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Em Aterramento

Em Aterramento

Quem vai pagar a conta?

PaulO ludMEr

oplanejamento do setor elétrico brasileiro está na berlinda, uma vez amainada a escassez de energia afluente nas bacias hidrelétricas do País (exceto as do Sul abatidas por conta do La Niña, o nome do resfriamento de águas do oceano Pacífico). Discutem-se modelagens, tanto do lado da oferta quanto do consumo.

Poucos destacam as dificuldades vividas pelas distribuidoras mais sofisticadas, com áreas de concessão nas regiões metropolitanas densamente habitadas, que atendem também polos industriais eletro e energointensivos.

Por mais que as distribuidoras europeias, norte-americanas e chinesas, aqui

radicadas, contratem jovens talentosos em cibernética, probabilística e matemática atuarial, a rapaziada não tem a segurança e a expertise da senioridade (excluída e posta no desvio do mercado) para compreender o antes e o depois da contemporaneidade. Pois mudou velozmente a topologia de carga, ainda não capturada na medida necessária pelos seus algoritmos. Entre as novidades estão a explosão vertiginosa da construção civil imobiliária nas grandes capitais, durante os últimos dois anos, conjugada com a pandemia e a subversão da introdução de novas tecnologias na vida cotidiana. Bairros inteiros, por exemplo em São Paulo, vieram abaixo dando lugar a sucessivas torres de 30 andares.

Há três anos, iniciaram-se simultaneamente dezenas de obras de grandes edifícios, vide São Paulo, atraentes como reserva de valor, juros muito baixos e perspectiva de inflação. Motivada pelo modismo, a mocidade dispensava automóveis, porque o ciclismo era ecologicamente um cartão de qualidade. Os imóveis oferecem menos garagens do que unidades à venda. Não há espaços para livros, as leituras são em tablets. Poucos móveis, diversidades de eletrodomésticos. Nas áreas comuns dos prédios veemse churrasqueiras, coworking, sala ciber, piscinas frias e quentes, varandas gourmet, salões fit center, quadras de tênis, futebol de salão e squash. Espaço existencial, de 30 a 70 metros quadrados. Em média cinco metros por dez.

Vem a pandemia. Uma família com dois filhos não aguenta o cárcere agora de gesso (tijolos são muito caros). Sem escolas, sem rua, uma vez generalizado o home working, muda completamente a percepção do uso de eletricidade. Com o trabalho à distância, surge a procura de casas amplas, chácaras e sítios nas áreas rurais e de casas de praias e barcos com quartos, sala e banheiros, no litoral.

Quanto tempo precisam as distribuidoras para cartografar novamente seu mercado, que em dois anos dá cambalhotas diversas? Elas ainda faziam esforços para compreender tão profundas mudanças e eis que a inflação volta vigorosa, os juros idem, a construção civil refreia, e a pandemia se reinventa ainda mais forte. Aqui não nos deteremos na eletrificação da mobilidade sobre rodas, outra dor de cabeça a ser solucionada. Tampouco do smart grid.

É inevitável falar sobre preços finais de energia que produziram um refluxo no poder de compra da classe média e pobre. É honesto citar o ex-diretor da Aneel - Agência Nacional de Energia Elétrica, Edvaldo Santana, e seus artigos que mostram que todo o ônus da crise sobrou para os consumidores, sobre os quais permanecem os riscos: “O modelo matemático mascara a oferta de energia”.

Ora, um consumidor que consumiria 100, incentivado pelo governo para que não falte energia, acaba economizando 20, para receber um bônus lá na frente, vive um mundo surreal. Neste exemplo, a distribuidora contratou 100 para este usuário, mas vendeu 80 para ele, cobrará dele a penalidade sobre seu planejamento furado. Ou seja, o consumidor cidadão ainda pagará pelos que não economizam e obrigam a oferta a ligar térmicas caríssimas.

Neste exemplo, a geradora hidráulica que vendeu para a distribuidora, sob contrato, os 100 simulados, mas gerou só 80 porque não tinha água para mais, receberá os 100 do sistema.

O consumidor pagou por meio de bandeiras tarifárias alguns bilhões de reais para resguardar a saúde das distribuidoras que tiveram que enfrentar térmicas caríssimas, ligadas emergencialmente na crise. Ora, aumentou o risco de inadimplência pois o preço final da energia disparou.

Como o acréscimo via bandeira tarifária não bastou para cuidar da saúde das distribuidoras, o governo empresta dinheiro a elas que será pago pelos próprios consumidores durante meses e meses (sob a desculpa de evitar eleitoralmente um racionamento físico e sob a falácia de contenção de uma alta ainda maior das tarifas).

Em suma, tudo para os agentes da cadeia da oferta e zero para sua clientela. Neste quadro, milhões de usuários são convidados a ingressar no mercado livre que só faz sentido se for melhor ou mais barato que o cativo. Restará cativo o serviço público?

“Quanto tempo precisam as distribuidoras para cartografar novamente seu mercado, que em dois anos dá cambalhotas diversas?”

Paulo Ludmer é jornalista, engenheiro, professor, consultor e autor de livros como Derriça Elétrica (ArtLiber, 2007), Sertão Elétrico (ArtLiber, 2010), Hemorragias Elétricas (ArtLiber, 2015) e Tosquias Elétricas (ArtLiber, 2020). Website: www.pauloludmer.com.br.

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