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O CHAPÉU LILÁS - Márcia Moretti

Chegou pelo correio.

Era uma caixa redonda com fitas coloridas. Chegou em dia de ventania e sem remetente. Pensei, que ventos a trazem ? Não aguentei, curiosa e com muito zelo abri a caixa. Quem iria se interessar em enviar esta caixa ?

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Quando abri, veio a surpresa . Um chapéu lilás, aqueles dos posts do Instagram, mas também diferente. Dentro havia um universo de estrelinhas e nano pontinhos… coisa estranha … Sem muita preocupação pelas consequências fui ao espelho e coloquei o sombreiro lilás na cabeça. Inicialmente um formigamento esquisito, depois fui lembrando os objetos perdidos ou esquecidos : as chaves, aquele brinco sumido, a página do livro que fechei, o nome do filme e diretor do filme que lembro e adorei e assisti a semana passada e outros tantos desaparecidos.

Aos poucos fui me familiarizando com seus poderes. Como na instrução estava escrito composição e reabilitação de neurônios, e regeneração celular, também a clorofila foi fazendo a expressão tranquila e serena, as rugas de braveza sumiram e a dificuldade de visão desaparecendo. Oxigênio para o cérebro e leveza para a alma. Mas o remetente não sei. Presente tão sagrado me deu presente para viver e lugar para pertencer.

E lá vou eu com meu chapéu lilás para aproveitar !!!

SMART GLASS : ÓCULOS QUE PERMITE VER A MENTE DAS PESSOAS, O QUE ELAS ESTÃO PENSANDO - Yara Pinaffo

João Mário estava decidido: "Hoje é o dia, não posso mais adiar, preciso ir ao oculista! Ele mal conseguia enxergar a uma distância maior do que um palmo de seu nariz. Chegando ao consultório, foi chamado rapidamente. Ao entrar, notou que o ambiente parecia mais um laboratório do que uma clínica oftalmológica, cheio de objetos de química e um microscópio. À sua frente, um velho barbudo, vestindo um guarda-pó branco surrado e uns óculos com lentes grossas, o cumprimentou e o mandou sentar. O médico examinou seus olhos minuciosamente e, em seguida, fez uma pergunta surpreendente: Você é feliz?

João ficou sem palavras por um momento. Finalmente, ele respondeu: Bem, eu acho que não sou feliz com frequência. As pessoas que me rodeiam costumam me deixar triste, suas mentiras e falsidades me afetam muito.

Então, o médico entregou a João um par de óculos especiais e disse: Estes óculos são um objeto muito especial. A partir de agora, você pode escolher o que ver, o que ouvir e com quem conviver.

João saiu do consultório e colocou os óculos. Ao caminhar pelas ruas, percebeu que seus óculos eram capazes de ouvir os pensamentos das pessoas - desde a moça que flertava com os rapazes até a velha fofoqueira, o mendigo que morava na praça e o menino que jogava bola. Eram tantos pensamentos, que sua cabeça mal conseguia processá-los. Ele então percebeu um botão nos óculos e descobriu que podia escolher o que queria ouvir.

Assim, João passou o resto de sua vida feliz, pois conseguia escolher as pessoas com base no que realmente pensavam e não no que falavam. Com seus óculos especiais, ele podia finalmente ver a verdadeira essência das pessoas e se afastar das que o deixavam triste.

LEMBRANÇAS DE OBJETOS MÁGICOS QUE EVOCAM PENSAMENTOS MÁGICOS –

Márcia Moretti

⁃ O livro de orações da minha mãe….. fazia milagres.

⁃ O assoalho de tábuas da nossa casa a noite estralava , junto com a cadeira de balanço de vime …. provocava calafrios.

⁃ Dormir no meio, entre meus pais … ninho protetor.

⁃ O balanço de madeira na árvore do pomar … encantamento.

⁃ Acordar com cheirinho do café na cozinha e o programa do Zé Bétio no volume alto do rádio…” antes vergonha, hoje saudades.

O anel desencantado Márcia Moretti

“ O anel que tu me deste era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou. “

Nem sempre histórias terminam assim. Algumas são as avessas. Esta é uma contação da história de um anel de noivado e de um acreditar. A avó da menina mostrava a ela um anel de rubi . Era seu talismã encantado, cristalizado no vermelho da paixão de outros tempos. Explicava que ali estava pedra muito rara ganha do avô por ocasião do noivado. Quando a neta completou quinze anos ganhou a jóia para manter na família. O noivo-avô já não existia e era ela a única neta mulher. Esta outra mulher-anciã partiu ano depois, deixando boas memórias. Era ela aquela personagem de livros infantis. Tinha uma casa grande com assoalho de tábuas que estalavam misteriosamente a noite, se sentava junto a máquina de costura e de lá saiam as roupas mais lindas para bonecas e antes dos almoços de domingo, após apurar o molho de tomates , ocava o pão, e com uma concha o preenchia com um caldo de aromas que passeava pela casa, mas tinha que ser devorado na varanda da cozinha, lá era lugar de se lambuzar. Pois a lembrança tem sabor e aroma e a cor rubra da pedra do precioso momento.

Com o tempo a avó foi desmanchado no viver. Nesta época, ao contrário, os sabores foram ficando mais intensos e coloridos, numa mistura de querer ficar e eternizar , quando a última refeição criada foi a massa de uma pizza napolitana, a última e a melhor, mas levou a receita. Assim ela se foi em despedida, apurando tantos sentidos e sentimentos a nos aproximar, e o anel para selar as paixões.

Quando a menina virou mãe e depois avó, soube que o presentearia a primeira neta, na regra do passa anel, sempre de avó para neta. Resolveu então modernizar o invólucro dourado que abrigava o rubi. A surpresa foi que não era autêntico !!!! Assim explicou o joalheiro. Então para a menina - avó a jóia ficou ainda mais preciosa pela história contida, e por seu elo de magia.Na certeza que ali não estaria o fim da história que encantou, desencantou e “reencantou “. Foram tantos os espaços com o valor único que abrigou e outros ainda esperando por vir … a história deve continuar.

O imenso amor desta avó pela neta se registrou no rubi que virou pedra preciosa.

Para Lucia Scaglione Moretti, minha avó, e para Maria Luiza, a Malu, minha neta

UM ANEL DESENCANTADO – Márcia Barrozo

As tias o deixaram guardado junto a rendas, cartas e bordados. Um anel sozinho e gasto separado das outras jóias poucas.

Agora toda casa é silêncio e tempo coagulado em ordem plana... Os retratos nas paredes, a sopeira craquelada, os antúrios. Os lençóis guardados no velho baú a dizer o desencanto de esperar amor.

Pensou que o anel fosse outro vestígio de solidão. Inevitável foi colocá-lo ao dedo... E súbito, compreendeu a magia.

Desfez-se espaço e tempo pra reuniram-se ali as tias, seus pais, avós e ancestrais não conhecidos. Na etérea ciranda lhe sorriam lembrando a ela o maior valor e o melhor presente.

Marinês teve um péssimo dia no trabalho e no caminho de casa, o Metrô atrasou. Tomou chuva e um carro jogou água suja nela. Decidiu não se aborrecer e recompor-se no tranquilo ambiente familiar. Comprou lasanha e um saco de pães fresquinhos. Entrou pela cozinha, colocou a lasanha do forno e os pães num cesto. Arrumou os cabelos, suspirou, botou um sorriso no rosto e entrou na sala de estar em grande estilo, dizendo: mamãe chegou! Mas aí seu mundo desmoronou. O gato assustou. O cachorro rosnou. O boleto chegou. A diarista faltou. A luz acabou. O ar-condicionado parou. A TV pifou. O calor aumentou. A nona vomitou. A filha escorregou. O vaso quebrou. O neto chorou. O marido peidou. O forno apitou. A lasanha queimou. O sossego acabou. Marinês respirou fundo, abriu a janela, inflou o saco de pães e gritou dentro dele: Xô patrão, xô Metrô, xô carro, xô chuva, xô marido, xô filha, xô nona, xô gato, xô cachorro, xô boleto, xô diarista. Pôs as mãos para fora, estourou o saco e disse bem alto: Xô problemas! O filho entrou na sala e gritou:

-Mãe, silêncio! Estou no celular com a Camila.

-Você fica quieto, se não eu ponho seu nome dentro do saco!

hInspiração

Vídeo “Mãe, quando eu vou ser branco?

A HISTÓRIA DE LEO – Jacyra Carneiro Montanari

Leo, hoje, um homem de 35 anos, advogado e um grande lutador pelos direitos humanos.

Sentou-se na praça, onde precisamente, há 25anos atrás, estava debaixo de uma árvore chorando, quando alguém sacudiu seu braço. Era sua professora que logo foi perguntando:

- Leo por que está chorando? O que aconteceu?

- Eu quero ser branco, professora. Falei para minha mãe e ela disse que não posso porque nasci negro e vou morrer negro.

- Ela tem razão Leo, mas por que você quer ser branco?

- Porque meus colegas na classe dizem que eu sou feio, negro e pareço um cocô.

- Quem está fazendo isso? Espero que não sejam os meus filhos.

- Não professora, são os outros.

-Eu não quero mais voltar para a escola. É muito ruim professora.

- Você vai voltar para a escola sim. Eu vou falar com o diretor e vamos falar com todos os alunos sobre isso. Vamos acabar com essa estupidez.

Passou um filme na cabeça de Leo. Ele lembrou que ninguém falava nada, ninguém era culpado de nada. O “bullying” acabou dentro da escola, mas na rua, continuavam a maltratá-lo, recordou Leo.

Leo sorriu ao fazer o seguinte comentário para si mesmo: “A professora não desistiu de mim, foi isso que me ajudou.” Leo acabou indo para as artes marciais com os filhos dela. Foram fazer karatê. O marido da professora freqüentava uma academia de karatê. Levou seus filhos e levou

Leo também.

Leo se lembrou de uma fala da professora:

- Todos nós temos uma força interior, só é preciso liberar. Você também tem Leo. Só você pode fazer isso, mais ninguém. Eu apenas estou mostrando um caminho. Existem outros caminhos que você pode procurar. Pode ser na religião, na ioga, na terapia etc.

- Professora eu já vou pra igreja com minha mãe. Eu quero de fazer karatê com seus filhos.

E foi assim que Leo começou a entrar em contato com a sua força interior. Não faltava nos treinos e aos poucos foi aprendendo a importância de saber usar a sua força não para acabar com o outro, mas aprender a conviver com o outro, aceitando-o como ele é. Conforme mudava de faixas no karatê, mudava também o respeito por si próprio e passou a perceber que tinha o respeito do outro.

O modelo na construção da sua vida foi Nelson Mandela, que prezava pelo ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas possam viver juntas em harmonia e com iguais oportunidades. Com esse pensamento, Leo se formou em direito e hoje luta por isso, sem sangue, mas com amor e com respeito ao outro.

QUANDO SEREI BRANCO? – Jacyra Carneiro Montanari

Quando eu serei branco?

Um menino perguntou

Branco não serás nem no tranco

Sua mãe, sem sorrir, o olhou.

Filho! Você negro nasceu

Sua cor vai ter que aceitar

Você já agradeceu

De nesta vida estar?

Filho olhe para você

Você andar e pode ver

Olhe o céu: o que se vê?

A beleza do anoitecer.

Ligue o seu celular

Além de ver, pode ouvir

E também até falar

Quantos estão sem conseguir!

Veja o quadro como é belo

Suas cores estão a vibrar

É o negro sem paralelo

Que o finaliza para brilhar.

Lute pela sua cor

Para o branco amadurecer

Uma luta com muito amor

Vá em busca do humano ser.

TEM COISA PIOR QUE PRECONCEITO? – Laerte Temple

Mauricinho, 11 anos, foi chamado à sala da Diretora mais uma vez e pelo mesmo motivo. Na antessala, viu a patota reunida e deu um “salve” debochado ao Jerson Cocô, Rita Rolha de Poço, Takeo Pario, Ari Ferrugem e Eva Rodapé. A Assistente Social Rosa, a Mona Enrugada, o recebeu de cara amarrada e disse que a conversa seria gravada. Ela ligou a câmera, disse data, hora, nome dos dois e perguntou por que ele apelida e goza os coleguinhas. Mauricinho explicou sorrindo:

• O Jerson, com “J”, é negro, feio e tem cara de cocô. A Rita, se cair num poço, entala na boca. Ela parece uma rinoceronte prenhe. O Takeo, japinha, 4 olho e com esse nome, que apelido teria? O Ari tem a cara pintada e cabelo cor de água de salsicha. É ferrugem ou zarcão. Eva é tão nanica que nem precisa se abaixar para pintar rodapé.

• Por que eu sou a Mona Enrugada?

• Bem, a senhora já foi Monalisa há uns 30 anos.

• Eu tenho apenas 29, seu mal educado.

Rosa disse que apelidar e zoar os colegas é bulling. Ofende as pessoas. Só porque ele é loiro, alto e de família rica, não pode ofender os demais. Após a última reunião com pais, professores e alunos, várias famílias procuraram a Diretora, que pediu para ouvi-lo e tentar a convivência pacífica. Gostamos de todos vocês. Ela parou de falar quando viu o garoto se afundar na poltrona, com lágrimas nos olhos. Ele disse que tem muita raiva de toda a patota.

• Raiva, Mauricinho? Por que? O que eles fizeram?

• Eles têm pais carinhosos e atenciosos. Eu vim com o motorista da família que ficou o tempo todo no celular vendo foto de mulher pelada.

• Por que sua irmã não veio com você?

• A Pat e a Marta só pensam no tal açúcar instável.

• Acho que você quer dizer União Estável.

• Isso mesmo. E as duas brigam comigo o tempo todo. Eu tenho brinquedos caros, computador, celular, roupas boas, mas quem cuida de mim é uma babá asquerosa e um motorista galinha. Eu invejo porque eles têm pais sempre presentes e eu não.

• Seus pais trabalham em Brasília, né? Parece que são importantes.

• Meu padrasto é empreiteiro e foi enrolado na Lava Jato.

• O termo certo é Arrolado.

• Isso. Ele até foi preso. Minha mãe é Deputada e envolvida em duas CPIs por corrupção. Tenho vergonha deles e desconto nos colegas.

• O que você espera do futuro?

• Quero ser órfão de pai e mãe!

• Nossa, Mauricinho. Até arrepiei. É tão ruim assim?

• É senhorita Rosa. Isso é tão ruim quanto sofrer bulling. Rosa abraçou e chorou com ele. Quando deixou a sala, olhos marejados, encontrou a patota que acompanhou a conversa pelo circuito de TV.

Mauricinho recebeu um carinhoso e demorado abraço coletivo, pediu perdão e jurou se comportar. Agora ele tem muitos irmãos, de diversas cores e tamanhos.

A VIDA TEM… – Márcia Barrozo

A vida tem dessas coisas.

Coisas que não devia ter.

Tem gente que não entende gente.

Tem gente que machuca gente.

Tem gente tão infeliz que faz o contrário

Do que devia fazer.

Filhinho... Vem pro meu colo!

E chora o quanto te for preciso

A tristeza tanto dói e a gente chora.

A gente conta o que ao coração aflige...

Me diz, então, meu pequeno

O que te faz assim sofrer?

A vida tem dessas coisas.

Coisas que não devia ter

E o que fazer dia e outro com isso?

Não! Não é fácil se proteger

Mas falar e pensar é um bom começo

Pra aos poucos mais forte a gente ser.

Quem desanda a machucar

Entenda, não teve este carinho.

Não teve este colinho

Não aprendeu consideração.

Quem agride e não sabe ser amigo

Coloca em perigo o próprio coração!

E, agora, que tal outro consolo?

Vamos lá pra cozinha

Fazer um bolo gostoso?

Pega a tigela, farinha, açúcar e ovo.

E tá vendo como fica a mistura

Quando se põe o chocolate?

Mamãe! Mamãe! Agora entendi!

Já sei duas coisas importantes:

Quero comer esse bolo com meus amigos...

E se alguém falar de novo

Que eu sou da cor do cocô

Eu sei o que vou dizer…

Cor de cocô que nada!

A mais pura verdade

É que eu sou da cor

Do bolo de chocolate!

A vida tem dessas coisas.

Coisas que precisa ter.

Gente que entende gente.

Gente que acolhe gente.

Gente que faz justinho

O melhor que pode fazer.

PRÉ-CONCEITO OU PRECONCEITO - Yara Pinaffo

Nelson Mandela, um ícone da luta pelos direitos civis, afirmou que o ódio não é uma emoção inata, mas sim aprendida. Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, sua origem ou religião. Ao invés disso, o preconceito é algo que é ensinado e pode ser desaprendido.

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