RAÍZES E FRUTOS DA COMUNIDADE CRISTÃ BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulus, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 5º DOMINGO DA PASCOA– COR: ROXO
I. INTRODUÇÃO GERAL
momentânea de Paulo no cenário da evangelização. Pensar assim seria desvirtuar os Atos dos Apóstolos e o próprio Evangelho de Lucas. Ela também não é devida à pretensa paz do império romano. É, isso sim, a paz que vem do temor do Senhor: é a partir dele, com o auxílio do Espírito Santo, que a comunidade cristã se fortalece e cresce em número, pois o projeto de Deus encontra terreno propício para crescer.
1. A comunidade cristã se reúne para celebrar a fé e cimentar sua união com Cristo, a videira, cujos ramos são todos os que o aceitam e seguem (Evangelho Jo 15,1-8). A fé que celebramos tem sua expressão maior no amor entre os membros da comunidade. Seria vã a fé que não levasse ao amor (2ª leitura 1Jo 3,18-24). Ela se traduz também no testemunho cristão, levando as pessoas a eliminar desconfiança, frieza e indiferença nas relações interpessoais. Cele- Evangelho (Jo 15,1-8): Raízes e frutos da comunidade brar a fé é solidariedade e compromisso com os persegui- cristã dos por causa do testemunho (1ª leitura At 9,26-31). 6. O trecho do Evangelho de João proposto para este domingo faz parte dos acontecimentos que marcam a desII. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS pedida de Jesus durante a Ceia (13,1-17,26). É sob a ótica 1ª leitura (At 9,26-31): O que é ser discípulo de Jesus? do testamento que se poderá melhor entender o presente 2. A maior parte do cap. 9 de Atos reproduz acontecimen- texto. O testamento de Jesus a seus discípulos abraça temas tos referentes à vida de Saulo (Paulo): sua conversão (vv. 1- diversos. No caso de Jo 15,1-8, Jesus fala do segredo ou 19a), estada em Damasco, anúncio e fuga (vv. 19b-25) e condições para a expansão da comunidade cristã. visita a Jerusalém (vv. 26-30). O texto escolhido para a 7. Os capítulos 15-17 provavelmente não pertenciam ao liturgia deste domingo relata o episódio de Paulo em Jerucorpo primitivo desse evangelho. Foram acrescentados salém. Ele já era bem conhecido nessa cidade, pois foi aí mais tarde, tentando responder a algumas questões da coque se formou rabino, nutrindo ódio contra os discípulos do munidade do Discípulo Amado. Quais seriam? Certamente Senhor a ponto de se tornar cúmplice do assassínio de Eso tema da "comunidade de iguais", sem hierarquias (ratêvão (cf. At 7,58). mos), o tema da missão (produzir frutos) e a presença do 3. Compreende-se, dessa maneira, por que os cristãos de Espírito nos conflitos enfrentados pelas comunidades joaJerusalém mantivessem tanta distância e desconfiança em ninas. O tema "comunidade de irmãos" predomina no texto relação a ele, tratando-o com frieza (v. 26). A intervenção de hoje. de Barnabé em favor do convertido é decisiva: ele o aprea. As raízes da comunidade cristã (vv. 1-2) senta aos apóstolos. O testemunho de Barnabé em favor de Saulo mostra quais são as características de um discípulo de 8. Recuperando a velha imagem do Antigo Testamento, Jesus (v. 27): a. ter-se encontrado com o Senhor, mudando Jesus se declara a videira verdadeira, cujo agricultor é o Pai completamente o rumo da própria vida (tinha visto o Se- (v. 1). No passado, Israel fora comparado à vinha (cf. Jr nhor no caminho); b. ter entrado em comunhão com Jesus, 2,21; Is 5,1) que não correspondera às expectativas de Javé, escutando-o (o Senhor lhe havia falado); c. ter-se compro- que a plantara na esperança de vê-la produzir frutos de metido decisivamente com Jesus (Saulo, na cidade de Da- direito e justiça. Contudo, os frutos dessa vinha foram a masco, havia pregado publicamente o nome de Jesus). Lu- transgressão do direito e a violência (cf. Is 5,7). cas salienta esse último aspecto, classificando a pregação 9. Jesus se denomina "a verdadeira videira", ou seja, só do convertido de ousada (em grego, parresia. O mesmo ele é capaz de produzir os frutos que Deus espera, ou se termo é empregado a seguir, quando afirma que ele discutia quisermos, só nele é que poderemos realizar o que o Pai com os judeus de língua grega, v. 29). Sua pregação é ouanseia. Dessa forma ele se apresenta como a única alternasada porque provoca conflito, envolvendo em primeira tiva para a realização do direito e da justiça. Nesse sentido pessoa o pregador. Essas três características são suficientes ele é verdadeiro, isto é, autêntico e fiel: a verdadeira videipara que ele seja considerado discípulo do Senhor, tendo ra. plena liberdade e comunhão entre os irmãos (v. 28). 10. O Pai, por sua vez, é o agricultor, ou seja, o que põe em 4. Como acontecera em Damasco, onde a pregação acaração seu projeto de instaurar na terra o direito e a justiça, a retara ameaças de morte (vv. 23-24), também em Jerusalém liberdade e a vida para todos. Portanto, as raízes da comuo anúncio de Jesus provocou conflitos, fazendo com que os nidade cristã, chamada a dar frutos em Cristo, são Jesus e o judeus de língua grega procurassem matá-lo (v. 29). Como Pai. Este, como bom agricultor, cuida da videira, com o reage a comunidade cristã quando um de seus membros é intuito de fazê-la frutificar. O cuidado do Pai transparece "marcado para morrer"? A atitude básica sugerida pelo no texto sob a imagem da poda. No início da primavera o texto é a da solidariedade que visa a conservar a vida do viticultor seleciona os melhores ramos, podando-os e elievangelizador. Foi assim em Damasco (v. 25), e em Jerusaminando os que não serão produtivos. É a poda seca, quanlém (v. 30): os irmãos mandam Saulo para Tarso, sua terra do os ramos ainda não brotaram. Algum tempo depois, natal. quando os novos ramos já se desenvolveram razoavelmen5. O v. 31 que fala da paz vivida pelas comunidades na te, a ponto de mostrar os cachos ainda pequenos, procede à Judéia, Galiléia e Samaria, consolidando-se e crescendo no poda verde, eliminando os brotos que não apresentam frutemor do Senhor e crescendo em número é uma espécie de tos. É importante lembrar que sem a poda a videira, dentro "retrato da comunidade". Essa paz não é devida à ausência de alguns anos, torna-se estéril e acaba morrendo. Podar,