D.R.
Missão Cultura: d.r.
365 Algarve : Um novo impulso para a cultura regional p. 5
Dinamização e Valorização dos Monumentos do Algarve
p. 2
Letras e leituras: d.r.
A con(in)spiração de Nuno Júdice
p. 4
Filosofia dia-a-dia: d.r.
d.r.
Da arquitectura dos dias, segundo Sophia
O Sonho de Álvaro de Campos
ps. 8 e 9
p. 7
Da minha biblioteca: d.r.
OUTUBRO 2016 n.º 97
Frederico Lourenço e a sua leitura da Bíblia
p. 11
Mensalmente com o POSTAL em conjunto com o PÚBLICO 7.705 EXEMPLARES
www.issuu.com/postaldoalgarve
2
14.10.2016
Cultura.Sul
Editorial
Missão Cultura
Que não nos falte a economia, a bem da cultura
Dinamização e valorização sustentável dos Monumentos do Algarve d.r.
Direção Regional de Cultura do Algarve
Ricardo Claro
Editor ricardoc.postal@gmail.com
AGENDAR
Num país onde, ainda e perssistentemente a cultura é um parente pobre - representa, na previsão de execução orçamental para 2015, 0,1% do PIB, incluídas despesas com serviços culturais, recreativos e religiosos - haver disponíveis para uma região 1,5 milhões de euros para aplicar na área cultural constitui uma oportunidade rara. Ainda mais quando se sabe que essa mesma região recebe em apoios do Ministério da Cultura, no seu todo, aproximadamente um milhão de euros anuais contados todos os apoios do Estado à actividade cultural. A região que passa com esta verba adicional a mais do que ver duplicado o investimento do Estado na área da cultura é o Algarve e alcança este fenómeno de crescimento de financiamento através do Ministério da Economia, via Turismo de Portugal para investir dentro da própria região, criando valor, riqueza, densidade, qualidade e fomentando a cultura regional sob o ponto de vista da oferta tanto como da procura, via criação de públicos. O programa '365 Algarve', longe do ido Allgarve é um verdadeiro 'win, win' para a região e bem executado que seja e mantida que se veja - senão reforçada - a sua existência e robustez todos nos aperceberemos das diferenças que a médio / longo prazo poderá trazer. Exactamente por isso dedicamos neste Cultura.Sul especial destaque a este programa que terá aos comandos Dália Paulo e analisamos a importância desta nova e marcante ferramenta para uma região cujas debilidades culturais são há muito conhecidas, mas que podem ser agora melhor vencidas.
O Espírito do Lugar foi o mote para o DiVaM de 2016, numa procura de novas experiências e de novas vivências em torno do património sob gestão da Direção Regional de Cultura do Algarve. Em 2014 foi criado este programa de dinamização cultural com o objectivo principal de desenvolver uma dinâmica cultural com a participação das associações e dos municípios centrada nos Monumentos do Algarve que criasse um pretexto para visitar ou voltar a visitar o Monumento, tendo um efeito de Bom Momento associado àquele património que fosse para além dos “Lugares de Memória” e se constituíssem também como “lugares de vivências, de emoções”, lugares de bons momentos. Desta forma, far-se-ia também a promoção, divulgação e valorização do património cultural da região, oferecendo a todos os residentes e visitantes, um conjunto de iniciativas culturais, de dinamização, de fruição e vivência nos espaços patrimoniais. “O Espírito do Lugar” tem sido o mote do programa des-
Dinamização do Castelo de Loulé pela Associação Música XXI te ano, apresentado em cerimónia pública na Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, no passado dia 2 de abril. Durante a cerimónia foram assinados os protocolos de colaboração com as várias associações envolvidas nas actividades culturais, que se procurou disseminar ao longo do ano com especial incidência na época baixa e intermédia do turismo internacional do Algarve, atraindo e envolvendo as comunidades locais, os residentes e os visitantes dos monumentos que acolhem as iniciativas. O programa conta ainda com a parceria de vários municípios algarvios e da Universidade do
Algarve, assim como da Região de Turismo do Algarve, oferecendo à população um leque diversificado de actividades culturais que vão desde performances, música, artes plásticas, actividades para os mais novos e ainda de algumas novidades anuais. A dinâmica desenvolveu-se como habitualmente nos monumentos que estão afetos a esta Direção Regional - Castelo de Aljezur, Fortaleza de Sagres, Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, Monumentos Megalíticos de Alcalar, Castelo de Paderne, Castelo de Loulé e Ruínas Romanas de Milreu.
Programação rica em vários domínios artísticos e para vários gostos Estando a aproximar-se o último trimestre do ano, as actividades propostas intensificam-se com uma programação mais centrada na Fortaleza de Sagres e na Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe. Na Fortaleza de Sagres, o DiVaM para os “+ e – pequenos”, ainda durante o mês de Outubro, tem pela Corpodehoje dança e teatro para a infância, mas também para todos. Na rubrica “Patri Per Form” a proposta da Rizoma Lab cria “espelhos entre paisagens” com
cruzamentos artísticos que envolvem música e teatro, numa abordagem inovadora. Também as artes plásticas com o projecto “Derivas Continentais” da Tertúlia Associação Sócio-Cultural de Aljezur continua com duas novas artistas – Susana de Medeiros e Conceição Gonçalves - e associa-lhe uma performance na Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe. Mas é a música que possui um maior número de apresentações: com o concerto do conhecido músico Eduardo Ramos em Guadalupe, acompanhado do seu alaúde árabe; mas também dias mais tarde o ensemble SIFR da Academia de Música de Lagos; e já em Dezembro, com o Coro da Universidade do Algarve, numa aproximação entre o lugar e o espírito de uma época natalícia. No final do ano será feita uma avaliação das actividades e um balanço do terceiro ano do programa, pelo que contamos com a vossa participação Desta forma, estamos também a contribuir para a preservação e conservação do Património Cultural que na contemporaneidade só tem sentido se na sua refuncionalização e nas intervenções a promover conseguir a participação, o envolvimento e a autorresponsabilização da comunidade que o vivifica, o conserva e o transmite às gerações vindouras. Acompanhem-nos pelo facebook: facebook.com/DRCAlg.
Juventude, artes e ideias
II Encontro Internacional Poesia a Sul Jady Batista
Coordenadora editoral J
O II Encontro Internacional
Poesia a Sul - Olhão 2016, já tem programa fechado e promete superar a primeira edição. Ao surgir em 2015, o Poesia a Sul garantiu desde logo um lugar de destaque no panorama literário nacional, tendo sido considerado, por muitos, o maior evento do género a Sul de Lisboa, trazendo a Olhão nomes maiores da literatura como Nuno Júdice, Manuel Alegre
“DAS ERRÂNCIAS” Até 29 OUT | 21.30 | Biblioteca Municipal José Mariano Gago – Olhão Exposição mostra como Domingos Fernandes olha e interage com os desenhos que os edifícios, os monumentos e as paisagens apresentam.
ou Teresa Rita Lopes. Organizado pelo Município de Olhão e comissariado por Fernando Cabrita (cujos conhecimentos e empenho pessoal têm sido fundamentais para o grande nível de qualidade da iniciativa), o II Encontro Internacional Poesia a Sul traz a Olhão poetas e artistas oriundos de varias partes do globo como o vietnamita Chi Trung, a mexicana
Maria Dolores Guadarrama, o marroquino Said Trigaoui, a chilena Vittoria È Natto, os espanhóis Manuel Moya, Manuel Gahete, José Sarria, ou Raquel Zarazaga, o brasileiro Cláudio Guimarães dos Santos, o francês François Louis Blanc e os portugueses Casimiro de Brito, Pedro Jubilot, Maria Afonso, Marcos Mangas, e o próprio Fernando Cabrita, entre outros.
A edição de 2016 do Encontro Internacional Poesia a Sul traz ainda consigo a inovação da presença de um grupo de críticos literários. Confirmados estão já os nomes de Ana Cristina Leonardo, do jornal Expresso, e Mário Rufino, do jornal Público. Presentes estarão também Pedro Ferré e Adriana Freire Nogueira, da Universidade do Algarve.
“CONCERTO PELO QUARTETO DE GUITARRAS CONCORDIS” 15 OUT |18.30 | Centro Cultural de Lagos O quarteto de guitarras Concordis formado em 2005 é constituído por Eudoro Grade, João Venda, Rui Martins e Rui Mourinho, guitarristas residentes na região do Algarve.
Cultura.Sul
14.10.2016
3
Grande ecrã Cineclube de Faro
Programação: cineclubefaro.blogspot.pt IPDJ | 21.30 HORAS
Cineclube de Tavira 25 OUT | GUEROS, Alonso Ruiz Palacios, MEX, 2014, M/14, 106’
14 OUT | VICTORIA, Sebastian Schipper, ALE, 2015, M/14, 136’
Programação: www.cineclubetavira.com 281 971 546 | cinetavira@gmail.com SESSÕES REGULARES | CINE-TEATRO ANTÓNIO PINHEIRO | 21 HORAS
27 OUT | LA ACADEMIA DE LAS MUSAS (A ACADEMIA DAS MUSAS), José Luis Guerín, Espanha, 2015, M/12, 92’
15 OUT | DEMAIN (AMANHÃ), Cyril Dion, Mélanie Laurent, França, 2015, M/12, 118’
28 OUT | UMA NOVA AMIGA, François Ozon, FRA,, 2014, M/16, 108 TEATRO MUNICIPAL DE FARO | 21.30 HORAS 22 OUT | AMANHÃ, Cyril Dion, Mélanie Laurent, FRA, 2015, M/12, 118’
18 OUT | A COMUNA, Thomas Vinterberg, DIN/SUE/HOL, 2016, M/12, 111’
20 OUT | UROK (A LIÇÃO), Kristina Grozeva, Petar Valchanov, GRE/BUL, 2014, M/12, 111’
Espaço AGECAL
Sociologia aplicada na área da cultura: a experiência de um estágio
Cátia Barracosa Socióloga; Sócia da AGECAL
O presente artigo tem como objectivo dar a conhecer a experiência de estágio de uma jovem socióloga na área da cultura e no apoio técnico à gestão cultural. A participação inseriu-se no programa de estágios profissionais da administração local, vulgo PEPAL, realizado durante 12 meses para jovens licenciados poderem ter contactos e eventualmente se inserirem no mercado de trabalho. O estágio de Sociologia foi orientado por um sociólogo, realizado na Divisão da Cultura, Museus e Património da Câmara Municipal de Tavira, incidindo no projeto “Dieta Mediterrânica”, inscrito pela UNESCO como Patri-
mónio Cultural Imaterial da Humanidade. Foram definidos cinco objetivos gerais: um inquérito na Feira da Dieta Mediterrânica - FDM, acompanhamento de atividades educativas, inventariação de práticas alimentares, realização de inquérito sobre os hábitos alimentares e estilos de vida dos alunos nas escolas básicas do concelho de Tavira, por fim, pesquisa documental e organização de bibliografia temática. Nos dias da III FDM, de 3 a 6 de setembro de 2015, fez-se a sua aplicação dos inquéritos. A análise dos dados, com auxílio do programa estatístico aplicado às ciências sociais (SPSS), permitiu a posterior redação de conclusões. Nas atividades educativas foram observadas as interações de crianças e adolescentes em visitas à exposição da DM no Museu Municipal, com preparação do material educativo. Foram ainda elaboradas fichas de inventário, também no âmbito da Dieta Mediterrânica, com o objetivo de identificar pratos tradicionais do
d.r.
concelho de Tavira. Realizei fichas sobre o “cozido de grão ou jantar de grão” e o “arroz de polvo”. O desenvolvimento do trabalho de campo procurou investigar práticas culturais da região e os hábitos alimentares e estilos de vida dos alunos das escolas (públicas)
do 1º ciclo do concelho de Tavira. A primeira fase foi dedicada a pesquisas bibliográficas e seguidamente procedeu-se à conceção da ficha técnica e elaboração do respetivo questionário. A amostra definida foi dirigida a um universo de 250 alunos
das escolas básicas de Tavira e os resultados serão posteriormente divulgados. Finalmente, realizámos a melhoria e actualização de bibliografia temática, resultante de uma pesquisa documental e informática. O estágio foi uma experiência benéfica e gratificante, também uma mais-valia para o desenvolvimento profissional. A integração numa equipa técnica permitiu a melhoria de capacidades e foi uma aproximação à vida profissional. Tanto a orientação e a motivação, como a disponibilidade e a perseverança, considero serem ferramentas essenciais para um contributo positivo do estagiário para o colectivo. O facto de me terem envolvido em projetos concretos facilitou a minha integração e contribuiu para um maior enriquecimento pessoal e profissional, constatei ainda as enormes potencialidades da sociologia para o sector cultural ainda muito carenciado de estudos aplicados a realidades concretas.
4
14.10.2016
Cultura.Sul
Letras e leituras
A con(in)spiração de Nuno Júdice: A conspiração Cellamare fotos: d.r.
Paulo Serra
Investigador da UAlg associado ao CLEPUL
Nuno Júdice, já aqui contemplado a propósito de A Implosão (2013), e geralmente mais conhecido pela sua poesia que tem somado diversos prémios dentro e fora do país, volta a fazer uma incursão na ficção com A conspiração Cellamare, terreno onde prima pela originalidade da voz e pela proximidade com o leitor. Este livrinho, sendo que se utiliza esta palavra não pela sua curta dimensão mas pela dificuldade de catalogar ou rotular eficaz e inequivocamente este romance, é um verdadeiro deleite. Como a própria contra-capa indica, embora a obra «remeta para factos históricos, não é um romance histórico», e como o próprio narrador ressalva logo nas primeiras páginas este romance seria «uma mistura de géneros, entre o diário, as memórias e a ficção; mas já sabia, ao definir esta hibridez, que o resultado seria sempre classificado como não gozando de nenhum desses estatutos e, por isso, carecendo da solidez que se exige a um texto narrativo» (pág. 8). O narrador-personagem é claramente o próprio autor, como nas anteriores obras de ficção, mas aqui claramente assumido, quando refere as suas obras anteriores ou o programa das disciplinas que leccionou enquanto professor na Universidade Nova. O móbil da narrativa é o de reencontrar o passado ou, mais especificamente, o antepassado do autor: «Precisava, antes de fazer qualquer outra coisa, de definir o meu projecto. Sabia que tivera um parente remoto que andara metido em conspirações, e que talvez tivesse perdido um bom futuro nos braços de amantes parisienses quando pôs o jogo acima dos segredos, o que é o pior que se pode fazer num país estrangeiro, em-
A conspiração Cellamare é o último romance de Nuno Júdice bora se goze da imunidade diplomática, que ele tinha, como Embaixador do rei de Espanha em França.» (pág. 7). O embaixador Antonio Giudici, príncipe de Cellamare, não inocentemente apelidado de «remoto parente», afigura-se portanto como uma elucubração do autor pelo que deixa de ser seguro acreditar completamente nas suas palavras quando refere que esse seu «ilustre parente» poderia ter alterado o curso da História se tivesse levado a cabo a sua missão, apesar de, segundo Nuno Júdice, ter havido realmente um seu antepassado genovês que se instalou primeiro em Lisboa e, mais tarde, no Algarve. E além de ser claramente dado o tom descontraído e irónico que impera no romance, esse projecto de recuar três séculos na História nunca é linear nem inteiramente credível: «mas andar à procura de documentos no meio de arquivos e velharias sobre um antepassado que não ficou nos livros de História, e cuja existência conhecia apenas por algumas vagas referências de linhagens familiares, não era a minha vocação. Lembrei-me, então, que poderia compensar esse meu desinteresse se preenchesse as lacunas com elementos de pura imaginação, como fizeram muitos cronistas do passado
histórico antes que se descobrisse que não são os homens o motor das transformações do mundo mas o preço dos cereais, do petróleo, das acções, para não falar de factores mais recentes como a baixa do rating ou as metas do défice ou a subida dos juros da dívida.» (pág. 9). Revisita-se assim a História a partir do presente, ao jeito pós-modernista, como quem demonstra que as maquinações políticas e a violência sanguinária do passado afinal ainda estão bem vivas, pois este é também um testemunho de
como o escritor é afinal testemunha, se não mesmo um agente da História, ou uma voz da verdade a reivindicar justiça e activismo social, à semelhança de conspiradores mais ou menos esquecidos ou mais ou menos desvelados: «O que é certo, em tudo isto, é que eu tivera à minha disposição um personagem com o qual, para além de uma afinidade de sangue, tinha também uma afinidade no plano social: ambos apreciávamos a sombra, que é o lugar em que, sem sermos vistos, podemos manejar os
Júdice já recebeu vários prémios dentro e fora do país
cordelinhos que fazem mover a História. Ele fizera-o através da conspiração; eu procurava fazê-lo na ficção. E o resultado seria o mesmo: a queda do Poder, das forças dominantes, dos que têm nas suas mãos o domínio da humanidade.» (pág. 116). O autor não teme assim denunciar claramente o actual estado político da nação e da Europa (e chamando as coisas pelos nomes), apesar de se referir a um acontecimento aparentemente remoto, o que só demonstra que o Homem continua a incorrer nos mesmos erros do passado: «Porém, quando o motor da política que tinha de rodar sem falhas gripou, o Embaixador ficou com a geringonça nas mãos sem saber o que lhe fazer, a não ser que tivesse sabido muito bem o que devia fazer, ou seja, deixar que se desconjuntasse sozinha, adivinhando ele que os estados germânicos e a Áustria, com o apoio da Inglaterra que, como sempre, se pôs fora do baralho europeu, nunca permitiriam essa união franco-espanhola» (pág. 108). Este romance prima sobretudo pelo humor, pois podemos inclusivamente sentir o prazer do próprio escritor ao escrever certas passagens que provocam o riso ou, para os leitores mais difíceis, desenhando-nos nos lábios o esboço de um sorriso cúmplice do jeito mordaz e crítico do
autor-narrador: «E poderia sugerir à doutoranda que propusesse fazer um exame de ADN aos ossos de Napoleão que se encontram nos Invalides e algum cabelo meu, o que permitiria chegar a uma conclusão científica acerca deste parentesco que, a ser comprovado, seria incómodo porque, nos tempos que correm, somos culpados pelo que os nossos parentes fizeram até, pelo menos, à queda do Império Romano; e ainda haveria quem me viesse exigir que pedisse desculpas pelo que os soldados franceses, ao serviço do meu eventual primo corso, fizeram ao túmulo de Inês de Castro, para não falar de uma participação no reembolso do prejuízo.» (pág. 133-134). A ficção de Nuno Júdice cria sempre um tom intimista, em que se anula a distância entre autor e leitor, interpelando-o constantemente, nem sempre da forma mais simpática, em clara provocação à sua inteligência, ou antecipando as suas reacções: «E aqui está, prossegue o indómito leitor, o autor não só não resistiu ao tema que garante o êxito comercial, como foi mais longe ao fazer da mulher uma entidade metafísica, divina, transcendente, ou seja, tudo aquilo que faz do referido autor um herdeiro desse espírito idealista que, para o leitor formado pelas melhores escolas críticas, é uma manifestação reaccionária, oposta aos modelos da modernidade, e mesmo da pós-modernidade, que espetaram com o punhal da Semiótica nas costas do sujeito real que se dedicava a escrever, pensando que o livro futuro seria a sua prova de vida.» (pág. 84). Tudo isto leva a crer que este último romance do autor é sobretudo uma reflexão pessoal da História e das suas personagens, literatura e do seu estatuto, da sua experiência enquanto académico, das suas leituras, e, mais uma vez, da situação política e histórica que se vive no país, porque afinal, conforme se interroga, perto do final do romance: «pergunto-me se não estarei a incorrer num erro que consiste em separar a vida e a literatura» (pág. 143).
Cultura.Sul
14.10.2016
5
Panorâmica
365 Algarve: a economia ao serviço da cultura e exactamente o contrário Ricardo Claro
Jornalista / Editor ricardoc.postal@gmail.com
Quando potencialmente todos têm a ganhar com uma determinada realidade pouco importa quem está ao serviço de quem. Eis a justificação do título que acaba de ler. É exactamente isso que é - potencialmente porque lhe falta a execução e, mais, a perenidade - o programa 365 Algarve. Um conceito de programa governamental de apoio à cultura e à economia, em particular ao turismo, regionais que tem condições para se tornar numa aposta que configura uma verdadeira situação de 'win, win' em que ganham a oferta turística e cultural, ganha a economia e ganham a actividade e produção culturais e, sim, ganham por diversas formas os algarvios. 1,5 milhões de euros de investimento em cultura
AGENDAR
Vamos a números. O investimento que o Governo através do Ministério da Economia, via Turismo de Portugal, faz com a implementação do programa 365 Algarve é de 1,5 milhões de euros, anunciados com destaque há cerca de duas semanas na apresentação oficial da programação cultural que marcará o Algarve por via desta iniciativa desde o início deste mês até Maio de 2017. Como esclareceu ao Cultura.Sul Dália Paulo, a comissário do programa, "1,4 milhões de euros são destinados à programação cultural e o remanescente, 100 mil euros aproximadamente, à promoção, divulgação e outros encargos". De uma só vez a região vê os apoios totais dados pelo Estado à cultura via Ministério da Cultura no seu todo, cerca de um milhão de euros, multiplicarem-se em cerca de uma vez e meia, num ano, sendo que este aumento se fará por investimento directo em apenas oito meses entre 2016 e 2017. A gestão da programação está entregue a Dália Paulo e a verba resulta de uma candidatura da Região de Turismo do Algarve (RTA), presidida por Desidé-
365 Algarve Programação de Outubro fotos: d.r.
rio Silva, feita ao Turismo de Portugal no quadro das funções de promoção e apoio ao turismo regional que a RTA tem a nível regional. Mas mais do que os 1,5 milhões de euros do Estado o investimento feito no 365 Algarve compreende comparticipação das 16 autarquias da região, cujas candidaturas a este programa podem ser apoiadas até 70%, e o investimento dos agentes culturais, caso em que os apoios do 365 Algarve podem chegar aos 90% do valor do projecto que candidatam a apoio.
TEATRO
World of Interiors (Ana Borralho & João Galante) 28 de Outubro | 21h30 | Teatro das Figuras, Faro *
CINEMA
I Mostra Internacional de Cinema “Fronteiras” 19 a 23 de Outubro | Cinema Glória FC, Vila Real de Santo António e Teatro Cardénio, Ayamonte (Espanha)
LITERATURA
Um caso único no país Não há nenhum outro exemplo no país de um programa com estas características e, exactamente por isso, não faltam regiões a desejarem para si as mesmas condições. É que o 365 Algarve vai deixar dentro da região a parte de leão do dinheiro disponibilizado pelo Turismo de Portugal para o programa, afinal, como refere Dália Paulo "este é um verdadeiro caso em que a programação cultural se faz nascendo de propostas de agentes culturais 'de baixo para cima' e não ao contrário'. "Conseguimos reunir mais de mil [1.023 para sermos exactos] eventos numa programação como resultado das propostas que recebemos dos agentes culturais locais em tempo recorde", refere a comissária, realçando que esta grandeza resulta de vários aspectos em que realça "a existência de um tecido cultural capacitado, a existência de espaços culturais adequados e a existência clara de uma necessidade de investimento na área da cultura".
Poesia a Sul 21 a 30 Outubro | Mercado de Olhão, tascas e bares típicos
ARTES VISUAIS Dália Paulo, na apresentação do 365 Algarve em Tavira Dália Paulo é clara, "havia muitos sonhos por concretizar por parte dos agentes culturais, que viram neste programa a ferramenta para os realizar". Os ganhos de uma aposta de peso Apresentado como "um programa cultural que complementa a oferta tradicional do Algarve enquanto destino turístico com mais de mil apresentações de música, dança, teatro, exposições, animação de património, entre outras", a primeira edição decorre desde o início deste mês de Outubro a Maio de 2017 e "os eventos vão ter lugar em todo o território algarvio". "Porque todos os dias contam!", afir-
Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve, a entidade responsável pela candidatura que garantiu 1,5 milhões de euros para investimento na cultura “O TRATADO DA LOUCURA” 18 OUT | 21.00 | Biblioteca Municipal de Loulé Cristina Silva, autora do livro, narra hilariantes histórias que tentam mostrar a sua visão da vida baseada naquilo que podemos chamar de ‘Filosofia da Relatividade’
ma a organização, e porque o objectivo é “convidar a uma visita à região", este é um programa cultural integralmente virado para o turismo na sua génese, pensado para um intervalo temporal de menor oferta de sol & praia e para combater a sazonalidade, o eterno problema do destino Algarve. Trata-se pois de pôr a economia [Ministério] a trabalhar para criar condições de atractividade para a economia real, mas ao invés do ido Allgarve, em vez de uma programação de gabinete pensada para um turismo que à data duvidosamente existia com perfil para a programação proposta e à revelia da região e dos seus agentes culturais, numa oferta criada a régua e esquadro sob um tecido e realidade culturais dos quais se fez - genericamente - tábua rasa, o 365 Algarve aposta na região para produzir para a região condições de atractividade cultural numa oferta diversificada. E no meio deste processo, mas sem somenos importância, antes pelo contrário, como destaca Dália Paulo, "o programa ajudará a densificar a oferta cultural regional, a qualificar os agentes culturais e, desejavelmente, a fixar criadores invertendo a tendência no Algarve, ao mesmo tempo que propicia a que os agentes culturais que se encontram no limbo entre as estruturas amadoras e profissionais possam, finalmente, assumir esta última condição com todos os benefícios inerentes".
Outdoor - Jovens Criadores do Algarve (Obra de Vilma Correia). Até Maio de 2017 | 18h00 | Largo de São Francisco, Faro
ANIMAÇÃO DE PATRIMÓNIO
Faro Desvendado 28 Outubro | 10h30 | Centro Histórico de Faro * Momentos Fantásticos com o Património – A Banda Vai 29 Outubro | 18h00 | Forte da Ponta da Bandeira, Lagos
MÚSICA / GASTRONOMIA
Fado & Wine 19 e 26 Outubro | 16 e 18 horas | Ginásio Clube de Faro *
ARTES VISUAIS / GASTRONOMIA
Um Olhar Sobre o Peixe Seco de Kwame Sousa Até 18 Dezembro | Degustação e showcooking *
ARTES VISUAIS / ARTES PERFORMATIVAS Festa dos anos de Álvaro de Campos Até 30 Novembro | Tavira (diversos locais) *
(todas as iniciativas são de entrada livre excepto as assinaladas com *)
“COMEÇAR DO ZERO” Até 27 OUT| Centro Cultural de Lagos Exposição colectiva de fotografia, que integra obras de André Príncipe, André Uerba, Andrej Djerkovic, Patrícia Almeida e Vasco Célio
6
14.10.2016
Cultura.Sul
Artes visuais
Qual a importância da formação para se ser artista?
Saul Neves de Jesus
Professor catedrático da UAlg; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora
AGENDAR
Desde a antiguidade o homem sentiu necessidade de comunicar com as futuras gerações, deixando registos através de gravuras e pinturas feitas em superfícies rochosas, que são consideradas expressões de arte rupestre. Ao longo do tempo foram-se diversificando e aperfeiçoando os meios e os produtos deste processo de criação de imagens visuais, sendo o processo de aprendizagem informal e com uma elevada componente autodidata. Apenas no século XVII (em 1648) surgiu a primeira academia de Belas-Artes, a Academia Real de Paris, na qual se pretendia ensinar um conjunto de suportes e manifestações artísticas que se pressupunham “superiores”, englobando a pintura, a escultura e o desenho, subordinadas à arquitetura. No entanto, a diversidade de expressões artísticas que se foram desenvolvendo levou a que a designação de belas-artes fosse por vezes limitativa, sendo a designação artes plásticas mais abrangente, pois diria respeito às diversas expressões artísticas que utilizavam técnicas de produção que manipulam materiais para construir formas e imagens. O conceito de artes visuais, dizendo respeito a todas as artes que lidam com a visão como o seu principal meio de apreciação, veio permitir de uma vez por todas colocar a fotografia e o cinema ao mesmo nível que as restantes formas artísticas, para além de permitir considerar no domínio das artes toda a multiplicidade de expressões
que surgiram no âmbito da arte contemporânea, em particular as instalações. Assim, no “início”, a aprendizagem de técnicas de produção artística era feita dos mestres para os aprendizes, nos ateliers dos primeiros, sendo a produção artística muito focada no retratar algo, em geral pessoas, que a burguesia e o clero pretendiam, procurando deixar registos de imagens visuais para a história vindoura. A aprendizagem com os “mestres” continuou ao longo da história e ainda hoje acontece, embora tenham vindo a institucionalizar-se as formas de aprendizagem das práticas artísticas e do seu enquadramento conceptual. Nesse sentido têm vindo a ser desenvolvidos ambientes formais para aprendizagem no âmbito das artes visuais. A licenciatura em Artes Visuais da Universidade do Algarve, cujo diretor é o Doutor Pedro Cabral Santo, é um bom exemplo desta perspetiva mais recente, procurando contribuir para o desenvolvimento da percepção, da reflexão e do potencial criativo, dentro da especificidade do pensamento visual, num processo que requer um elevado grau de interdisciplinaridade e de integração entre os diversos meios de produção artística. Com um corpo docente constituído sobretudo por artistas, os alunos têm oportunidade de vivenciar de perto o mundo da arte na sua
d.r.
Foto de Pedro Cabral Santo apresentando uma das obras presentes na exposição “Antibióptico – ou o aprendizado da liberdade” complexidade. A relação com a comunidade é um dos aspetos muito valorizados no processo de formação dos alunos em artes visuais, sendo todos os anos feita uma mostra dos trabalhos produzidos pelos alunos. A última foi inagurada no passado dia 22 de setembro, no Convento de Santo António, em Loulé. Esta exposição estará aberta ao público até 22 de outubro. Com a
designação “Antibióptico – ou o aprendizado da liberdade”, esta exposição dos alunos finalistas do Curso de Artes Visuais da Universidade do Algarve inclui trabalhos de pintura, escultura, vídeo-instalação, instalação e fotografia.
No folheto de apresentação desta exposição, Mirian Tavares escreveu “Porque são artistas e a liberdade é o único caminho que é possível ensinar”, coincidindo com aquilo que temos salientado por diversas vezes, da importância da arte ser praticada de forma livre, criativa e com prazer. Esta posição permite aceitar que alguns artistas não tenham tido formação académica para o efeito. A história de arte, mesmo a mais recente, quando já havia ambientes formais para a aprendizagem artística, mostra-nos isso em múltiplas situações. Desde Van Gogh (1853-1890), um dos principais nomes, sobretudo no desenvolvimento do movimento impressionista, a Yves Klein (1928-1962), que estudou na Escola Nacional da Marinha Mercante e na Escola Nacional de Línguas Orientais, não tendo formação académica em artes. Dos artistas portugueses destacaríamos José de Guimarães (nascido em 1939), com uma vasta obra sobretudo na pintura e escultura, e que é formado em Engenharia. Há ainda alguns outros fenómenos interessantes neste processo de reconhecimento de artistas que não tiveram formação académica. É o caso de Aelita Andre, nascida na Austrália em 2007. Considerada a mais jovem d.r.
d.r.
Foto de Aelita Andre no seu ateliê “MODELOS POR UM DIA” Até 29 OUT | Biblioteca Municipal de Faro Vinte e oito fotografias retratam o final de um trabalho de um fim-de-semana, onde sete jovens, tiveram a experiência de ser modelo fotográfico
Foto de uma das obras de Aelita Andre
artista abstrata do mundo, fez a sua primeira exposição quando tinha apenas 2 anos de idade. Sendo filha de artistas, provavelmente ter os pais como modelos e o incentivo fornecido por estes, ajudou bastante no desenvolvimento das capacidades artísticas desta criança. No entanto, se calhar, se os pais não fossem artistas, nunca teria oportunidade de desenvolver as suas competências artísticas tão cedo. Em todo o caso, embora muitos artistas não tenham tido formação académica em artes visuais, tem cada vez mais sentido que o artista se defina também a partir da sua formação neste âmbito, tendo em conta a diversidade de possibilidades formativas que podem ser encontradas hoje em dia. A ideia de que a pessoa X é um artista porque tem jeito para desenhar ou pintar tem cada vez menos sentido, tal como, por exemplo, não tem sentido dizer que alguém é psicólogo porque sabe ouvir e aconselhar os outros como amigo. Efetivamente, muitas pessoas têm jeito para desenhar, mas seguramente desenhariam melhor se tivessem formação específica neste âmbito. Tal como todos conseguimos correr 100m, mas correremos mais depressa e melhor se treinarmos, pois conseguiremos desenvolver o potencial que temos a esse nível. Como para todas as atividades realizadas, é fundamental a vocação e a motivação para tal. No entanto, a formação adequada é essencial para o desenvolvimento das competências específicas para um melhor desempenho e produção nessa atividade. A produção em artes visuais não é exceção, sendo muito importante uma formação adequada neste domínio para definir um artista. Nota: Algumas das reflexões apresentadas neste artigo encontram-se no livro 'Construção de um percurso multidisciplinar, integrativo e de síntese nas Artes Visuais', de Saul Neves de Jesus (snjesus@ualg.pt).
“ALGARVE PELO CALEIDOSCÓPIO” 14 OUT | 18.00 | Igreja Matriz de Alcantarilha Concerto pela Orquestra Clássica do Sul integra a 7.ª sessão do ciclo de divulgação artística das tradições que fazem parte da História, vida e imaginário do Algarve
Cultura.Sul
14.10.2016
7
Espaço ALFA
Fotografia, arte e criatividade
Vítor Azevedo Membro da Alfa
O que é arte, o que é criatividade? Arte - atividade que tem características criativas e estéticas. Criatividade - capacidade de criar. Estas são duas definições muito sintéticas, que quase se fundem, escolhidas de entre milhares de definições e conceitos que têm alimentado e continuarão a alimentar discussões à volta do tema. Estas são opiniões de alguns fotógrafos: “A criatividade é apenas um momento em que olhamos para o ordinário mas vemos o extraordinário”, Dewitt Jones; “Uma vez enquadrada, qualquer coisa pode dar uma boa fotografia”, Cristophe Gilbert; “Quero evocar o que está fora do quadro quero evocar um nexo do caos”,
Gerard Castello Lopes; “Naquela fração de segundo o seu olho deve captar uma composição ou uma expressão e você deve seguir a sua intuição e fazer a fotografia. É nesse momento que o fotógrafo é criativo. É o instante!
Se você o perder, é para sempre”, Henri Cartier-Bresson". O objetivo da ALFA é o de contribuir, através de formação, tertúlias, exposições, palestras, desafios, partilha e convívio entre fotógrafos, para fazer com que os
seus associados desenvolvam aptidões criativas a nível fotográfico, passando do simples carregar no obturador em modo automático para um trabalho pessoal em que o fotógrafo domina a técnica e a “máquina”, fazendo
dela o que ele quer e não o inverso. Esse é um passo essencial para que a capacidade criativa do fotógrafo aumente, passando o seu trabalho a refletir as suas escolhas, o seu próprio olhar, a sua capacidade artística e
criativa. A ALFA quer contribuir, desafiando a criatividade dos seus associados e divulgando os seus trabalhos, para o engrandecimento e divulgação da arte fotográfica.
Álvaro de Campos consegue-o através da cartografia da sua infância “onde coisas e espaços se dispõem segundo uma topologia própria que permite sonhar. (...) O mapa da infância torna possível jogos de devir-outro”. É a este processo que assistimos ao longo de toda a Ode Marítima: “E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!/Componde fora de mim a minha vida interior! (...) E começo a sonhar,/ começo a envolver-me do sonho das águas,/Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh’alma”. Contudo, apesar dos mergulhos vitalizantes nas memórias de infância, é um timbre de fracasso e desalento que se sente predominar: “Voz de sereia longínqua chorando, chamando,/Vem do fundo do Longe, do fundo do Mar, da alma dos Abismos,/E à tona dele, como algas, bóiam meus sonhos desfeitos...” Relevamos que a ambição de Álvaro de Campos consistiu em “sentir tudo de todas as maneiras” e o tudo inclui tanto as sensações positivas como as negativas. Aliás, esta distinção deixa de fazer
sentido para aquele que se abre a tudo sentir sem nada julgar: “Sou imparcial como a neve./ Nunca preferi o pobre ao rico,/ Como, em mim, nunca preferi nada a nada”. Encontramos também em Pessoa ortónimo alguns fragmentos esclarecedores: “Todas as sensações são boas, logo que não se tente reduzi-las à acção. Um acto é uma sensação que se deita fora./Age para dentro, colhendo só com as mãos do espírito as flores na margem da vida”. Ou: “Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção”. Álvaro de Campos é o herói que permanece fiel à musa da equanimidade, mesmo nas circunstância mais adversas. Não se protege, não se preserva, numa fidelidade absoluta às sensações, como podemos apreciar no magistral poema Tabacaria: “Estou hoje dividido entre a lealdade que devo/À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora/E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”.
Filosofia dia-a-dia
O Sonho de Álvaro de Campos
Maria João Neves Ph.D Consultora Filosófica
Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Álvaro de Campos Álvaro de Campos nasceu em Tavira, a 15 de Outubro de 1890, à uma e meia da tarde, de acordo com a sua carta astrológica. Se alguma dúvida restava, o poema Notas sobre Tavira dissipa-as de uma vez por todas: “cheguei finalmente à vila da minha infância”. Tavira celebra agora, durante os meses de Outubro e Novembro, o aniversário deste heterónimo que aqui regressou aos 41 anos de idade trazendo “o meu tédio e a minha falência fisicamente no
pesar-me mais a mala...”, e que só encontra algum conforto quando constata que “esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira”, pois, “estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é nada”. Apenas a estranheza e a desidentificação - o não ser - conferem a total liberdade para sonhar. Álvaro de Campos surge “impetuosamente” com a Ode Triunfal que Pessoa enviou a Mário de Sá Carneiro em Junho de 1914, afirmando ter sido escrita “num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda”. Publicado no número inaugural da revista Orpheu, percebe-se imediatamente o caráter irreconciliável do poema com a obra do mestre Alberto Caeiro, heterónimo originário, de que tanto Ricardo Reis como o próprio Álvaro de Campos se consideram discípulos. A Ode Triunfal faz jus às aspirações futuristas e aos estudos de engenharia constituintes da biografia do seu autor: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/Ser completo como uma máquina!/ Poder ir na vida triunfante como
d.r.
um automóvel último-modelo!/ Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto/Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento/A todos os perfumes de óleos e calores e carvões/Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!”
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. Álvaro de Campos Filho desta cidade onde o rio e o mar se encontram: “todo este
tempo não tirei os olhos do meu sonho longínquo/Da minha casa ao pé do rio/Da minha infância ao pé do rio/Das janelas do meu quarto dando para o rio de noite/E a paz do luar esparso nas águas!”, as impressões da infância permeiam toda a sua obra poética. É ao ser tomado pelo “delírio das coisas marítimas” que José Gil, no seu livro Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa, considera que o engenheiro de Glasgow responde à fundamental questão Deleuziana de como construir o plano da imanência.
8
14.10.2016
Cultura.Sul
Sala Leitura
Da arquitectura dos dias, segundo Sophia À Teresa O mais importante não é a arquitectura, mas a vida.
Oscar Niemeyer
Paulo Pires
Programador cultural no Município de Loulé http://escrytos.blogspot.pt
Depois de aos doze anos se deslumbrar com Homero e a luz mediterrânica, com a nostalgia do “divino como convém ao real”, Sophia de Mello Breyner descobriu em 1961, no Algarve, o fascínio dos dias quentes, onde o sol pesado cai a direito e a luz é leve, como escreveria mesmo sobre Lagos, em jeito de arte poética. Para muitos – inclusive para a mãe de Sophia, que ficou horrorizada quando soube da vinda da família para terras meridionais – o Algarve ainda era visto na época como uma espécie de Marrocos, uma região isolada, estranha e inóspita onde não haveria electricidade nem comida. Na altura existia apenas uma pensão e três casas na praia da Dona Ana, em Lagos. Uma delas pertencia a uma prima de Sophia, que não ia lá e que acabou alugando-lhe o espaço. Depois da aventura inicial de passarem dois dias a matar bichos, Sophia, o marido Francisco de Sousa Tavares e os cinco filhos renderam-se ao contraste entre a terra seca e desflorida, a arquitectura branca, geométrica e concreta, e o mar barroco cheio de todas as cores (como a poetisa confessava, deslumbrada, numa carta a Jorge de Sena em 1961), passando aí sucessivos verões durante dez anos, e mais tarde na Meia-Praia, também em Lagos. Para Sophia o Algarve era esse deslumbrado oásis onde era possível encontrar uma relação justa e primordial com a pedra e, assim, com o homem, uma religação baseada num espírito de verdade (feito de atenção, sequência e rigor) que a escritora nascida no Porto perseguiu na vida e na arte. Não por acaso, num poema maior intitulado “Casa térrea”, escrito em 1974-75 (inserido na obra O Nome das Coisas), Sophia fala da importância de a arte não se tornar para o homem uma compensação daquilo que ele não soube ser. Em vez de refúgio ou transferência, a arte
fotos: d.r.
deve ser a verdade do seu inteiro estar terrestre. Só assim o homem poderá construir a casa térrea, a partir do fundamento, onde a arquitectura tem a clareza nua de um projecto. A imagem da casa é, aliás, recorrente na sua produção poética, ora como lugar incorruptível e primordial dotado de sacralidade, habitado “não só por homens e por vivos / mas também pelos mortos e por deuses”, ora como catarse para a loucura derivada da ausência do outro, ora como símbolo de renascimento e de uma redenção que está inscrita nas suas linhas “onde nenhuma coisa se perdeu”, ora ainda como metáfora de uma acalentada revolução que passa também pela arquitectura, pela forma como o homem ergue e zela pela sua habitação (a casa limpa, o chão varrido, a porta aberta), como se lê num poema escrito dois dias após o 25 de Abril de 1974. Num discurso proferido em Julho de 1964, Sophia de Mello Breyner revisitava a imagem da casa como a sua mais antiga recordação, com um quarto em frente do mar onde havia uma mesa com uma maçã enorme e vermelha em cima (cenário esse mais tarde revisitado em filme). Essa visão era para ela sinónimo maior de uma “felicidade irrecusável, nua e inteira”, onde se descobria a própria presença do real, e ancorava-se numa memória afectiva e simbolicamente muito cara à poetisa, a casa na Praia da Granja (Vila Nova de Gaia), onde viveu a sua
Sophia de Mello Breyner pelo olhar de Eduardo Gageiro infância e adolescência. Foi nesse imaginário feito de uma aliança inaugural que parece remontar ao princípio do mundo, ao primeiro dia criado, que a escritora bebeu em muitos momentos do seu percurso literário, como no ilustrativo final do conto “A casa do mar” (1970): “Há na casa algo de rude e elementar que nenhuma riqueza mundana pode
corromper, e, apesar do seu halo de solidão e do seu isolamento na duna, a casa não é margem mas antes convergência, encontro, centro”. Também ao sul, na Praia da Dona Ana, Sophia encontrou uma casa onde podia dormir com a porta aberta e descobriu grutas roucas, roxas e doiradas –
A praia da Dona Ana, em Lagos, nos anos 60
À falta de frigorífico a solução passava por uma geleira e por um homem que vinha todos os dias, de carroça, trazer gelo. Sophia tinha o hábito de ir a Lagos a pé às compras ou então pedia à empregada para fazê-lo, tendo-se inspirado nesse ritual diário para escrever esse trecho lindíssimo de prosa poética a que chamaria “Caminho da Manhã”. Foi também aí que João César Monteiro filmou, no verão de 1968, uma tocante curta-metragem intitulada “Sophia de Mello Breyner Andresen”, com a qual se estreou na pele de realizador. Tal como apontou Bénard da Costa nas célebres Folhas da Cinemateca, César Monteiro teve a sensibilidade e inteligência de evitar o filme-entrevista, dando assim à voz de Sophia a posição de protagonista-narradora, pondo-a até a recitar de vez em quando, não obstante os seus constrangimentos em ser filmada. O resultado foi um documentário belo porque singelo, que percorre os seus versos, a intimidade familiar, a cumplicidade com os filhos (o barco com toda a família lá dentro, o prazer dos banhos, as leituras em casa ao filho mais novo, Xavier) as rochas, as grutas, os dias (da terra e) do mar. Maria Andresen de Sousa, filha mais velha de Sophia, descreveria assim a inusitada chegada de João César Monteiro a Lagos:
eram salas de água onde os seus dedos tocavam a areia rosada do fundo – onde se ia de barco a remos, sem barulho, sem cheiro a gasolina, onde desejou “poisar como uma rosa sobre o mar o [seu] amor [nesse] silêncio” e “chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras” (“As Grutas”, in Livro Sexto, 1962). Aí nadou na gruta do leão, na “sala”, na “porta do sol” e na “Balança”, rodeada pelos filhos e guiada por um pescador, de seu nome José Afonso Muchacho, que mergulhava para trazer do fundo ouriços, pedras e búzios, que lhes ensinava os nomes dos peixes e a nadar debaixo de água, e que contava fabulosas histórias de pesca. Em Agosto de 1962, numa carta a Jorge de Sena, Sophia lembrava mesmo, que nem menina do mar, que, apesar de os filhos tomarem cinco horas de banho de mar, era ela quem continuava a nadar mais depressa.
O João apareceu no Algarve em fins da década de sessenta. Estávamos na Praia. O Miguel [Sousa Tavares] veio a correr dos lados da praia pequena: “Está ali um homem muito magro que diz que vem fazer um filme sobre a Mãe”. Estava de pé, à borda da água, junto aos barcos que naquele tempo faziam os passeios a remos às grutas. Olho uma fotografia da época. Ele está vestido com uma t-shirt e uns jeans, tem as pernas dentro de água até aos joelhos, tem uma cigarrilha na boca e outra, acesa, entre os dedos da mão direita. Vê-se uma intenção provocatória um pouco histriónica, para o que contribuem a excessiva magreza, o nariz adunco, nobilíssimo, a bastante bela colocação do corpo. Parece ter vindo dos lados do mar.
Nessa casa de Lagos apenas havia um fogareiro e um fogão de dois bicos. Um depósito no telhado em que a água ficava morna fazia as vezes de esquentador.
No filme temos o privilégio de surpreender Sophia a deslizar no barco com os filhos junto às “mitológicas” grutas da Ponta da Piedade, enquanto César Monteiro
Cultura.Sul
14.10.2016
9
Sala Leitura informal de arquitectura (ou de manifesto em favor de uma estética do belo) publicado em Janeiro de 1963, no n.º21 do mesmo órgão informativo, ao qual chamou “Pelo negro da terra e pelo branco do muro”. Partindo da ideia de que a beleza é, no fundo, uma necessidade e constitui um princípio de educação e de alegria (“uma casa para todos e beleza para todos”), Sophia põe a tónica na responsabilidade ética, na consciência cultural e na sensibilidade do homem em relação à beleza que tem o dever de criar, a qual se materializa na arquitectura.
ia numa embarcação ao lado a filmar. Miguel Sousa Tavares recorda que ele estava todo vestido, com um panamá, e que para fazê-los rir atirou-se à água, esquecendo-se que não sabia nadar. Foi o dedicado barqueiro José Afonso que o salvou do afogamento, tendo Sophia achado o episódio engraçadíssimo. A par deste outro Algarve onde encontrou “uma nova forma do visível sem memória / clara como a cal concreta como cal”, é neste período que Sophia de Mello Breyner descobre, in loco, a felicidade grega, numa viagem aí realizada em Setembro de 1963, de carocha, acompanhada de Agustina Bessa-Luís. Francisco de Sousa Tavares ficaria em Portugal mas ao passar por Verona, em Itália, Sophia tocou no túmulo de Julieta com a sua aliança e escreveu no degrau de pedra SF, as iniciais de Sophia e Francisco. Confessaria até numa carta da época: “Custa-me todas estas coisas sem o Francisco. Espero não voltar a viajar sem ele”. Na Grécia os olhos de Sophia encontrariam um admirável mundo novo, no qual, segundo ela, já não ousava acreditar e que agora tinha “o espanto de o saber real e não imaginado”, como confidenciou a Jorge de Sena numa outra epístola. Em chão helénico, lavada de feridas, deparou-se com o mistério à luz do sol, um lugar desde sempre pressentido de onde ressaltava a profunda religação entre a arquitectura e a natureza, simultaneamente racional e misteriosa, profundamente íntima, e a relação inteira entre o homem e as coisas. Ali identificou o local da sua própria poesia, da “felicidade do mundo objectivo”, onde se embriagaria de claridade, solenidade, lucidez, religiosidade e até, logo na primeira noite da chegada, do inebriante sabor do vinho com resina. Mas estas experiências deslumbradas também acordaram na autora de No Tempo Dividido uma consciência mais aguda dos perigos do “balofo oco da degradação”, da falsificação, avidez, ganância e cobiça materiais, como sublinhava numa entrevista a José Carlos de Vasconcelos em 1991 ou, já anteriormente, numa outra carta ao amigo e poeta Jorge de Sena, datada de 19 de Novembro de 1969: “Tomámos há muitos séculos um caminho errado e não creio que levar o erro mais longe seja uma forma de progresso”. Sophia insiste em vários
Sophia de Mello Breyner por Fernando Lemos (anos 50) momentos na tese de uma civilização errada, em que o pensamento se desligou da mão, em que prevalece o confuso, o disforme, a ocultação – como no poema “Lagos I”, de 20 de Abril de 1974, ou em “Habitação”, inserido na obra Ilhas, de 1989: “Isto depois foi saqueado / Tudo foi reordenado e dividido / Caminhamos no trilho / De elaboradas percas”. No poema “Lagos II”, escrito nos anos de 1974-75, Sophia, nostálgica e interrogativa, fala de um país linear e transparente, “desde sempre esperado e prometido”, que aquela cidade algarvia encarnou para si quando a descobriu nos inícios da década de sessenta, e alerta para o perigo de os ideais de Abril (esse dia inicial, inteiro e limpo) e da integridade dessa Lagos lúcida e lisa, “meticulosamente limpa, cheia de gente honesta”, se perderem que nem lembranças efémeras de um verão ido. Constata, tal como já o fizera na “Arte Poética I” (in Geografia, 1967), que vive num mundo onde a aliança entre as coisas foi quebrada, onde não há religação, um mundo que até pode ser um habitat mas que não é um reino (distinção fundamental para si), pois “o reino agora é
só aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece”. Um reino dividido, que está longe das praias de mar verde, do azul suspenso do céu, da pureza da cal, da pequena pedra polida ou do perfume do orégão. Daí que, para Sophia de Mello Breyner, o ofício de poeta seja o contributo incessante, a partir da página em branco, para a reconstrução do mundo, para a reabilitação de uma forma justa de erigir a cidade humana ideal (“A forma justa”, in O Nome das Coisas, 1977), como tanto preconizou.
Niemeyer diria, a este propósito, que a vida pode realmente mudar a arquitectura, pois no dia em que o mundo for mais justo aquela será mais simples. Em Agosto de 1962 Sophia começou a colaborar com o jornal Távola Redonda, dirigido por D.ª Gabriela Castelo Branco e fundado um ano antes. Em carta a Jorge de Sena diria que, não obstante considerá-lo um pastelão, tinha esperança em fazer do dito jornal o que ela idealizava. É neste contexto que redige uma espécie de tratado
A visão dominante é desencantada e pessimista, afirmando-se mesmo “que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e – ai de nós! – para durar”. Atenta aos sinais do mundo e dotada de uma lucidez visionária, Sophia põe o dedo na ferida criticando um novo-riquismo exibicionista e insensível, sem pureza nem dignidade. E sublinhava que os problemas da arquitectura portuguesa da época estavam ligados à falta de humanidade, de bom senso e de bom gosto, coisas que, segundo a mesma, o dinheiro não compraria. O caso algarvio também não é esquecido, não estivesse a poetisa tão deslumbrada pela região. Perante as várias movimentações já então existentes visando um maior desenvolvimento turístico do Algarve e as inúmeras pressões imobiliárias no sentido de um incremento da construção na região (com as consequências posteriores sobejamente conhecidas ao nível do planeamento e ordenamento do território e da preservação do edificado e da paisagem), Sophia de Mello Breyner sobrepõe uma condição essencial:
Antiga Praça S. Sebastião, Rua Porta de Portugal e mercados da fruta e do peixe em Lagos (primeiros anos do séc. XX, após 1904)
“é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo”. E não obstante achar que o Algarve preenche todos os requisitos para o surgimento de uma boa arquitectura (paisagem, luz, técnicas tradicionais associadas ao barro e à cal, materiais, tradições populares, tendências geométricas, clima, cultura, etc.), a poetisa apontava já então sete perigos, ou pecados capitais, que ameaçavam claramente a identidade e integridade do sul (e não só): incompetência, saloísmo, especulação com os terrenos, maus arquitectos, falso tradicionalismo, mania do luxo e da pompa, e obras de fachada. Se a arte é para Sophia a expressão duma relação do homem com o mundo envolvente, a arquitectura – como arte simultaneamente mais abstracta e mais conectada à vida – deverá constituir, nessa linha de pensamento, o reflexo de uma ligação justa com a paisagem e com o universo social. No fundo, o discurso da escritora assenta na tese clássica da arquitectura como procura do verdadeiro (do certo, exacto), do belo (do agradável aos olhos) e do justo (da ética inerente quer à mistura/ relação entre as coisas, quer ao conjunto final). A arquitectura emerge assim como uma ciência moral, mas não moralista, feita de quantidades belas e quantidades morais, sendo que a dificuldade maior (do arquitecto bem como de qualquer outro artista, inclusive do poeta) será a de atribuir adjectivos fortes a não-qualidades, como sejam as quantidades. A rematar o seu interventivo artigo, Sophia de Mello Breyner acentuava a ideia de que é preciso, acima de tudo, evitar a falta de amor: “Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura”. Ao ler esta frase recordo o poeta René Char, que aconselhava a que não nos curvássemos senão para amar. Talvez por isso me cative tanto a visão de Gonçalo M. Tavares, que considera que o desafio maior do arquitecto consistirá sobretudo em medir o espaço e em tirar-lhe o medo, de modo a que o resultado final seja um lugar sobre o qual homens e mulheres digam entre si, alto: “Lá dentro curvo-me apenas por amor”. E se tal ocorrer, é porque o arquitecto, além de ter feito obra, construiu um fragmento do discurso amoroso.
10 14.10.2016
Cultura.Sul
Espaço ao Património
Sobre a chaminé típica algarvia
Abel M. J. Silva
Engenheiro civil Chamineiro autodidacta
Como todos sabemos, o património arquitectónico algarvio é bastante pobre, especialmente quando comparado com outras regiões do País, nomeadamente o Norte ou a própria capital. Esse facto, no meu ponto de vista, teve várias causas, desde as catástrofes naturais (lembro que o Algarve é a zona de maior ocorrência sísmica de Portugal) até às catástrofes provocadas pelo homem, a começar pelas invasões dos bárbaros do Norte (vulgo Cristãos), no princípio do milénio passado e culminando nas invasões dos bárbaros do Norte (vulgo Patos Bravos), no final desse milénio, passando, entretanto, pelo isolamento a que o Algarve foi votado durante séculos. Mas, se ainda resistem alguns belos exemplares de arquitectura militar ou religiosa, a parte mais representativa do património edificado no Algarve é de raiz profundamente popular, podendo até ser considerada como uma forma importante de artesanato.
Embora a sua distribuição não seja uniforme ao longo da Região, a sua ocorrência é um bom exemplo demonstrativo das capacidades da Arte popular, já que não conheço qualquer escola onde se ensinassem essas artes. Entre os elementos que podem definir esse artesanato patrimonial quero realçar a chaminé, talvez o elemento mais característico e que, juntamente com as amendoeiras em flor, de boa memória, e as praias, ainda constituem ex-libris do Algarve, o que levou, em tempos, a própria Região de Turismo do Algarve a escolher a chaminé algarvia para seu símbolo. Deixo a outros técnicos, mais capacitados que eu, a análise histórica, estilística ou sociológica dessas peças, já que esta minha pequena resenha tem como único objectivo o lançamento de um grito de alerta, especialmente às Câmaras Municipais e aos técnicos ligados ao Património, para o progressivo desaparecimento desse elementos arquitectónicos, substituídos, nas construções mais recentes e em recuperações de outras mais antigas, por chaminés pré-fabricadas, feitas de betão e vendidas por grosso em fabriquetas de beira de estrada. Assim, na tentativa de preservar, pelo menos em fotografia, as chaminés típicas
Chaminé existente na localidade de Purgatório
Ficha Técnica:
fotos: abel m. j. silva
Chaminé demolida que se encontrava no Sítio dos Caliços, em Loulé, no local onde está a ser construído o IKEA algarvias, iniciei, há cerca de 18 anos, uma recolha fotográfica, a que se seguiu a localização geo-referenciada dos exemplares recolhidos. Desejo ainda ressalvar que todos os exemplos recolhidos se referem a chaminés pertencentes a casas em ruínas, abandonadas, fechadas ou à venda sem possibilidades de recuperação, pois será muito difícil que uma casa antiga e em ruinas seja recuperada para habitação ou outra finalidade, com manutenção dos elementos ainda existentes como as chaminés. Assim, este artigo tem como objectivo principal lançar o alerta para a preservação desse património altamente valioso, como tudo o que não se pode substituir, pedindo às autarquias e outras entidades um esforço no sentido de evitar o seu desaparecimento, procedendo à sua recuperação física, ou, pelo menos, à sua preservação documental através da elaboração de um levantamento o mais exaustivo possível das chaminés em risco nas suas áreas, com pesquisa de datas de construção, construtores e proprietários originais, registo de características físicas e pormenores decorativos e outros elementos que os técnicos julguem dignos de registo.
Lembro ainda que, como boa peça de artesanato, qualquer chaminé é uma peça única, pois um artesão, mesmo que repita as suas peças, sempre altera os seus pormenores decorativos, pelo que a ruína de uma destas chaminés é uma perda insubstituível. Deverá ser também preservada a memória desses mestres pedreiros e artesãos que, quando lhes era pedida a execução de uma cha-
miné, faziam ao proprietário da casa a pergunta tradicional: “E quer uma chaminé de quantos dias?”. Alguns deles fizeram história e ainda hoje são recordados nas terras onde trabalharam. Gostaria, ainda, de assistir à criação no nosso Algarve de um Museu da Chaminé, onde pudessem ser mostrados exemplares originais dessas peças características e registos documentais e/ou fotográficos de outras que não fosse possível “salvar” fisicamente. E já agora, se esse trabalho de preservação documental for elaborado para as chaminés já em risco de desaparecimento, acho que não custaria muito alargá-lo às chaminés ainda em perfeito estado e existentes em casas normalmente habitadas, pois nada nos pode garantir que num prazo mais ou menos curto, com o abandono das actividades agrícolas e o avanço do betão, elas não venham igualmente a entrar na lista de espécies em vias de extinção. Como nota final, queria apenas informar que alguns exemplares referenciados na fase de pesquisa não chegaram a ser documentados fotograficamente por, entretanto, terem sido demolidos ou terem sido mesmo oficialmente extintos, como aquela chaminé que representava a Região de Turismo do Algarve.
Direcção: GORDA Associação Sócio-Cultural Editor: Ricardo Claro Paginação e gestão de conteúdos: Postal do Algarve Responsáveis pelas secções: • Artes visuais: Saul de Jesus • Da minha biblioteca: Adriana Nogueira • Espaço AGECAL: Jorge Queiroz • Espaço ALFA: Raúl Grade Coelho • Espaço ao Património: Isabel Soares • Filosofia dia-a-dia: Maria João Neves • Grande ecrã: Cineclube de Faro Cineclube de Tavira • Juventude, artes e ideias: Jady Batista • Letras e literatura: Paulo Serra • Missão Cultura: Direcção Regional de Cultura do Algarve • O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N: Pedro Jubilot • Panorâmica: Ricardo Claro • Sala de leitura: Paulo Pires • Um olhar sobre o património: Alexandre Ferreira Colaboradores desta edição: Abel M. J. Silva Cátia Barracosa Vítor Azevedo Parceiros: Direcção Regional de Cultura do Algarve, FNAC Forum Algarve e-mail redacção: geralcultura.sul@gmail.com e-mail publicidade: anabelag.postal@gmail.com on-line em: www.postal.pt e-paper em: www.issuu.com/postaldoalgarve
facebook: Cultura.Sul Tiragem: 7.705 exemplares
Chaminé em São Bartolomeu de Messines
14.10.2016 11
Cultura.Sul
Da minha biblioteca
Frederico Lourenço e a sua leitura da Bíblia fotos: d.r.
Adriana Nogueira Classicista Professora da Universidade do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Frederico Lourenço é, provavelmente, o classicista com mais visibilidade da atualidade. Se antes o nome que imperava era o de Maria Helena da Rocha Pereira, hoje é o de Frederico Lourenço que marca o mundo dos estudos do Grego Antigo, em Portugal, um lugar que, muito justamente, este professor da Universidade de Coimbra conquistou com as suas traduções da Odisseia e da Ilíada, de Homero. Além disso, o seu trabalho constante, quer como investigador, quer como escritor (é autor de vários romances e livros de poesia), tem-no levado às páginas de jornais e a programas de televisão. Mas nunca, como agora, lemos ou ouvimos tanto falar do seu nome na comunicação social e nas redes sociais (onde participa ativamente), devido ao seu último grande projeto, que não deixa ninguém – com ou sem credo – indiferente: a tradução da Bíblia Grega para português, publicada pela Quetzal no mês passado.
Num dos capítulos iniciais, Frederico Lourenço explica algumas das decisões que teve de tomar e que se diferenciam das traduções tradicionais. Pessoalmente, gostei e concordei com as explicações que nos dá: optou por traduzir o grego huiós tou anthrôpou por «Filho da Humanidade» («O Filho da Humanidade enviará os seus anjos», Mt 13: 41) e não por «Filho do Homem», «porque [Jesus] não é filho de nenhum homem: é filho de Deus e de um ser humano do sexo feminino, Maria» (p.45); também optou por deixar a palavra hebraica «amém» sempre que ela esteja no texto («Amém vos digo…»), em vez do tradicional «Em verdade vos digo…», permitindo que o leitor se aperceba da presença (insistente em João) ou ausência (nos restantes evangelistas) da palavra «verdade» (alêtheia), e também porque «a maior parte dos comentadores a identifica como traço distintivo autêntico da fala real do Jesus histórico. Convém, pois, por todas as razões, que ouçamos “amém” na boca de Jesus» (p. 45). Relativamente à escrita de «espírito santo» sem maiúscula inicial, justifica-a por isso ser «um artificialismo desprovido de justificação, dado que os evangelistas só conheciam um único sistema de escrita, sem qualquer distinção entre maiúsculas e mi-
Frederico Lourenço lançou 1º volume da tradução da Bíblia Grega núsculas» (p.47). Texto literário, texto religioso Estas decisões são consentâneas com a filosofia do projeto: «Acima de tudo, trata-se de dar a conhecer o texto bíblico num formato que, tanto no que toca à tradução como aos comentários, privilegia de forma não doutrinária, não-confessional e não apologética a compreensão do texto grego. É uma tradução que pretende ajudar as leitoras e os leitores a descobrirem a extraordinária riqueza das próprias
Bíblia Grega – Bíblia dos Setenta – Septuaginta
AGENDAR
Pelo que vários manuscritos atestam, no século III a.C., 72 sábios judeus (ficando conhecidos como os Setenta) verteram o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento e que correspondem ao que no judaísmo se chama Torá) para grego. Com o passar dos séculos, seguiram-se os outros livros da Bíblia Hebraica, aos quais se juntaram ainda alguns de que apenas conhecemos a versão em grego. No total, Frederico Lourenço vai traduzir os 53 livros do Antigo Testamento grego (o cânone católico reconhece 46) e os 27 do Novo Testamento.
Escritor apresenta a sua leitura pessoal da Bíblia “O VIRAR DA PÁGINA” Até 24 NOV | Convento do Espírito Santo - Loulé O conjunto de 20 fotografias e um vídeo, de José Sarmento Matos, relatam experiências dramáticas de pessoas que sofreram crimes violentos
palavras que constituem o texto bíblico, palavras essas que – sobretudo no caso do Novo Testamento – têm por vezes sentidos bem diferentes daqueles que se convencionou considerar obrigatórios nas traduções pensadas para serem lidas em contexto eclesiástico cristão» (p. 18). Frederico Lourenço realça ainda a vantagem de uma leitura que «privilegia, sem a interferência de pressupostos religiosos, a materialidade histórico-linguística do texto», com todos os problemas e dificuldades daí decorrentes. Estes Evangelhos, tal como os da Bíblia dos Franciscanos Capuchinhos (católica, publicada pela Difusora Bíblica) estão acompanhados de notas de rodapé que contextualizam os diversos passos (fazendo referência a outros, do Antigo e do Novo Testamento, por exemplo, que a estes se podem ligar). Há alguns comentários culturais (por exemplo, na nota a Lc 1:15, onde se remete para o livro dos Números e para o Levítico, explica-se o que significa a palavra grega síkera, ali traduzida como «bebida intoxicante», dizendo que se trata «de uma bebida alcoólica feita a partir de cereais ou tâmaras, adocicada com mel»); há outros de natureza histórica (por exemplo, na nota a Lc 3:1 apresenta algumas questões que se levantam sobre a cronologia do nascimento e morte de Jesus); e muitas outras,
mais específicas de gramática e de exegese bíblica, onde se nota a diferença de perspetiva entre estas duas edições: por exemplo, em Lc 1:29, a Difusora Bíblica (na edição de 2002, a mesma que consta na Bibliografia da Quetzal) escreve na nota, a propósito do versículo «Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria a si própria o que significava tal saudação»: «Maria perturbou-se. Lc não apresenta Maria dominada pelo medo, mas sim a reflectir sobre o mistério da mensagem revelada e a interrogar-se sobre o sentido da sua vocação», interpretando e explicando, do ponto de vista religioso, o estado de espírito de Maria; já Frederico Lourenço regista: «“Ela perturbou-se com estas palavras e interrogava-se que forma de saudação seria aquela”: repare-se no cuidado na redação desta frase, com o uso (raríssimo no NT) do optativo oblíquo na interrogação indireta, assim como as subtilezas resultantes do emprego do aoristo (“perturbou-se”) e do imperfeito (“interrogava-se”)», sem retirar qualquer tipo de ilação. Este tipo de explicações ajudam o leitor não conhecedor da língua grega (ou mesmo aquele que a conhece, mas que não tem o grego ao lado, para cotejar) a entender o texto na sua literalidade, podendo, a partir daí, tirar as suas pró-
prias conclusões. O Livro Aberto: leituras da Bíblia Para quem se quiser aproximar das questões que uma tradução destas levanta, poderá começar por este O Livro Aberto: leituras da Bíblia, que Frederico Lourenço publicou há, precisamente, um ano (outubro de 2015), nas Edições Cotovia. Aqui, em capítulos com menos de meia-dúzia de páginas, podemos ler algumas das suas reflexões sobre passos da Bíblia, num linguagem coloquial, solta, com bastante humor e muita ironia, não deixando de tratar os temas com seriedade, como o faz, pleno de humanidade, no cap. 9. «O escravo e a sombra» (pp. 55-58): a propósito de um passo de Job 7:1-2 («Como um escravo suspira pela sombra, e o jornaleiro pelo seu salário…», Frederico Lourenço exclama: «Que mundo de dor está contido na expressão “como um escravo suspira pela sombra”!». E termina: «A única coisa por que ele pode suspirar – essa coisa gratuita para todos menos ele, mas que mesmo assim lhe é sonegada – é a sombra. A sombra». Leituras sublimes.
“RETROSPETIVA” Até 31 DEZ | Museu Municipal Dr. José Formosinho - Lagos Portugal (nomeadamente Algarve onde vive o artista), Japão, China, Islândia, são alguns destinos que Alexandre visitou no quadro de projectos fotográficos
Última O(s) Sentido(s) da Vida a 37º N
Outubro
Pedro Jubilot
pedromalves2014@hotmail.com canalsonora.blogs.sapo.pt
Outubro fotos: d.r.
Vai apagando os dias mais cedo, até lhe mudar a hora e atirar com as tardes tão cedo para dentro das noites. E esperam-nos mais horas de lassidão, recobro e de toda uma demorada atenção ao mundo. Dessas trevas que nos esperam, analisamos que luzes devemos acender, que fogueiras atear, que candeeiros alumiar, para nos orientarmos na ingrata tarefa que é guiarmo-nos pelas estradas, caminhos, passagens e outros atalhos nesta vida moderna.
vesse campos de desobediência à vida? Campos de transição, controlo e registo de acontecimentos humanos. Fronteiras civilizacionais. Viveiros humanos. Contudo, temos de ser bastante cautelosos nas nossas previsões. Saberíamos nós sobreviver com este cenário? Estaríamos de facto preparados para esta loucura? A vida perante o medo e o desconhecido é apenas um passo para outro mundo. A realidade esvaziando o ser humano e dando-lhe aptidão para se tornar um espírito maníaco.” Foi com esta reflexão que Fernando Esteves Pinto, coordenador do livro ‘Fronteiras Humanas (O Drama dos Refugiados)’ editado em Setembro pela editora Lua de Marfim, propôs esta colectânea, onde participam poetas, romancistas, historiadores, antropólogos, filósofos, sociólogos, escritores, artistas plásticos, cada um contribuído à sua maneira com diferentes tipos de textos em que exploram o tema através de diversos géneros literários. Nela participam Adília César, Amadeu Baptista, Fernando Martins, Fernando Pessanha, Luís Ene, Miguel Godinho, Miguel Real, Pedro Jubilot, Reinaldo Barros, Vítor Gil Cardeira e Adão Contreiras.
Pessoa também nasceu em Tavira
«A Musa/La Musa»
Poetas no Algarve agora
Sexta feira, 21 de outubro, na Biblioteca António Ramos Rosa, em Faro, a Prof. Drª Adriana Freire Nogueira apresentará o novo livro do escritor Fernando Pessanha. Editado pela editora CanalSonora sediada em Tavira, o conto «A Musa/La Musa» é bilingue (português/espanhol) e foi traduzido pelo poeta Uberto Stabile. Conta ainda com fotografias de Francisco Carvalho com a modelo Isabel Bartolomeu. Esta edição bilingue surge naturalmente dadas as ligações do autor a Espanha, onde tem apresentado vários dos seus trabalhos como historiador, compositor ou ficcionista. O autor e a editora estão ambos direccionados para diferentes géneros literários, línguas, geografias, o que motivou esta peculiar aventura.
Poesia a Sul 2016 - II Encontro internacional
Refugiados
“Cabe aos intelectuais acrescentar dignidade histórica a estes tempos de loucura e de tragédia humanitária. Os livros, carregados de ficção e poesia, esperança e verdade, escritos numa língua universal, servem também para punir a estupidez humana. Neste mundo de sofrimento e de miséria, se dermos livros a um iletrado e materiais de construção e ferramentas a um intelectual, o iletrado construirá um refúgio. Esta é a grande verdade. E se um dia deixasse de haver países e só hou-
O já tradicional encontro de comemoração do aniversário de Álvaro de Campos na sua terra natal, mais uma vez organizado pela associação Casa Álvaro de Campos – Tavira, realiza-se na sua sede localizada na rua da galeria, 9-C (ex-turismo), junto à igreja da Misericórdia. Com coordenação da Professora Doutora Teresa Rita Lopes, decorre a partir das 11h do dia 15 de Outubro. Paulo Moreira recitará alguns poemas de Álvaro de Campos e o programa inclui a passagem do filme ‘Mistérios de Lisboa’. Na noite de 14 outubro, sexta, pelas 21h30, no Clube de Tavira, Ricardo Raposo e Rita Rodrigues apresentam a encenação de ‘As Cartas Trocadas entre Ofélia e Pessoa’. Entretanto já patente na galeria da CAC tav encontra-se a exposição de pintura da artista Pulita com o título ‘O Desassossego de Fernando Pessoa’. Este encontro está incluído no evento ‘Festa de Anos de Álvaro de Campos 2016’, que faz parte da programação 365 Algarve.
Esta edição ficará também marcada por visitas diárias de poetas a escolas e lares do concelho e pela apresentação do Prémio Literário Escolar João Lúcio.
Num ano já considerado por muitos como especial para a poesia em Portugal, também na frenética cena literária algarvia continua o lançamento de muitos e bons livros. Este mês temos já «Humanidades» de Fernando Esteves Pinto pela editora Lua de Marfim; «(Em) Processo» de Marco Mangas, em edição do autor; de Gabriela Rocha Martins e também na Lua de Marfim, será apresentado no dia 29, no Velocité Café em Portimão, o novo livro desta autora com 60 poemas, que é dedicado a Maria Gabriela Llansol. Chama-se «A Crispação de um Toque A-fora o Ser (i ensaio derivante)». No dia 24 de Outubro será ainda lançado o livro que marca o regresso às edições do poeta olhanense António José Ventura, intitulado «O Tempo a Correr», este através da editora CanalSonora.
«Telegramas do Mediterrâneo» de Pedro Jubilot (canalsonora editora, 2016) – Telegrama º50 Málaga – Andaluzia – Espanha pablo picasso confessa que um pintor é um ser instável e as meninas de avignon dizem-se inseguras. que ele fez delas o que quis. e depois de dizer que continua a amá-las, deixa-as ficar penduradas aos olhos do mundo como marca exposta das suas conquistas pablo reforça que também não é forte. mas não pode ficar com medo ou nunca poderá ter prazer. ou que se não fosse ele, elas nunca passariam de anónimas criaturas sem rosto, sem cor, sem personalidade, sem nome, sem lugar... pablo terá ainda supostamente dito que um dia teriam um palácio, junto ao mar alborean, na esperança de que elas vivam para além dele quem não se engana !? pablo diria que…
Outubro De 21 a 30 de outubro celebra-se a poesia em vários locais da cidade de Olhão. A iniciativa organizada com o apoio de Camara Municipal, e comissariada pelo escritor Fernando Cabrita tem um variado e extenso conjunto de atividades, com exposições, feira de livro, filmes, conversas e debates, apresentações de livro, recitais e espectáculos de poesia e outras surpresas. O programa pode ser consultado nas páginas de internet ligadas ao município.
Começa a dar nas vistas através dos seus ventos intermitentes e do sol descaindo no horizonte. Damos por nós a lembrar que a rua já é menos o nosso habitat e que estamos mais recolhidos nas noites esfriando lentamente. Planeamos para o tempo que vem, o que se vai mostrando em atraso pela casa - os livros que vamos ler, os trabalhos por fazer, os amigos por trazer, os vinhos por abrir, a alma por organizar…