CULTURA.SUL 65 - 17 JAN 2014

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Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO

JANEIRO 2014 | n.º 65 www.issuu.com/postaldoalgarve d.r.

Grande ecrã:

Eroticidades em Faro

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Aqui há espectáulo: d.r.

Lethes garante programação em Faro

Mário Zambujal: O Diário Oculto de Nora Rute p. 11

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Letras e leituras:

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Diário de um idealista

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Sala de leitura: d.r.

Sociedade civil aposta em renovar a memória: Para acabar de vez com a cultura

40 anos do 25 de Abril

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17.01.2014

Cultura.Sul

Editorial

Espaço CRIA

Alvorada

“Este ano, é que é!”

Ricardo Claro

Editor ricardoc.postal@gmail.com

Estamos na alvorada de 2014, deste ano que comemora 40 sobre o 25 de Abril, neste que é o ano do ‘fim’ do resgate e do protectorado, dizem. Dúvidas à parte sobre o final da troika, seja ela qual for a forma que assuma, este é decerto um novo ano que não fugirá às contenções orçamentais do nosso descontentamento e estas vão decerto fazer-se sentir na Cultura, ainda um parente pobre do investimento público nacional. A resistir à incapacidade de reforçar verbas no sector estão os mesmos de sempre, os artistas, os programadores, os performers em geral, as companhias, os agentes culturais como um todo. Resistem cá no Algarve - como o fazem por esse país fora e é à sua resiliência que devemos a Cultura que ainda temos. Na região temos à frente da Direcção Regional de Cultura um novo rosto. Alexandra Gonçalves substituiu Dália Paulo e terá o nobre desafio de dar a este organismo desconcentrado do Estado uma cada vez maior visibilidade e intervenção no panorama cultural da região. Dália Paulo assume entretanto um novo projecto, a direcção dos destinos da Cultura na Câmara de Loulé. Um lugar onde decerto terá muito para aproveitar do que está no terreno e muito para fazer no que está ainda por ajustar e criar. Estes e outros actores do sector terão de se fazer valer de uma enorme capacidade inventiva e de todas as sinergias imagináveis para resistirem a mais um ano de cortes e de curtas verbas. Isto para assegurar que o panorama cultural regional não se deprime ainda mais do que está no momento. A exemplo disso, e ao qual importa resistir, a fraca programação das salas municipais de espectáculos em geral. Não podemos deixar que os espaços municipais sejam deixados à voraz desertificação, é que a Cultura também se faz ali e dessa não podemos jamais desistir.

Ana Lúcia Cruz Gestora de Ciência e Tecnologia no CRIA - Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg

Um novo ciclo vai começar. E com este surgem, pelo menos no início, novas metas. Pensamos: “Este ano, é que é!”. Mas, infelizmente, muitas vezes “não é”! Seja pela (des)motivação, (in) disciplina, (in)disponibilidade... Independentemente das razões, a verdade é que muitas das nossas metas ficam pelo caminho. Quem diz metas, diz ideias. Quantas ideias de negócio ficam pelo caminho, sem mesmo antes se tentar?! Penso que o truque está na quantidade de metas que estipulamos. Quantas mais tivermos, mais dispersos (desconcentrados) vamos estar, pois o esforço para as concretizar será muito maior e facilmente ficamos sem energia... para todas! Por isso, reforço, o truque passa por diminuir o número de metas e sermos sinceros/realistas quanto aos passos e esforço que temos de fazer para as alcançar. Esta reflexão é muito importante porque, à partida, numa fase ainda muito preco-

ce, permite identificar alguns dos obstáculos, mas acima de tudo, permite fazer-nos pensar como poderemos agir diante dos mesmos. Ou seja, criar um Plano de Emergência. Para algumas pessoas, uma das metas para 2014 pode passar por uma ideia de negócio, já algum tempo fechada na “gaveta”. Essa gaveta está fechada

Ficha Técnica:

tratar bem da ideia lá guardada, sentido simplesmente que ainda não é a altura ideal para a retirar da gaveta. Pensamos: “Este ano é que é!”. E, após meio ano: “Para o ano é que vai ser!”. Enquanto a ideia estiver na gaveta, ela não passa disso mesmo, de uma ideia. Não é boa, porque não é testada! Mas também não é má porque... não d.r.

porque, cegos pelo medo e pela dúvida, não queremos deixar a melhor/pior ideia do mundo sair. Para fazer companhia à ideia, deixamos um “sabonetezinho” e, por vezes, abrimos a gaveta para a ‘arejar’, o que nos dá a ilusão de estarmos a

é testada. E quem diz testar, diz “melhorar”. Por vezes, sujeitarmos as nossas ideias à opinião alheia pode ser doloroso, mas se encararmos como um processo de aprendizagem, a nossa ideia de negócio pode melhorar bastante.

Não querendo fazer publicidade, mas fazendo, o CRIA lançou a nova edição do Concurso de Ideias. Mas não levem muito tempo, porque só aceitamos candidaturas até 17 de fevereiro. Mas porque menciono o concurso de ideias? Os concursos de ideias são bons por uma simples razão: criam dinâmicas de grupo, entre participantes e especialistas convidados, bastante enriquecedoras, que permitem melhorar a nossa ideia de negócio e aumentar a nossa rede de colaboração (parece que afinal são várias as razões). Pela experiência de outras edições, muitos são os empreendedores que avançam com as suas ideias de negócio, mas muitos mais os que ficam para trás. No entanto, segundo antigos participantes, cujos projetos não avançaram (independentemente do motivo), o concurso de ideias representou um processo de aprendizagem que prevalece em várias situações do dia-a-dia. Não me querendo alongar muito mais, termino por dizer que a aprendizagem é algo que deve estar sempre nos nossos votos todos os anos. Por isso, quem não tem ideias de negócio, aposte ou continue a apostar no seu processo de aprendizagem. Quem tem ideias de negócio, convido a participar neste concurso de ideias, porque “Este ano, é que é!”.

Juventude, artes e ideias

365…

Rute Evaristo A sorte somos nós que a fazemos. A vida não muda se a nossa atitude for a mesma perante as situações. Como aquela dieta que prometemos fazer no início de cada ano e acabamos por nunca a fazer. Falta-nos vontade e atitude! Três regras essencias para a vida e que devemos sempre ter em conta… - Se não perguntarmos nunca saberemos a resposta. - Se não formos atrás nun-

ca vamos ter!! - Se não dermos um passo em frente nunca sairemos do lugar!!! … e quem nunca repetiu esta frase no começo de um novo ano? Dizem que dá sorte vestir uma cueca azul, comer doze passas, levantar o pé esquerdo do chão, brindar com champanhe, subir uma cadeira, pôr dinheiro no sapato, vestir dourado e beijar quem mais amamos à meia noite - não passam de meras superstições nas quais tentamos acreditar que resultem. São 365 dias. 365 novas experiências. 365 maneiras de ver o mundo. 365 histórias para contar. 365 obstáculos. 365 escolhas. É mais um ano… que não devemos desperdiçar a pensar - “se

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Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N: Pedro Jubilot • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço CRIA: Hugo Barros • Espaço Educação: Direcção Regional de Educação do Algarve • Espaço Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Momento: Vítor Correia • Panorâmica: Ricardo Claro • Património: Isabel Soares • Sala de leitura: Paulo Pires Colaboradores desta edição: Ana Lúcia Cruz Elena Morán Mauro Rodrigues Paulo Serra Rute Evaristo Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, Direcção Regional de Educação do Algarve, Postal do Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelagoncalves3@gmail.com

on-line em: www.issuu.com/postaldoalgarve

Tiragem: 8.168 exemplares eu tivesse feito de outra maneira?”…“se eu não tivesse dito aquilo?”. Devemos arriscar mais. Aproveitar todas as oportunidades. Dizer a verdade. Chorar. Rir. Perdoar. Nunca, mas Nunca, devemo-nos arrepender do que fizemos e

de tudo o que passamos. Porque a vida é feita de escolhas. Certas ou erradas foram essas que nós escolhemos, que nos trouxeram o presente. Bom ou mau… é o nosso futuro. Não é mais que o resultado das atitudes tomadas agora e antes.


Cultura.Sul

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Grande ecrã Cineclube de Faro

Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPJ | 21.30 HORAS | ENTRADA PAGA CICLO EROTICIDADES 21 JAN | O GRANDE MESTRE, Wong Kar Wai, EUA/China/Hong Kong, 2013, 113’, M/12 28 JAN | O DESCONHECIDO DO LAGO, Alain Guiraudie, França, 2013, 97’, M/16 4 FEV | INTERIOR. LEATHER BAR., James Franco e Travis Mathews, EUA, 2013, 60’, M/16 SEDE | 21.30 HORAS | ENTRADA GRATUITA CICLO OLGA RORIZ... A BAILAR NA TELA

23 JAN | OLGA RORIZ - CENAS DE CAÇA, Rui Simões, Portugal, 2000, 55’ 30 JAN | OLGA RORIZ - INTRODUÇÃO AO PRINCÍPIO DAS COISAS, Rui Simões, Portugal, 1994, 65’ 6 FEV I OLGA RORIZ - FINIS TERRA + CLOD HANDS, Rui Simões, Portugal, 2000, 65’ FILME FRANCÊS DO MÊS | BIBLIOTECA MUNICIPAL | 21.30 HORAS 31 JAN | LA FOLLE HISTOIRE D’AMOUR DE SIMON ESKENAZY, Jean-Jacques Zilbermann, França, 2009

Eroticidades em Faro Eroticidades é o ciclo proposto pelo Cineclube de Faro para os meses de Janeiro e Fevereiro e promete trazer até aos algarvios nomes grandes do cinema como Bernardo Bertolucci ou Roman Polanski. Na calha estão, ainda, obras de Wong Kar Wai, com uma história de amor impossível em o Grande Mestre, de Alain Guiraudie, com O Desconhecido do Lago a abordar a temática queer e, já em Fevereiro, Interior. Leather Bar., de James Franco e Travis Mathews, onde brilha Al Pacino. O ciclo que começou com A Vida de Adèle, já exibido a 7 de Janeiro, reserva ainda espaço para a realizadora Sarah Polley, que apresenta Histórias que Contamos, Grand Central, de Rebecca Zlotowski, e para Vénus de Vison, a encerrar, saído da arte de Roman Polanski. A não perder as propostas do cineclube para estes dois meses de eroticidades e ainda

Cineclube de Tavira d.r.

Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | 965 209 198 | 934 485 440 cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES Cine-Teatro António Pinheiro | 21.30 horas 23 JAN | BLANCANIEVES (BRANCA DE NEVE), Pablo Berger, Espanha/França/Béligica, 2012, 104’, M/12

30 JAN | ANY DAY NOW (TALVEZ UM DIA), Travis Fine, EUA, 2012, 98’, M/16

Cena do filme O Desconhecido do Lago aquelas que estão reservadas com o filme francês do mês, que apresenta La Folle Histoire D’Amour, de Simon Eskenazy. Pode-se ainda ver Olga Ro-

riz... A bailar na tela, um ciclo que apresenta já dia 23 de Janeiro Olga Roriz - Cenas de Caça e que se prologará até Fevereiro.

Espaço AGECAL

Algarve mediterrânico: património cultural da humanidade A “Dieta Mediterrânica” foi inscrita na lista representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO a 4 de Dezembro de 2013, em Baku (Azerbaijão), precisamente no momento do 10º aniversário da mais jovem Convenção desta organização das Nações Unidas e no decorrer da 8ª Sessão do Comité Intergovernamental, com 116 Estados presentes. Pela primeira vez um elemento da cultura algarvia foi reconhecido como Património da Humanidade pela UNESCO. Um espaço geocultural do sotavento algarvio, Tavira, foi escolhido para representar Portugal pela diversidade dos patrimónios, produções claramente mediterrânicas e estilo de vida, presentes num território onde aportaram e se fixaram há milénios povos vindos de diferentes zonas do “mar entre as terras”, que deixaram marcas físicas e valores imateriais. A componente diplomática da candidatura foi assegurada pelo MNE/ Comissão Nacional da Unesco, a coordenação e acompanhamento da Comissão Nacional pelo MAMAOT. Coube-me coordenar tecnicamente pela autarquia a candidatura de Portugal e, por necessidades do próprio processo,

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Jorge Queiroz também dos restantes Estados. Permitiu o estudo para construção de sínteses fundamentadas, um processo preparatório exigente envolvendo sete países do Mediterrâneo Oriental, Central e Ocidental, de matriz católica, ortodoxa e islâmica, cujo elemento unificador foi e é a “dieta”, no sentido grego de “daíata” ou estilo de vida. Esta foi uma candidatura nova, com directivas operacionais e formulário diferentes do anterior, duplicando o esforço probatório, que incluía a participação das populações, declarações

de compromisso de 70 organizações públicas e privadas, documentação escrita, traduções, fotos e vídeo, conferências, exposição, a I Feira da DM,.. Foi imperativo demonstrar na UNESCO que o elemento contínua vivo nas comunidades, transmitido de geração em geração. A votação unânime e o reconhecimento da UNESCO da exemplaridade da candidatura compensaram este trabalho. A “Dieta Mediterrânica” é um modelo cultural, constituído por culturas de proximidade e partilha, vivências de

trabalho e festa, onde a mesa e os alimentos são centralidades na transmissão de valores e saberes desenvolvidos durante mais de três mil anos. Os excelentes padrões de saúde no Mediterrâneo confirmados pelo fisiólogo norte-americano Ancel Keys no estudo dos sete Estados realizado na década de 50 do século XX, não podem ser explicados apenas pelo modelo alimentar de excelência reconhecido pela Organização Mundial de Saúde. O bem-estar das comunidades resulta do seu estilo de vida, valores de cooperação e entreajuda, estímulos positivos físicos e psicológicos, aliados ao consumo quotidiano de alimentos frescos, de acordo com a época do ano e produzidos localmente. A inscrição na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, tem implicações jurídicas e reconhecimento planetário. O Algarve tem na “dieta mediterrânica” a grande oportunidade de (re)encontro com a sua identidade e cultura, de construir uma economia em sintonia com a região e a sua cultura. Desta fazem parte, território e paisagens culturais, a língua e as tradições orais, os mercados e as práticas produtivas ancestrais, sabedoria na

preparação e confeção dos alimentos, a arquitetura regional e festividades, as culturas de proximidade e partilha. A contemporaneidade pode e deve construir-se com a riqueza dos valores. A UNESCO considera urgente a defesa das culturas locais como forma de preservação da sustentabilidade do planeta, a par da biodiversidade. Portugal, com quase mil anos de História, possui uma riqueza produtiva e patrimonial, potencialmente inspiradoras de um desenvolvimento humano e uma contemporaneidade personalizadas. A cultura e o património, a educação e a ciência, são bases do desenvolvimento da Região e do País. O Algarve tem agora a sua identidade cultural reconhecida pelo mundo, a “dieta mediterrânica” um diamante por lapidar, com aplicações positivas em todas as áreas. Jorge Queiroz Coordenador Técnico da Candidatura Transnacional – UNESCO. Sociólogo. Membro da AGECAL Associação de Gestores Culturais do Algarve


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Cultura.Sul

Aqui há espectáculo

Lethes garante programação em Faro do Lethes, onde a artista apresenta Delikatessen Café Concerto, o seu novo disco. Ainda no fado, dia 9 de Fevereiro, é a vez de Cremilde 40 anos entrar na histórica sala de Faro, com a fadista filha de Alvor. Por entre muitas outras propostas que incluem Jazz, Ópera e outras sonoridades, as tábuas do teatro farense acolhem o Teatro Meridional na apresentação de O Senhor Ibrahim e as Flores do

17 JAN | Faro Tango Fest - workshop de tango argentino, preço: 25 € (bailarino individual); 35 € (par de bailarinos) nível 1: das 18.30 às 19.30 horas; nível 2: das 20 às 21 horas 18 JAN | Faro Tango Fest - workshop de tango argentino, preço: 25 € (bailarino individual); 35 € (par de bailarinos) nível 1: das 15 às 16 horas; nível 2: das 16.30 às 17.30 horas 18 JAN | Faro Tango Fest - Perfume de Tango (espectáculo), 21.30 horas, preço: 10 €

Destaque

Quem conhece o trabalho de Luís Vicente, director da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, sabe que o afinco e a dedicação se juntam na sua actividade cultural com a perseverança e o saber fazer. É assim em palco como a encenar e, como não poderia deixar de ser, é assim enquanto programador e a prova está à vista. Perante a míngua da actual programação do Teatro Municipal de Faro, a sala maior da re-

Teatro Municipal de Faro Programação: www.teatromunicipaldefaro.pt

31 JAN | Pedro Abrunhosa & Comité Caviar (música), 21.30 horas, preço: 20 € Segundo Pedro Abrunhosa, que apresenta «Contramão», “um disco é cada vez mais um livro, uma narrativa contínua de histórias desencontradas que se reencontram na música que escrevo, de personagens que acabam por ser comuns a muitos de nós.

Falo de mim através das vozes de outros e transponho-me para os outros usando a minha própria voz. Se se encontrarem comigo neste trabalho, a minha tarefa estará cumprida e partirei para a estrada já com o próximo disco nas entranhas.”

d.r.

Destaque

AMO - Auditório Municipal de Olhão Programação: www.cm-olhao.pt/auditorio

Corão, com Miguel Seabra. The After Life Drag Show abre a programação de Março, dia 3, pela mão dos Las Folies, numa encenação de Vítor Henriques. Para o dia 8 de Março está agendado o espectáculo São Francisco, O Bobo da Corte, de Dário Fo, numa interpretação de Mário Pirovano, com o público a poder escolher se quer assistir ao espectáculo em inglês ou em italiano. ENTU e SIN-CERA levam à cena A Cidade Autoada, a 27 de Março, com Rui Cabrita a assinar a encenação do espectáculo. E a fechar o mês, lugar a Já Gastámos as Palavras, com direcção de Victor Pontes, numa apresentação de ENTU e Teatro Universitário do Porto. Mas o Lethes é mais do que a oferta de espectáculos, é a casa do serviço educativo da ACTA que ‘espalha cultura’ nas escolas da região, é a sede da própria companhia teatral da região e conta ainda, neste arranque de 2014, com um workshop de expressão dramática com Mário Pirovano, aulas de expressão dramática e de dança. Há um mundo de arte e cultura a não perder naquela que é, hoje, por excelência, a sala maior da cena cultural farense. Ricardo Claro

vos e surpreendentes. O espectáculo não se esgota em 50 minutos, podemos considerar que cada representação é apenas um acto e que assim como gostaríamos que acontecesse na nossa vida, pudéssemos mudar, retirar e compor uma nova história cheia de novas possibilidades.

25 JAN | Salawa - 14º Festival de Música al-Mutamid, 21.30 horas, preço: 10 € África e Médio Oriente unem-se neste encontro entre o sudanês Wafir Sheik el-Din e o sírio Salah Sabbagh. Os seus intrincados ritmos e melodias são a base para o baile oriental de Erika La Turka, bailarina técnica e expressivamente virtuosa. Salawa faz um percurso repleto de rigor e sen-

sibilidade, transportando o público à sensualidade sonora que durante séculos inundou bazares, medinas e palácios do Mediterrâneo e Médio Oriente. Artistas: Wafir Sheik el-Din - alaúde árabe, nay, percussões e voz; Salah Sabbagh - darbouka, riq, daf; Erika La Turka - dança oriental

TEMPO - Teatro Municipal de Portimão Programação: www.teatromunicipaldeportimao.pt

Destaque

gião, que depois de um começo fulgurante ao nível da programação iniciado com a abertura do espaço em 2005, tem vindo a decair até ao quase deserto actual, o Teatro Lethes é hoje o espaço cultural de referência da capital de distrito. O protocolo realizado com a Câmara da cidade, que deu as rédeas do Lethes à ACTA, está provado que foi uma boa opção e Luís Vicente tem dado e está a dar provas de grande dinamismo e capacidade de colocar a sala num lugar de destaque mesmo a nível regional. Para o primeiro trimestre deste ano o Lethes apresenta uma programação diversificada, consistente e pensada para uma abrangência que seja um meio para garantir novos públicos. Já amanhã, dia 18 de Janeiro, sobe ao palco As Cartas Ridículas do Sr. Fernando e os Suspiros Líricos da Menina Ofélia, uma dramatização da correspondência entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, numa encenação de Paulo Moreira. 1 de Fevereiro é a data marcada para o concerto de uma das grandes senhoras do fado e, depois de Amália, provavelmente, a maior divulgadora internacional da canção nacional, Mísia. Imperdível esta proposta

A Branca de Neve e os 7 Anões é um espectáculo destinado a toda a família e tem um cariz de improviso cómico e divertido! Queremos, cada vez mais, a interacção do público, graúdo e miúdo, que cada um se sinta parte integrante da história e que em cada representação surjam elementos no-

Cine-Teatro Louletano Programação: http://cineteatro.cm-loule.pt

Destaque

O Lethes apresenta uma programação invejável

25 JAN | Branca de Neve e os Sete Anões, 16 horas, 50 minutos

17 JAN | Cycle Me Home (documentário), Pequeno Auditório, 21.30 horas, 50 minutos, preço: entrada livre No mês em que o blog Portimão Cycle Chic e os estafetas da Bike Postal fazem dois anos de existência, realizam-se um conjunto de actividades ligadas à temática das bicicletas. Com o PTM Bike Weekend pretende celebrar-se estes dois anos de actividades,

juntando toda a comunidade de ciclistas existente em Portimão, com o objectivo de chamar a atenção da população em geral para o tema da mobilidade urbana com bicicletas. No âmbito deste programa, o TEMPO exibe o documentário ‘Cycle Me Home’.

17 e 18 JAN | Histórias à volta de nós, Black Box, 60 minutos, preço: escolas - entrada gratuita mediante marcação através da Oficina do Espectador | Famílias: 6 € (adultos), 4 € (crianças até aos 12 anos) 24 JAN | Fado [em] Sinfonia (música), Grande Auditório, 21.30 horas, 60 minutos, preço: 10 €; 50% desconto: menores de 12, maiores 65, Cartão Jovem, sócios AML e funcionários da Câmara Municipal de Portimão 24 e 25 JAN | Filminhos Infantis, Pequeno Auditório, 24 Janeiro, 10 horas (escolas) e 25 Janeiro, 16 horas (famílias), preço: escolas com entrada gratuita, restante público 3 € Filmes em exibição: Tempo de Emagrecer; Um dia de sol; Corrida; Aleksander; As Aventuras de Míriam: Jogo das Escondidas; As novas espécies; Embrulhando o Sol; No fim do mundo.


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Panorâmica

Quarenta anos de uma liberdade que não se pode deixar esquecer Há já 40 anos, é verdade. O 25 de Abril foi há 40 anos e a idade da revolução celebra-se este ano por todo o país quando se inicia mais uma década sobre um dos mais relevantes momentos históricos do país. O esquecimento, a banalização, a perda da memória colectiva e os abusos que possam ser cometidos por via destas realidades contra aqueles que são e foram os ideais de Abril, são uma ameaça que importa ter em conta e que cumpre afastar do espectro do futuro de Portugal como condição sem a qual o que nos está reservado será sempre deficitário em liberdade e em democracia. A liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos, a democracia que vingou no país com a queda do antigo regime são realidades evolutivas, não são dogmas, mas antes ideais e conquistas abertas e, nessa medida, a análise do seu substracto deve ser uma constante como único meio de defesa da sua perenidade. A Associação Portuguesa de Criatividade e Inovação (APGICO), em parceria com a Associação 25 de Abril (A25A) e a Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), propõe-se trazer as comemorações dos 40 anos sobre a data da revolução para a ordem do dia regional e para tanto desenvolveu no passado domingo em Faro um Fórum com o objectivo de pensar Abril e as formas como a nível regional a sociedade civil pode celebrar a efeméride e simultaneamente potenciar o ideário de Abril como realidade actual de todos os algarvios. Quantos mais formos melhor, por um 25 Abril cada vez mais colectivo

Agendar

O projecto desenvolvido sob uma ideia de intervenção cívi-

joão brito

Fernando de Sousa durante a sessão de arranque do projecto em Faro ca do professor universitário Fernando Cardoso de Sousa, docente da Universidade do Algarve e líder da APGICO, tem na presidência o conhecido actor Luís Vicente e pretende “levar a cabo acções colectivas que influenciem o discurso e a prática política, no sentido da reposição dos valores originais do 25 de Abril”. Aberta a todos os que estiverem interessados em participar, de cidadãos individuais a entidades públicas e privadas das mais diversas, a aposta da iniciativa está num conjugar de esforços para que o 25 de Abril não passe ao lado dos portugueses e muito em particular daqueles que têm uma menor intervenção política e cívica e, também, daqueles que pela idade possam estar mais longe do conhecimento dos ideais de Abril. As manifestações a desenvolver abrangem todos os campos possíveis da intervenção pública, das artes de palco e de rua até à literatura, da pintura à in-

tervenção cívica, da comunicação social à educação só para enumerar algumas áreas e o POSTAL e o CULTURA.SUL não quiseram deixar de dar apoio a esta iniciativa.

postos à associação e que poderão contar com a ajuda de todos aqueles que se quiserem

unir a este movimento, as equipas determinaram o que fazer e os prazos de execução das iniciativas propostas. Intervenção ao nível das escolas, eventos culturais, teatro e música, intervenção ao nível das redes sociais e novas tecnologias, acções de rua e seminários, são apenas exemplos do muito que este projecto promete e que está já em plena execução. Novos e menos novos, pessoas que viveram o 25 de Abril e aqueles que nasceram já muito depois da revolução, uniram-se assim em prol de dizer a todos que o 25 de Abril está vivo, que as ideias de liberdade e democracia estão pujantes e que a sua defesa será feita por todos intransigentemente. Trazer para a rua as conquistas de Abril O desiderato final é o de

trazer para a rua e levar até todos quantos possível a mensagem de Abril. Não a do “onde estava você no 25 de Abril?” como condição para se ser titular e beneficiário do que com a revolução se conquistou, mas a mensagem de um Abril nosso e colectivo sem supostos guardiões mais ou menos arregimentados. Um 25 de Abril que se quer vivido como fenómeno histórico, como realidade socio-antropológica, como memória, mas simultaneamente como presente e futuro dos portugueses e como conceito aberto à influência dos tempos e ao progresso da realidade. O mote está lançado para uma celebração em cheio dos 40 anos da revolução e aberto a que todos tragam o seu contributo para esta mostra cívica da força que Abril teve, tem e terá. Ricardo Claro

d.r.

O projecto na prática Reunidas nos Artistas em Faro, no passado domingo, cerca de 70 pessoas divididas por grupos de trabalho começaram já a desenvolver planos de acção para iniciativas efectivas a pôr em prática até 16 de Março deste ano e que serão uma realidade no terreno durante 2014 para comemorar os 40 anos do 25 de Abril. Definidos os projectos base, a que se podem juntar outros que venham a ser pro-

“DESENHOS DE RAFAEL SILVA” Até 19 JAN | Ria Shopping – Olhão O autor, de apenas 21 anos e natural de Olhão, ostenta grande talento para desenhar, pintar e esboçar, desde criança, sendo, inclusivamente, o melhor aluno de educação visual, durante vários anos

“PERFUME DE TANGO” 18 JAN | 21.30 | Teatro das Figuras - Faro Espectáculo relata o nascimento e desenvolvimento de uma música que passou fronteiras, passando de um fenómeno local a uma profusa difusão internacional


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Cultura.Sul

Letras e Leituras

Diário de um idealista em tempos modernos

Paulo Serra

Investigador da UAlg associado ao CLEPUL

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Ao fechar um ano e abrir outro ciclo, David Machado parece ser a melhor escolha literária para demonstrar o estado da nossa condição. Índice Médio de Felicidade é o terceiro romance deste jovem autor. O Fabuloso Teatro do Gigante (2006) marca a sua estreia, podendo ser lido como uma parábola para adultos, em que o fantástico aí vivido e descrito prende-se com toda uma localidade que passa a representar uma peça maior que a própria vida, montando uma farsa imensa como forma de manter a sanidade mental de um homenzarrão chamado Gabriel (também oriundo da América do Sul, como Gabriel García Márquez, o chamado mestre do realismo mágico?). Este registo do real irá evoluir para um realismo histórico e social mais convencional em Deixem Falar as Pedras (2011). É no seu último romance - depois de ter escrito contos e obras infantis pelo meio - que David Machado procura retratar a realidade portuguesa atual. Os próprios nomes são similares, além de a história ser narrada na primeira pessoa, invocando-se logo na primeira linha um «tu», o amigo Almodôvar que se encontra preso, mas como o próprio autor alerta nas entrevistas que deu acerca do romance, qualquer semelhança entre a ficção e a sua realidade são mera coincidência. Isto porque o próprio autor viveu períodos em que esteve desempregado ou se ausentou do país para trabalhar e amealhar para poder continuar a escrever. Esta voz do narratário, transcrita em itálico no decurso do livro, ajuda a traçar o plano do romance que, em vez de parecer um monólogo ou um diário, surge assim como um diálogo ou discussão a duas vozes entre Daniel e o amigo preso por assaltar uma estação de serviço: «O Xavier saiu de casa?/ Não, Almodôvar, ainda não é a tua vez de falar. Além disso, este relato terá a ordem que eu ditar.» (p. 14). Se o livro é apresentado como um

«romance admirável e extremamente atual sobre um otimista que luta até ao fim pela sua vida», afigura-se mais correto designar Daniel como um idealista que, mesmo sabendo que as suas escolhas e ações, movidas por princípios éticos fortes como impulsos naturais, o podem prejudicar, continua a reger-se por uma ética em que a sua vida só ganha sentido face à felicidade dos que o rodeiam - os filhos, a mulher, os amigos e sua respetiva família. Ou seja, o seu otimismo, por vezes, sucumbe mas ainda assim as suas decisões são sempre tomadas em prol do bem maior que são os outros, e o seu próprio índice de felicidade só pode ser medido em função do próprio bem-estar daqueles que ama. A confirmar a maturidade de David Machado na escrita surge também o uso da gíria e do calão. Ainda que haja leitores mais sensíveis ao uso do “palavrão”, este afigura-se adequado na medida em que configura um discurso escatológico, exprimindo desabafo e injúria, de revolta contra o mundo e incompreensão face ao que o rodeia. O autor ao fazer uso desta marca linguística emblemática e de alguma estranheza nas situações narradas, desenha um cenário mais urbano que é, afinal, representativo do «País». Sem querer adiantar muito da intriga deste livro simples, que se lê praticamente numa tarde, basta-me referir algumas das questões que

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O escritor David Machado considero centrais. A intriga segue o episódio corrente do estado da nação, mediante as peripécias deste herói moderno, que fica desempregado. Vive longe da família desde que a mulher se viu forçada a mudar para perto dos pais, em Viana, tem dois melhores amigos que surgem como exemplos a rejeitar, entrega a casa ao banco, passa a viver no carro, mesmo quando este é danificado e d.r.

Último romance procura retatar a realidade atual do país “CONTRASTES” Até 8 FEV | Galeria Municipal de Albufeira Exposição de pintura, escultura, fotografia, instalação, desenho e ilustração, de um grupo de jovens artistas recém-licenciados da Universidade do Algarve, no campo das Artes Visuais

circula com uma janela partida e um banco traseiro queimado, onde ele antes dormia, até, por fim, passar a viver clandestinamente no seu antigo trabalho. Local onde a vida lhe sorria até ao momento em que a crise apertara e o patrão se vira obrigado a fechar o negócio da agência de viagens, ainda que, curiosamente, nunca tenha tido de alugar o espaço. O autor leva-nos a refletir sobre os valores em crise do mundo pós-moderno (materialismo, consumismo) e da actual sociedade (pós-industrial, globalizadora), pois apesar dos avanços técnicos e culturais, o progresso histórico não se traduz num progresso moral. Por isso é que os (pré)adolescentes retratados na ficção de David Machado parecem ter relevância e sintomatizar isso mesmo, pois Flor, Vasco e Mateus alegorizam, cada um à sua maneira, o abismo em que, de alguma forma, nos deixámos afundar. Exemplo disso é quando um grupo de jovens rodeiam um pedinte, humilhando-o ao urinar-lhe em cima, à vez, enquanto um deles vai mesmo ao ponto de assumir publicamente esse ato vergonhoso, filmarndo-o e publicando-o online. Menos gritante mas igualmente preocupantes são os episódios em que se descreve as birras do filho de Daniel, sempre que não tem um qualquer gadget com que se entreter, ou quando a preco-

ce e inteligente Flor decide deixar de se aplicar na escola, pois sabe que isso não lhe trará qualquer retorno face à taxa crescente de desemprego. Uma passagem emblemática a considerar é esta: «O País está a afundar-se depressa, estamos todos a tentar manter-nos à tona, uma luta diária, injusta para muitos. Mas tu apanhas-te com trezentos euros, que nem sequer são teus, e a primeira coisa que fazes é comprar um telemóvel. É por causa de tipos como tu que o mundo chegou a este momento tão triste da história. Sabes quanto tempo algumas pessoas conseguem viver com trezentos euros? Meses.» (pp. 154-155). A ética assenta na responsabilização do indivíduo pelo seu progresso, vivendo consciente e responsavelmente, como Daniel procura fazer, pois mesmo quando invade propriedade alheia, ao procurar um canto para dormir, sente culpa e ansiedade permanente, enquanto tenta manter-se à tona face à situação em que se deixou enredar. Já os seus amigos vivem em prisões distintas: Almodôvar encontra-se fisicamente cativo numa prisão, e Xavier, embora tenha uma melhor situação económica, parece ser um contrabandista, voluntariamente preso em casa há anos. Inclusivamente, para sair em viagem com Daniel (quando partem numa viagem que abre um horizonte de esperança no romance), Xavier toma medicação para se autoinduzir num sono profundo que o ajude a suportar a viagem, pois o mundo exterior não só pouco lhe interessa como, de facto, parece amedrontá-lo. Daniel é um optimista sim, que tinha um «Plano» da vida, um diário do futuro, como aliás os próprios livros de autoajuda sugerem: tracemos um esquema e usemos de visualização criativa para que a matriz do mundo se adeque à nossa pré-visão da vida. Até que Daniel percebeu outra coisa com o tempo: «Eu ainda não tinha quarenta anos e o meu mundo estava parado.» (p. 50). Compreendeu, como estamos todos a perceber, que o melhor é deixar espaço para o imprevisto pois quanto mais recetivos estivermos à mudança menos brutal parecerá a vida, mais fácil será a adaptação aos desígnios que nos são apresentados e que estavam completamente fora do plano, ainda que nos possam levar a caminhos nunca antes antecipados.

“RAÍZES” Até 7 FEV | EMARP - Empresa Municipal de Águas e Resíduos de Portimão Eduardo Silva expõe esculturas em madeira. Nos seus tempos livres gosta de fazer passeios pela natureza onde recolhe raízes mortas com as quais desenvolve os seus trabalhos


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Momento

Espectáculo Aéreo Foto de Vítor Correia

Espaço ALFA

Ser modelo requer dedicação e movimentação Mauro Rodrigues Sócio da ALFA

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Numa altura em que existe tanta diversidade nos media, é importante para os novos talentos movimentarem-se e evitar a espera, isso, claro, requer dedicação e uma boa gestão da sua imagem. Pessoas bonitas como você existem às centenas, não se deixe iludir pela sua beleza porque ironicamente a procura por talentos de todas as idades e feitios é uma realidade, o mercado neste momento é extremamente diversificado e existem oportunidades em muitos locais, é preciso é saber apresentar-se nas agências certas, não se restrinja à passerelle que é muito exigente, porque requere características muito específicas dos talentos. Mas como começar? Em primeiro lugar, terá de começar por fazer sessões fotográficas e tentar perceber se tem talento visual. A imagem é uma questão de servir um propósito para uma história, seja ela na moda ou no cinema. No início terá de partilhar muito a sua imagem até que comece a ter algum retorno financeiro, são as marcas que lhe

vão pagar pelos trabalhos, não pense que será o núcleo criativo, pode acontecer mas poderá ser num estágio mais avançado. Trabalhe por objetivos e tenha prazos para os concretizar. Diversifique os temas do seu portefólio e arranje um site para os mostrar, mantenha-o atualizado e com informação relevante. Tenha a noção que vai ser muitas vezes rejeitado ou ignorado, mas seja perseverante, paciente e nunca desista. Mantenha um contacto regular com todas as agências, com novos trabalhos e procure sempre alternativas, não fique à espera das oportunidades, faça-as acontecer. Envolva-se em projetos criativos de todo o género, quem sabe, uma oportunidade pode estar ao voltar da esquina. Seja conversador, interessado, pontual, responsável e educado, estas qualidades geralmente são relembradas e apreciadas. As agências de modelos nunca pedem dinheiro antecipadamente, por isso a sua inscrição será sempre gratuita. Evite os contratos de exclusividade no início, diversifique-se o mais possível. Agora deite mãos à obra e coloque esse talento em movimento.


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Na senda da Cultura

Paisagens do Museu do Prado numa visita rara a Lisboa d.r.

É a primeira vez que parte da colecção do Museu do Prado, de Madrid, está exposta em Portugal e para acolher o valioso espólio emprestado ao país o Museu Nacional de Arte Antiga, a coroa dos museus nacionais situado em Lisboa, abriu portas no início de Dezembro do ano passado à exposição “Rubens, Brueghel, Lorrain. A Paisagem Nórdica do Museu do Prado”. Com honras de presença do primeiro-ministro do país, a exposição que estará patente até ao fim de Março é absolutamente imperdível e mostra 57 pinturas de grandes mestres do século XVII do acervo do museu da capital espanhola, um dos mais importantes do mundo. Obras primas São verdadeiras obras primas, divididas por nove núcleos, que apresentam paisagens flamengas e holandesas retratadas por alguns dos mais importantes mestres da pintura de paisagem. A maioria das telas provém, refere o Museu Nacional de Arte Antiga em nota de imprensa, das Colecções Reais Espanholas. A paisagem ganhou relevo definitivo enquanto género com o fim da tendência de pintar temáticas como os feitos heróicos de carácter histórico, um processo que se desenvolveu durante a segunda metade do século XVI e todo o século XVII. Os artistas do norte da Europa, sobretudo dos Países Baixos, vol-

Vista parcial de “Visão de Stº Huberto” (1617-20) óleo s/ madeira 63 cm x 100 cm de Rubens e Jan Brueghel, o Velho tam-se para o mundano e no seu âmbito para a paisagem como base para as suas obras e deste percurso nasce a autonomia do género. Nove núcleos dão nota das tipologias da paisagem da Flandres e Holanda, desde “A Montanha: encruzilhada de caminhos”, “O Bosque como Cenário: a vida no bosque, o bosque bíblico e a floresta encantada, encontro de viajantes”, passando por “Rubens e

a Paisagem”, “A Vida no Campo”, “No Jardim do Palácio”, “Paisagem de Gelo e de Neve”, “Paisagem de Água: marinhas, praias, portos e rios”, “Paisagens Exóticas, Terras Longínquas” até “Em Itália Pintam a Luz”. Destaques A mostra patente em Lisboa, na Rua das Janelas Verdes, permite ao

visitante ver obras tão importantes como Paisagem Alpina, de Tobias Verhaecht, A vida no Campo, A Abundância e os Quatro Elementos e Boda Campestre de Jan Brueghel o Velho, além de A Visão de Santo Huberto, pintada em colaboração com Rubens, Paisagem com Ciganos e Tiro ao Arco, de David Teniers, ou os dramáticos Cerco de Aire-sur-la-Lys, de Peeter Snayers, e Bosque, de Simon de Vlieger.

De acordo com o museu, “as duas tipologias mais características das paisagens pintadas por artistas do norte da Europa - a paisagem de inverno e a paisagem de água - estão representadas, entre outras, pela delicada pintura O Porto de Amesterdão no Inverno, de Hendrick Jacobsz. Um Porto de Mar ou Desembarque de Holandeses no Brasil, de Jan Peeters, aludem a terras longínquas, às quais o comércio marítimo fez chegar os holandeses”. Espaço ainda para a excelência de Atalanta e Meleagro Caçando o Javali de Cálidon, obra de Rubens, o grande mestre da paisagem nórdica. A exposição termina com algumas das paisagens encomendadas pelo rei Felipe IV de Espanha a Claude Lorrain e a Jan Both, para decorar o Palácio do Bom Retiro de Madrid. Dois jovens pintores que iniciaram em Roma a chamada paisagem italianizante. Para os amantes da arte do pincel e da paisagem como mote da pintura esta é uma oportunidade rara de contactar em Portugal com algumas das mais importantes obras do género em todo mundo, pela mão do Museu Nacional de Arte Antiga. Porque há momentos culturais absolutamente únicos e que dificlmente poderiam alguma vez ter lugar no Algarve aqui fica o desafio a visitar Lisboa por todas as razões e por mais esta tão especial, a de poder ver em terras lusas a dramática excelência de nomes incontornáveis da pintura mundial no género paisagem. Ricardo Claro

Sala de leitura

Para acabar de vez com a cultura Paulo Pires

Programador Cultural no Departamento Sociocultural do Município de Silves esteoficiodepoeta@gmail.com

O dramaturgo e ensaísta austríaco Karl Kraus escreveu um dia que “a cultura é uma muleta com que o coxo bate no são para mostrar que também a ele não faltam as forças”, mas o relatório do Eurobarómetro da Comissão Europeia sobre o acesso e participação na cul-

tura (de Novembro de 2013) mostra que em Portugal, no espaço de um ano (e pelo menos uma vez), 8% dos inquiridos (cidadãos nacionais) assistiram a um espectáculo de dança ou ópera, 13% foram ao teatro, 15% visitaram uma biblioteca pública e 17% deslocaram-se a uma galeria de arte ou museu. Comparativamente ao último estudo (2007), caímos em todos os indicadores, não tendo subido em nenhum deles. Entre os três maiores decréscimos constam a leitura de um livro e o visionamento de um filme em sala (em ambos menos 10%), e a utilização de bibliotecas (me-

nos 9%). Globalmente, o índice português de prática cultural revela-se baixo em 59% dos casos e muito elevado em apenas 1% do universo estudado, colocando-nos na cauda europeia da adesão a actividades culturais. O estudo identifica uma causa principal, que é transversal aos vários itens: a falta de interesse do público, surgindo as outras “barreiras” a uma – na maioria dos casos – assinalável distância percentual: falta de tempo, custo elevado e oferta cultural limitada ou de fraca qualidade. Note-se que é precisamente no indicador “visitas a bibliotecas” que se verifica uma

maior percentagem de respostas justificadas com ausência de interesse (57%). Várias visões (inter-relacionadas) concorrem para este panorama geral: a falta de investimento estatal; a não valorização política e social da cultura como bem essencial; a fraca aposta no ensino cultural e na educação artística, de forma a estimular a criatividade na escola e uma maior articulação desta com o meio cultural exterior (países com níveis educacionais mais elevados apresentam em regra hábitos culturais mais consistentes); e o reduzido poder de compra derivado da actual

conjuntura. Conviria ainda perceber mais a fundo, em termos psicossociais, até que ponto o ambiente de pessimismo, desesperança e défice de entusiasmo afecta realmente os hábitos culturais dos portugueses. Temos vindo a assistir nos últimos anos a três discursos político-ideológicos perversos e perigosos, transmitidos, directa ou veladamente, à opinião pública: não nos podemos preocupar demasiado com a cultura quando há gente a passar fome e uma dívida pública para pagar; o sector cultural não é lucrativo, constituindo um peso para a despesa pública devido

à necessidade regular de subsídios; e na área da cultura pode fazer-se muita coisa com pouco ou nenhum dinheiro, apostando na criatividade e dinamismo dos recursos já existentes, e apelando ao voluntariado e a um maior envolvimento social. O primeiro argumento parece-nos claramente oportunista e coloca na balança pesos não comparáveis pela sua natureza e âmbito, desviando-se do cerne da questão; o segundo é uma falácia fruto do não conhecimento (voluntário ou não, mas grave) das realidades existentes noutros países e do notório impacto socioeconómico das


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Espaço ao Património

Arqueologia Preventiva e Produção de Conhecimento

Elena Morán

Arqueóloga da Câmara Municipal de Lagos Investigadora no UNIARQ - Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa

Frequentemente, na análise de um processo de obra e na elaboração do parecer técnico sobre o seu impacto no património arqueológico, deparamo-nos com uma corrente de acusações imediatas: a um tímido «só quero fazer obras na minha casa, não me interessa a arqueologia», segue-se um taxativo «se a Câmara ou o Estado querem fazer investigação então eles que a paguem». A preservação do património arqueológico como recurso cultural da comunidade é um dever público a que se aplica a Lei 107/2001, de 8 de setembro. É obrigação das Autarquias zelar por esse património e apostar em procedimentos preventivos que garantam a sua salvaguarda, física ou através do «salvamento pelo registo científico», e a produção de conhecimento científico indispensável para caraterizar as cidades e os territórios como espaços de memória coletiva, onde o conheci-

indústrias criativas e culturais (veja-se a Irlanda nos últimos anos); e o terceiro é, em parte (sublinho bem esta nuance), um slogan populista e demagógico, meia-verdade que vai entrevendo uma gradual desresponsabilização e divorciar do Estado enquanto estrutura que tem o papel de assegurar/prestar um serviço público e que, como tal, deve, no âmbito de uma política bem definida, por um lado, apoiar financeiramente (parcialmente, claro) e, por outro, estimular/incrementar e dignificar o universo cultural. Isto não obstante esta crise ter levado (porventura a sua única

projecto geolac

mento do passado seja garantia da preservação das identidades. Uma deficiente prática arqueológica estará na base do mau entendimento do exercício da arqueologia. Se as cidades e os territórios são espaços de memória coletiva, a prática arqueológica só terá razão de ser se houver um retorno social real do conhecimento que vamos adquirindo, isto é, se esse conhecimento for devolvido à comunidade. De contrário, é mais saudável para a preservação do legado histórico não intervir no património arqueológico, sendo neste caso necessário garantir que uma qualquer intervenção no subsolo não afete o património preexistente. Gestão de recursos culturais e gestão urbanística Parece imperativo que os arqueólogos municipais se apetrechem de ferramentas adequadas à gestão urbanística. É fundamental que sintetizem numa carta arqueológica todas as informações sobre as ocorrências de caráter arqueológico num determinado território ou área urbana (registos bibliográficos e relatórios das intervenções arqueológicas). É também indispensável que a cartografia de todas essas ocorrências fundamente uma carta de sensibilidade arqueológica, justificativa dos procedimentos de salvaguarda a implementar

“virtude”) a que, por exemplo, no caso das autarquias se tenha começado a olhar menos para atractivos e tentadores catálogos (com toda uma plêiade de opções “eficazes” quando há muito dinheiro para gastar) e mais para a diversidade cultural e qualidade/dinâmica criativas que se tem “dentro de casa” (associações, plataformas e movimentos colectivos, artistas e outros criativos a nível local/ regional). Se os agentes culturais têm de rever os seus processos de organização e actuação (parcerias, programação em rede, formação de públicos, envol-

A fisionomia das áreas urbanas dificulta por vezes uma intervenção arqueológica tradicional (de escavação), uma vez que a escavação em profundidade pode interferir com a segurança dos trabalhadores e/ou com a estabilidade do edificado. Nesses casos, compete ao arqueólogo municipal procurar estratégias alternativas, não invasivas (procedimentos geofísicos) ou pouco invasivas (procedimentos geoarqueológicos), que permitam caracterizar o local e definir

os procedimentos de salvaguarda mais ajustados no âmbito da execução de projetos de obra. Contudo, a gestão das cidades e dos territórios não deve impedir o arqueólogo municipal de praticar uma arqueologia de investigação, que lhe permita, por uma parte, melhorar o desempenho das políticas de gestão urbanística e, por outra, acrescentar ao legado histórico novas informações, produzir conhecimento e partilhá-lo com a comunidade. Assim, é desejável o estabelecimento de parcerias com entidades externas (universidades e institutos de investigação) que garantam uma investigação de qualidade. Esta é a política que o Município de Lagos vem praticando desde 2006, tendo já estabelecido diversas parcerias, nomeadamente com as Universidades de Sevilha, Bremen e Nantes para o estudo geoarqueológico do Centro Histórico de Lagos e da sua Frente Ribeirinha, com vista ao aperfeiçoamento de uma política de arqueologia preventiva do Centro Histórico de Lagos, com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para o estudo de Monte Molião, com vista ao conhecimento e valorização desta estação arqueológica, e com a Universidade de Heidelberg para o estudo da villa romana de São Pedro de Pulgão e do aglomerado romano da Praia da Luz, com vista ao conhecimento e à valorização destes sítios.

contabilísticos, que não respeitam/valorizam o sector cultural, bem como ausência de estratégia e, por vezes gritante, falta de perfil (misto de conhecimento, experiência, exigência, pulso e sensibilidade) dos decisores culturais a nível central, regional e local, provocam danos graves e fundos num tecido vital para o crescimento e promoção do país. O financiamento da cultura não é uma esmola, mas sim um investimento, uma aposta em “que o retorno se faz em termos de economia de valores sociais e de bens simbólicos que sustentam uma ideia de

futuro da comunidade onde são investidos” (António Pinto Ribeiro). Joaquim Manuel Magalhães rematava assim um poema seu: “Só nos resta esperar então morrer?”. Não. Não (nos) fiquemos e não nos (des)gastemos apenas a contar os tostões por causa da crise ou a divinizar ou diabolizar os economistas financeiros. A cultura e a criatividade estão na base, na essência do ser/estar/agir, funcionam como “sal da vida”, constituem o nosso mais “perigoso” potencial e serão “tudo o que resta depois de se ter esquecido tudo o que se aprendeu” (Selma Lagerlöf).

Sondagem geoarqueológica na Rua da Barroca, Lagos caso qualquer obra projetada venha a colidir com o património arqueológico. Como em qualquer instrumento de gestão territorial, as cartas de sensibilidade arqueológica devem ser associadas a um regulamento, definindo as medidas de salvaguarda que se preconizam em cada uma das áreas e graus de sensibilidade. O conhecimento do local e das informações que justificam a atribuição do grau de sensibilidade, permitirá ao promotor programar melhor a intervenção que pretende realizar, incluindo as correspondentes medidas de

mitigação do impacte arqueológico das obras quanto a prazo e custo. Fornecendo ao promotor um elenco dos procedimentos mínimos, a incluir em caderno de encargos, estaremos criando condições para que a intervenção do arqueólogo permita o uso científico dos dados recolhidos e a produção de conhecimento, mesmo naqueles casos em que a intervenção se limita a uma tarefa exclusivamente técnica, sem que o relatório inclua o correspondente enquadramento da intervenção na topografia histórica em que se insere o imóvel.

[porque] “os sonhos não têm fim”, de Jovelino MatosAlmeida [2007] vimento com as comunidades, auto-sustentabilidade, etc.),

não é menos verdade que orçamentos desfasados e puramente

O arqueólogo municipal e a produção de conhecimento


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O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N

Janeiro antes de passar a ser o recheio de finos pastéis fritos.

O Tempo Entre As Fendas Pedro Jubilot

pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt

Bom Ano

que devidamente assinalado onde se pode parar e estacionar e que permite olhar o aglomerado urbano da cidade, (sua ilha e aeroporto) a encher-se de luz e cor de dia ou de noite. À devida irrisória escala é a nossa espécie de provinciano Mulholland Drive. Quanto ao desplante surrealista e sádico de se ter de pagar portagem na A22, esse é claramente david lynchiano, ou como diria um amigo meu… estamos mas é da vida linchados.

Escaparates

nunciada a 9 de Março de 1945 no Instituto Francês, a convite do Prof. Lionel de Roulet, obtendo elogiosas referências na imprensa local. Noutro inverno igualmente tempestuoso sentei-me por ali naquele espaço centenário a tomar café e escrevi-lhe esta microbiometria: «existir. mas muito mais do que existir, é amar. o sangue do outro. do tempo de se libertarem no mundo as ideias presas na garganta, de tudo o que escorre do segundo sexo, para poder gritar pedaços de suor, lamber as próprias lágrimas. existindo, vive-se. e vivendo, ama-se, sofre-se e existe-se em essência».

fotos: d.r.

Título do novo livro de poesia de Miguel Godinho, na 4Águas editora, lançado no passado mês de Dezembro, com uma tiragem única de 80 exemplares, numerados e assinados. Reservas por mensagem via facebook ou miguelangelogodinho@gmail.com - (8 € - portes incluídos).

Na feroz concorrência dos dias, a novidade, a mensagem, a imagem, atropelam-nos por todo o lado. Esperam-se as horas para um novo ano como se não fosse mais um dia deste mesmo tempo, em que tudo é uma veloz passagem dos minutos. Queremos ansiosamente o ano vindouro, só para que passe rapidamente a caminho doutro tempo, noutras horas passadas em modos de vida mais desejados... Tão cedo se faz fim de tarde neste cinzento primeiro dia de Janeiro, que quando estiver fora nos dará mais uma hora. A tradição das ‘charolas’ mantém-se na sorte de não estar a chover, e apesar da humidade, com grande afluência de público no largo frente à igreja da Luz. Bem, … e quanto a resoluções de princípio de ano, deixem-me lá ver…, pois é, cada um lá terá as suas… bem hajam nas folhas deste novo calendário… e um bom ano, meus amigos…

O amor é um fogo selvagem primeiro custa a atear depois não se dá conta dele

Andar A manhã está clara. Só andar faz perder o frio. Entrar pela cidade, a pé. Sei que vou encontrar as mesmas ruas, as mesmas caras. Noutras ruas e noutras caras. Mas não importa. Andar. Andar, só a andar se percebe que temos um corpo, que respira e que se move. Na cidade que parece sempre parada. Andar também faz mover a cidade. Andar faz crescer o dia...

E é bom ver produções de artistas algarvios, entre os grandes nomes da indústria cultural, nos escaparates cheios de produtos em destaque nessa concorrência de vendas de natal de uma empresa multinacional. O livro ‘Claves do Sol e da Lua’ (Arandis, 2014) de Manuel Neto Dos Santos (Alcantarilha, 1959), que diz tem «andado nos últimos anos de prego ao fundo nesta luta cultural no Algarve» e lançará este ano a sua ‘Fotobibliografia’ – comemorativa do 25º aniversário de edições. Nos discos surge ‘Infinity3’ de Pete Tha Zouk (nascido António Pedro, em Olhão, 1978). Considerado o melhor dj português pela grande maioria dos especialistas na arte da percepção musical misturada em bpm, mesmo antes do êxito de ‘I’m Back Again’ com Abigail Bailey. Discípulo de Dj Vibe, ultrapassou o mestre na tabela da revista Mix Mag, para os 100 melhores djs do mundo em 2011.

Microbiometria para

De Passage(m) A fronteira, essa passagem outrora romântica e aventurosa ficou térrea e airosa. Na galeria café Passage (plaza de la laguna, Ayamonte), os muitos relógios na parede junto ao balcão marcam mais uma hora do que o meu pulso. Mas o tempo, ele próprio, está igualmente suspenso na minha vontade de pará-lo. Nas paredes exibem-se ‘Apuntes para una coleción’ de Manuel Moreno Morales - exposição de pintura gráfica. Das colunas para encher o ar, elevam-se as notas de piano de Keith Jarret… Gosto de entrar em cafés vazios e depois vê-los encher lentamente e… ir-me embora quando o barulho começa a tornar-se pouco suportável.

CanalSonora Será lançado no próximo mês, o terceiro título do catálogo da editora :)CanalSonora(: - sediada a 37° 7’ 0’’ N, 7° 39’ 0’’ W, com apresentação em Tavira. Fiquem atentos à convocatória. Chama-se ‘Espuma Evanescente’, do autor Vítor Gil Cardeira, e continua a apresentar-se segundo o lema da editora: pequenos livros~grandes segredos~volumes portáteis~emoções resguardadas.

Simone de Beauvoir

Parque com vista paga

À Noite a Natureza…

Na cozinha da casa dos meus avós havia uma clarabóia. Um pequeno vidro quadrangular lá no alto do tecto que deixava entrar a claridade possível pela açoteia. E eu ficava ali sentado num banco a apreciar as nuances da luz que passava, enquanto a minha avó cozinhava coisas deliciosas: bolos de folha (camadas de massa folhada fina e tenra, como só ela fazia. Com açúcar, canela, amêndoas…), ou as ‘trutas’ de batata doce, cujo creme ficava a descansar numa grande taça de loiça, num armário embutido na parede, diversas vezes atacado por mim,

…à noite a natureza defende-se das ameaças através da humidade com que rega tudo e assarapanta os homens que por aí andam à espera de um novo amanhecer. então mal o dia espreita, cubro-me de casaco. calço luvas. saio para o campo. sei que só gostas de prendas frescas. caminho. sai-me um fumo da boca que não é de fumar. uma geada cobre as pequenas pétalas da manhã que quero colher. regresso de mãos molhadas, frias às tuas quentes…

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Na Cozinha

Há ali na Via do Infante frente a Faro um par-

“PINTURA DE JUTTA MERTENS-KAMMLER” Até 1 MAR | Galeria de Arte Praça do Mar - Quarteira Com a compra de um iPad, a artista descobriu um novo mundo na pintura: a aplicação digital ou iPad-Painting. Em vez do uso de pincéis, paleta e cavalete, pinta com um dedo ou com uma caneta especial no ecrã

A escritora, filósofa existencialista e feminista francesa (Paris,9.01.1908 14.04.1986) esteve em Faro (diz-se que tomou chá no Café Aliança) para a conferência “A Vida Literária em França, da Ocupação à Libertação”, pro-

“CORES E FORMAS” Até 28 JAN | Galeria de Arte Pintor Samora Barros - Albufeira Exposição de pintura de Artemísia, que reúne diversos trabalhos da artista, natural de Boliqueime, e das aprendizes que frequentam o seu atelier


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Da minha biblioteca

O Diário Oculto de Nora Rute, de Mário Zambujal

Adriana Nogueira

Classicista Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

É sempre um prazer e um desafio ler os livros de Mário Zambujal. Desde o marco que foi o sucesso do seu primeiro romance, Crónica dos bons malandros, que o deslocou da referência como jornalista (que nunca deixou de ser) e o colocou no rol dos nossos autores de literatura, a sua produção tem continuado a dar-nos bons momentos. Alguns gostos

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Com uma prosa escorreita, humor inteligente e tratando as personagens com muita bondade, Mário Zambujal constrói mundos muito diferentes daqueles em que a maioria de nós vive. Na minha biblioteca tenho alguns dos seus livros, que muito me fizeram sorrir e ajudaram a ver o mundo com outros olhos. Em Fora de mão – Prosas revisitadas e inéditas, uma belíssima coletânea, publicado em 2003 pela Oficina do Livro, somos defrontados com momentos que nos fazem pensar, como no conto «Uma pratada de mundo» (p.85), que nos remete para a hipocrisia e para a banalização da desgraça que a invasão noticiosa acarreta, ou como em «Vermelho e verde» (quando se refere à personagem que ganha a vida quando os carros param nos sinais): “O seu mundo é outro e se calhar anda ao contrário, como ele, ali, com as luzes coloridas dos semáforos” (p.113); em 2006 escreve, na mesma editora, Primeiro as senhoras. Relato do último bom malandro. Contado na primeira pessoa, não há outra

voz no livro. A personagem conversa com um inspetor da polícia, mas nunca ‘ouvimos’ a voz deste interlocutor – apenas subentendemos as suas respostas ou reações pelas falas daquele: “Dormir, eu dormi, senhor Inspector, mas não posso falar em descanso” (p.23); “Sossegue, Inspector, vou resumir” (p.24); “O senhor Inspector desejará saber se deixaram escapar um nome” (p.28); “Demorei? Queira desculpar” (p.95. Tenho estado a citar a edição de bolso, da Leya, 2010). Este é um livro muito divertido, que nos obriga a colocar-nos na pele do silencioso inspetor e ir acompanhando o desvendar das trafulhices, esquemas, amores, aventuras e desventuras, ao sabor da decisão do “último bom malandro”. Em Uma noite não são dias, de 2009 (editado pela Planeta), o subtítulo revela um pouco da história: Intriga e paixões no esquisito ano de 2044. Há neste romance, pelo ambiente futurista, uma grande ironia com o nosso presente, que é o passado das personagens: “Os mais velhos dizem ter saudades das épocas em que ninguém dizia mal de alguém. Agora é o que se vê” (p.30); “Era impensável, há trinta, quarenta anos, digamos nas imediações de 2010, que alguém afinasse por virem dizer que outro alguém dissera horrores a seu respeito. Agora zangam-se” (p.67). A história tem um toque policial e, como seria de esperar, não nos desiludimos. Em 2012, Mário Zambujal publica, na editora Clube do Autor, Cafuné. Tropelias do secretário da amiga da aia da rainha. Mais uma vez, Zambujal muda de tipo de narrador. Desta vez, está fora da história e conhece tanto o passado como o presente, o que lhe permite fazer conexões entre os dois mundos: “carta (…) mais suculenta que um moderno sms” (p.127); “longe vinha a fresquidão do biquíni e do fio dental” (p.159). Há também aqui, como na

d.r.

O Diário Oculto de Nora Rute é o novo romance de Mário Zambujal generalidade das suas obras, crítica à sociedade e aos costumes e muito humor: a princesa Carlota Joaquina era “tão pouco selectiva quanto a homens que chegava a deitar-se com o próprio marido” (p.18); “o piolho é democrata, nem atende ao estatuto de cada cabeça” (p.199). Um livro que diverte enquanto nos enquadra no Portugal com uma corte em fuga para o Brasil. Confissões privadas de uma jovem rebelde No passado mês de novembro, Mário Zambujal publicou, de novo na editora Clube do Autor, o seu último romance: O Diário Oculto de Nora Rute, que tem por subtítulo divertido, explicativo e longo, tão ao gosto do autor, Confissões privadas de uma jo-

“14º FESTIVAL DE MÚSICA AL-MUTAMID” 25 JAN | 21.30 | Cine-Teatro Louletano Wafir Sheikheldin (alaúde árabe, nay, percussões e voz), Salah Sabbagh (darbouka, riq, daf) e Erika la Turka (dança oriental) são os protagonistas do espectáculo

vem rebelde. O livro tem a forma de diário de uma jovem que caminha para os 22 anos, como a própria afirma (p.43), e começa a 30 de dezembro de 1968, uma segunda-feira. Achei graça quando me dei conta de que estava a iniciar a sua leitura precisamente no dia 30 de dezembro de 2013, também uma segunda-feira (mas, claro, ficaram por aqui as coincidências, pois não demorei um ano a lê-lo: o diário termina a 31 de dezembro do ano seguinte). Sempre com muito humor, somos postos na pele de uma jovem do fim da década de sessenta, uma época de grande agitação política e social, nomeadamente entre os estudantes. Curiosamente, a heroína desta história deixou a faculdade sem acabar o curso e o seu envolvimento políti-

co é algo superficial. Mesmo a sua estada em França, nas manifestações do Maio de 68, não teve o empenhamento que se poderia supor. Aliás, como foi, provavelmente, para muitos jovens daquela geração, que não tinham posição definida e não se envolviam nas lutas. Diz ela: “Acreditam alguns, até declarados opositores ao Salazar, que estão em curso mudanças de respeito. Outros, no círculo de estudantes com que ainda me vou encontrando, dizem ‘primavera marcelista’ com ironia. Tentarei não escorregar para o lado dos apáticos que nada pretendem excepto o divertimento de cada dia, de preferência à noite. Confesso: é para aí que me tem puxado o pezinho” (p.44). O livro é de leitura agradável, divertido, com muitos subentendidos, mas também

com muita crítica direta. E ainda se torna mais interessante por falar de uma realidade relativamente próxima de nós (se bem que muitos leitores – como eu, felizmente – já não a viveram): “Ainda há mulheres proibidas de se casar por serem enfermeiras ou hospedeiras da TAP. E não há mulher casada que possa viajar ao estrangeiro sem licença escrita pelo senhor marido. Diz-se que estas absurdas proibições terminarão em breve. Esperemos que sim, será limpar uma nódoa deste Portugal engravatado” (p.45). Esta nódoa tirámos, mas pusemos muitas outras. Termino com os versos do poeta Alexandre O’Neil, que me ficaram a ressoar quando li aquele parágrafo: “País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano”.

“FADO [EM] SINFONIA” 25 JAN | 21.30 | Centro Cultural de Lagos A Academia de Música de Lagos junta-se a um talento emergente do fado, Ana Pinhal, para a construção de um programa em torno do Fado Tradicional e Novo Fado, com composições e arranjos da autoria de Manuel Maio, Bruno Ribeiro e o Ensemble algarvio Gato Malvado.


12 17.01.2014

Cultura.Sul

Novo rosto a liderar a Direcção Regional de Cultura Alexandra Gonçalves é o nome da nova directora regional de Cultura do Algarve. A ex-vereadora da autarquia farense tomou posse no mês de Dezembro e substitui no cargo Dália Paulo que, entretanto, regressou à Câmara de Faro de cujos quadros faz parte e já está a trabalhar à frente da Divisão da Cultura da Câmara de Loulé em regime de comissão de serviço, confirmou ao POSTAL a ex-responsável pela pasta na região. O novo rosto aos comandos da Direcção Regional é licenciada em Marketing pela Universidade do Algarve e concluiu recentemente o doutoramento em Turismo na Universidade de Évora, ainda durante o seu mandato na câmara da capital algarvia. Aos 41 anos o seu currículo académico inclui ainda o mestrado em Gestão do Património Cultural pela universidade onde se licenciou e onde lecciona, na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo. Quer a formação académica, quer a experiência profissional, seja no sector privado, seja em funções ligadas à causa pública, serão instrumentos determinantes no desafio que a nova directora regional assumiu. A Cultura numa região de turismo Realce para a gestão focada no turismo que, numa região que é o mais importante destino turístico do país, é uma mais-valia, uma vez que a gestão da Cultura no Algarve se tem, necessariamente, e mais do que no resto de Portugal, de fazer para os turistas ao mesmo tempo que se faz em prol dos residentes. A herança deixada pela anterior responsável do organismo da administração desconcentrada do Estado implica para Alexandra Gonçalves um desafio acrescido. Dália Paulo revolucionou a Direcção Regional de Cultura e o seu papel e forma de intervir na cultura da região e a obra dá mostras disso mesmo.

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d.r.

Real Marina Hotel & Spa Alexandra Gonçalves é a nova directora regional O que se espera da nova titular da Cultura Não obstante, Alexandra Gonçalves conta com a vantagem de ter já hoje uma equipa na Direcção Regional motivada e onde há elementos de relevo que compreendem a necessidade de uma atitude proactiva e promotora da cultura regional num padrão que não se compadece com o anacronismo da capacidade transformadora da administração pública em muitas matérias. Habituada a fazer e a congregar esforços, mulher de resultados e de diálogo reconhecidos na execução do cargo de vereadora na câmara algarvia, espera-se de Alexandra Gonçalves a mão capaz de manter a Direcção Regional no bom caminho, sejam quais forem as opções tomadas. Mais do que continuidade tout court, pede-se-lhe a sua própria abordagem da pasta da Cultura com resultados próprios no sentido positivo trilhado pela sua antecessora. Muito há a fazer depois dos passos dados - largos convenha-se - por Dália Paulo. Ao nível do património edifica-

do e dos sítios e lugares históricos da região, mas muito em particular na área das tecnologias de informação e respectiva acessibilidade para o sector. A Direcção Regional tem, desesperadamente, de se colocar na primeira linha de visibilidade nas redes sociais e na web, oferecendo conteúdos amigáveis em várias plataformas e neste capítulo há um mundo por fazer que não se compadece com as demoras provocadas pela vontade uniformizadora da tutela. A Direcção Regional tem os conteúdos e a qualidade de trabalho que permitem avançar sem demoras neste capítulo e esperar tem custos demasiado elevados. Nas demais áreas a capacidade de ouvir, ser um facilitador e interlocutor privilegiado é o que se pede a Alexandra Gonçalves, a quem se exige ainda o génio de congregar vontades e reforçar apostas de sucesso em prol daquilo que nos forma a fatia de leão da identidade, a Cultura. Não é pouco, por isso é um desafio e Alexandra Gonçalves aceitou-o. Ricardo Claro

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