Morgana Masetti
Ética da alegria no Contexto Hospitalar
Ética da alegria no Contexto Hospitalar
Morgana Masetti
Ética da alegria no Contexto Hospitalar
Copyright © 2014 Morgana Masetti Copyright © 2014 desta edição, Letra e Imagem Editora. Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Grafia atualizada respeitando o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Revisão: Patrícia Sotello Ilustrações: Paulo Von Poser
Morgana Masetti Ética da alegria no contexto hospitalar / Morgana Masetti; ilustração de Paulo Von Poser. – Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2014. ISBN 978-85-65800-01-3 1. Medicina. I. Poser, Paulo Von. II. Saúde. 2. Título. CDD 610
www.foliodigital.com.br Folio Digital é um selo da editora Letra e Imagem Rua Teotônio Regadas, 26/sala 602 cep: 20021-360 – Rio de Janeiro, rj tel (21) 2558-2326 letraeimagem@letraeimagem.com.br www.letraeimagem.com.br
Sumário
Apresentação 7 Humanização: verniz para o capitalismo médico? 9 O olhar do palhaço 17 Discursos cifrados 27
A força dos encontros 31 O palhaço, o que é? 43
A poesia, no hospital 53
Visão dos personagens 59
Você pode segurar minha galinha? 73 Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998) 83 Bibliografia 111
Sobre a autora 115
Apresentação
Ética da alegria no contexto hospitalar resulta do trabalho e das observações que a psicóloga Morgana Masetti realiza sobre os
processos vividos por pessoas que estão sob tratamento em ins-
tituições hospitalares.
Sua inquietação a respeito da eficácia do papel que deveria
exercer nesse ambiente e as dúvidas sobre a forma como poderia se aproximar dos fluxos das experiências vivenciadas pelas
pessoas internadas começaram a encontrar respostas quando
conheceu Wellington Nogueira, um artista que atuava como pa-
lhaço com crianças hospitalizadas.
Ao vê-lo como Dr. Zinho, médico besteirologista interagindo
com os jovens pacientes, começou a perceber um pulsar dife-
rente nas relações que se estabeleciam naqueles quartos e corredores. Desde então, a autora exercita uma reflexão cotidiana
sobre o trabalho dos Doutores da Alegria, uma entidade sem
fins lucrativos, fundada em 1991, reunindo artistas profissionais
que desenvolvem sua arte em hospitais nas cidades de São Paulo,
Rio de Janeiro e Recife. Esse esforço de reflexão, o convívio com
artistas e profissionais da saúde e o testemunho dos aconteci-
mentos ao longo dos anos resultaram, em 1998, no livro Soluções de Palhaços – transformações na realidade hospitalar (Ed. 9
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ética da alegria no contexto hospitalar
Palas Athena), em que se relatam as histórias dos encontros en-
tre os palhaços e as crianças.
Agora, com seu novo trabalho, concebido inicialmente como
sua Dissertação em Psicologia Social, Morgana Masetti avança
em seus questionamentos, busca indícios das transformações
que ocorrem com os profissionais de saúde influenciados pela atuação dos Doutores da Alegria.
Seu maior desafio, entretanto, é apontar ao leitor os princí-
pios em que esse grupo de artistas baseia-se para interagir com o ambiente hospitalar, como constrói seus valores e sua ação, e quais os fatores desse universo que podem auxiliar na qualidade
das relações estabelecidas nos hospitais e no desenvolvimento do modelo médico atual.
Ética da alegria no contexto hospitalar fala-nos de encontros.
Mas procura, sobretudo, questionar se o trabalho desenvolvido
pelos Doutores da Alegria pode incentivar os médicos, enfermeiras e demais profissionais a adotarem uma ética da alegria em suas práticas profissionais.
Humanização: verniz para o capitalismo médico?
“Por mais que o homem se estenda em seu conhecimento, por mais objetivo que pareça a si mesmo, enfim,
nada tirará disso a não ser sua autobiografia.” Nietzsche
A organização Doutores da Alegria nasce nos anos 1990 e leva artistas de teatro e de rua para dentro de hospitais. Duas vezes
por semana eles se integram à rotina de enfermarias infantis.
Vestindo-se de palhaços que acreditam ser médicos realizam
exames e consultas em todas as crianças internadas, seus acom-
panhantes e profissionais da saúde.
Pioneiro na iniciativa, Dr. Zinho, possibilitou que muitas
crianças vissem pela primeira vez um palhaço e um espetáculo
teatral. O hospital, então, começou a experimentar fronteiras
pouco usuais à sua realidade, reinserindo questões da vida à sua rotina asséptica e controlada. Naquela época, a figura do
palhaço era algo incomum ao cenário das macas e enfermarias.
Graciosamente destoante, habilmente desconcertante e não
ameaçador. Propunha aos adultos que cruzavam seu caminho
um tempo de reflexão para juntar mundo médico e circo. Movimento representativo em uma época em que o pensamento mé-
dico evoluía no conceito da humanização. Evoluir? Na ocasião
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ética da alegria no contexto hospitalar
não pensávamos nisso, o programa precisava sobreviver em um
contexto ainda inerte para investimentos em ações culturais. A
semente encontrou um solo propício. Dra. Emily, Dra. Ferrara,
Dr. Dog, Dra. Sirena, Dr. Krebes Croc, tantos outros vieram e
vivem com suas inúmeras histórias sobre crianças.
O tempo passou e o terceiro setor começou a crescer no país.
Hospitais intensificaram a inclusão de atividades “extracurriculares” aos diagnósticos e intervenções técnicas. A partir desse
movimento vieram: Dr. Escrich, Dra. Manela, Dra. Florinda Jar-
dins, Dr. Zorinho, Dr. Zapatta Lambada… e mais histórias. His-
tórias da vida de um povo. Da saúde do país.
Desta maneira, com o que víamos nos hospitais, pelos de-
poimentos dos artistas durante nossas reuniões, com os relatórios de atividade fomos estabelecendo parâmetros para cons-
trução de uma ética que valida nossa prática. Não foi apenas
a decisão de levar o palhaço ao hospital. Agora era também o
que o hospital nos contava e sobre o que nos convidava a pen-
sar. A miséria da morte e da vida. A violência do filho espan-
cado, dos órfãos da AIDS. Mães correndo de assaltantes pelos
corredores do hospital com o filho atado ao fio do soro. Recémnascidos ainda com cordão umbilical chegando da lata de lixo,
criança apanhando na saída do hospital dentro de veículo de
instituição que abriga menores. Mãe que mora em uma cadeira ao lado do leito de seu filho por meses. Falta de remédio, falta
de sabão, de mãos. E a proposta de continuar a se surpreender com esse cenário. Essas imagens passaram a nos habitar junto
com o respeito aos profissionais de saúde, que têm suas carreiras repletas dessas imagens e, mesmo assim, continuam a
investir nas relações humanas.
Hoje, tanto tempo depois, a humanização ancora como pa-
lavra que ordena essas ações: brinquedotecas, bibliotecas circulantes, contadores de histórias, recreacionistas, música, artes
Humanização: verniz para o capitalismo médico?
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plásticas. O número de voluntários cresceu e a quantidade de
grupos que se utilizam da máscara do palhaço também.
Nossa inquietude é muito maior que quando iniciamos o pro-
grama. O questionamento é inevitável: será que todo esse caminhar, aliado ao reconhecimento crescente dos departamentos
de humanização, fará com que corramos o risco de voltarmos
para casa e dormirmos tranquilos, acreditando ter dado conta da complexidade do trabalho que nos propusemos? Chegaremos
a criar uma ISO da humanização para os hospitais? Dez passos
para humanizar? Sinceramente espero que não. Continuemos a
cuidar deste mistério que são as questões humanas, honrando a complexidade do tema.
A atualidade nos traz angústia e oportunidade. A angústia:
perceber que, irrevogavelmente, estamos conectados em uma
enorme rede, tudo o que acontece no mundo nos afeta, nos atinge visceralmente. A guerra no Oriente é
também nossa guerra, a pobreza da África
fala diretamente à nossa riqueza. Acordamos para a nossa conectividade com outros fusos, com a sociedade planetária da qual fazemos parte. Esse movimento silencioso acontece dentro dos nossos
carros, quando o sinal vermelho nos
mostra saquinhos de bala desempregados pendurados no retrovisor à espera
de um real. Nós, preservados em ar condicionado, retornamos à consciência dos
blocos que constituem o mundo: ricos e
pobres, separados por um vidro fechado e portas travadas. A chamada a essa
consciência é palavra de ordem em fóruns sociais, publicações, em nosso tra-
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ética da alegria no contexto hospitalar
jeto cotidiano. Hoje sabemos que nossa ação individual pode
influenciar mudanças, não precisamos mais esperar governos
ou instituições. Essa lucidez leva-nos para o outro lado: a opor-
tunidade.
Por que falar disso tudo neste momento? Porque essas ques-
tões norteiam a opção de ser um Doutor da Alegria, que vai muito além da exigência de um nariz vermelho. Faz com que
pensemos na educação do futuro, no mundo em que as crianças de hoje viverão, na construção de uma legislação planetária mais justa. Esse cenário é complexo, e não é nosso propósito
analisá-lo neste trabalho, mas contextualiza nossos anseios para encontrar a medicina do futuro.
O conteúdo de um livro nunca se esgota, vive do momento e
da incompletude. Mas pode inspirar. Este fala do esforço do homem em se entregar para a única condição possível de existên-
cia: a da relação humana. Quem nos ajuda a lembrar disso são
os palhaços. Dra. Valentina, Dra. Zuzu, Dr. Zabobrim, Dra. Juca
Pinduca, Dr. Cizar Parker, Dr. Severino e outros que transitam invisíveis pelas próximas páginas, que nos reconectam com essa potencialidade. E com a essência da medicina, esse fascinante
universo por onde anda nosso imaginário sobre vida e morte, espaço em que os sentidos do olhar, ouvir e tocar fazem circular os afetos e os desejos impressos nos corpos.
Por que, então, a necessidade de o palhaço ocupar esse cená-
rio? Talvez porque a medicina, em seu movimento de capitalização, esteja se afastando desse sentir, ameaçando a integridade
e saúde das pessoas à medida que tal riqueza cultural é priva-
tizada, inserida em uma lógica econômica. Porque é possível que a atuação do palhaço ajude-nos a constatar o absurdo que a apropriação desse imaginário pode significar.
O aumento pela procura de terapias alternativas mostra que
parte da sociedade está buscando formas de questionar a medi-
Humanização: verniz para o capitalismo médico?
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cina oficial. Um momento de ambiguidades, em que convivem
o modelo médico capitalista implantado em hospitais-hotel (ou serão hotéis-hospital?) e hospitais públicos. Um tempo em que
parte do mal-estar da civilização moderna está ligado ao desaparecimento de espaços que incentivem e deem sentido às forças
e questões da vida. Época em que a depressão aparece como se-
gundo problema mundial de saúde, primeiro nos próximos anos.
Conjuntura em que o utilitarismo médico fortalece a insatisfação no atendimento ao permitir que a atuação médica deixe de ser continente para tais questões.
É por todo esse intrincado panorama que a humanização pode
colaborar para a medicina se religar com o envolvimento social da experiência médica. Como atores desse movimento estamos
diante de um enfrentamento entre a lógica da medicina como fenômeno social e a lógica capitalista. Peter Pál Pelbart ajuda-nos a
entender um pouco esse movimento. Em seu livro A vertigem por um fio ele revela como o capitalismo, mediante a incorporação de
tendências, gestos, modos, opiniões, devora fronteiras e elimina exterioridades, o que Deleuze chama de “as forças do fora”.
Essas forças ajudam-nos a colocar o pensamento em estado
de exterioridade. A saúde, por meio da loucura, exemplifica essa
possibilidade. A forma como o louco vê o mundo deixa o homem em contato com uma exterioridade enigmática, na qual ele pode
se confrontar com outros lados de si mesmo. Com a lógica atual,
no entanto, loucura e inconsciente incorporam-se ao cotidiano
banalizado. A cada dia novos rótulos médicos para comportamentos bizarros são descritos e medicados. Esses comportamen-
tos podem, então, circular no mercado com poder de venda e
compra de tratamentos, ganhando um espaço de circulação so-
cial, perdendo sua exterioridade. Segundo Peter, uma grande
evidência da incorporação dessa exterioridade ao humano como
processo seria o irônico nome de humanização, por meio dele e
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ética da alegria no contexto hospitalar
sua dialética diabólica teremos conseguido o impensável: abo-
canhar nosso próprio exterior. Qualquer tentativa de reflexão sobre saúde percorre esses sinuosos e sutis caminhos.
A experiência artística, na qual se baseia este livro, pode nos
ajudar a criar linhas de fuga, exterioridades para algumas ques-
tões da medicina atual.* Porque, apesar de movimentos do mercado tentarem transformar a arte em fast food cultural, o verdadeiro artista busca a essência da arte, que está acima e além
dessa condição. Indagação é seu trabalho, criação de mundos,
libertar olhares de formas estabelecidas, propor exterioridades
mediante novas composições. É o que podemos aprender com
os doutores que a arte inventou: Dra. Quinan, Dr. Comendador
Nelson, Dr. João Grandão, Dr. Manjericão, Dra. Sakura, Dra. Du Porto, Dra. Rubra, e outros que virão.
* N.E.: Esta obra resulta da Dissertação em Psicologia Social defendida pela autora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 2001.
Humanização: verniz para o capitalismo médico?
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Aconteceu na sala de quimioterapia com Dra. Quinam, Dr. Manjericão e Maria, paciente de 16 anos O casal de palhaços adentra a sala lotada. Dr. Manjericão esquece
o primeiro mandamento do cavalheirismo: damas primeiro. Dra.
Quinan tem forte acesso de mágoa que a leva, entre choros e lamentos, a um grande desabafo em meio aos pacientes. A paciente Maria pergunta: Por que você não se mata?
A artista por trás da máscara pensou por um segundo e resolveu
encarar o tema da morte na frente das crianças. Embarcou na ideia
de Maria concordando que essa seria a única solução para TAMA-
NHA tragédia. Após decidir com os presentes a melhor forma de
suicídio, subiu em um banco pronta para se jogar no abismo. Nes-
te momento, Dr. Manjericão começou a tocar seu violão e cantar:
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar... ”
Manjericão tentava fazer sua parceira mudar de opinião en-
quanto Quinan, na sua ideia fixa de suicídio, pronunciava seu testamento. Devagarinho, um coro de vozes foi aparecendo e a “Garota de Ipanema” tomou conta da sala. Enfermeiras pararam seus
afazeres para ajudar com suas vozes. Dra. Quinan, claro, desistiu do suicídio para se reconciliar com Manjericão.
E a bossa foi esta: em cima da cadeira ou à beira do abismo, em
qualquer limite que se trace entre realidade e fantasia, vale a pena arriscar um espaço para falar das coisas da vida.
(Trecho editado do relatório de atividades
da artista Marina Quinam)
O olhar do palhaço
fome pela metade Oliver Sacks, neurologista inglês, relata o caso da Sra. S. em um
de seus livros. Sexagenária, depois de um derrame teve sua in-
teligência perfeitamente preservada, mas uma porção do hemisfério cerebral direito foi afetada com uma alteração curiosa em sua percepção visual. Perdeu por completo a ideia de esquerda
em relação a seu corpo e ao mundo que a rodeia.
Ela reclamava que as enfermeiras não lhe serviam sobreme-
sa ou café. Só percebia que estava na sua frente quando sua
cabeça era virada de modo que o restante da bandeja ficasse à
vista, na metade preservada de seu campo visual. Às vezes, ela se queixava de que as porções eram pequenas demais, porque
só comia o que estava na metade direita do prato. Não via a me-
tade esquerda. Da mesma forma, só fazia a maquiagem do lado direito do rosto.
Sacks descreve esse quadro como de difícil tratamento, pois
o paciente não percebe o que está errado. É capaz de compreender, intelectualmente, sem conseguir alterar sua percepção.
Esse caso nos ajuda a pensar como o mundo depende de nos-
sa percepção. Não existe realidade objetiva exterior a nós. Ela é
construída a partir de nossos valores e crenças que determinam 19
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ética da alegria no contexto hospitalar
elementos que escolhemos como foco do que experimentamos como realidade.
De alguma forma, todos temos um pouco da Sra. S. Come-
mos só a metade da porção que está à direita do prato, certos
de que seja a porção completa. Abdicamos da sobremesa, na certeza de compreender o que se passa à nossa volta. Nosso foco
de atenção fixa-se sobre determinados fatores, delimitando um
pequeno campo de resultados que para nós parece a totalidade.
Algumas experiências ilustram muito bem essa verdade. É
o caso da pesquisa realizada com um grupo de oito pessoas
mentalmente normais, internadas em diversos hospitais psi-
quiátricos dos Estados Unidos (Rosenham, 1994). Essas pessoas
relatavam a mesma queixa fictícia: escutar vozes. Com exceção da mudança de nome, profissão e local de trabalho, as demais
circunstâncias de vida permaneceram inalteradas. Todas foram classificadas como esquizofrênicas.
Após nervosismo inicial, em consequência da internação, os
pseudopacientes passaram a comportar-se como de hábito, em
seu cotidiano. Embora mentalmente sadios, nenhum deles foi
O olhar do palhaço
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desmascarado pelas equipes profissionais que lhes prestavam
cuidados. Só os demais pacientes perceberam o que era evidente.
Após algum tempo, receberam alta, com diagnóstico de esquizofrenia em remissão.
Para Rosenham, que participou pessoalmente do estudo, a
classificação de esquizofrênico foi poderosa a ponto de levar
à desconsideração de muitas características comportamentais.
Por mais sadias que fossem, o que se procurava era fazer com
que correspondessem à realidade construída pelo diagnóstico.
Nesse caso, o fato de a normalidade dos falsos pacientes não
ter sido detectada foi definido como “resultado positivo errôneo tipo-2”, denominação usada por técnicos em estatística. Trata-se
da tendência de os médicos considerarem doente alguém sadio,
mais frequente do que diagnosticar sadio alguém doente (resul-
tado errôneo tipo-1). As razões desse fenômeno estão ligadas à
prudência e risco de não detectar uma doença. O profissional
tende a se concentrar na origem do distúrbio, raramente atento
à multiplicidade dos estímulos que rodeiam o paciente. Rosenham usa a experiência para demonstrar o poder do diagnóstico
para construir realidades, revelando que este diz pouco sobre o paciente e muito sobre a forma como ele é observado.
Esses fatores apontam-nos alguns elementos importantes das
relações que se estabelecem dentro do hospital. A valorização
das informações do prontuário médico constituirá num elo im-
portante do que acontecerá entre equipe médica e paciente. A
decodificação em saber médico, do que acontece com o paciente, construirá a realidade hospitalar e as possibilidades de relações.
Clavreul diz que o encontro possível será o do médico com a instituição médica e com seu próprio saber.
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ética da alegria no contexto hospitalar
construção da realidade Como entende Glasersfeld, as teorias do modo como opera a cognição mostram que a consciência reconhece como fatores
importantes da percepção a repetição, a regularidade e a cons-
tância. Antes de tudo, porém, deve decidir se os eventos se referem a um mesmo objeto. Isto determinará o que será considerado como unidade e como as relações entre objetos criarão estruturas no fluxo da experiência.
Em seguida, vem o desafio de apresentar as percepções em
determinada sequência lógica, para que façam sentido e sejam
compartilhadas. Disso resulta o que se vivencia como realidade.
Ela integra, inclusive, comparações entre percepções passadas
e presentes, e conduz atenção especial às percepções que se re-
petem.
Assim, as experiências são fixadas e se constrói a previsibi-
lidade dos fatos. O que chamamos de realidade, como se fosse
algo externo é, portanto, segundo Heinsenberg uma natureza
imposta por nossa maneira de suscitar perguntas.
Esse modo de produzir perguntas, por sua vez, nos leva a ob-
servar não o todo, mas partes. Como a Sra. S., compreendemos
intelectualmente essa dinâmica, mas temos dificuldade em virar nossas cabeças para o lado do prato que não enxergamos.
a outra metade do prato A arte tem o poder de ajudar a virar, delicadamente, nossa atenção para a outra metade do prato – aquela que deixamos de ver
– como acontecia com a paciente de Oliver Sacks. Percebemos, com o trabalho dos Doutores da Alegria, que um palhaço se
relaciona com os fatos de acordo com uma lógica particular de
O olhar do palhaço
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pensamento. Um fato não tem, necessariamente, relação linear
com outro; ele cria novas relações e com isso é capaz de alterar a percepção do que ocorre no hospital. O posto da enfermagem
pode se transformar em um balcão de pizza, por exemplo. Ele
quebra com a lógica da previsibilidade dos fatos ao propor so-
luções inusitadas para determinada situação, como multar uma
maca no corredor do hospital por excesso de velocidade. Sua
presença possibilita a percepção dos fatos por novos parâmetros, amplia a compreensão da realidade construída.
Seu sistema de crenças, valores e comportamentos têm efei-
tos favoráveis na saúde do paciente. Mudança positiva no comportamento, maior colaboração com exames e tratamentos, me-
lhora na comunicação, diminuição de ansiedade com internação
são alguns dos efeitos relatados por mães, pais, médicos e enfer-
meiras em crianças que receberam a visita dos artistas (Soluções
de Palhaços, 1998).
O palhaço ajuda a refletir sobre alguns fatores cruciais das
relações humanas que se desenvolvem nos hospitais. A possi-
bilidade de enxergarmos essas questões é proporcional à nossa
capacidade de perceber o quanto participamos da construção da realidade cotidiana.
que palhaçada é essa? O termo clown (versão em inglês para a palavra palhaço) é usualmente utilizado, no Brasil, para designar a atuação desse personagem em espaços não circenses, como o teatro e o hospital. Uma
das explicações está ligada à necessidade de diferenciar o traba-
lho do palhaço no picadeiro de outros palcos. No circo, ele tem a
gestualidade adequada à grande área e à plateia numerosa: mo-
vimentos amplos, voz projetada, maquiagem carregada. No hos-
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ética da alegria no contexto hospitalar
pital, o trabalho envolve outras características: a plateia muitas
vezes se resume a uma pessoa, em condição debilitada e em um ambiente amedrontador exigindo que os movimentos, timbre de
voz e figurino dialoguem com essa realidade. Outro motivo para uso do termo clown está ligado ao início do trabalho dos Doutores
da Alegria. Naquela época existia um grande desconhecimento
ou uma compreensão pejorativa sobre o papel do palhaço. Chamar alguém de palhaço era uma forma de depreciação ou ofensa.
Sua figura, como animador de festas e eventos, muitas vezes re-
metia a um caráter distante do que é a essência de sua atuação.
Ao longo do tempo, porém, houve uma grande mudança nes-
ses padrões. Desenvolveram-se programas para formação na
arte do palhaço, ao mesmo tempo em que a propagação do tra-
balho dos Doutores da Alegria ajudou a resgatar o verdadeiro
caráter do termo palhaço. Embora ainda se use a palavra clown,
é importante esse trabalho de resgate. Afinal, as crianças hospi-
talizadas esperam pelos palhaços. É assim que se referem a eles.
indícios de mudanças A mitologia grega conta que Zeus, o deus supremo, olhou o mun-
do e decidiu que era necessário organizá-lo. Deu nomes e funções a todas as coisas e seres. Os animais foram agrupados por espécies: peixes lançados ao mar e aves ao céu. Ele também classificou plantas segundo sua natureza e lugar. Todos os seres
passaram a viver segundo seu próprio tempo e ciclos, associados aos movimentos da lua, das estrelas, à ação do sol, dos ventos e da chuva. Com isso, do Caos se fez o Cosmos.
Zeus convocou outros deuses para mostrar-lhes sua criação.
Quase todos se admiraram de seu poder e sabedoria. A exceção
foi Apolo, deus da perfeição e harmonia, que apontou a existên-
O olhar do palhaço
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cia de uma falha. Zeus, aborrecido, quis saber qual era. Apolo
mostrou um ser bípede e disse: o homem, que o Senhor escolheu
para ser síndico do Cosmos, é um ser que esquece. Assim, ele
em pouco tempo esquecerá sua origem divina, pensará que é o senhor do Cosmos e destruirá florestas e animais.
Zeus concordou e procurou uma solução para o problema.
Escolheu entre as mortais a bela Mnêmosis e teve com ela cinco
filhas, as musas: Arte, Filosofia, Amor, Poesia e Música. Todas
acessíveis aos seres humanos. Portanto, sempre que entram em
contato com uma delas, recordam sua origem divina e podem cumprir melhor o papel que Zeus lhes designou no Cosmos.
Eis a função da arte: dar expressão humana às leis da natu-
reza. Segundo Ostrower (1988), ao dar forma a alguma matéria,
o homem também configura e formata seu ser íntimo. Por isso, a mensagem contida nessas formas continua relevante para nós.
Por sua característica intuitiva, sintética e expressiva, a arte
tem a capacidade de antever fatos. Muitos movimentos científicos, antes de serem ordenados verbalmente, ganharam expressão por meio de trabalhos artísticos que captaram tendências
de acontecimentos antes de sua materialização. A presença de
artistas nos hospitais pode apontar mudanças no pensamento
médico. Compreender esse fenômeno requer uma aproximação
do universo da arte, segundo seus próprios referenciais. Ela não se insere na arteterapia e em alguns métodos de mensuração.
A arte como terapia anula a arte (Ostrower, 1998). Na si-
tuação terapêutica, o paciente produz imagens como meio de
expressão e alívio de tensões. O terapeuta faz uma leitura sem
considerar qualidades artísticas. A arte é vista como um elemen-
to facilitador de comunicação de alguém, nunca como lingua-
gem própria, com qualificações especiais. Por isso, a arteterapia é um contexto extra-artístico. Na psicanálise, as formas visuais
também apontam para fora, em direção a algum significado
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ética da alegria no contexto hospitalar
alheio. Interpretações em busca de diagnósticos não valorizam
a existência da arte como linguagem própria, relacionada à ex-
periência humana.
Já a linguagem artística é expressiva, não ilustrativa. Nela, a
forma é igual ao conteúdo. A adequação das formas comprova
sua verdade interna. É da expressividade da imagem que resulta
a qualificação da arte. Apontando para formas criadas, um artis-
ta responde à pergunta: o que você quis dizer com sua imagem? Essas peculiaridades são vitais para a compreensão do valor
de um trabalho artístico como o dos Doutores da Alegria. Cam-
po médico e artístico se diferenciam em relação à abordagem de alguns fenômenos. Na arte, a abordagem é pela síntese; nas áreas médicas, por análise.
Na síntese, os momentos de criação não podem ser repetidos.
Por mais que se repliquem as etapas de elaboração, nunca se
obterão os mesmos resultados – quase sempre não verbais e, por
vezes, contrastantes. O modelo médico, em geral, apoia-se em
sistemas verbais e etapas alternadas de dedução e indução. Aná-
lises e medições devem ser repetidas para que sua veracidade
seja reconhecida. É desejável, ainda, interpretação inequívoca
de resultados, sem margem a explicações conflitantes. São dois modos distintos de produção de conhecimento.
No universo médico-psicológico do contexto hospitalar, a
questão terapêutica é crucial. Valida práticas a serem inseridas
no tratamento do paciente. Seu resultado permite que os mun-
dos farmacêutico, médico e psicológico atravessem as portas de
entrada do hospital, e do quarto do paciente. Movimenta o avanço da medicina.
A constatação terapêutica é uma necessidade dos profissio-
nais da saúde. Ela promove a aproximação deles com a forma de
expressão artística praticada pelos Doutores da Alegria, o que
tem contribuído para a validação do seu trabalho.
O olhar do palhaço
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Ao contrário, para os Doutores da Alegria, sua atuação não
tem objetivo terapêutico, mas de interação artística. Perceber os resultados terapêuticos do seu trabalho é uma pequena parte
do potencial dessa arte inserida nos hospitais. O maior desafio
para a medicina é enxergar sob que critérios eles interagem com
o ambiente hospitalar, como constroem seus valores e sua ação.
Perceber fatores desse universo que são capazes de colaborar no
desenvolvimento do modelo médico atual e na interação com
pacientes.
Resumindo: a conexão entre universo médico e arte será pos-
sível com a compreensão de quatro aspectos: somos construtores
de realidade; arte e medicina têm peculiaridades que caracterizam essas construções; não existe uma verdade absoluta sobre
os fenômenos; a ação humana interfere de maneira vital nos acontecimentos.
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ética da alegria no contexto hospitalar
Cerimônia entre médicos O corpo estava na cama, sem vida, esperando a burocracia decidir o destino da matéria, enquanto a alma, livre de autorizações, já
tomara seu destino. Entre o corpo na UTI e a sala médica, ficava a
copa, onde se encontraram Dra. Emily, seu violão e o médico. Quer tocar?
Ele quis. Tocou músicas clássicas, dedos de músico e cirurgião.
A residente ouviu e sentou.
Que bom, música! Chorou baixinho embalada pela melodia.
Naquele momento uma palhaça pôde ver os dedos do médico
operando o momento para ficarem quietos e sentirem. Cerimônia simples e autêntica para encarar perdas e dor.
(Trecho editado do relatório de atividades
– artista Vera Abud/Dra. Emily)
Discursos cifrados
“Quem dá conselhos a um homem doente adquire
sensação de superioridade sobre ele, não importando
se eles são acolhidos e rejeitados. Por isso há doentes
suscetíveis e orgulhosos que odeiam os conselheiros
mais que a doença.” Nietzsche
O termo humanização envolve um rol de práticas profissionais –
psicologia, terapia ocupacional, brinquedotecas, redefinição arquitetônica do espaço etc. – presentes no tratamento médico de
pessoas hospitalizadas. Herança da lógica cartesiana, permitenos imaginar que o ser humano possa dividir-se em “humano” e
“não humano”, abandonando sua própria essência. Assim como
a divisão mente-corpo procurou fragmentar a alma, o significado da palavra humanização pressupõe a possibilidade de ausência de relação humana no cuidado dos pacientes. Contribui,
portanto, para a segmentação de funções dentro do hospital: psicólogos cuidam do lado emocional, recreacionista do brincar; padres cuidam da vida espiritual.
Ao afirmar que o ato fundador do discurso médico está na
separação do homem enfermo de sua doença, Clavreul (1993)
oferece pistas sobre a origem desse quadro. Ele sustenta que, 29
30
ética da alegria no contexto hospitalar
para serem incorporados à realidade hospitalar, filósofos, padres e psicólogos copiam o modelo médico. Práticas terapêuticas
dele resultantes muitas vezes tentam processar a alma humana mediante sistemas moldados no princípio da cura. Para cada
ansiedade, comportamento ou sentimento há uma denominação
clínica que tenta apaziguar a dor por meio de tratamento ou
medicação. Cotidianamente, conjuntos de comportamentos ganham diagnósticos nos consultórios e na vida dos doentes.
Mesmo as chamadas práticas “emocionais” podem reforçar a
divisão mente-corpo. Atitude visivel quando está implícito que
psicólogos e assistentes sociais cuidam do choro, morte, tristeza, enquanto o médico se dedica a tratar do corpo.
Que termo poderia definir a essência da questão generica-
mente chamada humanização? A essência desta questão está
ligada à qualidade das relações desenvolvidas entre equipe
médica e pacientes, ao que é comunicado nessa interação. So-
bretudo, ao exercício das potencialidades dos seres humanos.
Não há como separar corpo-mente, ambos integram unidade
indissolúvel. Na prática, porém, a divisão é clara. O médico tem discurso próprio, particular à sua categoria: nomes utilizados
para sofrimento podem ser dor, febre, opressão. Em muitas oca-
siões, a resposta possível ao paciente está na busca de indicado-
res orgânicos e exames capazes de registrá-los no contexto da
linguagem médica. Significa, também, que terá pouca chance de ser considerado o que não for objetivamente constatável.
Os sintomas do paciente retornam a ele após etiquetagem
médica (Clavreul, 1983) como entidades que lhe são desconhe-
cidas. Mesmo uma autópsia para fins legais, que revela uma pa-
tologia ignorada pelo portador, deverá ser categorizada como
doença ainda que não haja ninguém a quem atribuí-la. “A doença que nunca existiu na consciência do homem passa a existir na ciência do médico” (Clavreul, 1983).
Discursos cifrados
31
A etiquetagem é material para a identidade do profissional
como médico. Ao formulá-la, ele exerce sua relação com o sa-
ber. Esse conhecimento é capitalizado pelo sistema universitário, que trabalha na formação médica em estreita relação com
o saber. Clavreu afirma que não existe relação médico-paciente.
Muito menos relação médico-doença. Medicina se constrói na
relação instituição médica-doença. “O médico não fala e não in-
tervém senão enquanto é representante, funcionário do discurso médico” (Clavreul, 1983).
Clavreul é muito lúcido ao evidenciar as sutilezas dos cen-
tros de atenção da instituição médica. Porém, cria uma armadilha quando nega a relação médico-paciente. Há um enorme
esforço para superar a divisão mente-corpo, mas paradoxalmen-
te damos forma à realidade hospitalar usando a mesma lógica.
Quando se diz: é preciso ver que existe a enfermidade além do enfermo, o doente além da doença, critica-se o cartesianismo
e manifesta-se a cisão repudiada. Esse raciocínio é que avaliza o nascimento da palavra humanização.
É impossível desumanizar. Necessário é apropriar-se de suas
implicações. A relação médico-paciente existe, tão potente que
provoca doenças iatrogênicas, geradas pela forma como se cons-
trói essa interação. Elas podem surgir, por exemplo, como sintomas similares à enfermidade suspeitada pelo médico, enquanto
aguarda resultado de exames. Segundo Evans (1985), a relação
entre os dois é tão potente que os placebos (pílulas de açúcar
sem evidência objetiva de atividade terapêutica) são até 60%
tão ativos quanto as medicações. Inúmeros fatos demonstram
que formas de intermediação na relação médico-paciente po-
dem atuar sobre o corpo, seja provocando um sintoma ou ajudando no processo de cura.
Não se trata, portanto, de questionar a existência da relação,
mas sim de observar como está sendo vivida sua potencialida-
32
ética da alegria no contexto hospitalar
de. Qual é o foco de atenção que os modelos teórico-práticos
propõem para o exercício dessa relação? Que consequências ge-
ram? Atualmente, a relação é calcada na doença: gera insti-
tuições focadas ao duplo propósito de curar e segregar pacientes, defendendo-os da sociedade.
Isso fica mais claro nas doenças mentais e contagiosas. A for-
te dissociação entre os objetivos explícitos e implícitos faz com que a instituição empobreça suas relações em face do desafio de responder à segregação social proposta. Bleger afirma que as
instituições adotam a mesma estrutura dos problemas que têm de enfrentar. A dissociação mente-corpo que envolve as relações
com pacientes nos hospitais rege a própria instituição. Todo em-
penho é para construir a realidade a partir da doença e não do desenvolvimento de saúde. O que existe, então, é a instituição dos profissionais de doença.
A força dos encontros
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma
infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais
comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente
faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma
tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Manoel de Barros
Para Espinosa, quando um corpo encontra outro corpo, uma
ideia outra ideia, pode acontecer que este encontro se componha para formar um corpo mais potente, ou que um decomponha o outro diminuindo sua potência de agir. Os efeitos dessas
composições e decomposições geram paixões alegres ou tristes.
A alegria resulta da ideia que se encontra com nossa alma e aumenta nosso poder de ação, nossa potência. A tristeza surge
quando algo ameaça nossa própria coerência, diminui nossa energia.
Tudo que está a serviço da opressão, sustenta Espinosa, ali-
menta paixões tristes. As piores são esperança e medo, quando
utilizadas como formas de captura do desejo: medo dos castigos
e esperança das recompensas atuam como mecanismos de con-
trole para a organização de instituições e sociedade.
33
34
ética da alegria no contexto hospitalar
Nietzsche investe contra outra paixão, para ele a maior pro-
dutora de doenças: a piedade. Na sua concepção ela ajuda a preservar valores negativos do homem, uma vida reativa, prisio-
neira da conservação e, sobretudo, da culpa. As paixões tristes
estão retratadas na relação com o paciente já que não se encon-
tra espaço na medicina além do sofrimento que se denomine
espasmo, obstrução ou outro termo médico. Quanto ao resto, o médico só pode ter vagas palavras de compaixão e simpatia que
dizem mais respeito à caridade que a medicina (Clavreul, 1983).
Dois fatores contribuem para que o hospital seja propício a
essas relações. O primeiro está ligado à visão aristotélica de
saúde que fundamenta a concepção moderna do assunto. Em
Aristóteles, a saúde do corpo implica meio-termo ou justa medida, equilíbrio que exclui extremos representados por excessos e
faltas. O objetivo é conquistar a justa proporção para garantir
o governo da razão sobre o corpo. O amor às ideias leva à cons-
trução de uma alma racional. Um corpo saudável e equilibrado é comedido.
Segundo Foucault, a partir dessa visão de saúde, o Ocidente
construirá a hermenêutica do homem do desejo. Desejo, agora sentimento inferior que coloca em risco o meio-termo ditado
pela razão, se transformará em objeto de interpretação e maldição, seja nos confessionários com padres que salvam almas, seja
nas práticas terapêuticas que visam à cura do doente mental. A
lógica do desejo fundamentará a psicanálise na busca de equili-
brar a vontade do neurótico; fundamentará todas as práticas que busquem o homem médio de bom-senso.
O segundo fator que leva paixões tristes para dentro da ins-
tituição hospitalar está ligado à sua própria origem: história reproduzida na caridade, segregação e disciplina. Os conventos
beneditinos foram berço do esforço de recuperação institucional dos enfermos e se desenvolveram como escolas médicas. A
A força dos encontros
35
fé cristã acompanhava o significado da assistência aos doentes
com liturgias, doações, trabalho voluntário de fiéis que serviam a Cristo. Depois das grandes epidemias que invadiram a Europa
do século 11 e das pestes do século 14, esses locais passaram a
segregar mendigos, imigrantes e portadores de moléstias conta-
giosas.
Ao longo dessas fases, foi antevista a necessidade de um mo-
delo disciplinador dos procedimentos institucionais com normas
de higiene para controle dessas doenças, efetivamente desenhado a partir do século 18. Concomitantemente, o sistema epistemológico da doença passou a ser a botânica, considerada um
fenômeno natural e o indivíduo sadio visto como quem sofre
certas ações da natureza (água, ar, alimentação). A cura, então, dependia do controle desses fenômenos.
Ambos os processos – mudança do foco da intervenção médica
e disciplinarização do espaço médico – estão na origem do hos-
pital moderno. Levaram o médico para o interior dos hospitais, responsável por sua organização. O mundo do doente tornou-se,
portanto, um espaço em que há registros individuais pormenorizados. A disciplina assume função terapêutica importante.
Já estão presentes nesse cenário componentes para a cons-
trução do hospital moderno. O paciente tem um papel passivo
respondendo às condutas normativas de higiene, organização
do espaço e controle do meio ambiente para assegurar sua recu-
peração. São influências do legado religioso: a doença carrega sentido de culpa a ser expiada pela dor e prestação de serviços
humanos como forma de garantir o reino dos céus. Esses fa-
tores tiram do paciente a possibilidade de relações simétricas, apoiadas na sua potência. Colaboram na instituição de relações
baseadas em submissão, medo e piedade. Reforçam o foco do atendimento na solução de sintomas e não no desenvolvimento de saúde.
36
ética da alegria no contexto hospitalar
Diante deste cenário se inserem os Doutores da Alegria com
uma atuação artística que permite aos profissionais repensar algumas questões da visão moderna de saúde. A possibilidade
decorre da própria essência do trabalho dos artistas, ligado às
paixões alegres. Uma visão de saúde apoiada na aliança entre
corpo e pensamento – pensamento influente na construção de
um corpo ativo. Espinosa retomará esta maneira pré-socrática de viver e pensar, dizendo que, se o corpo padece, o mesmo
ocorre com o pensamento e vice-versa: se o corpo age, o pensamento também age. Nessa concepção, portanto, o pensamento
é inseparável de um modo de vida livre, um corpo dinâmico
e apaixonado pelos elementos. Assim, as relações acontecem a
partir do princípio de similaridade, em que um corpo afeta o ou-
tro e ambos constroem o conhecimento. Esse modo de pensar a saúde fala da força dos encontros e constitui o trabalho artístico
dos Doutores da Alegria.
ética da alegria Um palhaço e uma criança se encontram. O cenário que os en-
volve é pintado de branco e azul. Nele há aparelhos computadorizados, luzes que piscam, ligadas a um incontável número de
fios que dão ritmo ao andar das pessoas que ali trabalham. O espaço da cama da criança delimita esse encontro. Envolta pelos
lençóis arrumados e dentro das grades que a protegem, a criança enfrenta um desafio: viver. Ele está sendo cumprido ao ritmo dos
aparelhos, na velocidade dos homens e dentro do mistério que
habita seu pequeno corpo. O palhaço crê na força desse encontro.
Acredita que brincar é a melhor forma de encontro. Estes não tem tempo definido para acontecer: dependem da intensidade
dos olhares e permissão para o jogo. E aqui o jogo já começou,
A força dos encontros
37
nele é difícil dizer quem brinca com quem. Tão intenso que brin-
car, nesse encontro, é sinônimo de viver (Masetti, 1998).
Os estoicos definem “boas misturas” como encontros em que
indivíduos coexistem, sem que um destrua a natureza do outro
de maneira a permitir que a potência de cada um se manifeste.
Quanto mais um corpo expressa sua capacidade, mais próximo
está de sua essência. Isso depende da capacidade de compreender e desmontar valores morais estabelecidos como superiores à
vida. A vida é que norteia valores.
A potência se repete nos encontros, manifestando sua inten-
sidade, dando um brilho próprio e único a cada acontecimento.
Os corpos misturam-se em relação permanente, sempre produzindo encontros. Tudo o que existe então são corpos compostos da qualidade de afetar e serem afetados por outros corpos.
Aí reside a força do trabalho dos Doutores da Alegria: na qua-
lidade de sua interação artística, eles são promotores de boas
misturas. Esse atributo acontece na atuação do personagem do
palhaço, pela forma como percebe a realidade e se relaciona
com o mundo à sua volta. Ele é movido pela curiosidade e flexi-
bilidade, pela capacidade de aceitar erros e transformá-los em recursos, pela postura de enobrecer a atitude do outro, por mais absurda que pareça ao olhar racional.
A capacidade do palhaço em incorporar qualquer fato ao mo-
mento favorece a possibilidade de lidar com eventos geradores
de tensão. Ele ajuda a lembrar a vulnerabilidade da condição
humana em um ambiente onde se exige perfeição. Com isso fa-
vorece solução de conflitos e dificuldades. O palhaço nos leva diretamente ao sentimento, sem análises. Desse modo, aumenta
nossa capacidade de nos emocionarmos, estimula que se aceitem muitas possibilidades e diferentes reações expandindo limites
de comportamento. Sua ação é caracterizada pela imprevisibi-
lidade, ensina que nada persiste e favorece nossa ligação com o
38
ética da alegria no contexto hospitalar
presente. Ajuda a desconstruir a lei hospitalar, sem impor ideias ou gerar servidão porque ele não quer governar. Esse modo de existir do palhaço leva à boas misturas.
É possível a incorporação de uma medicina feita de boas mis-
turas se considerarmos que, ao abrir a porta do quarto, junto se
apresenta uma conduta ética diante do olhar que iremos encon-
trar. Ética, aqui, é vista como a forma de administrar potência
interna. Nossa natureza saberá selecionar encontros que a forta-
lecem. Diferente da moral, que dita o que se deve fazer ou ser, a ética fala de agir em favor da potência de ação do corpo.
Nesse sentido, é necessariamente ética da alegria. Porque só
a alegria nos aproxima da ação. A capacidade de exercitar essa
potência interna é, em si, um importante indicador de saúde. Por meio dela buscamos bons encontros que favoreçam a ampliação
de nossa potência e liberdade. Já não se trata do profissional
tecnicamente bem-preparado, capaz de separar sua vida profissional da emocional, mas daquele com coragem de abandonar
o esforço para separá-las, misturando-se a cada novo olhar que
encontra. Isso exige uma reinvenção do ponto de vista educativo
Nada tem a ver com educação formal circunscrita às paredes da escola: deve ultrapassá-la e também a nós.
A arte, nesse contexto, tem um papel fundamental. Gera ca-
pacidade de parar de explicar nossas experiências, passando a decifrá-las na própria obra artística. A arte opera por meio do
fazer e, com isso, sugere abandono do processo analítico sobre
possíveis sofrimentos e questões vividas por alguém hospitalizado: transporta nossa vida para olhar, falar, ouvir. Desloca o foco
da verdade que deve ser comprovada segundo determinada lógica, para que se aceite a experiência e força da própria experiência humana que, por sua beleza, torna a verdade incontestável.
Quando vemos os Doutores da Alegria em ação, temos certe-
za de que algo de importante acontece. Talvez sua maior contri-
A força dos encontros
39
buição seja tocar a medicina atual, sem crítica opressora, mas
com um atraente convite: ligar-nos diretamente a um alimento que a alma humana necessita.
A alegria é como um rio: corre incessantemente. Parece-me
ser esta a mensagem que o palhaço procura transmitir-nos.
Devería-mos participar no fluxo e movimentos contínuos,
não pararmos para refletir, comparar, analisar, dominar, mas continuarmos a fluir sempre e sempre com a música. Tal
é o dom da renúncia que o palhaço realiza simbolicamente.
A nós compete torná-lo real (Miller, 1997).
liberdade de criar O aspecto lúdico é um fator importante no trabalho dos Doutores da Alegria. Suas interações estão relacionadas a propostas
de jogos e brincadeiras adequados à idade da criança e a seu
processo comunicativo.
Winnicot diz que brincar é universal e próprio da saúde, faci-
litando o crescimento do indivíduo, os relacionamentos grupais
e a comunicação. Segundo ele, o sentido de liberdade e de criati-
vidade está diretamente ligado à possibilidade de a criança viver o lúdico. É no brincar e talvez apenas no brincar, que a criança ou
o adulto fluem sua liberdade de criação. A experiência cultural
que o adulto desenvolverá é derivada da brincadeira. A possibi-
lidade de compreender a extensão do brincar está na aceitação
que isso não precisa ser organizado ou interpretado. Tem vida
própria.
Winnicot faz uma crítica à psicanálise, que tenta fazer uso
do brincar como método interpretativo. Para ele, a necessidade
de organização do conteúdo da brincadeira afasta o terapeuta
40
ética da alegria no contexto hospitalar
da possibilidade de encontro com o paciente. O brincar só existe enquanto é espontâneo, não submisso às leituras terapêuticas.
Para o autor, a magia do jogo nasce na intimidade de um
relacionamento digno de confiança. Nesse contexto, a criança
brinca de maneira rudimentar, amorfa ou desconexa, um estado que ele chama de “não integrado”, mas que é condição fértil
para o viver criativo emergir. A origem desse espaço de cons-
trução do brincar e, futuramente, da experiência cultural do adulto está ligada à relação inicial entre mãe e filho. Se a mãe
é capaz de cumprir algumas etapas de necessidade do bebê, o
brincar poderá se instalar na vida dessa criança. De acordo
com essa visão, o desenvolvimento da saúde está muito ligado à possibilidade de viver encontros com experiências vividas
integralmente.
O conceito de saúde desenvolvido por Winiccott tem muita
ressonância com o que Espinosa fala das paixões alegres. Ambos
acreditam que viver criativamente constitui um estado saudável e que a submissão é uma base doentia para a vida.
É muito elucidativa a forma como Winiccott aborda a questão
das relações humanas. Para ele, a vivência de autonomia é am-
bígua, aparentemente paradoxal. Dependência e independência coexistem na maleabilidade do espaço relacional, unidas, como
uma mola capaz de expansão. Confiança é um elemento fundamental para que a criança experimente esse distanciamento da mola dentro da relação. A maturidade estaria, então, nesse
movimento em direção à autonomia, mas não se completa por sermos também dependentes. Um recado importante para quem
está imerso nas relações humanas no seu cotidiano. Há sempre
o risco no âmbito do discurso psicológico de confundirmos au-
tonomia, profissionalismo com indivíduos como unidades fechadas. Faz mais sentido aceitar que o convívio é a única zona em que podemos nos inserir como humanos.
A força dos encontros
41
O atendimento à saúde está imerso nessas questões, entre
elas a confiança, que é vital no cotidiano hospitalar. Quantas
cirurgias ocorrem, sem que o paciente saiba quem é seu médico? Que número de procedimentos são efetuados, sem que o
indivíduo seja informado, em detalhes, sobre o que acontecerá?
Quantas medicações são ministradas sem o menor espaço para
perguntas sobre o que se está tomando? Consideradas passividade e submissão a que se obriga o doente para viabilizar essa dinâmica, isso também requer grande dose de confiança.
Como está sendo vivido esse espaço de confiança? Pensar
saúde nessa visão implica tornar a qualidade do contato com
o paciente tão importante como qualquer outro procedimento
médico. Essa é a região em que se insere o trabalho do profissional dentro do hospital. Deste desafio se constrói o tratamento
médico: desprender-se do conceito de ausência de sintomas para
o fascinante tema da vida humana. Ao atuar no hospital, o pa-
lhaço e sua experiência lúdica oferecem oportunidade para que nos apropriemos desse desafio.
potência do encontro Como o palhaço se situa na chamada “humanização” dos hospitais? Os artistas propiciam interações que funcionam como uma lupa sobre a questão da qualidade das relações desenvolvidas
porque o palhaço só se concretiza na relação com o outro.
Ele existe, do ponto de vista emocional, como um reagente para
o que o outro lhe causa. Seu corpo responde sem censura ou racionalidade às presenças. É nessa confluência de emoções que sua ação como personagem acontece.
Um Doutor da Alegria, com sua maneira tão peculiar de agir,
permite às equipes de saúde refletir sobre suas próprias relações
42
ética da alegria no contexto hospitalar
profissionais. O resultado dessa interação pode ser observado na pesquisa feita em encontro que reuniu médicos, enfermeiras
e artistas de quatro hospitais onde os Doutores atuam (Masetti, 2001). Muitos manifestam o desejo de ter as habilidades
do palhaço. Outros, que reconhecem ter habilidades artísticas,
lamentam não ter espaço para exercê-las dentro do hospital. O palhaço, portanto, estimula a vontade de realizar a relação em sua potencialidade.
Uma das características da atuação dos Doutores da Alegria
é transformar um acontecimento “aparentemente negativo” em
recurso de trabalho que leve ao riso ou outro lugar emocional.
Um tropeço, um tombo, um “não”, tudo é incorporado no trabalho interativo e transformado em potência por intermédio da ação.
Nessa habilidade há uma metáfora importante para a situa-
ção de doença: é possível desenvolver outro patamar mediante a dor. Ela é um dos acontecimentos, mas a realidade do paciente
vai além dela. É necessário incorporá-la, de maneira a aceitar sua existência e ir adiante. Essa possibilidade nasce da potência
do encontro. É uma atitude diversa da que o hospital, habitualmente, proporciona a seus pacientes. A atividade dos Doutores
da Alegria nos insere na necessidade de colaborar com esse cenário.
A força dos encontros
43
Falta o título do caso Fomos visitá-la quando estava para receber alta. Ela segurava papel e caneta durante nossa consulta. Aproveitamos para escrever
um atestado de alta na sua testa, claro porque atestado é na testa
e abochechado na bochecha. Foi nesse momento que Lia me disse:
“Doutora, me dá seu telefone para eu convidá-la para meu aniversário em abril?”
Taquei a mão na caneta e lhe dei meu telefone. Fiquei emocio-
nada com o convite e com os cinco meses de antecedência. Fiquei
imaginando o dia que receberia seu telefonema. Eu poderia estar no trânsito ou vestida a paisana em alguma fila de banco. Não
sei se vocês sabem, mas nós besteirólogos andamos disfarçados no
nosso dia a dia, pois o cotidiano não comportaria todas as tolices
de nossas vestimentas besteirológicas.
Normalmente chegamos com esses disfarces para trabalhar.
Quem nos reconhece fala: “Nossa, como você está diferente!” Eu
nunca sei se é elogio ou não. Tem outros que nos conhecem como
besteirólogos, mas quando estamos à paisana passam sem nos cumprimentar... Por isso preste atenção, você pode estar esbarrando
em vários palhaços à paisana sem perceber. E, cuidado, não aceite imitações, pois nem todos que estão disfarçados são palhaços.
(Trecho editado de relatório de atividades da artista
Danielle Barros – Dra. Leonoura Prudência).
O palhaço, o que é?
Na Antiguidade, o povo egípcio construiu na Ilha de Agilkia, em
Aswan, um templo dedicado a Ísis. Dentre as várias imagens
representadas, a uma só era permitido aparecer de frente: o pa-
lhaço Bess, deus da alegria. Quatro mil e quinhentos anos antes
de Cristo, as pessoas já armazenavam o conhecimento de que a alegria é algo importante para o equilíbrio humano.
Em 403 a. C. , um ateniense que procurasse a cura se dirigi-
ria ao santuário de Asclépio, em Epidauro, um centro que mesclava arte, medicina e filosofia no tratamento de seus pacientes.
Ali, entre várias atividades voltadas para o processo de cura, os
pacientes ouviam concertos, iam ao teatro e à “Casa dos Comediantes” onde, pelo simples fato de escutar piadas, libertavam a razão e recebiam os benefícios da força curativa do humor.
No século XII, graças à teoria de Hipócrates, a influência dos
afetos sobre o organismo foi formalmente incorporada pela me-
dicina. Humorista era o galenista que seguia os princípios dessa doutrina médica. O humor era um dos quatro principais fluidos do corpo, que se julgavam determinantes das condições físicas e mentais do indivíduo.
Na Idade Média, Rabelais relacionou o riso com a liberação
das necessidades humanas do mundo por destruir a seriedade
unilateral e as significações incondicionais, abrindo novas pos45
46
ética da alegria no contexto hospitalar
sibilidades ao pensamento e à imaginação. Machline (1992), re-
tratando as concepções fisiológicas sobre o riso, cita o conselho
do Regimen Sanitatis de se prescrever um metafórico Doutor
Alegria (pessoa encarregada de fazer rir) para assegurar boa
saúde. Outra atitude terapêutica habitual naquela época era ler
ou ouvir histórias engraçadas.
No século XVI, a fisiologia aristotélica considerava o riso
uma das muitas paixões da alma ou da mente responsáveis por
alterações no corpo. Assim, como sede de todas as funções vitais, o coração se expandia ou contraía, dependendo da natureza da
paixão. A alegria dilatava e aquecia o organismo, a tristeza con-
traía e esfriava o corpo. Em consequência, essa concepção pre-
gava a teoria do justo meio e o governo da razão sobre o corpo
através do riso modelar. “As pessoas dotadas de grande inteli-
gência (...) não se permitem rebentar de rir por ser uma forma imprópria de comportamento” (Machiline, 1992: 104).
No século XVII, o dramaturgo italiano Dario Fo fala da cen-
sura imposta ao riso pelos jesuítas depois da Grande Reforma.
O cômico desaparece, tal como outros personagens que fossem fonte de contestação. O autor acredita que a risada detona o
senso crítico de maneira a distanciar as pessoas de fanatismos,
tornando-as superiores a qualquer forma de imposição. O riso ameaça o poder.
Historicamente banido de valores ocidentais e do conceito de
saúde, o riso persiste, ao longo dos tempos, por intermédio da fi-
gura do palhaço. Na cultura hindu existe uma associação arcaica entre Ganesha (divindade com cabeça de elefante) e a figura
do palhaço, relacionando-o com sorte e fortuna. Em muitas sociedades indígenas americanas, os palhaços estão presentes até
a modernidade, em cerimônias do calendário religioso. Entre os
Hopis e os Tunis, por exemplo, o sacerdote tem cargo elevado. Com frequência, sua atuação refere-se a tabus ou tudo que não
O palhaço, o que é?
47
se atenha a aspectos
formais da religião:
sexualidade, escato-
logia,
deformidade
física e mental, tra-
ços de caráter gro-
tesco e perversidade. os
Segundo Duarte, palhaços
como
personagens circenses
inseridos na genealogia
do “cômico da representa-
ção”, desde os primórdios, têm a função
de salvar e manter, no corpo dos indiví-
duos de uma sociedade, aspectos ineren-
tes à vida saudável. Seguindo a lógica circense, mais do que intenções racionalistas de um teatro fundado na verossimilhança, a lógica dos palhaços, assim como a dos ilusionistas, acrobatas
e contorcionistas, tinha como objetivo divertir e despertar emoções. Não se visava representar nada, nem propor uma verdade
oculta sob as aparências. Simplesmente se cultivava o riso, a surpresa e a ilusão.
O cineasta italiano Federico Fellini também ressalta a impor-
tância da atuação do palhaço nos aspectos sombrios do homem:
um espelho que reflete sua imagem de maneira grotesca, deformada. Nessa imagem, de dor e alegria, aparece de modo como-
vente e cômico alguém que se encontra em um mundo desconhecido e, não obstante a ignorância, acredita poder enfrentá-lo. Para André Sarcey, o palhaço traz o espírito de um universo
poético e filosófico. Representa a trajetória da vida, do nascimen-
to à morte. Causa pânico e riso na sociedade organizada, anarquiza rituais sagrados. Tenta elevar-se do plano terreno e costurar
48
ética da alegria no contexto hospitalar
os espíritos. “Os palhaços são filósofos porque as pessoas não são capazes de olhar o mundo com transparência” (Sarcey, 1999).
A figura do palhaço, portanto, situa-se dentro de uma ampla
rede em que coexistem civilizações diferentes através dos tem-
pos. Ela emerge de áreas obscuras ou reprimidas (sexo, poder,
escatologia), o baixo na linguagem de Rabelais, para nos conectar com o alto, a própria natureza humana. É com toda essa
carga de significados que ela agora ocupa um espaço dentro dos
hospitais. Como diz Vera Abud, a artista dos Doutores da Ale-
gria: “O clown aparece em uma sociedade ou lugar onde falta harmonia. Ele reflete a Instituição, onde há algo estranho, que
precisa ser revisto”.
sorriso, movimento e convergência Tinha de fazer rir as pessoas. Não era difícil fazê-las chorar, tão pouco fazê-las rir; descobrira isso há muito tempo, antes
mesmo de sequer ter sonhado entrar para o circo. Mais altas, porém, eram suas ambições – queria dotar os espectadores
de uma alegria que se revelasse imperecível (Miller, 1997).
A cultura egípcia construiu seus templos com uma arquitetura muito particular. A entrada era sempre uma estrutura larga e
alta, que dava acesso a espaços mais estreitos e baixos, até desembocar em uma sala bem pequena onde, em uma mesa de
pedra, o sacerdote fazia oferendas aos deuses. A partir do acesso, portanto, iniciava-se um túnel que ia se afunilando para dar a
impressão de um caminho ao infinito. O objetivo era provocar no observador a sensação de olhar até determinado ponto em
que os olhos não podiam mais ver e, então, instigá-lo a enxer-
gar com o coração. A palavra alegria significa esse sentimento
O palhaço, o que é?
49
despertado pelo trabalho dos palhaços. Para compreendê-la, é
preciso seguir a mesma lógica da estrutura dos templos.
A tradução visível desse processo é o sorriso. Quando fala-
mos de sorriso, abarcamos essa complexidade de fatores que ten-
tamos conter através de determinadas palavras. Mas sua complexidade só se expressa se olharmos com o coração.
O sorriso denota o ponto de encontro na trajetória do pa-
lhaço e da criança (ou outra pessoa, dentro do hospital). Para
o palhaço, a trajetória se inicia no momento em que ele coloca
o nariz vermelho e obtém a permissão da sociedade para atuar sobre a lógica de um pensamento complexo, não linear, pautado
no nonsense. O nariz funcionaria como uma chave: abre a porta
para essa outra lógica. Para ter acesso a essa chave, o palhaço,
em sua formação artística, se confrontará com momentos de di-
ficuldade e superação de aspectos vistos como ridículos.
Um trabalho de exposição, desenvolvimento pessoal e auto-
conhecimento. Sarcey (1999) diz que é o momento em que o pa-
lhaço reúne coisas de infância, descobre outras formas de falar,
andar, rir, chorar, sentir. Reencontra emoções animais adorme-
cidas, sobretudo aquelas ligadas a relações afetivas. Não se tra-
ta de uma formação que busca exclusivamente o cômico, antes
de tudo é pesquisa sobre si mesmo. A convivência do palhaço
com essa outra lógica permite que o “olhar” construa, gradativamente, um novo tipo de autocontato. Trata-se de expor seu lado
escondido ou pouco aceito, oferecendo-o nas relações e incen-
tivando o outro a fazer o mesmo, ou seja, viver seu lado difícil através do encontro com o palhaço. Assim, quando as pessoas riem do palhaço demonstram que ele é eficiente nessa tarefa.
No contexto hospitalar, o sorriso resultante do encontro com
o palhaço revela que, de alguma forma, o paciente percorreu seu sofrimento e suas dificuldades e pode transformá-las.
50
ética da alegria no contexto hospitalar
Um aspecto importante da recuperação física do paciente
está relacionado à energia despendida para lidar emocionalmente com doença e hospitalização. Essas situações de crise
demandam um alto grau de elaboração. Além disso, geram
ansiedades e medos em relação ao desenvolvimento dos fa-
tos, sem falar no medo da morte. Nesse sentido, o humor aparece como recurso importante. Ele permite ao indivíduo
explorar fatos que, por obstáculos pessoais, não poderiam se revelar de forma aberta e consciente. Tal acesso permite
a liberação da energia investida no problema, que e pode
ser utilizada em outros pontos importantes da recuperação
física (Masetti, 1998).
Na risada, palhaço e paciente se encontram no ponto comum
de suas trajetórias. O paciente sabe que, de alguma forma, atra-
vés das bobagens do palhaço, pode atingir o modo cômico de
perceber sua experiência. Compartilham uma nova atitude com
relação à vida. Essa possibilidade se estende também aos fami-
liares e profissionais que participam da rotina do hospital.
O palhaço constrói sua atuação artística por onde se mo-
vimenta: corredores, elevadores, balcões de prescrição, entre
outros. Cada encontro poderá se transformar em espetáculo. O
foco é a criança, mas, ao mesmo tempo, o artista está atento à
pulsação do que acontece por onde transita.
Pesquisa por mim realizada e publicada em meu primeiro
livro. Soluções de Palhaços, de 1998, revela que a atuação do palhaço tem resultados importantes também para pais, médicos
e enfermeiras. O sorriso, ponto de encontro entre palhaço e demais pessoas, transforma-se em lugar de ação porque resulta em
conduta ativa, aumenta a potência do paciente, acompanhantes,
profissionais de saúde.
O palhaço, o que é?
51
As crianças expressam, com frequência, o desejo de que os
Doutores retornem a seus quartos. Essa expectativa está ligada à chance de vivenciar essa potência, descrita por autores como
Dilts e Simonton. Eles observam que pacientes que mantêm um objetivo de vida apresentam melhores índices de recuperação
física. Fundamentalmente, porque isso transforma atitudes passivas em ativas e gera expectativas de realização, fio condutor
para a saúde.
A cada pergunta da criança sobre a volta dos palhaços ela deseja algo, formula uma meta, religa-se ao significado do
trabalho por eles realizado, revivendo-o como um fato presente, e criando em sua mente e em seu corpo um lugar desejado (Masetti, 1998).
O movimento de recuperação do corpo resulta da conduta
ativa do organismo, que trabalha produzindo substâncias necessárias para isso. Semelhante analogia vale para o psiquismo. O sistema é único: corpo e mente intimamente ligados.
No final das interações com as crianças, os Doutores da Ale-
gria deixam como lembrança um nariz vermelho ou um pequeno adesivo colorido colado em cada rosto. Essa ação serve para
religar a criança à interação, mesmo na ausência dos palhaços.
Cada vez que vê os objetos deixados, a criança se reconecta às
brincadeiras, revivendo a experiência pela qual passou. Não por
acaso, os artistas chamam os adesivos de “pílulas de bom humor”. É uma referência à sua função psicológica: ao estimular a
memória da intervenção do palhaço servem como remédio para
a alma dos pacientes, aptos a acreditar em sua capacidade de
brincar, apesar da situação de doença e hospitalização.
52
ética da alegria no contexto hospitalar
corpo, resgate da dignidade O corpo é resgatado, pelo palhaço, como local das emoções.
Para chegar a esse objetivo, a preparação física do artista é mui-
to importante. Pequenos gestos involuntários, cotidianos são
incorporados como ações que constroem a gestualidade do pa-
lhaço. Sons, gestos de animais, resgate de elementos da natureza
buscam uma fisicalidade no trabalho artístico.
A capacidade de expressão vem da faculdade do artista bus-
car o que lhe é próprio e lhe pertence no terreno da gestualidade.
A graça é construída não pela tentativa de fazer coisas engraçadas, mas na procura da maneira ímpar de cada um fazê-lo. É um
trabalho que demanda a troca do esforço racional da conduta socialmente adequada pelo abandono à reação transparente que
o fato suscita.
A diretora artística Cristiane Paoli Quito ensina – em seu cur-
so de formação – que o palhaço não segue a regra do psicologis-
mo do trabalho teatral. O que ele recebe, torna-se imediatamen-
te transparente, se expande para fora. Ela diz, referindo-se à lógica de pensamento do palhaço: eu fiz, eu resplandeço, aceito
o que fiz, pode ser bom ou ruim, não fujo, me desarmo e recebo a reação da plateia.
Esse modo de ver a situação resulta, gradativamente, em um
funcionamento corpóreo calcado em ações simples e eficientes.
O palhaço usa bem seu corpo, o transforma em expressão artística. Sua atuação revela-se uma obra de arte: o espetáculo.
A expressividade vivida pelo corpo do palhaço transporta para
dentro da realidade hospitalar questões importantes relacionadas à estrutura física do ser humano.
Primeiro, permite valorizar corpo e emoções de pacientes e
pessoas que o cercam – algo que vai muito além de um invólucro físico preenchido de órgãos. É no corpo que pulsam medos,
ansiedades e necessidades frente à situação vivida. Há, portanto,
um resgate da intimidade entre mente e corpo. Segundo, oferece
pistas de como esse corpo pode viver de modo integrado. Muitas
vezes, nas relações estabelecidas dentro do hospital, a busca de
explicações bem como a separação da vida emocional e profissio-
nal são apresentadas como caminho para viver as questões humanas. Tudo isso exige um grande gasto de energia, enquanto o pa-
lhaço nos revela o óbvio: olha só, apenas abandone-se ao que está sentindo, pare de se esforçar e as coisas começarão a acontecer! Um pouco de tinta gordurosa, uma bexiga, uns trapos carna-
valescos e não é preciso mais para uma pessoa se transformar em ninguém. E ao mesmo tempo toda gente. Não é a nós
que eles aplaudem, mas a eles próprios. Meu velho, tenho de
me ir embora, mas antes deixa-me dizer-te uma pequena coisa que aprendi há pouco: sermos nós próprios, unicamente
nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a
isso, como alcançá-lo. Ah, eis o truque mais difícil de todos. Difícil exatamente porque não envolve esforço (Miller, 1997).
53
A poesia, no hospital
“A gramática de uma nova linguagem ainda está por ser
encontrada. O gesto é sua matéria. Ele parte da neces-
sidade da palavra mais do que a palavra já formada.” Artaud
Antonin Artaud, poeta, dramaturgo e ator francês (1896-1948) explica que a linguagem física do teatro consiste em tudo aquilo que ocupa o palco, pode se manifestar e se materializar. Isso faz
com que a poesia da língua seja substituída pela poesia do espaço. O palhaço escreve sua poesia por meio da ação. É no fazer que define sua arte. Para Ostrower (1998), na criação, as formas
realizadas por um artista apresentam-se como fatos físicos no-
vos que vão incorporando acasos captados por sua sensibilidade. Nessa visão, a linguagem da arte é não verbal.
É esse o convite que o palhaço nos faz, por meio de sua ação:
perceber a realidade pelos sentidos, abandonando uma explicação racional que valide sua existência em favor da permissão
para que a própria ação seja o contexto referencial. Esta, portanto, comprova a intensidade dos fatos.
Um corpo preenchido de emoções que podem reagir livre-
mente, a aceitação da fragilidade e a qualificação da ação como
forma expressiva colocam o palhaço em nova dimensão. Aí es55
56
ética da alegria no contexto hospitalar
tão os elementos que preparam o terreno para o artista escre-
ver poesia. Nesse estado, ele está potencialmente pronto para construir relações de qualidade. Pode trabalhar e incorporar “os acasos”.
A aceitação do eventual, de fatos que sucedem, sem buscar
controle sobre eles, sem temê-los, é mais uma fonte de alimento
para o palhaço. É o fio com que ele tecerá a riqueza de suas próprias ações, porque, com o inesperado, chega a possibilidade
de surpreender-se. O imprevisível enche os olhos do palhaço de
curiosidade e é determinante na qualidade de ação do palhaço.
O resultado final do que vai ser tecido é desconhecido no início
de sua caminhada. Configura uma surpresa para ator e espec-
tadores.
A linguagem expressiva baseada nesse tipo de ação redimen-
siona o espaço hospitalar. É o que leva todos a verem balcões
de pizza no lugar de postos de enfermagem, pontos de ônibus
nos pedestais de colocar soro, trens no ruído dos carrinhos que
carregam as refeições. A ação tira-nos do modelo analítico e
reflexivo, baseado no mundo das palavras, mistura a mente com o sangue que corre nas veias.
A ação conduzida dessa forma cria a singularidade da rela-
ção. Propõe um modelo pessoal em contraposição a um modelo
externo de conhecimento. Aqui não vale uma relação assimétrica ou a pressuposição de que profissional saiba mais que pacien-
te. Ambos constroem conhecimento no desenrolar da situação.
A técnica é vital para um bom desempenho artístico. Entre-
tanto ela torna-se invisível na relação. Mais um fator relevante
na formação dos profissionais de saúde. Na atualidade, prevale-
ce a crença de que o domínio da técnica determina o sucesso do
cuidado à saúde, superando a força das incertezas e do impre-
visível. O palhaço inverte essa relação e abre espaço para que todos façam o mesmo.
A poesia, no hospital
57
presente, tempo da interação Havia dividido as coisas em dois mundos: dos sãos e dos
doentes, dos sérios e dos não sérios. Cada coisa tinha seu
lugar. Lutava contra a morte. Quando era inevitável, deixava
de olhá-la e quem a carregava, para recomeçar a lutar em
outro corpo enfermo. O contato com aquela dupla de palhaços o colocava diante da possibilidade de outra lógica. Vida e
morte compartilhavam mesmo espaço, sem cobrar nada uma
da outra. Alegria e tristeza faziam parte da mesma história.
Deixavam de ser incompatíveis ou excludentes, e isso lhe
trazia um grande alívio, como se redescobrisse a possibilidade de trabalhar pela vida, não contra a morte.
Naquele espaço, quando ouvia o som das risadas das crian-
ças, mesmo as terminais, sabia que os opostos podiam con-
viver, e que o tempo mais importante a ser conjugado era
o presente. Naqueles momentos reaprendera o caminho para
chegar àquela parte adormecida de sua alma (Masetti, 1998).
O trabalho dos Doutores da Alegria acontece no tempo da interação artística. Essa interação se caracteriza por ações precisas, com “começo, meio e fim”, inseridas no presente. O palhaço preenche o lugar com jogos, brincadeiras, exames. Ele pode tirar um miolo mole ou fazer uma extração de sapos. Depende do que for necessário para a interação. Palhaço e criança escrevem através de ações. A precisão das ações construirá a clareza da frase. A construção de ações com começo, meio e fim recupera uma experiência vital no aprendizado da criança que Winnicott chama de “acontecimentos totais”. Elas ajudam o bebê a dominar o tempo, pois a princípio eles não sabem quando uma situação está em marcha e terá um fim. Dando ao bebê tempo para completá-la, construímos as bases para a sua capacidade de desfrutar de todas as experimentações, sem precipitação.
58
ética da alegria no contexto hospitalar
Na situação de doença, em que ansiedade e medo da morte
levam a uma regressão psicológica, é primordial que haja a possibilidade de apropriação de experiências vitais para ultrapassar
o momento de crise. Ao vivenciar um “acontecimento total”, a criança poderá se apropriar da noção de que a hospitalização
um dia terminará.
O “aqui e agora” é vital para o palhaço. Ele vive no presente.
A habilidade em passar de um assunto para outro, a flexibilidade na ação, as respostas rápidas, esse poder fluir sobre os acon-
tecimentos faz com que o palhaço viva e morra a cada momento.
Eles são almas voláteis ao fluxo dos acontecimentos e do tempo.
Essa atitude de ligação com o presente é a mola dos resulta-
dos observados no trabalho dos Doutores da Alegria. Como es-
tão no aqui agora, eles conseguem um alto grau na qualidade da
relação, porque só existe o presente, com toda sua importância, e toda a energia pode ser investida ali. Essa intencionalidade contribui positivamente para o ambiente hospitalar.
Mais uma vez, trata-se de “acordar” para essa condição da
natureza humana, essa fragilidade ou força de sabermos que a
única garantia da nossa existência está ligada ao tempo presen-
te. Não há garantias de data para morrer. Para o paciente, essa
noção é devolvida pela situação de doença. Para o profissional
hospitalar, ela é enormemente sufocada pela luta contra a morte.
A relação assimétrica (médico que sabe/paciente que se submete) e o número de situações estressantes fazem o profissional se
distanciar da sua própria condição momentânea de vida, em que
a consciência de ser também um “mortal” se perde, gradativamente, em meio ao poder de cura. O palhaço, com sua atitude,
diz: olhe, aquilo que aconteceu é passado, não é mais importan-
te, isso pelo qual vivo agora é tudo!
Ao valorizar o presente, o palhaço eterniza o acontecimen-
to. Soraya Saide, artista do Doutores, expressa isso muito bem:
A poesia, no hospital
59
“Acreditar na relação. Porque, na verdade, eu acho que a morte
é indestrutível mas a relação que se estabelece também. Então o
que fica é a relação, com ela a gente dá de dez a zero na morte”
(Masetti, 2001).
Ostrower explica que, por meio da beleza e verdade das
expressões artísticas, alcançamos um maior entendimento so-
bre nós mesmos. Os artistas são capazes de codificar leis da natureza por intermédio de seus trabalhos. Concretizados na
ação, na estrutura física/formal da imagem, todos podem ela-
borar questões subjetivas de acordo com suas vivências pessoais.
“Imagens de arte podem se tornar significativas para
cada indivíduo e, ultrapassando o momento histórico ou pessoal, tornam-se atemporais” (Ostrower, 1998).
O trabalho artístico dos Doutores da Alegria leva a
proposta do teatro um passo além. Em lugar da expe-
riência estética contemplativa – plateia sentada na cadeira – propõe a interação direta e individual em
um contexto de crise. Estabelece uma proposta
artística que coloca o espectador muito implicado na construção da obra de arte. Ele ajuda a desenhar as formas da ação a desenvolver.
No palco cênico do hospital, artistas, crian-
ças, médicos, pais e enfermeiros constroem
poesia no espaço. Da intensidade na relação, da
permissão para o jogo, da coragem para se en-
tregar ao desconhecido se constituirá a força do tempo presente. Da capacidade de lançar-se no
“aqui e agora” o momento será eternizado como obra de arte.
Visão dos personagens
“Somos o que fazemos para transformar o que somos. [...] a sempre assombrosa síntese das contradições
nossas de cada dia.” Eduardo Galeano
Médico 1: “Senta aí. ”
Médico 2: “Doutor ele está morrendo!”
Médico 1: “Eu sei. Senta, conversa, ampara até a hora de morrer. ” Hospital é uma palavra pesada, remete a experiências negativas: sofrimento, dor, morte. Local que extrai das pessoas energia de
difícil reposição. Assim, sobra pouco espaço para investir nas
relações humanas, ou elas são estereotipadas. Há, por exem-
plo, consenso de que a experiência da morte deve ser abordada.
Inúmeras vezes, os relatos mostram que a forma de interpelar a
morte soa mais como uma prescrição médica ou exame técnico.
Para o artista, ao contrário, o hospital possibilita aprofun-
dar-se nas relações, vivê-las intensamente para superar a experiência da morte. O tratamento de sucesso abrange a qualidade
das relações, vai além desta experiência. Os artistas trazem re-
latos de pais e filhos, meses internados, em que o foco da vida se
desloca para dentro do hospital. Nessas falas fica evidente que 61
62
ética da alegria no contexto hospitalar
a forma como se vive os processos de perda também indica o sucesso do tratamento.
a depressão colorida
Médico: “Temos que saber: viemos no hospital para tratar, mas esse acesso pode ser difícil. O faxineiro, às vezes, está mais ligado na criança que a gente, então por que não? Põe o
faxineiro lá, junto. É preciso ter humildade para reconhecer esse caminho de acesso. E ter o acesso.”
O hospital se materializa por intermédio das pessoas. A chamada humanização acontece por meio das relações. Elas ma-
terializam a identidade do hospital. Os processos em curso dependem da mentalidade, valores, formação dos profissionais de
saúde. Nesse ambiente, há mais resistência à mudança devido
ao conhecimento sedimentado da área médica, que se traduz
em poder. Apesar dessa atitude prevalecer, já se manifesta a necessidade de mudar comportamentos mais superficiais rumo
às questões sobre formação humana.
O real significado desta formação ainda não está claro, os
profissionais, no entanto, querem ter um acesso diferente ao paciente. Para isso, estão dispostos a abrir mão de uma posição de
poder, aprender com o faxineiro, por exemplo.
O palhaço representa um catalisador nessa passagem. Seu
papel é mostrar possibilidades para essa nova forma de relação, ajudar no caminho para acessar o paciente.
Visão dos personagens
63
a solidão do médico
Médico: “Você tem sedimentado um poder, não quer abrir
mão, essa coisa de ser Deus. Quer dizer, eu não posso chorar,
eu estou acima de tudo.”
A valorização da competência profissional, frequentemente, oculta sentimentos do paciente e do próprio médico. Sinais
de envolvimento só aparecem quando há mortes, momento em
que se revela seu grau de ligação com o outro. Mesmo que sin-
ta dor, ainda assim, não se dá o direito de expressá-la. Vive
a experiência solitariamente. Tais manobras elevam o médico
acima das “fraquezas humanas”. Assim, ele desenvolve sua iden-
tidade atendendo predominantemente às necessidades do saber médico. Contrapondo essa dinâmica há a enfermeira. Apesar do
envolvimento com questões institucionais de poder, a relação
direta com as mães colabora para ela estar próxima das crianças, enxergar suas necessidades.
Médico: “O médico é rígido em favor da ciência, mesmo que
isso prejudique a criança. Ele perde a sensibilidade. Ele defende a ciência mesmo que possa prejudicar. Vai prejudicar, mas no futuro vai ser melhor para ela. A briga entre médico
e enfermagem tem muito disso, porque a enfermeira defende a criança.”
Os artistas apontam nas falas a sensibilidade médica, em-
bora escamoteada. Evidenciam a força dos acontecimentos que
pedem passagem no cotidiano hospitalar. Levam questões relacionadas ao saber, poder, identidade profissional para o trânsito
das vivências humanas. Abrem misteriosos compartimentos, em
64
ética da alegria no contexto hospitalar
que se escondem lágrimas, medo, desamparo dos profissionais
nos momentos difíceis. Recolocam essas experiências no fluxo
da vida.
Artista: “Eu chego lá dentro pra falar com o doutor R. Falar o quê? As palavras não vinham... Eu disse: tem uma mãe
querendo falar com você. Nesse momento percebi o estado de ânimo dele. Estava arrasado, ali, sentado à mesa.”
Médico: ”A criança morreu... Eu nem tenho o que falar...” Artista: “Então percebi... ele também sofria uma perda: o paciente. Tinha envolvimento. Só que nesse momento, de dor, estava em total incomunicabilidade, até consigo mesmo.”
os alegres transgressores Médico: “Por que vocês fazem as coisas que vocês fazem, em
frente da criança entubada ou sedada na UTI? Eu não entendia. Quando via vocês nas primeiras vezes, eu olhava aquilo e pensava: está entubado, está sedado.”
O palhaço desafia as evidências dos fatos, a ordem médica instituída. Instiga a repensar atitudes. Ele se relaciona com quem
encontra, aberto para o contato. Seu ofício é feito da exposição, sem ter medo de ser ridicularizado. Seu poder está no exercício
do contato genuíno com o outro. A relação exercida com essa
potência é a base para sua expressão. Fala uma língua universal. Suas ações estão ligadas à fluidez, à conexão com a essência da
natureza humana.
Visão dos personagens
65
Artista: “O palhaço é uma atitude, um estado de espírito, a
maneira como você enfrenta um obstáculo, uma passagem mais dolorosa. A gente vê certas pessoas também com essa
atitude, independente de ser com criança ou adulto. São capazes de olhar. Olho no olho.”
A grande chave do êxito do palhaço é estabelecer relações de
confiança. A base da atuação artística: sinceridade.
Artista: “A criança é muito autêntica em tudo que faz. É
importante ser sincero, dizer, abertamente: ‘Olha, vai doer,
mas passa... ‘ Fundamental. Porque isso estabelece a con-
fiança. Sem confiança não dá para jogar.”
O palhaço constrói vínculos com a criança, pais e profissio-
nais que permitem expressar sentimentos que, habitualmente, seriam reprimidos.
Enfermeira: “É uma carta branca. Vocês liberam para a gente algumas coisas que até gostaríamos de fazer e evitamos
acreditando que seria ridículo ou não daria certo. Na verdade, a gente pensa: não vou colocar um nariz vermelho, sair gritando com a criança. Mas vocês nos provocam de tal
maneira. A gente se convence, dá sim, pra fazer também.”
O palhaço propicia o aval para médicos e enfermeiras expe-
rimentarem outras formas de viver sua identidade profissional:
possibilidades de manter a seriedade sem serem carrancudos. Sentem-se motivados a brincar, a levar alegria para as relações
estabelecidas. Assim, conectam-se ao seu lado mais sensível, emocional, ampliam sua visão racional dos acontecimentos.
66
ética da alegria no contexto hospitalar
Enfermeira: “O trabalho de vocês é para o adulto, para nós.
Na verdade, o objetivo é a criança, mas vocês acabam atuando sobre nós, os profissionais.”
Devemos considerar que um dos fatores primordiais para o
efeito do trabalho artístico é a constância do contato com o pa-
lhaço em ação. Médicos e enfermeiras desenvolvem inúmeras
ações inspirados pela interação com os palhaços. O trabalho dos
artistas desperta emoções, abre caminho para novos compor-
tamentos aos profissionais sensíveis a esta proposta. Provoca
novas atitudes. Recarrega as baterias em um ambiente voraz,
consumidor de energia diante da dor e sofrimento presentes. Médico: “Quando vocês vão ao nosso local de trabalho, há
aquela coisa dentro de nós, desde criança, que não conseguimos expressar ou pôr para fora, você vê alguém fazendo por
você. Então, naquele momento, você pensa: ‘Puxa vida, eu
não consigo ser igual, mas alguma coisa eu vejo que posso
fazer pra melhorar um pouco, tornar o ambiente um pouquinho mais humano, um pouquinho mais agradável. ‘ Vocês
saem e aquilo fica: a atitude que eu vou ter com relação à mi-
nha criança ou qualquer profissional – puxa vida! – eu vou
tentar fazer. Não vai ser igual, mas o simples fato de pensar,
tentar imitar já muda a atitude. Mal ou bem, não interessa,
isso é uma mensagem de atitude.”
os pais, na última hora Artista: “Nós entramos num quarto, começamos a cantar uma música. Era uma situação-limite. Então, o pai chegou
bem perto da criança e disse: filho, pode ir... você já sofreu
Visão dos personagens
67
muito, você não precisa mais passar por isso, vai... E o menino morreu. Na nossa frente, o aparelho fez piiinnnnnn...
o som foi diminuindo, diminuindo, até silenciar completamente.”
Os pais são personagens importantes no cotidiano hospitalar,
sobretudo nas situações de morte. Nesses momentos, os dilemas
mais comuns estão ligados ao nível de envolvimento com os pais.
Os profissionais podem ou não chorar diante deles? Qual conduta seguir quando os pacientes são terminais? Quais termos usar para expressar-se com simplicidade ao dar informações? Qual a
importância da sinceridade nos diálogos?
Em seu discurso oficial, o tema da morte busca espaço para
se integrar à identidade profissional médica. Complexo por na-
tureza parece não encontrar consenso entre os profissionais. O médico deve acompanhar o processo todo ou o considera um
dever, perdendo a perspectiva de um relacionamento construído afetivamente?
ambiente arejado A presença dos palhaços é associada à possibilidade de misturar
no cotidiano o fazer técnico ao lúdico. Promove a quebra da ro-
tina hospitalar, do ritmo dos acontecimentos. Altera a imagem da vida hospitalar.
Enfermeira: “Não precisa ser um lugar onde você só vá so-
frer... Era tudo procedimento, técnica, rotina. Com os palhaços começou a misturar um pouco isso: parte lúdica com o dia a dia técnico.”
68
ética da alegria no contexto hospitalar
A qualidade das relações exercitadas pelo palhaço possibili-
ta redimensionar a questão da morte. Ela passa a ser encarada
como parte de aquisição de conhecimento sobre o desenvolvimento humano, não como fracasso. Bem conduzida, leva ao
crescimento de todas as pessoas envolvidas no processo.
Para o setor administrativo, os palhaços são uma ferramenta
gerencial de mudança: “hoje, a rigidez da comissão de infecção, o inferno da vida de todo mundo, começa a ficar não tão rígida
assim”. Arejadora, a presença dos Doutores da Alegria propicia
condições para o desenvolvimento de outros trabalhos: contadores de histórias, brinquedotecas e outras atividades lúdicas
ligadas à arte. Tudo isso contribui para uma autêntica mudança de comportamento dos profissionais.
Artista: “Os palhaços estavam na enfermaria da Oncologia
e chegou o funcionário da manutenção. A enfermeira responsável olhou bem no quarto e falou: ‘Olha meu amigo, as
crianças estão se divertindo muito agora, o senhor vai voltar outra hora’. Ele respondeu: ‘Outra hora, você sabe, quando
der’. Ela olhou bem, viu as crianças com os palhaços e disse:
‘Quando der o senhor volta, eu não vou atrapalhar a diversão das crianças. ‘”
Médico: “Isso eu chamo do trabalho verdadeiro. Você não
consegue fazer com um trabalho teórico enorme, os palha-
ços conseguem fazer magicamente.”
Porém, o trabalho artístico ainda é visto como mágico. Existe
um desconhecimento do processo da formação artística. Como o
cirurgião, o palhaço estudou para alcançar maestria em sua prática. Isso pode dificultar a apropriação das qualidades do trabalho,
consideradas inacessíveis. O programa, aliás, tem sua entrada ga-
Visão dos personagens
69
rantida no hospital graças ao seu caráter não terapêutico. Ao mesmo tempo, os efeitos terapêuticos garantem sua sobrevivência. Médico: “O Wellington disse: olha, não temos interesse terapêutico na história.”
Médico: “Ah, então pode!!”
Os palhaços, por suas características e habilidades, podem transitar pelas zonas de poder, ambiguidades e ambivalências. Minam resistências. A presença dos Doutores da Alegria é associada a mudanças positivas, em nível bastante considerável, nos serviços prestados aos pacientes. Médico: “Depois deles, nós pudemos pintar a parede, fazer
várias coisas que não podíamos fazer antes. ”
Médico: “Nós vemos de manhã na enfermaria. As crianças
falam: ‘o palhaço vem hoje. ‘ Vai todo mundo correr, tomar
café, banho, bem cedo. As mães comentam: ‘Hoje é assim, porque o palhaço vem. ‘ Daí, quando vocês chegam, vem
aquela legião de crianças atrás de vocês. ”
os pequenos transformadores Enfermeira: “... ou você entra no ritmo da criança ou é difícil
você trabalhar.”
A criança também exerce um papel decisivo em todo esse contexto. Ela transforma a conduta habitual dos profissionais. Nem sempre, porém, a forma de efetivar esse contato é bem compreendida pelos integrantes das equipes de saúde. Eles, muitas vezes,
70
ética da alegria no contexto hospitalar
têm uma compreensão parcial das necessidades da criança: por
um lado, percebem a importância da relação, por outro a desvinculam da prática médica ou a inferiorizam diante do lado técnico. Enfermeira: “Você tem a técnica, tem que fazer o procedimento, mas em outros momentos, informais, também pode
se relacionar com a criança. Não precisa ser só no momento
do procedimento. Tem que dar punção na veia ou fazer um curativo... A gente tem que executar essa coisa, mas de que
maneira a gente pode minimizar isso? Fazendo uma bolinha
de sabão na mesma hora.”
O artista vê essa ação – fazer bolinhas de sabão – como comporta-
mento capaz de abrir caminho na relação dele com a criança. Tra-
ta-se de um recurso contextualizado. A bolinha de sabão, sozinha,
tem poder limitado. É recurso para iniciar um diálogo, uma brincadeira. Está inserida, portanto, dentro da compreensão de uma
situação de dificuldade a ser reconhecida, transposta e transfor-
mada, não minimizada. É como se o palhaço dissesse: “É difícil.
Eu reconheço, não nego, tento ir além. Junto com a criança. ”
Artista: “A gente coloca o nosso trabalho a serviço da criança, porque criança e artista escrevem uma história a cada visita.
A criança se motiva para a experiência da alegria. Se a gente
provocou bem, se fez o nosso trabalho direito, a criança quer
voltar para aquela experiência. A nossa frequência ajuda a
aumentar a constância dessa volta. Mas, na verdade, é ela quem faz a transformação, não somos nós.”
Uma dinâmica recorrente, nas falas dos profissionais da saú-
de, é a tentativa de buscar um olhar não cindido. Eles oscilam
entre dividir e integrar a forma de olhar seu trabalho.
Visão dos personagens
71
Médico: “Em outros momentos, informais, você também pode se relacionar com a criança.”
Enfermeira: “... ou até no momento do procedimento.”
O artista, no entanto, traz uma nova dimensão para a rela-
ção adulto-criança. Eleva o encontro à dimensão da potência de
vida que a criança possui, motivada pela experiência da alegria resultante de interações favoráveis. Essa potência, vivida pelo
brincar, acontece quando se coloca a arte do palhaço a serviço da criança.
A criança, com seu jeito de ser, provoca um conjunto de rela-
ções. Essa forma de expressão pede passagem para transitar no
hospital. Mostra aos profissionais que boa parte daquilo que nomeamos por depressão, hospitalismo, iatrogenias, resistências
esteja mais ligada às condições ambientais e à qualidade das
relações vividas no hospital do que às circunstâncias decorren-
tes da doença.
Enfermeira: “Porque a criança também nos transforma. Por
mais sério que o profissional queira ser, por mais que saibamos que a nossa profissão tem os procedimentos realmente
sérios, a criança mexe com a gente. Mexe na parte emocio-
nal, mexe até com a nossa conduta.”
espaço quase imperceptível A criança é que estabelece a possibilidade de encontro entre
palhaços e profissionais. Estes entendem a pediatria como uma
especialidade que requer características muito particulares. Em
tese, são pessoas mais abertas para a relação com os pacientes,
72
ética da alegria no contexto hospitalar
vivem situações em que é impossível exercer plenamente a relação com o saber médico e diretrizes de cuidados hospitalares.
A enfermeira expressa claramente essa realidade – Mesmo
que você tenha sido levada nessa direção, você não obedece. Você
não consegue obedecer, não dá pra obedecer – a maneira como
fala soa uma súplica em relação ao papel para o qual foi treinada. A criança, com sua maneira própria de ver o mundo, abre
uma fenda nos alicerces construídos pelo saber médico. Detém a
atividade cotidiana e automática. Faz pensar. Nessa brecha, pro-
fissionais e palhaços podem se olhar e autenticamente realizar uma troca. Nesse pequeno espaço, quase imperceptível, dentro da complexidade do saber médico, se encontram os subsídios
para refletir e avançar em conhecimento.
Enfermeira: “As nossas atitudes, às vezes, em relação a algumas coisas são extremamente infantis. Não infantil por ser
infantil, mas, ao resgatar aquela criança que nós não perdemos nunca, que se manifesta até nos momentos sérios. Não
morreu, crescemos, mas isso não morreu. Porém temos tra-
balhado muito, considerando que hospital é uma coisa muito
séria, tudo o que você faz é muito sério. Então você é levado
numa certa direção. Entretanto, quando você trabalha com
criança, mesmo que você seja levado nessa direção, você resiste. Você não consegue obedecer. Tem uma coisa que está
ali borbulhando, pronta para vir à tona. O fato de o hospi-
tal ser uma coisa séria, ficamos em dúvida se é conveniente
mudar de atitude. E quando aparece um grupo assim meio
louco”
Visão dos personagens
73
Falta o título do caso Quando se aproximava da porta da UTI, depois de cumprir seu
trabalho da manhã na enfermaria infantil, Dra. Emily viu Maria, mãe de Denise, internada muitos anos por causa de um problema
renal. Sabia que seria um encontro difícil. A menina morrera no
dia anterior e seu pai, transtornado pela dor da perda, se suicidara ao receber a notícia. Ele e a esposa, de tanto conviver com a equipe
do hospital, tinham concentrado seus afetos ali, dentro da UTI, onde a criança era tratada. Tão presente e íntimos, eles viraram
ajudantes dos palhaços.
No trajeto que separava uma da outra, a Dra. Emily pensava na
dor daquela mãe. Sem tocar no assunto, Maria informou que precisava falar com o médico que cuidara de sua filha. Já tentara conta-
to via interfone, sem sucesso. Pedira ajuda para duas enfermeiras e, mesmo assim, não obteve resposta. Dra. Emily prometeu ajudá-la: — Eu vou chamar Dr. João.
Mas você volta – insistiu a mãe – porque eu já pedi para várias
pessoas que entraram aí e não me deram retorno.
Olha, vamos fazer assim: eu vou deixar minha galinha aqui de
refém, para provar que eu vou voltar – disse a Dra. Emily tirando
a ave de plástico de sua “maleta médica”.
Sem saber explicar por que, a Dra. Emily percebeu que o gesto,
tão simples e inesperado diante da situação, deixou Maria confiante de seu retorno. Assim, entrou na UTI à procura do Dr. João.
Soube que ele estava na sala de descanso e caminhou até lá. Tinha
um grande carinho por ele, pessoa especial, muito ligada a seus pacientes. Ele se envolvia de tal maneira que chegou a adotar uma
criança de quem cuidara, abandonada no hospital pela mãe. Ao
chegar à porta do aposento, Dra. Emily pediu permissão para entrar e o encontrou sentado, braços apoiados na mesa, semblante transtornado.
74
ética da alegria no contexto hospitalar
— Dr. João, a mãe da Denise pediu para dizer que precisa falar
com o senhor.
Ele mal conseguia articular as palavras. Respondeu, com voz
triste:
— Mas a criança... ela – morreu.
Dra. Emily compreendeu, então, que ele mesmo ainda estava
tentando se apropriar do que tinha acontecido. Mergulhado em sua própria dor, ele não conseguiria olhar para a mãe da pequena paciente. Nem argumentou, apenas se despediu e fez o caminho de
volta, pensando como contaria para Maria o que estava acontecendo. Mas, para sua surpresa, ela não estava mais ali, fora embora levando a galinha de plástico!
Tempos depois, Dra. Emily a encontrou visitando a equipe, com
a qual mantinha uma forte ligação. Maria lhe disse que, inexplicavelmente, o fato de receber a galinha de plástico como refém fez com que ficasse mais tranquila e decidisse ir embora para casa. Ela
sabia o quanto aquela figura era valiosa para a Dra. Emily, por
ter vivenciado muitas brincadeiras e “rotinas médicas” envolvendo sua filha.
(Artista dos Doutores da Alegria – trecho editado
da entrevista realizada com médicos, enfermeiras
e artistas do Programa Doutores da Alegria)
Você pode segurar minha galinha?
Como pode uma galinha de plástico desempenhar um papel tão
importante nessa situação? Parece incrível, aos olhos da razão,
que isso possa ocorrer. Qualquer profissional que tentasse res-
ponder à necessidade daquela mãe, procuraria um arsenal de
palavras (ainda que mentalmente, sem expressá-las) capazes de acalmar um pouco sua dor. O gesto de deixar algo de grande
valor para a Dra. Emily gerou de imediato um espaço de confiança. É desse ponto de partida que se constrói o trabalho dos Doutores da Alegria.
Importante refletir a respeito. A confiança, na relação palha-
ço-criança, nasce do que pode ser feito no tempo e espaço em que a relação acontece. Olhar, estar presente, e, principalmente
atuar a partir do que se apresenta como necessidade, para a
situação ou para o outro. Os profissionais delegaram (ou acre-
ditam nisso) esse espaço de confiança à instituição médica. É o nome do hospital que diz se o paciente pode confiar. O nome
da escola de medicina ou do plano de saúde. Os profissionais
envolvidos no tratamento entendem que, ao abrir a porta do
quarto do paciente, a relação está garantida por essas premissas.
Passam, então, direto aos procedimentos. Porém, quando saem para o corredor, inúmeras vezes, são pegos por uma insatisfação
indistinta, não localizada.
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76
ética da alegria no contexto hospitalar
Os palhaços nos relembram que o papel fundamental da rela-
ção é propiciar que algo possa (ou não) ser expresso. A formação médica, porém, dificulta isso. O espaço da relação é preenchido
com explicações. Talvez, como poderia ter acontecido no caso
da Sra. Maria, com justificativas a respeito das razões que levaram à falta de sinais vitais no corpo de sua filha. A psicologia,
por sua vez, trataria de analisar as dificuldades inerentes à perda, à dor que levou seu marido a tirar a própria vida. Nada disso, no entanto, aconteceu. De fato, o que Maria recebeu foi uma
galinha de plástico para segurar. A pergunta é: os profissionais estão dispostos a perceber que em certos casos tudo o que é
preciso é uma galinha?
O terapeuta que não consegue perceber a comunicação de
um absurdo próprio do paciente sem querer organizá-lo, perde a oportunidade de contato com o paciente devido à
necessidade de encontrar sentido onde esse não pode existir
(Winnicott, 1975).
Quando o profissional executa seu trabalho centrando a téc-
nica como único alicerce da prática do seu dia a dia, perde a possibilidade da cena inusitada. Porque, nessa perspectiva, hospital
vira doença e sua identidade fica restrita a prescrever remédios,
exames, promover intervenções. A possibilidade de contato, en-
tão, fica atrelada a minimizar a dor ou outros desconfortos físicos. É fazendo isso que ele se reconhece profissionalmente. En-
tretanto, se ele tem coragem de se abandonar à constatação de que a vida é maior que qualquer explicação plausível, que saúde
vai além da remissão de sintomas, que, dentro do hospital, ele
é mais que sua identidade profissional, então há espaço para o
encontro, e a técnica pode ser um elemento dentro da comple-
xidade da vida.
Você pode segurar minha galinha?
77
Esses fatores parecem existir na imaginação dos profissio-
nais de saúde. É o que revela o estudo que realizei em 1997 com
um grupo de profissionais em preparação para atuar em um
novo hospital, que almejava desenvolver novos padrões de re-
lacionamento com a criança. Foram realizadas entrevistas com
médicos, enfermeiras, técnicos em farmácia, pessoal de limpe-
za e de atendimento ao público, para levantar suas concepções sobre o atendimento ao paciente hospitalizado. Ao longo dos
depoimentos, surgiram indícios sobre valores relativos ao am-
biente, à medicina e relações com os internados.
a complexa transição Qual é o imaginário que os profissionais têm sobre o hospital?
Eles transitam por duas dimensões que, na época das entrevistas, foram denominadas Hospital Técnico e Hospital Mãe.
Segundo essa concepção, o Hospital Técnico é caracte-
rizado como um espaço rotineiro, apenas mais um local
de trabalho como outros tantos que existem. Pragmático, centrado no lucro, instituição onde a medicina é mais
uma profissão e o funcionário é mecanizado, robotizado. A pessoa hospitalizada fica reduzida à sua doença.
Nesse lugar, bom atendimento está relacionado ex-
clusivamente à condução do caso: o sucesso restringe-se ao fato de o paciente sair vivo. As relações são massificadas. A visão de
saúde privilegia o aspecto fisiológi-
co, o diagnóstico está associado a
solicitar exames e o tempo é acele-
rado, ligado à alta rotatividade dos
ocupantes dos leitos. A variável im-
78
ética da alegria no contexto hospitalar
portante é o negócio. Médico e paciente compõem uma relação
técnica. Já o Hospital Mãe seria um espaço especial, protetor, compreensivo, onde medicina é uma arte, funcionário um ser
humano, a pessoa hospitalizada é vista como cliente. Nesse caso,
o bom atendimento traduz-se em relação individualizada. A visão de saúde é ampla, a variável-chave é o desenvolvimento da saúde, o diagnóstico médico está ligado à escuta, e o uso do
tempo, às necessidades do cliente. Médico e cliente compõem uma relação humana.
Os espaços imaginários por onde transitam profissionais re-
presentam um momento singular da área de saúde, aberta para
uma transição, na busca de dar um passo à frente. Caracterizam-se pela dualidade do profissional, que oscila entre a percepção da necessidade de construir uma relação de qualidade com a
pessoa hospitalizada e as exigências da organização do trabalho, que o colocam em uma relação mais direcionada ao hospital como empresa e à medicina como instituição. A pesquisa revela que os profissionais reconhecem a importância dessa mudança.
O Hospital Técnico é incorporado como uma forma natural,
durante o processo de formação da identidade do profissional
de saúde. Existe, contudo, uma abertura quase imperceptível
dentro da instituição médica, onde se pode viver o Hospital
Mãe. Essa possibilidade faz-se mais presente nas enfermarias
pediátricas. A criança é um elemento que impede o profissional
de seguir integralmente o protocolo da sua formação. Ela, acima das hierarquias médicas, não se rende à racionalidade das
explicações, precisa de algo mais para aceitar sua condição de
doente. Abre uma brecha e cria o desafio que os profissionais
têm de superar.
Na concepção dos profissionais, o atendimento à criança é
avaliado como uma intervenção complexa. É uma relação desconhecida e triangulada, porque envolve também os pais. A comu-
Você pode segurar minha galinha?
79
nicação e a resolução das necessidades acontece pelos afetos. Os
limites da criança são vistos como menores. É mais difícil, tanto
para ela como para os profissionais, lidar com a dor. Tratar a
criança demanda maior equilíbrio emocional. Já a relação com o paciente adulto – em que a racionalidade rege a comunicação
– segundo os entrevistados, é mais conhecida, menos complexa e exige menor envolvimento emocional.
O espaço na relação com a criança, justamente por ser menos
conhecido, é oportunidade para ressignificação da prática médica. Reconecta o profissional com sua impotência e necessidade
de aprender. Um adulto não precisa de menos afeto que uma criança. A humanidade, porém, avançou no último século certa
de que a racionalidade daria conta das angústias e conforto fren-
te ao sofrimento. Essa crença, porém, não parece funcionar tão
bem quando uma criança está morrendo. A simples competência
técnica não é suficiente para analisar o fato. O que fica é o vazio.
É aí, nesse contexto, que se torna possível entender a importância da figura do palhaço.
Uma das características fundamentais do palhaço é sua cora-
gem de permanecer no “vazio”. Ao entrar no quarto do paciente
ele não sabe o que vai acontecer. Leva um arsenal de brinquedos
na maleta, mas dependerá da criança para a escolha de quais se-
rão usados. Ele se permite esse momento de “incerteza”, enquan-
to permanece aberto à tentativa de entender a necessidade do
outro, para realizar uma interação de qualidade. O palhaço procura enxergar o mundo com a mesma ótica da criança. Trata-se
de uma relação de iguais, porque ele é guiado pela curiosidade
e ingenuidade infantis. Não tem medo de ser ridículo; ao con-
trário, isso cria uma oportunidade para brincar e se relacionar.
80
ética da alegria no contexto hospitalar
a essência presente vários fatores corroboram o sucesso da atuação dos Doutores da
Alegria nos hospitais. O mais evidente é a utilização do humor e da brincadeira como linguagem de contato. Além disso, eles
são capazes de estabelecer boa comunicação e contam com um sistema específico de crenças sobre o que acontece dentro do
hospital. Uma crença muito forte, por exemplo, é a de que, por mais grave que seja o estado clínico da criança, existe ali uma
essência que deseja brincar. O palhaço está familiarizado com o inusitado, ele vive no absurdo sem tentar organizá-lo, mas
sabendo que se ele for capaz de olhar, ouvir, estar presente, a
relação naturalmente se organizará. Organização, para um pa-
lhaço, é aceitar o resultado que se apresenta sem julgamento de
valores, mas com o desfecho possível.
O palhaço, por trás de todo barulho e confusão que possa fazer,
silenciosamente nos confronta com questões pouco confortáveis
do tratamento: a marca que o envolvimento pode deixar – que ex-
trapola a questão se o paciente sobrevive ou não – quando existe
coragem de viver integralmente as relações. O palhaço lembra que a qualidade das interações terá impacto nos resultados do
encontro. Se elas forem movidas pelas paixões alegres, a orien-
tação será no sentido da vida e da saúde. Se forem movidas pela
piedade e submissão (paixões tristes), se voltarão para a doença.
O palhaço circula como um exemplo vivo dessas possibilidades, questionando despretensiosamente alguns valores do hospital.
O sorriso é um indicador de saúde muito importante para o
ambiente hospitalar. Ele sinaliza que paciente e palhaço percorreram uma situação de sofrimento e a ultrapassaram. A trans-
formam ao gerar intimidade e novas percepções sobre os fatos
vivenciados. O sorriso é um indício de que a vida cabe dentro de
um meio asséptico. É um fator de recuperação, porque leva a um
Você pode segurar minha galinha?
81
aumento de potência e a uma conduta ativa quanto à situação
vivenciada.
Esse ganho de potência, de ação, de viver os encontros e a
saúde, surpreendentemente acontece a partir do abandono da
realidade na forma como ela se apresenta, o que significa: abrir mão da busca de explicações razoáveis para os fatos. Vem da
possibilidade de abrir espaço para viver cada acontecimento sem
interromper seu fluxo. Essa percepção, essa coragem se ligam ao
conceito de Winnicott, para quem a saúde implica o sentimento
de que a vida vale a pena, implica recuperar a sensação de continuidade de existir. Só o viver criativo fortalece esse sentimento.
Ele preserva algo de pessoal, de secreto, alguma coisa que apenas uma pessoa pode fazer, à sua própria e particular maneira.
Esse modo de viver só é viável se abrirmos espaço para o im-
previsível, o inexplicável, o desconhecido de cada relação. Mas, para isso, é fundamental não ter pressa de preenchê-la com uma
organização lógica ou o tempo cronológico. Espinosa diz: O conhecimento não é a operação de um sujeito mas a afirmação de
uma ideia da alma: não somos nós quem afirma ou nega algo de
uma coisa, mas é ela própria que em nós afirma ou nega algo de
si mesma.
acesso à vida situações denominadas como depressão, resistência, somatiza-
ção e hospitalismo estão frequentemente atreladas às dificuldades da instituição hospitalar em criar espaços que permitam ao
profissional exercitar uma relação com o paciente que dê conta das complexidades da vida.
Ao acreditar que designando um fenômeno com o nome de
depressão estamos nos inserindo aos acontecimentos da vida,
82
ética da alegria no contexto hospitalar
muitas vezes só conseguimos nos privar do prazer de vivenciá
-los, além de vender remédios. Chamamos de atitude profissional a recusa da emoção no estabelecimento das relações com o
intuito de garantir equilíbrio emocional e exercício da profissão,
quando, na verdade, matamos o que de fato inspira a arte médica. Colocando-nos como reféns de teorias como essa, desviamos nosso foco de atenção de algumas das causas patogênicas, que
interferem na relação dentro do hospital, como as jornadas de
guerra a que são submetidos os médicos em sua formação acadêmica.
Criança e palhaço são dois ingredientes importantes no ce-
nário atual da medicina. A criança abre uma porta e ajuda a
lembrar o profissional da necessidade de superar desafios. Coloca-o no lugar do não saber, do desconhecido, do não racional.
Tira-o do ritmo conhecido de trabalho. O palhaço aponta caminhos. Reconduz o profissional ao Hospital Mãe. É um professor
às avessas. Ensina sem falar, por metáforas, com brincadeiras.
Promove o riso. A criança e o palhaço podem resgatar a força da
vida que pede passagem, para que as emoções deixem de ocupar os banheiros, salas médicas ou o travesseiro, no final do dia.
A atuação dos palhaços em hospitais que, anos atrás, aparen-
tava uma combinação descabida, hoje aponta uma série de fatores que necessitam evoluir no tratamento médico. Os diá- logos
entre médicos, enfermeiras e artistas, observados nas pesquisas, mostram que a socialização do Hospital Técnico não é absoluta.
Há possibilidades de ressignificação da prática e integração do
Hospital Mãe no cotidiano do trabalho hospitalar, na percepção
da identidade profissional. Palhaços podem colaborar nesse pro-
cesso.
É inevitável imaginar os reflexos que essa experiência pode
trazer para a formação dos profissionais dentro das universida-
des. É impossível, também, não pensar na velocidade, nos tem-
Você pode segurar minha galinha?
83
pos e nas tortuosidades que possam dificultar a ocorrência de
mudanças, considerados os fatores que implicam a construção
da identidade médica.
É reconfortante saber, porém, que enquanto a medicina se
confronta com seus mitos, ritos e história, palhaços circulam, despretensiosamente pelos corredores dos hospitais. Entram e
saem dos quartos, na delicada tarefa de dar passagem à vida e
de ensinar que todos podem fazer o mesmo.
riso levado a sério todos os questionamentos, afirmações e interpretações que fiz
até agora neste livro estão fortemente ancorados na interação que mantenho com os trabalhos desenvolvidos pelos Doutores
da Alegria. Desde 1993, quando fui convidada a iniciar um tra-
balho de higiene emocional com o grupo de cinco atores que atuavam no programa, temos mantido uma forte parceria.
O resultado desse convívio gerou o livro Soluções de Pa-
lhaços – transformações na realidade hospitalar (Ed. Palas
Athena, 1998); criou-se, também em 1998, o Núcleo de Formação e Pesquisa, com o objetivo de colaborar na formação dos
artistas do Programa e agregar profissionais da área da saúde,
possibilitando a ampliação do conhecimento da arte e sua relação com o desenvolvimento da saúde. Das observações sobre os
resultados desse trabalho tive ainda a oportunidade de elaborar a dissertação Boas Misturas: possibilidades de modificações
da prática do profissional de saúde a partir do contato com
os Doutores da Alegria, defendida na Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo em 2001. Se você deseja obter mais informações sobre os dados levantados ou acompanhar o desenvolvimento atual do meu trabalho acesse www.eticadoencontro.com.
sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
análise qualitativa e quantitativa Pesquisa visando analisar o impacto do trabalho dos Doutores da
Alegria no ambiente hospitalar na perspectiva dos profissionais,
pais e da própria criança. Foram realizadas entrevistas exploratórias com 45 profissionais de saúde e 38 pais, seguindo um roteiro
pré-estabelecido de perguntas. Esta estratégia visava possibilitar a comparação das respostas, mas, ao mesmo tempo, criar espaço
para o aparecimento do maior número possível de posicionamen-
tos com o grau de profundidade desejado pelos entrevistados. A partir dos indicadores levantados, foram elaborados questionários
estruturados e aplicados a 30 profissionais de saúde e 29 pais. A coleta do material foi realizada nos hospitais Nossa Senhora de
Lourdes e Hospital Israelita Albert Einstein na cidade de São Paulo.
Para a avaliação junto às crianças, foram coletados 90 dese-
nhos: 68 desenhos no grupo de pesquisa e 22 no grupo controle.
Foram solicitados dois desenhos antes da atuação dos “Doutores
da Alegria” e dois após o trabalho, com um intervalo médio
entre a primeira e a segunda aplicação de duas horas: o primeiro desenho pedia que ela representasse como ela se sentia
em estar no hospital e outro de uma pessoa (figura humana).
Junto a esse pedido iam sendo registradas histórias que as crian85
86
ética da alegria no contexto hospitalar
ças contavam à medida que iam desenhando. As características
analisadas foram: diferenças de estilo, cores, formas e tamanho, qualidade das histórias comparando os dois momentos, antes e depois da atuação dos Doutores da Alegria.
I. As entrevistas com os profissionais de saúde “O sorriso pode ser um indicador de uma melhora no estado
clínico. O médico que valoriza isso dá um melhor tratamen-
to” (médico entrevistado).
A análise do material apontou para os seguintes resultados: A. Com relação às crianças:
A mudança de comportamento da criança foi considerada como o ponto mais marcante do trabalho dos clowns. As crianças que
estavam prostradas ficavam mais ativas depois da atuação dos
artistas. As quietas passavam a se comunicar mais. As que esta-
vam chorando passavam a sorrir. Também passaram a se queixar menos de dores. Observou-se uma melhora e/ou aumento do
contato e colaboração com a equipe e com o tratamento médico.
As crianças passaram a se alimentar melhor ou aceitar as medicações e exames.
Os profissionais também acreditam que ocorreu uma melho-
ra na imagem da hospitalização: modificou-se a percepção do
hospital como um ambiente hostil, diminuiu a ansiedade da in-
ternação. Alguns profissionais associavam a atuação dos “Dou-
tores da Alegria” a uma aceleração na recuperação física e no pós-operatório.
B. Com relação aos pais e mães:
Os profissionais afirmaram que o sorriso funciona como um indicador importante de recuperação física; ajuda a diminuir a
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
87
ansiedade e torna os pais e mães mais confiantes no tratamento
médico e na equipe. Observaram também que os pais passavam
a ser mais ativos na recuperação dos filhos, aceitando melhor a
hospitalização ou percebendo-a de forma mais positiva.
C. Com relação aos profissionais e o hospital:
Houve diminuição do stress da rotina hospitalar e maior faci-
litação do trabalho através da melhora de contato com crianças, pais e outros profissionais. Melhorou a imagem do hospital e
houve mudança de comportamento dos profissionais que passaram a se sentir mais dispostos para o trabalho.
II. As entrevistas com pais e mães “Ver meu filho contente me deixa contente. Hoje até eu estou sorrindo.” (mãe)
Os resultados sugerem: A. Com relação às crianças:
A mudança de comportamento do filho durante a internação é
o ponto mais marcante da atuação dos palhaços. Tal como no
relato dos profissionais entrevistados, eles observaram que as
crianças passavam a falar mais, a brincar, a se alimentar e a
expressar a expectativa de que os “palhaços” voltassem. Obser-
vavam também que as crianças passavam a encarar a hospitalização de forma mais positiva.
B. Com relação aos pais e mães
Houve diminuição da ansiedade com relação à internação. Melhoria no cuidado com o filho hospitalizado. Houve também al-
teração na imagem do hospital.
88
ética da alegria no contexto hospitalar
“Ver meu filho sorrindo, mesmo doente, é bom, ao invés de só vê-lo tomando remédio. ” (mãe)
Para eles, a mudança observada na condição emocional da
criança a partir da atuação dos palhaços foi um determinante
importante de sua própria condição emocional.
“Fiquei alegre de vê-lo feliz, isso me deixou mais tranqüila. ” (mãe)
III. Os desenhos e histórias das crianças “Do personagem menino que morre, ao super-homem que o salva do gigante”. (desenhos da criança)
Analisando o material antes e depois da atuação dos palhaços, a
alteração mais evidente foi na modificação do conteúdo das his-
tórias. Observou-se um enriquecimento de conteúdo, maior número de histórias positivas ou de final feliz e uma maior expressão de conflitos. Outras alterações importantes foram: aumento
no tamanho dos desenhos, maior uso de cores, maior nitidez ou
aprimoramento nas formas. Todas essas alterações são indica-
tivos de que, de alguma forma, houve uma expansão do movimento da criança e de sua forma de se posicionar com relação
à situação de hospitalização. M. de 5 anos, por exemplo, trocou
suas cores de tons pastel com fraca intensidade por vermelho,
azul, verde em tons fortes. L. passou do desenho de uma pequena casa sem moradores a uma outra que ocupava praticamente
todo o espaço do papel onde a família estava reunida. S. passou da história do menino que morria para a do super-homem que o salvava do gigante malvado que queria matá-la.
Desenhar aqui é entendido como a concretização material
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
89
e visual da experiência de existir da criança. As correspondências formais e gráficas espelham a organização interna do universo da criança. O corpo inteiro está presente nessa ação. A ponta do lápis
funcionaria como ponte de comunicação entre o corpo e o
papel, como um instrumento medidor de impulsos do siste-
ma nervoso, motor e psíquico. O desenho se transforma em
um espaço de expressão para pontos de conflitos que estejam
bloqueados ou que estão consumindo uma grande quantidade de energia da criança para sua elaboração psíquica. Atrás
dos rabiscos da criança pode existir um desenho elaboradíssimo que só quem acompanhou seu processo de realização sabe de seu significado e valor (Derdyk, 1994).
Esses dados que aparecem se mostram em concordância com
os depoimentos de pais e mães, médicos e enfermeiras. Através
dos desenhos constatamos uma maior expansão motora e emocional das crianças expressas pelo aumento de formas, maior
uso de cores, melhor resolução das histórias.
objetivos e procedimentos de pesquisa – 1998 a 2001 Esta etapa da pesquisa foi desenvolvida dentro do programa de
mestrado da psicologia social da Pontifícia Universidade Católi-
ca de São Paulo, defendida em maio de 2001. Abaixo um resumo
dos temas tratados nos capítulos e metodologia de pesquisa.
Capítulo1, adotou como concepção teórica a impossibilidade
de existência de uma realidade hospitalar objetiva externa a nós.
O modo como a consciência reconhece e organiza a percepção
90
ética da alegria no contexto hospitalar
determinará os fatores que serão privilegiados para a construção
dos acontecimentos existentes. Assim, a forma como os profissionais de saúde se relacionam com o ambiente hospitalar está
ligada a um conjunto de percepções repetidas que, ao longo de
sua formação, passam a ser situadas como um conjunto de fatos
experimentados como “verdades”. Essas “verdades” produzem
algumas dinâmicas específicas dentro da Instituição Hospitalar.
O capítulo 2 buscou situar uma visão de saúde e de pontos re-
levantes sobre o tema da humanização nos hospitais. O capítulo
3 criou um panorama sobre a função artística social do palhaço, bem como sua ligação com o desenvolvimento de saúde.
Todo esse cenário nos coloca, neste momento da leitura, na
questão chave dessa reflexão: Os Doutores da Alegria influenciam a forma como os profissionais falam sobre as relações com seus pacientes?
No pano de fundo dessa pesquisa está a hipótese de que a
atuação dos Doutores da Alegria, através do trabalho artístico concretizado pela figura do palhaço, redimensiona a percepção
de como se operam as relações e o pensamento dentro da Ins-
tituição Hospitalar. Reafirma a percepção de que as especificidades da ação humana têm uma interferência vital nos acontecimentos cotidianos. Através das alterações de comportamento
geradas pelos palhaços no ambiente hospitalar, os personagens
desse contexto se sentem convidados a compreender melhor os
valores e crenças que conduzem seu modo de perceber os fatos. Essa avaliação colabora para refletir sobre o modelo médico atual e sua interação com pessoas que passam por uma situação de doença.
Como forma de aprofundar essa reflexão foi realizado um
grupo focal com artistas do Programa Doutores da Alegria e
profissionais de saúde de quatro hospitais onde os palhaços
atuavam na ocasião da pesquisa. O objetivo da pesquisa foi bus-
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
91
car, através da análise dos diálogos estabelecidos, indícios de
transformações, onde os profissionais falam sobre suas relações
com seus pacientes a partir do contato com o trabalho dos Dou-
tores da Alegria.
I. Coleta de dados Foi realizado um grupo focal com a participação de três médicos e de quatro enfermeiras dos hospitais Emílio Ribas, Cândido Fontoura, Instituto da Criança e Hospital da Criança, todos
hospitais públicos, situados na cidade de São Paulo, Brasil. . Do
programa Doutores da Alegria estavam presentes sete artistas e
a pesquisadora. O encontro foi realizado de maneira informal, em um final de tarde, em volta de uma mesa onde estava sendo
servido um lanche. Esse clima foi criado desde a chamada para
o encontro onde as pessoas eram convidadas para o tema regado
a um “café com bolo”. A seleção dos convidados foi feita a partir de sugestões dos artistas, facilidade de acesso, disponibilidade
e interesse do profissional para discutir o tema. A maioria dos
profissionais convidados tem experiências da influência do tra-
balho dos Doutores da Alegria em sua prática profissional. Um
dos médicos trabalha na área administrativa e percebe a atua-
ção dos palhaços como possibilidade de mudanças gerenciais da
Instituição em que trabalha. Duas das enfermeiras convidadas
participaram da construção do Hospital da Criança que se inspirou no trabalho dos palhaços para estruturar sua missão e
valores. Um dos médicos é professor de residentes que passam pelo workshop “O hospital pelos olhos do palhaço”, um trabalho que visa dividir o olhar do artista com o médico. Ele mesmo fez o workshop.
O grupo foi realizado no dia 14 de setembro de 1999 e teve
duração de duas horas e meia, registradas com gravador. A ava-
92
ética da alegria no contexto hospitalar
liação das pessoas no final do encontro, principalmente dos ar-
tistas, foi de que a discussão trouxe novas informações sobre o
trabalho artístico a partir das falas dos médicos e enfermeiras.
A pergunta chave do encontro, colocada no início da conversa
pela pesquisadora, foi sobre o papel do palhaço dentro do hospital: Quem é essa figura dentro do hospital, que interferência
vocês acham que ela promove dentro do hospital? II. Análise dos dados
Os dados foram transcritos literalmente das fitas. Após a transcrição escrita foi feita uma análise sequencial dos diálogos a qual consiste em agrupar os diálogos na sequência da conversa, de
acordo com os temas tratados no grupo como no exemplo abaixo: Pesquisador retoma a pergunta: “o que o palhaço promove dentro do hospital?”
Enfermeira 1 fala da ação na alteração da rotina hospitalar.
Uso do humor, arte, músicas, instrumentos, roupas para quebrar ambiente hospitalar. Expectativa da volta dos palhaços.
Artista 1 coloca a pergunta: “será que a gente transforma
ou a continuidade da nossa presença motiva vocês a trans-
formarem?” palhaços: “de enfermeira eu passava a criança.
” Fala sobre a filosofia do hospital da criança que parte do trabalho dos doutores.
Artista 1 retoma a pergunta: “A presença da gente dá a
licença mas a gente vai embora”.
Enfermeira 1: como dotar os profissionais para a relação?
Artista 1 insiste na pergunta: “se existe questionamento do
profissional a transformação vem dele. O artista provoca isso”.
Enfermeira 3 fala da opção de escolher pediatria. O pro-
fissional já é diferente por escolher trabalhar com criança.
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
93
A análise sequencial deu possibilidade de perceber os temas
mais frequentes que surgiram nas conversas. O conjunto de temas recorrentes nos diálogos, bem como os objetivos da pesquisa levaram a escolhas de alguns temas para serem analisados
mais profundamente. Esses temas foram categorizados em cinco
tópicos:
1. Profissionais de saúde: quem são / o que fazem / com afetam os palhaços
2. Palhaços: quem são / o que fazem / como afetam os profissionais
3. Hospital: como funciona / o que muda com os palhaços
4. Crianças: como são / o que fazem / como agir com elas 5. Pais: como são / o que fazem / como agir com eles.
Esses temas foram utilizados para a construção do mapa de
associações de ideias (Spink, 1999). Trata-se de um mapa com
colunas verticais onde são colocados os tópicos acima escolhidos. Então se escreve todo o diálogo desenvolvido pelo grupo respeitando a colocação das falas de acordo com os tópicos. As
falas que não correspondem aos tópicos entram no tema “ou-
tros”. A sequência das falas foi organizada independentemente de serem artistas ou profissionais. Adotaram-se marcações de
cores diferentes para localização de quem fala (palhaços em vermelho, profissionais em preto).
A análise desse material se compõe de uma leitura vertical
de cada coluna do mapa buscando destacar o que caracteriza
cada personagem que aparece na discussão de grupo (profissionais, palhaços, pais, crianças, hospital) e destacar quais são os
indícios de alterações na maneira como os profissionais falam
da relação com seus pacientes a partir do contato com os Dou-
tores da Alegria.
94
ética da alegria no contexto hospitalar
III. Indicadores das possibilidades de transformações do
relacionamento entre profissionais e crianças a partir da atuação dos Doutores da Alegria
Os mapas ajudaram a elencar vários pontos da atuação dos
Doutores da Alegria que favorecem a relação entre palhaço e criança. Esses fatores foram agrupados em quinze indicadores
principais que caracterizam possíveis aspectos de influência dos
artistas na prática profissional das pessoas que trabalham nos
hospitais. Esses indicadores são:
1. Percepção dos fatos a partir de novos parâmetros 2. Ação como contexto referencial
3. Exercício do poder a partir das paixões alegres (ação, liberdade)
4. Vivência de cada encontro como um grande acontecimento
5. Transformação da experiência da doença em possibilidade de desenvolvimento
6. Estabelecimento de relações simétricas
7. Construção de vínculos que permitam a expressão de sentimentos e dificuldades cotidianas
8. Corpo vivido de forma integrada (racional e emocional / pessoal e profissional). Valorização do corpo como algo preenchido de emoções
9. Percepção da realidade através dos sentidos (visão, audição), além do mental
10. Estabelecimento de relações de confiança
11. Sucesso do tratamento ligado à qualidade do processo de relação estabelecido
12. Percepção de que a situação da criança pode ser reconhecida e transformada e não minimizada)
13. Atuação a partir da necessidade da criança / pais
14. Modelo de atuação construído a partir da relação (modelo
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
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pessoal) em contraposição a um modelo externo pré esta-
belecido
15. Foco no presente. No próximo tópico foram destacados trechos das falas do
grupo focal que evidenciam transformações da relação profissional com a criança/pais e ilustram os quinze indicadores. Pro-
curou-se disponibilizar falas que evidenciassem tanto a facili-
tação da relação em cada um dos aspectos levantados, como os dificultadores.
Dos quinze itens destacados, seis não apresentam exemplos
de falas que comprovem alterações de comportamento a partir da atuação dos artistas. São eles: exercício do poder a partir das paixões alegres (ação, liberdade), vivência de cada encontro como um grande acontecimento, estabelecimento de relações
de confiança, compreensão que a situação da criança possa ser
transformada e não minimizada, modelo de conhecimento construído a partir da relação e foco no presente.
Os dificultadores para que existam alterações na relação com
o paciente estão ligados a aspectos da formação do profissional, o que comprova vários aspectos abordados no capítulo2 da tese.
A estrutura do saber médico cria uma hierarquia quanto ao saber que leva a uma relação de submissão e passividade. A relação de simetria se estabelece com o saber médico e não com o
paciente. Além disso, o hospital é visto como um local que drena
muita energia para abrir espaço para o inusitado ou o criativo. A
identidade profissional está centrada na parte técnica. O fato de
promover procedimentos dolorosos dificulta a possibilidade do
profissional enxergar que a relação possa se desenvolver além da dor que deve ser minimizada, ser maior que esse aspecto da doença. Não se acredita que relação possa suportar a dimensão
da dor e ir além. A expressão de sentimentos, em geral, é vista
96
ética da alegria no contexto hospitalar
como negativa para a identidade do profissional e como algo que possa abalar a relação de confiança com o paciente.
IV. Indicadores das possibilidades de transformações do re-
lacionamento entre profissionais e crianças/pais a partir da atuação dos Doutores da Alegria
1. Perceber os fatos a partir de novos parâmetros: possibilidade de ressignificar uma atitude cotidiana, algo que se experimenta como uma “verdade” pode ser visto sobre outra pers-
pectiva.
A. Falas que evidenciam transformações: Dr. P. , faço uma confissão: eu fiquei impressionado a hora
que eu vi o senhor com os Doutores da Alegria, foi uma coisa muito boa. E daí percebi que tinham outros profissionais
sensíveis a este trabalho. (médico falando sobre o Diretor
Executivo de um hospital, grupo focal)
Graças ao Doutores da Alegria, a rigidez da comissão de infecção, que é o inferno da vida de todo mundo, começa a
ficar menos rígida...” acho que não vai dar aquele problema que eu estava pensando... . o bicho da infecção não anda tão rápido assim. (grupo focal - médico)
Por que vocês ficam fazendo as coisas que vocês fazem, em
frente de uma criança que está entubado, sedada na UTI?
Eu nunca entendia. Quando eu via vocês fazendo isso pelas primeiras vezes, eu olhava aquilo e pensava: mas o paciente
está entubado, sedado. Eles estão dando tal e tal remédio,
tomando isso, tomando aquilo e vocês assim: e daí, que é
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
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que é isso? eu não sei que remédios são esses. (médico, grupo
focal)
2. Ação como contexto referencial: a ação colabora para que
se perceba os fatos através dos sentidos. Ela é vital para se viver
as relações. Ela ajuda a tirar o profissional da vivência da relação no plano mental e o insere no fluxo dos acontecimentos. Não
é a ação eminentemente técnica que profissional conhece bem.
É a ação baseada nas necessidades extra fisiológicas ou medicamentosas do paciente.
A. Falas que evidenciam transformações: O importante é você ver o clowns em ação. Porque aí você
sente que aquilo funciona, que aquilo é real... você vê que
tem outros caminhos para você fazer aquele trabalho que
vão além de um modo rígido. (grupo focal - médico)
A gente visita uma senhora... é impressionante, tem um enfermeiro que é o gatão e a gente sempre concorre para ver quem vai ficar com a Sra Y. E agora toda vez que a gente vai
trabalhar ele espera eu entrar pra ele brigar comigo (risos), paquerar a Sra Y. na minha frente. Daí ele me ensina como
eu devo paquerar, mas eu nunca consigo chegar aos pés dele.
É sempre assim, é maravilhoso saber que ele está lá todo dia trabalhando, pronto para uma parceria conosco. (grupo
- artista)
B. Dificultadores: o hospital drena energia para conduta ativa O hospital gasta energia. Chega na segunda semana, tudo bem, tem uma diferença, não é? Na terceira parece que é
98
ética da alegria no contexto hospitalar
estaca zero. Vamos de novo trabalhar, não tem essa. É esse que eu acho que é o maior desafio. (grupo focal - médico)
3. Exercer o poder através da paixões alegres e não da submissão (paixões tristes): Capacidade de viver relações onde
a composição do encontro aumenta o poder de ação, a potência. As paixões tristes (culpa, piedade, compaixão), ao contrário, ameaçam a coerência diminuindo potência.
A. Falas que evidenciam transformações: o trabalho mexe com uma necessidade de ação baseada na liberdade
Acho que é como uma carta branca, vocês acabam liberando para gente algumas coisas que a gente gostaria de fazer e pensa: não, é muito ridículo, não vai dar certo, não
vou botar um nariz daquele vermelho e sair gritando com a
criança. Então vocês provocam a gente de uma tal maneira:
“Olha, dá pra você fazer também”. Você não consegue logicamente atingir o topo máximo disso. Mas cutuca a gente
a estar fazendo. E um outro profissional também que está
em pauta, ele fala, olha dá pra ser ridículo que nem eles, dá
porque fazer alguma coisa, jogar futebol no meio na enfermaria. Brincar, sair fazendo folia, bagunça com as crianças...
A minha sensação é de uma carta branca, dá pra você fazer também, dá pra bagunçar junto, dá pra fazer determinadas coisas. (grupo focal- enfermeira)
O trabalho de vocês é para os adultos, nós que estamos tra-
balhando, eu acho que a maior parte vocês estão atuando em cima de nós. Porque vocês estão dando essa abertura para que a gente possa ser algo diferente do que a gente é no nosso
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
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dia-a-dia. Então no fundo além da criança vocês estão traba-
lhando também com nós, adultos. (grupo focal - enfermeira)
Eu acho que vocês, com essa atitude, deixam alguma coisa em termos de transformação na gente. A maioria de nós,
sempre buscou conseguir ser como vocês, em levar a alegria,
brincar, extravasar. (grupo focal - médico)
B. Dificultadores: a estrutura do saber médico cria uma hierarquia
quanto ao saber que cria submissão quanto ao que se pode ou não.
4. Viver cada encontro como um grande acontecimento: o encontro é possibilidade de crescimento e alimento da alma do
profissional e paciente.
A. Falas que evidenciam transformações não apareceram.
B. Dificultadores: O profissional acredita que o fato de promover procedimentos dolorosos dificulta a possibilidade de enxergar que a relação possa se desenvolver além disso, ser maior que esse aspecto do doença.
E vem pra fora aí você está fazendo a coisa séria, porque
você está fazendo sério, porque o que a gente faz não é bolinha de sabão, que a gente possa soltar, é doloroso é um momento sofrido pra criança. (grupo focal - enfermeira)
5. Transformar a experiência da doença em possibilidade
de desenvolvimento: a possibilidade de viver reconhecendo os
acontecimentos e indo além. O que aparece consegue ser incor-
porado à relação. O que se experimenta como dificuldade pode
ser aceito e levado para outro estágio. Paciente e profissional
podem sair fortalecidos com a experiência.
100
ética da alegria no contexto hospitalar
A. Falas que evidenciam transformações: Mas o processo de mudança ele é muito complicado mesmo... , o duro não é você passar por uma crise, é você passar por uma crise e não mudar. Você perde tua chance. E o que
acontece é que você percebe que as pessoas mudam depois
do trabalho dos palhaços. (médico falando sobre o trabalho dos Doutores da Alegria junto aos profissionais)
6. Favorecem relações simétricas entre as pessoas: o pro-
fissional pode construir a relação a partir das necessidades do
paciente, saindo de uma posição onde ele se coloca como pro-
fissional (dono do saber técnico) e o paciente de uma posição de passividade.
A. Falas que evidenciam transformações: Procedimento era técnica e de repente, naquele momento
em que vocês estavam presentes, a coisa se transformava numa forma muito lúdica, um sonho. É como se, naquele
momento, tudo mudasse e eu, de enfermeira, passasse a ser
uma criança. (grupo focal - enfermeira)
Falando do último workshop que foi sexta-feira passada com
os residentes da enfermaria: vou contar uma coisa que sempre acontece depois destas oficinas. Tem um paciente nosso
que está muito mal: não se alimenta, está com uma infecção
grave, não quer sair da cama. A residente que cuida dele
participou do workshop com ao palhaços e chegou na enfermaria este fim de semana e iniciou um trabalho de pintura
com este paciente, levou ele no computador, brincou com ele.
Assistiu novela com ele. E ele saiu da cama pela primeira vez,
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
101
está comendo, ele saiu pra ver novela com ela. (grupo focal
– médico falando sobre médica que realizou oficina para profissionais de saúde com Doutores da Alegria)
B. Dificultadores: a relação de simetria se estabelece com o saber médico
O médico ele é rígido em favor da ciência. Ele é rígido em
favor da ciência mesmo que isso prejudique a criança. É verdade. Ele perde a sensibilidade. De repente ele defende a
ciência nem que ele perceba que vai prejudicar. Vai prejudicar mas no futuro vai ser melhor pra ela aquelas coisas assim. (grupo focal - médico)
O médico tem que ter uma máscara de poder. Porque quando
o paciente está com a barriga aberta ele tem que decidir, e a
decisão dele tem que ser a mais correta, porque quando ele fecha você nem sabe o que ele fez lá dentro. Ele tomou a decisão mais correta, sinto muito. Não tinha outro jeito. Ele tem que
decidir. E isso leva a esse tipo de maneira de pensar e o médico fica muito em cima num pedestal... . (grupo focal - médico)
7. Exposição de um lado escondido: Construir vínculos que permitam expressão de sentimentos, espaço para falar das dificulda-
des cotidianas (solidão, medo, desamparo, etc). O hospital pode ser um lugar onde a vida acontece com toda sua complexidade
tendo espaço para os sentimentos que permeiam as situações. A. Indicadores de transformação:
Na UTI isso é uma experiência que eu passei no segundo ano
de residência médica, eu comecei a ver vocês passando na
102
ética da alegria no contexto hospitalar
UTI, um dos primeiros dias que eu estava trabalhando lá. A
gente perdeu uma criança, estava todo mundo ali se segurando para não desmoronar. . Vocês chegaram e começaram a cantar uma música que particularmente eu conhecia, que eu
toquei muito em bar. Que é Canto do Povo de um Lugar que o
Caetano canta. Vocês começaram a cantar eu tive que sair da
visita, porque eu comecei a chorar. Eu vi a criança morrendo,
morreu eu comecei chorar. Eu tive que sair da visita, eu saí,
fui dar uma arejada, tomar um café. (grupo focal - médico)
... Eu estava fazendo uma música para as faxineiras, a faxineira termina a coreografia caindo de bunda no chão. Eu
falei: “Ah! Esqueci essa parte da coreografia”. Daí todo mundo caiu de bunda. Depois ela aparece de bruxa e se fantasia, maquiada, e vira pra criança, tira a dentadura, sorri toda
banguela. (risos) No meu modo de ver, ela caiu de bunda porque inconscientemente ou consciente ela já viu a gente
fazendo isso. Isso já estava nato nela. (grupo focal - artista)
E de repente você tem um potencial de sensibilidade num monte de pessoas que não se permitem colocar, o clown joga
isso. Ele trabalha isso, exatamente por aí. Olha como você
é ridículo por não se permitir. Olha como essa sua máscara
é boba. Quem usa máscara sou eu, mas o mascarado é você.
(grupo focal - médico)
8. Valorização do corpo como algo preenchido de emoções: as emoções se integram ao corpo. Lado profissional e pessoal
podem ser vividos de forma integrada. O corpo é veículo de uma
ação que expressa algo que fala de sua essência. Pode acontecer
em função do que é congruente com o corpo e com a relação.
O corpo é algo além do objeto de estudo que conta sobre um
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
103
sintoma. Ele é a possibilidade de leitura da vida que acontece
dentro do hospital
A. Indicadores de transformação: Essas coisas elas tão acontecendo e ninguém chega a ter que
tomar Prosac, mas sem dúvida alguma coisa interna forte acontece e acontece na emoção que é o mais importante, e
que, de certa forma, desvia um pouco do racional. Passa direto na emoção. (grupo focal - médico)
As coisas que aconteceram depois da chegada dos Doutores
no Instituto da Criança, ficaram mais fáceis de serem traba-
lhadas, porque as pessoas, de alguma forma, mudaram. A
gente que tentou fazer isso no estilo racional: olha como é
que é? Olha com é que são? como é a nova gestão. Aqueles
mil discursos e não muda. E aí a gente também adota no próprio treinamento, coisas emocionais. Trabalha com filmes,
começamos a mudar, a vivência, jogo, e aí a gente começou
a sentir que isso realmente tem mais impacto se for feito sistematicamente... o palhaço é especial como arquétipo. Ele
é essa coisa do diabo. Ele chega porque ele sente uma crise,
um desbalanço, eu queria ser emocional, mas eu não posso
ser emocional porque alegria com seriedade, aquela coisa
do tenho que ser sério e carrancudo. Você tira do eixo, né?
Aí você está naquele balanço, e de alguma forma o palhaço quebra isso. (grupo focal - médico)
O importante é o profissional saber que ele pode fazer todas
as atividades dele, porque ele tem que fazer, mas ele vai
fazer tendo dentro dele uma forma um pouco diferente de
abordar a criança. É a mudança na questão da atitude, da
104
ética da alegria no contexto hospitalar
abordagem que é importante. E trabalhar a criança. O fato
de eu até chorar junto da criança ou não, não tem tanta importância. O importante é o sentimento, é você saber que o seu sentimento de alegria ou de tristeza pode ser colocado e
que isso não vai ser julgado. (grupo focal - enfermeira)
B. Dificultadores: Formação do médico: Porque, de repente, você tem um residente que foi martelado
durante seis anos mais três anos de residência, com ciência, ciência, ciência. (grupo focal - médico)
... a gente tem trabalhado muito assim, que hospital é uma coisa muito séria, tudo o que você faz é muito sério, então
você é levado numa direção assim. (grupo focal - enfermeira) ... as pessoas que são formadas há mais tempo que não cedem
a isso, acho que é difícil cederem a isso, porque nunca foram
apresentados a este tipo de vida. Estão no hospital para aqui-
lo existe: uma coisa que se chama remédio, é orgânico, é a doença, e acabou. (grupo focal - médico)
9. Perceber a realidade através dos sentidos: os acontecimen-
tos se dão através da possibilidade de ver e ouvir o outro levando a percepção dos fatos para além do mental. Isso colabora
para a ligação do lado racional com emocional.
A. Indicadores de transformação: o palhaço mostra que com a criança só a explicação racional não funciona
Porque eu acho que todo mundo passa uma barreira de procedimento doloroso e você tem que usar a lógica pra conven-
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
105
cer: “Olha, isso vai ser bom pra você porque é bom pra curar
você”. A criança não entende. (grupo focal - artista)
B. Dificultadores: formação médica Essa ideia de que você tem que ser forte e de que tem que
estar acima de todas as fraquezas humanas porque você é
médico, é uma ideia torta, mas que as pessoas têm. (grupo
focal - médico)
10. Estabelecer relações de confiança: se constrói a partir de
espaços que podem ser abertos para que as experiências aconteçam integralmente. Da possibilidade do profissional ficar em um
“vazio” inicial, talvez desconexo, sem tentar preenchê-lo com uma explicação sobre o fato, mas aceitando o outro como ele se apresenta.
A. Indicadores de transformação: não aparecem B. Dificultadores: a expressão da autenticidade do que ocorre
no momento é vista como negativa para a identidade do profissional
Eu estava me trocando numa salinha no Hospital do Câncer quando chegou uma médica e disse assim: estou passando mal, eu vi morrer a criança, me segurei até agora, porque
esse é um paciente meu, não queria chorar na frente do pai, mas não estou podendo. Aí ela começou a chorar comigo. E
eu comecei chorar, não sabia nem quem era o paciente direi-
to. Mas assim: “porque você não chorou?” “Não, não posso chorar na frente dele, imagina, se ele me vê chorando ele perde a confiança em mim”. (grupo focal - artista)
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ética da alegria no contexto hospitalar
11. Sucesso do tratamento ligado ao processo de relação estabelecido: o resultado está além da técnica, se o paciente vive ou morre. Ele é resultado da qualidade de relação que foi desenvolvida A. Indicadores de transformação ... o Hospital da Criança, o Doutores da Alegria, não teve a ideia de construir um hospital. Mas a C. teve a ideia, trouxe
vocês e foi fazendo e vocês foram levando em frente, quer dizer, mas é bárbaro saber que foi feito de um trabalho que
começou quer dizer, então, será que na verdade não são vocês mesmos se sentindo, sabe, com o quê mesmo? Com a
tranquilidade, com o poder mesmo de mudar. (artista, falando de um hospital construído pensando nas necessidades da criança, grupo focal)
B. Dificultadores: o tratamento ligado a se vive ou morre Eu falei doutor Nilton, tem uma mãe querendo falar com
você. Imagina ele estava acabado na mesa dele, ele é honesto, era paciente dele né, falou: Mas ela morreu... (grupo
focal - artista)
12. Compreensão que a situação da criança pode ser reconhecida e transformada, não só minimizada: possibilidade de compreender que a relação vai além da parte técnica, que o tratamento implica em desenvolver saúde. A. Facilitadores: não encontrados B. Dificultadores: a identidade profissional está ligada exclusivamente a parte técnica. Isso gera uma percepção que a dor deva
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
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ser minimizada. Que a relação não possa suportar a dimensão
da dor e ir além.
Você tem que dar a punção na veia, você tem que fazer um curativo, a gente sabe que tem que executar essa coisa, mas
de que maneira a gente pode minimizar isso? fazendo uma
bolinha de sabão na mesma hora?(grupo focal – enfermeira)
13. Atuar a partir do que o outro apresenta como necessidade: o referencial é também as necessidades outro, além da
conduta prescrita.
A. Indicadores de transformação: Eu vi uma cena no sexto andar tão bonita, os palhaços esta-
vam trabalhando na enfermaria da Oncologia e chegou uma pessoa da manutenção, e a enfermeira responsável olhou
bem no quarto e falou assim: “Olha meu amigo as crianças
estão se divertindo muito agora, o senhor vai ter que voltar
outra hora.” Ele falou : “Ah, mas outra hora você sabe, quan-
do der.” Ela olhou bem, viu as crianças se divertindo e disse: quando der o senhor volta, eu não vou atrapalhar a diversão das crianças. (grupo focal - artista)
14. Modelo de conhecimento construído a partir da relação
em lugar de modelo externo pré-estabelecido: as descober-
tas se fazem a partir da experiência. Ela que trará o conhecimento. Isso colabora para que se perceba cada encontro como novidade e como único.
A Indicadores de transformação: não aparecem
108
ética da alegria no contexto hospitalar
B Dificultadores: não aparecem 15. Foco no presente: estar no “aqui agora”, o que conta é a qualidade do momento vivido. Ele se sobrepõe ao prognóstico
A. Indicadores de transformação: não aparecem B. Dificultadores: não aparecem
TERCEIRA ETAPA – 2005 A 2008 Resultados da atuação do trabalho dos Doutores da Alegria segundo 576 profissionais de saúde
Refletir sobre a atuação artística nos hospitais foi um dos ingredientes essenciais para o desenvolvimento dos Doutores da Ale-
gria como organização. Ele ocorreu em investimento no treinamento de palhaços, acompanhamento das duplas nos hospitais
por um coordenador artístico, relatórios, encontros com mes-
tres e pesquisas junto ao nosso público no hospital. Em 2008 a atuação dos Doutores da Alegria se desenvolve em 20 hospitais
em quatro cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Recife
e Belo Horizonte). Em 2006 nossa área de pesquisa passou a
contar com a colaboração do Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social, organização que desenvolve avaliação de projetos
sociais, para reavaliar os resultados da atuação dos Doutores da
Alegria nos hospitais. O trabalho de avaliação contou com as seguintes etapas: 1) trabalho interno com a equipe dos Doutores
da Alegria no sentido de estabelecer diálogos sobre os indicado-
res de resultados que definem nossa atuação; 2) avaliações qua-
litativas semestrais de resultados (março de 2007 a dezembro de
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
109
2009) com equipes de profissionais de saúde de dois hospitais
(São Paulo e Rio de Janeiro) onde nosso trabalho foi implementado; 3) avaliações quantitativas: elaboração de instrumentos de
avaliação a partir dos indicadores levantados. Todo este processo possibilitou a análise de questionários aplicados junto a 567
profissionais de saúde que acompanham nosso trabalho em 13 hospitais onde atuamos.
Metodologia Avaliação qualitativa
A avaliação qualitativa do trabalho dos Doutores da Alegria foi
realizada em dois hospitais (Hospital Universitário em São Pau-
lo e Hospital dos Servidores no Rio de Janeiro) desde 2007 por
ocasião da implementação do trabalho da dupla de artistas. A metodologia contemplou encontros semestrais com um grupo de
profissionais (médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem, etc.) que trabalham nas unidades em que os Doutores da Alegria atuam (enfermarias, UTI, ambulatórios).
Estes encontros começaram no marco zero da atuação (hos-
pital sem Doutores da Alegria) e aconteceram até o final do
terceiro ano de atuação. Um roteiro de perguntas permeou as
conversas estabelecidas nos encontros. O objetivo foi mapear
indicadores de resultados da atuação das duplas ao longo des-
te período. As observações e anotações dos grupos realizados
colaboraram em subsídios para a formulação dos questionários aplicados para avaliação quantitativa.
Avaliação quantitativa
A avaliação quantitativa do trabalho dos Doutores da Alegria foi
realizada durante o mês de setembro de 2008 em todos os hospi-
tais onde o grupo atua em São Paulo (8) e no Rio de Janeiro (5),
110
ética da alegria no contexto hospitalar
por meio de questionários estruturados focados em profissionais
de saúde. A coleta foi coordenada por Daniel Brandão do Institu-
to Fonte especializado em pesquisas sociais (www.fonte.org.br).
A opção pelos profissionais de saúde foi feita em função de sua
presença constante nos hospitais, o que possibilita que obser-
vem de forma contínua o trabalho dos palhaços, qualificando as informações que esta avaliação buscava. A maioria das crianças
e seus familiares, em contraposição, têm presença esporádica nesses espaços. Foram respondidos 567 questionários. Entre
os que responderam a esta avaliação, 16,3% são médicos(as),
15,5% são enfermeiros(as), 28,1% auxiliares e 5,2% residentes.
Outras pessoas dos hospitais que atuam em departamentos
administrativos ou em serviços de apoio (por exemplo, limpeza) também participaram desta avaliação e compõem 24,3% da
amostra. Os profissionais de saúde entrevistados atuam na en-
fermaria dos hospitais (47,9%), na UTI (15,2%) e no ambulatório
(7,6%), entre outros. Entre os participantes, 24% trabalham no
hospital há menos de um ano e 43,5% atuam nos hospital há
cinco anos ou mais. As respostas aos questionários foram ana-
lisadas estatisticamente e permitiram consolidar resultados em oito indicadores foco desta avaliação: relação das crianças com o tratamento médico, relação dos profissionais de saúde com as
crianças, permanência da atuação dos palhaços para as crianças, relação da família com o tratamento das crianças, relação dos
profissionais de saúde com as famílias, relação do profissionais de saúde com equipe de trabalho, relação dos profissionais de saúde consigo, participação em atividades culturais.
Resultados
Para 96,3% dos profissionais de saúde, as crianças ficam mais a
vontade com o ambiente hospitalar a partir das visitas do Doutores da Alegria. 95,4% acreditam que as crianças ficam mais
Sobre a pesquisa realizada (1994 -1998)
111
ativas, e 89,2% mais colaborativas com os profissionais de saúde. 77% dos profissionais concordam que as crianças passam a
se alimentar melhor e 74,3% afirmam que elas aceitam melhor
exames e procedimentos médicos. 85,4% dos profissionais afirmam que as crianças apresentam evidencias clinicas de melhora
a partir da interação com os Doutores da Alegria.
Sobre a permanência da atuação dos palhaços para as crian-
ças, 95,7% dos profissionais de saúde afirmam que as crianças
pedem a volta dos palhaços, 91% dizem que as crianças recordam e relatam as brincadeiras realizadas e 87,6% conta que as crianças imitam e reproduzem as brincadeiras realizadas pelos
palhaços. Com relação as famílias/acompanhantes, 90,1% dos
profissionais afirmam que a atuação dos artistas contribui no aumento da confiança das famílias sobre a melhora das crianças
e 72,1% dizem que as famílias ficam mais confiantes no tratamento médico oferecido. 89,5% dizem que as famílias passam
a brincar mais com as crianças, e 85,3% que elas ficam mais
calmas. 77,8% dos profissionais dizem que as famílias ficam mais colaborativas com a equipe. Para 56,3% dos profissionais a
atuação dos Doutores da Alegria colabora para que eles possam
compreender melhor as famílias e tenham mais facilidade de conversar com elas (56,3%).
Sobre a relação dos profissionais de saúde com as crianças a
partir das visitas dos palhaços, 76,1% afirmam que passaram a
brincar mais com as crianças, 75,5% passaram a buscar novas formas de aproximação com as crianças, 75,2 % afirmam que
passaram a reconhecer as crianças mais do que como pacientes e 69% passaram a conversar mais com as crianças.
Sobre a relação dos profissionais com sua atuação profissio-
nal, 83% concordam que se sentem mais calmos com o trabalho
no hospital a partir do contato com a atuação dos Doutores da
Alegria, 76,3% dizem que se sentem mais satisfeitos com o tra-
112
ética da alegria no contexto hospitalar
balho, 63,7% afirmam que realizam as rotinas de trabalho com melhor qualidade. Sobre a relação do profissional de saúde com a equipe de trabalho, 56,8% dos profissionais afirmam que passaram a ter mais disponibilidade para escutar os colegas a partir do contato com os Doutores da Alegria, 49, 5% diz que a equipe está mais coesa, 45,8% concorda que abriu-se espaço na equipe para falar de questões delicadas e sensíveis. Sobre a participação em atividades culturais, 28,8% dos profissionais afirmam que passaram a ouvir mais musica a partir do contato com o trabalho dos artistas, 24,4% passaram a ler mais livros, 20,1% a frequentar mais cinema, 17,6% a ir mais ao teatro e 15,4% ao circo.
QUEM SÃO ESSES DOUTORES DA ALEGRIA? Doutores da Alegria é uma organização da sociedade civil cuja missão é promover a experiência da alegria em crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais da saúde. Suas receitas são provenientes de doações de empresas e pessoas físicas. A organização também conta com um núcleo de pesquisa dedicado à arte do palhaço, com foco na produção de conhecimento e criações artísticas, e com a Escola de Palhaços dos Doutores da Alegria, com cursos voltados a públicos diversos. Com um elenco de palhaços profissionais que atuam em hospitais em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, os Doutores da Alegria são reconhecidos em todo o país por seu profissionalismo e atuação inovadora. A organização recebeu o Prêmio Criança 1997 da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e foi incluída três vezes na lista das 100 melhores práticas globais da divisão Habitat da Organização das Nações Unidas. Para saber, mais consulte www.doutoresdaalegria.org.br.
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Sobre a autora
Morgana Masetti é graduada em psicologia e mestra em psicolo-
gia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com formação em psicologia hospitalar pelo Instituto do Coração do
Hospital das Clinicas de São Paulo. Desenvolveu projetos de saúde
para organizações como Unilever, Fundação Vanzolini da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, Credicard, Banco Itaú e
em hospitais como o Hospital da Criança, auxiliando a formação de profissionais de saúde e concepção da visão de saúde.
Trabalha na Organização Doutores da Alegria desde 1993,
atualmente desenvolvendo projetos de formação para profissionais de saúde e pesquisa. Desenvolveu pesquisa sobre os efeitos
da atuação dos palhaços dos Doutores da Alegria nos hospitais. Os
resultados estão publicados nos livros Soluções de Palhaços: trans-
formações na realidade hospitalar (Palas Athena, 1998) e Ética da
Alegria no contexto hospitalar (Palas Atena, 2003, reedição Folio
Digital, 2015), adaptação de sua tese de mestrado “Boas Misturas:
possibilidades de modificações da prática do profissional de saúde a partir do contato com os Doutores da Alegria” (PUC, 2001).
Facebook: https://www.facebook.com/morgana.masetti.1
Twitter: @morganama
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Este livro foi composto na Letra e Imagem Editora utilizando as tipologias Charis SIL, e impresso na grรกfica Singular em janeiro de 2015.
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