Cigarro: de mocinho a vilão

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a vilão CIGARRO: CIGARRO: de mocinho

de mocinho a vilão

Por Camila Schäfer Jornalista (MTB 15120) camila@trcomunicacao.com

Há 60 anos, ele era tido como símbolo da transformação e mudança social: tirava as pessoas de seu universo simples, banal, para um mundo cheio de glamour; oferecia às mulheres sua emancipação; transformava os homens em verdadeiros símbolos de virilidade. O cigarro foi o herói de muitas gerações, salvando as pessoas de rótulos como “careta”, para oferecer-lhes o status de pessoas cultas, de ar superior. No cinema, bastava algum personagem entrar em cena que o cigarro, ou outros derivados do tabaco, também estavam lá. Com tanta exposição, não havia como evitar que as pessoas fumassem, e os números só foram aumentando. Mas mesmo depois de todo esse tempo de encanto, o mocinho acabou se tornando vilão e quem o desmascarou foram os médicos. Cientes dos males que o cigarro causa às pessoas, eles começaram a alertar os fumantes. Campanhas anti-tabagismo foram criadas, assim como medidas oficiais, e hoje qualquer imagem que faça alusão ao ato de fumar é rapidamente banida dos meios de comunicação. Seguindo essa corrente iniciada há algumas décadas, a revista Matéria de Saúde dá a partida para sua primeira campanha de conscientização: a do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio. O tabagismo é uma doença e é considerado pela

16 | maio de 2011 |

Organização Mundial da Saúde (OMS) como a principal causa de morte evitável em todo o mundo. Somente no século passado, ele foi responsável por 100 milhões de mortes no planeta. Atualmente, são 5 milhões de óbitos por ano, o que corresponde a mais de 10 mil mortes por dia. No Brasil, esse vilão é responsável por cerca de 200 mil óbitos anualmente, o que corresponde a 23 mortes por hora. Para se ter uma ideia, hoje o tabagismo mata mais que a soma das mortes causadas por AIDS, cocaína, heroína, álcool, suicídios e acidentes de trânsito. Mas afinal, por que as pessoas fumam? Para a Mestre em Psicologia Arianne de Sá Barbosa (CRP 07/15985) são principalmente os fatores sociais que levam as pessoas a consumirem os derivados do tabaco. “Em 90% dos casos, o início do consumo de cigarros ocorre na adolescência, por volta dos 13 aos 15 anos. O convívio com pais ou colegas fumantes (principalmente mais velhos) e os pesados investimentos da indústria do tabaco são fatores muito relevantes. Outros motivos individuais que podem contribuir para o início do consumo de cigarros estão relacionados com a hereditariedade e a presença de transtornos psicológicos, tais como ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade. Na dissertação que defendi, mostrei que fu-

mantes são mais impulsivos do que fumantes em tratamento e não-fumantes. Esse resultado mostra que pessoas impulsivas teriam mais propensão a fumar”, revela Arianne. Do primeiro cigarro para o vício é um pulo. Isso porque a nicotina, que é o princípio ativo do tabaco, age no sistema nervoso central causando dependência. Dessa forma, o tabagismo é classificado como doença e está inserido no Código Internacional de Doenças (CID-10) no grupo de transtornos mentais e de comportamento devido ao uso de substância psicoativa. Segundo a psicóloga, as pessoas se tornam dependentes do cigarro por três fatores: o genético; o ontogenético (engloba todos os fatores individuais do paciente que foram se desenvolvendo a partir da sua história de vida) e o fator cultural. “Há poucos anos, ser fumante não só era socialmente aceito, mas estimulado. Muitas vezes simbolizava status, liberdade, virilidade. Felizmente, com as campanhas de redução do tabagismo, essa realidade vem mudando. Fumar já é visto como um mau hábito”, afirma Arianne. MALEFÍCIOS DO TABACO Não resta nenhuma dúvida quanto ao potencial negativo do tabaco. Milhares de trabalhos mostram que o consumo de seus derivados causa quase 50 doenças diferentes, principalmente as cardiovasculares (infarto, angina), o câncer e as doenças res-


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