2 Js 6, 1-5 2 Rs 4, 35

143


144

unidade 4

Jerusalém, por James Tissot

CONSULTA NA BÍBLIA Gn 4, 23s

Jesus respondeu a Pedro de um modo inesperado e surpreendente: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Esta expressão não significa 490 vezes, como pode parecer, se a tomarmos à letra. O que Jesus quis dizer é que devemos perdoar sempre, infinitamente. Para Jesus não há limites para a bondade. Os seus ouvintes compreenderam o que ele queria dizer, porque conheciam o significado simbólico do número sete. Compreenderam que Jesus lhes estava a responder à questão de uma forma absolutamente nova em relação àquilo que os doutores da lei defendiam e mesmo em relação à proposta de Pedro. No fundo, Pedro estava a usar o número sete no seu sentido numérico: à oitava vez, a pessoa já não seria obrigada a perdoar. Para Jesus, perdoar 70×7 significa perdoar sempre! Esta passagem faz-nos lembrar um excerto do livro de Génesis em que um homem chamado Lamec considerava que cada ofensa que lhe faziam devia ser vingada “setenta vezes sete”. Jesus utilizou a mesma expressão usada no livro do Génesis, mas em relação ao perdão e não à vingança. Fazendo esta contraposição, Jesus quis ensinar que, ao desejo de vingança, devemos responder com o perdão fraterno. A mensagem de Jesus é um apelo a que reconheçamos os nossos erros e peçamos perdão a quem ofendemos, mas chama principalmente a atenção para a necessidade de estarmos disponíveis para perdoar aos outros. E, quando perdoamos e somos perdoados, voltamos a construir a unidade que existia anteriormente. Perdoar é uma atitude sábia, pois restaura a união que é necessária à nossa felicidade.

«Se um homem mau te ofende, perdoa-lhe, para que não haja dois homens maus.» Santo Agostinho


unidade 4

145

Papa João Paulo II com Ali Agca, que o tentou assassinar

PARA SABERES MAIS No dia 13 de Maio de 1981, o Papa João Paulo II foi atingido a tiro por Mehmet Ali Agca, na Praça de S. Pedro, em Roma. Foi um atentado contra a vida do Papa, que ficou gravemente ferido. João Paulo II mostrou-se benévolo para com o seu agressor e transmitiu-lhe o seu perdão pessoalmente, visitando-o na cadeia.

O perdão promove a concórdia Os seres humanos perceberam, desde sempre, como é importante estabelecer a concórdia e a paz. Depois dos conflitos, que trazem incessantes sofrimentos, impõe-se a procura de acordos que garantam aos homens e às nações a segurança e o bem-estar. Por vezes, as pessoas restabelecem naturalmente a paz entre si; em outras circunstâncias, quando os conflitos são muito acesos, só conseguem restabelecê-la através de acordos, alcançados com a mediação de outras pessoas. Para os cristãos, a paz é um dom de Deus para cuja construção temos de contribuir com o nosso esforço. Fala-se, por isso, da paz de Cristo, um gesto simbólico que é utilizado na liturgia para exprimir a nossa vontade de estar bem com os outros, como Cristo nos ensinou. Desejar aos outros a paz de Cristo é uma saudação cristã utilizada desde o princípio do Cristianismo. Significa querer para todos a reconciliação com Deus e com os seres humanos.

PARA SABERES MAIS Shalom, em hebraico, significa Paz. Com esta saudação deseja-se aos outros todo o género de felicidade. No Antigo Testamento, é relativa, sobretudo, à felicidade material. No Novo Testamento, é a plenitude da felicidade no reino de Deus.


146

unidade 4

A concórdia, mais do que uma manifestação exterior, é uma realidade que envolve a pessoa toda, incluindo o seu íntimo. Para estarmos em paz, necessitamos, porém, de estar bem com os outros, de nos reconciliarmos. Mas a concórdia só se alcança quando cada um é capaz de reconhecer os seus próprios erros, ou seja, é capaz de reconhecer que também, por vezes, age mal em relação aos outros. Só assim ficará disponível para pedir perdão àqueles a quem ofendeu ou tratou mal, numa atitude de humildade e de correcção dos próprios erros. E quem reconhece que errou, também está disposto a aceitar os erros dos outros e a perdoá-los sempre que for vítima de atitudes incorrectas. Ser capaz de pedir perdão e perdoar são duas perspectivas da mesma realidade. Se não se está disponível para perdoar, também não será possível esperar que os outros estejam disponíveis para conceder o perdão e estabelecer relações de concórdia connosco. No entanto, muitas vezes, não podemos ficar só pelo perdão verbal. Se o comportamento de alguém prejudica outra pessoa, pedir perdão implica também estar disposto a reparar o mal que se infligiu. Por exemplo, se lancei um boato acerca de alguém, difamando essa pessoa, pedir perdão não chega para restabelecer a concórdia, é preciso ser capaz de desmentir o que disse, às pessoas a quem foi divulgado o boato, para que o bom nome da pessoa difamada possa ser restabelecido. Promover a concórdia é tão importante que sem essa atitude fundamental não estaremos bem connosco próprios nem com os outros com quem nos relacionamos diariamente. Afinal, se todos temos atitudes menos correctas uma vez ou outra, temos de estar dispostos a aceitar-nos e a aceitar os outros com as suas imperfeições.


Sir

unidade 4

os que se arrependem, Deus concede-lhes a conversão, conforta os que perderam a esperança. Sir 17, 24

Não deixes sem amor o coração! Porque o amor é simples, Vale a pena colhê-lo. Nasce em qualquer degredo, Cria-se em qualquer chão. Anda, não tenhas medo! Não deixes sem amor o coração! Miguel Torga. Diário (Espinho, 25 de Novembro de 1945)

PARA SABERES MAIS Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nasceu em Trás-os-Montes (S. Martinho de Anta), em 1907, e faleceu em Coimbra, em 1995. Foi médico, mas também um grande poeta e escritor.

147


148

unidade 4

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

DISCIPLINAS

PROPOSTAS DE ACTIVIDADES

LÍNGUA PORTUGUESA

• Leitura e exploração de diversos textos (histórias, lendas, contos, cantigas, poesia) relacionados com o mal, a fome, a violência e ainda com o bem, a justiça, a igualdade, o perdão e a concórdia. • Construção de textos de banda desenhada, teatro e cartazes. • Dramatização do “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, adaptado para crianças.

CIÊNCIAS DA NATUREZA

• Pesquisa sobre as consequências da fome na saúde do indivíduo. • Investigação sobre o desequilíbrio da natureza provocado pelo ser humano enquanto agente no sistema. • Estudo dos problemas ligados à poluição. • Organização de uma campanha de separação de lixo.

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PORTUGAL

• Estudo de textos de época ligados à violência, guerra e catástrofes. • Pesquisa de tratados assinados com vista ao restabelecimento da concórdia entre os povos.

MATEMÁTICA

• Análise e interpretação de dados estatísticos em gráficos ou tabelas sobre refugiados em diversos países do mundo, vítimas de catástrofes, etc.

EDUCAÇÃO VISUAL E TECNOLÓGICA

• Ilustração dos textos tratados na disciplina de Língua Portuguesa ou das canções referidas em Educação Musical. • Criação de cartazes e produção de banda desenhada.

EDUCAÇÃO MUSICAL

• Análise de cantigas tradicionais que refiram a concórdia ou a reconciliação. • Criação de uma canção relacionada com a concórdia para apresentação à comunidade escolar.


unidade 4

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE: • Identificar, à luz da consciência moral, as situações negativas da vida individual e colectiva. • Reconhecer que muitas das realidades negativas têm a sua origem no mal que nós fazemos, ou no bem que deixamos de fazer. • Construir o bem no mundo e na vida das pessoas. • Tratar os outros como gosto que me tratem a mim. • Conviver com os outros, sabendo que todos têm valor e merecem respeito, aceitando cada um como é. • Reconhecer que Deus quer o nosso bem e que seremos mais felizes se nos entregarmos à sua vontade amorosa. • Reconhecer que cometo erros e dispor-me a pedir perdão às pessoas a quem ofendo. • Esforçar-me por perdoar àqueles que me ofendem. • Apreciar as atitudes e comportamentos que foram realizados ao longo dos tempos, com o objectivo de vencer o mal.

149



UNIDADE LECTIVA

5

A Fraternidade


152

unidade 5

O PASSADO COMUM DA HUMANIDADE VOCABULÁRIO • Paleontólogo: Cientista que investiga e trabalha em Paleontologia. • Paleontologia: Ciência que estuda as formas de vida existentes em períodos geológicos passados, a partir dos seus fósseis. • Homo sapiens sapiens: é uma expressão latina, que significa “Homem (muito) inteligente” e que domina os conhecimentos.

Os paleontólogos pensam que a evolução do ser humano atingiu o seu estado actual quando apareceu o Homo sapiens sapiens. Desde então, o homem apresenta características físicas semelhantes aos seres humanos actuais. O Homo sapiens sapiens surgiu há cerca de 200 mil anos; contudo, começou a migrar somente há 45 mil anos, ocupando áreas do planeta que ainda não eram habitadas. Terá partido de África e povoado a Ásia e a Europa, num processo que demorou milhares de anos como se pode observar no mapa seguinte.

Expansão do Homem Moderno


unidade 5

153

Se atendermos à nossa origem comum, somos todos iguais: temos os mesmos antepassados e partilhamos características físicas e psicológicas semelhantes. Todos, sem excepção, europeus, africanos, asiáticos..., pertencemos ao grupo do Homo sapiens sapiens.

Organização em grupo O Homo sapiens sapiens permanece desde o período da última glaciação. A sua superioridade técnica e o esforço colectivo permitiram-lhe superar as condições adversas pelas quais passou. Já se organizava em pequenos grupos e cooperava, partilhando tarefas e transmitindo ensinamentos. Desde logo, a humanidade manifestou inteligência e capacidade para agir sobre a natureza. A sua subsistência assentava na recolecção das espécies que a própria natureza lhe oferecia. Dedicava a sua vida à pesca, à caça, e a outras actividades colectivas, dirigidas por chefes, a quem reconhecia autoridade. Procurava nos territórios que ia habitar as melhores condições no que se refere aos abrigos, à água, à vegetação e à caça. As relações que se estabeleciam entre os elementos dos diferentes grupos, fortaleceram laços sociais. O Homo sapiens sapiens comunicava entre si. Sabemos que terá utilizado a linguagem oral para combinar sons para designar coisas ou acções. Esta capacidade foi muito importante para a sua organização e vivência comunitária. Os caçadores conheciam bem o perigo da sua actividade e sabiam que a sua sobrevivência não dependia apenas da abundância do alimento, mas também da solidariedade do grupo a que pertenciam.

[Imagem animada com uma comunidade no seu dia-a-dia]

Pintura rupestre sobre vida comunitária em Wadi Teshuinat, Líbia

VOCABULÁRIO Recolecção: Actividade económica que assenta na caça, na pesca e na recolha de vegetais.


154

unidade 5

VOCABULÁRIO Arte rupestre: é a designação que se dá às mais antigas figuras conhecidas, da Pré-história, gravadas em abrigos ou cavernas, ou ainda em superfícies rochosas ao ar livre.

A espiritualidade O Homo sapiens sapiens procurava atrair a protecção de forças sagradas, praticando, com esse objectivo, diversos ritos. Ficaram-nos vestígios na arte, sobretudo pinturas, quer em grutas quer ao ar livre, e esculturas, que nos revelam a dimensão da sua espiritualidade. É a denominada arte rupestre. O aparecimento das primeiras obras de arte parece estar relacionado com a manifestação de sentimentos religiosos.

PARA SABERES MAIS A arte rupestre representa sobretudo animais e, raramente, figuras humanas. Estas manifestam movimento e um extraordinário naturalismo. Os seus vestígios surgem nas paredes de muitas cavernas. Em Portugal, no vale do Côa, existem representações em rochas ao ar livre. Os historiadores consideram que estes lugares eram santuários.

Figuras Rupestres de Vila Nova de Foz Côa

Menires megalíticos, na Bretanha

As descobertas das primeiras sepulturas revelam-nos o respeito que os primeiros homens tinham pelo seu semelhante. Existem vestígios dos ritos funerários. Os corpos eram enterrados em sepulturas preparadas para esse efeito. Apesar de serem nómadas, não abandonavam os seus mortos, adornando as sepulturas com símbolos que representavam e lembravam a sua vida, nomeadamente conchas e objectos de marfim. Estes gestos revelam-nos o amor que tinham para com o seu semelhante, sentindo necessidade de deixar junto do seu corpo sinais que os ligariam para sempre e lembrariam a vida que tinham passado juntos.


unidade 5

OS GRUPOS A QUE PERTENCEMOS

Também hoje organizamos a nossa vida em função dos grupos e das estruturas sociais em que nos inserimos. Sabemos, evidentemente, que fazemos parte de um determinado grupo ou vários grupos. O que é um grupo? Podemos chamar grupo a um conjunto de pessoas a caminhar na mesma rua? Podemos chamar grupo a um conjunto de rapazes e raparigas que estejam na mesma escola e na mesma sala, com o mesmo horário e professores? Os grupos de que falamos aqui são conjuntos de pessoas que, além de terem um objectivo em comum, se juntam à volta desse mesmo objectivo, estabelecendo entre si relações mais ou menos duradouras. Assim, o conjunto de rapazes e raparigas a que acima nos referíamos chama-se turma: um grupo de alunos, ou seja, um grupo de rapazes e raparigas, cujo objectivo é aprender, cujos elementos se vão conhecendo cada vez melhor, podendo até tornar-se amigos. Já pensaste nos vários tipos de grupos que existem? Em todos os espaços onde vives, há grupos que te rodeiam e alguns em que estás integrado. Na tua escola, que grupos existem? Existem, com certeza, as turmas, o grupo dos funcionários, o grupo dos alunos, o grupo dos professores… Existem, talvez, o clube das artes ou o clube da matemática, o grupo do jornal da escola, o grupo do teatro, o grupo dos amigos da biblioteca… Provavelmente existem os grupos ligados ao desporto escolar (o clube do basquetebol, a equipa de futebol)… No âmbito das várias disciplinas, também se realizam trabalhos em grupo, mas esses grupos mudam constantemente, conforme as disciplinas e os objectivos. São grupos dos quais não fazes parte de modo permanente, mas simplesmente ocasional.

155


156

unidade 5

E fora da escola? A família, a catequese, os escuteiros, o grupo de jovens, os amigos, o grupo do ballet, o clube da viola, a equipa de futebol, os praticantes de natação… em todos os momentos e espaços da nossa vida há grupos variados. Como vês, tu próprio fazes parte de vários grupos ao mesmo tempo.

Orquestra filarmónica de Bremen, Alemanha

O ser humano precisa de se relacionar com os outros. Cada um de nós precisa de conviver e ter companhia. É difícil imaginarmos a nossa vida sem ninguém à nossa volta a quem dizer “Olá”, com quem jogar à bola ou até embirrar. Precisamos sempre dos outros. Por isso, é natural que nos juntemos por grupos, de acordo com os nossos gostos e valores. Há grupos que não escolhemos, como a família ou a turma; mas há outros que somos nós que escolhemos. Só faremos parte do clube do basquetebol, por exemplo, se gostarmos de praticar esse desporto (e se gostarmos das pessoas que o constituem). Os grupos a que pertencemos são importantes para nós, mas serão tanto mais importantes quanto mais se regerem por valores autênticos e quanto mais contribuírem para o nosso crescimento como pessoas. Por isso, é essencial saber escolher os grupos que nos ajudam realmente a crescer e a encontrar diferentes formas de promover o bem dos outros. Infelizmente, há grupos que se dedicam a objectivos desumanos (grupos racistas, grupos que provocam desacatos e violência sobre os outros...). A vida em grupo é fundamental para cada um de nós. Temos vantagens em fazer parte do grupo: o esforço e o trabalho de muitos obtêm melhores resultados que o esforço e o trabalho de um só. Por muito bons que sejamos em determinada área ou matéria, há sempre quem seja melhor que nós em outras áreas ou matérias. Em grupo, podemos enriquecer-nos mutuamente, porque cada um ajuda o outro naquilo de que ele mais precisa.


unidade 5

157

Para o bom funcionamento do grupo, é preciso que cada elemento seja transparente, verdadeiro, sem fingir ou inventar nada a seu respeito. Também não existe grupo nenhum que funcione bem se cada uma das pessoas que dele fazem parte não for aceite tal como é. Tu tens o direito de ser aceite pelos outros tal como és, da mesma forma que os deves aceitar como eles são. Isso não significa que não tenhamos de caminhar em grupo no sentido de sermos cada vez melhores. Se a minha teimosia impede o grupo de avançar, é bom que deixe de ser tão teimoso. Cada grupo tem o seu ritmo de funcionamento. Se fazes parte de um grupo de escuteiros ou de um grupo de jovens, ou ainda de uma equipa de futebol, tens as tuas actividades próprias e, por isso, é preciso tempo para poderes participar nas actividades do teu grupo. Se não estás presente, os outros sentem a tua falta e podes mesmo comprometer a realização de alguma actividade. Cada elemento é peça fundamental e, por isso, tu fazes falta no grupo! Isso deve levar-te a assumir responsabilidades e a estares pronto a ajudar os outros, sempre na fidelidade aos objectivos do grupo. Os grupos de que fazes parte ajudam-te a crescer e, neles, tu contribuis também para o crescimento dos outros. Através da relação com eles, vamos ficando mais ricos como pessoas, porque aprendemos com a sua maneira de ser e com as suas características. Só crescemos verdadeiramente na companhia dos nossos semelhantes. A vida em grupo e em associações é tão natural e importante para as pessoas se realizarem, ajudando-as a serem mais pessoas, que a Constituição da República Portuguesa define e defende esse direito de cidadania, salvaguardando no entanto que essas associações não se destinem à promoção da violência.

ARTIGO 46º (Liberdade de associação) 1. Os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização, constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respectivos fins não sejam contrários à lei penal. Constituição da República Portuguesa Intervenção da Cruz Vermelha num campo de refugiados


158

unidade 5

IGUALDADE ENTRE AS PESSOAS

Escravos romanos a lutar, por autor anónimo

Será fácil vivermos com os outros? Uns pensam de uma maneira, outros pensam de outra, alguns querem tudo em função dos próprios interesses… Depois, olhamos à volta e achamo-nos tão diferentes! Se prestarmos atenção, percebemos que são mais as coisas que nos aproximam e que nos unem do que aquelas que nos separam. Vale a pena pensarmos nisso para compreendermos cada vez melhor o nosso lugar no mundo. Em todas as épocas, existiram pessoas que se comprometeram com a defesa da igualdade entre os seres humanos. Séneca, um filósofo romano do séc. I d.C., reflectiu sobre a igual condição humana e deixou escritos que testemunham, num período em que a escravatura era assumida por muitos com naturalidade, a sua convicção de que todos somos iguais, seja na forma como nascemos, seja no modo como partilhamos a terra e como um dia acabamos por morrer.


unidade 5

159

São também homens! São escravos, dizes. Mas são também homens! Escravos? Eu diria que são amigos de humilde condição. Lembra-te de que o ser a quem chamas escravo nasceu do mesmo modo que tu, vive debaixo do mesmo céu, respira, vive e morre como tu. Um dia, quem sabe, ele poderá ser livre e tu escravo. Trata os teus subordinados como gostarias que os teus superiores te tratassem a ti. Séneca. Cartas a Lucílio

Porque somos inteligentes, livres e capazes de amar, nós ocupamos um lugar único na Terra. Isto é verdade para todos os seres humanos. Temos diferenças na cor de pele, nas feições, ou no cabelo, temos línguas e culturas diferentes, mas somos fundamentalmente iguais: todos nós somos pessoas. E, como já vimos, todos somos originários dos mesmos antepassados humanos.

Dotados de capacidades que só eles têm na Terra, os seres humanos têm por isso um valor muito grande a que se chama dignidade humana: todos merecemos o mesmo respeito. Pobres ou ricos, pequenos ou poderosos, saudáveis ou doentes, crianças ou adultos, temos todos a mesma dignidade.

Busto de Séneca


160

unidade 5

ARTIGO 13.º (Princípio da igualdade) 1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social (...). Constituição da República Portuguesa

O Universo e a Terra são a nossa Casa

Paisagem em Pont-Aven, por Gauguin

VOCABULÁRIO Fraternidade: Laço de parentesco entre irmãos. A fraternidade é o sentimento que une os membros de uma mesma irmandade. Esta designa ainda a união, o afecto de irmão para irmão, o amor ao próximo. Do latim frater, isto é, irmão.

Já vimos que somos iguais porque temos os mesmos antepassados, porque temos a mesma dignidade e valor e porque todos, sem excepção, precisamos dos outros para viver felizes. Mas ainda há mais razões para sermos fraternos com os outros. De facto, moramos todos na mesma casa. O Universo e o Planeta Terra são a nossa casa comum. Deus deu-nos o dom da vida e tudo o que existe no Planeta para sermos felizes. A natureza é um bem da criação que está disponível para todos os seres humanos. Da terra recebemos os alimentos. Nela crescem os animais, no mar e nos rios, o peixe. Todos somos responsáveis pela natureza e a nossa fraternidade deve estender-se também ao Planeta. A nossa acção sobre a natureza e o ambiente determina o futuro do ecossistema. Habitar a Terra implica que cada pessoa seja corresponsável pelo seu futuro.


unidade 5

Todas as pessoas têm talentos, potencialidades e aptidões que, colocados ao serviço dos outros, na promoção do seu desenvolvimento e da preservação harmoniosa do Planeta, promovem o desenvolvimento económico, social, cultural e espiritual da humanidade.

Dever de solidariedade Se é normal que uma população seja a primeira a beneficiar dos dons que a Providência lhe concedeu como fruto do seu trabalho, é também certo que nenhum povo tem o direito de reservar as suas riquezas para seu uso exclusivo. Cada povo deve produzir mais e melhor, para dar aos seus um nível de vida verdadeiramente humano e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento solidário da humanidade. Papa Paulo VI. Populorum Progressio, 48

161


162

unidade 5

A FRATERNIDADE CRISTÃ Para os cristãos, a fraternidade tem ainda outro fundamento importante: toda a vida vem de Deus; ele é a origem de tudo quanto existe e, por isso, somos realmente todos irmãos, porque Deus é o Pai de todos os seres humanos, sem excepção alguma.

ONSULTA C NA BÍBLIA • Ef 4, 6 • Mt 23, 8-10

A Igreja Católica lembra-nos, nos seus documentos, que a igual condição de filhos de Deus nos responsabiliza por todos, sensibilizando-nos para acolher cada irmão desta grande família humana. A minha atitude perante Deus compromete-me, assim, diante do meu próximo. Em cada rosto de um irmão, eu sou chamado a ver o rosto de Deus. Jo Mt e

PAI NOSSO... esus disse aos seus amigos: “Quando rezarem, devem rezar assim: Pai-Nosso, que estás nos céus!” Cf. Mt 6, 9

MEU PAI E VOSSO PAI!

epois de ressuscitar, Jesus disse também: “Vou para junto de meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Cf. Jo 20, 17


unidade 5

Filhos do mesmo Deus Devem ver em todas as pessoas irmãos, filhos do mesmo Deus. Em cada pessoa podem ver o rosto de um irmão ou de uma irmã que Deus põe no vosso caminho, uma pessoa que, ainda que desconhecida, é preciso acolher e ajudar com escuta paciente, sabendo que todos fazemos parte de uma única grande família humana. É essencial que cada um se comprometa a viver a sua própria vida com uma atitude de responsabilidade perante Deus, reconhecendo nele a fonte original da sua existência e da dos demais. Papa Bento XVI. In Agência Ecclesia (11/01/2008)

Papa João Paulo II a receber crianças na Unesco

PARA SABERES MAIS • Bento XVI nasceu na Baviera, uma região da Alemanha, em 1927. Foi eleito Papa da Igreja Católica, a 19 de Abril de 2005. • As cartas que os Papas dirigem a todos os católicos chamam-se encíclicas e a primeira encíclica de Bento XVI, escrita a 25 de Janeiro de 2006, chama-se Deus é Amor.

163


164

unidade 5

Somos, neste mundo, uma grande família e só poderemos ser verdadeiramente felizes, se aprendermos a viver como irmãos, filhos do mesmo Pai.

PAI-NOSSO DA HUMANIDADE Pai Nosso, Pai dos seis mil milhões de pessoas Que povoam a terra inteira, Que estás nos céus, Na nossa família, No nosso país e em todo o mundo, Santificado seja o teu nome, Sobretudo na pessoa dos mais pobres E dos mais abandonados; Venha a nós o teu reino E aos irmãos dos cinco continentes, Sobretudo os que não te conhecem; Seja feita a tua vontade Assim na terra como no céu, Para que todos vivam na justiça, Na paz e no amor, E sigam pelo caminho da verdade; O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, Às vítimas da fome e do ódio, da violência e da guerra, Da miséria e da perseguição, Da exclusão e da injustiça, Do analfabetismo e do abandono, da droga e do álcool, Do desespero e da falta de sentido para a vida; Perdoa-nos as nossas ofensas Assim como nós perdoamos A quem nos tem ofendido, Mesmo a quem nos fez mal, Nos odeia e nos persegue; E não nos deixes cair na tentação De cruzar os braços diante dos problemas, Por egoísmo, por medo ou por cansaço; Mas livra-nos do mal, Sobretudo de esquecer ou ignorar O apelo de amar e servir todas as pessoas. Ámen. Adaptado de Pai-Nosso Missionário


unidade 5

165

A amizade Apesar de sermos todos irmãos, existem situações em que podemos sentir-nos sozinhos e nessas alturas podemos ter dificuldade em compreender os laços que nos unem uns aos outros. É então que precisamos realmente de amigos e que damos valor à amizade.

O PASTOR Pastor, pastorinho, onde vais sozinho?

Não tenho ninguém que me queira bem.

Vou àquela serra buscar uma ovelha.

Não tens um amigo? Deixa-me ir contigo.

Porque vais sozinho, pastor, pastorinho?

Eugénio de Andrade. Aquela Nuvem e Outras

O Pastor, por Hubert Robert

PARA SABERES MAIS O poeta Eugénio de Andrade nasceu no Fundão, em 1923, e faleceu no Porto, em 2005.


166

unidade 5

AMIGO Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra “amigo”. “Amigo” é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, Um coração pronto a pulsar Na nossa mão! “Amigo” (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) “Amigo” é o contrário de inimigo! “Amigo” é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada. “Amigo” é a solidão derrotada! “Amigo” é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, “Amigo” vai ser, é já uma grande festa! Alexandre O’Neill. No Reino da Dinamarca

PARA SABERES MAIS Alexandre O’Neill nasceu em Lisboa, em 1924, e faleceu em 1986.

Os amigos contribuem para descobrirmos como é importante para os seres humanos conviverem, partilharem alegrias e tristezas e ajudarem-se mutuamente. Para vivermos de facto como irmãos, precisamos de nos compreender reciprocamente e de aprender a respeitar o próximo, aceitando a sua diferença.


unidade 5

A amizade transforma as nossas relações com os outros e dá sentido à nossa vida. Ela manifesta-se através de mil e uma coisas pequeninas que se tornam sinais da sua existência, contribuindo também para a fazer crescer. São gestos de afecto, de respeito e preocupação que nos tornam tão importantes para os nossos amigos!

Sir

A amizade leva-nos a sair de nós próprios e a procurar o bem dos outros. No texto bíblico de Ben Sira, que faz parte do Antigo Testamento, podemos compreender um pouco melhor este sentimento tão forte que une os seres humanos.

A AMIZADE

5

ma boa palavra multiplica os amigos, a linguagem afável atrai muitas pessoas amáveis. 6 Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. 7Se queres ter um amigo, escolhe-o depois de o teres provado, não confies nele tão depressa. 8 Com efeito, há amigos de ocasião, que não são fiéis no dia da tribulação. 9Há amigos que se tornam inimigos, que desvendam as tuas fraquezas.

Há amigos que só o são para a mesa e que deixarão de o ser no dia da desgraça; 11na tua prosperidade serão como tu próprio, na tua desventura afastam-se de ti. 1 4 Um amigo fiel é uma poderosa protecção, quem o encontrou, descobriu um tesouro. 15 Nada se pode comparar com um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor. 16Um amigo fiel é um remédio para a vida. 10

Sir 6, 5-11. 14-16

167


168

unidade 5

Este texto revela-nos a essência da amizade. Todos nós já vivemos experiências de amizade e sabemos como é necessário ter amigos. O Livro de Ben Sira, depois de nos avisar acerca dos falsos amigos, compara o verdadeiro amigo a um tesouro. Um amigo é tão precioso que não se pode medir o seu valor e vale a pena ouvir os seus conselhos. Os verdadeiros amigos são fiéis: a fidelidade é uma das maiores qualidades da amizade. Por isso, uma amizade autêntica leva muito tempo a construir, mas vale a pena, pois é das experiências mais importantes que podemos ter na nossa vida.

Crianças à Beira-mar, por Auguste Renoir

Flores no Chapéu, por Francis Mayer


unidade 5

Quando negamos os Irmãos…

Todos nós experimentamos, em algum momento, dificuldades na vivência fraterna, quando não conseguimos ver em todas as pessoas um irmão ou quando viramos as costas aos outros. No entanto, esta é apenas a manifestação de uma dificuldade. Existem pessoas que, marcadas por barreiras mentais (preconceitos) como o racismo, a xenofobia, as ideologias desumanas, que lhes foram incutidas pelo meio em que vivem, acham que os seres humanos não têm todos o mesmo valor ou a mesma dignidade. Julgam as pessoas pelas diferenças e pensam que elas valem mais ou menos conforme a cor da pele que têm ou o país onde nasceram, a formação académica que receberam ou a religião que professam, ou ainda o dinheiro que têm.

169


170

unidade 5

Comunidade cigana

PARA SABERES MAIS ECRI – Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância. Foi instituída pelo Conselho da Europa, fiscaliza o cumprimento dos direitos humanos e é especializada nas questões da luta contra o racismo e a intolerância.

XENOFOBIA NA EUROPA Portugal, 24 de Maio de 2007. No seu relatório de actividades de 2006, publicado hoje em Paris, a ECRI (...) mostrou a sua inquietação com a “intensificação do clima de hostilidade” a muçulmanos e o anti-semitismo “cada vez mais frequente em países da Europa”. (…) A

Comissão lamentou ainda as violações dos direitos humanos sofridas pelos ciganos, que são “vítimas de racismo em toda a Europa” e que a discriminação dos negros esteja “ainda muito presente em inúmeros países europeus”. Para minimizar estes problemas, a estratégia terá de ser “global, colectiva e solidária.” Diário Digital (excerto)

Quando se trata uma pessoa de maneira menos positiva, só porque é negra ou branca, mais rica ou mais pobre, portuguesa ou estrangeira… estamos a discriminar essa pessoa. Normalmente, isso acontece quando existe um preconceito em relação a um determinado grupo , isto é, quando se acredita erradamente que alguém é inferior a nós, ou incapaz de fazer coisas boas porque é de outra terra, porque tem outra cor de pele, porque fala outra língua, professa outra religião, ou tem uma condição social diferente da nossa. Muitas das lutas e guerras da humanidade começaram por causa destes preconceitos que separam as pessoas e as opõem umas às outras. Na história da humanidade, registaram-se vários genocídios, ou seja, destruição de povos inteiros. São exemplos disso o holocausto


unidade 5

171

(tentativa de extermínio dos judeus pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial), assim como os assassinatos em massa cometidos no Ruanda, um pequeno país africano, onde as etnias Tutsi e Hutu se combateram durante mais de vinte anos. Na realidade, nenhuma pessoa é melhor ou pior por pertencer a um determinado grupo. Em todos os grupos humanos há pessoas melhores e piores, mais inteligentes e menos inteligentes, com mais ou menos generosidade, com mais ou menos capacidade de construir um mundo mais fraterno.

PARA TI, HOMEM COM OUTROS HORIZONTES!... Ajuda-nos a apreciar as nossas riquezas: Não penses que somos pobres só porque não temos o que tens tu! Sê paciente com o nosso povo: Não nos julgues atrasados só porque não seguimos a tua direcção! Sê paciente com o nosso modo de progredir: Não penses que somos preguiçosos porque não temos o teu ritmo! Sê paciente com os nossos símbolos: Não penses que somos ignorantes porque não sabemos ler as tuas palavras! Fica connosco E canta a beleza da vida que partilhas connosco! Fica connosco E aceita que possamos dar-te alguma coisa! Acompanha-nos ao longo do caminho: Nem atrás nem à frente! Procura connosco viver e chegar a Deus. Apelo de um bispo africano aos missionários, in O Amigo dos Leprosos

Missionárias da Caridade em África

PARA SABERES MAIS O maior massacre do povo Hutu pelo povo Tutsi verificou-se em 1972; em 1994, teve lugar um terrível massacre do povo Tutsi pelo povo Hutu. Chama-se fratricídio ao delito de homicídio cometido contra o próprio irmão ou irmã, ou à matança entre povos irmãos, cidadãos do mesmo país.

Refugiados hutus, num campo junto à fronteira da Tanzânia, escapando à perseguição dos tutsis


172

unidade 5

A LUTA NÃO-VIOLENTA PELA FRATERNIDADE Ao longo da história da humanidade, houve pessoas que se distinguiram por terem ajudado a construir um mundo mais fraterno. Uma dessas pessoas foi Martin Luther King Jr., um americano, pastor protestante (cristão), que lutou contra a discriminação e o preconceito no seu país.

[Fotografia de M. Luther King]

Martin Luther King num dos seus famosos discursos pela fraternidade

O ódio perturba a vida; o amor torna-a harmoniosa. O ódio obscurece a vida; o amor torna-a luminosa. Luther King, in Sabedoria dos Prémios Nobel da Paz

Quando a discriminação tem como causa a cor da pele ou o grupo étnico a que se pertence, denomina-se racismo. Luther King era negro e, em alguns Estados dos Estados Unidos da América, o racismo era aceite como uma coisa natural, até as próprias leis defendiam comportamentos racistas. As pessoas negras não podiam frequentar as mesmas escolas, os mesmos restaurantes, ou até as mesmas igrejas que as pessoas brancas. Nos transportes públicos, as pessoas negras tinham de ceder o lugar às pessoas brancas e, em muitos casos, havia também discriminação nas lojas, nas praias e nos parques. A luta de Luther King não foi com armas. Foi, pelo contrário, uma luta pacífica, respeitando sempre os outros, mas procurando mostrar-lhes que estavam errados. Promoveu manifestações e marchas, bem como a resistência pacífica (por exemplo, os negros entravam em lugares que eram destinados só a brancos). Falou com os governantes e com o povo. Durante anos lutou por esta causa, até ter sido assassinado a tiro, na varanda do hotel onde se encontrava hospedado. A sua morte não foi em vão, porque muitos dos seus amigos e admiradores continuaram a sua luta e conseguiram que as leis injustas fossem alteradas. É difícil mudar, de um momento para o outro, o coração das pessoas, mas muita coisa melhorou depois dos esforços de Luther King e dos seus seguidores, não só nos Estados Unidos da América, como também em outros países.


unidade 5

173

TENHO UM SONHO Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais”. Sonho que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade. Sonho que um dia o Estado do Mississipi, um Estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça. Sonho que os meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter. Tenho um sonho, hoje. Deixem a Liberdade chegar para que a América se torne uma grande nação. Por isso, deixem a liberdade chegar dos prodigiosos topos das montanhas de New Hampshire. Deixem a liberdade chegar das grandiosas montanhas de Nova Iorque; deixá-la-emos chegar de todas as aldeias e vilas, de todos os Estados e cidades. Nesse dia poderemos levantar-nos, todos nós, filhos de Deus, brancos ou negros, judeus ou gentios, protestantes ou católicos, e seremos capazes de juntar as mãos e cantar conforme os velhos Espirituais Negros: “Finalmente livres, finalmente livres! Graças a Deus Todo-Poderoso! Somos finalmente livres!” Excerto do discurso de Martin Luther King Jr., Washington, 28 de Agosto de 1963.

Pessoas de todo o mundo que acreditavam na igual dignidade de todos ficaram profundamente chocadas e tristes com o assassinato de Luther King. Mais de 100.000 pessoas prestaram-lhe homenagem no seu funeral. Como um grande rio, deslizavam atrás do carro que o transportava para o túmulo. Tal como o carro puxado por duas mulas, também a inscrição na pedra tumular fazia lembrar os começos do seu povo. Era um verso dum velho espiritual negro, também chamado Gospel — a canção dos escravos, que ele citara no seu magnífico discurso em Washington: “Finalmente livre, finalmente livre! Graças a Deus Todo-Poderoso! Sou finalmente livre!”

PARA SABERES MAIS Martin Luther King Jr. nasceu no dia 15 de Janeiro de 1929, em Atlanta, Georgia. Foi o homem mais novo de sempre a receber o Prémio Nobel da Paz (1964). Faleceu no dia 4 de Abril de 1968, em Memphis, Tenessee. O dia do seu nascimento é feriado nacional nos EUA.


174

unidade 5

Mahatma Gandhi, líder pacifista que lutou pela Independência da Índia

Martin Luther King morreu de forma violenta, ele que sempre tinha apelado a todos os seus irmãos para que não usassem a violência! A sua escolha de uma acção não-violenta foi inspirada na mensagem de Jesus e em outro homem muito especial, que também contribuiu para a fraternidade entre todos os povos. Esse homem nasceu na Índia e é conhecido pelo nome de Mahatma Gandhi. A sua filosofia da não-violência levou o povo indiano a enfrentar pacificamente, mas com determinação, a força política e militar da Grã-Bretanha, a cujo império a Índia pertencia, e levou muitas pessoas depois dele a utilizar a luta não-violenta para defender os direitos humanos. Gandhi ensinava que, embora devessem estar prontos a morrer pela independência, não podiam matar por isso. A sua luta não-violenta obteve resultados. Depois de muitos esforços, a Índia tornou-se independente.

Martin Luther King liderando uma marcha em Detroit


unidade 5

Luther King acreditou que aquilo que resultara na Índia também poderia resultar nos Estados Unidos. De facto, apesar de ter morrido assassinado, a sua luta não foi em vão: a situação da população negra no seu país mudou positivamente ao longo dos anos. Hoje, os milhares de negros americanos estão inseridos na vida quotidiana, ocupando os mesmos cargos que os brancos. Desde a escola às grandes empresas, passando pela televisão e pelo cinema, existem cada vez mais indivíduos que se destacam por serem tão bons ou melhores que os seus irmãos de cor diferente. E, com um pouco mais de perseverança, educação e força, o sonho de Martin Luther King será vivido não só nos Estados Unidos mas também em todo o mundo. Todos os esforços e sacrifícios de Gandhi, de Luther King e de muitos outros que seguiram o seu exemplo foram abrindo caminho para um mundo onde sejam respeitados os direitos de todos e onde possa haver mais compreensão e solidariedade entre as pessoas.

A declaração universal dos direitos humanos Em muitas ocasiões, a humanidade provocou a guerra, o ódio e a vingança. A 1.ª Guerra Mundial (1914-1918) e a 2.ª Guerra Mundial (1939-1945) foram dois períodos da história marcados pelo conflito e pela destruição. Os horrores das guerras e as incontáveis atrocidades que se foram praticando ao longo dos séculos, e particularmente no século XX, levaram as pessoas a acreditar que a única maneira de protegerem os direitos humanos era estabelecerem um acordo internacional, no qual todos os países se revissem.

Edifício das Nações Unidas, em Nova Iorque

175


176

unidade 5

PARA SABERES MAIS A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é especialmente recordada em todo o Mundo no dia 10 de Dezembro, aniversário da sua assinatura.

Foi com o objectivo de reunir consensos e de estabelecer um acordo internacional que preservasse a paz que, durante o ano de 1948, a ONU elaborou e aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de modo a servir como norma de actuação para todas as pessoas e para todas as nações. Eleanor Roosevelt, mulher de Franklin D. Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos em exercício durante a 2.ª Guerra Mundial, foi uma das grandes responsáveis pela aprovação deste documento. Já no século XXI, as guerras e outros actos de violência, infelizmente, não acabaram, mas têm sido concretizados muitos esforços para que os direitos humanos sejam respeitados; por exemplo, as leis da maioria dos países regem-se pelos princípios definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Este documento defende a igualdade de todos os seres humanos e também o reconhecimento de iguais direitos a todos. O artigo 19.º insiste ainda no direito fundamental que cada um tem de expressar as suas opiniões. Na realidade, ao longo dos tempos, muitas pessoas foram perseguidas por exprimirem as suas ideias, mas este documento garante a todos a possibilidade de o fazerem livremente. No artigo 1.º afirma-se que os seres humanos “devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.


unidade 5

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Artigo 1.° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Artigo 2.° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. (…) Artigo 19.° Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.

Conselho de Segurança da ONU

177


178

unidade 5

Expressões da Fraternidade NA ARTE

A festa da aldeia, por Jean Charles Messounier

A fraternidade foi sempre uma necessidade humana. Também os artistas e as diferentes formas de arte se inspiraram na fraternidade como tema. Desde a música à literatura, passando pela pintura, ninguém fica indiferente a esta busca de irmandade e harmonia entre todos os seres humanos. O estilo de música Gospel, mencionado acima no discurso de Martin Luther King, começou por ser a expressão artística dos escravos negros cristãos, oprimidos nos EUA. De facto, desde o século XVII (1619), quando os patrões de escravos, vindos do Congo, mandaram construir templos para que estes tivessem o seu próprio local de culto, o Gospel surgiu como uma manifestação de liberdade, que foi aproveitada não só para manifestações religiosas, mas também culturais. Os cânticos, inspirados no Livro dos Salmos (Antigo Testamento), foram posteriormente denominados espirituais negros e ainda hoje são cantados. Os espirituais negros baseiam-se no esquema pergunta e resposta. São, de facto, harmonizações corais muito apreciadas, fazendo hoje parte do património musical norte-americano e mundial. O espiritual negro que te propomos a seguir foi exactamente aquele que Martin Luther King citou no seu famoso discurso.


unidade 5

FREE AT LAST

FINALMENTE LIVRE

Free at last, free at last, Thank God Almighty, I’m free at last.

Finalmente livre, finalmente livre, Graças a Deus Todo-Poderoso, estou finalmente livre.

The very time I thought I was lost, Thank God Almighty, I’m free at last; My dungeon shook and my chains fell off, Thank God Almighty, I’m free at last; This is religion, I do know, Thank God Almighty, I’m free at last; For I never felt such a love before, Thank God Almighty, I’m free at last.

Há muito tempo que pensava estar perdido, Graças a Deus Todo-Poderoso, estou finalmente livre; As portas da minha prisão e as minhas cadeias caíram, Graças a Deus Todo-Poderoso, estou finalmente livre; Religião é isto, eu sei, Graças a Deus Todo-Poderoso, estou finalmente livre; Por nunca ter sentido antes tão grande amor, Graças a Deus Todo-Poderoso, estou finalmente livre.

Coro de Gospel

Mas não foi só na música que se representou artisticamente este tema, encontrando-se também na literatura. Lágrima de Preta é um belo poema de um poeta português que sugere de modo muito interessante a igualdade fundamental entre todos os seres humanos.

179


180

unidade 5

LÁGRIMA DE PRETA

António Gedeão

Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar.

Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais.

Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado.

Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume:

Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente.

nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio. António Gedeão. Poesias Completas

António Gedeão, além de poeta, foi professor de Ciências Físico-Químicas. Este seu poema reflecte esta faceta da sua vida, ao usar vocabulário específico das ciências. Através de palavras simples, o poeta quer transmitir-nos algo de muito profundo: todos os seres humanos têm a mesma natureza. Somos uma única humanidade!


unidade 5

181

Não podemos ficar à espera de que sejam os outros a construir um mundo melhor e mais fraterno. Cada um de nós tem a responsabilidade de fazer algo nesse sentido. O segredo para conseguir o sucesso da fraternidade é-nos revelado neste pequeno conto.

CÉU OU INFERNO? Um dia, um mandarim — já velho e cansado — partiu para o Além. O seu objectivo era chegar ao céu, mas antes teve de passar pelo inferno, lugar de passagem obrigatória nesta caminhada. Ficou espantado! Viu aí muitas pessoas sentadas diante de tigelas de arroz, mas todas morriam de fome, porque tinham conjuntos de paus com cerca de dois metros de comprimento, o que tornava impossível fazer chegar à própria boca o arroz das tigelas. Depois de ter constatado esta desgraça, foi-lhe permitido, então, dirigir-se para o céu. Também este era habitado por muitas pessoas sentadas diante de tigelas de arroz, tendo, cada uma, um conjunto de paus de cerca de dois metros. O cenário era o mesmo, coisa que intrigou o mandarim. Reparando melhor, verificou que nem tudo era exactamente igual. Ao contrário dos que habitavam o inferno, todos estavam felizes e de boa saúde. É que, apesar de terem as mesmas condições dos outros, cada qual servia-se dos seus paus para dar de comer àquele que estava sentado à sua frente. Adaptação de um conto chinês.

Então o segredo é este! Basta não pensarmos só em nós e olharmos também para os outros. No momento em que dispomos o nosso coração para ajudar, damos início a um movimento que não tem fim e que nos aproxima uns dos outros. Se formos capazes de ter esta atitude, o mundo será um lugar mais agradável para todos. Quando os homens se convençam Que a força nada faz, Serão felizes os que pensam Num mundo de amor e paz. O mundo só pode ser Melhor do que até aqui, Quando consigas fazer Mais p’los outros que por ti! Se os homens chegam a ver Por que razão se consomem, O homem deixa de ser O lobo do outro homem. António Aleixo. Este livro que vos deixo

PARA SABERES MAIS António Aleixo foi um poeta popular, apesar de mal saber ler e escrever. Era natural do Algarve, tendo nascido em Vila Real de Santo António, em 1899. Faleceu em Loulé, em 1949.


182

unidade 5

VIVER COM OS OUTROS

COMO IRMÃOS

Is

O texto do profeta Isaías que a seguir vais ler pertence ao Antigo Testamento e está incluído num livro profético. Profetas são homens que falam em nome de Deus e pretendem transmitir a sua vontade. Ajudam as pessoas a encontrarem o caminho que devem seguir nas suas vidas a fim de viverem como Deus quer. Neste texto, o profeta ensina como devemos viver com os outros de maneira a agradar a Deus.

O QUE AGRADA AO SENHOR 4

ão devem jejuar como têm feito até agora, se querem que a vossa voz seja ouvida nos céus. 5 Será esse o jejum que agrada ao Senhor? Será assim que o homem se mortifica verdadeiramente? Curvar a cabeça como um junco, vestir-se de luto e deitar-se sobre o pó: é para isso que proclamam um jejum, um dia agradável ao Senhor? 6 O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que transportam, dar a liberdade aos oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, 7repartir o teu pão com os famintos, dar abrigo aos pobres sem casa, vestir os que vires sem roupas, e não voltar as costas ao teu irmão.

Então surgirá para ti a alvorada dum dia novo. 9 Então chamarás pelo Senhor e ele te responderá, pedirás ajuda e ele te dirá: “Aqui estou!” Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, 10se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, então na escuridão em que vives brilhará a luz, a tua obscuridade transformar-se-á em meio-dia. 11 O Senhor será sempre o teu guia, até em pleno deserto saciará a tua fome e dará vigor ao teu corpo. Serás como um jardim regado! Como uma fonte abundante, cujas águas nunca secam. 8

Is 58, 4-11

VOCABULÁRIO • Alvorada: despontar da manhã, nascer do dia. • Jejum: privação parcial ou total dos alimentos, de forma voluntária. • Obscuridade: escuridão. • Opressão: tirania, poder que esmaga.

S. Martinho partilhando a capa com um pobre, por Domenico Girlhandai


unidade 5

De acordo com o profeta Isaías, o que agrada a Deus não é o ritualismo vazio, mas a fraternidade em relação aos que mais precisam. Somos chamados a compreender que o mundo e aquilo que vamos obtendo a partir dele não é só para nós e que todos pertencemos a uma única e grande família. Somos responsáveis uns pelos outros; somos responsáveis pela felicidade de todos os que connosco convivem.

Misericórdias Portuguesas: um exemplo de fraternidade

Nossa Senhora das Misericórdias

Nos finais do século XV, a situação social e política em Portugal foi favorável à fundação de confrarias e irmandades das Misericórdias Portuguesas. Estas estiveram na sua origem ligadas ao apoio aos enfermos, aos pobres e outros deserdados. A primeira fundação teve lugar em Agosto de 1498, na capela da Nossa Senhora da Piedade da Sé de Lisboa, sob a evocação de Nossa Senhora, a Virgem Maria da Misericórdia.

183


184

unidade 5

Nesta irmandade defendia-se o princípio de que todos os homens eram filhos do mesmo Deus criador. Assim, as pessoas estabeleciam laços de verdadeira fraternidade, reconhecendo nos outros os seus irmãos. Esta relação traduzia-se em cuidados para com os enfermos, socorro aos pobres, amparo aos órfãos, acompanhamento de moribundos, assistência moral aos presos e garantia de sepultura aos mortos.

Compromisso primitivo das Misericórdias Portuguesas A confraria e Irmandade foi instituída no ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1498 anos, no mês de Agosto, na Sé Catedral da muito nobre e sempre leal cidade de Lisboa, por permissão e consentimento e mandado da ilustríssima e muito católica Senhora rainha Dona Leonor, mulher do ilustríssimo e sereníssimo Rei Dom João II, que santa glória haja. A qual senhora no tempo da instituição da dita confraria e irmandade regia e governava os reinos e senhorios de Portugal. Prólogo de uma cópia do compromisso primitivo das Misericórdias Portuguesas, recebido pela confraria de Coimbra, 1500.

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa - Obra em Macau

Esta instituição marcou, desde a sua origem, a solidariedade entre as pessoas em Portugal e, pouco tempo depois da sua fundação, o rei D. Manuel manifestou em um diploma a sua admiração pela obra. Por carta régia, de 14 de Março de 1499 E por quanto folgamos muito que em todas as cidades, vilas e lugares principais do nosso Reino se estabeleçam Confrarias, pela forma que no dito regimento se contém. D. Manuel, Rei de Portugal

D. Manuel I, Rei de Portugal

O desejo do rei D. Manuel concretizou-se logo no século XVI, atingindo em 1599, o número de 112 confrarias que se estendiam do Reino ao Oriente.


unidade 5

A partir do século XVI, as Misericórdias tornaram-se, nas cidades e nas vilas, uma presença assistencial assídua, que se desdobrava em múltiplas actividades de apoio a pobres, indigentes, órfãos e desprotegidos, presos e condenados, gerindo hospitais e albergarias e recolhendo esmolas para as redistribuir.

Assistência aos pobres e indigentes nas cidades, séc. XX

PARA SABERES MAIS • As casas que pertenciam às irmandades ou confrarias chamavam-se Santas Casas. Ainda hoje se utiliza a designação “Santa Casa da Misericórdia”. • A Mesa da Santa Casa da Misericórdia, órgão que presidia à sua direcção, era constituída por treze irmãos, evocando a Última Ceia de Cristo com os doze apóstolos.

185


186

unidade 5

A origem cristã dos valores da misericórdia

ONSULTA C NA BÍBLIA Mt 25: 31-46; Mt 6, 14 e 18, 15

As Misericórdias representavam a prática da caridade e do amor cristão, sendo um testemunho da fé em Cristo. Fundaram-se na prática cristã e as suas obras manifestavam o princípio do amor ao próximo. Foi na mensagem cristã que se inspiraram as chamadas obras de Misericórdia, em número de catorze. As pessoas que pertenciam à Obra da Santa Misericórdia deveriam possuir uma vida sã, terem recta consciência e serem zeladoras dos mandamentos de Jesus. As obras que realizavam promoviam o ser humano e reconheciam a sua dignidade. Dedicavam-se ao ensino, visitavam os presos, tratavam dos enfermos, alimentavam os famintos, davam habitação aos pobres e aos peregrinos. As obras de misericórdia inspiram-se na Sagrada Escritura, no Evangelho de S. Mateus.

Obras de Misericórdia a) Temporais 1.ª Dar de comer a quem tem fome. 2.ª Dar de beber a quem tem sede. 3.ª Vestir os nus. 4.ª Dar pousada aos peregrinos. 5.ª Assistir os enfermos. 6.ª Visitar os presos. 7.ª Cuidar dos que partem pela morte.

b) Espirituais 1.ª Dar bom conselho. 2.ª Ensinar os ignorantes. 3.ª Corrigir os que erram. 4.ª Consolar os tristes. 5.ª Perdoar as injúrias. 6.ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo. 7.ª Rogar a Deus por todos os necessitados, tanto vivos como já passados para além do véu da morte.

As obras de misericórdia, Por Peter Brueghel, o Jovem


unidade 5

Vamos construir

um mundo fraterno

Acção das ONG na crise eleitoral do Quénia

Cada um de nós tem a responsabilidade de construir, na medida das suas possibilidades, um mundo mais fraterno. Há diversos grupos ou associações com este objectivo. Muitas destas organizações são conhecidas pelo nome de Organizações Não Governamentais (ONG), isto é, associações criadas pela sociedade civil, à margem do Estado. Distinguem-se de outras organizações ou instituições privadas porque não têm fins lucrativos. As actividades das ONG são muito variadas e vão sendo criadas de acordo com diferentes circunstâncias, reflectindo diversas tradições e culturas. As ONG podem ser classificadas de diferentes formas, tendo em conta as suas actividades, a sua influência geográfica ou outras características. Estas organizações têm obtido o respeito e a confiança da opinião pública, uma vez que contribuem para a defesa da qualidade de vida das populações mais desfavorecidas, prestam ajuda humanitária e auxiliam em casos de emergência. A sua actuação permite evitar ou resolver muitas situações de risco. Uma dessas organizações é o Banco Alimentar Contra a Fome. O seu objectivo é “aproveitar onde sobra para distribuir onde falta”. O Banco Alimentar pretende evitar o desperdício de alimentos, fazendo-os chegar às pessoas que têm fome. Recebe toda a qualidade de géneros alimentares, ofertas de empresas e particulares, em muitos casos excedentes de produção da indústria agro-alimentar e excedentes agrícolas. Realiza também campanhas de solidariedade nas superfícies comerciais, recolhendo assim dádivas das pessoas que nesses dias aí se encontram a fazer compras.

187


188

unidade 5

SURPRESA DE SIMBAD Despertei num local amplo e cheio de luz e vi-me rodeado de rostos que expressavam pasmo e amistosa atenção. Pareceram-me, curiosamente, hindus ou abexins. Nem me dava conta de que tinha despertado. A minha consciência dizia-me que continuava adormecido e a sonhar. Às vezes, os sonhos são a cores e, com frequência, em locais muito luminosos. Há quem pense que isto acontece quando se está perto da morte. Aqueles homens falavam-me e eu, como que sonhando, escutava-os sem poder responder, entre outras coisas, porque não compreendia nada do que me diziam. Por fim, um deles começou a falar-me em árabe, a minha língua, e ouvi-o dizer: — Irmão, damos-te as boas-vindas. Diz-nos de onde vens, quem és e por que chegaste até aqui. Somos agricultores e regávamos os nossos campos quando vimos a jangada contigo em cima, a dormir. Neste ponto, a corrente é branda e agitava-te suavemente. Recolhemos e prendemos a jangada, à espera de que acordasses. Queres dizer-nos como chegaste a estes sítios? — Em nome de Deus, tragam-me algo para comer, que depois responderei a todas as vossas perguntas! — disse, quase gritando e chorando. Tenho tanta fome! Foram sensíveis ao meu apelo e trouxeram-me logo de comer e de beber. Comi até me fartar, senti a vida regressar ao meu corpo e dei graças ao Altíssimo. Pude então contar-lhes a minha história com todo o pormenor. Texto adaptado de As Mil e Uma Noites


unidade 5

A alegria da fraternidade As pessoas fraternas caracterizam-se pela atenção e disponibilidade no acolhimento ao próximo. Quando vivemos em fraternidade somos pessoas alegres, amparamos os nossos irmãos, desprendidos de preconceitos e sem receios. Estamos abertos à entreajuda e não criamos barreiras que nos separem dos outros.

UM SÍMBOLO ARAMAICO Há muitos anos que uso, pendurada num fio de bronze, uma medalha em que está gravada uma letra em aramaico. É um símbolo antiquíssimo, que quer dizer “Deus está contigo”. Deus está contigo. De uma forma ou de outra, acabo sempre por ter essa certeza, desde o dia em que abri a porta grande da quinta e os mandei entrar, aos ciganos em trânsito, nessa manhã da minha pátria alentejana. Eram onze. Entraram a meu convite e sentaram-se por ali, debaixo das árvores, nos degraus da cozinha, como se estivessem num acampamento. Eu tinha doze anos e, nesse tempo, fazia coisas que normalmente eram interditas. Esta, de encher a quinta de ciganos, foi uma delas. Mas a sua voz cantada, as suas histórias de vida ao acaso, o seu perfume de lenha queimada e a promiscuidade com cães, burros, mulas velhas, fascinavam-me. Bateram-me à porta e lamuriaram que pelas terras de onde vinham só lhes tinham dado pão seco, pão duro e que as crianças precisavam de comer qualquer coisa quente. E mostravam-me sacos cheios de côdeas, de pão velho, de fome adiada. Então, como se nos conhecêssemos desde o princípio do tempo, combinámos um almoço de açorda com azeitonas. Apanhei um grande molho de coentros, enquanto a cigana velha acendia uma fogueira para se ferver uma panela de água com todos os bocados de bacalhau que achei no armário da cozinha. As outras tiraram os lenços e amamentavam os filhos, os homens fumavam e conversavam tranquilamente. Fez-se a açorda no alguidar enorme onde se amassava o pão. Nunca me lembro de ter sido tão feliz. O poder dispor de qualquer coisa e compartilhá-la com tanta gente, assim, naquela naturalidade, era muito bom. Quando a minha mãe regressou da rua já eu e os ciganos comíamos açorda com azeitonas e contentamento. Era a grande família por mim desejada. Os risos. Uma alegria tão visível, tão verdadeira! Respirava-se naquela hora um ar tão fraterno e simples que minha mãe ficou muda. Olhou em volta, viu as flores pisadas, o chão, sempre tão limpo, todo sujo. Olhou-me perplexa com o meu atrevimento, e, morrendo de medo, disse apenas, em voz quase inaudível: “– Há melancias na dispensa. Vou buscá-las.”

189


190

unidade 5

E nas mãos dos ciganos, negras, de dedos ávidos e sedentos, as talhadas da melancia nasceram como uma lua nova. Uma das crianças ergueu as mãos e começou a dançar. Os outros batiam palmas, marcando o ritmo. Uma cigana, já mãe, levantou-se, cabelos soltos, olhos fechados, e dançou também. A mais velha de todos agarrou-me pelos ombros e colocou-me no meio do círculo. Então, levantaram-se todos e começaram a dançar à minha volta, cantando uma estranha canção cuja musicalidade me acendeu lágrimas que nunca esqueci. A minha mãe estava comovida, mas eles não a chamaram a partilhar aquele momento. Era como se ela nem existisse, o mundo fosse só meu e deles, num tempo absolutamente certo, num espaço de abundância e fraternidade. Foi então que a velha cigana me olhou no fundo da alegria e disse: “— Deus está contigo.” E tirou da algibeira, que um avental preto disfarçava, esta medalha com um símbolo aramaico de que nunca mais me separei. E assim, desde esse dia, trago Deus misturado com o aroma dos coentros, a cor das melancias e a paixão doentia pela minha terra alentejana. E viajo com os meus amigos ciganos, num país de liberdade construída quando o pão seco das horas me é mais difícil de engolir. Adaptado de Maria Rosa Colaço. Um símbolo aramaico

O poema Elegia Segunda de Sebastião da Gama é um canto de fraternidade entre todas as pessoas, mas também entre as pessoas e todos os elementos da natureza. Um verdadeiro apelo à fraternidade universal.

PARA SABERES MAIS Sebastião da Gama foi poeta e também professor de Português, nascido em Vila Nova de Azeitão, em 1924. Teve uma vida curta, mas rica de valores, dedicação aos outros e criatividade artística. Faleceu dois meses antes de completar vinte e oito anos. Os seus alunos reuniram dinheiro para lhe erguer um monumento no Portinho da Arrábida, onde viveu os últimos tempos da sua vida.

ELEGIA SEGUNDA Todos os pássaros, todos os pássaros Asas abriam, erguiam cantos, De Amor cantavam. Todos os homens, todos os homens, De almas abertas, de olhos erguidos, De Amor cantavam. De Amor cantavam todos os rios, Todas as serras, todas as flores, Todos os bichos, todas as árvores, Todos os pássaros, todos os pássaros, Todos os homens, todos os homens. De Amor cantavam… Sebastião da Gama. Campo Aberto


unidade 5

PROJECTO INTERDISCIPLINAR

DISCIPLINAS LÍNGUA PORTUGUESA

PROPOSTAS DE ACTIVIDADES • Leitura e exploração de diversos textos relacionados com racismo, discriminação, assim como alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

INGLÊS

• Abordagem do Gospel apresentado na aula de EMRC, para análise da letra.

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PORTUGAL

• Trabalho de pesquisa sobre os sucessivos habitantes da Península Ibérica e a mistura étnica que nos deu origem, bem como sobre as relações com outros povos ao longo da História de Portugal.

EDUCAÇÃO VISUAL E TECNOLÓGICA

• Ilustração de alguns Direitos definidos na DUDH. • Ilustração do texto “Tenho um Sonho”. • Colaboração na execução da Banda Desenhada “O que Agrada ao Senhor”.

EDUCAÇÃO MUSICAL

• Análise e interpretação de Espirituais Negros. • Pesquisa de canções populares que falem de amizade.

191


192

unidade 5

AGORA JÁ SOU CAPAZ DE: • Identificar as razões que fazem com que todos os seres humanos sejam irmãos. • Distinguir as características e finalidades dos grupos a que pertenço. • Compreender a necessidade de colaboração e respeito mútuo para o bom funcionamento dos grupos. • Interpretar textos da Bíblia que nos falam de amizade e de fraternidade. • Apreciar textos, quadros, músicas e outros elementos que nos transmitem esses mesmos valores de uma forma muito bela. • Reconhecer, nas pessoas que souberam lutar de uma forma pacífica para que todos fossem tratados da mesma maneira e vissem ser-lhes reconhecidos os mesmos direitos, pontos de orientação para o meu comportamento. • Reconhecer a igual dignidade de todos os seres humanos. • Trabalhar na construção de um mundo mais fraterno.

BIBLIOGRAFIA UNIDADE LECTIVA 1

BERGER Klaus. (1994). Qumran e Jesus. Vozes. Rio de Janeiro. BÍBLIA SAGRADA. (1973). La Bible de Jérusalem. École Biblique de Jérusalem. Éditions du Cerf. Paris. BÍBLIA SAGRADA. (1993). Tradução Interconfessional do hebraico, do aramaico e do grego em português corrente. Difusora Bíblica. Lisboa. BLYTON Enid. [1941] (1955). The Adventurous Four. George Newnes Ltd. London. COMISSÃO PONTIFÍCA BÍBLICA. (1994). A Interpretação da Bíblia na Igreja. Editora Rei dos Livros. Lisboa. NEVES, Fr. Joaquim Carreira das. (2007). A Bíblia – O Livro dos Livros I: Comentários ao Antigo Testamento. Editorial Franciscana. Braga. NEVES, Joaquim Carreira das. (2007). A Bíblia – O Livro dos Livros II: Comentários ao Novo Testamento. Editorial Franciscana. Braga. RINALDI J. (coord.). (1970). Introdução à Leitura da Bíblia. Livraria Tavares. Porto.


unidade 5

UNIDADE LECTIVA 2

ALVES Herculano. (1996). O Baptismo – Origem e Teologia. In Bíblica, Série Científica, Ano IV, nº 5, Dez.: 103-132. Difusora Bíblica. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). A Mitologia. (reimpressão). Éditions Fleurus. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). Antigo Egipto. (reimpressãao). Éditions Fleurus. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). Civilizações. (reimpressãao). Éditions Fleurus. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). Idade Média. (reimpressãao). Éditions Fleurus. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). Natureza. (reimpressãao). Éditions Fleurus. Lisboa. BEAUMONT, Émile (ed. literário). (2006). O Mar. (reimpressãao). Éditions Fleurus. Lisboa. MIQUEL, Pierre. (1987). A Vida Quotidiana em Roma. Col. A Vida no Passado. Ed. Verbo. Lisboa. METZEGER Bruce M. & COOGAN Michael D. (org.). (2001). Dicionário da Bíblia, Vol.1: As pessoas e os lugares. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. SAINT-BLANQUAT, H. de. (1989). As Primeiras Civilizações, Col. A História dos Homens. Ed. Lello. Lisboa. YOUNG, Helen. (2002). A Natureza em Fúria. Dinalivro. Lisboa.MACHADO, José Pedro. (1996). O Grande Livro dos Provérbios. Editorial Notícias. Lisboa. MORGADO José Joaquim Lopes (dir.). (1998). Nascer da Água e do Espírito. In Revista Bíblica. Ano 44, Número Extra. Difusora Bíblica. Lisboa. UNIDADE LECTIVA 3

ALVES Herculano. (1996). Jesus Cristo, Salvador. In Bíblica, Série Científica, Ano IV, nº 3, Dez.: 55-78. Difusora Bíblica. Lisboa. BARREAU Jean-Claude. Biografia de Jesus. Publicações Europa-América. Mem-Martins BESSIÈRE, Gérard. (2003). Jesus: O deus surpreendente. Quimera Editores. Lisboa. BÍBLIA SAGRADA. (1973). La Bible de Jérusalem. École Biblique de Jérusalem. Éditions du Cerf. Paris. DANNEELS Cardeal Godfried. (1995). Homem Amável, Deus Adorável. CEP (Centro de Estudos Pastorais). Lisboa. DOMINI, Ambrosio. (1988). História do Cristianismo das Origens a Justiano. Ed. 70. Lisboa.

193


194

unidade 5

LOEW Jacques. (1974). Jesus, chamado Cristo. Paulinas Editora. Lisboa. LOURENÇO João Duarte. (2005). O Mundo Judaico em que Jesus Viveu. Universidade Católica Editora. Lisboa. UNIDADE LECTIVA 4

ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS. [1948] (2008). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Diário da República Electrónico. Consulta em 1/05/08. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. (1993). Gráfica de Coimbra. Coimbra. FONSECA, Manuela [et. al.] (org.s). (2006). Lá Longe, a paz. A guerra em histórias e poemas. Edições Afrontamento. Porto. FRANCIA, Alfonso. (2000). Lições de Animais. 2ª Edição. PAULUS Editora. Apelação. FRANCIA, Alfonso; OVIEDO, Otília. (1998). Educar através de Fábulas. 3ª Edição. PAULUS Editora. Apelação. MEMMI Albert. (1993). O Racismo. Caminho. Lisboa. VIDAL, Marciano. (1991). Dicionário de Moral. Editorial Perpétuo Socorro. Porto. SABBAGH, Antoine. (1990). A Europa da Idade Média. Ed. Lello. Porto. UNIDADE LECTIVA 5

AMNISTIA INTERNACIONAL. (2007). Relatório Anual. Artes Gráficas. Lisboa. BAUDOUIN Bernard. (2005). Sabedoria dos Prémios Nobel da Paz. Pergaminho. Lisboa. BOSMANS Phil. (1988). Amor. Editorial Perpétuo Socorro. Porto CONSELHO PONTIFÍCIO “COR UNUM” & CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES. (1992). Os Refugiados – Um Desafio à Sociedade. Secretariado-geral do Episcopado. Lisboa. FERREIA, J. Ribeiro. (1990). A Democracia na Antiga Grécia. Ed. Minerva. Coimbra. JOÃO PAULO II. (1980). Dives in Misericordia. Apostolado da Oração. Braga. JOÃO PAULO II. (1993). Veritatis Splendor. Rei dos Livros. Lisboa. JOÃO XXIII. (1963). Pacem in Terris. União Gráfica. Lisboa. SILVA, Carlos Guardado da & MELÍCIAS, André Filipe Vítor. (2005). A Misericórdia do Cadaval. Santa Casa da Misericórdia do Cadaval. Cadaval. STILWELL, Peter, (Coord.). (1993). Caminhos da Justiça e da Paz: Doutrina Social da Igreja: Documentos de 1891 e 1991. 3ª Edição. Editor Rei dos Livros. Lisboa.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.