'NINGUÉM VÊ OBELISCOS DE SOROCABA COMO SÍMBOLOS FÁLICOS', PROTESTA GRAFITEIRA CENSURADA Desenho de 'flor-vagina' de Panmela Castro foi coberto de cinza pelo poder público Obra "Femme maison", de Panmela Castro, em Sorocaba, que foi pintada de cinza - Divulgação / Divulgação
POR NELSON GOBBI 11/12/2017 21:32 / atualizado 11/12/2017 22:40
RIO — Com obras pelas ruas do Brasil e de mais 10 países e eleita pela revista “Newsweek” uma das 150 mulheres que “agitaram o mundo", em 2012, a grafiteira carioca Panmela Castro tem seu trabalho reconhecido pela forma como destaca a
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condição feminina, a partir de temas como sexualidade, violência doméstica, igualdade e empoderamento. Foi justamente uma obra que aborda vários destes aspectos que desencadeou uma polêmica na cidade de Sorocaba (SP), onde Panmela – que também é conhecida pelo codinome de Anarkia Boladona – fez uma intervenção na lateral do Palacete Scarpa, sede da Secretaria da Cultura e Turismo da cidade, a convite da segunda edição do Frestas – Trienal de Artes do Sesc Sorocaba, realizado em agosto.
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executado, o grafite foi alvo de protestos encabeçados pelo vereador Pastor Luis Santos (PROS), que protocolou requerimento à prefeitura solicitando a remoção da obra. No último domingo, o grafite foi pintado de cinza, após acordo entre o secretário da Cultura e um promotor de Justiça. Para Panmela, a decisão é mais uma prova do retrocesso que as mulheres vêm enfrentando nos últimos anos no Brasil. — Isso diz muito sobre a sociedade que estamos vivendo, sobre um tempo em que as mulheres precisam lutar para não perder direitos, em vez de garantir outros. Faz parte da nossa cultura, os meninos são criados para mostrar o pintinho, mostrar que são homens, enquanto as meninas são instruídas a sentarem de pernas fechadas, a se esconderem. Sorocaba tem vários obeliscos, mas ninguém acha que eles são símbolos fálicos e devem ser derrubados por isso. Mas quando é algum tipo de representação do sexo feminino, é proibido — compara Panmela. Depois de finalizar a obra, a artista acompanhou os desdobramentos
‘Não é só pelo grafite ou pela desqualificação do meu trabalho promovida pelo vereador. Esse ódio que faz com quem meu trabalho seja destruído é o mesmo que mata uma mulher a cada hora no Brasil.’
de longe e diz não ter sido procurada em nenhum momento pela prefeitura de Sorocaba para decidir sobre sua obra. Ela soube pela imprensa que o grafite havia sido apagado, o que, mais que revoltá-la, a deixou preocupada. — Não é só pelo grafite ou pela desqualificação do meu trabalho promovida pelo vereador. Esse ódio que faz com quem meu trabalho seja destruído é o mesmo que mata uma mulher a cada hora no Brasil. A mesma misoginia que traz tanta violência à vida das mulheres, em casa e nas ruas, que faz com que elas ocupem piores
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- PANMELA CASTRO Grafiteira
postos de trabalho, que não sejam devidamente representadas na política – lamenta a artista.
Sobre a acusação de que a obra não seguiu fielmente o esboço apresentado à prefeitura , a carioca diz que as alterações foram aprovadas pela curadoria do festival. — Eles viram uma obra semelhante que estava no meu ateliê e que hoje está exposta no Urban Nation (o Museu de Arte Urbana Contemporânea de Berlim), e acharam que havia elementos que se encaixariam bem no trabalho em Sorocaba — lembra Panmela, que expõe suas obras no Imperator, no Méier, até fevereiro. – E a obra de arte é um trabalho em construção, ainda mais sendo grafite. É preciso um diálogo com a rua, o público, o esboço é o ponto de partida, mas não a obra em si.
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