A Importância Cultural do Pão

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A Importância Cultural do Pão

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omo alimento de grande importância histórica, em muitas culturas, tanto no Ocidente como no Oriente, o pão adquiriu um significado que vai além da simples fonte de nutrição. A exemplo do Pai Nosso, a oração maior do cristianismo, que contém o verso “O pão nosso de cada dia nos daí hoje”, a palavra “pão” é normalmente entendida como necessidade básica em geral. 1


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O pão sacramental da Igreja bizantina

Mas o símbolo encerrado no pão não é apenas religioso. A palavra companheiro, de origem latina, é formada pelos termos Com (que tem o mesmo significado que em português) e Panis que quer dizer “pão” naquela língua. Assim, companheiro é aquele com quem se divide o pão - seja um colega de trabalho ou familiar. 2


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O poeta romano Juvenal satirizava os políticos que hoje poderiam ser chamados de populistas com o termo “panem et circenses”, isto é, “pão e circo” O poeta romano Juvenal satirizava os políticos que hoje poderiam ser chamados de populistas com o termo “panem et circenses”, isto é, “pão e circo”. Como muitos políticos latino-americanos, esses homens públicos da Roma antiga pouco faziam para melhorar de fato a qualidade de vida do povo. Em lugar disso, patrocinavam lutas de gladiadores nos circos das maiores cidades romanas para divertir a população e distribuíam pão para saciar a fome dos cidadãos mais pobres. Dessa forma, entretidos com os espetáculos e de barriga cheia, poucos reclamavam de sua situação. Ao contrário, sentiam-se privilegiados e gratos ao político que patrocinou o pão e o circo. Na Europa, principalmente na Idade Média e Renascença, o tipo de pão que a pessoa consumia indicava sua posição social. Assim, quem consumia pão branco, feito com farinha refinada e mais caro que os pães comuns, era tido pelos seus conterrâneos como 3


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alguém de posses, que se alimentava com o que havia de melhor. Nas guerras, quando os soldados saqueavam as cidades que invadiam, o pão branco era um item muito procurado. Pode-se dizer que esses guerreiros matavam por esse tipo de pão.

A Marcha das Mulheres (autor desconhecido, 1789)

Durante a Revolução Francesa, a necessidade de pão como alimento fundamental levou ao episódio conhecido como A Marcha das Mulheres Sobre Versalhes. Pouco depois da Queda da Bastilha, as mulheres trabalhadoras do mercado de Paris organizaram, em 5 de outubro de 1789, uma marcha 4


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para protestar contra o alto preço e a escassez de pão. Uma multidão de revolucionários se uniu a essas mulheres exigindo, igualmente, reformas políticas e uma monarquia constitucional. A multidão irada dirigiu-se ao Arsenal de Armas da cidade e o saqueou. Aramados, dirigiram-se ao Palácio de Versalhes, então residência do rei Luiz XVI e da rainha Maria Antonieta. Invadindo o palácio e massacrando muitos dos membros da guarda real, a multidão impôs suas exigências ao rei e obrigou a família real a deixar Versalhes e se instalasse em Paris. O episódio marcou o fim da autoridade real. Alguns anos depois, em 1793, Luiz XVI e sua esposa, a rainha Antonieta, foram executados na guilhotina.

Na Rússia, em 1917, no curso da revolução bolchevique, Lênin prometia “Paz, Terra e Pão” Na Rússia, em 1917, no curso da revolução bolchevique, Lênin e seus aliados prometiam “Paz, Terra e Pão”, três elementos vitais para os camponeses russos explorados pela nobreza. De fato, o simbolismo do pão nesse país e nas culturas eslavas em geral é 5


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destacado. Tanto que, quando um convidado chegava à casa de seu anfitrião, era sempre recebido com uma oferta de pão e sal. Na índia, o simbolismo do pão adquire significado semelhante. Naquele país, as necessidades básicas das pessoas são resumidas na frase “roti, kapra aur makan”, isto é, “pão, roupas e casa”.

Chapati, um tipo de pão tradicional indiano

O pão influenciou até mesmo a criação de gírias e expressões. No Brasil, nos anos 1960 e 1970, “pão” era uma gíria que significava homem com boa aparência. 6


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Em contrapartida, embora menos comum, “broa” era uma garota bonita. Em inglês, ainda hoje “pão” é um sinônimo de dinheiro. Mesmo em nosso país, pão tem sentido parecido, quando empregamos o termo “ganha-pão”. Pão e Religião No cristianismo, o pão (juntamente com o vinho) adquire significado simbólico como um dos elementos da Eucaristia - a sagrada comunhão praticada no rito cristão. É o pão sacramental, que significa o corpo de Cristo e que remete à ressurreição do fundador dessa religião.

Nos países cristãos, o pão é objeto de grande respeito, pois representa o corpo de Cristo e remete à Ressurreição

Por isso mesmo, nos países cristãos, principalmente nas comunidades mais pobres, o pão é objeto de grande respeito, uma vez que Jesus usou esse alimento para 7


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simbolizar seu corpo. Entre os cristãos mais arraigados, não se deve desperdiçar pão, ou jogá-lo no lixo ou no chão. Essas pessoas consideram um pecado fazê-lo. Alguns cristãos mais fervorosos fazem, ainda hoje, o sinal da cruz na superfície do pão, com uma faca, antes de consumi-lo.

O Challah, consumido nas celebrações religiosas hebraicas

Entre os judeus, o pão também é usado em celebrações religiosas. De acordo com a tradição hebraica, as refeições do sabbath (o jantar da sexta-feira, o almoço 8


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e o jantar do sábado) e dos feriados religiosos (o jantar da véspera do feriado e o almoço do dia seguinte) começa com o consumo de dois pães challah inteiros. Esse pão é feito com ovos e tem uma casca fina e dura e o miolo macio. É confeccionado trançando-se seis tiras de massa. Em seguida, é assado levemente no forno. Pode-se ainda adicionar uvas passas à massa do challah que, às vezes, também é adoçada com mel. Os dois pães challah consumidos no sabbath e nos feriados celebram o maná, alimento milagroso produzido por Deus que caiu do céu quando os israelitas vagavam através do deserto durante os quarenta anos do Êxodo do Egito. As doze tiras de massa trançada - seis de cada pão - representam as doze tribos de Israel.

Durante a Páscoa, os judeus comem diversos tipos de matzá

Durante a Páscoa, devido a uma imposição bíblica de não se consumir pão fermentado nesse período, os judeus comem diversos tipos de matzá - um pão duro, 9


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feito com água e farinha semelhante ao biscoito água e sal. Também nas religiões neopagãs, o pão tem importância simbólica. Na Wicca, o pão e o vinho são consumidos durante os rituais para lembrar aos fiéis que os deuses dão tudo o que a humanidade precisa para sobreviver.

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Direito reservados: Sindicato dos Padeiros de São Paulo, 2012 Este artigo pode ser reproduzido para fins educativos; a fonte deve ser citada

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