SAUDADE A DOIS
A saudade tem prazo de validade. Não pode permanecer muito tempo guardada. Não pode permanecer muito tempo não sendo correspondida. Depois de aberta e fora do convívio, assim como o leite, a saudade azeda. E não há memória refrigerada para conservá-la. Quando passa da hora, aquela falta ansiosa e comovente é capaz de se tornar ironia e sarcasmo. O suspiro se transforma em ofensa — nos enxergaremos tolos e burros por confiar cegamente em alguém e esperar à toa. Reclamaremos nossa idiotice por termos feito uma vigília em vão, por termos esquecido de viver. Já não queremos que o outro volte, já desejamos que ele nunca mais apareça em nossa frente. Violentaremos as lembranças, fecharemos a reza.
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