CULTURA.SUL 63 - 8 NOV 2013

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Espaço Cria: d.r.

Crowdfunding, resposta em tempo de crise

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Grande ecrã:

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Cineclube de Faro exibe Sobibor

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O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N:

Novembro

Zeca Afonso:

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Memórias que o tempo não apagou p. 4 e 5

josé duarte

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Espaço património: d.r.

NOVEMBRO 2013 n.º 63

Tavira e a sua História

Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO p. 9

8.238 EXEMPLARES

www.issuu.com/postaldoalgarve

Vida feitade mar ganha concurso Olhar a Vida p. 6


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Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

Longe da net, longe da vista

Crowdfunding, uma resposta em tempos de crise… que veio para ficar parte da Comissão Europeia, no possível alargamento (da esfera de influência) destas plataformas, a um nível internacional. Não sem, antes, identificar de forma clara as vantagens e

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Quem está longe dos internautas está, hoje e em grande medida, longe da vista e, já diz o ditado, longe da vista, longe do coração. O sítio na internet da Direcção Regional de Cultura (DRCAlg) existe e o património sobre a sua tutela directa marca ali presença, mas a simples presença na web não chega. O sítio é pouco atractivo visualmente, desarrumado estruturalmente e, por via disso e de uma plataforma desajustada, é muito pouco amigável para o utilizador. Urge uma remodelação profunda e uma nova forma de estar na net para a DRCAlg e para os monumentos regionais, bem como, para toda a restante miríade de conteúdos que o actual sítio contém. Sabe-o a Direcção regional, e sabe-o quem visita o sitío e não há razão bastante, seja ela qual for, que justifique não encarar este problema de frente. A importância turística do Algarve e as necessidades da própria região impõem que algo seja feito e de preferência para ontem. Isto é tão mais verdade quanto o sítio da DRCAlg tem já conteúdos de qualidade e de relevo. Áudio-guias para os Castelos de Paderne e de Aljezur (monumentos sem guardaria permanente), que permitem uma visita acompanhada aos turistas, bastando para tanto que em casa ou no local façam o respectivo download dos ficheiros. Ali estão também materiais didácticos para as visitas escolares ou para os pais proporem como desafios aos filhos nas visitas aos monumentos e ali moram também descrições bem conseguidas de cada um dos monumentos que permitem ao visitante, em antecipação ou no próprio local, aceder a informação qualificada. O grosso do trabalho está feito, o desafio é arrumá-lo e traduzi-lo para outros idiomas e colocar o trabalho dos profissionais da DRCAlg à disposição de quem precisa quando precisa. Sem delongas nem engulhos que a sociedade da informação não perdoa.

Ficha Técnica:

vância. Não me refiro à questão do montante atribuído, até porque cada um disponibiliza a verba que pode e esta só lhe é retirada após a percentagem mínima de financiamento ser d.r.

Ana Lúcia Cruz Gestora de Ciência e Tecnologia do CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

As plataformas de Crowdfunding têm vindo a representar, de uma forma positiva, uma boa solução para quem pretende financiamento para a sua ideia de negócio. De uma forma geral, são plataformas de financiamento coletivo que permitem a muitos empreendedores concretizarem ou iniciarem os seus projetos, através do acesso a pequenas verbas atribuídas por todos aqueles que estejam interessados em ajudar. Associadas a essas verbas, estão recompensas que variam mediante o valor do apoio. Em tempos de crise, onde o capital próprio é uma miragem e as limitações do acesso à banca são muitas, estas plataformas têm desempenhado um papel muito importante no fomento ao empreendedorismo. Arrisco-me, inclusivamente, a lançar um cenário de grande crescimento que, a longo prazo, será difícil de ignorar. A prova disso é o crescente interesse, por

desvantagens do Crowdfunding e de salvaguardar a confiança dos cidadãos nestas ferramentas de captação de financiamento. Apesar de ser completamente a favor deste tipo de plataformas, percebo estas preocupações, pois os desafios que se colocam à escala local, não são os mesmos quando falamos em outro tipo de mercado (global). E neste contexto, algumas questões podem ganhar mais rele-

alcançada, mas (apenas um exemplo) à questão das recompensas. Quanto maior for o montante atribuído, melhor é a recompensa e isto pode representar um sério problema, caso o promotor não consiga cumprir com o “prometido”. Nessa situação, de nada adianta as plataformas salvaguardarem-se com políticas de desresponsabilização, pois este tipo de incidente abala a confiança

dos apoiantes, denegrindo em muito este tipo de estruturas. Outra questão, que me preocupa, diz respeito ao uso devido do financiamento. Caso o projeto não se concretize, quem garante o fácil reembolso aos apoiantes do projeto? Estas são apenas algumas das questões que considero pertinentes assegurar e por isso compreendo as preocupações da Comissão Europeia. No entanto, também acredito que exista por parte destas plataformas, ainda bastante recentes, um grande interesse em dar respostas a estas preocupações. Afinal, não nos podemos esquecer que dependem diretamente do sucesso dos projetos submetidos e da confiança que os apoiantes depositam neste serviço. Ou seja, uma boa reputação atrai mais apoiantes, logo mais empreendedores para a submissão de projetos. No entanto, temos de imaginar estas questões a uma escala global, onde as leis de mercado são diferentes de país para país. Mesmo que estas questões não sejam ultrapassadas, continuo a acreditar no futuro do financiamento coletivo, onde o principal “Business Angel” é o mais comum dos mortais, que indiretamente acaba por validar ou não a ideia de negócio antes de esta chegar ao mercado.

Uma opinião alheia Mariana Ramos Estudante

Eu gosto de discutir opiniões. É algo que considero importante; pode-se aprender algo com toda a gente, e até o mais ínfimo detalhe pode mudar drasticamente um ponto de vista. E, quem sabe, esse pormenor não mudará o meu? Não custa tentar, estamos cá para aprender. Mas depois, numa troca de

Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Contos da Ria Formosa: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Ana Lúcia Cruz Jaquelina Covaneiro Mariana Ramos Paulo Serra Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve

Juventude, artes e ideias

ideias em conversa de ocasião, saltam-me com esta: “São opiniões, cada um tem a sua. Não devias estar a tentar mudar a dos outros, são coisas que não se discutem”. Ora essa. Muito pelo contrário. Opiniões são para serem discutidas. Vejam, quando me refiro a opiniões, refiro-me a pontos de vista com o nosso cunho de personalidade, mas baseados em factos e com um mínimo de discernimento, não divagações infundadas de mentes confusas. E é mais que saudável conhecer os porquês de uma maneira de pensar diferente. A opinião discutida pode até não mudar, mas a consciencialização de

Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural

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que existe uma mentalidade distinta pode, e deverá, alterar de algum modo a nossa

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maneira de agir. Contudo, a estigmatização da opinião como algo estritamente pessoal, imutável e indiscutível, torna a comunicação e o avançar das coisas muito mais lento e rígido. Como é que eu posso debater com alguém que, à partida, terá sérias probabilidades de se ofender com o questionar das suas ideias? Ou com alguém que considera a sua opinião de tal forma magistral, que se recusa a maculá-la com a mentalidade alheia? Ensinam-nos a questionar tudo, não podemos também questionar-nos uns aos outros? Mas é como dizem: Isto é só a minha opinião.

e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 8.238 exemplares


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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPJ | 21.30 HORAS | ENTRADA PAGA CICLO VARIAÇÕES EM MAL MAIOR

12 NOV | HANNAH ARENDT, Margarethe von Trotta, Alemanha/Luxemburgo/França, 2012, 113’, M/12 19 NOV | E AGORA? LEMBRA-ME, Joaquim Pinto, Portugal, 2013, 164’ 26 NOV | SOBIBOR, 14 DE OUTUBRO 1943, 16 HORAS, Claude Lanzmann, França, 2001, 95’ SEDE | 21.30 HORAS | ENTRADA LIVRE TRIBUTO A PATRICE CHÉREAU 14 NOV | O HOMEM FERIDO, França, 1983, 109’ 21 NOV | A RAINHA MARGOT, França, 1995, 162’ 28 NOV | QUEM ME AMAR IRÁ DE COMBOIO, França, 1997, 122’ BIBLIOTECA MUNICIPAL | 21.30 HORAS | ENTRADA LIVRE O FILME FRANCÊS DO MÊS 15 NOV | LA CHAMBRE DES MORTS, Alfred Lot, França, 2007, 118’, M/12

Novembro em cheio Novembro é fortíssimo no Cineclube de Faro. No IPJ, contamos “Variações em Mal Menor” - com Dentro de Casa, um dos melhores filmes de François Ozon, que, usando alguns temas de carácter hitchcockiano (voyeurismo, manipulação), afirma a cada passo toda a perversidade entre realidade e ficção; sem qualquer ficção, baseado em acontecimentos históricos, Hannah Arendt recorda o momento em que esta filósofa alemã foi convidada pelo New York Times para acompanhar o julgamento em Jerusalém do nazi Eichmann: a “Banalidade do Mal” foi o conceito que dali resultou; seguidamente, um filme sobre a doença que insidiosamente se instala, nos persegue e nos atormenta – e do que fazer com ela e a partir dela: E Agora? Lembra-me, filme ovacionado no recém DocLisboa, é um testemunho biográfico comovente, urgente e necessário do realizador Joaquim Pinto e do

Cineclube de Tavira d.r.

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30 horas 14 NOV | LINHAS DE WELLINGTON, Valéria Sarmiento, França/Portugal 2012 (135’) M/12 17 NOV | SEVEN PSYCHOPATHS (SETE PSICOPATAS), Martin McDonagh – Reino Unido 2012 (110’) M/16 21 NOV | DUPA DEALURI - BEYOND THE HILLS (PARA LÁ DAS COLINAS) , Cristian Mungiu, Roménia/França/Bélgica 2012 (150’) M/12

Imagem do filme Hannah Arendt coloca um ponto final à face misteriosa da história para lembrar a magnitude do crime e do horror» que foi o Holocausto nazi. Impressionante. Muito triste foi a partida de Patrice Chéreau, o visionário realizador francês. Aproveitamos para, na sede, em Novembro e Dezembro, darmos a retrospectiva (quase) integral da sua obra.

seu marido Nuno Leonel, também ele realizador português. «Um autêntico acontecimento cinematográfico, um filme-vida para guardar como experiência única, um dos mais belos testemunhos em cinema de uma alma humana a revelar-se.», como escreveu Nuno Carvalho. Fechamos com Sobibor, de Claude Lanzmann: «Através de uma sobriedade dolorosa, este filme

28 NOV | HODEJEGERNE (HEADHUNTERS - CAÇADORES DE CABEÇAS), Morten Tyldum – Noruega/Alemanha 2011 (100’) M/16

Espaço AGECAL

Gestão de museus, evolução de conceitos e funções(2) Com a análise dos recursos culturais regionais, no último texto aqui publicado, abordámos de forma muito sintética e breve, a origem histórica dos museus. Do ponto de vista conceptual, duas perspectivas coabitaram ao longo dos séculos. Por um lado, a definição de museu de Comenius como um “lugar onde o sábio, separado dos homens, sentado sozinho lê os livros sem parar”, uma ideia que se confunde com a de biblioteca e com um trabalho individual. Com efeito sempre objetos e livros coexistiram nos mesmos espaços e ainda hoje o ensino dá especial valor ao esforço do indivíduo e a selecção é realizada com base na apreciação individual. A perspetiva enciclopédica e universal de museu, que terá sequência nos séculos seguintes, assumiu particular relevância durante o Renascimento, com o aparecimento da ideia da exposição como um teatro e a tentativa de classificação dos objectos, relacionada com a normativa e clássica subdivisão entre “ciências puras” ou “técnicas” e as “ciências humanas”. O primeiro impulso foi considerar museu o lugar onde “tudo

o que existe é estudado”, logo se verificou a impossibilidade e que a musealização deveria ser contextualizada, o que deu origem ao fenómeno dos “ecomuseus” surgido com grande intensidade nas últimas décadas do século XX. A função pedagógica e educativa nos museus começa a desenvolver-se a partir da Revolução Francesa, com a democratização gradual do acesso ao conhecimento e a criação da escola pública que acabou com o monopólio do ensino religioso. As funções dos museus foram-se estabelecendo e hoje as tarefas decorrentes são desenvolvidas por equipas especializadas, profissionalizadas e trabalhando de forma continuada. Resumidamente: A investigação no território e a identificação de ocorrências e objectos que analisa da importância, relevância simbólica, histórica ou artística para as coleções. Neste âmbito surgem as equipas pluridisciplinares internas ou externas ao museu. No caso do Algarve, foram identificados pelos investigadores do século XIX estruturas de povoamentos da Antiguidade, caso de Milreu e da colecção de lapidaria romana do Museu de Faro, também estruturas islâmicas visíveis e

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Alçado do Museu de Portimão musealizadas em cidades algarvias como Silves ou Tavira O património industrial algarvio tem o seu museu mais destacado em Portimão, dedicado às actividades das conservas de peixe daquela cidade. O estudo e documentação permite organizar as ideias com vista à musealização, onde se inclui as tarefas de registo e inventário.

Praticamente todos os museus constituídos no Algarve desenvolvem estas tarefas e a própria Rede de Museus do Algarve – RMA possui grupos de trabalho que acompanham e trocam experiencias de boas práticas nestes domínios A preservação envolve operações de conservação e restauro, o depósito e armazenamento em condições que garantam a salvaguarda futura. É um dos problemas maiores com que se deparam os museólogos, uma vez que a construção de depósitos tem custos elevados e sem visibilidade social, ocupam espaços amplos e exigem condições ambientais de higiene sanitária, temperatura e humidade A exposição é um mundo complexo envolvendo todas as funções do museu e o conjunto das especialidades no âmbito da museologia, como a museografia, isto é, as técnicas expositivas, do design de comunicação à luminotecnia, da pedagogia ao catálogo. Os museus de São Brás e Tavira têm dedicado especial atenção à investigação e exposição sobre o património material e imaterial. A exposição “Algarve, do Reino à Região” realizada pela RMA, foi

uma exposição conjunta e pioneira de uma nova forma de trabalho de investigação e exposição em rede, área onde o Algarve está mais avançado. A divulgação e comunicação são funções que, no mundo atual onde a imagem e a informação predominam, exige atenção crescente sob pena de não existir conhecimento das actividades e consequentemente visitantes A educação tem vindo a ganhar relevância nos museus através dos seus serviços educativos e programas de cooperação com as escolas, visitas orientadas não apenas às exposições e aos monumentos da cidade, mas também oficinas temáticas e de exploração da criatividade. No Algarve o CIIP de Cacela, estrutura ligada a Vila Real de Santo António, introduziu com sucesso já há anos os ciclos regulares de passeios temáticos de interpretação do património. O património imaterial possui uma crescente relevância na vida dos museus e das populações e nesse aspecto o Algarve possui uma enorme riqueza de expressões AGECAL – Associação de Gestores Culturais do Algarve


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Panorâmica

Memórias que o tempo não apagou, meio século depois Luís Andrade

Licenciado em Comunicação Social (especialização em Jornalismo e Informação)

Histórias reais que permanecem no tempo, passadas e vividas com José Afonso. Um testemunho impressionante, contado na primeira pessoa, por quem privou de perto, alguns momentos da sua vida, com “Zeca” Afonso. José Pontes da Luz foi um dos alunos que frequentou o curso de aperfeiçoamento do Comércio Noturno (o equivalente ao antigo 5º ano dos Liceus) na Escola Industrial e Comercial de Faro, nos anos

1961 e 1962. Atualmente, esse Órgão Escolar designa-se Tomás Cabreira. Zeca Afonso foi professor de Português e Francês de José Pontes nesse Estabelecimento de Ensino. Nessa época, Zeca Afonso preparava a Tese da sua Licenciatura para posteriormente a apresentar na Universidade de Coimbra. Um dia, na sala de aulas, Zeca Afonso perguntou aos seus alunos se algum deles escrevia bem à máquina. O aluno José Pontes, com cerca de 22 anos de idade, responde: “eu tenho a disciplina de datilografia e estou empregado na Caixa Agrícola de Faro e escrevo bem à máquina”. Face a esta informação, ficou decidido que todos os dias, a partir das 17 horas, após a ausência do gerente da Caixa Agrícola, Zeca Afonso poderia aparecer nesse local. Durante duas semanas reuniam-se uma hora por dia, o professor ditava e o aluno escrevia à máquina.

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Placa evocativa de Zeca Afonso (Faro)

fotos: d.r.

Zeca Afonso Depois da Tese concluída e já no final do ano letivo, professores e alunos resolvem organizar uma excursão. Teve como percurso algumas zonas turísticas do Algarve, Caldas de Monchique foi um dos locais de eleição. José Pontes tinha um harmónio mas só sabia tocar uma balsa, mesmo assim, decide levar consigo o instrumento para animar todos os excursionistas. Zeca Afonso como gostava muito de dançar, quando o seu aluno acabava de tocar a balsa, o Zeca dizia: repete, repete, repete e o Zeca lá continuava a dançar com a mesma parceira de dança. Ainda para comemorar o final do ano, os alunos decidem organizar um jantar na cervejaria Baía em Faro. Para esse jantar, que foi servido no primeiro andar, convidaram o Zeca Afonso. No final do jantar, os alunos presentes, depois de muita insistência, conseguiram convencer Zeca Afonso,

“MEMÓRIAS DO TEMPO E DO PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO” Até 1 DEZ | Museu de Portimão O arquitecto António Menéres expõe um total de 86 fotografias que representam um arquivo de memórias do tempo e do património construído e por vezes vem sendo destruído de forma incontida e irreversível

a tocar e a cantar O Meu Menino é D’Oiro. Apesar de Zeca Afonso saber que a PIDE o andava a vigiar de perto, mesmo assim,

lá cantou e tocou baixinho essa canção, junto à janela e sempre atento e de olhos bem abertos virados para a rua.

A letra dessa canção na época tinha sido referenciada pela Polícia Política. Um dia, já em pleno verão, um membro do Governo ligado ao Ministério da Educação desloca-se a Faro. Alunos e professores de todos os estabelecimentos de ensino de Faro foram convidados a estarem presentes para darem as boas vindas à entidade e ao mesmo tempo, assistirem a um discurso dessa individualidade que foi proferido diretamente da varanda do Governo Civil de Faro. Nesse momento, Zeca Afonso não estava presente. A dada altura apareceu uma pessoa vinda do Cais da Porta Nova, que fica junto à Marina de Faro, vinha apetrechado de remos e de um balde, transportava ainda uma cana de pesca, vestia calções e T-shirt e calçava chinelos. Os presentes, depressa se aperceberam que se tratava do professor Zeca Afonso. Zeca Afonso, com um ar

Casa onde viveu Zeca Afonso (Faro) “CONQUISTANDO NOVO HORIZONTE!” Até 25 NOV | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira A pintura de Beth Sales reflecte com espontaneidade a alegria e a vivência das cores. Gatos, pássaros, casas, peixes e paisagens têm o mesmo grau de potência lírica no trabalho da artista


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Zeca Afonso (o primeiro da direita) e José Pontes (terceiro a contar da esquerda descontraído, faz questão de “desfilar” silenciosamente pela rua. Ao passar por um enorme cordão humano, Zeca Afonso é recebido com

cação “silenciosa”, uma vez que o Zeca poderia ter tomado outro itinerário, mais curto, mas não o fez, fez sim questão de seguir o caminho

Primeira página da Tese de Zeca Afonso mais aplausos do que os que a entidade oficial tinha recebido aquando a sua chegada. O regime de então considerou o gesto de Zeca Afonso, como que uma provo-

mais longo. Para muitos, este ato, foi considerado uma lição de enorme coragem e de grande incentivo, exortando o espírito de todos aqueles

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Porta Nova (Faro) perto da casa de Zeca Afonso

Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, onde leccionou Zeca Afonso e foi seu aluno José Pontes que pretendessem vencer o medo. No momento em que Zeca Afonso passava, ouviram-se muitos risos acompanhados de fortes aplausos. Os professores sentiam-se um pouco mais constrangidos, enquanto que os alunos apresentavam-se muito mais extrovertidos. Este é mais um brilhante testemunho, como tantos outros, em que muitos Heróis marcaram a História dos Homens que demonstraram não ter medo em desafiar o antigo regime do Estado Novo. Ironia do destino: passado mais de meio século, um dos exemplares da Tese da Licenciatura de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, sobre Jean-Paul, intitulada, “Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana”, volta de novo às mãos de quem a “escreveu à máquina”. José Pontes, antigo aluno de Zeca Afonso, no passado dia 12 de Abril de 2013, fez uma viagem de Faro a Coimbra. Esta viagem, cheia de nostal-

Cervejaria Baía, em Faro, onde Zeca Afonso cantou “O Meu Menino é D’Oiro”

José da Ponte exibe a tese de Zeca Afonso gia, teve como propósito levar o antigo aluno, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, para aí poder encontrar “algo” que lhe ficou eterna-

Universidade de Coimbra, onde Zeca Afonso se formou

“FORA DO BARALHO” 9 DEZ | 21.30 | Centro Cultural de Lagos Espectáculo mistura a arte da magia com a arte cénica e teatral, para criar não só magia, mas uma atmosfera mágica

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mente na memória: a Tese da Licenciatura de Zeca Afonso, que ele próprio datilografou. Este encontro proporcionou momentos que acalen-

taram a alma de José Pontes, ao mesmo tempo, trouxeram-lhe uma extensa dose de felicidade interior que hoje guarda com muita saudade.

Edifício do antigo Governo Civil em Faro “ESCULTURAS DE JOAQUIM PARGANA” Até 30 NOV | Galeria Municipal de Albufeira Artista autodidacta, há cerca de 40 anos que esculpe as pedras que encontra no mar em originais peças decorativas. Peixes, golfinhos, cavalos-marinhos, sereias, entre outros, evidenciam o talento do escultor


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Na senda da Cultura

DUARTE ganha concurso de fotografia Olhar a Vida O trabalho vida feita de mar, da autoria de José Duarte (DUARTE), sobressaiu entre os 150 recebidos na 1ª edição do Concurso Olhar a Vida, promovido pela ALFA, e foi escolhido como o vencedor. A exposição com uma selecção das imagens premiadas fica patente até 2 de Janeiro de 2014 na

FNAC do Algarve Shopping, na Guia, um dos parceiros da iniciativa. O Concurso Olhar a Vida realizou-se durante o Verão de 2013 e mobilizou a participação de três dezenas de fotógrafos. Foram ainda premiados os trabalhos de Rui Ser-

ra Ribeiro, Renato Rebelo, Alberto Jacobety, Bruno Dias e Marina Guerreiro. A ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve é uma associação sem fins lucrativos com sede em Faro, delegação em Portimão e foi criada há cinco anos.

DUARTE, o vencedor na primeira pessoa

Fotografia vencedora, de José Duarte

A paixão pela fotografia começou quando? Apaixonei-me pela fotografia passado um ano de ter cumprido o serviço militar obrigatório, em 2005, ao ver retratados os bons e maus momentos que lá passei, e nessa altura até foi com duas câmeras descartáveis! Comprei a minha primeira câmera compacta pouco tempo depois, onde registava todas as etapas da minha vida.

Fotografia de Serra Ribeiro, segundo lugar

Fotografia de Alberto Jacobetty, quarto lugar

Fotografia de Renato Rebelo, terceiro lugar

Fotografia de Bruno Carlos Dias, quinto lugar

Qual é o teu percurso? Sou um fotógrafo autodidacta em que a iniciativa sempre partiu de mim, desde passar noites sem dormir a ver tutorias no youtube, ler revistas, livros e, principalmente, estudei o manual da minha primeira DSLR do início ao fim mais do que uma vez. Ultimamente tenho investido em alguns workshops, que têm sido bastante relevantes para a minha evolução. Já fotografei um pouco de tudo, acho que para a evolução de qualquer fotógrafo isso é importante, mas o que mais me fascina é mesmo retrato e moda, é nesse campo que mais batalho neste momento, para um dia, se possível, alcançar os meus objectivos! Achas que a arte de fotografar hoje em dia está ao alcance de qualquer um ou é preciso ter um dom? Começo desde já por dizer que a câmera sim, é importante, mas ao contrário do que muitos pensam ela não faz milagres, é preciso também muito estudo e dedicação para se conseguir alcançar o mínimo que seja neste mundo. E ter um olhar. Sensibilidade para Olhar a vida e o mundo que nos rodeia!


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Momento

“graffiti, arte pública” Foto de Vítor Correia

Espaço ALFA

Exposição de fotografia Olhar a Vida patente até Janeiro na FNAC

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A exposição de fotografia com os trabalhos premiados no Concurso “Olhar a Vida” encontra-se patente na FNAC do Algarve Shoppping até 2 de Janeiro de 2014. A entrega dos prémios e a inauguração com as imagens vencedoras decorreu no passado sábado, dia 2 de Novembro. Vida feita de mar é o trabalho realizado por José Duarte (DUARTE) que sobressaiu entre os 150 recebidos pelo Concurso Olhar a Vida e que foi escolhido como vencedor. O concurso, que se realizou durante os meses de Verão de 2013, mobilizou a participação de três dezenas de fotógrafos. A ALFA – Associação Livre Fotógrafos do Algarve, uma organiza-

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Classificação: ÔÔ ÔÔ ÔÔ ÔÔ ÔÔ ÔÔ

1º José Duarte 2º Serra Ribeiro 3º Renato Rebelo 4º Alberto Jacobetty 5º Bruno Carlos Dias

Prémio Jovem Fotógrafo: ÔÔ Marina Guerreiro

ção sem fins lucrativos, foi a promotora da iniciativa. A não perder na FNAC na Guia.

Os premiados, da esquerda para a direita, José Dorey (FNAC), Alberto Jacobety, Renato Rebelo, Marina Guerreiro, José Duarte, Serra Ribeiro, Bruno Carlos, Carlos Cruz e Vítor Azevedo (ALFA)

“COLHEITA DE OUTONO” Até 22 DEZ | Galeria Zem Arte - São Brás de Alportel Exposição colectiva de pintura de Eric de Bruijn, Meinke Flesseman e Roland Isidro. Três nomes, três pintores, três trabalhos significativos, três formas de estar na vida, três ligações, três formas de sentir, três cruzamentos, três técnicas...

“STACCATO LIMÃO” 29 DEZ | 21.30 | Centro Cultural de Lagos A razão de ser do grupo é a devoção ao rock e à palavra. No preâmbulo do lançamento do seu primeiro álbum de originais, a banda, que “joga em casa”, apresenta o seu rock destilado de qualquer alambique de Londres, Berlim ou Nova Iorque


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Letras e Leituras

Murakami, o escritor mistério

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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Apontado frequentemente nos últimos anos como forte candidato para o Nobel da Literatura, Haruki Murakami é um autor japonês, nascido no ano de 1949, em Quioto. Se é um autor efetivamente passível de qualidade para ganhar o mais importante prémio literário essa será outra questão, embora seja certamente reconhecido como fortemente experimentalista e vende milhões. Talvez seja um reflexo dos tempos modernos, em que o vendável combate o cânone ou a qualidade da linguagem literária, todavia, é inegável que Murakami conta com uma legião de fãs por todo o mundo, com particular destaque no setor juvenil. Em Portugal os seus livros têm enchido as estantes de livrarias desde Kafka à beira-mar, que foi certamente o romance que o lançou, apesar de se considerar que o Crónica do Pássaro de Corda será a sua obra-prima, embora menos acessível devido a um certo nível de violência. A trilogia intitulada 1Q84 foi o seu último romance por ele escrito e penúltimo a chegar às livrarias, porquanto foi entretanto editado O impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, uma tradução mais tardia de um seu primeiro romance.

1Q84 foi dividido em três volumes pela Casa das Letras, embora não constitua propriamente uma trilogia, em que a história se desenrola lenta e suavemente, por vezes chegando até a ser desesperante, nomeadamente no primeiro tomo. Quais serão então os ingredientes narrativos que levam milhões a devorar os livros desconcertantes, densos e, inclusive, extensos deste autor? Alguns críticos têm apontado os seus romances como pertencentes a essa categoria do realismo mágico, mas Murakami não corresponde inteiramente aos critérios dessa corrente de escrita, embora predomine na sua ficção uma certa indeterminação que torna compreensível essa associação. O fantástico invade o quotidiano das personagens, pois da mesma forma que a narração se prende demoradamente com todos os gestos perfeitamente banais (como o cozer esparguete) de pessoas imersas numa rotina, o que pode configurar as suas próprias estratégias de sobrevivência, desde a comida que preparam para comerem sozinhas no seu apartamento, onde vivem isoladas de alguma forma, até à música que ouvem, há também um “mundo outro” que parece sobrepor-se ou existir lado a lado ao nosso. E se estas personagens não tiverem cuidado e fizerem coisas fora da norma, como, por exemplo, quando uma jovem sai de um táxi preso no tráfego em hora de ponta, em 1Q84, e desce uma escada de incêndio na auto-estrada, assemelham-se a personagens de contos de fadas que, ao cometerem alguma transgressão, acabam por se cair numa toca de coelho ao estilo de Alice no País das Maravilhas (não é, portanto, acidental que esse seu primeiro livro tenha sido assim intitulado). Da mesma forma que existe essa indeterminação entre o fantástico e o real, e apesar de o tempo e o espaço não serem nunca esbatidos mas sim concretos, pois a ação é sempre localizada no Japão moderno, os seus romances são lidos sem qualquer barreira cultural por jovens e adultos de realidades socioculturais completamente distintas, pois Murakami «fala-lhes ao ouvido», como defende a sua tradutora. Tradutora essa que, embora seja um caso raro no mer-

cado editorial português, tem-se mantido sempre a mesma (à exceção do livro 1Q84 que, por ser maior que o normal, e devido, certamente, a alguma urgência comercial na publicação). A sua ficção pauta-se por certos temas constantes, como a solidão, a procura de um sentido, a música, nomeadamente o jazz (sendo que Murakami era inclusive dono de um bar de jazz antes de se dedicar exclusivamente à escrita), talvez como forma de marcar essa nota de

por um lado, a companhia por excelência destes personagens urbanos que vivem um pouco perdidos num estranho limbo em que muitas vezes nem parecem ter de sair de casa para trabalhar como qualquer fotos: d.r.

O escritor japonês Haruki Murakami pungência na alma das personagens, com vidas anódinas, cinzentas, que subitamente podem ver-se confrontadas com experiências-limite, ou como diria Alejo Carpentier, um certo «estado de fé» em que se veem confrontadas com situações aparentemente inexplicáveis e surreais, como figuras que parecem viver na sombra e surgir como aparições ou divindades portadoras de algum conhecimento transcendente sobre as próprias personagens (como Em busca do carneiro selvagem) embora essas situações aparentemente insólitas que podem determinar o curso de uma vida que seguia sob a capa de uma certa alienação social ocorram de forma tão natural como uma conversa num cadeirão de uma qualquer casa. Os gatos, como o de Kafka à beira-mar, são um elemento recorrente na sua obra, que talvez configure,

“CONVERSA… INFORMAÇÃO… COMUNICAÇÃO” Até 21 DEZ | Centro de Experimentação e Criação Artística de Loulé Exposição reúne António Dias e Charlie Holt, que começaram a trabalhar em colagens há dois anos. Estas colagens formaram um diálogo entre os dois artistas que levou à presente instalação

pessoa normal, ou por outro lado, talvez vistam a pele de um coelho branco que pode servir de guia ou guardião a estes protagonistas arrastados por eventos que os superam. O ponto menos positivo dos seus livros serão, provavelmente, as traduções. Apesar de a crítica ter vindo a elogiar constantemente o trabalho de conversão da língua inglesa para a portuguesa (pois no nosso mercado editorial são raros ou inexistentes os tradutores que vertam diretamente do japonês ou do mandarim para português), no leitor menos comum pode provocar alguma confusão deparar-se com expressões como «Cus de judas» e «meter o Rossio na Betesga», embora haja sempre a desculpa e argumento de que se procura traduzir segundo o espírito de quem lê em vez de se ser fiel ao sentido lite-

ral da obra. O tema do sexo, e de uma certa homossexualidade feminina, também perpassa os seus romances, como em Sputnik, meu amor ou After Dark - Os Passageiros da Noite, mas em 1Q84 ele é explorado mais fortemente e a própria linguagem torna-se mais forte. Esses temas encontram ressonância em diverso cinema da atualidade, embora os seus romances não tenham sido adaptados. Os seus livros mais realistas serão, certamente, uma espécie de livro de ensaio, em que o autor associa o processo da escrita ao de ser corredor de maratonas, em Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo, onde o autor abre a alma num livro onde se confidencia e medita sobre a (sua) natureza humana e enquanto escritor, pois foi numa curiosa associação que, em 1982, ao mesmo tempo que abandonava o lugar à frente do clube de jazz e se dedicou à escrita, Murakami começou a correr - talvez justamente porque estava inconscientemente ou não a fugir de algo ou a querer deixar uma parte da sua vida para trás. Foi-se lançando então gradativamente em desafios pessoais cada vez maiores, em distância e esforço físico, participando em dezenas de provas de longa distância e triatlos. Outro livro não-ficcional e mais documental, é Underground, que conta a dolorosa e real história do atentado ocorrido na manhã de 20 de Março de 1995, em três linhas do metropolitano de Tóquio, onde compõe as entrevistas que realizou a dezenas de vítimas do gás sarin, procurando mesmo estabelecer uma relação entre o atentado e a mentalidade japonesa.

“GISBERTA” 9 NOV | 21.30 | Grande Auditório do TEMPO Peça revela a história da transexual brasileira assassinada por um grupo de jovens que estavam ao cuidado de uma instituição do Porto, após três dias consecutivos de violência


Cultura.Sul

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Espaço ao Património

Sala de leitura

Tavira e a sua História

Em defesa do não-leitor

Jaquelina Covaneiro Arqueóloga

Os vestígios materiais mais antigos que se conhecem em Tavira reportam-se ao Bronze Final (séculos VII/VIII a.C.) e são provenientes da colina de Santa Maria. Os vestígios recolhidos permitem afirmar que este espaço foi ocupado, ao longo dos séculos, por diversos povos. Por aqui passaram fenícios, gregos, romanos, árabes, entre outros. A partir desta pequena colina, e ao longo dos séculos, a cidade cresceu, construíram-se estruturas habitacionais, espaços públicos e sistemas defensivos. Este crescimento, já visível em época islâmica, acentua-se a partir dos finais do século XV e inícios do XVI. Nos séculos seguintes o rio será incondicionalmente absorvido pela urbe. É hoje consensual que a passagem de gentes tão diferentes pela cidade deixou as suas marcas na paisagem urbana e, em especial, um legado patrimonial rico e diversificado.

públicas e privadas. O incremento da atividade arqueológica produziu um impacto profundo na comunidade tavirense, o qual nem sempre foi positivo, revelando-se, por exemplo, nalgumas posturas pouco cooperantes das várias partes envolvidas. O património histórico e arqueológico da cidade obriga a um diálogo concertado e constante entre todos os intervenientes (públicos e privados), sob pena de falharmos os nossos objetivos, contribuindo para a destruição do património e não para a sua salvaguarda. A nós, profissionais, cumpre-nos divulgar o conhecimento científico produzido a partir das escavações arqueológicas efetuadas e dos materiais exumados, sob pena de sermos questionados sobre a importância

do seu património milenar. Preservação e divulgaçã do Património A preservação e a salvaguarda do património histórico e arqueológico implica o envolvimento de diversos intervenientes. Para o efeito, têm-se revelado fundamentais os incentivos transmitidos pela Câmara Municipal de Tavira. Num momento inicial, a autarquia apoiou o Campo Arqueológico de Tavira, pioneiro da arqueologia urbana da cidade. Posteriormente, a criação do Museu Municipal, a contratação de técnicos e de arqueólogos ajudou a consolidar o caminho, tornando possível a criação de núcleos museológicos, como o Convento da Graça ou o Núcleo Islâmico. Ao mesmo temd.r.

O Património Histórico e Arqueológico O que continua a atrair as pessoas a esta pequena e recatada cidade algarvia? A nossa opinião não se fundamenta em dados estatísticos, baseia-se na sensibilidade transmitida pelas numerosas conversas tidas, ao longo dos anos, com as pessoas que nos procuram, as quais nos permitem afirmar, sem margem de dúvida, que o legado civilizacional e o património natural serão fatores decisivos para a escolha de Tavira como destino turístico. Ao falarmos de legado civilizacional, falamos inevitavelmente do património arqueológico, que nos últimos 20 anos tem vindo a ser identificado na cidade. Para este enriquecimento patrimonial contribuíram, numa primeira fase, o Campo Arqueológico de Tavira e, posteriormente, os técnicos da Câmara Municipal e os profissionais privados de arqueologia. Este convergir de esforços e de profissionais resultou numa intensa atividade arqueológica, a qual tem permitido a recolha e o registo de um volume bastante significativo de materiais arqueológicos (cerâmica, metal, faunas, vidro, elementos pétreos, etc.). Estes encontram-se depositados, maioritariamente nas instalações da autarquia, ainda que persistam situações de depósito/armazenamento em outras instituições

Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira científica e social da atividade arqueológica. Perguntas como: “vale a pena andar aí, de enxada na mão, a apanhar tanto calor?” são muito frequentes e decorrem do desconhecimento que a maioria da comunidade tem relativamente ao conhecimento produzido pelos arqueólogos. Não basta escavar e encerrar o conhecimento científico entre pares, é necessário escavar e escrever para a comunidade que acolhe os vestígios. A valorização e salvaguarda do nosso património depende do modo como nós, técnicos especializados, conseguimos transmitir e transformar o “nosso” conhecimento, no conhecimento dos “outros”, daqueles que nos questionam, e que se interessam pelo conhecimento

po, tem vindo a apoiar a realização de exposições, a edição de catálogos, a realização de conferências ou a participação dos seus técnicos em encontros científicos. Embora não estejamos na linha de partida ainda temos um longo caminho a percorrer e muitos obstáculos por ultrapassar. No entanto, sempre que alguém chega ao pé de nós, e nos vê cobertos de terra ou a tiritar de frio, e nos pergunta: “desculpe, estou curioso, o que estão a fazer? Pode explicar-me? É que eu já vi umas coisas parecidas em Mértola!”, ou então, quando uma criança nos pergunta: “este objecto era usado para fazer o quê? É que a minha avó usa-o para assar castanhas!” Temos a certeza que podemos estar no bom caminho.

Paulo Pires

Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

As árvores são magníficas; porém, o mais magnífico ainda é o espaço sublime e patético entre elas. (Rainer Maria Rilke, citado por Oscar Niemeyer)

O tom provocatório do título deste artigo parece remeter para um assunto tabu. É possível saber ler sem necessariamente ler tudo? As não-leituras e as quase-leituras podem ser tão válidas quanto a leitura integral de uma obra? Concordar com isto implica uma transformação profunda da nossa relação com os livros, a qual nos permita falar e comentar publicamente os livros não lidos sem vergonha ou receio, sem aquele peso da imagem opressiva de uma cultura sem falhas que é transmitida e imposta pela família e pela escola. Refiro-me, na linha de autores como Pierre Bayard, a uma teoria da leitura que (também) esteja atenta a tudo o que ela mostra: falhas, ausências e aproximações. Não é preciso ler um livro de fio-a-pavio para ter dele uma ideia relativamente precisa e poder falar dele, não somente na generalidade mas até mesmo de uma forma mais profunda. Isto porque não existe um livro isolado. Um livro é um elemento nesse vasto conjunto a que se pode chamar “biblioteca colectiva/universal” – e é essa que, em última análise, verdadeiramente conta, estando presente em todos os discursos que se fazem acerca de livros – e o desafio maior é, no fundo, definir o lugar de cada obra nessa mesma biblioteca, urdindo a sua teia de relações. Numa passagem do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, o general Stumm, ao visitar uma biblioteca, é confrontado com uma personagem que lhe diz que o segredo mais bem guardado dos bibliotecários é nunca lerem toda a literatura que lhes é confiada, exceptuando o título e o resumo, acrescentando ainda que todo aquele que se enfoca em pormenor no conteúdo de cada livro está irremediavelmente perdido para a biblioteca e nunca será capaz de ter uma visão de conjunto perante o numeroso acervo que tem à sua frente. Este trecho revela a importância dada à ideia de totalidade, a qual pode aplicar-se também ao universo da cultura. Concordo com a ideia de que a cultura é, acima de tudo, uma ques-

tão de orientação, uma deambulação inteligente, eficaz e criativa em busca de comunicações, pontes, travessias e correspondências, mais do que a mera acumulação gradual de conhecimentos pontuais. O que significa que ser culto não consistirá tanto em ter lido este ou aquele livro e em ter uma visão exacta sobre o seu conteúdo, mas sobretudo em perceber que o conteúdo de uma obra é, em grande medida, a sua situação/relação/contextualização relativamente a um universo mais vasto. Muitos intelectuais nunca leram – e provavelmente nunca o farão – o romance Ulisses, de James Joyce, mas muitos deles comentam e citam frequentemente essa obra, isto porque sabem, por exemplo, que retoma a Odisseia de Homero, que põe a tónica no monólogo interior/fluxo de consciência, que se passa em Dublin, etc., etc. Não é despropositado afirmar que há inúmeras pessoas cultas que são não-leitoras e vice-versa, o que mostra que a não-leitura – como a entendo aqui – não significa ausência de leitura, mas sim uma atitude activa e consciente que consiste em organizar-se relativamente à imensidade de livros existente de modo a não se deixar submergir por eles. Aliás, já autores como Balzac, Montaigne, Paul Valéry, Oscar Wilde e Umberto Eco chamaram a atenção, à sua maneira, para esta questão. Porém, a sociedade persiste, algo hipocritamente (não poucas vezes andamos a mentir uns aos outros sobre certos livros [que efectivamente não lemos] e, por vergonha e culpa, não o admitimos), em incutir no indivíduo a ideia de que é obrigatório ler certas obras consideradas essenciais e “sagradas”, e de que essa leitura tem de ser integral, demorada e exaustiva para ser “validada” social e culturalmente. Insisto na ideia de que falar apaixonadamente de livros não lidos – e falo tanto dos que apenas percorremos/folheamos de forma aleatória ou direccionada, sem atentarmos nos detalhes, como daqueles de que já ouvimos falar ou sobre os quais lemos opiniões de outros, quer ainda das obras que lemos e esquecemos, e das quais retemos apenas algumas memórias mais vivas que, com o tempo, vamos recriando ao sabor do nosso percurso e sensibilidade – não deve ser encarado com angústia ou remorso, mas como um desafio de criatividade, inspirador, libertador e enriquecedor, que pode até implicar, num plano superior, algum distanciamento dos livros. A fechar, e evocando aqui uma ideia cara ao filósofo francês Blaise Pascal, eu diria que o contrário de tudo o que escrevi até aqui também é verdade, dados os amplos benefícios proporcionados por leituras compulsivas, lineares, exaustivas e atentas ao pormenor… visto que “Deus está nos detalhes”, como disse um dia o arquitecto Mies van der Rohe.


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Cultura.Sul

O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N

Novembro entre poesia e romance (onde se pode destacar ‘Brutal’, Leya, 2011) mas que não teve ainda o devido reconhecimento dos media e do público. Vamos ver se este carteiro toca duas vezes. Primeira apresentação no Algarve, no dia 9 de Novembro pelas 21h, na Bibioteca Municipal A. Ramos Rosa em Faro, a cargo de Vítor Cardeira. Pedro Jubilot

Ramos Rosa

pjubilot@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt fotos: d.r.

Ramos Rosa Pouco importava que se dissesse que António Ramos Rosa (Faro, 17.10.1924 - Lisboa, 23.09.2013) era um dos mais importantes poetas portugueses vivos, se a imortalidade já lhe tinha sido oferecida em vida. Mas também isso pouco lhe importava já que para ele: «é a criação poética, a mais profunda satisfação que recompensa de todas as vicissitudes e infortúnios. Homenagens e prémios, embora gratificantes, situam-se na periferia e não no cerne da sua vida poética.» (‘Prosas seguidas de Diálogos’ ; 4águas, 2011). Um homem que assim não pôde adiar o amor, nem a liberdade, nem a vida para outro século é um homem sem quotidiano, ou melhor, sem tempo.

O circo

Vamos ao circo

Paisagem de Outono

Em Outubro os circos chegavam ao sotavento algarvio por causa das feiras a que eram os primeiros a chegar, montar ferros e tenda no largo. Eram também os últimos a partir. Quando os outros feirantes já iam embora, sabia que era chegada a noite da família ir ao circo porque era: «grátis às damas». Enquanto esperava o mais esperado dos dias entretinha-se a ver os animais, os ensaios, ou a correr muito atrás do carro da companhia que anunciava os números exclusivos e as formidáveis atracções, para apanhar os folhetos que coleccionava. Depois, o maior espectáculo do mundo só voltava daí por um ano. Era o tempo em que regressava à estante e colocava ali à mão dos sonhos sobre a mesinha de cabeceira, a trilogia ‘Vamos ao Circo’ de Enid Blyton.

Dum céu carregado de nuvens muito densas e escuras chove com pouca intensidade. O vento sopra de tal modo forte que a água sobre as salinas se começa a ondular. Já é quase noite e junto ao cais os poucos clientes do pequeno bar de madeira, abrigam-se ao balcão para o último copo. Do lado esquerdo, surgem as luzes da pequena torre da igreja da unidade hoteleira, mas que outrora servira de apoio ao arraial da pesca do atum ali instalado. As gaivotas voam sobre a terra sinalizando o mau tempo no mar.

As bicicletas são para o verão

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O vento puxa as nuvens de sudoeste. As chuvas começam a cair. Os caminhos enchem-se de lama. Guardam-se as bicicletas. As bicicletas são para o verão. Os caminhos de terra batida são para o verão. Os sonhos sem fim são para o verão. Como os sonhos, o verão nunca terminará. Só alguns dos seus dias têm um fim. É só o calor que se despede. O verão, como tudo na vida, só faz sentido na sua ausência. Só gostar assim do verão faz com que ele volte outra vez. Sim, amo o verão. E depois!?

‘O Carteiro de Fernando Pessoa’ (edições Parsifal) «Concordou em fazer-se passar por Fernando Pessoa, apreciando-se depois em frente do espelho no quarto: o bigode postiço, contido e severo, os óculos que lhe davam um ar digno e harmonizado com a sofisticação própria dos intelectuais; e, por fim, enfiado na cabeça, o estimável chapéu preto, que lhe acrescentava respeito e culta superioridade. Semelhante na compostura e privilegiado na aparência, assim estava o carteiro Bernardo com a sua boa inspiração, a projectar ilusões e a permitir excitações libidinosas à senhora Ofélia.» - excerto do novo livro de Fernando Esteves Pinto, nascido em Cascais (1960), mas há muito radicado em Olhão. Um escritor com várias obras publicadas

“GURU” 9 DEZ | 21.30 | Cine-Teatro Louletano Rui Unas, Custódia Gallego, Heitor Lourenço e Susana Mendes protagonizam uma comédia sobre a crise política nacional, cheia de medidas de pouca austeridade no que respeita à gargalhada

Estofo de Maré a pouco e pouco os cais vão-se transformando de novo, lugares livres de passageiros ali chegam agora pensadores solitários, amantes do silêncio possível, pescadores de águas turvas as carreiras diminuem, as ilhas ficam mais distantes e o verão é de novo um segredo do tempo

António Aleixo (estátua em Loulé)

António Aleixo

Hernani Duarte Maria. O vídeo-clip da canção ‘Aviãozinho Militar’ integrou a selecção oficial do Arouca Film Festival e do Farcume: Festival de Curtas-Metragens de Faro (premiado com o 3º lugar). E você do que é que está à espera para orbitar em torno desta lua. Próxima aparição de Inês Graça/Nuno Murta/Carlos Norton: Zem Arte Galeria – S.Brás de Alportel, 9 de Novembro, 22h30.

Romã Descasco uma romã neste tempo de comer romãs a sul. Pelo São Martinho já estão à mesa. Vão continuar até à ceia de natal e passar para o novo ano encontrando desejos a cada pequeno bago da sua comestível polpa. Pesquisas determinaram que este fruto (rumman do árabe) tem uma acção antioxidante três a quatro vezes superior à do vinho tinto ou do chá verde. Os gregos diziam da romã ( cuja árvore foi consagrada à deusa Afrodite) ser símbolo do amor. Afinal não é só coincidência de anagramia. O conto ‘No Tempo das Romãs’, que encontro em quintacativa.blogs.sapo.pt começa assim: «Sempre que a noiva comia romãs, tremia. Era como se um tufão se aproximasse da costa. A romã atuava nela como um poderoso afrodisíaco. Quando o tempo das chuvas chegou, devagar como convém nos secos clima mediterrânicos, a preocupação invadiu-me secretamente. Não tinha sido diferente naquele ano.»

Praia do Almargem

António Aleixo (VRSA,18.02.1899–Loulé, 16.11.1949)… devia parecer estranho aos olhos e ouvidos dos seus contemporâneos e conterrâneos por ser um homem pobre e com um trabalho, ainda que precário, a debitar quadras soltas de versos irreverentes sobre o comportamento de homens de diversas classes sociais, um pouco à semelhança do que fazem hoje das rimas os jovens poetas orais urbanos. Soa forçado dizer, mas ele era já quase como que um rapper, muito antes do tempo da comunicação livre. Debitava coisas assim: «Uma mosca sem valor / Poisa c’o a mesma alegria / na careca de um doutor / como em qualquer porcaria.» , ou «Vós que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / qu’rer um mundo novo a sério.»

OrBlua Os últimos dias da banda de Faro têm sido muito agitados. Depois dos festivais Med(Loulé) e Sérgio Mestre(Tavira), os OrBlua não mais pararam de tocar e promover o ep ‘Trihologia Noctiluca’. E também estiveram em Cardiff (País de Gales) para o WOMEX - World Music Expo. Gravaram bandas sonoras para vários filmes entre eles ‘Tesouras e Navalhas’ de

jorge jubilot

Praia do Almargem pisando a agora mais alisada areia da praia de outono, ando para apanhar as melhores conchas do dia, que se sentem já frias nas mãos. as mesmas que levarei para esses quentes braços entre derradeiros beijos, de que virão formas de amar mais intensas e vigorosas. para poder parar o teu tempo por alguns minutos. impedindo a cabeça de almariar nas asperidades destes dias. depois vais levá-las contigo para o lugar onde tens de ir. desde onde ouvirás da voz do mar, já noutros litorais, a minha também sussurrar junto a ti. porque é que não podes viver apenas do (a)mar…

“PROFISSÕES DO BARROCAL E DA SERRA” Até 15 NOV | Ria Shopping - Olhão Na exposição será possível ver interessantes fotografias de homens em labores diários e conhecer um pouco melhor a faina de um apicultor, de um ferrador e de um correeiro


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Cultura.Sul

Da minha biblioteca

Maria Manuel - uma estreia de Paulo Moreira

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Nem sempre tenho a oportunidade de falar de escritores que conheço pessoalmente e ainda mais raro é quando estes se encontram na categoria de amigos. Portanto, quando isso acontece, sinto uma grande alegria por poder partilhar esse momento. Hoje é um desses momentos. É, pois, com grande regozijo que escrevo sobre Maria Manuel, o primeiro livro de Paulo Moreira. Como esta história vive, também, dos não-ditos e de segredos que vão sendo desvelados, vou tentar escrever de modo a não estragar o prazer da descoberta ao leitor.

à janela para se certificar de que João continuava entretido no fundo do jardim e voltou à sua lida, que nesse momento era a de preparar o almoço para cinco pessoas. Pouco depois, Luís atravessou a cozinha, vindo do quarto da patroa, e saiu para o jardim. Quando voltou do exterior vinha com o seu piano digital debaixo do braço» (p.31). Por conhecer o autor, tenho mais vontade de o encontrar refletido no texto e, claro, arranjei uma personagem que se encaixa: o pequeno João, de oito anos, filho da personagem principal. É uma criança cheia de imaginação, o único a conseguir tirar da letargia a tia Mané (Maria Manuel, que dá o nome ao livro); um teatreiro, que consegue animar os adultos com brincadeiras em que os envolve e os alivia do peso dos dias; é aquele que os faz rir em mo-

«– Não chores, Luís. Eu gosto muito de ti. Se quiseres, eu fico aqui a dormir contigo para não chorares mais. Hoje é a minha vez de te proteger para tu dormires descansado.» (p.147) Uma casa de segredos Apesar de não gostar muito de classificações, entendo

mais pela forma, aceitemos que estamos perante uma novela: a ação gira em torno de um grupo muito limitado de pessoas e o final é deixado em aberto. As personagens centrais são cinco: além do nosso João, há a sua mãe, Ana, aquela em torno da qual tudo gira; entra o já mencionado Luís, um jovem de

(que também é geográfica, pois de Lisboa desloca-se a uma aldeia nos arredores de Monção), que faz na companhia de João, Ana descobre um segredo que a irmã gémea do seu pai (recentemente falecido), com quem não tinha contacto havia muitos anos, guardara toda a vida. A tia Mané pouco intervém, mas é ela o centro das aten-

Do teatro para a literatura

Agendar

Na verdade, Paulo Moreira já escreve há muito tempo (poesia, pequenos contos e peças de teatro – que até foram premiadas), mas é a primeira vez que se abalança num trabalho de maior fôlego (180 páginas) a que modestamente chamou «novela». Esta obra tem a vantagem de usufruir da visão teatral do encenador (talvez a sua faceta mais mediática, a par da de declamador). Longe de haver nisso uma limitação, os diálogos e as descrições das ações, quais didascálias que auxiliam o ator a saber o que fazer, ajudam aqui a visualizar as cenas, tornando o texto mais vivo, como se estivéssemos a assistir, escondidos, ao desenrolar dos acontecimentos: «Depois de Ana ter saído da cozinha, Mariana foi até

d.r.

mentos difíceis, mas também consegue belos instantes de ternura e compreensão:

que podem ser úteis para balizar e para nos ajudarem a organizar o conhecimento. De facto, não tanto pelo tamanho mas

“O GRANDE PLAGIADOR” 9 NOV | 21.30 | Casa da Cultura de Loulé Conferência-performance de Paulo Condessa. Um brilhante analista político apresenta os factos que sustentam a sua tese de mestrado: “Verdade, justiça e direitos de autor: plágio em pessoa, muito ou realidade?”

Paulo Moreira 20 anos, músico, filho da empregada; há Mariana, a mãe do rapaz, que trabalha na casa de Maria Manuel; e a própria Maria Manuel. Aparecem ainda a enfermeira Sara, o médico Beltrán, bem como três outras pessoas que apenas interagem telefonicamente com Ana: o ex-marido, a irmã de uma amiga e um colega de trabalho. Por forças das circunstâncias – uma doença súbita da tia – Ana vai ter de revisitar um lugar do seu passado (a casa dessa tia) e confrontar-se com aqueles de quem fugiu ao convívio durante duas décadas. E tem, acima de tudo, de acertar contas consigo mesma. Nessa viagem

ções e o catalisador de uma série de acontecimentos. De Mariana, a outra personagem feminina, o narrador diz-nos mais do que as outras personagens sabem, tornando-nos particularmente compreensivos para os seus ataques de mau feitio, desconfianças, receios e desequilíbrios emocionais. A casa de Valcousa está cheia de segredos, ignorados por umas personagens e conhecidos por outras. Mas quem sai a ganhar é o leitor, que, por lhe ter sido dada uma visão de conjunto, no final, fica a saber – ou a desconfiar que sabe, porque o narrador não lhe dá certezas – uma verdade ainda

maior que se adivinha dos pensamentos, das palavras e das omissões. Português suave Paulo Moreira não procura mostrar maestria na construção, mas sim passar despercebido na sua técnica. Para manter o suspense e não dizer tudo de uma vez, o narrador vai-nos dando, aqui e além, discretas pistas que ajudam a resolver alguns dos segredos que cada uma daquelas mulheres esconde. Se num capítulo ficamos sem saber o porquê de uma determinada reação de uma personagem, logo no seguinte essa reação é inteligentemente explicada. Não é fácil, por exemplo, começar e terminar cada uma das partes de uma obra, de modo a manter a atenção do leitor para as que se seguem, sem parecer forçado ou que nos estão a obrigar a continuar a ler. Este livro tem a virtude de, sem nos darmos conta – e um leitor não gosta nada de se dar conta das manipulações do autor –, nos prender à simplicidade da história, ao ligeiro subentendido, ao que está para acontecer e que pode ser já nas próximas páginas. Num brevíssimo capítulo, entre as pp. 148 e 150, encontra-se um sonho de João. Para quem foi estando atento ao enredo, tem ali não só a confirmação do passado, como a comprovação das suspeitas do presente (vivido até àquele momento da história) e a conjetura do que pode vir a ser o futuro. Um futuro que deixa o final do livro em aberto. Poderia dizer que esta novela é agradavelmente suave – não está construída de modo a gerar angústia ou a enganar o leitor – e que esta estreia é um bom augúrio para o Paulo Moreira. Moreira, Paulo (2013). Maria Manuel. s.l.: Redil Publicações.

“ARTESANTO” ATÉ 31 DEZ | Polo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte - Alte Exposição com alfinetes de dama (feitos com grão de bico), trapilhos e bijuteria de Teresa Machado. Evento pretende promover o artesanato local


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Cultura.Sul

Equipamentos culturais no Algarve: uma lógica de arquipélago

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d.r.

Teatro Tempo, em Portimão, um dos equipamentos culturais da região No Algarve, com uma lógica de gestão cultural de matriz municipalista, é comum que as administrações locais reivindiquem a instalação de novos equipamentos culturais no território que administram. Como resultado, proliferou o investimento público na criação de infraestruturas culturais – auditórios, teatros, cineteatros. Mas a este investimento não corresponde uma oferta cultural consistente, cuja continuidade assegure a fidelização de públicos, e esta situação vê-se agravada por uma lógica de arquipélago, de quase ausência de programação e produção em rede. No Algarve, mais de oito dezenas de museus, coleções visitáveis, núcleos e pólos museológicos reúnem um acervo com milhares de objetos que constituem um riquíssimo legado para as gerações futuras. Mas, e apesar do importante contributo da Rede de Museus do Algarve, a grande maioria destas unidades não estão dependentes de um museu credenciado e não cumprem a totalidade das funções museológicas fundamentais à luz da Lei-Quadro dos museus portugueses, cingindo-se frequentemente à exibição de coleções onde está ausente todo um trabalho de inventário, investigação científica, conservação, comunicação e educação. No Algarve, através de um serviço periférico da administração central, o Estado exerce a sua autoridade direta sobre um conjunto de oito monumentos classificados como bens culturais imóveis de grau nacional, mediante a sua afetação à Direção Regional de Cultura; uma opção de gestão territorial e de educação para o património le-

vou à gestão partilhada com a administração local, procurando gerir estes espaços culturais em consonância com os museus credenciados: por exemplo, Castelo de Paderne / Museu de Albufeira; Monumentos Megalíticos de Alcalar e Villa Romana da Abicada / Museu de Portimão; Villa Romana de Milreu / Museu de Faro. No Algarve, reivindica-se frequentemente a criação de equipamentos de interpretação de

No Algarve, reivindica-se frequentemente a criação de equipamentos culturais, mas numa lógica de arquipélago, com um território carente de ordenamento e de gestão territorial eficazes no domínio da Cultura, e com uma quase ausência de programação em rede, a este investimento não corresponde uma oferta cultural consistente, cuja continuidade assegure o consumo de bens culturais e a fidelização de públicos sítios, de conjuntos arqueológicos e de paisagens protegidas, mas constata-se que habitualmente, e com poucas exceções, o processo de construção parte da obra para a gestão, sem constituir uma garantia de sustentabilidade desses equipamentos. No Algarve, são evidentes as deficiências nos sistemas

de mobilidade, que assentam quase exclusivamente no transporte rodoviário, que não só se vende como é concebido já de antemão como um produto para o mercado, patenteando a ausência de articulação entre os sistemas públicos municipais de transporte e destes com os sistemas privados, com itinerários e horários incompatíveis e desajustados da oferta cultural. Com evidente prejuízo para o consumo de bens culturais e para a fidelização de públicos. No Algarve, faz sentido reafirmar aquilo que Mirian Tavares assinalava em 2011, no seu contributo para o Plano Estratégico de Cultura para a região: «os bens de cultura continuam a ser bens de consumo, com valor de troca, e aqueles que escapam a este destino são pertença de uma elite intelectual e/ou económica e estão cada vez mais distantes de uma circulação e consumos verdadeiramente democráticos». E neste contexto qual o papel da Direção Regional de Cultura do Algarve? Para além das atribuições e competências legais, considera-se que estar no terreno permite (tem permitido) ser mobilizador de vontades, congregador de parceiros, facilitador e mediador para encontrar soluções, impulsionador para uma mudança de atitude e para projetos de escala regional. É nesse sentido que se pretende continuar a fazer e a desenhar (a muitas mãos) o caminho da Cultura regional… É por isso que vale a pena pugnar pela mudança da síndroma de arquipélago. Direcção Regional de Cultura do Algarve

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