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Cidades
Fernanda Coutinho
“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrôes de meus cadernos foram os primeiros vestígios. Não, não os primeiros, pois houve antes um labirinto que sobreviveu a eles”
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Os labirintos urbanos são recorrentes nas imagens produzidas por Fernanda Coutinho.
A fotógrafa, de 28 anos, formada em História e mestranda em Educação, encontra na cidade e nos seus elementos (habitantes, arquitetura, ruas, trânsito e caos) uma fonte inspiradora. Nesse ensaio são apresentados imagens das cidades de Belo Horizonte (2008 - 2010), Rio de Janeiro (2009), São Paulo (2010) e Recife (2010).



O que te levou a escolher estas cidades para desenvolver seu trabalho?
Quanto pesa nas fotografias a escolha dos espaços? E dos personagens?
O ensaio é fruto de várias viagens que fiz ao longo dos dois últimos anos. Na verdade, a questão não é o que me levou a escolher as cidades, mas sim o que levou a selecionar as imagens produzidas. Adoro o tema CIDADE em suas diversas dimensões. Além dessas “grandes” cidades, tenho feito de outras, pequenas, do interior de Minas também, estado onde moro. Essas específicas me fazem recorrer ao labirinto pronunciado por Benjamim, pois os locais fotografados podem ser reconhecidos por quem se “perde” na cidade ou quem circula por ela. Não quis mostrar os pontos turísticos ou referências, ao contrário, o que não está tão visível aos olhos dos transeuntes. Em alguns casos, a imagem poderia ter sido feita em qualquer lugar, mas o bom observador sabe exatamente de onde foi tirada.
Os personagens de minhas fotos, na maioria das vezes, são pessoas comuns. Alguns nem se percebem fotografados, outros posam quando veem a câmera e alguns posam, quando peço. E isso é muito instigante, porque acabo estabelecendo diálogo com pessoas, simplesmente por estar fotografando. Apesar de nesse ensaio não aparecer, gosto muito de fazer retratos.
Os locais tem um peso na escolha, claro. Mas não são fundamentais. Porque não viajo com a finalidade de fotografar, mas por gostar, sempre carrego minha câmera. Assim, as fotos foram produzidas do seguinte modo: Rio e São Paulo - férias, Recife - “exílio” acadêmico, Belo Horizonte - cidade onde resido.
Qual a importância para você de fotografar o Brasil?
Não penso em algo como: gosto de registrar o Brasil. Por acaso, essas cidades são brasileiras, mas poderiam ser Barcelona, Buenos Aires, Paris... a CIDADE é um tema que está em mim. Tenho umas fotos de Paris, antigas... estive lá há 4 anos, quando estava começando a aprender fotografar, mas as fotos de lá estão escondidas, ainda não divulguei. Quem sabe em uma outra oportunidade apresentarei fotos de cidades estrangeiras. uma revelação. E é nesse processo que dou cor às fotos. Não as tiro preto e branco, elas se tornam preto e branco. Faço vários testes para chegar no tom desejado. Algumas vezes, acontece de quando acabo de clicar, imagino como serão os tons ou o que irei alterar. Mas isso não é tão previsível. Aliás, a fotografia pra mim é muito instintiva. Já fiz cursos, estudo um pouco, mas vejo como uma forma de me expressar. De escrever meus registros sobre o mundo. A mistura de cores e efeitos dialogam o tempo todo no que poderia ser chamado de “meu trabalho”.
Você usa cor e preto e branco em seu ensaio. Como você acha que essas duas linguagens se comunicam?O quão importante é a pós produção para sua linguagem fotográfica?
Vou responder primeiro sobre pós-produção, porque ela está relacionada com a cores. Pra mim a pós-produção é um processo fundamental na fotografia digital. Não que eu acredite que a fotografia digital comprometa a imagem, mas eu vejo esse processo como
Que fotógrafos influenciaram este trabalho? Tenho alguns fotógrafos que me influenciam, não só nesse ensaio, mas também em outros que tenho desenvolvido: Cartier Bresson, Pierre Verger, Diane Arbus, Otto Stupakoff, Arthur Omar e outros. Além disso, cinema, literatura e artes plásticas são fontes inspiradoras.

