2017 braviário talvez esse novo projeto traduza o palmilhar de uma política na arte ou para arte. um arremedo de força ou apenas uma iniciação a Hakim Bey. digo talvez porque ainda aprendo a fazer aliança com o dispêndio e o caráter destrutivo, a permanecer do lado de fora da concha. aprendo justamente a ter coragem de fechar a porta do armário estofado de veludo onde se acumulam sabores burgueses e seus esqueletos. toda noite é isso: uma porta aberta ao assombro. agora, já não acrescentam mais nada as justas opiniões ou as praticadas descrições sobre as coisas, trabalhos ou acontecimentos. também não basta a mea culpa sem percorrer a implacável distância entre umbigo e ponta do nariz. esse mise en abyme, esse mínimo de nós duas, eu e mercadoria, eu e arte, eu e escrita. recupero algumas das notações das aulas e percebo que fechar a boca ou olhos pode ser atividade essencial para colocar, do nariz, uma ponta ínfima para fora, conselho de Nelson Felix: arte esse negócio construído de loucura. um espreitar-se em ato, espécie de bootstrap. alças com as quais agarro-me. sampler a ascensão do Barão (o de Munchausen).
penso em vínculos: fragilidade e força de rastros. sobrevém o novo projeto: um trecho de memória. uma via de miolo de pão. me ocorrem as rosinhas que o pai encantava à mesa na hora das refeições. mastigo família, tradição e propriedade e regurgito pão e circo. perfuro a bisnaga. arranco seu miolo. trago da moça com a flor na boca que distribui, ao rés do chão, uma série de micro rosinhas. é o vulto de pirandello que fulgura na armadilha de quem olha por onde pisa. há, ainda, descrição. ainda o exercício viciado das mãos durante a cambalhota. tropeço e tombo, de nariz. Manoel e suas acrobacias exploratórias de manuscritos conversa ao lado de Joaquim. superpiruetas furam lona e beijam nuvens. nunca lhe prometi jardim algum, apenas inicio com flores, as que posso, as de miolo de pão que ao se consumirem se abrem ao inapreensível: rota sem valor de uso ou troca. maxicambalhota em autodissolução. talvez contra-força que vislumbra “valor de contorno e valor próprio, belas especulações do espírito humano que não deixam de ser uma maneira inteligente da moça brincar com o infinito.” sigo a notação da nuvem. uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravoooo!
“a vida nunca tá pronta estamos sempre desenhando ela” bifi -las cabaças
miolo
“... obras de arte podem ser feitas de muito pouco, quase que só de atitude, insistência e abertura para o mundo. obras podem sobreviver mesmo no limite da escuridão e da invisibilidade. não se deve confundir isso, no entanto, como elogio da precariedade da vida e, muito menos, com argumento de que tudo é aceitável em contextos de crise.” ... obras leves e agudas feita de osso, lâmina apenas. são obras-atitudes gestos
sobre a exposição “osso” realizada no segundo semestre de 2017 no instituto tomie othake, texto de Paulo Miyada
alaine passard
artistas como cidadãos que aqui se posicionam.
nunca me sinto mais feliz com uso meus dedos num gesto novo, ou num novo sabor, isso é maravilhoso
poéticos no espaço, o político nesse caso, é antes de tudo o engajamento dos
sem conseguir apanhar pedras, joĂŁo marcou, desta vez, o caminho com pedacinhos de miolo de pĂŁo.
(...) uma vez o poeta manuel bandeira trouxe-me um álbum, um desses álbuns em que as moças costumam reunir um pouco das idéias e dos sentimentos de pessoas mais velhas e de sua proximidade, trouxe-me para que nele escrevesse um pensamento meu. de posse do livro, percorrendo as suas folhas encontrei o desenho de uma flor, uma flor maravilhosa tomando quase toda página, e bela, caprichosamente trabalhada, e que era, creio eu, da autoria de portinari ou de santa rosa, não me lembro mais; entretanto, ao pé dessa flor extraordinária havia uma outra, pequenina, de três pétalas, pobremente traçada, ao lado dela uma legenda: “cada um faz a flor que pode”, assinado: lúcio rangel. pois, prezado amigo, cabe também aqui no nosso caso dizer: cada um faz a flor que pode. e, como, para quem conhece o assunto, possa parecer que quero ficar com a autoria da flor suntuosa, isto é, a grande flor de trinta metros, e, aos outros, atribuir a empobrecida, a triste, de três pétalas somente, ou seja, de três misérrimos vãos, procuro explicar que no caso presente a flor soberba e convencida é precisamente esta e não aquela, é esta, a que certamente apareceu depois de cálculos matemáticos muito exatos, com circunstâncias difíceis de ‘randwert’ e ‘eigenwert’, isto é, de valor de contorno e valor próprio, belas especulações do espírito humano que não deixam de ser uma maneira inteligente de o homem brincar com o infinito. CARDOZO, Joaquim Maria Moreira. Conversa com um velho amigo. 1957. Esse manuscrito foi retirado da tese de Manoel Ricardo de Lima, “joaquim cardozo : um encontro com o deserto” Doutor pelo curso de Pós-Graduação em Literatura, linha de pesquisa Textualidades Contemporâneas, área de concentração em Teoria Literária, Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, sob orientação da Profª Drª Maria Lúcia de Barros Camargo.
trata-se de se afeiรงoar ao
nunca
poder do jardim, ao poder do bosque, onde a flor prometida adormece, onde se respira obscuro perfume da terra. maria filomena molder
lhe prometi
jardim
flores
algum
em algum ponto é preciso traçar uma linha demarcando o que não se deve aceitar, o que não pode ser ultrapassado sob nenhuma circunstância. paulo miyada
p or isso todas as figuras da gênese das plantas, sobretudo as da floração, aparecem com privilegiadas para a compreensão de qualquer processo formativo, imagem necessárias, onde o mistério do corpo se expande sem se realizar, visibilidade do instinto adormecido ou do sonho em estado imóvel. maria filomena molder
flores à todos os envolvidos margarete esteves . aodilea freitas . gabriela bernardo . gabriele esteves . caio carvalho . mauro bustamente . mônica cruz . rafael ayres . joao hisse . lais
correa
.
francisco
cintra.
denise
moraes
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sonia
salomão
.
yolanda esteves . ricardo paes . julia studart . manoel ricardo de lima . cadu costa . bia petrus . fred carvalho . marcelo campos . marisa flórido . efrain de almeida . fernanda pinto . elizabeth franco . laura consenday . cláudia lyrio . artistas e curadores que participaram da exposição limiares agosto de 2017