A morte

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A morte

Ana saiu do hospital faz sete dias. Eu ainda não passo de uma criança assustada sem saber no que acreditar além do sentimento sobrenatural que nutro por ela. Que alívio ter ela sobrevivido. Dizem que foi um milagre. Pouco ouço a respeito das razões que a teriam levado àquele ato. Levantei. É quase de manhã mas não há indício exceto talvez pelo eco do copo na pia e dos indecisos passos no corredor. Terá ela voltado às aulas, imagino. Provavelmente já tenha algum trabalho de tradução. Ouvi o meu nome. Saio e a escuridão torna-se mais vívida e suportável embora não menos densa, porque é aí que estamos, quando a realidade se destaca do pavor. As flores lentamente tornam-se visíveis, o aroma delas a atmosfera respirada. São as flores que ladeavam o caminho pelo qual passáramos naquele primeiro dia. Ela pergunta e eu respondo com um sorriso indulgente. Demorei? A mão toca meu ombro, suave, fria e branca, a não ser pelas veiazinhas azuis.


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