ANTÓNIO DAMAS MORA
UM MÉDICO PORTUGUÊS ENTRE OS TRÓPICOS
Luiz Damas Mora
A luta contra as doenças tropicais nas antigas colónias portuguesas é uma epopeia quase esquecida e é à geração que assistiu à derrocada do, então, denominado Império Português – geração a que o autor pertence – que compete não deixar cair no esquecimento total. António Damas Mora (1879-1949) foi um protagonista activo dessa luta, particularmente no combate à doença do sono na Ilha do Príncipe e em Angola, mas estendeu a sua “peregrinação” pelos territórios de Timor e Macau.
ANTÓNIO DAMAS MORA
BY THE
BOOK 9 789898 614544
Luiz Damas Mora BY THE
BOOK
LUIZ ALBERTO BARRETO DAMAS MORA Nasceu no Cadaval em 1936. Filho e neto de médicos, licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 1960. Médico militar em Angola entre 1961 e 1963. Fez toda a carreira cirúrgica dos Hospitais Civis de Lisboa (HCL), tendo-se aposentado como Director do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital do Desterro em 2006. • Presidente da Sociedade Médica dos HCL (2000-2002) • Presidente de Honra do XXIX Congresso da Sociedade Portuguesa de Cirurgia (SPC) (Estoril, 2009) • Presidente da Comissão do Património Cultural do Centro Hospitalar de Lisboa Central (2004- ) • Presidente do Capítulo da História da Cirurgia Portuguesa da SPC • Vários artigos publicados sobre História da Cirurgia • Autor do capítulo “História do Hospital do Desterro” publicado no livro Omnia Sanctorum (Ed. By the Book, 2012) • Coordenador da obra O “Espírito dos Hospitais Civis de Lisboa” (Ed. By the Book, 2013)
Aos mĂŠdicos da minha famĂlia.
À Luiza, minha mulher. Às minhas filhas Madalena e Manuela (“Nan”).
©Edição By the Book, Edições Especiais Título António Damas Mora – Um médico português entre os trópicos ©Texto Luiz Damas Mora Revisão Mafalda Souto Edição de Imagem Maria João de Moraes Palmeiro Design Forma, Design: Veronique Pipa | Margarida Oliveira Coordenação Editorial e Produção Ana de Albuquerque | Maria João de Paiva Brandão Impressão Real Base ISBN 978-989-8614-54-4 Depósito Legal 429654/17
B Y T HE
BOOK
Edições Especiais, lda Rua das Pedreiras, 16-4º 1400-271 Lisboa T. + F. (+351) 213 610 997 www.bythebook.pt
ÍNDICE 09
PREFÁCIO
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PALAVRAS PRÉVIAS
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OS ANOS DE “PEREGRINAÇÃO”
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OVE CARTAS DE ANTÓNIO DAMAS MORA N A RICARDO JORGE (1926-1933)
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RECORDAÇÕES PESSOAIS
113
BREVES APONTAMENTOS SOBRE OS MÉDICOS DA FAMÍLIA DAMAS MORA
117
AGRADECIMENTOS
118
BIBLIOGRAFIA
PREFÁCIO
ISABEL AMARAL
Ao aceitar este honroso convite feito por Luiz Damas Mora (sobrinho-neto do autor biografado), um médico que tive o privilégio de conhecer durante o 1º Congresso Luso-brasileiro de História da Medicina Tropical, realizado em Lisboa, em 2012, e por quem nutro uma grande admiração pessoal, imediatamente me deixei envolver pela simplicidade e orgulho com que procura traçar o percurso prosopográfico de uma das figuras marcantes da história da medicina tropical portuguesa, no século XX. Esta é uma obra que acompanha o percurso de dois médicos portugueses unidos por laços familiares desde o século XVII que entrelaçam uma narrativa humanista do exercício e da prática médicas, vivenciadas em ambientes diferenciados, que atravessam dois séculos de história. A prosopografia de António Damas Mora (1879-1949) acompanha as correntes historiográficas mais recentes, e inclui no âmbito da bibliografia primária a correspondência epistolar, que confere à obra, a apostilha de um trabalho valioso de investigação histórica. Esta contribuição permite fazer deste estudo prosopográfico, uma referência obrigatória para a história dos serviços de saúde da ilha do Príncipe, Macau, Timor e Angola; para a história da diplomacia portuguesa e do papel dos médicos no projeto de sanitarização dos trópicos, em suma, para a história da medicina tropical portuguesa, na primeira metade do século XX. A obra está organizada em quatro capítulos essenciais: num primeiro momento, o autor apresenta-nos as suas motivações para escrever esta prosopografia; segue-se o capítulo mais longo, onde reflecte sobre vida e obra do seu tio-avô; depois a reprodução das nove cartas escritas por António Damas Mora ao seu amigo Ricardo Jorge, entre 1926 e 1933; em seguida um capítulo breve de recordações pessoais, e termina com alguns apontamentos sobre os médicos da família Damas Mora. Pela lente de António Damas Mora percorremos o palco da sociedade portuguesa entre os últimos anos do século XIX e as primeiras décadas do século XX, num período conturbado da vida política nacional que atravessa a Monarquia constitucional, a 1ª República e o Estado Novo. Tempos difíceis estes, para o alinhamento português com os restantes países europeus,
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que se apoiariam na medicina como ferramenta do império [ 1 ], na corrida para África, ao serviço do imperialismo construtivo de Joseph Chamberlain (1836-1914) [ 2 ]. António Damas Mora é-nos apresentado como médico ao serviço do Estado durante o IIIº Império Colonial Português [ 3 ] que não só soube acompanhar os primeiros passos da emergência de uma nova área disciplinar, a medicina tropical [ 4 ], como também soube corporizar os ideais republicanos, na defesa dos direitos assistenciais da população indígena e da autonomização das províncias ultramarinas, da tutela e ingerência da metrópole. Irreverente e determinado, o autor prosopografado nasce e cresce num meio intelectual estimulante e inovador que consagra autores como MIGUEL Augusto BOMBARDA (1851-1910), José CURRY da Câmara CABRAL (18441920), José Joaquim da SILVA AMADO (1863-1928), RICARDO de Almeida JORGE (1858‑1939), Luiz da CÂMARA PESTANA (1863-1899), ANNIBAL de BETTENCOURT (1868‑1930), AYRES José KOPKE Correia Pinto (1866-1947), arautos de uma “nova” medicina assistencial de matriz experimental, que conferem à investigação laboratorial e de campo, um lugar prioritário na modernização do conhecimento e prática médicas de novecentos, que se refletem no século seguinte. A sua filiação Ricardina terá contribuído para a sua projecção no circuito internacional, em particular, na Sociedade das Nações (evidenciado pela leitura das nove cartas de António Damas Mora a Ricardo Jorge), ao mesmo tempo que o seu programa de sanitarização de África, apoiado pelo Governador-Geral de Angola, José Maria Mendes Ribeiro NORTON DE MATOS (1867-1955), ter-lhe-á permitido assumir as mais distintas posições militares, governativas e institucionais, tanto no Ultramar, como na metrópole. Neste contexto merece especial destaque a sua contribuição no Instituto de Medicina Tropical (IMT), onde terminou a sua carreira médica, num momento particularmente difícil para a consolidação da medicina tropical portuguesa, após o vazio deixado pelo período áureo protagonizado por Ayres Kopke, que [ 1 ] Chakrabarti, P., Medicine and Empire: 1600-1960, New York : Palgrave Macmillan, 2014. [ 2 ] Bennett B.; Hodge, J., Science and empire – knowledge and networks of science across the British empire (1800-1970), New York : Palgrave Macmillan, 2011, p.14. [ 3 ] Clarence-Smith, G., O III Império Português: 1825-1875, Lisboa : Teorema, 1990. [ 4 ] Worboys, M., “Germs, Malaria and the Invention of Mansonian Tropical Medicine: From ‘Diseases in the Tropics’ to ‘Tropical Diseases’, in: Warm Climates and Western Medicine: The emergence of tropical medicine, 1500-1900, ed. by David Arnold, Amsterdam: Rodopi, 1996, pp. 181-207. 10
não deixou escola, e que, ao que a correspondência epistolar deixa transparecer, também não terá facilitado o devido protagonismo ao biografado. A sua visão estratégica sustentada por um saber de experiência feito in loco, permitir-lhe-ia importar o seu “modelo” de gestão na escola metropolitana. Damas Mora foi nomeado para o cargo de diretor do IMT em 1936, tendo recebido de Rolla Bennet Hill (representante da Fundação Rockefeller na Península Ibérica, responsável pelo programa de erradicação da malária) o apoio determinante para a sua acreditação junto dos trocapitalistas portugueses, sugerindo, como veio a acontecer, a sua visita a Londres para troca de conhecimentos com os tropicalistas ingleses da London School of Tropical Medicine and Hygiene. Ainda assim, e, uma vez mais, Damas Mora não conseguiu terminar, como gostaria, a reforma da escola portuguesa de medicina tropical: o rigor das provas públicas dos professores; o apoio a uma investigação fundamentada num conhecimento prático do terreno das doenças tropicais e não apenas do laboratório na metrópole; a introdução de novas disciplinas curriculares que incluíssem domínios como a assistência médica aos indígenas; o incremento da participação dos investigadores em reuniões internacionais promovendo o intercâmbio e a discussão de estratégias de combate às endemias, de forma concertada; a publicitação da investigação e da assistência médica em publicações periódicas especializadas. Todos estes, ingredientes de um programa de investigação e de administração do IMT nos moldes europeus, transpostos dos modelos franceses, belgas e britânicos, com os quais Damas Mora conviveu enquanto esteve em terras de África. A pena de Luiz Damas Mora (n. 1936), procurando aqui e ali incluir testemunhos e vivências familiares reveste-se de grande importância para a preservação da memória de um tempo e de um espaço social, com a assinatura pessoal do seu tio-avô. E parafraseando Miguel Torga (1907-1995), “é preciso fazer um esforço contínuo para amar o presente. Viver pelo passado, pelo que se fez, pelo que se conseguiu, é o mesmo que alimentar uma fome premente com banquetes de outrora” [ 5 ]. Saibam as gerações futuras fazer memória da nossa identidade histórica, onde autores como António Damas Mora se incluem, apreciando vivamente esta obra que agora conhece a luz do dia.
[ 5 ] Miguel Torga, Diário, 1946. 11
PALAVRAS PRÉVIAS
Na vida, muitas vezes, os factos convergem de forma tão estranha no sentido de um objectivo, que nos fazem pôr em dúvida o conceito de verdadeiro acaso. António Damas Mora [ 6 ], nascido em 1879 e licenciado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1901, discípulo de Ricardo Jorge e médico do quadro colonial português, teve uma acção marcante no combate às endemias tropicais e na promoção da higiene social nas antigas colónias, como veremos no decorrer deste trabalho. No entanto – sic transit gloria mundi – a sua figura estava quase esquecida, a ponto de, numa obra sobre a história do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, de que foi Director entre 1936 e 1939, não merecer mais do que algumas linhas e um pequeno parágrafo [ 7 ]. Atentemos nos seis factos que se conjugaram “por acaso” para, sessenta e oito anos após a sua morte, lhe poder ser feita justiça recordando a obra realizada. Há alguns anos Luís Silveira Botelho, endocrinologista e historiador de Medicina, durante uma visita que o autor fez a sua casa, estendeu-lhe um pequeno envelope, dizendo-lhe: “Encontrei estas cartas num alfarrabista. Fazem mais sentido nas suas mãos do que nas minhas”. No interior encontravam-se nove cartas escritas por António Damas Mora ao seu Mestre Ricardo Jorge entre os anos 1926 e 1933, quando era Director dos Serviços de Saúde de Angola. Logo ficou decidido publicá-las porque são um testemunho vivo da História da Medicina Tropical em Portugal, mas, para verdadeiramente compreender o seu sentido era necessário enquadrá-las no âmbito da luta contra as doenças em que o seu autor se empenhou em prol das populações das antigas colónias portuguesas. Em 2010, passado algum tempo sobre aquela visita, a Ordem dos Médicos, editou uma obra [ 8 ] que inclui um trabalho da autoria de Ricardo Themudo de Castro, biólogo e Mestre de História e Filosofia da Ciência, que lhe é quase inteiramente dedicado: “Princípios e Organização na Expansão da [ 6 ] Tio-avô do autor. [ 7 ] ABRANCHES, Pedro – O Instituto de Higiene e Medicina Tropical – Um século de História – 1902-2002 – Ed. CELOM, 2004, :44. [ 8 ] AMARAL , Isabel; CARNEIRO, Ana; MOTA , Teresa Salomé; BORGES, Victor Machado; DÓRIA , José Luís – Percursos da Saúde Pública nos séculos XIX e XX – a propósito de Ricardo Jorge, Ed. CELOM, Lisboa, 2010, :97 a 105. 13
Rede Sanitária de Combate à Doença do Sono em Angola”. O mesmo autor, em Dezembro de 2013, obtém o grau de Doutor pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, defendendo uma tese que contém extensa análise da obra de Damas Mora em Angola [ 9 ]. Em Maio de 2014, Samuël Coghe [ 10 ], um investigador belga, defendeu em Florença, para obtenção do grau de Doutor em História e Civilização pelo Instituto Universitário Europeu, uma tese intitulada Population Politics in the Tropics. Demography, Health and Colonial Rule in Portuguese Angola, 1890-1940, um volume com 447 páginas, que ofereceu ao autor, no qual, mais de um quarto do texto é dedicado à obra de António Damas Mora [ 11 ]. Samuël Coghe publicaria ainda quatro artigos em edições internacionais de referência, em que Damas Mora é largamente mencionado: Inter-Imperial Learning and African Health Care in Portuguese Angola in the Interwar Períod [ 12 ], Tension on colonial Demography, Depopulation Anxieties and Population Statistics in Interwar Angola [ 13 ], Medical Demography in Interwar Angola – Measuring and Negociating Health, Reproduction and Difference [ 14 ] e, recentemente, Reordering Colonial Society: Model Villages and Social Planning in Rural Angola, 1920-1945 [ 15 ]. Munido com estes argumentos pareceu ao autor ultrapassado o natural escrúpulo de escrever sobre a vida e obra de um familiar tão chegado.
[ 9 ] CASTRO, Ricardo – Dissertação para a obtenção do grau de Doutor em História, Filosofia e Património da Ciência e da Tecnologia, Faculdade de Ciências e Tecnologia, A Escola de Medicina Tropical de Lisboa e a afirmação do Estado Português nas Colónias Africanas (1902-1935), Universidade Nova de Lisboa, 2013 (http://run.unl.pt/bitstream/10362/12163/1/Castro_2013.pdf ) [ 10 ] Samuël Coghe é M.A. em História, Ciências Políticas e Linguística nas Universidades de Humboldt e Livre (de Berlim); Doutor em História no Instituto Universitário Europeu de Florença; pós-doutorado no Instituto Max Planck de História da Ciência (Berlim) e, actualmente, post-doctoral research fellow na Universidade de Giessen. [ 11 ] Dois anos antes, sem que se conhecessem previamente, Samuël Coghe tinha procurado o autor no Hospital de Santo António dos Capuchos, na esperança de encontrar material para a sua tese. Foram-lhe, então, entregues fotocópias das cartas a Ricardo Jorge de onde o investigador belga extraíu alguns textos e conceitos reproduzidos na obra. [ 1 2 ] COGHE , Samuël – Social History of Medicine, (Oxford University Press), 2015, 28, 1, :134 a 154. [ 13 ] Id.,Contemporanea (2015), ano XVIII, 3, :472 a 478. [ 14 ] Health and Difference – Human Variation in Colonial Rendering Engagements, ed. Berghahn, New York-Oxford (2016) (Colecção Studies of Biosocial Society); ed. Geral: Catherine Panter-Brick, Universidade de Durham, vol. 8, capítulo 8. [ 15 ] Id., Journal of Contemporary History, (2017) 52.1 :16-44. 14
A história da medicina tropical é uma verdadeira epopeia, só parcialmente conhecida. É certo que, à luz da sensibilidade social dos tempos presentes, algumas práticas higiénicas e sanitárias aplicadas às populações dos antigos territórios ultramarinos portugueses (de resto, muito semelhantes às utilizadas por franceses ou belgas) poderão parecer desajustadas, mas é preciso não cair na injustiça do presentismo, ou seja, julgar os actos passados com critérios do presente. O que foi reputado por correcto ontem, pode não o ser hoje, mas isso não afecta o valor real dos actos passados. Aquilo que se visava – pôr fim às endemias e epidemias que faziam verdadeiras razias nas populações – foi, em grande parte, conseguido à custa de estratégias aplicadas com determinação e enormes sacrifícios dos médicos e enfermeiros “do mato”.
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OS ANOS DE “PEREGRINAÇÃO”
A
ntónio Damas Mora (1879-1949) nasceu em Rio de Moinhos (Abrantes) no dia 2 de Maio de 1879, no seio de uma família onde eram conhecidos médicos desde o final do século XVII, filho de lavradores suficientemente abastados para o matricularem no colégio jesuíta de São Fiel [ 16 ], nas encostas da serra da Gardunha, que, juntamente com o colégio de Campolide, em Lisboa, era considerado por Cabral Moncada um dos “melhores estabelecimentos de ensino secundário em Portugal” [ 17 ]. Teria sido contemporâneo, entre outros, de seu irmão mais velho, José Maria (1873-1942), que viria a ser cirurgião dos Hospitais Civis de Lisboa, Augusto Gil (1873-1929) e Egas Moniz (1874-1955). Vencida a primeira barreira, por sinal bem difícil, uma vez que os jesuítas eram conhecidos pela sua exigência no ensino, matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, então na cerca do Hospital de São José, que no final do século XIX tinha um corpo docente que era um verdadeiro escol. [ 16 ] O colégio de São Fiel foi um estabelecimento de ensino básico e secundário fundado pelos jesuítas em 1863 e por eles gerido até 1910, ano em que foi encerrado na sequência da implantação da República. Foi aí que, em 1902, foi criada a Revista Brotéria, que ainda hoje se publica (http://pt.wikipedia.org/wiki/Colégio_de_São_Fiel). [ 17 ] In: ANTUNES, João Lobo – Egas Moniz, uma biografia, 1ª ed., Gradiva Publicações, SA, Lisboa, Dezembro de 2010, :35. 17
José António Serrano, Miguel Bombarda, Curry Cabral, Alfredo da Costa, Oliveira Feijão, Silva Amado e Ricardo Jorge foram alguns dos seus mestres. Em 1899, quartanista, é admitido como Externo do Hospital Real de São José e Anexos, quando o são, também, Francisco Gentil e Azevedo Neves, mas, ao contrário destes, não seguiu a carreira hospitalar nem a universitária[ 18 ]. A dissertação inaugural, que defendeu em Dezembro de 1901, intitulava-se “Breves considerações sobre o fórceps como tractor” [ 19 ]. Alistara-se como voluntário, no posto de “soldado aspirante a facultativo no Ultramar”, em Abril de 1896, e, em Janeiro de 1902, é promovido a facultativo de 3ª classe, sendo Alferes graduado do Depósito de Praças do Ultramar [ 20 ]. Era o primeiro passo de uma vida quase inteiramente dedicada aos problemas de saúde e higiene das antigas províncias ultramarinas e que o levaria, entre 1902 e 1936, sucessivamente, a São Tomé e Príncipe, Timor, Angola e Macau (f.1). Após a Conferência de Berlim de 1884-1885, as nações europeias foram confrontadas com vários compromissos em relação às colónias africanas, nomeadamente o de uma efectiva ocupação civil e militar. Começou, então, a criar corpo o conceito de que era necessário melhorar as condições sanitárias daqueles territórios, não só por razões humanitárias mas, (e, talvez, principalmente!) porque as doenças ali prevalentes (doença do sono, febre amarela, peste bubónica, malária, béri-béri e outras) causavam verdadeiras razias nos africanos e nos europeus, com as consequências económicas e sociais daí decorrentes. Não havia progresso possível enquanto essas doenças não fossem controladas, mas isto requeria formação científica específica. É neste contexto que no final do século XIX são criadas Escolas de Medicina Tropical em Liverpool e Londres, ambas em 1899, e Hamburgo na Alemanha, em 1900.
[ 18 ] LEONE , José – “Elementos para a História do Internato dos Hospitais Civis de Lisboa”, Boletim Clínico dos Hospitais Civis de Lisboa, vol. 12, 4, 1948 :454. [ 19 ] Numa época em que as especialidades ainda não se tinham autonomizado, dedicou a sua vida clínica, a latere em relação à medicina tropical, à Ginecologia e Obstetrícia. [ 20 ] Em 1920 seria promovido a Major médico, em 1921 a Tenente-Coronel médico e em 1923 a Coronel médico, então o posto mais alto da carreira médica militar (Dados colhidos no Processo Militar de A. Damas Mora depositado no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), com as seguintes cotas: AHU-MC-DGM - 4ª Rep.,Cxª 647, P.tª 80, Pro.º 39; AHU-MC-DGM – 4ª Rep., Cx.ª 1201, P.tª 19, Pro.º 23; AHU-MC-DGM-4ª Rep., Cx.ª 1055-A, P.tª 1-B, Pro.º 38, 1º vol.; 4ª Rep., Cx.ª 1055-A, P.tª 1-B, Pro.º 38, 8º vol). 18
Em Portugal, onde o ensino da Medicina Tropical era ministrado em condições deficitárias de instalações, de programa e de corpo docente, percebeu-se que não podíamos manter o atraso em relação às outras potências coloniais. Este súbito interesse pela medicina tropical foi despertado por um artigo publicado no número de Novembro de 1900 da revista alemã Archiv für Schiffs und Tropenhygien, da autoria do Dr. Otto Gleim (1866-1929), cônsul alemão em Luanda, no qual se acusavam as autoridades portuguesas de nada fazerem para combater a doença do sono que dizimava as populações da bacia do Cuanza [ 21 ]. Ingleses e alemães cobiçavam as nossas colónias e o próprio Rudolph Virchow (1821-1902), o grande patologista alemão, afirmava no parlamento germânico, onde era deputado, que Portugal “nem cientificamente tinha direito à posse de tão grandes domínios coloniais, porque nada produzira sobre pathologia, geographia médica, climatologia, etc.” [ 22 ]. Isto é, para além da ocupação militar e civil, exigia-se a “ocupação científica”. Estes factos alarmaram a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (SCML), presidida por Miguel Bombarda, que viria a propor a Teixeira de Sousa, médico e ministro da Marinha e Ultramar, a criação da Escola de Medicina Tropical [ 23 ]. Mas, ainda antes da fundação desta, e, também, por sugestão da SCML, o ministro autoriza o envio de uma missão a Angola, para estudo da doença do sono, composta por Aníbal Bettencourt (1868-1930), director do Instituto Câmara Pestana e director do Hospital da Marinha, Ayres Kopke (1866 ‑1947), então director do Laboratório de bacteriologia do mesmo hospital, Gomes de Resende Júnior (1871-1905), médico do Instituto Câmara Pestana e Correia Mendes (1870-?), médico do quadro de Angola e director do Laboratório de Bacteriologia de Luanda. A missão parte a 1 de Abril de 1901, demora-se cinco dias na Ilha do Príncipe e chega a Luanda a 30 de Maio, tendo regressado a Lisboa em Janeiro de 1902. Veio de lá com a hipótese de que a causa da doença, fundamentalmente uma meningo-encefalite, era uma bactéria, a que deram o nome de “hipnococo”, hipótese que, como se sabe, foi afastada quando em 1904, foi
[ 21 ] DAMAS MORA, António - “História da Escola de Medicina Tropical”, África Médica, ano VII, 6, Junho de 1941, :198 e 199. [ 22 ] Notícia sobre a lição inaugural do Curso de “Pathologia Exótica”, regida na Escola Naval (que precedeu a Escola de Medicina Tropical), pelo professor D. António de Lencastre. Diário de Notícias, de 24.4.1902. [ 23 ] DAMAS MORA, António - op. cit., :339. 19
descoberto o verdadeiro agente etiológico, o Trypanosoma gambiense [ 24 ], assim denominado por ter sido pela primeira vez observado ao microscópio na Gâmbia (África Ocidental), pelo médico inglês Robert Michael Forde (1861 ‑1948), observação que foi logo de seguida confirmada pelo seu compatriota Joseph Everett Dutton (1874-1905) (f.2). Seriam, porém, Aldo Castellani (1874-1971) [ 25 ], um italiano integrado nas missões científicas britânicas ao Uganda, e David Bruce (1855-1931) da Escola de Medicina Tropical de Londres, quem consideraria ser o tripanossoma o agente causal da doença do sono, sendo a prioridade desta descoberta longamente disputada entre os dois. Pela mesma época Bruce demonstrava que a mosca tsé-tsé (Glossina palpalis) era o agente transmissor da doença [ 26 ]. Pouco depois do regresso da missão portuguesa, é fundada a Escola de Medicina Tropical de Lisboa (EMTL), cujo primeiro director e, simultaneamente, director do Hospital Colonial, então também criado, foi António Ramada Curto [ 27 ]. Do seu regulamento constava o envio de missões científicas ao Ultramar. Em Janeiro desse ano, António Damas Mora, entretanto promovido a Alferes médico, é nomeado para o quadro de saúde de Angola e São Tomé e Príncipe [ 28 ], chegando a São Tomé a 12 de Março, depois de passar por Luanda (f.3). No ano seguinte foi destacado para a Ilha do Príncipe como delegado de saúde [ 29 ].
[ 24 ] DAMAS MORA, António - op. cit., :200-203; AMARAL , Isabel - “Bactéria ou Parasita? A controvérsia sobre a etiologia da doença do sono e a participação portuguesa, 1898 ‑1904”, História, Ciência, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 19, n.º 4, out-dez 2012, :1275 a 1300. [ 25 ] Aldo Castellani viveria entre nós na fase final da sua vida como professor do Instituto de Medicina Tropical de Lisboa. [ 26 ] HEADRICK , Daniel R. – “Sleeping Sickness Epidemies and Colonial Responses in East and Central Africa, 1900-1940”, PLoS – Neglected tropical Diseases, vol. 8 (4), 2014, :e 2772, online doi: 10.1371/journal.pntd.0002772. [ 27 ] ABRANCHES, Pedro - op. cit., :26. [ 28 ] Estes quadros de saúde eram habitualmente preenchidos por médicos militares. [ 29 ] Processo individual do AHU. 20
f.1 Os anos de “Peregrinação” (elaboração: António Couto).
f.2 Variedades do Trypanosoma gambiense (Arch. de Hygiene e Pathologia Exóticas, EMTL, vol. V, 1915).
f.3 Imagens de São Tomé e Príncipe no início do século XX: 1. Fortaleza de São Sebastião; 2. Palácio do Governador; 3. Roça Água Izé (jardim da sede); 4. Um grupo de são-tomenses; 5. Tabuleiros para secagem e armazém de ensacar o cacau (Enciclopédia Lello Universal, 1ª ed., s/data).
f.4 Mosca tsé-tsé (Enciclopédia Lello Universal, 1ª ed., s/data).
Excluindo os períodos de férias no continente, Damas Mora vai permanecer na Ilha do Príncipe até ao final de 1910 [ 30 ]. A doença do sono era ali uma endemia que conduzia não só a uma mortalidade alta, mas, também, a uma baixa natalidade, o que tinha como consequência um balanço demográfico negativo. Era tal a violência do flagelo que, em 1894, 600 trabalhadores provenientes de Angola, estavam mortos ao fim de cinco anos [ 31 ]. A distribuição geográfica da doença na Ilha do Príncipe era peculiar, pois só o centro e norte do território eram atingidos pela moléstia. O agente da doença – o Trypanosoma gambiense –, o seu vector – a mosca tsé-tsé [ 32 ] (f.4), – e o seu hospedeiro – o trabalhador negro proveniente, principalmente, de Angola – tinham sido trazidos do continente africano por via marítima no último quartel do século XIX. A mosca, que seguia nos mesmos barcos em que eram transportados os trabalhadores, alguns dos quais doentes, só naquelas zonas do Príncipe parece ter encontrado condições propícias à sua sobrevivência e, por isso, a doença ali ficou acantonada, poupando o sul da [ 30 ] A estada de Damas Mora no arquipélago (1902-1910) coincidiu com um período em que os industriais ingleses tudo fizeram para se apoderar da produção de cacau. A participação de São Tomé e Príncipe na Exposição Universal de Paris de 1900 revelou que estas ilhas produziam cacau de alta qualidade a baixos preços. Começou então uma feroz campanha organizada pelos chocolateiros ingleses, à frente dos quais se destacava William A. Cadbury, que tentaram desvalorizar o cacau são-tomense afirmando que os portugueses mantinham a escravatura, e aconselhando os ingleses a não o adquirirem enquanto não fosse produto de trabalho livre. Os jornais ingleses apoderaram-se desta causa, e fizeram dela um verdadeiro escândalo. Isto apesar de o governo português se defender, demonstrando que, desde 1875, eram nomeados “curadores dos serviçais” e colonos magistrados de carreira, cuja missão era defender os direitos dos trabalhadores, nomeadamente assistir aos contratos e garantir o repatriamento. O governo inglês, invocando razões filantrópicas, estabeleceu um verdadeiro serviço de espionagem a que pertenceram Cadbury e outros chocolateiros ingleses, que, em 1908, foram ao arquipélago são-tomense e a Angola, principal território de recrutamento de trabalhadores, colher dados que lhes permitiram fazer um relatório, após o qual os ingleses deixaram de importar cacau do arquipélago. Na contra-argumentação portuguesa recordava-se o facto de os trabalhadores disporem, nas roças, de boas instalações, creches e hospitais, o que não acontecia nas colónias inglesas. De qualquer modo esta questão levou a um novo regulamento de trabalho em que os homens e as mulheres passaram a ganhar, respectivamente, 2.500 e 1.800 reis por mês, chegando, nalguns casos, a atingir 9.000 reis. Mesmo com a suspensão das encomendas inglesas a colónia não deixou de prosperar. (Nota: a fonte para este texto foi a obra de Rocha Martins, História das Colónias Portuguesas, Ed. Diário de Notícias, 1933, :435 a 448). [ 31 ] COSTA , Bernardo Bruto – Vinte e três anos ao serviço do país no combate às doenças em África, Lisboa, Livraria Portugália, 1939, :75. [ 32 ] Tsé-tsé é um termo onomatopaico, que imita o ruído das asas da mosca. 23
ilha e toda a ilha de São Tomé [ 33 ] [ 34 ] (f.5). O habitat ideal das tsé-tsés eram as zonas sombrias das florestas, junto aos cursos de água (f.6) [ 35 ]. Mais tarde, em 1911, na sequência da questão com Inglaterra sobre o “cacau escravo”, muitos trabalhadores angolanos, que trabalhavam nas roças da Ilha do Príncipe, foram repatriados, e os que regressaram à região de Benguela, na mata do Cavaco (nome do rio que atravessa a região), onde abundavam as moscas tsé-tsé, foram a causa do importante foco endémico ali implantado [ 36 ]. Entre 1904 e 1911 houve três missões científicas à Ilha do Príncipe: a primeira, chefiada por Ayres Kopke, médico da Marinha de Guerra, professor e investigador da Escola de Medicina Tropical; a segunda e terceira por Correia Mendes, docente da mesma escola e chefe do Laboratório Bacteriológico de Luanda. António Damas Mora integrou a segunda missão (1907 ‑1908) juntamente com Bernardo Bruto da Costa, Silva Monteiro e Arnaldo Villela [ 37 ]. Este grupo teve uma acção essencial no combate à doença do sono no Príncipe, atacando o mal em duas frentes: eliminação da mosca tsé-tsé e administração profilática e terapêutica de Atoxyl, um arsenical conhecido desde 1860, mas que só viria a ter aplicação em seres humanos muito mais tarde, em 1905, sendo Ayres Kopke no Hospital Colonial de Lisboa, o pioneiro, a nível mundial, da sua administração.
[ 33 ] CORREIA MENDES, Aníbal; SILVA MONTEIRO; DAMAS MORA, António; BRUTO DA COSTA , Bernardo – “Relatório Preliminar da Missão de Estudo da Doença do Sono na Ilha do Príncipe”. Archivos de Hygiene e Pathologia Exóticas. 1909; 2(1 ), :3 a 45. [ 34 ] Há, também, quem defenda que a mosca teria sido arrastada pelas fortes ventanias provenientes do continente africano, razão pela qual a mosca é ali conhecida, também, por mosca do Gabão (Id., Ibid :15 e 16). [ 35 ] A razão para a existência das zonas livres de glossinas nunca foi bem conhecida, uma vez que o grau higrométrico do ambiente, a temperatura e as culturas eram semelhantes em todo o arquipélago (in DAMAS MORA, António – “Lições do Curso de Patologia Exótica – 1ª lição, Moléstia do Sono”, África Médica, ano VIII, 1942 :275). [ 36 ] Id., Ibid :273. [ 37 ] AMARAL , Isabel – “The emergence of tropical medicine in Portugal: the School of Tropical Medicine and the Colonial Hospital of Lisbon (1902-1935)”. Dynamis. 2008; 28, :299 a 326. 24
f.5 Distribuição dos focos da Glossina palpalis na Ilha do Príncipe (in: J. Firmino Sant’Anna – Study of Trypanosomiases of Príncipe).
f.6 O habitat das glossinas na Ilha do Príncipe (fotografia de J. A. Ricoca Nunes, 2016).