A crise do ensino jurídico.

Page 1

enfoque SérgIO RICARDO DO AMARAL GURGEL

A CRISE DO ENSINO JURÍDICO uito antes de ingressar na Faculdade de Direito, eu já havia me acostumado a ouvir os mais variados discursos de pesar sobre a situação do ensino no País. De todas as críticas, a mais frequente era aquela que atribuía toda a responsabilidade aos governos militares, desde o cup d´état de 1964, marcado pelos sucessivos atos institucionais. Segundo os seus opositores, a política instaurada visava ao desmantelamento dos movimentos estudantis por intermédio da proibição de certas agremiações, infiltração de agentes dos órgãos de repressão em sala de aula, além do famigerado sistema de créditos, que fragmentava o corpo universitário, dificultando ainda mais qualquer tipo de articulação considerada, na época, de ordem subversiva. Quando entramos nos anos 1980 do século anterior, nos tornamos expectadores da derrocada das obsoletas ditaduras instauradas no período da Guerra Fria, não somente na América, mas também no Leste Europeu. Na ocasião, não foram poucos os que imaginavam estar vivenciando uma nova era de prosperidade, à imagem e semelhança do movimento das Luzes, que abalou tronos e altares no século XVIII. As autocracias deveriam expiar todos os pecados de nossa época. Entretanto, não foi preciso muito tempo para que a realidade viesse à tona. Fomos aprendendo que não apenas as ditaduras têm a ignorância como aliada. A obscuridade favorece aos governos que colocam seus interesses acima dos seus súditos ou eleitores, independente da roupagem modernista de que possam se utilizar. Manter a maior parte do povo alheio à cultura significa proteger-se desde as mais suaves críticas até as mais sangrentas insurreições. E assim agiram aqueles que foram legitimados pelo sufrágio direto. O magistério foi deixando de ser uma opção para os que ainda buscavam uma melhoria nas condições de vida pelo estudo. Certa vez, durante uma aula em um curso pré-vestibular, o professor perguntou aos duzentos alunos presentes quais gostariam de atuar na área de educação, e ninguém se apresentou disposto a enfrentar essa sina, apesar de vários possuírem as virtudes indicadas para a área. Foi quando eu ouvi: “Seus filhos não terão professores”. Hoje, compreendo o significado dessa lição, ou seja, meus filhos ficarão nas mãos de professores despreparados. Tudo conspirou para que a profecia se materializasse. As políticas públicas sempre colocavam a questão da educação em último plano ou em lugar nenhum, como faz o atual Governo. Com o passar do tempo os salários foram se tornando cada vez mais aviltantes, sendo superados pelas ofertas do mercado para as atividades puramente braçais – aliás, diga-se de passagem, esse fato tornou-se o bullying mais doloroso criado pelos alunos contra os seus mestres. E como se não bastasse a ausência do mínimo para a sua subsistência, muitos professores são expostos à hostilidade de um alunado desprovido de regras básicas de educação, gerando

36

PRÁTICA JURÍDICA - ano XIV - nº 165 - dezembro/2015

frequentes conflitos que os retiram da sala de aula e os conduzem às salas de audiência dos tribunais. Por falar em tribunais, o ensino jurídico não ficou imune ao caos. As universidades não aboliram o sistema de créditos, pelo contrário, proliferaram, como forma de escamotear o preço final, entre outras estratégias inerentes ao mercado, e não para desmantelar o movimento estudantil, que sequer existe mais, salvo aqueles voltados para organizar eventos festivos, e essa é a prova mais contundente de que os planos para a América Latina durante os Anos de Chumbo, pelo menos nesse sentido, deram muito certo. Os vestibulares foram se tornando uma mera formalidade, principalmente para o ingresso na maioria das faculdades particulares, fazendo com que até os analfabetos passassem a sonhar em ser chamados de doutor. O que poderia ser mais grave? A crise econômica, que se aprofundou ainda mais com o projeto liberal dos anos 1990, fez com que uma massa de desempregados se aventurasse na busca de um cargo na Administração Pública. Ocorre que muitos editais exigem formação em Direito para o preenchimento das melhores vagas ou outros títulos dentro dessa área para uma melhor remuneração. E assim fomentou-se a indústria da titulação. Nesse clima, as Faculdades de Direito se espalharam por todos os cantos do território nacional, o que antes era quase restrito às universidades públicas, sendo que algumas ainda tiveram de sofrer intervenção federal em razão de inúmeros relatos divulgados pela imprensa sobre possível venda de diplomas. Lembro-me dos tempos de faculdade que raríssimos eram aqueles que almejavam o funcionalismo público. A maioria ainda pretendia se enveredar para a Advocacia, e assim o fizeram. Hoje, a situação é bem diferente. O concurso é a única opção e o curso de Direito acaba funcionando para muitos como um mal necessário. E esse contato do aluno com o mundo acadêmico, paralelamente ao ambiente dos cursos preparatórios, faz com que outros problemas de grande relevância fiquem tão expostos que até um leigo torna-se capaz de constatá-los. Os acadêmicos costumam tecer duras críticas aos cursos preparatórios, sob


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.