BI – Caderno de Identidade

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Rui Cardoso Martins

caderno de identidade

B.I. PEDRO CASTRO HENRIQUES FERNANDA CUNHA joão eduardo ferreira

No livro B.I. Caderno de Identidade, uma obra a três cérebros, encontrei um complexo edifício de realidades distintas mas interdependentes, com escadas, vãos, sótãos, cozinhas, canos, traseiras e corações comuns. Um edifício que devemos visitar com calma e de olhos abertos, porque está a falar de nós, portugueses (e de um certo canalizador catalão…).

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Os prédios das cidades são personagens colectivas insuperáveis. Comédia, tragédia, burlesco, poesia e acção. A toda hora do dia e da noite. Qualquer pessoa que se lembre do prédio em que cresceu, dos vizinhos que teve, dos episódios que escutou e observou, qualquer pobre de mim que pense no edifício onde paga renda agora, faz a análise do seu próprio lugar no mundo, da sua identidade. (…)

B.I. caderno de identidade PEDRO CASTRO HENRIQUES FERNANDA CUNHA joão eduardo ferreira



provar quem sou PEDRO CASTRO HENRIQUES



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alínea h) no 2º Antenor Sálvio Padinha (2º andar), homem dos seus sessenta e poucos, antecipadamente reformado porque o serviço público em que trabalhava – era auxiliar de armadilhas para dinossáurios no Instituto da Conservação – fora finalmente extinto por não servir de nada terminara o almoço e descia a escada. Parecia perturbado, o que levantou suspeitas a Maria da Conceição Estevinha (2º andar), sua mulher. “Antenor… alguma coisa de mal?” “Mal, mal… não… mas sinto-me indeciso… nem sei…” “Mas indeciso de quê? Outra vez o estômago?” “Olha Ester, nem sei, vou indo… isto passa!” e lá seguiu para a rua. Padinha (2º andar) lembrou-se que tinha decidido decidir-se o que, valha a verdade, não era coisa que acontecesse pela primeira vez, se bem que desta feita a coisa parecesse assumir um ar definitivo. Estava pois fora de questão voltar atrás. Homem prenhe em hesitações sabia de há muito que a mais simples dúvida sempre pusera em causa uma tímida vontade, muito sujeita às inconstâncias do momento. Uma corrente de ar no transpor duma porta, um dito ouvido a terceiros já a meio caminho da resolução ou a simples passagem de uma aeronave sobre a sua cabeça mesmo voando a cinco mil pés de altitude, eram motivos mais do que suficientes para pôr em causa ideias aparentemente amadurecidas e actos, por vezes, muito bem pensados mas que a prática demonstrou serem normalmente mal planeados e de impossível concretização. No entanto, apesar da sua determinação, ainda hesitou. A interpelação de Ester (2º andar), sua mulher, à saída de casa, baralhou-lhe


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as ideias, mas o programa que o aguardava não se compadecia com explicações prévias à própria mulher ou mesmo a gente amiga ou conhecida. Ser enterrado e renascer para uma outra vida não era coisa que se deitasse fora, sobretudo quando a vida já não passava duma confrontação quotidiana com um ‘vamos andando’ já gasto. Desta vez, e vá-se lá saber porquê, o Padinha (2º andar) não hesitou, saiu e meteu-se num autocarro em direcção à Rua Umbelindo Chagas (escriturário de profissão e primeiro português a utilizar um teclado AZERT) onde, após o desembarque, transpôs calmamente o umbral da porta da agência com que estabelecera contacto. O temperado silêncio reinante no estabelecimento e o calor do acolhimento por parte da funcionária de serviço foram suficientes para o dissuadir de uma desistência prematura. A Nova Volta era de facto uma empresa sui generis e o seu slogan ‘vá e volte outro’ estava concebido de molde a tentar – e mais do que tentar, a cativar – os mais recalcitrantes. Ainda para mais, a Nova Volta tinha no seu curriculum uma recomendação invejável que não se cansava de propagandear junto da clientela: uma carta do IAPMEI em que se dizia “É com enorme prazer que felicitamos a vossa empresa por integrar o grupo selecionado para a atribuição do estatuto PME Excelência 2013, uma iniciativa do IAPMEI, em parceria com o Turismo de Portugal, I.P. e os principais bancos, que tem por objectivo distinguir as pequenas e médias empresas que evidenciaram os melhores desempenhos e indicadores de gestão, no contexto da estrutura empresarial nacional.” Enfim, a Nova Volta não era propriamente a funerária da esquina, a cópia abastardada de qualquer romance ou filme de ficção, não possuía página na net, não cultivava o facebook nem o instagram e os seus quadros nem pensavam colocar o seu nome no Linkedin.


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A Nova Volta era um estabelecimento que, a mesmo título que o BES, o BPN ou a Portugal Telecom, possuía uma gestão imaculada e inovadora, nada que se comparasse a outras empresas do mesmo ramo em que o morto é tratado como se morto estivesse e morto permanecesse, numa clara demonstração de ineficácia. Na Nova Volta não, o morto mantinha-se vivo, não perdia a sua identidade psicológica e anatómica, sabia e sentia o que lhe estavam a fazer, e mais, pressentia que o estavam a fazer bem. A sua partida e o seu regresso à vida processavam-se sem sair da mesma facto que evitava custos desnecessários, representando um claro reaproveitamento do material existente. Claro que uma actividade deste género pode desde logo levantar a suspeita de se tratar de algo semelhante ao apregoado nas curas de emagrecimento, no renovar de guarda-roupas, na escolha de uma nova cor de cabelo ou duma nova e resplandescente dentadura, duma ida aos mares do sul capaz de regenerar o mais retorcido espírito, duma loura ucraniana (com a papelada em ordem) pronta a casar ou duma ginástica – a modos orientalizada – refrescante do corpo e reorientadora do espírito para horizontes não explorados. Mas não, a Nova Volta especializou-se em algo de inédito: ‘enterrava’ os clientes e ‘desenterrava-os’ duas horas depois como novos! No fundo, a Nova Volta retirava o cliente do mundo no estado em que o mesmo se encontrava, devolvendo-o passados momentos na mesma condição mas como dizia a propaganda, ‘noutra conjuntura’. Para tal apoiava-se num saber de experiência feito, garante do resultado pretendido: partir um e regressar o mesmo sendo outro. Sentado diante da recepcionista, Perpétua Maldonado, Antenor Sálvio Padinha (2º andar) dispôs-se a seguir o ‘vamos a isto’ com que ela o recebeu.



O Luís Miguel quer ir para o Panteão Nacional FERNANDA CUNHA


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Deprimidas, as pessoas procuram a compensação com a exposição pública da intimidade, avaliada pelo número de gostos nas redes sociais. Celebram aí todas as suas emoções privadas sem que estas tenham força para construir uma identidade comum. Não há viva voz ou aperto de mão que confirmem o sentido de lugar porque não há lugar, somente alienação. Uma sociedade onde a intimidade ganha importância pública só pode ser uma sociedade doente. Nenhum animal sobrevive com as vísceras a descoberto. Ou alienado. A vacuidade da linguagem política e social (por ausência de literatura, certamente) esconde uma perigosa e eficaz discricionariedade, um perigoso e perverso poder. Sem mesura nem lisura, é fácil, muito fácil, ficarmos reduzidos, alguns nem isso, à ‘liberdade de pátio’, expressão que deu título ao segundo conto do livro Liberdade de Pátio, de Mário de Carvalho. Nele conta-se a história de um prisioneiro muito especial, o Senhor Professor, tratado com fingida deferência e a quem foi concedida, como dádiva, uma pequena e humilhante liberdade de pátio, durante algumas horas por dia. É a vida. Como a vida também o é nos restantes seis contos do livro: um homem que transporta uma estranha caixa, a internacionalização do caldo verde, o projecto bibliotecário de quatro professores reformados, um viajante zeloso do metropolitano que faltou com a sua palavra, um comandante da Marinha incapaz de aceitar um não e as memórias da iniciação sexual de um jovem do outro tempo. Estamos a falar de ficção e em ficção tudo é falso. Mas se a literatura é uma expressão da nossa humanidade, qual é a diferença entre a realidade e a ficção? Aprendamos um pouco com a ficção, então. Tomemos para nós o livro ou os livros que nos levam à estação seguinte. Não a do metropolitano que transporta


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o viajante zeloso de Mário de Carvalho, mas a estação seguinte da humanitas. Não se lê impunemente e Adelaide, leitora dedicada, ganhou um vício curioso. Costuma entreter-se com as personagens que encontra nos romances, colocando-as em lugares reais e perante as circunstâncias do momento. Imagina-lhes o comportamento. Também olha para as pessoas e procura arrumá-las nos livros certos. O Luís Miguel, por exemplo, parece ter saído deste livro de Mário de Carvalho, mas não. Encontramo-lo no Mercado da Cidade. É real, é português, é despachado e apesar da manifesta dificuldade na aprendizagem, tem internet, sabe usar o multibanco e faz contas de cabeça, o que lhe permite gerir a sua própria vida. Está fora da atitude consumista e da normalização do comportamento, próprias do fenómeno social, mas também não consegue assumir responsabilidade com a durabilidade do mundo e com a liberdade, própria do agir político. É um homem que contraria a ausência de metafísica com o desejo de ir para o Panteão Nacional. Há uma palavra que lhe assenta como uma luva: impróprio. Voltemos ao discurso. O que temos como evidência no mundo de hoje? No lugar do político, o comportamento e o conformismo. Em modo superficial e acelerado, disparamos opiniões sem filtrar o conteúdo e julgamo-nos críticos. Reféns de uma baixa auto-estima, limitamo-nos a viver a contínua monotonia do quotidiano, com medo de agir para além dos acontecimentos que optamos por não inscrever. Não procuramos distinguir-nos, antes pelo contrário. E se nos sentirmos incapazes de integrar o modelo social competitivo que nos impõem, compramos livros de auto-ajuda ou consultamos a internet para soluções rápidas. Vivemos uma espécie de cidadania


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científica, instrumentalizada pela mentira política. Não a eleitoral, que pende sobre o futuro e serve para seduzir o eleitorado, mas a mentira sobre a realidade presente, cujo único objectivo é manipular reacções. De eleitores passaremos a electrões e ninguém reparará que deixaremos de ser cidadãos para sermos cidadões. Adelaide gosta de inventar palavras, coisa própria dos alentejanos, mas recorda-se de ter ouvido um presidente da República referir cidadões. Estamos tramados. Adelaide, que pertence ao povo, está desempregada por decisão política dos representantes do povo. Não é isto um contra-senso? Pobres almas sem linguagem, pobres políticos soberbos, a quem se entregou a chave do palheiro. Desta vez, saltará o ‘muro do pátio’ e logo se vê o que acontece. Sem distinção não há identidade e sem identidade não há autenticidade na cidadania, e se as palavras servem para persuadir, aproveitará as suas para recuperar ou pelo menos tentar recuperar a importância de duas delas: singularidade e pluralidade. Tornou à cozinha para preparar uma refeição rápida. Olhando para dentro do frigorífico concluiu a necessidade de ir ao Mercado da Cidade. Talvez vá logo pela manhã. É uma das coisas que gosta de fazer. No Mercado vive-se a contra-regra, uma consequência directa do espiritualismo possante das gentes e do próprio lugar, que nos obrigam a estar bem atentos. Desta proximidade resulta o reconhecimento do valor do lugar e de cada um nesse lugar, aquilo a que Matt Sanger chama sentido de lugar. Vivemos ali os cinco sentidos de lugar. Ou melhor, os seis. E Adelaide gosta disso. Tudo em aberto no discurso, mas ainda tinha algum tempo. A palavra ‘impróprio’ ficou-lhe na cabeça.




eu, por ti, me identifico JOÃO EDUARDO FERREIRA


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Intróito III Por mim, fica já aqui dito. Escolho o ponto de partida. Escolho um ‘prédio’, alter-ego de ‘casa’, talvez a maior identidade! Prédio, desses com registo, propriedade e algum cimento contemporâneo a disfarçar a vetustez. O IMI a rondar a insolência. De resto, a argamassa antiga feita de pedacinhos de tijolo e ripinhas de madeira debate-se com o revestimento que ainda discute o uso da cal hidráulica contra a utilização da cal aérea. Digamos que algumas paredes fingem não ter sido tabiques ou gaiolas, sublimando a memória do Marquês e dos velhos tremores de terra absolutistas, muito pouco jesuíticos. Mais vale esquecer: se ruir enterramo-lo, se sobreviver levamo-lo aos cuidados intensivos. Pede-se a demissão do Ministro, substitui-se o Presidente da Câmara! Choramos os mortos, o incêndio e as fotografias antigas que não chegaram a ser digitalizadas. Memória para que a queremos? E como descrevê-lo, o prédio? Parece reconstruído mas apenas foi retocado. Igual aos de toda a zona sinalizada como histórica, moderna percepção colectiva, misto de asséptico verniz pessoano e automóveis a galgar a esfacelada calçada portuguesa. Nota-se no gáudio das fotografias digitais dos turistas e na aversão a ascensores modernistas. Zona de estilo para arquitectos com pedigree que se enervam com a invasão dos hosteis mas não se incomodam com as viúvas esquecidas, os ratos nocturnos, as sarjetas entupidas de baratas agoniadas. É aí que o meu prédio habita. Tem logradouro com quintal, ainda não transformado em garagem, com retenção e escoamento naturais de águas pluviais, para descanso do Arquitecto. Nespereira, limoeiro e um abacateiro a crescer desmesuradamente junto


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à empena tardoz chegando a tocar a roupa que se estende no primeiro andar. Canteiros com flores, agapantos e azáleas, que as sardinheiras já estão fora de moda. Um estendal para serventia do porteiro, o Simão, e a casota do Tareco. Todos perguntam as razões de (1) o prédio ter porteiro, relativamente novo, e não porteira, relativamente velha; e de (2) o canzarrão, dócil e sereno, ter nome de gato. Ninguém obteve as respostas pois são todos um pouco metidos com eles, por timidez ou por estatuto emprestado. E como, para ser ‘casa’, etimologicamente, não basta construí-la, é preciso habitá-la, diga-se que o prédio tem três andares, dois inquilinos por cada um deles. Seis inquilinos a salvo de reunião anual de condomínio já que o regime de propriedade horizontal ainda não o atinge e todos pagam, ao oitavo de cada mês, directamente ao Dr. Eládio Menezes, advogado na reforma e senhorio. Façamos então um sumário em forma de índice. Como já aludido, ao rés-do-chão vive [aparentemente] sozinho com o seu Tareco, Simão de Semedo. Sobre a sua identidade pouco há a relatar apesar de ser [aparentemente] o protagonista desta história. Pacato, solicito, discreto, concilia de modo eficaz as queixas dos locatários com a resistência somítica do Dr. Menezes. Apesar de ser um homem muito real no que respeita à limpeza da escada, à gestão do caixote do lixo, à mudança das lâmpadas economizadoras, que insistem em fundir nos momentos [aparentemente] errados, o advérbio [aparentemente] assenta-lhe que nem ginjas. No 1º Esquerdo habita Alfredo Neves. Telhudo e ermita, vive só por viuvez. Está reformado há demasiado tempo por infecção


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pulmonar grave, conquistada quando metalurgicava numa oficina sem condições na outra banda, lá pelo Barreiro. Antes trabalhara numa empresa do ramo, nacionalizada depois, depois vendida, falida entretanto. Tem um filho emigrado na Austrália, Amílcar Neves, que nunca lhe telefona, regressando a custo de três em três anos, pelo Natal, para um almoço de bacalhau numa das poucas tascas do bairro que por inércia abre no dia 25. Gostaria de ser muito mais velho do que realmente é e os seus grandes amigos são um gato amarelo, o Grande Elias, e o Toshiba e respectivos satélites reais e companhias virtuais. Por estratégia, Alfredo Neves, o pai, nunca ‘pediu amizade’ a Amílcar Neves, o filho. O inverso é também absolutamente verdade e pelas mesmas razões. No último ano que veio a Lisboa, Amílcar Neves teve a sensação que o pai já não se lavava convenientemente, que já tinha cheiro, mas custa-lhe admitir que sente repulsa pelo pai. Frente a Alfredo Neves, veio morar há seis meses um casal muito novo. A rondar os 20 e tais anos. Casal ainda por demais apaixonado e, se tal fosse profissão e a profissão fosse identidade, poder-se-ia dizer que no 1º Direito morava um casal de músicos. Celina Bettencourt e Pedro Porfírio. Para eles tudo está ainda envolto numa encantada poalha de bondade: o bairro, a vizinhança, as dificuldades da profissão. Cidália tenta viver como professora, Pedro mexe-se na publicidade. Ambos compõem. Ambos têm muitos amigos que lhes pedem colaborações, a maior parte delas sem remuneração financeira. Pouco lhes importa. Vivem felizes. Os quatro pais ajudam-nos no que podem. Têm eles a sorte ou o azar, consoante as perspectivas, de serem ambos filhos únicos. Um pouco mais acima, do outro lado do patamar, 2º Esquerdo, o caso é mais complicado. Vive Anselmo Pires, um velho reformado


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do Arquivo de Identificação, ex-combatente na Guerra Colonial. E por terras quentes foi ficando, casando, contando os dias. Moçambicando. Contudo, maior que o trauma da guerra foi o regresso à força depois do 25 de Abril. Um filho que nunca regressou. Sua mulher, nascida na Beira, Francisca Pires esconde as mãos numa das batas de cornucópias que traz sempre por casa, enquanto Anselmo tem a mania das limpezas e lava as mãos permanentemente. Francisca vive com medo. Anselmo também esconderá o seu. O casal toma os mesmos medicamentos que o médico de família lhes receita para os nervos. Na escada, deste lado do patamar, não se ouve um fado na radio, um berro, um pio que seja! No outro lado, 2º Direito, moram Idalina e Cesário Barreiros. O casal dilecto pelas normas serôdias do romantismo. Apesar de tudo, e de dois filhos adultos, Marco e Roberto, que nunca mais saem de casa, pode dizer-se que ainda se amam. Ainda se apoiam. Cesário sempre deitou mão a qualquer biscate de bairro e Idalina, entre rissóis para fora e bainhas para dentro, nunca desperdiçou os dotes de cartomante, com búzios, mãe-de-santo e toalha de renda sobre a camilha. Entre todos os biscates que sucumbiam e os cafés que não encomendavam tanta musse de manga, Idalina e Cesário são o espelho da sociedade que servem e de que vivem. Sorriem muito e falam mais. Subindo. No 3º Esquerdo habitam Rui Centeeiro e Jaime Faria. O primeiro é arquitecto, o segundo trabalha numa associação de bairro de apoio social ligada à Misericórdia. São casados segundo o novo enquadramento da lei das conservatórias, não usam aliança e não costumam usar a palavra gay. Consideram-se, mais simplesmente, homossexuais. Discretos e afáveis, pedem desculpa aos vizinhos através de bilhete colocado nas caixas do correio


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sempre que dão algum jantar e a música tende a ser um pouco mais festiva. A sua ligação afectiva não será alheia à devoção que ambos praticam pelos filmes de Eric Romher. Finalmente, o 3º Direito. Maria Adelaide Mau-Tempo Espada. O nome para ela é importante, orgulha-se dele. Tem 60 anos. Vive só. É uma tardia professora de Língua Portuguesa, dispensada após anos a concorrer de modo eventual. Alentejana por convicção mais do que por identidade. Faz teatro amador e já andou nas danças de salão. Tem muitos passatempos, já teve várias profissões. Alimenta dois ou três sítios e blogues na Internet, mas sempre sob pseudónimo e associados a contas de e-mail específicas. A terminar o intróito, deve referir-se o forro da casa, paredes meias com o telhado. Um esconso mal recuperado, mas com serventia de águas, quentes e frias, energia eléctrica e demais confortos. Porém, nunca alugado. A escada amovível, ou retráctil, para usar palavras de maior mobilidade, que lhe dá acesso a partir do patamar do terceiro andar, assusta promissores locatários e atraí alguns jovens demasiado ‘alternativos’ para o gosto circunspecto do senhorio. Foi, contudo, a menos circunspecta ânsia de rentabilizar o prédio que levou o próprio Dr. Eládio Menezes a executar a obra sem a Câmara ou o Turismo darem por ela. Poupa-se na pouca-vergonha dos impostos e licenças camarárias, fecha-se os olhos à pouca-vergonha do Programa Erasmus.


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