DO DESEMPREGO À POBREZA: TRAJECTÓRIAS DE EMPOBRECIMENTO, EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E POLÍTICAS PÚBLICAS.

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Do Desemprego à Pobreza: Trajectórias Experiências Vividas e Políticas Públicas

de

Empobrecimento,

Jorge Caleiras

RESUMO A comunicação apresenta alguns resultados, ainda provisórios, de uma investigação em curso, cujo objectivo passa por conhecer melhor o recente recrudescimento do desemprego em Portugal na sua relação com situações de pobreza. O ponto de partida assenta na ideia de que desemprego e pobreza são realidades distintas, que não se sobrepõem necessariamente. Porém, a verdade é que, especialmente durante a última década, os fenómenos parecem encontrar-se, tocar-se, cruzar-se. Questões essenciais parecem ser, assim, as de saber em que medida o desemprego pode tornar-se fonte de pobreza e como é que esta relação ocorre em concreto. Reconhecendo que o desemprego não pode ser visto como uma realidade social dissociada dos indivíduos, quer dizer, separada dos desempregados, assume-se que as consequências que o fenómeno gera estão, antes de mais, inscritas nas histórias pessoais, singulares e irredutíveis, daqueles que o experimentam. Nesse sentido, a preocupação central é a de conhecer a relação “a partir de dentro”, o que faz colocar os desempregados no centro da discussão. Assim, após uma breve análise estatística “clássica”, complementada com uma análise longitudinal de trajectórias de desempregados, avança-se para níveis de pormenorização, onde são atingidas expressões mais “finas” e individualizadas daquela relação. A conjugação de resultados obtida aponta no sentido de considerar que, embora de forma diferenciada, os efeitos gerados pelo desemprego, tanto no plano objectivo quanto no subjectivo, desencadeiam ou acentuam múltiplas manifestações de pobreza. Conclui-se, defendendo a necessidade de uma intervenção pública capaz de amortecer os efeitos mais insidiosos e corrosivos do desemprego.

Introdução A realidade do desemprego é incontornável nas sociedades contemporâneas. O desemprego a que me refiro é uma manifestação, muito visível, das transformações globais que têm ocorrido no mundo do trabalho, sobretudo nas últimas três décadas, à semelhança, aliás, da precariedade profissional, com consequências em vários domínios e escalas (Cf. Castel, 1995; Beck, 2000). Um estudo aprofundado, à escala do distrito de Coimbra, permitiu conhecer melhor a realidade do desemprego na sua relação com a pobreza e a exclusão social. O trabalho em torno da hipótese de que o desemprego é gerador de situações de risco de pobreza e exclusão social implicou o recurso à combinação de diversos procedimentos de pesquisa de natureza distinta, conciliando análise extensiva (quantitativa) com análise intensiva (qualitativa e participativa). Num primeiro momento, recorreu-se à abundante informação estatística produzida sobretudo pelo Instituto de Emprego e


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DO DESEMPREGO À POBREZA: TRAJECTÓRIAS DE EMPOBRECIMENTO, EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E POLÍTICAS PÚBLICAS. by Sónia Lima - Issuu