O AMOR GERA COMUNIDADE BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulus, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: B – TEMPO LITÚRGICO: 6º DOMINGO DA PASCOA– COR: BRANCA
I. INTRODUÇÃO GERAL O amor é a essência da vida de Deus e das pessoas. O Pai ama o Filho comunicando-lhe o Espírito Santo. Jesus nos ama infundindo-nos seu Espírito, tornando-nos seus amigos e companheiros de luta na implantação do projeto de vida. Assim formamos comunidade com a Trindade (Evangelho Jo 15,917). O amor gera comunidade entre as pessoas, levando-as a superar barreiras, pois ele não discrimina por nenhum motivo (1ª leitura At 10,25-26.34-35.44-48). Amar é compromisso sério com o povo que sofre, pois ninguém conhece Deus a não ser a partir da solidariedade com os empobrecidos (2ª leitura 1Jo 4,7-10). Amar ou não amar: eis a questão. Aí se joga a sorte do cristianismo e de qualquer religião, pois sem o amor nem o próprio Deus existe.
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II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (At 10,25-26.34-35.44-48): O amor que não discrimina
25ss), quebrando as barreiras porque o Espírito o precedera na missão. É importante, ainda, notar que Cornélio e sua família recebem o Espírito antes de serem batizados, ou seja, ao ouvir o anúncio da Palavra (vv. 44-46), ao aderir ao Evangelho que lhes é anunciado. O rito do batismo (vv. 47-48a) é conseqüência dessa adesão, selando o compromisso comum a todos em torno do projeto de Deus.
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O amor de Deus, portanto, não discrimina. E a Igreja? Por ser semente do Reino, também não deve discriminar, mas unir em torno do que é essencial. Tarefa árdua para quem anda carregado de preconceitos, receios e bloqueios. Pensemos no "estágio" de Pedro na casa de Cornélio, onde se detém por alguns dias (v. 48b), tendo que superar os preconceitos de raça, religião e pureza ritual. Ele deve "engolir" o que considerava "profano e impuro", mas que Deus purificou (v. 15) pela prática da justiça. O pedido da família de Cornélio, a fim de que Pedro ficasse aí hospedado por alguns dias, foi motivado pelo desejo de continuar a catequese. E a catequese de Pedro devia estar isenta de preconceitos, pois o amor de Deus (e dos cristãos) não pode discriminar. (Maior aprofundamento desse tema encontra-se no artigo "O Espírito sopra onde quer – Uma meditação sobre Atos 10", em Vida Pastoral, 201, ano 39 (julho-agosto de 1998), pp. 7-12.) 7.
No plano dos Atos dos Apóstolos o cap. 10 é de capital importância por ser considerado o Pentecostes dos pagãos. Lucas registra esse fato conferindo-lhe importância igual ou até maior que a do Pentecostes (cap. 2) e da conversão de Paulo (cap. 9). Com isso ele pretende sublinhar alguns aspectos básicos: 1. o amor de Deus não discrimina; 2. o Espírito é o verdadeiro motor da missão, levando a Igreja para fora dos limites em que teimava permanecer; 3. a missão depende es- Evangelho (Jo 15,9-17): O amor gera comunidade sencialmente da obediência ao Espírito; 4. ser Igreja é não 8. O trecho do evangelho de João escolhido para este dodiscriminar, mas unir a todos em torno do essencial. mingo pertence aos acontecimentos que marcam a despedida de Jesus durante a Ceia (13,1-17,26). É sob a ótica do testa3. Cornélio, chefe de cem soldados (centurião), era pagão mento que se poderá entender melhor o presente texto. O tesresidente em Cesaréia. Apesar de ser "piedoso e temente a Deus" (10,2) era considerado inimigo nacional. Os judeus tamento de Jesus a seus discípulos abraça temas diversos. O texto de hoje dá seqüência ao do domingo passado. Aí a ênfase deviam abster-se de qualquer contato com os pagãos, sobretuera colocada no permanecer em Jesus, como os ramos (comudo no que diz respeito às refeições em comum, em vista da nidade de iguais) estão unidos à videira; aqui, a ênfase recai pureza ritual. A visão de Pedro (vv. 12-16) caracteriza muito bem o conflito: sob a ótica judaica, os pagãos são "coisa pro- sobre o resultado do permanecer, que é o amor (que se traduz em frutos, isto é, missão). De fato, nos versículos de hoje, fana e impura" (v. 14). insiste-se fortemente nas palavras amar, amor (9 vezes), que 4. O amor de Deus, porém, não discrimina, aceitando quem são o fruto de quem permanece unido a Cristo. No discurso de o teme e pratica a justiça (v. 35). Cornélio, antes de ser batiza- despedida de Jesus (13,1-17,26), é revelado à comunidade o do e apesar de ser incircunciso está em comunhão com o pro- segredo do sucesso na missão. Para dar frutos duradouros a jeto de Deus. Lucas o comprova mostrando duas característi- comunidade precisa ir (v. 16), ou seja, sair para a missão. cas desse pagão: é solidário com as pessoas (dá muitas esmolas ao povo) e vive em sintonia com Deus (ora a Deus constan- 9. Os vv. 9-10 falam do amor que circula entre o Pai, Jesus e a comunidade cristã, criando comunidade de amor. Jesus afirtemente). O temor de Deus se traduzia na oração, e a prática ma: "Como o Pai me amou, assim também eu amei vocês" (v. da justiça na solidariedade com o povo oprimido. Isso é sufici9). O amor do Pai para com o Filho se resume na comunicação ente para agradar a Deus! do Espírito (cf. 1,32-33), e o amor de Jesus para os cristãos 5. Quem age assim já está dentro do projeto divino. Aí o também se sintetiza na efusão do Espírito sobre a comunidade Espírito já está agindo, superando aquela barreira, tida como que crê (cf. 7,39). Cria-se, dessa forma, laço estreito e forte intransponível, que dividia judeus e pagãos. O Espírito, por- entre a Trindade e a comunidade cristã, na qual a própria vida tanto, caminha à frente dos missionários. A conversão de Cor- trinitária circula, e se visualiza no relacionamento fraterno e nélio não é mérito de Pedro; é fruto do Espírito que une pela solidário entre as pessoas. Esse clima é a síntese dos mandaprática da justiça. A missão, portanto, depende essencialmente mentos, de forma que cumpri-los é conservar-se no amor (v. da obediência ao Espírito. Com isso Lucas ilumina duas ques- 10). Conservar-se no amor, portanto, não é situação passiva, tões que inquietavam os primeiros cristãos: 1. É legítima a mas dinamismo que gera comunidade fraterna. De fato, Jesus missão junto aos pagãos? Quem a garante? 2. Os pagãos, ao se não se dirige a pessoas individualmente; dirige-se à comunitornarem cristãos, precisam ser circuncidados, ou a circunci- dade cristã como um todo. Por isso, permanecer nele e no Pai são é pura questão cultural? O texto de hoje esclarece essa não significa isolar-se no verticalismo, mas expandir-se, cridúvida: quem legitima a missão junto aos pagãos é o Espírito ando laços entre as pessoas. O amor a Jesus e ao Pai leva a de Jesus, que leva à comunhão com Deus e à prática da justiça. gerar comunidade de irmãos. É isso que Pedro constata ao chegar à casa de Cornélio (v. 10. Jesus cumpriu os mandamentos do Pai (v. 10). Eles sintetizam o projeto de Deus e a atividade do Filho em favor da 2.