Fotógrafos
JOÃO MARIANO
Quimera do medronho Texto: Marcos Fernandes
em sais de prata
João Mariano habituou-nos a reportagens sobre actividades tradicionais do sul ocidental português. O mar costuma ser tema de eleição. No último projecto fotográfico mantém a reportagem na região, que apelida de “laboratório de emoções” e “imenso atelier”, mas revolta outras águas. Ardente defensor das tradições, João Mariano faz provas da destilação de aguardente de medronho.
Da série Alambiques & Alquimistas, projecto sobre os ambientes vividos em destilarias de aguardente de medronho das serras algarvias de Monchique e de Espinhaço de Cão © João Mariano 068
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Da série Alambiques & Alquimistas © João Mariano
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empos houve em que homens se dedicaram a misturas químicas em busca de quimeras da pedra filosofal ou da cura para todos os males. Em plena era científica, e mais de um século depois de se terem banido os últimos fantasmas sobre a Fotografia ser magia negra, eis que as imagens de João Mariano revelam o mágico processo de destilação da aguardente de medronho nas serras algarvias. Para o livro Alambiques & Alquimistas (edição 1000olhos), o fotógrafo partilhou passos e espaços dos magos que fermentam e destilam medronho, moldou uma luz que admite ser dramática, cuja escassez tanto alinda a imagem como dificulta o acto de fotografar. Entre dedos de conversa, odores etéricos, e uma ou outra dificuldade
em focar a objectiva e a visão, João Mariano apresenta o fruto do trabalho. Alambiques & Alquimistas pode ser adquirido na Galeria P4Photography, em Lisboa, ou na Internet, no site da agência de comunicação 1000olhos (www.1000olhos.pt). Depois de epopeias fotográficas sobre apanhadores de percebes e de algas no sudoeste, este multipremiado com o European Press Photo Awards e reconhecido pelo Prémio Fotojornalismo Visão, entre outros, brinda-nos, agora, com nova reportagem e o velho espírito. Foto Plus - Alambiques & Alquimistas é o novo livro. Que projecto é este? João Mariano - É o resultado de um trabalho de investigação sobre
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um tema que conheço desde miúdo. Eu sou de Aljezur. Quando era novo visitava destilarias da região e via aqueles ambientes fumarentos, zonas de claro-escuro, com iluminação muito pontual. Notei que tudo aquilo podia resultar do ponto de vista estético em fotografia e comecei a fazer o levantamento exaustivo das destilarias de aguardente de medronho das serras algarvias. Foram três anos a trabalhar, não incessantemente mas nos períodos em que a destilação é feita, entre Novembro e Março de 1997, 1998, e 1999. Acompanhei o dia-a-dia dos destiladores. É um trabalho muito pausado: colocar o medronho dentro da caldeira, puxar fogo à lenha, e esperar que a caldeira entre em ebulição, que o líquido se evapore e depois condense em aguardente.
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como documento histórico, como registo de uma actividade que já é diferente. E será diferente, no futuro. FP – No prefácio do livro, Teresa Resende diz que as intervenções da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica tiveram um efeito psicológico devastador sobre os destiladores de aguardente de medronho, que se sentiram intimidados com intervenções das autoridades, por praticarem uma actividade tradicional que carece de condições de produção impostas pela Lei. A
Da série Alambiques & Alquimistas © João Mariano
FP – O trabalho terminou em 1999. Porque só vê a luz do dia agora? JM – Ele foi apresentado na VI Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, em 1999, como consequência de eu ter sido um dos vencedores da bienal anterior, em 1997. Na altura, penso que não foi editado condignamente. Acabei por avançar com outros projectos e agora julguei que era o tempo ideal para o publicar, tendo em conta a conjuntura. Os destiladores estão assustados por causa das fiscalizações. Fecharam as portas. Não mostram o que fazem. Muitos já morreram. Há menos destilarias. Há menos produção. E trata-se de um produto que é nosso, que só se faz em Portugal! Pensei que, para além do ponto de vista estético do trabalho, a publicação em livro funciona
Da série Guerreiros do Mar, projecto sobre a actividade dos “percebeiros”, como são designados os apanhadores de percebes, do Sudoeste português © João Mariano 070
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defesa de uma tradição é, também, o objectivo do livro Alambiques & Alquimistas? JM – Julgo que sim. Penso que as fiscalizações fazem sentido mas não se pode apenas impor restrições, com penalizações por a higiene não ser mais cuidada. Tem que haver acções de sensibilização. E os ambientes das destilarias têm que se manter porque não se pode industrializar uma actividade destas, sob pena de se perder o que de genuíno ela tem. A aguardente de medronho só é destilada em Portugal. FP – O design do livro é original. Surgem fotografias em pequenos Da série Guerreiros do Mar © João Mariano
negativos nas páginas esquerdas e depois é preciso desdobrar as páginas direitas para ver as imagens em positivo. Houve alguma intenção em criar o livro desta forma? JM - A actividade dos destiladores não é vista à luz do dia. A maior parte das pessoas não sabe onde é feita. O livro também permite ser folheado
Da série Trabalho_de_Fundo, projecto sobre a apanha submarina de algas no Sudoeste português © João Mariano 071
sem que se vejam as fotografias. A minha intenção foi a de criar um paralelismo entre a revelação do negativo e a revelação das fotografias à medida que se vê o livro. FP - O que mais o fascinou ao fotografar as destilarias de aguardente de medronho? JM – O que me fascina em todos os trabalhos que envolvem pessoas: a convivência, as conversas, as histórias que são contadas. Vou partilhar algo muito engraçado! O destilador costuma estar sozinho a trabalhar no meio do monte, e existe o costume de aparecer um vizinho de vez em quando, e mais tarde outro... Geram-se conversas muito engraçadas! Manda a tradição que quem aparece tem que pagar uma rodada! Claro que não é com dinheiro! É encher os copos a todos! Bebe-se um, bebe-se outro, e mais outro. Chega-se a uma altura em que, para além dos vapores do ambiente etérico, já há ali um certo… (risos)
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Da série Trabalho_de_Fundo © João Mariano FP - Já se torna difícil focar a objectiva… JM - (risos) Um bocadinho! Um bocadinho… Este trabalho bem que podia evocar aquilo que o Robert Capa dizia no livro Slightly Out of Focus: está ligeiramente fora de foco mas está lá! O que interessa é que a essência ficou captada! FP - As fotografias no Alambiques & Alquimistas são tendencialmente densas, escuras. É algo relativamente constante nos seus projectos. É uma opção estética? JM – Neste caso, a iluminação era pontual. Aquela incidência da
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luz dramatiza um pouco mais as destilarias. A luz ajuda a estetizar aqueles ambientes. Para além da iluminação natural tive a ajuda de algumas lanternas e candeeiros a petróleo. Nada mais do que isso. FP – O João Mariano tem trabalhos a cores. Outros são a preto-e-branco. É o caso deste. Porquê? JM - Há trabalhos que têm que ser fotografados a preto-e-branco. O Alquimistas a cores, como o Guerreiros do Mar a cores, não fariam sentido. Penso que a cor distrai um bocado. O preto-e-branco acentua o detalhe, o gesto, e a feição. Quando se olha para uma parede policromática vê-se a cor e não a geometria. 072
FP – O Alambiques & Alquimistas volta a centrar-se em actividades tradicionais do sudoeste alentejano e da costa vicentina. É nova confirmação de ser o seu espaço de eleição para fotografar? JM - Eu sou de Aljezur e vivo muito a minha terra. Conheço muito bem desde miúdo todas as actividades tradicionais. Quando era pequeno ia com o meu pai pescar para as falésias... Os meus tios tinham casas no campo... Penso que os temas que abordo nunca tinham sido explorados condignamente. Estive um ano inteiro a acompanhar os apanhadores de percebes para o Guerreiros do Mar. O Lugares Pouco Comuns foi feito ao longo de nove anos. Percorri a Costa Vicentina a pé, a tirar notas
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Fotógrafos e a fotografar. Estive quatro verões a acompanhar a apanha de algas, para o Trabalho_de_Fundo. Tento fazer o levantamento das actividades ligadas ao mar e do que é genuíno daquela zona. FP – Quer documentar actividades antes que entrem em extinção? JM - A apanha de algas entrou. A apanha de percebes ainda se faz de uma forma legislada. Já as falésias ficam diferentes todos os dias. Há sempre uma parte que se desmorona… FP – Que projecto fotográfico lhe deu mais gozo fazer? JM - Foi o primeiro, o Guerreiros do Mar. Não há amor como o primeiro, como se costuma dizer! Foi um desafio muito grande, em termos pessoais e profissionais. Na altura, eu era editor de fotografia do Grupo Fórum, tinha um trabalho de fotojornalismo, fazia fotografia documental de viagens. Nunca tinha desenvolvido um projecto aprofundado como aquele. Acompanhei pessoas que conhecem bem a apanha de percebes, que vivem daquilo. Tive que me equipar como eles, com um fato, ir nadar para as rochas, com a máquina fotográfica num saco estanque. Vivi o dia-a-dia deles. Fui um apanhador de percebes com uma máquina nas mãos! E passei momentos emotivos. Vi pessoas a cair e outros sustos. Senti algo mais forte do que o próprio facto de estar a fazer aquela reportagem.
Da série Faceless, ensaio fotográfico que gira em torno dos mais importantes acontecimentos da moda portuguesa. É uma abordagem subjectiva, não moralista, realizada sob a perspectiva da desconstrução de determinados lugares-comuns associados à massificada/globalizada utilização da imagem. Não é um projecto de moda ou sobre moda. É um trabalho que utiliza o universo da moda para reflectir sobre ideias e conceitos estéticos inerentes ao mundo imagético © João Mariano
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FP – Tem vários trabalhos publicados por iniciativa própria. Podemos considerá-lo um freelancer? JM - Um fotógrafo freelancer depende exclusivamente do seu trabalho para subsistir. Eu tenho uma agência de comunicação, a 1000olhos. Posso dizer que sou um artista em part-time. Faço trabalho de autor em fotografia em paralelo com o da agência. Aqui, para além da fotografia
Fotógrafos noutra perspectiva, faço trabalho de gestão e de design gráfico. FP – Considera difícil, em Portugal, que fotógrafos subsistam apenas com trabalho de autor? JM - Penso que é necessário haver um suporte, um trabalho paralelo. Para se fazer um livro de fotografia são precisos patrocinadores que viabilizem economicamente todo o projecto, desde a concepção. Mas, no meu caso, a fonte de rendimento é a 1000olhos. Não dependo só dos trabalhos de autor. FP - Também extrai rendimento da venda de provas fotográficas dos trabalhos pessoais? JM - Mais da venda de provas do que dos livros. Comecei por fazer uma série de cinco imagens, para venda, no Guerreiros do Mar e tenho feito séries de 10 nos últimos trabalhos. A procura aumentou. FP – E, por vezes, é difícil encontrar livros de fotógrafos portugueses… JM – Chega-se a uma livraria e vêem-se poucos livros de fotógrafos portugueses. E eles existem! Era bom que houvesse secção para fotógrafos nacionais nas livrarias, ou, pelo menos, que os livros tivessem mais visibilidade.
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são muitos mas há bons autores em Portugal, quer no campo artístico, como no documental, como onde me situo, no meio. Há gente a produzir coisas muito engraçadas. FP – Quais são os fotógrafos nacionais, e estrangeiros, que tem como referência? JM – São muitos… Gosto bastante de Martin Parr, que não tem nada a ver com o registo do Alquimistas mas antes com outras coisas que tenho feito. Também gosto bastante do trabalho de Paulo Nozolino, e dos clássicos, como o Robert Capa. Aprecio Flor Garduño… E muitos outros. Gosto da forma como cada um se posiciona na Fotografia, como aborda os temas. FP – Que material fotográfico usa? JM – Hoje em dia, para os trabalhos mais comerciais, uso uma Nikon D2X. Os trabalhos a preto-e-branco foram quase todos feitos com uma Nikon F3. Usei uma Mamiya 6x7 no Lugares Pouco Comuns, que permite pôr uma máscara para panorâmicas. As objectivas são 28 mm e 50 mm. A película de sempre é o lendário todo-
-o-terreno da Kodak: o Tri-X-Pan. Tem um comportamento e um grão/ contraste inigualáveis. FP – Material digital para fotografia comercial e material analógico para trabalho de autor… JM – Fiz um trabalho pessoal, que está online, em suporte digital. É o «(…) If you want somethin’ don’t ask for nothin’, if you want nothin’ don’t ask for somethin’! (…)». Foi baseado numa música dos Arcade Fire, o Neighborhood #2 (Laika)… Mas sobre as máquinas serem digitais ou analógicas, penso apenas que são um meio para atingir um fim. Não me preocupo muito com a distinção de suportes. A parte técnica da fotografia é quase como conduzir um automóvel. É preciso saber onde está o acelerador, o travão, e as mudanças, mas quando se conduz não se olha para o manípulo nem se pensa quando se vai travar. Caso se pense muito na parte técnica quando se carrega no obturador, o que se tinha visto já desapareceu! Claro que é necessário saber para que servem as funções na máquina, mas
FP – O João Mariano considera-se um fotógrafo artístico ou documental? JM - Acho que estou entre um coisa e outra. Estou num limbo! Não sou fotojornalista porque não faço fotojornalismo. E não sou artista porque não vivo em exclusivo da arte. Sou um fotógrafo. Ponto final. FP – O que pensa da fotografia portuguesa? JM - Respira bastante saúde. Não digo que
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Fotógrafos o essencial é fotografar muito, muito, muito. FP – Que projectos fotográficos pessoais se vão seguir? JM - Tenho dois. Estou a preparar uma exposição com o Luís Trindade (P4Photography) para 2008 ou 2009. Será um trabalho com preparação grande. Ainda não posso dizer sobre o que se trata! Também estou a fazer, com duas colegas, um livro sobre profissões tradicionais em Portugal. São cerca de 50, das mais emblemáticas. Já fiz o ferreiro, o fotógrafo de rua… Falta fotografar três profissões. Este vai ser um álbum com uma vertente mais comercial. Será um trabalho a cores. A cores a sério!
Da série Bastidores da Ópera Chinesa – Macau. Com uma minúcia ancestral, os protagonistas da Ópera Chinesa vão dando forma às personagens que interpretam no palco. São os longos e pausados momentos que antecedem a representação que aqui são mostrados. Momentos delicados, cúmplices, rigorosos... mas também alegres e descomprometidos. © João Mariano
Da série Plastic Summer » Um tributo a Martin Parr As estâncias de férias, e principalmente os parques de diversão aquáticos, ao redor do mundo, são um dos melhores locais para assistir ao crescente fenómeno da globalização. Não importa se estamos em Portugal, na Tunísia, na África do Sul, no Brasil ou no Dubai… a exuberância, a cor, a excitação e o aspecto das pessoas, assim como os locais de diversão são os mesmos. Se alguém for colocado de olhos vendados dentro de um destes complexos é-lhe praticamente impossível detectar em que parte do globo se encontra. © João Mariano
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