Josテゥ Marquez UM CAMPEテグ DO CICLISMO
Celeste Henriques Marquテェs Ribeiro de Sousa
JOSÉ MARQUEZ UM CAMPEÃO DO CICLISMO
(1910 – 1991)
Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa
JOSÉ MARQUEZ UM CAMPEÃO DO CICLISMO
(1910 – 1991)
Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa
Copyright 2012 da autora Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, da editora. Título José Marquez, um campeão do ciclismo Editor: Jaime Benutte Produção editorial: ERJ Composição Editorial Capa: Marcelo Paton Impressão e acabamento: IBEP Grafica Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S713j Sousa, Celeste Henriques Marquês Ribeiro de José Marquez : um campeão do ciclismo / Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa. São Paulo : Pátria, 2012. ISBN 978-85-63831-03-3 1. Marquez, José. 2. Ciclistas - Portugal - Biografia. 3. Ciclismo - História. 12-3761
CDD: 927.9662 CDU: 929:796.61
Homenagem a meu pai, que, com seus sprints e records, revolucionou o ciclismo portuguĂŞs de seu tempo
Sumário Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .VI A casa paterna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica . . . . . . . . . .11 No Sporting . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15 No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) . . . . . . . . . . . . . . . . . . .21 Na VI Volta a Portugal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 Entrevistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .81 A história do burro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .96 Escritos de admiradoras(es) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .99 Em 1936 e 1937 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 No Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 O grande amor e o casamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 O retorno ao Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
Apresentação Sou a filha única de José Marquez1, um campeão do ciclismo em Portugal da década de 1930, nasci em Vila Chã de Ourique e vivo, desde 1967, em São Paulo – Brasil. Agora, que estou aposentada e disponho de tempo para revolver as coisas do passado, dando forma às minhas próprias memórias pessoais, eis que, mais uma vez, me deparo com minhas raízes e com a suprema e decisiva importância da presença de meu pai em minha formação e no traçado dos rumos que minha vida haveria de tomar. Hoje, com a necessária distância emocional, posso aproximar-me do homem que não conheci e que haveria de ser meu pai, do homem que chegou a ter grande projeção nacional, e mesmo internacional. O homem, o pai, que conheci e com quem convivi era uma pessoa muito simples, sem vaidade, avessa a autopromoções, disciplinada, séria, altamente seletiva nas amizades, leitora voraz de jornais e de livros técnicos2, extremamente habilidosa, inteligente e ativa − um irrequieto vulcão sereno. Algumas destas características são responsáveis pela tardança desta minha homenagem, que também é uma contribuição, ainda que pequena, à história do ciclismo em Portugal e também no Brasil. Agradeço a João António Esteves Pratas a observação feita há alguns anos sobre o fato de não haver documentação acerca do ciclista José Marquez, observação que não foi esquecida. Ao revolver as coisas do passado, como dizia, volto a encontrar-me com o cofre azul deixado por meu pai. Lá dentro estão guardadas várias coisas, desde documentos a um porta-moedas português de couro com seus últimos escudos e tostões, ali deixados de recordação, alegoria de uma última raiz fincada no país natal.
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A mudança de Marquez, nome original constante do Registo de Nascimento, para Marquês, deve-se a uma reforma ortográfica, implementada pelo governo português. Alguns exemplos de sua estante: Electricidade e mecânica, exemplar da revista científica de engenharia prática e de ensino técnico; Cálculo das rodas de muda dos tornos, de Georg Knappe; Tabela de pesos de metais, de F. Campos; Manual de mecânica automóvel, do Eng. Rui de Sousa; Manual do fundidor e Torneiro e frezador mecânicos, ambos da Biblioteca de Instrução Profissional, fundada por Thomaz Bordallo Pinheiro; Micromotor pachancho, da fábrica nacional de pistões “pachancho”; A lambreta: manutenção e reparação, de Francisco R. Landi; etc.
Mas, como ia dizendo, além do cofre azul, feito por ele mesmo, com documentos pessoais e outros objetos, do álbum de fotografias e do amontoado de recortes de jornais e revistas, há também uma série de taças, inúmeras medalhas, uma caixinha de ébano para guardar selos, decorada com motivos florais de prata, e uma imagem da Virgem Maria com os três pastorinhos, também em prata, aplicada sobre um círculo de madeira igualmente de ébano, à laia de moldura, que, imagino eu, também tenham sido ganhas como prêmios. A seleção dos recortes e das fotos desenha, por si só, a perspectiva com que meu pai vivenciou as experiências dos dourados anos 30 de sua existência. Por isso, respeitei a seleção, da qual retirei os exemplos mais representativos, como parte válida para o corpus desta biografia que tento montar neste livro, em sua homenagem e à sua memória. Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa
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Apresentação
Além de documentos pessoais, há também um álbum de fotografias e um grande amontoado de recortes de jornal, a imensa maioria sem data, sem referência à fonte, difícil de ordenar, passados tantos anos. Apenas títulos, reportagens, entrevistas, capas de revista, fotos legendadas de jornal, cartas, postais. Folheando o álbum, por exemplo, é claramente perceptível que começou a ser montado com as fotos e reportagens das corridas no Brasil. Posteriormente, foram-lhe acrescentadas fotografias e recortes de reportagens anteriores, relativas às V e VI Voltas a Portugal. Outras fotografias de eventos desportivos mais recentes vêm em seguida. Tendo terminado o espaço do álbum, José Marquez volta ao início e começa a inserir fotos novas nos intervalos existentes, anulando as distâncias entre o passado e o presente.
1951 – José Marquez e a filha
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
A casa paterna
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a freguesia do Casal do Ouro, nome antigo de Vila Chã de Ourique, no concelho do Cartaxo, distrito de Santarém e província do Ribatejo, em Portugal, nasce no dia 8 de junho de 1910, no fim da primavera e começo do verão, sob o signo de Gêmeos, uma criança do sexo masculino, a quem é posto o nome de José Poucapena Marquez1 ocasião em que os astros, sobretudo Mercúrio, ou Hermes, o mensageiro, ficam em dúvida se devem agraciar o nascituro com uma gloriosa carreira, ou abandoná-lo ao anonimato, à segurança e à tranquilidade da herança paterna, como proprietário de vinhas e olivais, ao abrigo de um casamento burguês-rural aconchegante. Na incerteza (o signo é ambíguo), os astros optam pela junção das polaridades, criando a encruzilhada permanente. São seus pais Manoel Poucapena Marquez, um homem assaz introspectivo, moreno, de olhos castanhos, bastante alto e esguio, sempre com um barrete preto na cabeça, e Maria Santa Martha, uma mulher extrovertida, loura, de olhinhos azuis, de estatura baixa e cheinha, cabeça sempre coberta por um lenço claro. Seus bisavós ou avós paternos (António da Costa Poucapena) ou maternos (Simplício Manaio e Gertrudes Santa Martha) teriam vindo de Leiria, a serviço do Marquês de Nisa (daí a adoção posterior do sobrenome Marquez). Chamava-se o 9º Marquês de Nisa Domingos Vasco Teles da Gama, proprietário da Quinta e do Palácio dos Chavões, local abandonado no meu tempo de menina, onde o povo de Vila Chã costumava passar o dia da Espiga. O Palácio dos Chavões 1
A mudança de Marquez, nome original constante do Registo de Nascimento, para Marquês, deve-se a uma reforma ortográfica, implementada pelo governo português.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
fica localizado dentro da Quinta dos Chavões − herdade com cerca de 180 hectares − na freguesia de Vila Chã de Ourique. Este palacete foi, em seus tempos áureos, umas das mais imponentes residências senhoriais do Ribatejo. Sua fundação data do século XIV, sendo apontada a data de 1345 para a edificação do núcleo primitivo da casa. Sabe-se que, em 1382, era designada como “Casa dos Chavões” e que já estava habitada.2 Ao chegar ao mundo, José já encontra um irmão bem mais velho. O primogênito tem 10 anos e chama-se Manuel, como o pai. Moram, e sempre moraram, rente à rua de terra batida, hoje Rua José Jacinto Nogueira, numa casa simples com uma grande sala de entrada em que há uma mesa de abas, várias cadeiras, uma cômoda enfeitada por duas jarras de vidro, de bocas folhadas e avivadas a ouro, pintadas em fundo azul com ramos de delicadas flores, das quais um exemplar ainda guardo comigo, como relíquia. Além das preciosas jarras, compõem a cômoda dois castiçais de vidro trabalhado, até hoje preservados, e mais alguns bibelots. À direita, há uma arca enorme de madeira preta, onde as roupas são guardadas. E, nas quatro paredes, bem junto ao teto e inclinadas, de modo a serem admiradas com facilidade por quem olhe para cima, encontram-se várias estampas coloridas de belas damas emolduradas. À esquerda, perto da porta de entrada, abre-se a porta que leva ao quarto do casal, preenchido por uma grande cama de ferro trabalhado. Mais à frente, também à esquerda, abre-se outra porta que dá para a cozinha. Aqui chama a atenção a chaminé interna. 2
“Nesta mesma data, o cavaleiro Lourenço Gonçalves, proprietário e possivelmente seu edificador, deixou a propriedade à Igreja de Santo Estevão de Santarém. Até meados do século XV, a ‘Casa dos Chavões’ ficou integrada nos bens do templo escalabitano citado atrás, passando, em 1468, novamente a propriedade particular. Desde meados do século XV foi pertença de vários particulares (Afonso de Matos, Francisco de Matos, Simão de Matos, Diogo de Matos, Francisco Tristão, Manuel Coelho e Ana Lobata). Em 1590, a Quinta dos Chavões tornou-se propriedade de Rui Teles de Menezes, senhor de Unhão. Foi também Rui Teles de Menezes quem, no início do século XVII, propôs obras na estrutura do paço medieval, transformando-o num solar maneirista de grandes dimensões. Nos Chavões esteve também D. Pedro II, sendo este local palco de secretas reuniões dos seus conjurados, e que em 1640 proclamaram a Restauração da Independência, face ao domínio de Espanha. Ao nível estético, o palácio tem um pátio quadrangular central, e desenvolve-se numa planimetria em ‘U’, muito comum na arquitectura senhorial seiscentista. A fachada principal apresenta muitas semelhanças com o palácio quinhentista da Quinta das Torres de Azeitão. O Palácio dos Chavões manteve praticamente intacta a estrutura maneirista ao longo de vários séculos, até que em meados do século XIX, entre 1846 e 1848, D. Domingos Teles da Gama, marquês de Nisa e proprietário dos Chavões, mandou executar obras de alteração na estrutura dos dois corpos laterais. Estes, tal como a fachada posterior da casa, adquiriram uma feição neo-gótica. No conjunto do palácio, estava ainda integrada uma capela, dedicada a Santo Amaro, que ficou destruída num incêndio ocorrido em 1909. O seu actual proprietário adquiriu-o em 1980, na altura em que estava a ser usado como curral de ovelhas e encontrava-se num completo estado de abandono. Actualmente recebeu a designação de Imóvel de Interesse Público.” http:// pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_dos_Chav%C3%B5es. Acesso: 13/09/2011.
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José Marquez com Leonardo Caetano à porta de casa
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A casa paterna
Na parede que desce do teto e a cobre pela metade, bem no meio da trava de madeira de sustentação, está sempre pendurada uma candeia de azeite, que à noite alumia o cômodo. Mas, além desta luz, no inverno, há também a claridade e o calor das brasas da fogueira ali acesa, onde a cada um dos lados costumam sentar-se em banquinhos baixos, chamados mochos, Manoel Marquez e Maria Santa Martha, meus avós paternos já velhos, para conversarem e cismarem. À esquerda de quem entra na cozinha, vindo da sala, há uma outra porta que leva ao quarto dos filhos. Ali estão duas camas de solteiro também de ferro trabalhado. Da cozinha desce-se ao quintal, de tamanho médio, por uma escada de pedra de três degraus. À esquerda ergue-se, sob um telheiro, um forno de cozer pão, e, por cima deste complexo, a figueira de figos roxos abre sua ramagem frondosa. À direita, outro complexo de alvenaria anuncia-se. Pegada à casa, está a adega, onde se encontram barris pequenos de água-pé, fardos de palha e uma grande, bastante grande arca preta, que guarda as amêndoas, provenientes de uma amendoeira existente na vinha “Lourenço”, sempre ansiosamente esperadas, porque um tanto raras na região, bem como outros cereais. Formando um ângulo reto com esta adega, segue-se o palheiro, onde a mula habita, e, mais ao fundo, o grande portão da casa, que dá para uma ruazinha particular entre a propriedade do Manoel Marquez e a de Manoel Botelho, oferecendo também saída para o quintal da Srª. Guilhermina, que com um portão fecha a ruela numa das pontas; a outra ponta desemboca, então, na rua principal.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Seguindo esta rua principal, vê-se, à esquerda, do lado de cá, fazendo esquina com a Rua hoje denominada Mariano de Carvalho, o sobrado do Sr. Manoel Botelho e, do outro lado, em frente, o casarão do Sr. José Jacinto Nogueira e da Srª. Dona Sara. À direita, do lado de cá do cruzamento, ergue-se o palacete da Srª. Dona Raquel, filha do Sr. Botelho e, em frente, do lado de lá, está o Largo da Memória, o Largo da Igreja Matriz (onde tanto brinquei no intervalo das aulas do curso primário), assinalado pela estátua do anjo, de rosto sério, os braços erguidos, segurando e mostrando, de cima de um grosso pedestal circundado pelos quatro primeiros reis da primeira dinastia, um escudo com cinco quinas. O anjo teria aparecido a D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, travada contra os mouros em 25 de julho de 1139, incentivando-o à luta e acenando-lhe com a vitória.
Largo da Memória em Vila Chã de Ourique com a estátua do anjo que apareceu a D. Afonso Henriques, um dos reis esculpidos na lateral do monumento, acompanhado de seus sucessores
Continuando por esta rua, à esquerda da Igreja Matriz, que leva ao “Casal da Velha”, lá adiante, quando ela se torce à esquerda, sai uma outra ruazinha, sem saída. Ao final dela, há, à direita, uma pequena propriedade, conhecida como “o casal”, onde minha avó Maria Santa Martha lavava a roupa junto ao poço, rodeado por pomar e jardim. Entre as flores, uma trepadeira de flores semelhantes a cúpulas cor-de-rosa de candeeiros de vidro ainda se faz presente em minha memória. Do lado oposto, há a adega que abriga três grandes tonéis com o vinho e várias talhas com o azeite das colheitas domésticas. José Marquez nasce, por assim dizer, junto com a República. 4
No dia 5 de outubro de 1910, é constituído um governo provisório da República em Portugal, presidido por Teófilo Braga, um professor universitário. Com isto, algumas inovações são implantadas no país: a lei dos acidentes de trabalho, as leis de proteção aos filhos, a lei do registo civil. Discute-se o estabelecimento de um horário de trabalho e o direito ao descanso semanal. O ensino primário, secundário, técnico e superior, e até o Exército, são reformados. São criadas as Universidades de Lisboa e do Porto. São abolidos os direitos e títulos de nobreza. A Igreja é separada do Estado. A moeda, que era o “real”, passa a ser o “escudo”. Uma nova bandeira nacional é desenhada e um novo hino é criado. Em maio de 1911, são eleitos 200 deputados para formarem a Assembleia Nacional Constituinte e, em 21 de agosto do mesmo ano, é aprovada a primeira constituição política da República. Em 24 de agosto de 1911, Manuel de Arriaga é eleito primeiro presidente. Mas os partidos políticos não dão trégua, e as mazelas do tempo da monarquia estendem-se à jovem República. Já em 1913, Portugal conhece um segundo presidente: Afonso Costa. O pai de José Marquez, Manoel Marquez, é um médio proprietário e viticultor. O vinho serve ao consumo doméstico, mas é, sobretudo, destinado ao comércio. Já o azeite das oliveiras, plantadas à beira das vinhas, destina-se principalmente ao uso caseiro, vendendo-se o excedente.
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A casa paterna
A revolução, que poria fim à monarquia, estourara quando ele tinha três meses, na noite de 3 para 4 de outubro de 1910. O rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luis Filipe haviam sido assassinados por dois fanáticos republicanos em 1 de fevereiro de 1908, quando a família real voltava do solar de Vila Viçosa a Lisboa. O reinado de D. Carlos, chamado “o Diplomata”, havia sido marcado por muitas decepções e por muitas turbulências. Entre outros, os negros de Moçambique haviam entrado em pé de guerra com os técnicos portugueses, que deveriam estudar o percurso de uma linha férrea nas regiões do Chire e do lago de Niassa. O major Serpa Pinto havia sido enviado em socorro dos portugueses, tendo submetido os revoltosos. A Inglaterra, a quem a pesada presença dos portugueses na África incomodava, enviara ao rei e a seu governo um ultimatum, exigindo sua retirada daquelas regiões. Como não tivesse condições de enfrentar os ingleses, o rei cedera, a população portuguesa ficara indignada, e o célebre mapa cor-de-rosa desapareceria. Revoluções passaram a fazer parte do cotidiano do país. A economia estava estagnada. O príncipe D. Manuel II, segundo filho do rei, chegara a ser aclamado rei e cognominado “o Patriota”, mas diante do desenrolar dos acontecimentos, fora obrigado a exilar-se.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez está com 4 anos, quando, em 1914, estoura a Primeira Grande Guerra, em que Portugal, por ser eterno aliado da Inglaterra, é surpreendido por uma declaração de guerra da Alemanha, o que o obriga a enviar, no início de 1917 (ano da revolução dos bolcheviques na Rússia), 55 mil homens ao front francês. No contingente de homens portugueses enviados à França, encontra-se um rapaz de uns 20 anos, Josué Duarte Ruivo, que haverá de ser seu sogro, um rapaz que parte saudável e volta gaseado. Regressa alcoólatra, viciado em nicotina e dono de uma bronquite asmática que lhe haverá de corroer a vida até levá-lo à morte, aos 60 anos3. Josué traz da guerra para a amada, a namorada que, cega de paixão, enfrenta toda a família para com ele se casar, uma canequinha de porcelana branca (que guardo comigo), pintada com um delicado raminho colorido de violetas e vivos dourados, com os dizeres “Think of me” impressos em ouro. Desse casamento, nascerão duas meninas e dois meninos. A menina mais nova, nascida em 30 de junho de 1922, a Maria, haverá de, por obra do destino, arrebatar o coração do atleta já maduro, 12 anos mais velho que ela. Desde cedo, o pequeno José Marquez não mostra inclinação para os cuidados com as vinhas e os olivais. É Manuel, o filho mais velho, quem ajuda o pai nas lides agrícolas. A diferença de idade (e certamente de personalidade) faz com que José e seu irmão partilhem de bem poucos interesses comuns. Enquanto Manuel acompanha o pai às propriedades, que haverá de herdar e que haverão de determinar seu modus vivendi, normalmente, de José, nem a mãe, nem o pai sabem por onde se encontra a brincar, empurrando o arco pelas ruas esburacadas e poeirentas no verão, ou cheias de poças de água e lama no inverno. Porém, mesmo antes da guerra terminar, uma outra revolução estoura em Portugal, liderada por Sidónio Pais, que assume a presidência com a missão de pôr ordem no país, mas como não consegue fazê-lo, acaba assassinado em 1918.
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Leia-se sobre a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra o livro A filha do capitão, de José Rodrigues dos Santos.
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A casa paterna Meninos empurrando o arco. Imagem encontrada na internet.
José Marquez tem, então, 8 anos e frequenta o curso primário. Inteligente, na escola é bom aluno, o melhor da classe, segundo o testemunho de todos os que o conheceram, e também traquinas: contava-se que, no inverno, gostava de tirar pulgas do pelo do cão e colocá-las nas pantufas do professor, que as calçava ao chegar à escola. Divertia-se com as consequências de suas artes. Canto e Castro sucede a Sidónio Pais no governo da nação, enfrenta e sufoca a tentativa da restauração da monarquia, mas renuncia em 1919. Sucede-lhe, então, António José de Almeida. Em 1920, o índice de analfabetismo em Portugal é de 70,5%. Em julho de 1920, José Marquez acaba de fazer 11 anos e de terminar o curso primário com brilhantismo. Mais tarde, passa a compartilhar com os irmãos Caetano − o Jacinto e o Leonardo –, mais velhos do que ele, o entusiasmo pelo ciclismo nacional. Acompanharão juntos pelos jornais as notícias sobre as voltas a Portugal, iniciadas em 1927, e sobre seus vencedores. É por essa época que Manoel Marquez oferece a José sua primeira bicicleta; afinal, a bicicleta é, nesse
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tempo, um meio de transporte bastante popular, e a região de Vila Chã de Ourique é particularmente conhecida por seus ciclistas. O rapaz passa, então, a percorrer a aldeia e os arredores, ficando cada vez mais tempo fora de casa, longe do controle dos pais.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
É, no entanto, um adolescente puxado ao pai, um pouco introvertido, de estatura bem proporcionada, tez clara e olhos expressivos de cor cinza com matizes, às vezes, azulados, às vezes, esverdeados, conforme a luminosidade do ambiente, um sorriso aberto, solar, fazendo duas covinhas nas bochechas, muito franco e simpático, mesmo sedutor, maneiras bastante polidas, muito querido por Leonardo e Jacinto Caetano, grandes e ricos proprietários da região. Serão estes dois homens que o levarão a correr de bicicleta, experiência que o haverá de marcar para sempre.
Da esquerda para a direita: Leonardo Caetano, com o filho pequeno, José Marquez e Jacinto Caetano
No ano de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral fazem a primeira travessia aérea sobre o Atlântico, de Lisboa ao Rio de Janeiro. E, em 1925, ao Presidente da República António José de Almeida sucede Manuel Teixeira Gomes. A entrada de José Marquez na adolescência é, portanto, marcada por uma época politicamente instável e economicamente bastante problemática com moeda desvalorizada, inflação galopante, greves, mas ainda com
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Em 1927, ano da 1ª Volta a Portugal em bicicleta, José Marquez está com 17 anos, quando participa da primeira prova ciclística de sua vida, contra a vontade dos pais, que, afinal, reservavam para o segundo filho um destino semelhante ao do primeiro. José Marquez poderia parecer até um pouco tímido, mas era impetuoso o bastante para ignorar a opinião dos pais. A corrida é organizada na própria aldeia de Vila Chã de Ourique e dela também participam José Maria Nicolau e Ezequiel Lino, nomes que igualmente haverão de alcançar popularidade nacional. Lançam-se à estrada de terra e pó todos os “desportistas”, lutando acirrada e animadamente pela vitória. A certa altura, Nicolau, Ezequiel Lino e José Marquez desgarram-se dos demais e disputam entre si o trecho final. Quem cruza a meta, no entanto, é José Marquez; Nicolau chega em 2º lugar e Lino, em 3º. A notícia em torno da vitória de José Marquez espalha-se pelas redondezas. Não se fala em outra coisa, naquele lugar pequeno de 1927. A vitória alcançada por José Marquez numa prova ciclística, neste ano, tem o dom de acordar neste rapaz da província um secreto e irreprimível desejo de abrir-se ao mundo, de conhecer novas paragens e outras gentes e de deixar para trás a casa dos pais e o destino que lhe haviam preparado. José Marquez não será apenas um ouriquense, ou um ribatejano, ou um português; haverá de ser um cidadão do mundo. A partir deste momento, onde houver, na região ou fora dela, corridas de bicicleta, José Marquez estará presente.
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A casa paterna
liberdade de expressão. Escrevem Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Jaime Cortesão, Guilherme Faria, Correia de Oliveira, Florbela Espanca. Todavia, esta liberdade que chega a confundir-se com caos, tal o descontrole a que chega a República, demanda freios por parte da população, os quais vêm na forma, a princípio bem acolhida, de uma ditadura provisória, como todas as ditaduras costumam ser. Um artigo publicado em 1924 na Seara Nova traz o sintomático título “Só a ditadura nos pode salvar”. A revolução de 28 de maio de 1926, liderada pelo general Gomes da Costa, dissolve o Parlamento.
O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica
1927 Ainda neste ano de 1927, ano da 1ÂŞ Volta a Portugal, o amigo Leonardo Caetano lembra-o de que seria conveniente filiar-se a um clube da capital e profissionalizar-se. Apresenta-o ao Benfica, e ele acaba por ingressar no clube aos 17 anos.
Da esquerda para a direita: Sra. Ana Caetano, casal Teresa e Leonardo Caetano, com o filho pequeno, e JosĂŠ Marquez
Veste a Camisola Vermelha1 do clube pela primeira vez durante a corrida Lisboa-Tomar, porém não obtém uma boa classificação, ao ficar em 11º lugar. Mais tarde disputa também os “100 km clássicos”, mas não passa do mesmo 11º lugar. Tal classificação, evidentemente, não agrada ao Benfica. O clube quer campeões e, assim, a passagem de José Marquez pelo Benfica quase não é notada.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sai do clube e fica um tempo sem participar de provas oficiais, embora não deixe de participar em campeonatos locais amadores. É um período difícil, pois José Marquez, embora decidido a não voltar mais à casa paterna para dividir, junto com o irmão, o trabalho da administração e do cultivo das propriedades, bem como o da comercialização de seus produtos, conforme Manoel Marquez, seu pai, exigia, não recebera convite de outro clube e, portanto, fica solto na vida, aguardando o veredicto do destino. A situação política e econômica do país não está bem. Em 28 de maio do ano anterior (1926), os militares haviam se levantado e perpetrado um golpe de Estado, que dera fim à liberalizante 1ª República, e haviam instaurado um regime ditatorial, com o objetivo de acabar com a instabilidade política reinante. Desta forma, a oposição é obrigada à clandestinidade, os partidos políticos são proibidos, e cria-se em seu lugar um partido único, chamado “União Nacional”. O diálogo político fica inviabilizado − a maioria dos intelectuais (os não conservadores) é jogada à margem do regime, fazendo oposição tímida, ou contestação aberta. O Marechal Carmona é nomeado presidente da ditadura nascente, conhecida como Ditadura Nacional e, em 1928, é “eleito” para o mesmo cargo. Já em 1926, por necessidade premente, fora chamado ao Ministério das Finanças o Prof. Dr. Oliveira Salazar, que então lecionava em Coimbra, na Faculdade de Economia. O trabalho deste homem à frente da tão degradada
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Camisola Vermelha, Camisola Verde-Branca, etc. são peças de vestuário, semelhantes às camisetas ou T-shirts, que funcionam como peças dos uniformes dos diferentes clubes esportistas. A Camisola Amarela, por exemplo, distingue aquele que assume o primeiro lugar numa prova de ciclismo ou se classifica como o primeiro, em tempo, nas várias etapas.
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situação nacional é, no começo e comparativamente, invulgar: equilibra o orçamento, estabiliza a moeda, consolida as instituições republicanas. José Marquez grava em sua memória tal mudança. Os olhos retêm as imagens do caos, das estradas esburacadas e empoeiradas, transformando-se em imagens de ordem e de progresso.
(1930-1932)
Aos 21 anos, José Marquez alista-se como recruta no serviço militar obrigatório em Lisboa, precisamente em 8 de setembro de 1930, e é incorporado como soldado no dia 3 de março de 1931. Na sua Caderneta Militar consta em “habilitações literárias e profissionais” a seguinte anotação: “ler, escrever e contar – corretamente”; no item “aptidões especiais”: “chauffeur”.
José Marquez no serviço militar
Aos 22 anos, em 3 de junho de 1932, é licenciado. Em 1932, Salazar é, dado o prestígio adquirido, nomeado presidente do Conselho de Ministros, que passam a ser escolhidos, sobretudo, entre os civis e na Academia, o que tira do governo os políticos e, supostamente, as inseguranças e as instabilidades. 13
O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica
O serviço militar
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
A implantação do Estado Novo em 1933, mediante a entrada em vigor de uma nova Constituição, revela um desinteresse geral da população pela política (o número de abstenções na votação do Projeto da Nova Constituição através de plebiscito fora altíssimo), e essa despolitização é até estimulada, pois o Estado Novo não chega a levantar a censura criada durante a Ditadura Nacional. Os efeitos da Grande Depressão de 1929 mal se fazem sentir em Portugal. Ainda assim, essa crise acaba por condicionar todas as prioridades do país ao setor financeiro, em detrimento do econômico e mesmo do político. Os industriais portugueses clamam por desenvolvimento já há algum tempo. A revista Indústria portuguesa fora fundada em março de 1928. A feira de Amostras da Indústria Portuguesa realizara-se em 1929, a Grande Exposição Industrial Portuguesa ocorre em 1932/1933 e o I Congresso da Indústria, em 1933. Slogans propagandísticos da época rezam: “Portugueses, patriotas, preferi produtos portugueses!” ou “Só é bom português aquele que exige e prefere produtos portugueses”. Apesar do surto de crescimento, os rendimentos e os juros provenientes do capital colocado no estrangeiro encolhem, a cotação das exportações cai, as remessas dos imigrantes diminuem e o desemprego aumenta. O povo, entretanto, sente-se mais seguro e o ciclismo funciona como um ímã, atraindo a população para o sentimento comum do orgulho de ser português, sentimento este projetado nos atletas e por eles incorporado. Este redespertar da força da nacionalidade é estrategicamente abalizado e formatado pelo regime. As povoações disputam entre si a honra de serem colocadas no percurso das Voltas a Portugal e de “sediarem” as etapas das corridas.
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No Sporting (1933-1934)
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m 1933, ano em que Hitler assume o poder na Alemanha, a fama nacional das vitórias de José Maria Nicolau (do Cartaxo) e Alfredo Trindade (de Valada) desencadeia em José Marquez uma saudade tão intensa do ciclismo que o seu antigo entusiasmo retorna, fazendo-o tomar a iniciativa de procurar um clube. Um dia, ao viajar para Lisboa, Marquez encontra-se com Alfredo Trindade. Durante o trajeto conversam, sobretudo, de corridas. E José Marquez confessa-lhe que voltaria de bom grado ao ciclismo profissional. Trindade dá-lhe uma resposta imediata e leva-o para o Sporting. José Marquez está com 23 anos. Em breve, exibe a Camisola Verde-Branca com o leão bordado. Neste clube, disputa várias competições, bem como as provas da 4ª e da 5ª Voltas a Portugal, em 1933 e em 1934. Na 4ª Volta a Portugal, em 1933, classifica-se em 8º lugar. Mas, em 1934, ao participar da disputa dos “100 quilómetros clássicos”, obtém o 2º lugar. Ainda em 1934, ao disputar as “24 horas do Porto”, corta a meta como vencedor. Desta vitória há uma foto em recorte de jornal com a seguinte legenda: “José Marquez, da equipa do Sporting, que venceu a corrida das 24 horas, no Porto [no Estádio do Lima]”.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Participa ainda do “Campeonato de Portugal de Fundo, dos Independentes” e sagra-se campeão. Deste Campeonato, também há uma foto legendada, que informa: “José Marquês, do Sporting, acerca-se da meta de chegada, e ganha o Campeonato de Portugal de Fundo, dos Independentes”.
Ainda neste ano, vence igualmente o “Campeonato Nacional em estrada”: “José Marquês, o mais rápido dos nossos corredores contra-relógio, ganhou também o Campeonato Nacional em estrada”. Também é o vencedor da corrida em Sobral de Monte-Agraço. Diz o recorte de jornal: “Em Sobral de Monte Agraço, José Marquez, do Sporting C. P. venceu com brilho a prova velocipédica de terça-feira”. Mas, na 5ª Volta a Portugal, ainda em 1934, só consegue o 10º lugar. Desta 5ª Volta há uma foto, tirada em Coimbra, com o atleta fazendo um banho de pés com “Nallysal”. Já na época, a propaganda lança mão do potencial de exposição dos atletas.
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No Sporting (1933-1934) José Marquez é o primeiro à esquerda
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sua participação na 5ª Volta a Portugal também é testemunhada por uma foto dos corredores na Serra da Estrela em 1934.
José Marquez subindo a Serra da Estrela durante a 5ª Volta a Portugal, em 1934
Desta mesma Volta, em 1934, duas fotos, uma tirada a caminho de Évora e outra a caminho de Bragança, mostram bem as condições em que se corria naquele tempo. 18
A caminho de Bragança
Apesar de algumas boas vitórias, a inexistência de boas colocações nas duas últimas Voltas faz José Marquez sentir a falta de interesse, a indiferença do clube, que está interessado em grandes campeões. 19
No Sporting (1933-1934)
A caminho de Évora
É mais um período difícil que se instaura na vida do ciclista. Chega mesmo, por um momento, a pensar em abandonar o clube e o desporto, mas, no fim, prevalece a imensa paixão pela bicicleta. Precisa, porém, de um clube onde se sinta acolhido, onde haja entrosamento entre ele e o team, o que não havia acontecido até então.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Ouve de amigos que o Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) é um clube com o perfil que ele procura, um clube que trata com carinho e amizade seus atletas.
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
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m 1935, com 25 anos, ao ser apresentado ao Clube Atlético Campo de Ourique, é realmente recebido de braços abertos e, de fato, o ambiente afetivo revela-se fundamental para o desenvolvimento das potencialidades de José Marquez. Como diz um texto de Alberto Freitas1, publicado em jornal, “é vestindo a camisola branca e vermelha que Marquez demonstra a sua alta classe de ciclista e todas as suas qualidades de autêntico atleta.”
E o jornal O Mensageiro do Ribatejo2 assim se refere ao atleta em 1935: “[...] José Marquês, o ciclista de formidáveis recursos que revolucionou a velocipedia nacional com suas médias quilométricas, que fizeram ruir estrondosamente alguns ‘records’ antigos”.
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Alberto Freitas foi um jornalista desportivo, um dos fundadores do Clube Nacional da Imprensa Desportiva. O mensageiro do Ribatejo foi um jornal de Vila Franca de Xira, criado em 1930 e extinto em 1941. Um jornal ligado ao Neorrealismo de Alves Redol.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Como corredor do Clube Atlético Campo de Ourique, o ciclista obtém muitas vitórias entre várias corridas contra-relógio, em que era especialista, e também nos certames que lhe deram o título de “Campeão Nacional”, a saber: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16.
os “50 quilómetros clássicos”; os “100 quilómetros clássicos”; os 160 quilómetros da “Taça de Preparação Olímpica”; o “VIII Giro do Minho”; a corrida Coimbra-Tábua; o “Campeonato Distrital de Fundo”; a “II Volta dos Campões” na Figueira da Foz; a corrida Vila Moreira-Leiria-Vila Moreira; as “Doze voltas à Gafa” (Bombarral); as “Dez voltas à Covilhã”; o “Grande Circuito da Mealhada”; a “XIV prova Porto-Lisboa”; o “Circuito da Bairrada”; o “Campeonato Nacional de Fundo”; os “100 quilômetros contra-relógio”; a “VI Volta a Portugal”.
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A legenda de uma outra foto informa: “Os 50 quilómetros clássicos da U.V.P. – José Marquez, de Campo de Ourique, vencedor dos 50 quilómetros clássicos da U.V.P., com que foi inaugurada oficialmente a época do ciclismo”. Nos “50 quilômetros clássicos”, José Marquez não só é vencedor, como também bate o “record”, com o tempo de 1 hora 32 minutos e 50 segundos. A reportagem de Alberto Freitas no jornal diz: “Boa estreia. Marquez animou-se”. Logo em seguida, José Marquez participa dos “100 quilómetros clássicos” e classifica-se também em primeiro lugar (3h. e 2m.). Diz um jornal: “Depois duma corrida empolgante, José Marquês vence os 100 kms clássicos da U.V.P.”
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
A abertura da temporada ciclística é, assim, anunciada pelo jornal: “A nova época de ciclismo em estrada foi inaugurada ontem, sendo os ‘50 quilómetros clássicos da U.V.P.’ disputados por 112 corredores. Excelente vitória de José Marquês” (1h. e 32m. – anotação do atleta).
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Outra reportagem traz o seguinte título:“A partida para os 50km.da U.V.P.– Ao alto o vencedor da prova, José Marquês.” Em outra manchete, acompanhada de fotos, está escrito: Os 100 quilómetros da U.V.P. – Em cima: José Marquês, conduzido por um grupo de admiradores, oferece à objectiva do fotógrafo, o sorriso da vitória. Em baixo: o pelotão da frente subindo a Calçada de Carriche. Reconhem-se, no 1º plano, da esquerda para a direita: Trindade, Nicolau, Ildefonso, Felipe de Melo, Marques e Aguiar da Cunha. Ao fundo: João Gomes, Ladislau, Prudêncio e Valério.
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
E ainda: “Os 100 quilómetros clássicos foram ganhos por José Marquez, do Campo de Ourique, que bateu na embalagem final um pelotão de nove corredores.”
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Em outro recorte de jornal, é informado que “José Marquez, do Campo de Ourique, ganhou brilhantemente os 100 quilómetros contra-relógio à média de 37,200” (no Campo Grande).
Na foto de baixo, José Marquez está posicionado no centro
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A vitória de José Marquez na prova de domingo merece ser analisada sob vários aspectos. Cumpre-nos estudar com maior amplitude, já pelo seu valor, já pelas conclusões a que se poderá chegar, a “performance” atlética do brioso corredor do Campo de Ourique e a forma inteligente como ele a conseguiu. Marquez foi, de facto, um tanto feliz no resultado do sorteio. A sua saída atrás de Trindade deu-lhe “moral”, o que numa prova “contrarelógio” é factor muito importante. Mas atribuir-se a proeza do novo “recordman” só a este facto é, quanto a nós, critério absolutamente errado. E senão vejamos: Enquanto Marquez perseguiu Trindade, isto é, desde a partida até Alhandra, o atleta do Campo de Ourique só conseguiu uma vantagem de dois minutos sobre o campeão nacional e um minuto sobre Nicolau. Todavia, quando Marquez terminou a prova, foi creditado com menos cinco minutos do que o segundo classificado, e essa vantagem só foi adquirida depois da desistência de Valada. Isso vem provar que a actuação de Marquez foi sempre brilhante, mesmo quando deixou de ter à sua frente um homem de classe por onde pudesse regular a marcha. E se considerarmos ainda que, no regresso, o vento soprava de frente, facilmente se poderá avaliar o valor da prova do rápido corredor “branco-encarnado”.
Na reportagem de jornal, escrita por Alberto Freitas e anteriormente mencionada, consta ainda que: A forma [do atleta José Marquez] era boa. E o jovem corredor registou novo êxito nos 100 quilómetros, em que triunfou em tempo “record” 3h. 2m. e 57s.: O nome de José Marquez começou, então, a ser admirado. Marquez era um campeão!
Depois, José Marquez disputa “os 160 quilómetros da ‘Taça de Preparação Olímpica’”, sobre a qual também há uma longa reportagem na revista
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
Especificamente a respeito desta prova contra-relógio há um pequeno comentário, publicado em jornal, justamente, intitulado “Comentários à prova de 100 quilómetros contra-relógio”, que diz:
Stadium3, com uma colagem de várias fotos ao centro, nas páginas 8 e 9, com o longo título: Os 160 quilómetros da “Taça de Preparação Olímpica” foram ganhos por José Marquês, após uma prova formidável, de inteligência e serenidade, tendo o “record” sido batido por 5 minutos. – A equipa do Benfica, homogênea e integrada no verdadeiro espírito da corrida, venceu com indiscutível merecimento, conquistando definitivamente a Taça.
Segue o texto da reportagem:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
A corrida de domingo teve acentuado brilhantismo, mas ficou estragada em grande parte, por causa de um engano da guarda mais avançada da equipa do Sporting, depois do Cadaval. Até esse ponto, em que os três corredores da frente “leonina” se afastaram do percurso oficial, a luta do Sporting era mais contra o tempo da prova e pela vitória individual, do que propriamente contra as outras equipas concorrentes, devido a ser mais forte e homogênea. E o trio do Sporting ia correndo bem, naquela altura. Foi realmente pena que os corredores se enganassem. Mas é de notar que o facto se deu precisamente num desvio em que as estradas tinham placas indicativas da sua sinalização. Depois do engano, as coisas mudaram por completo. José Marquês ficou, desde logo, vencedor incontestado da corrida, visto que deixara já a equipa, em busca de uma posição individual que correspondesse ao seu valor, apenas levando na sua roda Militão Antunes. E a equipa dos “vermelhos” passou a ter as melhores probabilidades de vitória na galopada final, por isso que estava a correr bem e continuava com os seus corredores de maior categoria – Nicolau, Aguiar da Cunha e Aguiar Martins. Entre eles – Marquês a acelerar a marcha e o Benfica a manter a mesma harmonia – destacou-se ainda um outro
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Stadium: revista portuguesa de todos os sports. Lisboa, 1932-1951. Direção: Carlos da Silveira et al. Edição: J. D. Santos. “O primeiro número da Stadium foi lançado numa quarta-feira, em 17 de Fevereiro de 1932, apresentando no cabeçalho o subtítulo de ‘Revista Portuguesa de Todos os Sports’ e custando um escudo. Sob direcção de Carlos da Silveira e propriedade da Sociedade Stadium, Lda., a nova publicação semanal (saía à quarta-feira, mudando para a segunda-feira no ano seguinte) apresentava uma elevada qualidade gráfica, quer ao nível do design quer da qualidade do papel e da impressão. Foi sob todos os aspectos uma revista inovadora, não só para o jornalismo desportivo, mas para a imprensa em geral. O seu sucesso seria marcante, levando mesmo em 1938 a adoptar, como subtítulo, a frase: ‘O Maior Semanário Desportivo da Península’”. In: PINHEIRO, Francisco. “Imprensa desportiva portuguesa: do nascimento à consolidação (1893-1945)”. Ler História 49, 2005. p. 171-190. Ou: http://www.ceis20.uc.pt/ ceis20/site/UserFiles/Image/FranciscoPinheiroLerHistoria49.pdf, p. 176. Acesso: 15/11/2011.
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
corredor – Ezequiel. Abandonado logicamente pelos companheiros, num momento em que a máquina principiara a falhar, o antigo e valoroso estradista “leonino” desenvolveu um esforço que teve muito de admirável, logo que soube do engano da equipe. Entre Lisboa e Carregado De Lisboa ao Carregado, a prova não passou dum bom arranco das melhores equipas, para o esforço de toda a prova. Todas elas se lançaram bem, de princípio, mas encontrando logo pela frente os principais obstáculos da corrida – alguma chuva e uma ventania rija que se prolongou até a descida para o Cadaval. Neste percurso houve, porém, uma equipa desmantelada – a do Belenenses. António Leal atrasou-se antes da Póvoa e não voltou a tomar contacto com os seus camaradas de clube. Até o Carregado, não pudemos encontrar a equipa leonina. Disseramnos que o Campo de Ourique ganhara um minuto de avanço, ao Sporting, mas temos a impressão de que assim não era. Os corredores do Campo de Ourique passaram ali às 9h. e 40m. A passagem dos restantes fez-se como segue: 9h. 47m., Rio de Janeiro (Ladislau, Alvito e Afonso Lopes); 9h. 51m., Belenenses (Mealha e Rosa); 9h. 55m., Benfica (Nicolau, Aguiar da Cunha, Aguiar Martins e Noé); 9h. 56m., Calção (Rio de Janeiro); 9h. 8m., António Leal (Belenenses). Calção veio a desistir pouco depois em Alenquer. Nas ladeiras para o Cercal A parte mais penosa foi, como no ano findo, a que se correu de Alenquer para o Cercal. Caiu ainda chuva. E à chuva e ao vento, juntou-se a baixa temperatura. Neste troço de maior responsabilidade acentuou-se, deste modo, a desagregação das equipas – o Benfica descolou Noé de Almeida, e o Campo de Ourique deixou Nunes de Almeida para trás. Apenas o “cinco” do Sporting se manteve intacto. Um pouco antes do Cercal, levava meio minuto de avanço em relação ao Campo de Ourique. As equipas mantiveram-se, assim, até o Cadaval. A corrida aumentou, porém, de velocidade, quando a caravana cortou para aquela vila, já a descer, ou com menos vento, ou com o vento pelas costas. Depois do Cadaval, é que a luta pela classificação individual entrou a desenhar-se. A um “esticão” mais forte, a subir, correspondeu o atraso de Ezequiel; o ritmo mais veloz do vencedor recuperou José Braz. Ladislau Parreira principiou a série dos “azares”, e o Rio de Janeiro ficou somente com dois homens na frente. Ildefonso Rodrigues teve depois um “furo” e ficou com a máquina desafinada. No resto da prova, andou sempre com pouca confiança e só melhorou para o fim. Antes e depois do engano No desvio que há para Pragança e que leva para a Serra de Ota, Trindade, Felipe de Melo e Joaquim Fernandes seguiram pela frente,
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
em vez de cortarem à esquerda. Nós íamos na esteira dos corredores e tivemos a impressão do engano. Dissemos das nossas dúvidas aos tripulantes do carro da Polícia, mas sem resultado. Os corredores continuaram. Inquirimos, no entanto, de algum público, do destino da estrada. Quando tivemos a certeza do engano, avisamos os corredores, mas não lhes dissemos para voltarem, sem falarmos com os agentes da polícia. Chegou, entretanto, o carro de apoio a fazer sinal aos rapazes. Mas era já bastante tarde, porque estavam andados cerca de 5 quilómetros. Felipe de Melo e Joaquim Fernandes viraram rapidamente de rumo, com um belo espírito de sacrifício. Alfredo Trindade, perdida em absoluto a sua “chance” pessoal, foi menos sereno – e desistiu. O resto da prova ficou estragado – para o Sporting, que veio ainda a ter outro “azar”, com a queda de Felipe de Melo, que o forçou a desistir já perto de Lisboa. José Marquês animou mais ainda, a caminho de Torres Vedras. E o Benfica pensou em não perder a “afinação” de movimentos em que marchava. Em Torres Vedras Registemos, entretanto, a ordem de passagem por Torres Vedras: 1º Ezequiel, cerca das 11h. 58m.; 2º José Marquês, um pouco antes do meio-dia; 3º Militão Antunes, com pequena diferença; às 12, Ildefonso Rodrigues; 12h. 03m., José Braz; 12h. 07m., Felipe de Melo e Joaquim Fernandes, em grande andamento; 12h. 12m., Nunes de Almeida; 12h. 16m., Alvito e Afonso Lopes; 12h. 16m. 30s., Aguiar da Cunha, Nicolau e Aguiar Martins. Ladislau Parreira deve ter passado com grande atraso. De Torres para Lisboa A equipa do Benfica apanhou o “resto” da equipa do Rio de Janeiro perto do Carvalhal; e o grupo formado veio a apanhar Nunes de Almeida na subida para o Turcifal. Ficaram, assim, seis corredores, que lutaram grandemente para se desembaraçarem uns dos outros. Alvito e Afonso Lopes chegaram mesmo à ofensiva... O Benfica respondeu mais tarde. Afonso Lopes e Nunes de Almeida cederam; e José Braz veio a ser apanhado. Destacou-se, todavia, na embalagem sobre a meta. No final do percurso, é também de notar o excelente esforço de José Marquês; a recuperação de Ezequiel, depois da subida da Piteira; a galopada valorosa de Joaquim Fernandes e Felipe de Melo; e a dedicação de Ildefonso Rodrigues. José Marquês voltou a ser o grande corredor do ano passado. Sobre o terreno plano que se segue a Loures, veio quase sempre à média de 35 quilómetros. E a subida da Calçada de Carriche fê-la em magnífica disposição. A ordem de chegada e as classificações 13h. 30m. 21s., José Marquês; 13h. 32m. 11s., Ezequiel; 3h. 39m. 44s., Joaquim Fernandes; 13h. 44m. 41s., Ildefonso; 13h. 51m. 57s., Militão 30
Por baixo da colagem de fotos, referente a esta reportagem, há ainda a seguinte legenda explicativa: Do alto e da esquerda para a direita: A equipa do Sporting. – O momento em que Alfredo Trindade, verificado o engano do percurso, resolveu abandonar. – A equipa do “Rio de Janeiro” com Ladislau Parreira – o nº 13 nesta corrida − à frente. – A equipa do Campo de Ourique ainda unida, à passagem da ponte da Couraça, perto do Carregado. – Trindade e Filipe de Melo, atrasados, acabam de constatar que se enganaram no percurso. – Marquês, já assegurado o triunfo, marcha satisfeito. – Os homens do Benfica, sempre unidos, ultrapassaram já adversários de equipas que caminhavam mais à frente. – O “trio” vencedor, Aguiar Martins, Aguiar da Cunha e Nicolau, recebe, no Campo Grande, os aplausos dos seus admiradores. – Marquês ao cortar a meta, e o mesmo e José Braz, pouco antes de entrarem em Torres Vedras.
Em junho, José Marquez participa da corrida Coimbra-Tábua, classificando-se em 6º lugar. E, no dia 16 do mesmo mês, obtém a vitória no “Campeonato Distrital de Fundo”, fazendo os 100 quilômetros em 3h., 3m. e 42s.
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Antunes; 13h. 52m. 31s., José Braz, Nicolau, Aguiar da Cunha, Aguiar Martins e Alvito. Chegaram depois: 11º, Afonso Lopes; 12º, Nunes de Almeida; 13º, Ladislau; 14º, António Rosa (2º) [sic]. Pela ordem dos “tempos” feitos, a classificação ficou como segue: 1º, José Marquês (Campo de Ourique), 4 h. 55m. 21s.; 2º, Ezequiel Damião Lino (S.C.P.), 5h. 02m. 11s.; 3º, José Maria Nicolau (S.L.B.), 5h. 02m. 31s.; 4º, Adelino Aguiar da Cunha (S.L.B.), mesmo tempo; 5º, Joaquim Aguiar Martins (S.L.B.), mesmo tempo; 6º, Joaquim Fernandes (S.C.P.), 5h. 09m. 44s.; 7º, Francisco Simões Alvito (U.C.R.J.), 5h. 12m. 31s.; 8º, Ildefonso Rodrigues (S.C.P.), 5h. 14m. 41s.; 9º Militão Antunes (Campo de Ourique), 5h. 16m. 57s.; 10º, José Braz (Campo de Ourique), 5h. 17m. 3s.; 11º, Afonso Lopes (Rio de Janeiro), 5h. 18m. 14s.; 12º, António Rosa (Belenenses), 5h. 18m. 16s.; 13º, Ladislau Parreira (Rio de Janeiro), 5h. 22m. 41s.; 14º, Nunes de Almeida (C. Ourique), 5h. 23m. 18s. Média do vencedor: 32kms. 503. [...]
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Logo a seguir, José Marquez toma parte na “VII Volta dos Campões na Figueira da Foz” ou nos “50 quilómetros da Figueira da Foz”, obtendo o 1º lugar, em 1h. e 40m. A notícia desta vitória aparece estampada em uma reportagem jornalística, com o título:“A VII VOLTA DOS CAMPEÕES foi ganha brilhantemente 32
Assim é comentado o desempenho do ciclista nesta corrida: Dissemos na nossa crónica de segunda-feira que a VII Volta dos Campeões tinha sido a mais brilhante de todas as provas realizadas na Figueira da Foz. Devemos acrescentar hoje que excedeu em tudo as previsões mais optimistas. Foi disputada com extraordinário entusiasmo, não deixando nunca os corredores de lutar com brio, facto pouco vulgar em provas de circuito repetido, em que os concorrentes se limitam a ganhar os prémios de passagem, para depois fazerem o resto do percurso em marcha moderada. No domingo, após as embalagens na meta, o pelotão manteve sempre uma velocidade razoável. A “performance” obtida pelos corredores é digna de registo, pois o percurso é muito irregular e de mau piso. Iniciar uma prova de 92 quilómetros fazendo a primeira volta em 24m. 40s., manter essa marcha até meio da prova e depois aumentar progressivamente a velocidade a ponto de cobrir as duas últimas voltas em 22m. 25s. é proeza pouco vulgar entre nós. Desportivamente, o resultado final foi justo, traduzindo fielmente a actuação dos concorrentes. Houve corredores que souberam aplicar com inteligência a tática que melhor se coadunava com as características da prova, conseguindo assim manobrar os adversários e batê-los sem defesa possível. José Marquez era, à partida, o grande favorito da prova. Tinha a seu favor a reduzida quilometragem da prova.A ligeira aragem que soprava também não o impedia de desenvolver a multiplicação normal.
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por José Marquez que bateu o ‘record’ da prova. O valor da VII Volta dos Campeões e o mérito da vitória de Marquez”.
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No entanto, a prudência aconselhava Marquez a experimentar as suas possibilidades e a dos adversários. Logo na primeira volta, na rampa a seguir à estrada de Coimbra, o atleta do Campo de Ourique arrancou oportunamente, isolando-se na companhia de Vassalo de Miranda e Rodrigues Silva. Reconheceu que se lhe era possível fugir no troço de percurso menos favorável, a subir e com os adversários ainda frescos, muito melhor o faria numa recta ou numa descida. Adoptou, então, a tática de expectativa sem nunca abandonar a frente do pelotão e impondo-lhe, ao mesmo tempo, o seu “passo” rijo e uniforme. Era esta a forma de melhor responder a todos os ataques que pudessem surgir. Livrava-se, assim, da poeira e de algum “encosto” dos adversários, diminuindo ao mínimo o perigo de quedas. Além disso, podia jogar a cartada decisiva quando lhe aprouvesse. Bem o pensou e bem o fez. O campeão nacional, ao terminar a sexta volta, isolou-se no mesmo sítio onde o fizera na primeira, empregou-se a fundo e ganhou destacado. Se tem guardado o ataque para a embalagem final a adversidade podê-lo-ia perseguir, não lhe deixando empregar as suas qualidades de “sprinter”. Se tem prosseguido na fuga inicial podia ser mal sucedido, pois a prova era violenta. Mas, atacando na altura em que o fez, dificilmente seria batido. Marquez obteve no domingo dois triunfos: a vitória na prova e o êxito na tática adoptada. Houve quem tentasse contestar o mérito da fuga de Marquez, João Rainha e Martins de Aguiar, alegando que o avanço obtido por estes três homens fora devido ao facto de terem fugido ao transpor uma passagem de nível, que se fechara pouco depois para o segundo pelotão. Devemos dizer que Marquez fugiu normalmente, atacando a subir e “descolando” os adversários mercê da oportunidade do seu ataque. Quando chegou à passagem de nível já ia bastante destacado. Houve uma apatia grande entre os homens do segundo grupo, que não reagiram imediatamente, por irem mal colocados, entre homens de “classe” inferior. E então surgiu o inevitável: José Marquez atacou. Seguiram-no os corredores que marchavam à sua retaguarda. Estes três homens, entreajudando-se admiravelmente, iam ganhando sucessivos minutos sobre um pelotão desorganizado e já conformado com a classificação. Numa prova em circuito repetido os atletas devem ter o máximo cuidado na escolha do lugar em que seguem.
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Um homem de “classe” não deve ir “colado” a um corredor de categoria medíocre nem tampouco na cauda do pelotão para não lhe acontecer o mesmo que aconteceu no domingo a Trindade e Contente. As estradas estreitas, um avultado número de corredores e um público por vezes entusiasta em demasia dificultam a perseguição aos fugitivos. Os resultados de domingo são concludentes. Nas duas fugas só apareceram os homens que nunca largaram o favorito de vista. Martins de Aguiar, João Rainha, Rodrigues Silva, Felipe de Melo e Aguiar da Cunha cooperaram em quase todos os ataques. Os dois últimos não figuraram no grupo que se isolou à sexta volta por se lhes terem avariado as máquinas. Aguiar da Cunha, tendo em conta a sua boa prova, seria até um adversário perigoso para Marquez. Os homens de Carcavelos souberam correr com verdadeiro espírito de equipa. Martins de Aguiar tinha conseguido acompanhar os corredores da frente. Felipe de Melo e Rodrigues Silva ficaram em companhia de um núcleo de homens de “classe”, como Nicolau, Trindade, Joaquim Fernandes, Joaquim de Sousa e o figueirense Barbosa, sempre fogoso na sua terra. Felipe de Melo possui boa embalagem final, mas o seu companheiro de club é pouco rápido. Era necessário salvá-lo do ataque dos adversários para classificar a equipa. Havia dois recursos: ou fugirem ambos ao pelotão ou resguardar Rodrigues Silva na embalagem final. Rebocar o grupo dos atrasados seria perigoso. Felipe ainda tentou isolar-se com Rodrigues Silva, “demarrando” três vezes, mas como este corredor não o acompanhava, foi até à recta final, arrancou longe da meta trazendo-o na sua esteira e, por fim, ainda teve fôlego para resistir ao ataque de Joaquim de Sousa. É interessante pôr em confronto a dedicação de certos atletas com o desinteresse de outros. Alguns corredores esquecem-se das suas responsabilidades perante a colectividade que representam, comprometendo classificações e inutilizando o esforço dos companheiros de club. Na Figueira da Foz, enquanto Aguiar da Cunha, Cabrita Mealha, Ildefonso Rodrigues, Domingos Leal e toda a equipa da Parede tentavam vencer a adversidade, prosseguindo na prova a fim de classificar o seu club, e quando Noé de Almeida lastimava não poder continuar por estar bastante ferido, vimos um atleta do Benfica abandonar a luta só pelo facto de seguir um pouco atrasado. É preciso que os corredores saibam corresponder à honra que os seus clubs lhes fazem incluindo-os nas equipas respectivas. Devem, por isso, lutar com brio até o final, para se tornarem dignos da confiança dos dirigentes e não atraiçoarem as esperanças dos seus companheiros.
Na corrida Vila Moreira-Leiria-Vila Moreira, José Marquez classifica-se em 3º lugar. Nas “Doze voltas à Gafa”, fica em 10º lugar. Nas “Dez voltas à Covilhã”, fica em 2º lugar. No “Grande Circuito da Mealhada”, também alcança o 2º lugar. Na corrida Porto-Lisboa, fica classificado em 7º lugar. Porém, no “Circuito da Bairrada”, chega ao 1º lugar.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
No “Campeonato Nacional de Fundo”, realizado em 21 de julho, conforme reportagem, “alcança a mais bela vitória da temporada, conquistando a primeira colocação, ao cobrir os 100 quilómetros em 3h. 4m. e 11s.” Em outra reportagem, assinada por Domingos Moreira4, impressa em letras azuis, com o título “Em competição com Nicolau e Trindade – José Marquez ganhou formidavelmente o campionato nacional. Uma grande prova”, publicada na revista desportiva Stadium, nas páginas centrais 8 e 9, e ilustrada por uma colagem de 14 fotos, lê-se o seguinte: Mudou de corpo a camisola verde-rubra de campião nacional. Desta vez, como há dois anos não sucedia, teve permanência breve no tronco que ornava. Sem motivos de reparo, porque a troca foi absolutamente lógica, e apurados os “tempos”, com a maior parcela de justiça,Trindade largou o símbolo de supremacia máxima do pedal com tanto brilhantismo como o ano passado havia ganho. Substitui-o outro homem cujo corpo não está desafeito a tão alto galardão. Era, dentre a plêiade de candidatos ao título, um dos que maior número de probabilidades reunia, e as provas já prestadas esta época guindavam-no à altura de merecer a vitória, levando tacitamente os seus adversários a aceitá-la sem rebuço. Para maior brilhantismo, do triunfo de um, e mais rara beleza da derrota de outro, a prova foi limpa, sem os vulgares acidentes a interporem-se ao esforço dos estradistas, dando-nos assim a verdadeira luta, de igual para igual, em que não há beneficiados nem lesados, mas sim um bom vencedor e um bom vencido. José Marquês, incontestavelmente o nosso melhor especialista na distância, viu coroado merecidamente o trabalho metódico de bastante 4
Domingos Lança Moreira foi um jornalista desportivo que, entre outros, esteve à frente da direção da revista Stadium, de outubro de 1940 a agosto de 1941.
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
tempo, com a conquista do Campeonato Nacional, que, certamente, saberá honrar no decurso da meia época que ainda lhe falta transcorrer. Destituído Trindade, e afastado Nicolau, era Marquês quem mais de direito – se se pode exigir direito num resultado desportivo – merecia a ambicionada camisola. E a lógica, não se afastou do que era lógico... De vinte e três homens que a inscrição acusava, partiram dezanove, por ausência de Valério de Sousa (Lisboa) e dos representantes do Norte, que numa atitude que preferimos não comentar, tão falha de bom senso e consideração ela se nos apresenta, ficaram no Porto à espera dos resultados através dos “placards”. Certamente que os ciclistas não terão culpa dependentes que estão de resoluções e de vontades mais poderosas, mas não nos parece que assim, dentro desta maneira de pensar e de agir, o ciclismo nortenho possa progredir e nivelar-se ao sudista [sulista]. Dois anos seguidos, se não estamos em falta, que o Porto se alheia da competição máxima do ciclismo nacional. Seja pelo que for, não podemos concordar com semelhante procedimento, intérprete de um desinteresse pouco vulgar nos portuenses, sempre decididamente dispostos a comungar em tudo quanto diga respeito ao progresso e à supremacia da sua terra, que é afinal o torrão em que nascemos. Que o bom senso entre nos espíritos alvoroçados. Manuel Neves, representante sadino, foi, segundo o sorteio, o primeiro a abalar. Matematicamente, de dois em dois minutos, largava um candidato ao título, cheio de esperanças, replecto de ilusões. Residia porém a expectativa nos homens considerados favoritos, e que o sorteio quase acasalara, para tornar talvez o duelo mais vivo, mais emocionante, intransigente e incerto. Aguiar da Cunha, o nº 12, Trindade, o nº 15, Nicolau, Ezequiel e Ildefonso Rodrigues, ocupando os números a seguir, César Luiz no 20º e Marquês no 22º, formavam um conjunto, tão unido e tão mutuamente temido, que dir-se-ia ter sido preparado previamente para dar mais realce, beleza intensiva, espetacular e representativa ao esforço máximo dos valorosos estadistas. Na Avenida Alferes Malheiro, estendendo-se pela Portela, até quase Sacavém, o caminho em pedra solta, constitui um atraso para os corredores, que os mais ousados galgavam sofregamente. A primeira parte da corrida é representada pela perseguição de Ezequiel a Nicolau e deste a Trindade. O campeão de 1934, num andamento vivo, ritmado, foge com entusiasmo atrás de Contente, que antes de Alverca está apanhado. Pouco mais ou menos até esta vila, entre os três homens – Ezequiel, Nicolau e Trindade – as diferenças são quase as mesmas. Somente o “vermelho”, com uma multiplicação grande, diminue perto de um
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
minuto em relação ao seu rival de sempre, que abrandara num ligeiro período de recuperação. Entretanto à frente e na retaguarda, dois homens, suportando e vencendo melhor que os outros a desvantagem do vento, iam ganhando progressivamente terreno. Eram Cabrita Mealha, o número 8, e José Marquês, o número 22. Este não teve dificuldades em deixar atrás de si o leiriense José A. Bruno, como não levou muito tempo a lobrigar César Luiz, num dia pouco certo. Vila Franca de Xira passou como um relâmpago aos nossos olhos. Mealha, magnificamente embalado, num ritmo que só lhe observamos na segunda metade da V Volta a Portugal, fez-nos pensar, ao confrontar o relógio, que se não abrandasse seria um obstáculo com que os lisboetas não contavam. Nos seis quilómetros que separam a Sevilha portuguesa do Carregado, a corrida tem uma fase decisiva. Marquês galopando vitoriosamente, reduziu já oito minutos dos seus mais directos contricantes. A média oscila entre 32 e 35, numa regularidade tanto mais impressionante quanto é certo que o calor era um adversário algo imbatível... Nicolau furou mas prontamente reparou a avaria, que mais adiante se repetiu. Ezequiel avizinhou-se, distinguiu o benfiquense, apertou ainda mais e alcançou-o. Mas o “vermelho” não cedeu logo; embora com a bicicleta avariada sustentou luta com o sportinguista e no Carregado mudou de máquina, mas Ezequiel não mais se deixou ultrapassar, antes se desembaraçou, pouco depois do controle, estabelecido adiante de Vila Nova da Rainha, onde o primeiro a voltar fora Manuel Neves, seguido imediatamente de Manuel Dias, que depois o ultrapassou. Nicolau, com um atraso considerável, e confiado antes da partida em se reapossar do título, como nos deixara adivinhar, sucumbiu moralmente, abandonando. Paramos no Carregado, onde Marquês já ganhara a Trindade dez minutos, dos catorze de diferença com que saíra de Lisboa. Até o desvio para o Cabeço da Rosa, têm já poucas probabilidades de êxito, segundo os melhores cálculos – todos sujeitos a completo desmoronamento – Aguiar da Cunha, Ezequiel, Ildefonso. César Luiz, sem conseguir acertar o passo, vê-se de companhia com outros, e na altura de atacar a dura encosta, toma lugar no automóvel de apoio. A meio da ladeira o setubalense Manuel Neves, atacado por caimbras e indisposto, desiste, vindo no nosso carro. Na serra do Trancão, Marquês distinguiu a camisola vermelha de Aguiar da Cunha, instantaneamente porém. O campo ouriquense deu neste momento o esticão máximo, em evidente procura de Trindade, sem dúvida o seu ponto de mira. Mas o valadense não se deixou apanhar, galgou a subida de Carriche e entrou no Estádio onde o esperava uma surpresa. Cabrita Mealha, confirmando as 38
Uma outra reportagem de página inteira, encabeçada pelo título “Em competição com Nicolau e Trindade – José Marquez ganhou formidavelmente o campionato nacional. A história dos 100kms do Campionato Nacional de Ciclismo”, é ilustrada por 14 fotos, com as seguintes legendas explicativas: [Foto]1) Mealha, Marquês e Trindade, os heróis da prova, depois da corrida. 2) Marquês em plena carreira e 3) ao chegar ao Estádio em vencedor, 4) 5) e 6) Nicolau inicia as voltas à pista, completa-as e na ida para Vila Nova da Rainha de onde não voltou. 7), 8) e 9) Cenas idênticas às anteriores, mas com Trindade no protagonista. Iniciando a corrida à ida e à volta. 10) À passagem de Manel Dias, do Sporting, no Carregado. 11) Uma parte, da assistência no Estádio do Lumiar. 12) Ezequiel passa no Carregado. 13) Rodrigues da Silva, do Carcavelos, no regresso. 14) Um friso de gentis e mimosas 39
No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
nossas previsões, havia ocupado o primeiro lugar, pois fizera 3 horas, 4 minutos e 36 segundos, ao passo que Trindade se quedara em 3, 5 e 13. O título estava no momento no Algarve, apenas restando aos lisboetas a esperança em Marquês, que sabíamos vir a superiorizar-se a Mealha, salvo qualquer contratempo. E assim foi de facto. O “recordman” dos 100 quilómetros contra-relógio surgiu no Estádio como um meteoro, e como um meteoro deu as voltas regulamentares. O público ficou suspenso da voz potente do alto falante, e este anunciou: José Marquês, 3 horas, 4 minutos e 11 segundos. Por uns escassos 25 segundos, o título ficara na capital, restando ao Algarve a consolação de por duas vezes já, a primeira em 1933, e agora, ter estado à beira de uma retumbante vitória. Classificação: 1º, José Marquês (campião de Portugal), do C.A.C.O., 3h. 4m. 11s.; 2º, Cabrita Mealha, Louletano, 3h. 4m. 36s.; 3º, Alfredo Trindade, Velo Club, 3h. 5m. 13s.; 4º, Ezequiel Lino, Sporting, 3h. 9m. 30s.; 5º, Ildefonso Rodrigues, Sporting, 3h. 10m. 33s.; 6º, Rodrigues da Silva, Carcavelos, 3h. 11m. 58s.; 7º, Aguiar da Cunha, Benfica, 3h. 18m. 25s.; 8º, Manuel Dias, Sporting, 3h. 20m. 40s.; 9º, Castelão Romão, Benfica, 3h. 20m. 50s.; 10º, José Anicete Bruno, Leiria, 3h. 21m. 22s.; 11º, Ladislau Parreira, Sporting, 3h. 21m. 40s.; 12º, Eugénio Martins, Campo de Ourique, 3h. 28m. 25s.; 13º, João Rainha, Campo de Ourique, 3h. 29m. 9s.; 14º, José Galvão, Louletano, 3h. 32m. 39s.; 15º, João Silva,Vitória de Setúbal, 3h. 36m. 17s. Desistiram José Maria Nicolau, César Luiz, António Contente e Manuel Jesus Neves.
carregadenses, entusiastas do ciclismo, cujos sorrisos frescos e encantadores foram um bálsamo para quem acompanhou a prova sob a aragem excessivamente abrasadora do último domingo.
Nos “100 quilómetros contra-relógio”, José Marquez também obtém o 1º lugar, com 2h. 42m e 12s. Conforme notícia publicada em jornal, “nos 100 quilómetros contra-relógio, Marquez realizou uma prova fantástica, fazendo o percurso em 2h. 42m. 12s., revelando-se o nosso maior especialista deste género de corrida”.
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E, em outra reportagem, informa-se: Os 100 quilómetros contra-relógio – José Marquez, o valoroso corredor que se está afirmando brilhantemente à frente dos nossos melhores “ases”, entra na meta, fresco e sorridente após a magnífica prova que estabelece um dos mais interessantes “records” nacionais.
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Na VI Volta a Portugal
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onforme recorte de jornal, Depois, foi a partida para a 6ª Volta a Portugal. Foi esta corrida que popularizou o nome de José Marquez, a prova que o consagrou definitivamente como um grande campeão e como “o melhor ciclista português”.
Nesta VI Volta a Portugal, iniciada em agosto de 1935, José Marquez é o “vencedor moral”, tal como afirmado no jornal O mensageiro do Ribatejo e num postal de M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio, dois admiradores de José Marquez, ou ainda é o “glorioso vencido”, nas palavras do jornalista Alberto Freitas. Diz O mensageiro do Ribatejo: [...] E Marquês, o vencedor moral da “VI Volta a Portugal” em bicicleta, que chegou ao fim coroado com a auréola de grande vencido, despede-se de mim com seu sorriso habitual aquele sorriso que tanta vez o acompanha na vitória. [...]
Dizem os admiradores no postal, mais adiante transcrito na íntegra: Amigo José Marquez [...] Perdeste a Camisola Amarela, devido à má fé do seu novo possuidor, mas em contra-partida, ganhaste-a com leal luta e defendeste-a sempre
lado a lado dos teus mais perigosos adversários, sem te encobrires com a poeira das estradas. És verdadeiramente fidalgo! [...]
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Diz Alberto Freitas: José Marquez, o glorioso vencido da 6ªVolta a Portugal, é um corredor que deixa bem vincado o seu nome na grande prova. O brioso ciclista do Club Atlético Campo de Ourique assinalou a sua passagem pela competição deste ano por uma forma bastante brilhante, digna dum campeão de verdade. José Marquez chegou a Lisboa vencido? Na realidade – sim. Mas pode classificar-se de vencido um corredor que se comportou como José Marquez, um homem que animou a prova desde a partida à chegada, um atleta que demonstrou tanto brio, tanto espírito desportivo, tanta abnegação e tão grande valor? José Marquez é um glorioso vencido, mas é, ao mesmo tempo, um vencedor – porque a sua prova na 6ª Volta a Portugal lhe dá direito a esse título.
Oficialmente, José Marquez chegou em 2º lugar, mas tudo leva a crer que, não fosse a aguda crise de furunculose que lhe atacou braços e pernas no percurso Portalegre-Fundão-Viseu-Pedras Salgadas, teria obtido a 1ª classificação. José Marquez está com 26 anos, acabados de fazer em 8 de junho. Sobre a VI Volta a Portugal, há, no precioso cofre azul e no álbum, várias fotos legendadas e recortes de reportagens. O (difícil) ordenamento dos recortes e das fotos permitiu refazer o percurso aproximado da Volta, bem como particularizar as seguintes 15 etapas: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.
Lisboa – Montemor-o-Novo Montemor-o-Novo – Évora Évora – Loulé Loulé – Tavira Tavira – Faro Faro – Beja Beja – Portalegre Portalegre – Fundão
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Fundão – Viseu Viseu – Pedras Salgadas Pedras Salgadas – Guimarães Guimarães-Porto Porto-Ovar Ovar-Curia Curia-Lisboa
Na VI Volta a Portugal
9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
Trajetória aproximada da 6ª Volta a Portugal em bicicleta
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Sobre a primeira etapa, fica-se sabendo que, tendo ultrapassado Setúbal, “o valoroso estradista José Marquês atravessa, velozmente, Vendas Novas”, a caminho da meta em Montemor-o-Novo. E a 1ª etapa, Lisboa – Montemor-o-Novo, é vencida por José Marquez. É ele o primeiro “Camisola Amarela” desta Volta.
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Noticia uma reportagem que, “executando teatralmente o golpe mais fulminante das Voltas a Portugal, José Marquês envergou a camisola amarela. Um ‘sprint’ de 40 quilómetros após 90 de velocidade alta.”
Também na revista Stadium de 28 de agosto de 1935, lê-se: “Vencedor fulminante da primeira etapa da VI Volta a Portugal, José Marquês, ao envergar em Montemor-o-Novo a camisola amarela de favorito, vê realizado um dos maiores sonhos de sua vida!” 44
Na VI Volta a Portugal
Outra notícia informa: “José Marquês corta a meta no Estádio 1º de Maio, em Montemor-o-Novo, vencendo, assim, a primeira etapa da ‘Volta’.”
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez recebe uma taça pela vitória em Montemor-o-Novo
Em Montemor-o-Novo, José Marquez recebe a primeira taça da 6ª Volta a Portugal, em 1935. Uma outra capa da revista Stadium também estampa as seguintes informações: Confirmando-se como o nosso melhor ciclista da actualidade, José Marquês tem sido uma revelação brilhante excedendo as expectativas com as ruidosas marcas dos seus resultados. A nossa capa foca admiravelmente a linha de elegante corredor do jovem elemento do Campo de Ourique.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Uma foto de jornal mostra “José Marquês, o favorito da ‘VI Volta’, mergulhando os pés num reconfortante banho de ‘Nallysal’.”
Em um recorte de jornal com o título “José Marquez, um dos grandes favoritos”, lê-se: O vencedor da primeira etapa da VI Volta a Portugal é um nome que ultimamente tem alcançado notável popularidade. Corredor voluntarioso, rápido, bom tipo de atleta, José Marquês tem realizado uma época brilhantíssima, impondo-se como um dos melhores velocipedistas portugueses. Em quase todas as provas da presente época, José Marquez tem obtido os melhores resultados, elevando bem alto as cores do Club Atlético Campo de Ourique. A tal ponto José Marquez se tem distinguido – que o seu nome foi logo incluído entre os dos favoritos da VI Volta a Portugal. Excelente “sprinter”, esta qualidade tem-lhe servido várias vezes para conquistar vitórias magníficas; entre os estradistas portugueses José Marquez deve ser hoje o corredor mais rápido. Contudo, José Marquez não é só um “sprinter”, é também um corredor resistente,
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de músculos poderosos, um homem com a “endurance” necessária aos estradistas, que é capaz de adoptar um “passo” duro e mantê-lo ou acompanhar o mais áspero andamento imposto por um adversário. José Marquez tem 25 anos, pois nasceu em Vila Chã de Ourique a 8 de junho de 1910. Não é um nome novo na Volta a Portugal; já duas vezes participou na grande competição obtendo lugares interessantes. Assim, na IV Volta terminou no oitavo posto; na corrida de 1934 baixou dois lugares. Em ambas as provas José Marquez vestiu o “maillot” verde-branco do Sporting. Este ano o valoroso estradista abandonou a colectividade leonina, ingressando no Club Atlético de Campo de Ourique. No seu novo club, com a sua nova camisola branca riscada de vermelho, José Marquez entrou com o pé direito. Preparado cuidadosamente, em condições físicas excelentes e um notável aperfeiçoamento técnico, José Marquez começou a dar que falar. Colecionou vitórias e resultados honrosos. O seu “maillot” passou muitas vezes triunfante a linha branca da chegada. O seu nome foi ganhando popularidade. Em Março alcançou a primeira grande vitória, batendo o “Record” dos 50 quilómetros clássicos, no tempo de 1h. 32m. 50s. Não ficou por aqui. No mês seguinte Marquez corre os 100 quilómetros e bateu o “record”: 3h. 2m. 57s. Estes triunfos magníficos espevitaram o seu brio de atleta e José Marquez não se contentou com aquelas duas lindas vitórias. Participou nos 100 quilómetros contra-relógio e realizou o tempo fantástico de 2h. 42m 12s. Estas três excelentes vitórias seriam suficientes para consagrar um corredor; mas José Marquez continuou a valorizar o seu livro de campeão. Assim, na corrida Coimbra-Tábua terminou em terceiro lugar, e dias depois conquistou o título de campeão distrital de fundo. E continuou a sua marcha de grande corredor. Na Figueira da Foz triunfou nos 50 quilómetros; no campeonato nacional de fundo cobriu o percurso em 3h. 4m.11s. e bateu todos os adversários, conquistando o seu mais belo título; nas 10 voltas à Covilhã classificou-se em 2º lugar; no circuito da Mealhada chegou em segundo e no Porto-Lisboa terminou em sétimo lugar. A época de José Marquês tem sido, pois, excelente. Quando um atleta consegue realizar uma temporada como José Marquez tem realizado é porque possui, realmente, valor. Marquez iniciou fulgurantemente a VI Volta a Portugal, confirmando as suas brilhantes “performances” anteriores.
E no decorrer da grande prova o intrépido estradista terá bastas oportunidades de se distinguir. Não lhe faltam nem qualidades, nem ânimo, nem valor.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sobre a 4ª etapa, Loulé-Tavira, também vencida por José Marquez, há uma reportagem, intitulada “O valoroso José Marquês que saira em último lugar de Loulé forneceu a nota mais emocionante da corrida”, que noticia o seguinte: Após S. Braz de Alportel, os ciclistas meteram por um lanço de estrada plana, bem construída, e atingiram a descida do Bongado, que, não obstante ter algumas curvas e precipícios todos aproveitaram bem. Este lanço terminou em zig-zag, no ribeiro do Bongado. Depois até Santa Catarina, os ciclistas passaram descidas e subidas, e algumas curvas, com o mesmo entusiasmo; prosseguiram a marcha até Fonte do Bispo, deixando à direita os caminhos para Moncarapacho e Fuzeta, e atingiram o ramal, que, do mesmo lado, conduz a Santo Estevão de Tavira. O sol era quente, e havia muita poeira; mas corria uma aragem agradável, da banda do mar, que muito atenuava aqueles dois males. De resto, o percurso era pequeno – 37 quilómetros – e feito por estrada boa. Ezequiel Lino, que fez um bom percurso, conseguiu alcançar Martins Aguiar, que fez uma etapa má, por se queixar de uma ferida no peito. Também José Maria Nicolau fez uma excelente tirada, pois recuperou meio minuto dos dois que levava de diferença de Ezequiel. Porém, perto de Tavira, fraquejou, e perdeu essa vantagem. Cabrita Mealha perdeu, também um minuto, pois fez todo o percurso com a roda dianteira empenada o que o obrigou a um grande esforço, aumentado com a dificuldade de manter as mãos feridas no guiador. Valério de Sousa, que tivera um “furo” no Alto do Cano à entrada de S. Braz teve outro, e foi ultrapassado por Carlos Domingos Leal. A estes se juntaram Afonso Lopes e Soares Barbara. A nota mais emocionante da prova forneceu-a José Marquês. No desejo de assegurar a “camisola amarela”, pedalou sempre com extraordinária energia. Foi o último a sair de Loulé, mas após a Fonte do Bispo, eram 16 e 32, conseguiu alcançar Cesar Luiz, que saíra dois minutos antes dele. Avalia-se facilmente o esforço dispendido por José Marquês nesta corrida, sabendo-se que Cesar fez uma boa prova. José Marquês e Cesar Luiz marcharam juntos durante algum tempo, e cinco minutos depois, alcançaram Felipe de Melo. Nesta altura, José Marquês deu um “arranco formidável”, para se isolar, mas não o conseguiu.
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Na VI Volta a Portugal
Houve luta emocionante no Estádio de Tavira entre Felipe de Melo, Cesar Luiz e José Marquês, que foi afinal, o vencedor da etapa contrarelógio.
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Um outro recorte mostra: “O campião de Portugal, depois de cortar a meta em Tavira, na etapa contra-relógio”.
Vencedor da etapa Loulé – Tavira, José Marquez recebe uma taça e um ramo de flores
E a foto de José Marquez, com a taça e o ramo de flores, sai estampada ainda na capa do Notícias Ilustrado (edição semanal do Diário de Notícias), Ano VIII, série II – 1935, com a seguinte legenda: “José Marquez o primeiro camisola amarela da sexta volta”. Sobre a 5ª etapa,Tavira – Faro, a reportagem intitulada “O valor pessoal e técnico dos quatros vencedores das etapas corridas afirmou-se brilhantemente”, discorre sobre os acontecimentos da seguinte maneira: Até Faro foram quatro os vencedores: José Marquês ganhou duas; e Cabrita Mealha, Ezequiel Damião Lino e Ildefonso Rodrigues, uma cada. Dois homens de Lisboa – e dois do Algarve. Um equilíbrio – até ao sul, pelo menos ... É difícil dizer qual destas vitórias foi a mais bonita. José Marquês ganhou com brilhantismo as duas que figuram no seu “almarés”. Em ambas se afirmou de novo como corredor rápido, voluntarioso e inteligente. A primeira, apresentou-a até com um poder de iniciativa que lhe não tem sido muito freqüente. Procurou, em verdade, a sorte da corrida, na altura que lhe pareceu melhor. 52
53 Na VI Volta a Portugal
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Depois conseguindo bom resultado para a sua “demarrage”, levou tudo de roldão até o final. Na segunda vitória, ao correr em boas condições de referência, brilhou pela regularidade. Foi uma bela prova. Ganhar dois minutos de avanço em 37 quilómetros de percurso é “performance” de valor. Acresce, porém, o valor da média – cerca de 37 quilómetros à hora. José Marquês ganhou duas tiradas. Isso bastava para ser numericamente, o melhor dos vencedores. A posse da “camisola amarela” é outra prova. Devemos, no entanto, acentuar que é, entre os quatro, o que deu mais nitidamente a sensação de favorito. É ainda cedo para prognósticos – e foi pequena a margem de tempo conquistada na terça-feira. Promete, todavia, bastante. E já o prometia antes de iniciar a corrida. Ezequiel Damião Lino merece que o ponhamos no lugar imediato. A sua arrancada teve brilho, mas teve especialmente emoção. As duas etapas iniciais saíram-lhe más. De manhã, uma avaria na máquina. De tarde, má carburação num género de provas em que não pode ainda salientar-se. Era preciso dar confiança aos seus companheiros e ao seu clube. Soube procurar a vitória, com calma e com entusiasmo. Como há dois anos, na Serra da Estrela, tentou alcançar à frente o alto da montanha, para depois se isolar na descida. O ataque saiu-lhe bem. Primeiro lugar na contagem dos pontos para o “Grande Prémio”, e valoroso na galopada para Loulé. Esta fase fica, até agora, na prova deste ano, como a mais emotiva. Cheia, realmente, de beleza. Excelente o resultado obtido – vitória na etapa e subida de dez números na classificação geral. António Cabrita Mealha ganhou bem a vitória que lhe coube. Fugindo à “consigne” da cautela nos primeiros dias tentou fazer a contra-prova do Campeonato Nacional de Fundo, também contra-relógio. E fê-la com êxito, pois conseguiu bater o corredor que mais se distinguira anteriormente. Tentou também, com o mesmo entusiasmo a vitória em Loulé, mas lutou todo o dia com “azares”. Ildefonso Rodrigues teve igualmente um triunfo brilhante, pela sua parte. E conseguiu-o numa corrida que não parecia pouco adaptada às suas características. O conhecimento da estrada serviu-lhe, porém, bastante. Teve, também, o mérito de atacar na altura propícia – na subida que dá para a entrada da sua terra. A sua vitória foi-lhe, por isso duplamente agradável – como resultado de corrida e como estímulo para a carinhosa recepção dos seus conterrâneos.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Na 6ª etapa, conforme a legenda da foto, “José Marquês passa em Castro Verde, à frente do primeiro pelotão na etapa Faro-Beja”.
Na 7ª etapa, Beja-Portalegre, a resistência física de José Marquez dá os primeiros sinais de que algo não vai bem. Durante a 8ª etapa, Portalegre-Fundão, passando por Vila Velha de Rodão, uma crise de furunculose atinge o atleta em cheio, atacando-lhe pernas e braços. A doença, extremamente dolorosa, inflama grandes áreas de tecidos cutâneos, causando febre. Uma reportagem de jornal dá notícia do sofrimento do atleta: José Marquês, atacado de furunculose e caminhando com dificuldade, voltou a ter uma etapa valorosa. A sua resistência continuou a ser heróica. Energicamente, tenazmente, manteve-se quase sempre na frente da prova e algumas vezes assumindo o “comando”, quando a velocidade baixou. O descanso de hoje deve ser-lhe particularmente útil, para se recompor. Se melhorar, é homem para se bater com Cesar Luiz, na primeira ocasião. O seu momento de crise parece já ter passado. E o terreno plano mais propício às suas qualidades, não demora muito.
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Na VI Volta a Portugal José Marquez é o segundo à esquerda
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José Marquez com curativos nos braços
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O dia de ontem, nas Pedras Salgadas, rompeu luminoso e claro. Acentuou-se a magnífica disposição dos corredores, excepção feita, é claro, de José Marquês, a quem, por causa dos furúnculos, foram feitos enérgicos tratamentos, pois estava em risco de não alinhar. Anteontem ao fim da tarde, no lindo parque das termas, organizouse uma festa desportiva, em que intervieram jornalistas, fotógrafos, massagistas, delegados de clubes, mecânicos, etc. Houve corridas de bicicletas, provas de obstáculos contra-relógio, corridas de três pernas, um desafio de “football” e uma gincana. Serviram de juízes de linha Cesar Luiz, Ezequiel, Aguiar da Cunha, Felipe de Melo e Ildefonso Rodrigues. A assistência, constituída por aqüistas e corredores riu fartamente com as peripécias do festival. A direção do hotel Universal ofereceu um “Porto de honra” aos redactores do Século e a outras pessoas da comitiva da “VI Volta” que, naquele hotel, tiveram o melhor acolhimento. Os aqüistas associaram-se a esta homenagem, sendo O Século muito aclamado. A noite foi de absoluto repouso, e, por isso, ontem, de manhã, todos os concorrentes apareceram cedo e bem dispostos. José Marquês melhorara consideravelmente e estava autorizado pelo médico a participar da corrida, embora o tivesse de fazer em condições de inferioridade física. O animoso rapaz, porém, aceitava a luta em quaisquer circunstâncias. Tinha uma decidida vontade de correr e alcançar de novo a “camisola amarela”, que, na sua própria expressão, já se habituara ao seu corpo... Tal como sucedera com a chegada, a partida dos concorrentes despertou grande interesse entre os aqüistas, os quais, na sua maioria, só almoçaram depois da abalada dos corredores. Queriam gozar, até o fim, o movimentado espetáculo, e surpreender, nos rostos e nas falas dos concorrentes, as possibilidades de vitória. A tirada até Guimarães, de 160 quilómetros, depois de um dia de descanso, podia trazer surpresas, apesar do esforço violento das etapas anteriores, que todos os ciclistas acusam em maior ou menor grau. A concentração começou às 12 horas, na estrada para o Vidago, junto à estação de caminho de ferro. À chamada, que se fez pouco depois, responderam 34 corredores – os que restam de 55 que fizeram a primeira etapa da “Volta”. 59
Na VI Volta a Portugal
Sobre a 10ª etapa,Viseu – Pedras Salgadas, há uma reportagem jornalística de O século intitulada “Nas Pedras Salgadas, alinharam 34 concorrentes dos 55 que fizeram a primeira etapa da ‘Volta’”, informando que
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A seguir, foi entregue a Felipe de Melo, vencedor da etapa ViseuPedras Salgadas, o tinteiro de pau-santo e prata oferecido, como 1º prémio, pela Comissão de Iniciativa das Pedras Salgadas.
José Marquez recebe cuidados médicos nos furúnculos das pernas, em Pedras Salgadas
Uma outra reportagem de jornal faz o balanço das etapas percorridas até o momento, com o título “A média horária que os vencedores das etapas têm atingido na competição”, e oferece revelações preciosas com o seguinte texto: Damos, a seguir, a nota dos vencedores das etapas realizadas, o tempo gasto nos percursos e a média horária que têm atingido: Lisboa – Montemor-o-Novo. – 130.200m. José Marquês (Campo de Ourique), em 3h., 28m. e 17s., à média horária de 35.200m. Montemor-o-Novo – Évora. – 45.500m. Cabrita Mealha (Louletano), em 1h., 16m. e 30s., à média horária de 32.800 m. Foi prova contrarelógio. Évora – Loulé. – 221.950m. Ezequiel Lino (Sporting A), em 7h., 32m. e 37s., à média horária de 29.422m. Ezequiel Lino obteve na
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Resumo: Individual José Marquês ................ Cabrita Mealha ............. Ezequiel Lino ............... Ildefonso Rodrigues ..... Felipe de Melo ............. Cesar Luiz ....................
2 vitórias 1 ” 2 ” 2 ” 2 ” 1 ”
Clubes Sporting ....................... Campo de Ourique ...... Louletano ..................... Carcavelos .................... Velo Club “Os Leões” ...
4 2 1 2 1
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” ” ” ” ”
Na VI Volta a Portugal
Altura dos Cavalos cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”. Loulé – Tavira. – 37.000m José Marquês (Campo de Ourique), em 57m e 23s., à média horária de 38.640m. Foi prova contra-relógio. Tavira - Faro. – 80.400m. Ildefonso Rodrigues (Sporting A), em 2 h, 27m. e 9s, à média horária de 32.760m. Faro - Beja. – 172.700m. Felipe de Melo (Carcavelos), em 6h., 4m. e 5s., à média horária de 28.140m. Beja - Portalegre. – 239.000m. Ildefonso Rodrigues (Sporting), em 8h., 24m e 47s., à média horária de 28.380m. Portalegre - Fundão. – 132.100m. Cesar Luiz (Ferreira do Alentejo), em 4h., 5m. e 17s., à média horária de 30.240m. Fundão - Viseu. – 157.700m. Ezequiel Lino (Sporting A), com 5h., 34m. e 30s., à média horária de 28.260m. Ezequiel Lino obteve na Aldeia de Santa Cruz mais cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”. Viseu - Pedras Salgadas. – 148.800m. Felipe de Melo (Carcavelos), em 6h., 15m. e 50s., à média horária de 23.700m. Felipe de Melo classificou-se em primeiro lugar em Parada de Cunhos onde obteve mais cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sobre a 11ª etapa, Pedras Salgadas – Guimarães, há uma reportagem de jornal, de final de agosto, que informa o seguinte:
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Desde o início da “VI VOLTA a Portugal”, em bicicleta, até ontem não se registara ainda nenhum desastre. A possibilidade de choques entre os concorrentes ou entre os automobilistas e motociclistas que os acompanham foi sempre evitada, à excepção da queda dum motociclista na Cova da Piedade, pouco antes da partida da caravana para a grande prova. Ontem, infelizmente, registou-se o primeiro incidente grave, que oxalá seja o último. Em conseqüência dele, caiu e ficou ferido numa perna o esforçado ciclista nortenho Francisco Joaquim da Silva, o “Francês”, representante do Académico, do Porto. Muito embora não sofresse ferimentos de gravidade, foi constrangido, por esse lamentável facto, a abandonar a prova, que estava a realizar com brilho e com honra para o seu clube. A não ser esta, forçada por tão imprevista e deplorável circunstância, mais nenhuma desistência se verificou durante a etapa de ontem, apesar da sua extrema dureza. O ciclo das desistências, efectivamente, deve já ter terminado, como previmos, e os actuais concorrentes devem chegar todos a Lisboa, em plena disputa da sensacional prova. Faltam quatro etapas para ficar concluída a “Volta”. E, como de princípio, é prematuro tudo quanto se diga a propósito do vencedor absoluto da prova. Tal como à chegada dos ciclistas às Pedras Salgadas, um pelotão constituído por quinze concorrentes chegou ao mesmo tempo à meta de Guimarães, logo seguido por outros, com diferenças de poucos segundos. Nesta conformidade, os vaticínios continuam a ser falíveis. É certo que Cesar Luiz conseguiu distanciar-se dos restantes competidores, na classificação geral, por uma diferença apreciável de tempo. Essa diferença, porém, pode ser inutilizada, se ele tiver a infelicidade de sofrer dois acidentes cuja reparação lhe roube alguns momentos. A homogeneidade dos corredores mais fortes está por demais reconhecida e tem-se tornado evidente desde as primeiras “tiradas” da “Volta”. Excepto a arrancada formidável de Cesar Luiz em que ele conseguiu vencer uma etapa, tirar a “camisola amarela” a José Marquês e ganhar cerca dum quarto de hora de avanço sobre o seu mais próximo competidor, mais nenhuma proeza deste gênero se registou ainda. Evidentemente, todos devem ter tentado realizá-la. Contudo, nenhum dorme, e, assim, não há probabilidade de surtir efeito qualquer “fuga”. A entrada dos ciclistas no Estádio do Lumiar deve ser, por este motivo, um espetáculo de extraordinária emoção. A vitória da “Volta”, tal como as das etapas, terá que ser disputada ao “sprint”,
perante as aclamações, os incitamentos e o entusiasmo dos milhares de pessoas que hão de aglomerar-se em torno do nosso maior campo desportivo.
A 12ª etapa, Guimarães – Porto, foi ganha por José Marquez.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
O comentário do recorte de jornal informa: “José Marquez, seguido por Felipe de Melo e Ildefonso, e liberto de Cesar, ensaiou, depois de Viana, a corrida veloz que lhe permitiu recuperação de tempo.”
Em outra reportagem de jornal, fica-se ainda sabendo que : Em Viana do Castelo, às 16 e 49, o grupo mantinha-se intacto, sob a direção de José Marquês. Cesar Luiz reduzira a diferença para 2 minutos. Em Espozende, a vinte e três quilômetros deViana, a diferença não ia além dum minuto. A valorosa corrida de perseguição cansou, porém, Cesar Luiz. A partir dessa altura, aumentou gradualmente a distância de Cesar Luiz do grupo fugitivo. Na Póvoa de Varzim, a diferença estava em 8 minutos e permitira que Cesar fosse apanhado por um pelotão.
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José Marquês forçou, porém, o andamento, a ponto de destroçar o pelotão. Martins de Aguiar ficou para trás. Entre a Póvoa e Vila do Conde, atrasou-se Felipe de Melo, por haver caído. Ezequiel cedeu também. Em Vila do Conde passou acompanhado de Cesar, com quatro minutos de atraso. Um só homem agüentou o andamento de José Marquês – Ildefonso Rodrigues. Como na etapa em que José Marquês perdeu a “camisola amarela”, o corredor “leonino” foi o único ciclista que se manteve junto até o final. Já na pista do Lima, procurou adiantar-se ao vencedor. José Marquês não lho consentiu, para ganhar com brilho uma das tiradas mais emocionantes, na prova deste ano. Com a prova de ontem, deve ter-se quebrado a fase de monotonia em que a “Volta” entrara. Houve movimentação e velocidade. Embora o ataque resultasse de desastres e avarias de Cesar Luiz, o que é facto é que foi oportuno e brilhante. As figuras mais salientes foram José Marquês, Cesar Luiz e Ildefonso Rodrigues: José Marquês, pela forma como atacou, sempre que teve oportunidade para o fazer; Cesar, pelas duas corridas de perseguição que se viu obrigado a fazer; e Ildefonso, pela resistência oposta à marcha de José Marquês, até à meta. A etapa de ontem teve, pois, como fases de maior animação e beleza, o ataque e fuga de José Marquês e a valorosa corrida de perseguição que o “leader” fez depois. A chegada ao Porto constitui um belo espetáculo. E, como cena de efeito, merece registo o facto do corredor alentejano ser retirado em braços, por via dos ferimentos recebidos em Braga. Os corredores e a sua actuação na etapa de ontem. José Marquês foi o homem do “dia” na etapa de ontem. Era e é difícil arrebatar a Cesar Luiz, sem nenhum desastre ou nenhuma avaria, os dezanove minutos que levava de vantagem. Cumpria-lhe lutar sempre, até à arrancada derradeira sobre a meta de Lisboa. Mas cumpria-lhe, sobretudo, tentar bater Ildefonso Rodrigues, que o ultrapassara, apesar de não ter ainda chegado à craveira do favorito. Preparando serenamente o ataque ou espreitando a primeira paragem do seu forte adversário, José Marquês, só transitoriamente renunciará à luta, ao combate franco, em campo aberto, com as mesmas armas de valor e entusiasmo. Aguardava-se, somente, que a crise dos furúnculos lhe permitisse voltar à ofensiva. E não renunciou realmente à luta. Provou-o ontem, como o deve provar hoje, em duas etapas que estão dentro das suas características. É, pois, justo destacar a bonita vitória de José Marquês. O corredor ressurgiu quase por completo, após alguns dias de crise e de dúvidas. A sua combatividade foi a nota dominante da etapa depois de Viana do Castelo. Um grande triunfo, que veio mostrar que o seu duelo com
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Cesar Luiz deve animar o resto da prova. Reduziu de seis minutos, o seu atraso em relação a Cesar Luiz; mas não chegou a ultrapassar Ildefonso Rodrigues. José Marquês fez a etapa à média excelente de 32.000 quilómetros. Pela ordem de classificação, no Porto, segue-se, nestas notas Ildefonso Rodrigues. O corredor algarvio fez ontem sentir a sua presença. Não ganhou nova etapa. Pode, no entanto, acompanhar José Marquês, quando ele levou tudo de roldão, a caminho do Porto. Foi o melhor corredor, dentro do grupo que José Marquês arrastou para a “fuga”. Se não pode atacar, soube, pelo menos, defender com galhardia o seu posto, ou seja, o segundo lugar da classificação individual. Cesar Luiz, que Felipe de Melo alcunhou, em Guimarães, de “Rei da Sorte”, registou ontem o seu primeiro dia de infelicidade. A queda de Braga anulou-a, ele, quanto a tempo, pela magnífica corrida de perseguição que executou depois. A segunda corrida de perseguição fê-lo reduzir o atraso, de 5 minutos a um só minuto, até Espozende. O violento esforço despendido cansou-o, todavia. Para o fim, com a companhia de Ezequiel, melhorou um pouco. A sua defesa porfiada, valorosa, exuberante de mocidade, ficou sendo uma das notas mais brilhantes e emotivas do trajeto percorrido entre Guimarães e o Porto. Registado o ressurgimento de José Marquês, o “leader” tem agora adversário capaz de o “puxar”. Felipe de Melo fez também uma boa prova. Acompanhou o galopar de Marquês na altura mais perigosa. Em Vila do Conde sofreu uma queda, que o atrasou bastante. A perda de tempo não foi depois compensada. Classificou-se, todavia, em terceiro lugar, na etapa, e conservou o quarto ponto da classificação geral. Os outros corredores chegaram suficientemente atrasados para que deles não mereça a pena falar. Como noutras etapas, os primeiros classificados na etapa são, de facto, os melhores corredores que não saíram da prova. Até mesmo Ezequiel Lino, o quinto da classificação geral, foi quinto na classificação da etapa. Entre eles, há, no entanto, corredores muito “touch”, não sendo fácil prever o que farão nos últimos três dias deste ano. Não houve alterações profundas na classificação individual. Ezequiel Lino subiu um ponto, trocando a sua posição com a de Martins de Aguiar. Joaquim de Sousa desceu, pirem, alguns números. Fernando de Almeida desceu também.
Em mais uma foto da VI Volta a Portugal há a legenda: “No medalhão: próximo de Esposende, Marquez, Melo (encoberto) e Ildefonso procuram fugir à perseguição de Cesar Luiz.”
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[...] Atravessada a ponte de ferro sobre o rio Ave, a estrada sobe em curvas até a formosa igreja matriz de Azurara. Nesta localidade, os estradistas passaram também entre o entusiasmo popular. Surgiu, depois, a passagem de nível. Como as cancelas estavam fechadas, os corredores atravessaram a linha, a pé. À frente ia Marquês, que continuava a “puxar”. Seguiam-no Felipe de Melo e Ildefonso, que atravessaram aquele ponto às 17 e 57. Depois apareceram Cesar e Ezequiel Lino. Eram 18 e 2. Sete minutos depois passaram Manuel de Sousa, José Braz Junior, Castelão Romão, Roberto de Magalhães e Martins de Aguiar. Um momento mais tarde, passou também, a pé, Duarte Faria. A passagem destes corredores foi difícil, pois estabeleceu-se ali grande confusão com automóveis. No caminho para Modivas, a estrada é de excelente piso e tem rectas apreciáveis, de grande extensão, como a de Mindelo. Ao atravessar Modivas, Felipe de Melo deixou os seus companheiros de pelotão. Um cão embaraçara-se na roda da bicicleta o que provocou uma queda do ciclista, que ficou com a máquina bastante avariada. Pouco depois, os estradistas passaram em Vilar de Pinheiro. O entusiasmo popular foi grande, também. José Marquês e Ildefonso levavam já nesse momento seis minutos de avanço sobre Cesar Luiz e Ezequiel Lino. Este sofreu novo dissabor e teve de abandonar Cesar. Tinha-se soltado a corrente da bicicleta. Sucederam-se umas após outras as pequenas localidades dos arredores do Porto: Águas Férreas e Guardeiros, onde muito povo, principalmente ciclistas, assistia à passagem. Na última localidade registaram os estradistas novos percalços. Duarte Faria “furou” e Roberto Magalhães deu uma queda sem gravidade. [...]
Também em outra reportagem, com o título “A marcha da prova. Alguns comentários oportunos sobre a maneira como foi disputada a etapa Guimarães-Porto”, é informado o seguinte: A corrida voltou ontem a ter um largo período de animação. Um dos corredores que a animou, tornando-se a figura de maior destaque, foi, como previmos, José Marquês. O actual campeão nacional não se conformara ainda com a sua posição, em terceiro lugar. Era, pois, de admitir que ele aproveitasse a primeira oportunidade, para se lançar ao ataque. E foi realmente isso que se deu na etapa de ontem. Cesar Luiz, primeiro em Braga, caiu ali, dentro da cidade. José Marquês tomou imediatamente o comando da prova. O detentor 67
Na VI Volta a Portugal
Em outra reportagem de jornal, menciona-se ainda o que segue:
da “Camisola Amarela” perdeu, com o desastre, dois minutos, e teve a cooperação de Joaquim de Sousa seu camarada de clube. Voltou depressa ao ataque e conseguiu apanhar o pelotão, após 24 minutos de corrida de perseguição, feita em grande velocidade. [...]
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A reportagem intitulada “O balanço da etapa. A posição dos concorrentes ao final da etapa de ontem” relata o desenrolar desta 12ª etapa, com um texto em que se lê: Dissemos ontem que as duas etapas realizadas ultimamente tinham sido duas provas infrutíferas para os primeiros corredores que, daquela forma, continuavam nos seus postos, sem aumentarem ou diminuírem as respectivas diferenças de tempo. Porém, depois da etapa de ontem, já se verificaram alterações, não nos postos que cada um tinha, mas no tempo que existia entre cada um deles. Isto, apenas, quanto aos favoritos, pelo menos, até o quarto lugar. José Marquês ganhou ontem a sua terceira etapa, tal como Felipe de Melo o tinha feito no dia anterior. São apenas estes dois ciclistas que conseguiram, até agora, totalizar três vitórias, e é curioso recordar que Felipe de Melo, ao ganhar a sua primeira etapa, garantiu que ainda queria ganhar mais duas. Fez o que prometeu, e Marquês repetiu a proeza. A prova de ontem foi realizada a uma média excelente e promete, para as etapas seguintes, todas por boas estradas e conhecidíssimas dos corredores uma luta formidável. Os 32:000 metros horários realizados por Marquês, na etapa Guimarães-Porto, foram como que a abertura das hostilidades depois da furunculose que o impossibilitava. Ildefonso deu bem a réplica a Cesar, apesar da sua queda e de ter perdido seis minutos e três segundos, é ainda o corredor considerado “leader” da prova e fará por não desmerecer a confiança que os seus partidários nele têm. A chegada de ontem levou “colados”, até o Estádio do Lima, os dois estradistas de clubes de Lisboa, Marquês e Ildefonso. A luta foi renhidíssima nas três voltas à pista para completar a prova. Nas duas primeiras, continuaram juntos e, na terceira, Marquês conseguiu uma ligeiríssima diferença. Assim, ganhou a etapa. Felipe de Melo chegou, depois daqueles, 5 minutos e 17 segundos, classificando-se em terceiro lugar, e Cesar Luiz em quarto, com um atraso de 6 minutos e 3 segundos. [...]
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Na VI Volta a Portugal
A próxima etapa é Porto-Ovar. Na foto a seguir, José Marquez está pronto para a partida .
José Marquez à partida para Ovar ainda com a perna ferida pela furunculose
Esta 13ª etapa, Porto-Ovar, também foi ganha por José Marquez. Sobre esta disputa, há um recorte de jornal com as seguintes informações: [...] Marquez conseguiu, nesta tirada brilhante de Porto a Ovar a magnífica média horária de 38.895 quilómetros. 69
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Vitor Guimarães teve, no princípio da estrada, um “furo”, tendo-lhe um desconhecido emprestado uma máquina. Era visível o desejo que ele tinha de ganhar esta etapa. À saída do Porto, Vitor Guimarães assumiu o comando do primeiro pelotão e travou com o figueirense Alves Barbosa uma emocionante luta. Ambos queriam ganhar esta etapa. Vitor Guimarães por ser do distrito de Aveiro e Alves Barbosa por se encontrar muito próximo da sua terra. Em Ovar,Vitor Guimarães encontrou suas duas irmãs que lhe fizeram uma recepção extremamente cordial, consolando-o da circunstância dele ter entrado em Ovar com uma bicicleta que lhe fora oferecida por um popular qualquer, no momento em que ele tivera um “furo”. A recepção em Ovar foi entusiástica e carinhosa. Em Ovar, a recepção dispensada aos corredores e à comitiva foi verdadeiramente interessante. A Câmara Municipal oferecia uma taça à equipa que se classificasse melhor nesta tirada, taça que foi ganha pelo Sporting Clube de Portugal, e a Comissão de Iniciativa e Turismo ofereceu uma taça destinada ao corredor mais bem classificado na etapa.
Em outra reportagem com o título “A velocidade atingida por José Marquez foi de 38 quilómetros e 100 metros à hora”, as informações são as seguintes:
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Outro relato da etapa Porto-Ovar, intitulado “Venceu José Marquês a etapa contra-relógio, depois de ter ultrapassado Felipe de Melo e de ter alcançado Ezequiel, com quem cortou a meta em Ovar”, apresenta o texto a seguir:
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Na VI Volta a Portugal
Em todas as terras do percurso, como já acentuámos, houve grande entusiasmo popular, à passagem dos corredores. O povo saiu à estrada e saudou os ciclistas, animando os que seguiam em más condições físicas, e incitando os que corriam com maior dificuldade. A assistência popular a Victor Guimarães, e o incitamento a Eugénio Martins, antes da sua desistência, provam o interesse e o entusiasmo do povo pela tirada Porto-Ovar. Em Espinho, uma densa multidão formou alas nas ruas. Os ciclistas foram aclamadíssimos. O mesmo sucedeu em Esmoriz. A recepção em Ovar foi apoteótica. A vila estava verdadeiramente em festa, desde a chegada de Floriano Moreira às 13 horas, 57m. e 31s. Na Praça da República, junto da meta, em frente dos Paços do Concelho, a multidão ali reunida manifestou maior entusiasmo. José Marquês e César Luiz foram alvo de especiais atenções. Outro tanto sucedeu a Victor Guimarães, que é de Aveiro, e muito conhecido em Ovar. Às 14 e 20, tinham cortado a meta os primeiros seis corredores. O melhor tempo, nessa altura, era o de António Bernardo, do Sport de Lisboa e Beja, que fizera o percurso em 58 minutos e 48 segundos. Ao chegar à meta, Felipe de Melo foi conduzido ao hospital da Misericórdia, onde lhe fizeram tratamento ao braço. Muitos corredores, após a chegada, se entregaram às mãos dos massagistas, o que despertou admiração no povo que os rodeava. César Luiz, que estava fatigado, pelo esforço que fizera na véspera, mostrava-se, no final da etapa, muito animado e confiante na sua estrela. Até Ovar, José Marquês conseguiu a média horária de 38:100 metros, que é a melhor da prova. José Marquês, quando passou por Felipe de Melo, num gesto de grande camaradagem, que é de toda a justiça pôr em relevo, como abonador do seu caráter e do seu espírito desportivo, tentou, durante algum tempo, “puxá-lo”. O valoroso corredor de Carcavelos, porém, não pôde corresponder ao desejo do leal camarada de luta, e José Marquês abandonou-o, para que a sua classificação própria não perigasse. José Marquês ganhou a etapa, em 56 minutos e 9 segundos de percurso.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Na passagem de nível de Espinho, Joaquim de Sousa sofreu um pequeno atraso, pois teve de esperar que abrissem as cancelas. Recuperou, porém, o atraso e fez uma boa prova. Próximo a Ovar, Joaquim Fernandes foi alcançado por Manuel de Sousa. Martins de Aguiar, que pedalou sempre com dificuldade, atrasou-se bastante, mas conseguiu, assim mesmo, não ser apanhado por qualquer dos corredores que tinham partido após ele. Ressentido do violento esforço das etapas anteriores, Ezequiel Lino foi alcançado, próximo de Esmoriz, por José Marquês. O grande corredor de Campo de Ourique que já ultrapassara Felipe de Melo, cortou a meta com Ezequiel. Fez uma prova magnífica, sempre com uma regularidade admirável, apesar de se lhe terem partido alguns raios das rodas da bicicleta.
Em uma foto desta etapa, acrescenta-se na legenda a informação “Marquez foi largamente ovacionado à sua passagem em Espinho, onde ganhou um prémio”. Das duas etapas consecutivas ganhas por José Marquez, também parece dar notícia o recorte de jornal abaixo, com o texto: 2º, Cesar Luiz, em 59 minutos e 26 segundos; 3º, Ildefonso Rodrigues, em 1 hora e 20 minutos; 4º, Ezequiel Lino em 1 hora e 35 segundos; 5º, Joaquim de Sousa, em 1 hora, 1 minuto e 16 segundos; 6º, Felipe de Melo, em 1 hora, 1 minuto e 23 segundos. José Marquês conserva, portanto, a “camisola amarela”, pois Cesar Luiz perdeu, nesta tirada, mais dois minutos e três segundos, o que eleva a sua diferença, agora, a dois minutos e nove segundos.
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Sobre a 14ª etapa, Ovar-Curia, igualmente ganha por José Marquez, há um texto que diz:
Em outra reportagem com o título: “A chegada dos corredores à Curia foi assinalada com entusiasmo delirante”, consta o seguinte: Na Curia, defronte do Palace Hotel, juntaram-se muitos milhares de pessoas, algumas vindas dos mais distantes lugares. A animação na linda estância era extraordinária. As bancadas regorgitavam de público, que aguardava impaciente a chegada dos corredores. Entre a assistência figuravam todos os hóspedes do Palace Hotel – onde os ciclistas ficaram alojados – e o Sr. engenheiro Vasconcelos Correia, administrador da C.P. A manifestação feita aos concorrentes da VI Volta a Portugal foi extraordinariamente entusiástica, subindo ao ar muitos morteiros e foguetes. Quando os corredores apareceram, o público rompeu em grandes aclamações, que se tornaram mais vibrantes no momento de José Marquez passar vitorioso a linha de chegada. José Marquez ganhou ao “sprint”, numa boa e emocionante arrancada. O valoroso e intrépido corredor de Campo de Ourique alcançou uma vitória brilhante, que os espectadores souberam apreciar devidamente. Como José Marquez, todos os outros corredores foram aplaudidos e recebidos carinhosamente.
Em outra notícia de jornal, ilustrada por foto, e com o cabeçalho: “José Marquês, do Club Atlético de Campo de Ourique foi o vencedor das duas
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Na VI Volta a Portugal
A energia e o entusiasmo com que os concorrentes da “VI Volta a Portugal” em bicicleta realizaram as etapas Pedras Salgadas-Guimarães e Guimarães-Porto voltaram ontem a caracterizar as etapas PortoOvar e Ovar-Curia. Decididamente, os ciclistas estão apostados em arrancar aos seus músculos o máximo rendimento, para se colocarem nos melhores lugares à chegada a Lisboa. José Marquês, o forte ciclista do Club Atlético de Campo de Ourique, foi o vencedor das duas “tiradas” de ontem. Na primeira contra-relógio, fez uma prova formidável e que não causou surpresa a ninguém, porque todos sabem que as competições deste gênero são as suas preferidas. Na segunda, venceu também ao “sprint”, contra dezassete adversários que cortaram a meta ao mesmo tempo.
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etapas realizadas ontem entre Porto e Ovar e Ovar e Curia da ‘VI Volta a Portugal’ em bicicleta”, pode-se ler o seguinte texto: Os corredores e a sua actuação nas duas etapas de ontem. José Marquês tornou a ser o homem do “dia”, bastante à custa dos recursos próprios, um pouco talvez à custa da tática defensiva a que Cesar Luiz se remeteu, novamente como consequência dos azares sofridos em Braga e Ponte de Lima. O campeão nacional que trouxe outra vez o Campo de Ourique ao lugar de honra de uma grande prova, ganhou ontem duas etapas sucessivas. O facto não constitui proeza vulgar. Mas acresce que ambas as vitórias foram conquistadas com excelente média horária: 38,520 quilómetros, na primeira, e 33,120 quilómetros, na segunda. Para a primeira, era José Marquês o favorito. Em toda a época, tem sido um dos melhores corredores contra-relógio. Apenas perdeu uma prova dessas – a segunda etapa desta “Volta”. É, todavia, de notar que a perdeu, depois do esforço violento da primeira caminhada, ganha por ele, com brilhantismo notável.
Da última etapa, Curia-Lisboa, há uma foto dos corredores atravessando a Serra da Lousã.
Grupo de ciclistas subindo a Serra da Lousã
Há também uma foto de José Marquez cortando a meta, ao chegar a Lisboa em 2º lugar. O 1º caberia a César Luiz.
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Fazendo uma retrospectiva desta VI Volta a Portugal, vê-se que foi José Marquez quem mais acumulou vitórias em etapas, ao todo cinco, o que, em conjunto com o espírito desportivo demonstrado, lhe valeu o epíteto de “vencedor moral” da prova. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
Lisboa – Montemor-o-Novo: vencedor José Marquez Montemor-o-Novo – Évora: vencedor Cabrita Mealha Évora – Loulé: vencedor Ezequiel Lino Loulé – Tavira: vencedor José Marquez Tavira – Faro: vencedor Ildefonso Rodrigues Faro – Beja: vencedor Felipe de Melo Beja – Portalegre: vencedor Ildefonso Rodrigues Portalegre – Fundão: vencedor César Luiz Fundão – Viseu: vencedor Ezequiel Lino Viseu – Pedras Salgadas: vencedor Felipe de Melo Pedras Salgadas – Guimarães: vencedor César Luiz Guimarães – Porto: vencedor José Marquez Porto – Ovar: vencedor José Marquez Ovar – Curia: vencedor José Marquez Curia – Lisboa: vencedor César Luiz
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José Marquez chega ao Estádio do Lumiar (hoje José Alvalade) em Lisboa
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
É o que informa também a legenda da próxima foto: “José Marquês, o admirável corredor que recolheu a maior simpatia e mais etapas ganhou na Volta”.
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E, em um jornal, aparece uma caricatura sua, desenhada por Pargana, com a seguinte legenda: “JOSÉ MARQUÊS. O intrépido corredor do Club Atlético de Campo de Ourique, segundo classificado na 6ª Volta a Portugal (caricatura de Pargana).”
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Há, a arrematar o desempenho dos corredores desta VI Volta a Portugal em bicicleta, ainda uma longa reportagem do jornal Os Sports1, intitulada “Ensinamentos da 6ª Volta – características dos corredores – defeitos a corrigir e qualidades a aproveitar”, que se refere a José Marquez como um atleta modelo. Diz o texto:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
[...] Analisada a ação de César Luiz naVIVolta a Portugal, vamos agora, em comentários finais, estudar a actuação de alguns concorrentes, procurando ao mesmo tempo chamar a atenção dos “novos” – e até de alguns consagrados – para a forma inteligente como José Marquez se conduziu na nossa maior competição ciclista. Se todos os corredores soubessem aproveitar as suas faculdades naturais, como fez o atleta do Campo de Ourique, estamos certos de que o nosso ciclismo teria já uma razoável cotação internacional. Não faltam entre nós corredores fogosos, com óptimas condições físicas e a índole combativa dos nossos atletas adapta-se admiravelmente às características do desporto velocipédico. No entanto, todas estas faculdades, só por si, são insuficientes para elevar o valor da modalidade. A actuação de José Marquez na VI Volta a Portugal pode e deve servir de modelo a todos os corredores. Marquez, não só soube adaptar-se às características da prova, mas conseguiu, com uma atenção e uma inteligência pouco vulgares, dar à marcha das operações a directriz que melhor lhe convinha. Era ele que impunha a sua táctica, não se deixando vencer nem pela adversidade nem pelos ataques dos adversários. Desde a sua “colocação” nos pelotões, até à forma como dispendeu o seu esforço, tudo foi ponderado por Marquez. Nunca o vimos “engarrafado” no meio de adversários. Nunca deixou de responder a qualquer ataque, por ir mal situado. A segunda ou
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O jornal desportivo Os sports foi publicado em Lisboa de 6/4/1919 a 4/4/1945. “O jornal Os Sports foi para as bancas a 6 de Abril de 1919, apresentando-se aos leitores, em subtítulo, como um ‘Bi-semanário de Propaganda de Educação Física’, propriedade do jornal A Capital, tendo como redactor principal A. de Campos Júnior. [...] Em 30 de Novembro de 1925 assume a chefia de redacção de Os Sports um outro nome mítico do jornalismo e do desporto nacional: Cândido de Oliveira, que passou pouco depois a dirigir o jornal devido à saída de A. de Campos Júnior. Até 1926, Os Sports fez uma ascensão notável, que lhe permitiu efectuar uma mudança de vulto na tipologia do cabeçalho, assumindo-se, em subtítulo, a partir de 1 de Maio de 1926, como ‘O jornal sportivo de maior tiragem e de maior expansão em Portugal’ – nesta altura, o nome de Cândido de Oliveira figurava já no cabeçalho como director (até então fora chefe de redacção).” In: PINHEIRO, Francisco. “Imprensa desportiva portuguesa: do nascimento à consolidação (1893-1945)”. Ler História 49, 2005. p. 171-190. Ou: http://www.ceis20.uc.pt/ceis20/ site/UserFiles/Image/FranciscoPinheiroLerHistoria49.pdf, p.179. Acesso: 16/11/2011.
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Uma carta de José Marquez O simpático e denodado corredor do Club Atlético de Campo de Ourique, que foi inegavelmente a figura mais saliente da 6ª Volta a Portugal em bicicleta, enviou ao nosso prezado director a carta que a seguir reproduzimos: Vila Chã de Ourique, 11-09-1935. 79
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terceira posição, visando os homens de maior “classe” foram seus lugares predilectos. Se o percurso era de mau piso, colocava-se imediatamente na frente do pelotão a fim de se livrar da poeira das covas e dos “encostos”, reduzindo ao mínimo o perigo de quedas. Logo que surgia uma descida, José Marquez não hesitava em tomar o comando da marcha. Utilizando maior multiplicação e tirando partido da sua “souplesse” obrigava muitas vezes os adversários a ceder. Quando a subida era longa, o corredor de Campo de Ourique sabia refrear os ímpetos dos trepadores, impondo à corrida uma cadência mais moderada. Foi assim que Marquez sempre se defendeu. No entanto, quando atacava, a intuição era a mesma, acompanhando-a então a classe de grande corredor. Logo que precisava de isolar-se, Marquez, depois de manter uma marcha veloz durante alguns quilómetros, “demarrava” primeira, segunda e terceira vez, até “descolar” os adversários. Apenas via abrir entre si e o pelotão uma pequena clareira, ei-lo impondo a seu passo rijo e uniforme, desenvolvendo a máxima multiplicação até conseguir um avanço razoável. Só nesta altura abrandava a marcha, regulando-a consoante a distância a percorrer. Nunca tentou “fugir”, queimando energias, trazendo atrás de si o grosso dos pelotões. Só quando os adversários ficavam isolados, lutando em circunstâncias iguais às suas é que Marquez se empregava a fundo. Vimo-lo muitas vezes na frente do pelotão “rebocando” numerosos adversários, mas, nestas ocasiões, embora comandasse a prova, não desperdiçava energias loucamente. A sua cadência, embora rápida, era para ele normal e essa táctica tinha quase sempre a função de aniquilar lentamente os restantes corredores, ou, em último recurso, não consentir que os adversários se recompusessem do esforço de algum ataque anterior. Foi assim que o Marquez esteve quase sempre senhor da situação, sabendo resistir heroicamente à doença e conseguindo um final de prova empolgante. À sua força de vontade, à sua disciplina – pois Marquez é um dos atletas mais disciplinados que temos visto e ao seu brio desportivo deve o Campeão Nacional a maioria dos seus triunfos.
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...Sr. Raul de Oliveira, ilustre director do jornal “Os Sports”: Venho por este meio testemunhar os meus agradecimentos aos jornais organizadores da Volta a Portugal em bicicleta e, em especial, a V. como director da grande competição, pela maneira carinhosa como fui tratado e pelas atenções de que fui alvo durante todo o tempo em que tive a honra de conviver junto de todos vós. Estou também muito reconhecido a “Os Sports” e ao “Diário de Notícias” pela forma como se referiram ao meu esforço durante a 6ª Volta. Ao mesmo tempo, rogo a V. que, em meu nome, felicite o sr. dr. Beirão da Veiga pela sua obra – a Volta a Portugal em bicicleta – pedindo-lhe que não desanime, organizando-a todos os anos para maior desenvolvimento do ciclismo em Portugal. Vivam o “Diário de Notícias” e o “Os Sports”. De V.. etc. José Marquez
Neste ano de 1935, como consta da legenda da foto que ilustra a capa deste livro, José Marquez sagra-se “campeão de Portugal de fundo”, “recordman” da corrida dos “100 quilómetros contra-relógio” e segundo classificado individual na “VI Volta a Portugal” em bicicleta e componente da equipe do Clube Atlético Campo de Ourique, vencedora da mesma prova.
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o cofre azul, encontram-se também os textos de três entrevistas. A primeira é concedida a Alberto Freitas, a segunda ao jornal O mensageiro do Ribatejo, a terceira ao Jornal de notícias1. Por último, há uma curta biografia do atleta, de autoria do mesmo Alberto Freitas que, à guisa de apresentação, a antepõe à sua entrevista, anteriormente citada.
Em Faro: José Marquez à direita, de chapéu de palha
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O jornal de notícias foi fundado em 1888, no Porto, e, atualmente, pertence ao Grupo Controlinveste Media e é dirigido por Manuel Tavares.
Entrevista concedida a Alberto Freitas
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Sob o título “José Marquez, glorioso vencido”, assim se alternam as perguntas e as respostas da entrevista concedida a Alberto Freitas: — Quando partiu para a “Volta” levava esperança na vitória? José Marquês com sinceridade: — Parti sem ideia na vitória. Pensava, sim, numa boa classificação; mas longe de mim a ideia de vencer ou mesmo de alcançar o lugar que vim a alcançar. Mas quando comecei a correr vi que podia fazer alguma coisa – e tentei fazer o melhor que me foi possível. Nova pergunta: — A 6ª Volta foi mais difícil do que as outras em que participou? E nova resposta: — Não me pareceu. Se não tivesse tido os furúnculos, teria feito a prova com relativa facilidade. Abordamos agora um assunto interessante: etapas contra relógio e etapas em linha. Marquez sente-se como peixe na água dizendo: — Prefiro as etapas contra relógio. Nestas o corredor faz esforço mas para si próprio. Nas etapas em linha trabalha para os outros. Nas etapas contra relógio o corredor tira benefício do seu próprio esforço; nas outras, sucede muitas vezes os adversários colherem os benefícios do seu trabalho. — A inovação deste ano deve ser mantida, e talvez mesmo ampliada? Uma interrogação a que José Marquez responde: — A etapa mais difícil para mim foi a de Portalegre ao Fundão. Os furúnculos fizeram-me um verdadeiro assalto e confesso que foi necessário muita energia para resistir. — E qual a vitória que mais lhe agradou? — A da primeira etapa. E porque me permitiu vestir logo de entrada a camisola amarela. — Julga que o ciclismo português tem progredido? — Mas sem dúvida nenhuma. O nosso ciclismo acusa grandes progressos e creio que o futuro deste desporto está absolutamente assegurado. A Volta a Portugal tem tido decisiva influência no desenvolvimento do nosso ciclismo e afirmo-lhe que, se não fosse a “Volta”, o ciclismo português não teria saído do marasmo em que esteve tanto tempo. — Entende, assim, que a “Volta” deve ser mantida? — A Volta a Portugal é indispensável ao ciclismo e ao desporto em geral. Acabar com a “Volta” seria acabar com o ciclismo – digo-lhe sinceramente.
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E continuando: — A “Volta” desperta o maior interesse por todo o País. São quinze dias em que não se fala noutra coisa. Uma prova como esta promove excelente propaganda não só do ciclismo, mas do desporto. Hoje, Portugal já não poderia passar sem a “Volta”. Apesar de hoje ter um nome em grandes letras no desporto nacional, José Marquez conserva a modéstia e a simplicidade dos tempos em que a bicicleta só lhe servia para fazer passeios na sua terra. Ainda nisto José Marquez revela as suas qualidades de verdadeiro desportista. Marquez tem sabido conquistar simpatias com seu ar singelo, com sua conduta disciplinada, com seu trato afável e amizade pelos adversários. Os dirigentes estimam-no sinceramente. E os adversários admiram-no. José Marquez não se envaideceu com as vitórias, respeitando os adversários menos felizes e reconhecendo-lhes o valor. Por isso ele é hoje um nome querido por toda a gente do desporto. Após o belíssimo comportamento de José Marquez na 6ª Volta a Portugal, colhemos do brioso corredor algumas impressões que Os Sports arquiva com desvanecimento. José Marquez corpo miúdo mas alma de grande atleta confiou-nos uma série de ideais interessantes – que são belas fotografias da Volta a Portugal. As suas primeiras frases: — A “Volta” deste ano foi, sob o ponto de vista desportivo, a melhor possível. Julgo, mesmo, que a 6ª “Volta” foi muito superior, sob este aspecto, às outras em que participei. Lançamos uma pergunta: — E a organização satisfez-lhe, sinceramente? José Marquez sem hesitação: — A organização da prova deste ano foi modelar. Mas devo confessar que a organização das provas de 1933 e 1934, em que também participei, me agradaram igualmente. Nunca tive nada a reclamar. Numa afirmação interessante: — E nunca terei, pois a “Volta” é preparada conscienciosamente e organizada com a ideia de bem servir o ciclismo. Faço essa justiça – e todos deveriam fazer. Procuramos, agora, conhecer a opinião de Marquez sobre a sua classificação. O corredor de Campo de Ourique declara: — A minha classificação podia ter sido melhor se os furúnculos não me tivessem atormentado. Isto não quer dizer que eu vencesse, mas somente que teria chegado a Lisboa com menor diferença de Cesar Luiz. Reconheço que Cesar é um grande ciclista e a vitória que obteve está certa. Foi mais feliz do que eu, mas a felicidade também faz parte da prova. A vitória de Cesar foi regularíssima.
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— Se o nosso ciclismo progride, se os nossos corredores revelam qualidades, entende que deveremos participar nos Jogos Olímpicos? — Em minha opinião o ciclismo deve fazer-se representar nos Jogos Olímpicos de Berlim. Temos gente que, bem preparada, pode fazer boa figura. Arriscamos: Se o Marquez for escolhido... José Marquez não deixa concluir a frase e responde: — Se merecer a honra de ser indicado, preparar-me-ei com todo o entusiasmo e vontade, de maneira a conseguir a melhor forma. Satisfeitos com a resposta, mudámos o rumo à conversa e interrogamos: — Qual o dia mais alegre da sua carreira de ciclista? — O dia em que venci o campeonato de Portugal de fundo. É um dia que jamais esquece... — E o mais triste? O rosto de Marquez ensombra-se por momentos. Adivinhamos a luta que se trava no espírito do grande campeão... Mas José Marquez recompõe-se rapidamente e responde com amargura: — O dia mais triste da minha vida desportiva foi o da etapa de Portalegre ao Fundão... Conduzimos Marquez para outro assunto: — Além do ciclismo, interessa-se por outros desportos? — Joguei football e parece que não era desajeitado no lugar de interior esquerdo. Gosto de football e de luta greco-romana. Sempre que posso assisto a espetáculos destes desportos, mas, como vivo longe, isso raramente me é permitido. E fazemos agora a última pergunta: — Tem projetos sobre a sua atividade como ciclista? — Os meus projetos são bem simples. Trabalhar sempre, aperfeiçoarme e disputar as provas com o maior entusiasmo. Este ano é possível que ainda participe nalgumas provas. E para o ano continuarei a correr fazendo o melhor que puder.
Entrevista publicada no Mensageiro do Ribatejo (1935) Esta entrevista é anunciada pelo título “José Marquês: 2º classificado da ‘VI Volta a Portugal’ em bicicleta”. Diz o texto: Há muito tempo que germinava no nosso cérebro a ideia de ouvir José Marquês, o ciclista de formidáveis recursos que revolucionou a velocipedia nacional com suas médias quilométricas, que fizeram ruir estrondosamente alguns “records” antigos.
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E, no passado dia 2, lá fomos em busca do Marquês à sua terra natal: Vila Chã de Ourique. Chegamos. Vila Chã é uma agradável povoação recostada numa pequenina encosta, ladeada por pinhais e vinhedos, que lhe dão um tom de beleza, a beleza característica e predominante do arvoredo. Lá tem também o seu monumento de linhas sóbrias e firmes a mostrar a sua originalidade e as suas glórias. Vila Chã, com o seu sossego, com as suas casinhas muito brancas, com o modo agradável e hospitaleiro de sua população, tem o condão de atrair quem lá vai e o jornalista, por momentos, esqueceu-se de sua missão, para se abandonar nessa tebaida tão agradável, aos seus encantos, como bálsamo das suas atribulações. Dirigimo-nos à casa do sr. Leonardo Caetano, a quem, por amável deferência do nosso prezado amigo sr. Manuel Ascenso, tínhamos sido apresentados. A adega estava aberta. Entramos. Perguntamos por ele. Não estava, mas não se demoraria, disseram-nos. Entretanto, fomos colhendo as primeiras notas para a nossa reportagem: a adega é vasta, recheada de pipas, tendo também algumas talhas para azeite e depósitos subterrâneos; por detrás tem o quintal, que é um mimo – todo flores. Em tudo se adivinha um espírito de verdadeira organização. Daí a pouco Leonardo Caetano chega. Trocam-se os cumprimentos de estilo e ele diz-nos: — O Marquês não está em minha casa, mas nós vamos procurá-lo. E lá fomos em sua demanda. Não custou a encontrar. Estava rodeado de admiradores numa oficina de latoeiro, em palestra despreocupada e vulgar. Juntamente com Leonardo Caetano, entramos, e ele apresenta-nos, dizendo a que íamos. Como tem que se retirar, diz-lhe: — Olha, oh Marquês, é melhor ires com este senhor para o meu escritório e deixem-se estar lá à vontade. E como Leonardo Caetano ordenasse, nós cumprimos e lá fomos para o escritório, que ficava situado na adega a que fiz referência. Acompanha-nos também o sr. António Nunes Barata e todos três entramos. O escritório sobriamente mobilado, denota que pertence a uma pessoa sempre preocupada com os seus negócios. Pelas paredes tem alguns quadros, mas um há que me prende mais a atenção: é Leonor de Caetano com toda a família. Marquês senta-se numa cadeira, recosta-se e amável, com toda a franqueza, diz-nos: — Pode perguntar, estou às suas ordens.
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O assunto mais óbvio seria a Volta a Portugal, mas já tanta coisa se tem dito, que haverá mais para perguntar? No entanto, disparo a primeira pergunta: — Diga-me Marquês, você quando na primeira etapa na “Volta” arrancou para aquele formidável sprint de 40 quilómetros, fê-lo com confiança absoluta de vencer ou foi à sorte? E ele franco, modesto, responde-me: — Atirei-me à sorte, mas depois vi-me destacado e não abrandei, segui sempre no mesmo andamento com a ideia fixa na vitória. — A furunculose foi o pior inimigo que você teve na “Volta”, não é verdade? — Foi, sem dúvida, e apoquentou-me no percurso pior, numa estrada terrível, cheia de covas, onde a máquina tinha uma trepidação irritante, fazendo-me sofrer horrivelmente. E Marquês, com uma sombra de tristeza a toldar-lhe o rosto, mostranos as cicatrizes de dois furúnculos, que mais o fizeram sofrer e diz-me: — Depois destes, já tive mais de duzentos, mas são tratados cuidadosamente logo de início. Aos outros, na “Volta” o que me fez pior foram umas aplicações elétricas que um médico me deu. — O delegado do seu club devia ter-lhe valido de muito, afirmei eu. E ele continuando: — Sim, se não fosse ele e o médico da caravana, sr. dr. Salazar Carreira, nunca teria chegado ao fim. — Depois de perder a camisola amarela, pensou alguma vez em rehavê-la? — Não senhor, não pensei em rehavê-la, logo que a perdi, sem que houvesse um grande azar para o seu possuidor, porque ele também tinha valor para a defender e é preciso contar sempre com o que os outros andam. E disse isto com a maior naturalidade, sem expressões estudadas, com toda a sinceridade. Que grandeza de caráter a deste rapaz que, sendo um grande campeão, sabe ser também um grande desportista. E continuando ainda como se falasse consigo próprio: — Tive pena foi da “Volta” não durar mais uns oito dias, talvez a classificação se modificasse, apesar do Cezar andar com uma sorte formidável. Ele teve tanta sorte que naquela tirada em que perdeu seis minutos até teve a felicidade de se lhe partir o espigão do selim, podendo assim mudar de máquina e produzir muito mais rendimento, o que não podia fazer na outra por ser muito pequenina. — Quais são para si, os melhores homens que temos no ciclismo? A resposta é de certa responsabilidade e Marquês não quer melindrar nenhum dos briosos camaradas de tanta pugna desportiva. Por isso depois de uma grande pausa em que reflete demoradamente diz: — Para mim devem ser os que se classificaram melhor na “Volta”. 86
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A resposta ainda não me satisfaz e insisto: — Até que altura da classificação? Nova pausa, nova reflexão e acaba por responder: — Até o décimo. — Qual a etapa mais difícil que teve? — Foi a do Fundão, pois queria andar e não podia, as dores não mo deixavam fazer. É uma etapa de que me recordarei eternamente. Marquês recosta-se na cadeira e a mesma tristeza de há pouco notase-lhe no rosto, mas mais forte, predominante, o olhar melancólico gira sem rumo pelo interior do escritório. Adivinho a amargura que invadira a alma daquele rapaz atleta forte, que foi vencido pela traição da sua doença e mudo de assunto, perguntando-lhe: — Acha boa a iniciativa das “oito voltas ao Cartaxo” e que ela deve ser mantida? — Absolutamente, porque se noutras terras sem corredores se organizam boas provas, o Cartaxo, terra de corredores, tem a responsabilidade de o fazer. Mas nem todos os cartaxeiros assim o compreendem nem sabem avaliar o formidável esforço que o “Concelho do Cartaxo” tem feito para que as “Oito voltas” sejam um facto. — Em quantas provas participou este ano e quantas venceu? — Até agora participei em dezassete ou dezoito e venci oito. Já percorri este ano, com provas e treinos, dez mil quilómetros. — Quem é o seu orientador nos treinos? — Sou eu e não me dou mal. — Faz ginástica? — Não, não faço. Durante o verão treino na bicicleta e o inverno aproveito-o para descansar. Lembro-me que Marquês é também um grande valor na pista e pergunto-lhe: — A pista tenta-o? — Sim senhor, absolutamente, porque é aí que se pode apreciar e avaliar o esforço e o valor de um corredor. É para lamentar, é que cá não as haja e que os organizadores tanto se esqueçam disso, porque se assim não acontecesse, se houvesse pistas e provas era unicamente a que me dedicava. — Porque não foi este ano às 24 horas no Porto? — Porque no meu club não chegamos a um acordo. Gostava imenso de lá ir; era uma prova que me arrebatava. E com tristeza: Tive pena, mas, deixá-lo, fica para o ano. As horas vão passando discretas e velozes e eu sei que Marquês tem que sair, por isso, entro na fase final desta palestra, perguntando-lhe:
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— Teve prazer ao ter conhecimento do convite que foi feito à U.V.P. para que Portugal se fizesse representar por uma equipa ciclista na próxima volta à França? — Um duplo prazer, como português e como ciclista... E eu, quase sem o deixar acabar, digo-lhe: Deve ter um triplo, pois foi você que com as formidáveis médias motivou esse convite. Marquês confunde-se. A ele não lhe agradam elogios e eu quase me arrependo de o ter feito e responde-me: — A mim não, porque os outros também me acompanharam e demais, não fiz nada que qualquer não seja capaz de fazer. Depois, sobre a ida à França, diz: — Naturalmente, não iremos lá em virtude de naquela prova só correrem profissionais e nós sermos amadores. — E os Jogos Olímpicos, tem mais fé de ir? — Aí os portugueses devem ir. Eu não sei se vou; se for hei-de pôr o melhor do meu esforço para que o nome do desporto português seja guindado à altura que todo aquele que sente bem o nome português, o deseja. Levanto-me. É chegada a hora de José Marquês se retirar e eu dou por terminada a entrevista. — Não deseja mais nada? – pergunta ele amável e delicadamente. — Não José Marquês, não desejo mais nada. As impressões que colhi já chegam para as transmitir aos desportistas de Vila Franca, onde você conta bastantes amizades. Eu e o “Mensageiro do Ribatejo” estamos à sua disposição. E Marquês, o vencedor moral da “VI Volta a Portugal” em bicicleta, que chegou ao fim coroado com a auréola de grande vencido, despede-se de mim com seu sorriso habitual aquele sorriso que tanta vez o acompanha na vitória.
Entrevista ao Jornal de notícias (1935) É do Jornal de Notícias o texto abaixo, assinado por A. M., ilustrado com uma foto de Marquez, e intitulado CICLISMO. José Marquês a maravilha do ciclismo nacional fala ao JORNAL DE NOTÍCIAS – nas vésperas do XIV Porto-Lisboa e do “VIII Giro do Minho”. – Palavras que deixam transparecer o patriotismo de um grande português. – A grande exposição de prémios para o “VIII Giro do Minho” nos Armazéns Nascimento – 10.000 escudos de prémios.
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Disseram-nos: — José Marquês está no Avenida. Acompanhe-nos, porque temos gosto em o apresentar. Conhecemos José Marquês em posição de destaque desde que disputou as “24 horas” do Norte. Marquês foi escalando a torre de marfim mas, apesar de se colocar lá no alto, não perdeu a modéstia que tanto nobilita as pessoas de destaque. É preciso entrevistá-lo: Pois sim!... e resignados a representar mais uma vez o jornal, entramos no elevador do Hotel Avenida. Fomos deparar com o nosso campeão nacional recolhido no seu quarto. Sabem os nossos ciclistas, os nossos directores de ciclismo, os jornalistas de fretes, o que fazia a última maravilha do ciclismo nacional?...Tratava da sua bicicleta 4 dias antes da prova. Se fosse com os nossos “ases”, que aconteceria? Estavam na ginginha, no “João do Grão”, nos tremoços da Betesga, ou a pescar trutas, no Terreiro do Paço. José Marquês, colhido de surpresa, não nos reconheceu ao primeiro golpe. “Jornal de Notícias” ... estas duas palavras foram como o sino de rebate na memória descuidada do “ás”, que no cérebro esconde um desejo: vencer para orgulho de Portugal. O nosso sistema entrevistador – tudo em nós é moderno, futurista, menos a idade, e assim perguntamos e lubrificamos as respostas: — Sou da região do Cartaxo – viveiro de “ases” – Nicolau, Trindade, Cesar Luiz, etc. – resido em Vila Chã de Ourique. Tenho 26 anos e envergo a equipa do Clube Atlético Campo de Ourique, a agremiação que traduz a expressão mais radicada do sacrifício pelo desporto. José Marquês sempre sorridente, com o rosto a traduzir franqueza, faznos recordar o enfant gaté das “24 horas” do Porto; o valoroso lutador na “Volta a Portugal” e o campeão nacional dos 100 quilómetros. A uma pergunta nossa, prenhe de sincero entusiasmo responde-nos: — Não conheço o valor dos corredores franceses, mas creia que tanto eu como todos os corredores portugueses, empregaremos todos os esforços, converteremos o espírito em sangue para alimentar o nosso poder em demanda da vitória, a maior satisfação dos portugueses, creio bem. No semblante do glorioso “ás” passou como num “écran” a velocidade da sua máquina... quase a 39 quilómetros à hora. Todos sabem: Foi José Marquês que fez perder o medo às grandes marchas. Tanto nas provas de quilometragem prolongada, contra relógio ou em corrida rápida, o nosso “ás” fala, ou antes: as suas pernas 89
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Diz o texto:
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ágeis funcionam num cérebro em perfeita regularidade. Enquanto admirávamos o “ouriquense”, que tinha a seu lado José Braz, outro valor que desponta, José Marquês continuava na fiscalização da sua montada; entretanto, Braz escondia a sua no guarda-roupa. José Marquês, voltado delicadamente para outro lado, responde-nos francamente: — TENCIONO DISPUTAR O VIII GIRO DO MINHO QUE O “JORNAL DE NOTÍCIAS” PATROCINA. O simpático corredor, sem aquela vaidade, apanágio de campeões de algibeira, põe-nos à vontade e não se aborrece com o nosso “tiroteio”. — Fui ver os prémios do “Giro do Minho”. Importante, o que há de melhor no país. Já sei que o norte sabe premiar o esforço do corredor. Gosto muito do Porto e se não vim para cá foi porque precisamos olhar para o dia de amanhã. O “Campo de Ourique” é um clube amigo dos seus atletas e não me dou mal por lá... Eram horas de jantar e como quando falamos de ciclismo esquecemonos do tempo e das horas, despedimo-nos com um abraço; não fosse às vezes o campeão nacional não chegar a tempo de alinhar na prova de amanhã. A. M.
Breve biografia de José Marquez Antes de apresentar a entrevista com o título: “José Marquez, glorioso vencido”, atrás transcrita, Alberto Freitas traça como apresentação uma breve biografia do atleta, anunciada pelo subtítulo que aponta para alguns aspectos da vida desportiva de José Marquez: A primeira bicicleta –Vitória sobre Nicolau – O ingresso no Benfica – Interregno – Reaparição... mas pelo Sporting – Um salto para o Campo de Ourique – A 6ª Volta foi a melhor de todas – As etapas contra-relógio – A Volta a Portugal e sua influência no progresso do ciclismo – Os jogos olímpicos – O dia mais alegre e o dia mais triste – Projectos.
Diz o texto: José Marquês, o glorioso vencido da 6ª Volta a Portugal,é um corredor que deixa bem vincado o seu nome na grande prova. O brioso ciclista do Club Atlético Campo de Ourique assinalou a sua passagem pela competição deste ano por uma forma bastante brilhante, digna dum campeão de verdade. José Marquez chegou a Lisboa vencido? Na realidade – sim.
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Mas pode classificar-se de vencido um corredor que se comportou como José Marquez, um homem que animou a prova desde a partida à chegada, um atleta que demonstrou tanto brio, tanto espírito desportivo, tanta abnegação e tão grande valor? José Marquez é um glorioso vencido, mas é, ao mesmo tempo, um vencedor – porque a sua prova na 6ª Volta a Portugal lhe dá direito a esse título. Nem só a vitória enobrece o atleta; a derrota é, muitas vezes, tão bela como o triunfo. E vencedor não é só aquele que alcança primeiro o traço branco da meta; há vencidos que mormente são vencedores. Vitória moral – é uma expressão que o uso demasiado estragou. Mas neste caso de José Marquez não pode haver frase que se ajuste melhor à idéia, que traduza mais fielmente o comportamento deste rapaz, que durante os quinze dias da “Volta” só granjeou amizades e simpatias. O triunfo, que assenta bem a Cesar Luiz, ficaria igualmente bem a José Marquez. A Fatalidade, porém, não quis que José Marquez chegasse a Lisboa em vencedor absoluto. Mas que importa que o bravo corredor de Campo de Ourique não tenha tido à sua chegada a Lisboa uma coroa de louros a cingir-lhe a testa, se ele provou valor às mãos cheias, energia da mais rija têmpera, alma de lutador e, acima de tudo, cérebro pensante, vontade indomável e todas as qualidades que fazem o verdadeiro atleta? José Marquez partiu de Lisboa entre os favoritos da Volta a Portugal e levando na sua bagagem brilhante coleção de vitórias. O corredor de Campo de Ourique, tendo feito uma época de relevo, abalou para a “Volta” em busca do triunfo que melhor coroaria essa época, que seria o melhor epílogo duma temporada brilhantíssima. Não pode chegar a Lisboa em vencedor, não pode concluir a sua campanha de 1935 com a vitória que melhor lhe ficaria, mas nem por isso o prestígio do campeão foi abalado, nem por isso José Marquez deixou de ser um grande atleta. A sua actuação na “Volta” deste ano chega e sobeja para marcar o seu valor, para firmar os seus créditos. Portador da Camisola Amarela durante oito etapas, ele só despiu o cobiçado distintivo quando fisicamente se inferiorizou, quando a doença lhe bateu à porta. Durante algumas jornadas José Marquez lutou desesperadamente contra a doença; por momentos, o atleta parecia ir ser vencido, esfarrapado pelo mal, dominado pela infelicidade. Mas José Marquez reagia, fazia um esforço supremo, chamava todas as suas energias, fincava os dentes – e continuava a sua marcha, por vezes marcha de martírio, verdadeiro Calvário desportivo.
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José Marquez conseguiu sair vencedor desta luta titânica e quando seus padecimentos se curaram, ainda que incompletamente, o brioso corredor lançou-se decididamente à conquista do terreno perdido, numa ânsia louca de rehaver a preciosa malha que Cesar Luiz lhe arrebatara. Mas o atraso era grande e José Marquez apesar de toda a sua vontade, de toda a sua energia e alma de atleta não pode reconquistar essa camisola que fora o seu sonho de tantas noites e a sua preocupação de todos os dias. A caminhada de José Marquez para Lisboa foi uma caminhada triunfal... Por toda a parte se ouvia gritar: Marquez! Marquez! Apareciam os corredores numa povoação e logo se ouvia perguntar: qual é o Marquez? E vinham informes sobre o desenrolar da corrida ... Marquez vai à frente... Marquez “puxa”... Marquez destaca-se.... Marquez “sprinta”... Marquez chega primeiro... meiro... A 6ª Volta a Portugal terminou consagrando definitivamente este corredor, verdadeiro campeão, ciclista de técnica apurada e dotado de qualidades de autêntico atleta. A primeira bicicleta José Marquez nasceu em Vila Chã de Ourique a 8 de junho de 1910, contando, pois, 25 anos. Filho único, seus pais – Manuel Marquez e Maria Santa Marta – adoravam-no. Faziam-lhe todas as vontades, adivinhavam-lhe todos os desejos. Aos 12 anos José Marquez, que lia nos jornais as proezas dos corredores da época, começou a interessar-se pelo ciclismo. Gostaria de ter uma bicicleta – disse a seus pais. E estes fizeram-lhe a vontade, comprando-lhe uma máquina, mas com a condição de não participar em provas. Durante quatro anos o rapaz limitou-se a passear na sua bicicleta, causando inveja aos outros rapazes da terra a facilidade com que ele pedalava. Todas as tardes fazia o seu passeiozito e aos domingos era certa uma visita aos arredores de Vila Chã. Mas José Marquez já não se contentava com os passeios. Sentia disposição para correr, para medir forças com os ciclistas, cujo nome andava pelos jornais. E, em 1927, contando apenas 17 anos, José Marquez decidiu-se a participar numa prova. A família tentou opor-se, mas José Marquez estava decidido a não voltar para trás.
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O ingresso no Benfica Ainda em 1927, um amigo lembrou-lhe a conveniência de ingressar num club da capital. E propôs-lhe o Benfica. José Marquez aceitou o convite com alvoroço. Na prova Lisboa-Tomar vestiu pela primeira vez a camisola vermelha do Benfica. Nicolau representava Carcavelos e na corrida participaram outros corredores de nome firmado. José Marquez não foi feliz, classificando-se em 11º lugar. E Nicolau desistiu. Mas o corredor de Vila Chã de Ourique não desanimou. Que diabo, não tivera sorte, para outra vez seria... E participou depois nos 100 quilómetros clássicos. À chegada, José Marquez era 11º, tal como na primeira prova. Interregno As classificações do jovem corredor não agradaram ao Benfica. E José Marquez começou notando desinteresse à sua volta. Por outro lado, a família insistia para que deixasse de correr. E tudo isto junto levou o rapaz a desistir de disputar provas oficiais. Despediu-se do Benfica e voltou aos passeios dos tempos da sua primeira bicicleta. José Marquez estava desiludido? Talvez não; estava, antes, aborrecido. Entrara no Benfica com a alma a transbordar de esperança e afinal... 93
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Vitória sobre Nicolau A corrida efectuou-se em Vila Chã de Ourique. Na véspera da prova, José Marquez quase não dormiu. No seu cérebro baralhavam-se bicicletas, camisolas, nomes... Chegou, finalmente, o momento da partida. Ao lado do rapazito de Vila Chã alinharam, entre outros, José Maria Nicolau e Ezequiel Lino, dois nomes que mais tarde tanta popularidade haviam de ter. O grupo de concorrentes lançou-se na estrada. Cada um procurava a vitória. Marquez lutava animosamente ao lado de Nicolau e Ezequiel. Mas, em determinada altura, o estreante destacou-se, ganhou avanço e passou em vencedor a linha de chegada. Nicolau foi segundo e Ezequiel terceiro. A vitória de José Marquez foi coisa falada na terra. Durante uma semana era o assunto obrigatório de todas as conversas. A família, intimamente, estava satisfeita com o êxito do rapaz, mas não queria demonstrar o seu agrado... E afirmava que tinha sido a primeira e a última vez que ele correra... Mas José Marquez tomara gosto à bicicleta – e continuou a participar em provas efectuadas em Vila Chã de Ourique e arredores.
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Durante algum tempo, Marquez divorciou-se do movimento ciclista. Não lia jornais para não saber das proezas dos corredores, para não ter pena de não estar entre os que haviam sido seus companheiros. Mas, no princípio de 1933, a saudade do ciclismo pode mais do que tudo. O eco das vitórias de Nicolau chegou até José Marquez. Entusiasmou-se. E a idéia de voltar a correr não mais o abandonou. Um dia a caminho de Lisboa encontrou Alfredo Trindade. Conversaram. Falaram de ciclismo. Discutiram corridas. E José Marquez confessou que lhe agradaria voltar a disputar provas. Trindade não deixou fugir a oportunidade. Convidou Marquez a ingressar no Sporting. Reaparição... mas pelo Sporting José Marquez aceitou o convite. Dentro de pouco tempo vestia a camisola verde branca decorada com o leão. Disputou algumas provas com pouca felicidade. E participou na Volta a Portugal, classificando-se em 8º lugar. José Marquez não desanimou com estas contrariedades. Continuou a trabalhar com entusiasmo e fé. Veio a época de 1934. Marquez partiu novamente para a Volta a Portugal. E chegou a Lisboa em 10º lugar. Disputou os 100 quilómetros clássicos e terminou em segundo lugar. E nas “24 horas do Porto” foi vencedor em companhia de Alfredo Trindade. Boa temporada, sem dúvida. Mas José Marquez sentia que as suas classificações não interessavam verdadeiramente ao Sporting. À sua volta havia indiferença. Nova desilusão... Marquez pensou, primeiro abandonar definitivamente o ciclismo; mas pensou melhor, reconsiderou e resolveu não deixar o desporto que desde miúdo o atraíra. O melhor seria deixar o Sporting e procurar club em que se sentisse mais à vontade. E como desde há muito tempo sabia que o Campo de Ourique dispensava aos seus corredores o maior carinho e amizade, resolveuse a ingressar nessa coletividade. Um salto para o Campo de Ourique José Marquez passou, pois, ao Club Atlético de Campo de Ourique sendo recebido de braços abertos. Foi no Campo de Ourique que José Marquez se revelou, verdadeiramente, um grande campeão. Foi vestindo a camisola branca e vermelha da simpática coletividade que Marquez demonstrou a sua alta classe de ciclista e provando, ao mesmo tempo, todas as qualidades de autêntico atleta. Em Março, José Marquês disputou os 50 quilômetros clássicos.Venceu e bateu o “Record” com o tempo de 1h. 32m. 50s.
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Entrevistas
Boa estréia. Marquez animou-se. A forma era boa. E o jovem corredor registou novo êxito nos 100 quilómetros em que triunfou em tempo “Record”: 3h. 2m. 57s. O nome de José Marquez começou então a ser admirado. Marquez era um campeão! Nos 100 quilómetros contra relógio, Marquez realizou uma prova fantástica, fazendo o percurso em 2h. 42m. 12s. e revelando-se o nosso melhor especialista deste gênero de corrida. Em junho disputou a prova Coimbra-Tábua e classificando-se em 6º lugar. E no dia 16 do mesmo mês obteve a vitória no Campeonato Distrital de Fundo, fazendo os 100 quilómetros em 3h. 3m. 42s. E logo a seguir obtém estas classificações: 1º em 1h. 40m. nos 50 quilómetros da Figueira da Foz; 3º na corrida Vila Moreira-LeiriaVila Moreira; 10º nas 12 Voltas à Gafa; 2º nas 10 voltas à Covilhã; 2º Grande Circuito da Mealhada; 7º no Porto-Lisboa; 1º no Circuito da Bairrada. A mais bela vitória conquistou-a no Campeonato Nacional de Fundo, em que cobriu os 100 quilómetros em 3h. 4m. 11s. Depois – foi a partida para aVolta a Portugal, a corrida que popularizou o nome de José Marquez, a prova que o consagrou definitivamente como um grande campeão e como o melhor ciclista português.
A história do burro
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sta história deve-se ter passado em 1935, no ano em que o Clube Atlético Campo de Ourique quase ganhou a Volta a Portugal com José Marquez (2º lugar), ou antes, conforme se pode deduzir de alguns cartões postais e cartas enviados por admiradores do atleta. Consta que, se, no dia da disputa ciclística, um burro zurrasse, a vitória seria do Clube Atlético Campo de Ourique. A história detalhada do fenômeno está on-line no seguinte endereço: http://caco.com.sapo.pt/burro.htm (acesso: 5/12/2011) e diz o seguinte: Esta História passou-se em 1938, foi no ano em que o Campo de Ourique ganhou a Volta a Portugal.Por trás da sede do clube, havia uma quinta com animais e entre eles um burro. Ora os ciclistas tinham uma fé que era, que se o burro zurrasse, eles ganhavam a etapa. E sempre assim aconteceu. Pois bem, na véspera da etapa, o Salazar fez uma comunicação ao país e nesse dia o burro não zurrou, deixando os ciclistas e todos os aficcionados pelo ciclismo ligados ao C. A. C. O. apreensivos. No dia seguinte, de madrugada, lá foram os ciclistas, um pouco desanimados, é claro, todos num carro típico, muito velho, o Vampiro, que se usava na altura para transportar os atletas. Já muito depois de se irem embora, às 10 da manhã o burro zurrou finalmente, e um director da altura, apressou-se a enviar um telegrama para o Benvindo Cardoso, que era um dos organizadores da Volta, e o responsável pela equipe do C. A. C. O., que dizia textualmente: “O burro zurrou stop a vitória é nossa”. E de facto foi! Agora, imagine-se o espanto da rapaziada da altura quando, mais tarde, na sede do
Campo de Ourique, aparece a PIDE1 com uma cópia do telegrama na mão, a perguntar quem era o responsável pelo envio daquilo. Na opinião deles, era ao Salazar que aquela mensagem se referia, ou seja eles pensavam que o burro era direccionado ao próprio Salazar! O Benvindo assumiu as responsabilidades e foi logo preso. Ainda por lá ficou uns dias, até que aquele imbróglio se resolvesse.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Muitos dos cartões enviados a José Marquez fazem referência ao burro.
Aquarela de autoria desconhecida
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A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) foi criada em 1945. Antes dela, havia a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), uma polícia política de caráter secreto, criada em 1933. Observação da autora.
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Escritos de admiradoras(es)
Carta de M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio 4 - 8º - 935 Amigo José Marquez És bem digno do apelido que tens! A lhaneza da tu[a] conducta como adversário ciclista elevam à máxima potência tal apelido, apresentando-te como descendente duma linhagem aonde ficou personalizada a “Lealdade”. Urrah! por ti e pelo teu club! Este porque se viu representado com valentia, e tu porque o soubeste representar com valor, coragem, brio e honrosa lealdade. Perdeste a Camisola Amarela, devido à má fé do seu novo possuidor, mas em contra-partida, ganhaste-a com leal luta e defendeste-a sempre lado a lado dos teus mais perigosos adversários, sem te encobrires com a poeira das estradas. És verdadeiramente fidalgo! Pedimos-te que com tática, prudência, cálculo e boa vontade pelo teu club, deligencies rehaver o símbolo que tão deslealmente te foi tirado, o qual não deveria estar na posse do seu isolado (com poeira) possuidor. Se o azar não respeitar a fidalguia dum Marquez totalmente dito, não desmoreças, muito embora chegasses em último lugar, o que será impossível. Coragem!
Um abraço para V. e mais quatro de cada um dos vossos amigos: M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio para os leais companheiros de primeiro plano:Valerio de Sousa – Filipe de Melo – Ezequiel Lino e M. Aguiar.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Viva Portugal! e Viva o Atlectico Club de Campo d´ Ourique
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Cartão postal de Benvindo Cardoso1 Lisboa, 29/8/35 Caro Marquez
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Para lhe passar a neura envio-lhe este postal. Como se [percebe?] que um vencedor, um desportista, um homem que todo o país olha com simpatia, seja neura. Isso não é possível!!! Calma, alegria, boa disposição é que é necessário. Uma má disposição é a pior inimiga que o homem tem, principalmente um atleta. Alegria, muita alegria. Perdeu a camisola!! Paciência, depois a recupera. O que é preciso é não estragar energias. Agarrar-se aos mais próximos adversários e, quando puder, fugir dar-lhes [claro?] se tiver forças para isso. Não esteja pois triste, porque perder e ganhar é desporto. Perde-se hoje! Paciência ganha amanhã. Um abraço do amigo certo Benvindo Cardoso P.S. Alegria – Boa disposição – Calma heis as três coisas de que necessita para ganhar a VI Volta.
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Benvindo Cardoso era o organizador da 6ª Volta a Portugal.
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Escritos de admiradoras(es)
Cartão postal de [?] José Marquez Oxalá Deus e o “Burro” te acompanhem até ao fim. Não deixes fugir a Camisola Amarela e defende-a com brio para tua glória e do teu Club. Deste cantinho de Portugal desejo-te mil felicidades e que saias vencedor desta brilhante Prova. Se fosse rapaz, acompanharia a Volta, dispensando-vos todo o meu entusiasmo! Pela 6ª Volta e por ti: Hurrah!!! [?] 30 – Agosto – 1935 P.S. O burro zurrará sempre!!!
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Cartão postal de um[a] desconhecido[a]
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Mestre “Burro” foi surpreendido pela astúcia dos fotógrafos Arnaldo Catarim e Antonio Gomes, quando lia a estupenda média alcançada pelo seu querido pupilo “Zé Marquez” na etapa de “Loulé-Tavira”, e que depois de surpreendido nos confessou que a taça “Stadium” estava já ganha e faria o possível para não desamparar o seu querido pupilo para que ele conservasse até o final o “Maillot Jaune”. E estáse a ver o resultado? Hein! Felicidades a todos e boa viagem! Salvé Marquez!
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Carta da “sempre desconhecida pequenina” Marquesinho Não leve a mal os simples versos que lhe envio, mas quero que veja como há quem pense na sua Triunfante Vitória. Era alegria para muita gente, especialmente para aquela que já se confessou sinceramente ansiosa pela sua Vitória. Aceite os leais Parabéns e atenda o pedido que lhe faz uma desconhecida “Lute para vencer mostrando nisto o seu eterno e escondido valor”. Far-me-á a vontade? Ignoro por completo, mas espero poder gritarlhe bem alto “Avança Marquesinho”.
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Da sempre Desconhecida Para ser cantado com a marcha de Lisboa Dedicado ao grande Ciclista José Marquez (Estribilho) José Marquez Não deixes desta vez Ganhar Cesar Luiz esse tão falado rival José Marquez Pensa só uma vez Como é delicioso triunfar em Portugal I Coragem e ânimo é que é preciso E na boca um sorriso Bailando constantemente às raparigas E ouvindo as suas cantigas Perdoa a confissão De um coração Que em ti pensa noite e dia José Marquez meu amor Tu és a minha alegria Ao ver-te triunfador. (Estribilho) II José Marquez não percas a eterna esperança Não há tempestade sem bonança Quero ver-te sorridente e contente Marchando sempre à frente 110
O lugar que tu já ocupas agora Mostra o teu grande querer Escuta bem quem t´implora “Que só faças por vencer E não te deixes perder.”
Escritos de admiradoras(es)
Da desconhecida pequenina
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113 Escritos de admiradoras(es)
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Ao ciclista José Marquez O recorde das etapas ganhas por v... causou sobremaneira entusiasmo no Norte, principalmente em Braga, a quem consideramos o campeão português, embora a vitória na volta não lhe coubesse. Sabemos que os furos o apoquentaram a [mando?], enquanto que ao homem da camisola amarela o protegeram. Porque se assim não fosse, convencido[s] estamos que José Marquez seria o vencedor. Não desanime pois, porque o Norte faz-lhe justiça. O César Luiz dá-nos uma nota discordante chorando, sempre que tem percalços. Já na volta do ano passado fez o mesmo, quando Izequiel o ultrapassou ao chegar à meta, que em Braga ficou com o pseudônimo de “chorão”, precisamente pela sua falta de persistência e serenidade; o ciclista que é ciclista luta e não chora, assim fazem Ildefonso e Filipe de Melo que consideramos entre Marquez os 3 melhores ciclistas portugueses. É notório que Nicolau e Trindade estão a passar as suas épocas. Avante pois José Marquez. Seu admirador angolano e colonial. Antonio Vieira Sousa [?] P.S. Aprecie o que há de bom por Angola.
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Escritos de admiradoras(es)
Cartão postal de Antonio Vieira Sousa [?]
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Carta de Delio Rodrigues “campeon gallego de ciclismo” Puenteareas 24 Marzo 1936 Sr. D. José Marquez “corredor ciclista” Muy señor mio: Yo gran admirador de V. por la gran actuacion en la pasada Vuelta a Portugal en la que se distinguió por su rapidez resultando por ello vencedor de la mayoria de las etapas, agradeceria infinito de V. me remitiese una fotografia dedicada la
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cual conservaré como recuerdo de el mas especialista de Portugal en pruebas contra reloj.
Escritos de admiradoras(es)
Aprovecho esta ocasion para saludarte con gran cariño. Suyo [?] S. S. Delio Rodrigues “campeon gallego de ciclismo” [t?] España pror[?] Pontevedra Puentareas Galicia
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Foto autografada de José Marquez
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Em 1936 e 1937
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m 1936 e 1937, não há Volta a Portugal.
A Guerra Civil rebenta na vizinha Espanha1 em julho de 1936. Portugal, por via diplomática, apoia a causa nacionalista-fascista de Francisco Franco. Os dois países chegam a assinar, em março de 1939, o Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol. Lembro-me de ouvir em casa comentários sobre a “candonga” praticada nessa época. José Marquez acaba de fazer 27 anos e permanece ligado ao ciclismo, ainda no Atlético Clube Campo de Ourique. No álbum de fotos e no seu acervo de recortes de jornal, há algumas poucas notícias sobre estes anos. Testemunha dessa ligação, por exemplo, é a capa da revista Stadium “(ano V – Lisboa – 20 de Maio de 1936 – Nº 223 – 1$00)”, que estampa a foto de José Marquez ocupando toda a página, com os seguintes dizeres: Confirmando a sua superioridade nas corridas contra-relógio, José Marquês o extraordinário campião nacional, arrancou no domingo um soberbo triunfo. Ei-lo, nas pedaladas derradeiras, subindo sorridente a Calçada de Carriche. (Foto Serôdio, executada com material ‘Ilford’).
1
Conflito oficialmente começado em julho de 1936 e terminado em 1 de abril de 1939, exemplarmente registrado numa tela de Pablo Picasso, conhecida como “Guernica”, que retrata esta cidade depois de ter sido bombardeada por aviões alemães em 26 de abril de 1937, tela apresentada pelo pintor na Exposição Internacional de Paris em 1937.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
[Embora não se tenha qualificado na prova de abertura, realizada no Porto,] no domingo seguinte, os 100 km foram contra-relógio e o José Marquês (Campo de Ourique), um especialista, campeão nacional, fez 2h. 50m. 11s., “dando um banho” (como então...não se dizia) de 5 minutos a Trindade, 7 a Filipe Melo, 8 a Nicolau.... Ao atentar-se nos tempos, surge a idéia do natural paralelo com as marcas que se alcançam agora, mas pondere-se também no que eram os ciclistas e, sobretudo, as estradas desse tempo. No domingo seguinte, 160km de contra-relógio por equipas mas só a equipa do Benfica não se desmembrou (3º, Nicolau...4º, Aguiar da Cunha... 5º, Aguiar Martins), porque José Marquês (Campo de Ourique) e Ezequiel Lino (Sporting) disseram adeus aos companheiros e ficaram 1º e 2º, mas com 7 minutos de diferença entre eles... [...]. [...E] no Circuito Lisboa-Tomar-Figueira-Lisboa, disputou-se o circuito em três etapas, ganhas por Marquês (Lisboa-Tomar),Trindade (Tomar-Figueira) e Aguiar Martins (Figueira-Lisboa) [...]. [...E] por fim, o Circuito das Beiras, a maior prova que se disputou em 1936, em seis etapas, três para José Marquês, uma para cada qual entre Joaquim de Sousa, Ildefonso e Trindade. [...]. [José Marquez era um] bom sprinter, especialista em “contra-relógio”, ganhou muitas corridas, muitas etapas de várias Voltas, foi “camisola amarela” várias vezes, mas nunca ganhou a Volta.
Em 1937, porém, José Marquez está de volta ao Sporting, conforme mostram as “carteirinhas de sócio auxiliar” do clube.
2
Carlos Pinhão foi um jornalista desportivo, um dos fundadores do Clube Nacional da Imprensa Desportiva em Portugal.
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Em 1936 e 1937
A temporada ciclística de 1936 será lembrada mais tarde por Carlos Pinhão2 numa reportagem intitulada “O ciclismo português há 50 anos”, publicada no jornal A bola. Jornal de todos os desportos, de Lisboa, em 4 de agosto de 1986, à página 16. Sobre José Marquez, diz o seguinte:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Diz ainda a reportagem de Carlos Pinhão que as provas disputadas no Porto, na pista do Estádio do Lima, em 1937, foram ganhas por José Marquez (Sporting). A legenda de uma foto de 1937 informa: “José Marquez, o novo campeão nacional de fundo sorri, confiado, no momento de iniciar a prova.” Outra legenda de uma outra foto de 1937 mostra “José Marquez, campeão de Portugal, de fundo, da categoria independente.” Possuo poucas informações da vida pessoal de meu pai durante este período. Sei apenas que era um frequentador assíduo do Parque Meyer e que conhecia todos os artistas da época (Beatriz Costa, António Silva, Nascimento Fernandes,Vasco Santana). O Parque Meyer, ao lado da Feira Popular, é na época a Broadway portuguesa. É um espaço que comporta vários teatros, especialmente, os teatros de revista, de cariz cômico, satírico e de crítica política e social, como o Teatro Maria Vitória (1922), o Teatro Variedades (1926), o Teatro Capitólio (1931), o Teatro ABC (1956). Este espaço, criado nos chamados “loucos anos 20”, foi pensado como pólo teatral de Lisboa e assim se firmou, tendo passado incólume pela censura da Ditadura Nacional e do Estado Novo, sob o regime salazarista, um 122
espaço artístico que haveria de sobreviver bravamente à rádio, ao cinema, ao futebol, à televisão. Era o único lugar onde se podia fazer, sob o véu do humor, crítica ao regime. Em outro mundo paralelo, em 1937, Álvaro Cunhal, comunista português, é preso e submetido a tortura pelo Estado Novo. O teatro e o ciclismo convivem, ao que sei, harmoniosamente na vida do atleta, mas esse convívio denuncia claramente o espírito crítico com que José Marquez se move. Não é um alienado em relação à política do país.
Em 1936 e 1937
Sei também que era um apreciador da pintura realista de José Malhoa. Haveria de levar-me mais tarde, no começo da adolescência, várias vezes às Caldas da Rainha para visitar o museu, onde está exposta a obra do pintor.
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No Brasil
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m 1938, José Marquez recebe um convite da Federação Ciclista Brasileira para participar da temporada ciclística daquele país, junto com os colegas portugueses Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa. É ano de eleições presidenciais no Brasil, que deveriam se realizar no dia 3 de janeiro. Todavia, Getúlio Vargas1 antecipa-se e dá um golpe de Estado, instaurando (como Salazar e Franco) um Estado Novo e uma nova Constituição, que abre as portas a uma ditadura de feições fascistóides. O convite ciclístico, certamente, está entre as práticas de boa vizinhança entre os dois países. Tanto num, quanto no outro, as palavras “patriotismo” e “patriota” são caras a seus regimes e a seus defensores, palavras que têm o significado manipulado, na sobreposição e confusão entre o conceito de “pátria” e regime político vigente. O visto de entrada, datado de 23/4/1938, é emitido pelo Consulado do Brasil em Lisboa, conforme documento abaixo, que o mostra estampado na carta de Álvaro de Oliveira, Presidente da União Velocipédica Portuguesa (Federação Ciclista Nacional, fundada em 14 de dezembro de 1899, filiada na Union Cycliste Internationale, reconhecida como de utilidade pública,
1
Getúlio Vargas foi presidente da República do Brasil em 3 períodos: como chefe de um “Governo Provisório” de 1930 a 1934; depois, como presidente eleito de 1934 a 1937; e, por último, como presidente do Estado Novo, imposto com um golpe de estado, de 1937 a 1945, quando se suicidou.
agraciada com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo), sediada à Rua Barros Queiroz, 39, 1º, em Lisboa.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Esta carta, de 16 de abril de 1938, é dirigida ao Sr. Cônsul Geral do Brasil em Lisboa, informando sobre um convite feito ao corredor José Poucapena Marquez pela Federação Ciclista Brasileira, com sede no Rio de Janeiro, para tomar parte nas várias provas que ali se realizarão e pedindo a legalização dos documentos, ou seja, do visto, que recebe, assinado pelo cônsul adjunto brasileiro em Lisboa, Sr. Pityguar Fleury de Amorim.
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No Brasil
Chegado ao Rio de Janeiro, José Marquez logo recebe autorização da Prefeitura do Distrito Federal – Diretoria de Fiscalização, datada de 25 de maio de 1938, assinada por seu diretor, Francisco de Souza Dantas, – para transitar de bicicleta de corrida durante a temporada de ciclismo.
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A equipe portuguesa no Brasil é composta por José Marquez, Manoel de Sousa e Aguiar da Cunha. Pelas datas possíveis de recuperar, percebe-se que as primeiras provas da temporada ciclística brasileira são realizadas em outros Estados, começando no Recife, capital de Pernambuco, Estado do Nordeste brasileiro, passando depois à cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, depois à cidade de São Paulo, no Estado do mesmo nome e, por fim, encerrando as competições, na cidade do Rio de Janeiro, capital do país, à época.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Nesta temporada ciclística brasileira, além dos portugueses e dos brasileiros, também estão presentes corredores do Uruguai.
Da esquerda para a direita: José Maria Trueba, José Guarniary e José Marquez
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No Recife
A capital pernambucana, graças ao esforço da Federação Ciclística Brasileira, assistiu ao espetáculo inédito de uma competição ciclística internacional. Reunindo ali a equipe portuguesa, composta dos pedaladores José Marquês, campeão de Portugal, Aguiar da Cunha e Manoel de Souza, e corredores cariocas, paulistas, mineiros e fluminenses, aquela entidade ofereceu aos pernambucanos oportunidade de presenciar um cotejo sensacional em que eram postos à prova o arrojo, a técnica e o espírito esportivo dos concorrentes. E o panorama do certame teve contornos magníficos, justamente porque, entre os adversários ocasionais, não se observou o menor deslize, portando-se, todos, como verdadeiros sportsmen, na luta emocionante pela conquista da vitória. Na primeira competição, realizada no dia 8, venceu Aguiar da Cunha, tendo o campeão português José Marquês, sido forçado a abandonar a pista por ter sua machina sofrido uma avaria. No segundo confronto, porém, o campeão rehabilitou-se, amplamente, vencendo, depois de um duelo sensacional com seus adversários.
As fotos menores são acompanhadas das seguintes legendas: “José Marquês comanda o pelotão, passando em uma das cabeceiras da pista”; “Os concorrentes em plena corrida”; “Torcedores e manifestações de entusiasmo animam os seus preferidos”.
2
O jornal A noite foi fundado e dirigido por Irineu Marinho, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
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No Brasil
Sobre as corridas no Recife, o jornal A noite2 de 22/5/1938, na página 4, traz a seguinte manchete: “O ciclismo internacional em Recife”. Em letras menores abaixo: “José Marquês, campeão de Portugal, vencedor da prova”. Do lado esquerdo, uma foto enorme de José Marquez na bicicleta. Várias outras fotos menores cobrem a página do jornal, acompanhadas de uma reportagem sobre a prova, a seguir transcrita:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez de boné branco, ao centro, no Recife
No álbum de José Marquez, há ainda outras fotos: da viagem de navio que levou os corredores do Rio de Janeiro ao Recife e uma em que José Marquez conversa com alguém que, pela comparação de fotos, deve ser um diretor da Federação Ciclística Brasileira.
Em Juiz de Fora Sobre as provas em Minas Gerais, há também uma foto de Juiz de Fora, acompanhada por uma reportagem jornalística, transcrita abaixo: Demonstrando extraordinária perícia e condições physicas excellentes, José Marquês conseguiu ganhar a corrida com boa differença dos demais collocados, como já dissemos. Empolgante sob todos os aspectos a tarde sportiva que a Lyga Mineira de Cyclismo organizou para hontem, com a collaboração do Moto Club Minas Geraes, sob o patrocínio da Federação Cyclista Brasileira. Numerosa assistência se acotovelou ao redor da pista onde se desenrolou a sensacional prova de bicycleta.
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Em Juiz de Fora, José Marquez à frente
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No Brasil
O publico gostou e gostou muito da grande corrida internacional, tendo acompanhado com attenção e enthusiasmo o seu desenrolar, aplaudindo os corredores. José Marquês, o valente campeão de Portugal, demonstrou ser um notável cyclista, vencendo a grande prova com a differença de uma volta sobre o 2º collocado. A proeza do pedalador luso surprehendeu aos “fans” juizdeforanos, que viram em José Marquês um authentico corredor de bicycleta. A corrida internacional foi um espetáculo digno de figurar na história do Sport mineiro como um facto de valor e como um attestado do valor e do trabalho da entidade mentora do Sport do pedal em Minas Geraes. Depois de manter-se no pelotão algumas voltas, a uns 15 minutos do início, José Marquês arrancou espectacularmente e dentro de pouco tempo estava novamente no pelotão, com uma volta de dianteira, distância que guardou até o final, apesar de ter sua machina soffrido um acidente, o que obrigou a atrazar-se algum tempo, enquanto trocou de machina com seu companheiro de equipe Manoel de Souza, que por sua vez recebeu soccorro de Aguiar da Cunha, que havia abandonado a pista.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez conserta a bicicleta
Em São Paulo Sobre a corrida em São Paulo, há uma reportagem com o título garrafal: “José Marquês impôs-se a todos os adversários em S. Paulo”. Consta do texto: S. Paulo, 4 – (Pelo Correio, para o “Diário Português”) – Realizouse ontem nesta cidade a corrida de bicicletas com a participação da equipe portuguesa, cuja actuação se destacou, sobretudo a de José Marquês, campeão de Portugal, que impôs nitidamente a sua classe, vencendo a prova “Criterium”. Pela contagem de 10 em 10 voltas, José Marquês marcou grande diferença de pontos sobre todos os seus adversários. O tempo gasto por Marquês, no percurso de 80 quilômetros, foi de 2h. 16m. 21s. Vitória brilhantíssima do grande
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No Brasil
campeão de Portugal, José Marquês, que, finalmente, mostrou no Brasil as suas grandes qualidades de ciclista. Que carreira de escol! Que escates formidáveis do grande corredor luso! Muito aprenderam, por certo, nossos ciclistas com o correcto campeão lusitano. Impressionante proeza de José Marquês.
Desta estadia em São Paulo, há ainda como lembrança, além das fotos, uma canequinha branca com os seguintes dizeres em verde, ao centro e em círculo: “Associação Portuguesa de Esportes – São Paulo”. Na parte de dentro do círculo há uma cruz, símbolo do clube. Por fora, em letras grandes: “Lembrança 1938 Festas Joaninas”. Trata-se dos festejos ligados ao São João, que se estendem por todo o mês de junho. No lado oposto da caneca, a propaganda do azeite GALLO “o melhor azeite produzido, enlatado e exportando de Portugal.Victor Guedes & Cia. Lisboa”.
No Rio de Janeiro As disputas no Rio de Janeiro incluem uma corrida entre Rio de Janeiro-Petrópolis-Rio de Janeiro e depois uma prova de pista na Quinta da Boa Vista.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez à frente, na pista da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro
Num recorte do jornal A noite ilustrada há uma foto grande de José Marquez com a seguinte legenda: “O campeão ciclista José Marquês, pousando para a objetiva de A noite ilustrada”. Esta foto é acompanhada da seguinte reportagem, intitulada “Só uma coisa: as cores de Portugal”, cujo texto oferece as seguintes informações: A participação de desportistas portugueses em competições realizadas no Brasil, é incontestavelmente um facto digno, sempre, da melhor atenção de todos os compatriotas aqui residentes. Eles trazem a missão de honrar o nome do nosso país; e sempre que o conseguem, são poucos os louvores que se lhes possam fazer. Acaba de encerrar-se no Rio de Janeiro, uma temporada internacional de ciclismo, em que a equipe portuguesa venceu da primeira à última prova. Uma corrida de bicicletas pode parecer, a muitos, coisa de somenos importância. No entanto, diz bem o contrário o entusiasmo dos milhares de portugueses que ao local das provas iam aplaudir os nossos corredores. E esses rapazes que vieram,este ano,defender as cores de Portugal souberam fazê-lo com valentia, brio e consciência das suas responsabilidades.
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Em outro recorte, em que há uma foto legendada, lê-se o seguinte: “[José] Marquês, o campeão português do pedal, sofre um acidente que o obriga a atrazar-se para o necessário concerto de sua maquina, no momento em que era focalizado pela objetiva de A noite.”
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No Brasil
José Marquês, Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa não trouxeram vaidades ou rivalidades individuais. Num entendimento perfeito, estudavam o andamento da competição e cada um deles obedecia ao orientador do grupo, de modo que à equipe pertencesse a vitória. De um ou de outro, era o menos; da equipe é que devia ser o triunfo. Prova-o, depois das corridas anteriores, em que a vitória nem sempre foi preparada pelo vencedor, esse brilhante fecho de temporada que foi a corrida Rio-Petrópolis-Rio. O seu grande herói, Manuel de Sousa, tinha outras vezes contribuído para o sucesso dos companheiros; achando-se agora em situação favorável, graças a um golpe de audácia em que não foi seguido pelos adversários, era a vez de o ajudarem. Eis o que aconteceu. E Manuel de Sousa mereceu bem esse triunfo. O campeão José Marquês dirigiu a táctica da equipe. Ordenou a Sousa que “fugisse”, para “experimentar”. E, ao ver que ninguém mais respondia ao desafio, os dois companheiros de equipe de Manuel de Sousa trataram de manter os restantes, sacrificando embora as suas próprias possibilidades, para que não pudesse mais ser posta em risco a vitória da equipe na colocação de Manuel de Sousa. Depois, na pista da Quinta, ainda entrou em acção o auxílio mútuo e a direcção inteligente da corrida por parte dos portugueses, Manuel de Sousa sentia fadiga. Atrás de Marquês e Aguiar, com bastante atraso, corria o uruguaio Trueba. No pelotão da frente, os três portugueses entreajudavam-se, lado a lado. Podiam os dois aumentar a distância que os separava de Trueba, para impedir este de disputar o segundo lugar; mas deixariam Sousa sozinho, o esforçado Sousa de todas as provas, o que havia de encerrar a série vitoriosa no Rio de Janeiro. Afrouxaram então a marcha, deixaram-se alcançar por Trueba; e as forças equilibraram-se, por fim, no último “sprint” ao chegar à meta. Todos foram grandes corredores. Não eram rivais, eram companheiros, tendo em mira uma só coisa: fazer triunfar as cores de Portugal. Esses rapazes não deram um só exemplo de espírito desportivo. Deram uma grande lição de patriotismo a muitos que, no estrangeiro, inutilizam com rivalidades pessoais o que podia ser um monumento de cooperação e civismo.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
No álbum, há ainda uma foto enorme com os 3 ciclistas, tirada no Rio de Janeiro, talvez capa de jornal, encabeçada por letras garrafais: “Venceu o campeão de Portugal: brilhante vitória de José Marquês.” A equipe portuguesa. Da esquerda para a direita: Manoel de Souza, Aguiar da Cunha e José Marquez
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No Brasil
Há ainda fotos da visita da equipe portuguesa à redação do jornal O globo, no Rio.
Na redação de O globo: José Marquez é o terceiro da esquerda para a direita
No acervo de José Marquez há ainda fotos de outros corredores com autógrafos de homenagem, datadas de 1/8/1938 no Rio de Janeiro.
Na embaixada portuguesa no Rio de Janeiro Sem data, um recorte de jornal com foto dá notícia de um almoço oferecido aos corredores portugueses pelo embaixador e pela embaixatriz de Portugal. Diz o texto embaixo da foto: O sr. dr. Martinho Nobre de Melo3 ofereceu, ontem, na Embaixada de Portugal, como havíamos noticiado, um almoço aos ciclistas portugueses e aos directores da Federação Ciclística Brasileira. Sua Excia. o sr. Embaixador esteve assim, mais uma vez, em contacto com os corredores que muito têm honrado no Brasil o desporto da nossa terra. A fotografia que publicamos foi tirada durante o almoço e nela
3
Martinho Nobre de Melo (1891-1985), intelectual, jornalista e político português de origem cabo-verdiana, foi professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e um dos teóricos do corporativismo português. Foi também embaixador de Portugal no Brasil e Ministro dos Negócios Estrangeiros em Portugal, além de reitor da Universidade de Coimbra e diretor do Diário de Notícias.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
se vêem a sra. Embaixatriz de Portugal e o sr. dr. Nobre de Melo; os ciclistas José Marquês, Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa; o sr. dr. Avelar Teles, secretário da embaixada; o sr. Hermínio Rodrigues, técnico da equipe portuguesa, e os srs. Alberto Lobão, Raul Pinheiro e dr. Manuel Bernardino, da directoria da F.C.B.
José Marquez está sentado à esquerda do embaixador
José Marquez deixa o Brasil com várias recordações, entre elas, um sagui, que lhe havia sido ofertado, um animal que o deixara encantado e que ainda viverá bastante em Portugal. E, segundo Carlos Pinhão, no artigo “O ciclismo português há 50 anos”, publicado no jornal A bola de 4 de agosto de 1986, p. 16, “nunca os portugueses destes primeiros tempos participaram de uma Volta à França, por falta de dinheiro para sustentar um bom treinador”.
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O grande amor e o casamento
P
or esta época, José Marquez já anda de olho em uma moça de Vila Chã de Ourique, de uns 17 anos, filha e neta de viticultores. A moça tem uma irmã mais velha e dois irmãos mais novos e, em particular, tem uma tia, irmã da mãe, que vive em Lisboa com a família e que, com frequência, visita os parentes na aldeia. Em 1 de setembro de 1939, rebenta, da perspectiva ocidental, a Segunda Grande Guerra. Depois de Hitler ter anexado a Áustria, a Tchecoslováquia e a Polônia, a Grã-Bretanha, a Commonwealth e a França declaram guerra à Alemanha. Ainda me lembro bem dos comentários em família sobre o racionamento de então: de comida, de sabão e de muitos outros itens, mesmo em Portugal, que se mantém oficialmente neutro no conflito, embora se saiba que, por debaixo do pano, colabora com o regime nazista, enquanto também acolhe judeus e dá apoio aos Aliados nos Açores. Um pneu de táxi (a maioria era da marca Fulda, alemã) chega a receber cinco recauchutagens antes de ser substituído.As solas das botas dos homens do campo e dos operários recebem remendos vulcanizados e, por vezes, a sola inteira. Bacalhau só é encontrado no mercado negro. Açúcar, só do “louro”, um açúcar toscamente refinado, vendido em sacos de sisal. Em 1939, com 29 anos, José Marquez ainda permanece ligado ao ciclismo, ainda aparece na capa da revista Stadium de 10 de maio de 1939, num grupo constituído por César, Trindade, Albuquerque, Ladislau e Ildefonso – todos em
José Marquez está embaixo, é o segundo da esquerda para a direita
volta de um leão empalhado. Por debaixo de seus nomes, os seguintes dizeres: “- leões cem por cento e cem por cento as esperanças do SPORTING!” Outro testemunho dessa ligação ao ciclismo faz-se presente numa foto de jornal, com a seguinte legenda:
O grande amor e o casamento
Os corredores franceses que tomam parte na VIII Volta a Portugal [1939], à sua chegada a Lisboa tiveram a recebê-los, além do director da corrida, o nosso camarada Raul de Oliveira, os ciclistas portugueses Marquês, Trindade e Nicolau.
José Marquez é o segundo da esquerda para a direita no grupo
Os corredores franceses são Archambaud, Cosson, Fernand Lesguillon, Laurent, Pariset. Segundo um recorte de jornal, o corredor que mais impressionou os franceses foi José Marquês. Em sua opinião, tem condições para fazer boas provas em França, bem como Alfredo Trindade. Manuel de Sousa também os impressionou agradavelmente. É muito rápido.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez em primeiro plano, à esquerda de Archambaud. Ambos carregam em torno do tórax câmaras de ar dos pneus, para emergências.
Deste ano, há também no cofre azul um convite da Câmara Municipal de Tomar, datado de 9/9/1939, para um jantar oferecido aos corredores do 1º Madrid-Lisboa em bicicleta, no Hotel União. Da ementa, exposta no interior do convite, consta: sopa de pérola, pescada à tomarense, galinha à portuguesa, vitela assada e esparregado, doce, fruta, vinhos regionais, champagne e café.
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José Marquez fez 30 anos em junho. José Marquez está apaixonado por uma conterrânea, ainda menor de idade à época, e, secretamente, com ela troca cartas de amor, cartas que, depois de muitos anos, tive coragem de ler, cartas com as quais me emocionei às lágrimas, sobretudo, com o cuidado extremo e carinhoso desse homem para não macular a reputação da amada. José Marquez espera pacientemente que ela faça 18 anos, para pedir autorização a seus pais para namorá-la. Não é uma aceitação fácil. Minha mãe contava que a tia Florinda opunha-se frontalmente a esse namoro, pois um homem tão mais velho, desportista de profissão e morador na capital de costumes “livres”, não poderia, de modo nenhum, ser um partido decente para a Maria. Deveria, com certeza, já ter por lá mulher e filhos. Mas não tinha. José Marquez é um homem íntegro, com os pés no chão: mora em Lisboa, mas não esquecera suas raízes. A paixão de Maria por José é, por seu lado, também imensa e, tendo ela batido o pé, no dia 10 de junho de 1942, ainda aos 19 anos (fará 20 em
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O grande amor e o casamento
A falta de mais notícias leva a crer que José Marquez não mais participa de Voltas a Portugal e, talvez, se tenha apenas empenhado nas corridas contra-relógio, nos “sprints” em que é, de fato, ás.
30/6) dá o sim ao homem amado, já de 32 anos, acabados de fazer no dia 8. O mês de junho pertence-lhes. Teresa e Leonardo Caetano são padrinhos.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez recusa-se a casar na igreja, pois acha o ritual um grande espetáculo sem sentido, motivo pelo qual o casamento civil realiza-se às 10:30 horas, na casa dos pais da noiva, na Rua dos Camarinhos (hoje Marechal Carmona, nº 22), seguido de um almoço, sem alardes, como ele sempre gostou. Não se tiram fotos da cerimônia, para não haver exposição. E José Marquez também não usará aliança, porque é um tanto rebelde e iconoclasta. Minha mãe, uma moça que, junto com a irmã e as amigas, costuma participar de récitas, que o professor primário da aldeia leva ao palco e oferece à comunidade, com tudo isso concorda por amor e admiração. Uma história de Eros e Psiquê sem portentos.
Maria Henriques Ruivo é a segunda embaixo, da esquerda para a direita
Ao casar, José Marquez já tinha montado em Vila Chã de Ourique, num espaço pequeno de sua propriedade, mas central, na Rua Mariano de
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Carvalho, uma revendedora/montadora e oficina de bicicletas. Sei que recusara, pelo menos, a oferta de um emprego na alfândega em Lisboa.
Depois do casamento, José Marquez isola a vida privada dentro de muros altos que manda construir em torno dos 1.500 metros2 do terreno e passa a reformular a casa, forrando os tetos com madeira, construindo uma casa de banho, uma marquise, uma adega e, depois, ao longo dos anos, vai transformando aquela propriedade estéril, de apenas três oliveiras e uma figueira, num paraíso. Até a terra do quintal será toda substituída por terra preta da charneca, para receber um pomar de laranjeiras, um de limoeiros, um de pereiras e macieiras e um damasqueiro, além de várias parreiras de uvas maçã, uvas morango, uvas pretas grandes. O enorme jardim e a horta ficam por conta da esposa. Foram sempre um casal unido e cúmplice. José Marquez recusa o cargo político de presidente da junta de freguesia, para o qual é convidado alguns anos depois, mostrando com o gesto sua postura apolítica. Na verdade, este gesto é, sim, um ato político de grande refinamento, no limiar das fronteiras, quando a política encontra seus limites e se nega a si própria. Recusar esta indicação significa recusar-se a integrar a “União Nacional”, o partido político permitido. Num governo de partido único de direita, José Marquez cultiva uma grande amizade com um comunista cassado pelo regime autoritário do Estado Novo – o professor primário Nascimento Gomes. Olhando para trás e percebendo agora o alcance político destes gestos, é mister acreditar que não devem ter passado incólumes; algum preço deve ter sido pago por eles. Não saberia dizê-lo. Em casa, de política só ouvia piadas e as notícias (censuradas) das páginas dos jornais. Meu pai tinha verdadeira aversão a mexericos, de modo que tudo era muito asséptico entre nós. Gostava de comer misturadas, migas, peixes grelhados: salmonetes, postas de peixe-espada, de sável, com salada, a preferida era de tomate e pimentões assados. Carnes e chouriços só do talho do António Claudino, o único em que confiava. Com o correr do tempo, José Marquez vai ampliando os negócios, expandindo o pequeno espaço empresarial para uma oficina de motos, uma fabriqueta e loja de utensílios domésticos, feitos de folha de flandres, depois abre uma banca
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O grande amor e o casamento
Vai morar numa casa oferecida pela mãe da noiva na Rua hoje chamada Egas Moniz, nº 5.
de jornais e revistas e uma distribuidora de gás (Cidla) de cozinha. E ainda arranja espaço para acomodar em seus múltiplos empreendimentos uma “estação de apoio” às camionetas de carreira da empresa Scalabitana, pertencentes à família Vinagre, de Santarém, no trajeto Santarém-Lisboa-Santarém.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Quando os pais falecem, herda duas vinhas que passam a lhe dar 18 pipas (550l uma pipa) de vinho, que guarda em dois tonéis enormes, vizinhos de seis cartolas onde acondiciona a água-pé, o que o obriga a comprar uma pequena camionete, marca Trojan, que mantém além do carro, depois do Chrysler, sempre um Sinca. Administra tudo com rigor a partir de um escritório envidraçado que mandara fazer na oficina. Tem um empregado, o Damásio, que considera como um filho e que é seu braço direito, de quem foi padrinho de casamento e a quem, depois, batiza o primeiro filho. Mantém, além disso, sempre um ou dois aprendizes. Recordo-me do Manuel João, filho do eletricista, de quem meu pai gostava muito, por ser bastante curioso e por sempre se mostrar muito atento às explicações. Abre, entretanto, um restaurante, que recebe o primeiro aparelho de televisão da aldeia, em sociedade com José Martins, mas, ao fim de dois anos, a sociedade não dará certo. Nunca vi o meu pai parado. Para grande desgosto de minha mãe, nunca tira férias. Sempre está trabalhando em alguma coisa. Chega mesmo a montar uma pequena fundição. Desse experimento, guardo até hoje um cinzeiro no feitio da cara de um gato. É um workaholic da época. Se tem um hobby, esse hobby é viajar. Meu pai gostava de sair a passeio comigo e com minha mãe aos domingos. Saíamos cedíssimo, ainda escuro, e voltávamos também com o dia já findo. Não gostava que nos vissem, por causa dos mexericos, que sempre provocam ruídos na comunicação. E sempre voltava a visitar os lugares outrora percorridos durante as Voltas a Portugal, ou onde tinha disputado corridas. Conheci, assim, o país inteiro, seus principais monumentos e museus. Com o nome reconhecido por todo país, José Marquez formara um pequeno círculo fechado de amigos: entre eles, em Vila Chã, o Leonardo e o Jacinto Caetano, o professor Nascimento, o Francisco Travessa (o Travessa Velho), depois, o seu filho Joaquim, que esteve em nossa casa em São Paulo); no Cartaxo, o Zé das Máquinas (Singer, que também nos visitou no Brasil) e o avô da Maria Lucília Lopes; em Sangalhos, os irmãos Maia, donos de um armazém de peças para bicicletas em Aveiro, onde meu pai se abastecia; 146
na Benedita, o Manuel Agostinho, que passou a lhe fazer as únicas botas de cabedal que gostava de usar, de orelhas nos calcanhares e elásticos laterais; no Porto, o Sr. Capas Penedo, pai da Lili. De tempos em tempos, pelo São Martinho, reunia-os na adega para uma patuscada: fazia uma fogueira dentro do recinto e, ali sobre uma trempe, cozinhavam no vinho lebres e coelhos bravos, previamente marinados em vinha d´alhos, e assim provavam o vinho novo, fermentado nos dois tonéis de carvalho. Mesmo depois de casado, em 1946 (de 1942 a 1945 não se realizam Voltas a Portugal), acompanha de carro a 11ª Volta a Portugal.
O grande amor e o casamento
Em 21 de outubro de 1956, está na inauguração da pista do velódromo de Alpiarça.
José Marquez é o terceiro da esquerda para a direita
Nasci depois de 6 anos de casamento, porque José Marquez não queria filhos. Achava o mundo cruel demais para pôr nele uma criança. A insistência de minha mãe acabou por vencer. Meu pai teve uma influência preponderante em minha educação: sempre tive mais brinquedos de menino: um automóvel de pedais, um triciclo, uma bicicleta, uma moto, lia todos os sábados, desde os 7 anos, O cavaleiro
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andante1 e As aventuras de Tintim2. Nunca exercitei as prendas domésticas. Era meu dever estudar e ter boas notas. Graças a meu pai e ao professor Nascimento, minha voz foi ouvida, e livrei-me de uma internação no Colégio Andaluz, um colégio de freiras em Santarém, conforme desejo de minha mãe, e fui estudar no Liceu Nacional de Santarém. Deveria ter cursado Farmácia, conforme o desejo de meu pai, porém, quis o destino que minha grande paixão pela cultura alemã e por literatura me levasse a outros caminhos, o que foi integralmente respeitado por meu pai.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Em 1957, durante algum tempo, as conversas em casa giram sobre a possibilidade de adoção de uma criança húngara órfã, “fugida da guerra” e, por falta de entusiasmo de minha parte, o assunto vai morrendo. No final do sexto ano do liceu, ao agradecer um presente recebido do filho mais velho do Sr. João de Sousa, acabo por entabular com ele uma troca de correspondência de desdobramentos imprevistos. O Sr. João era muito amigo do Manuel Agostinho, da Benedita, que também era muito amigo do meu pai. O Sr. João tinha uma recauchutagem em Alcobaça, havia-se autoexilado com a mulher e os dois filhos no Brasil, por causa da guerra no ultramar português (na Guiné, em Angola e em Moçambique). Eu conhecera a família, um dia, em visita a Alcobaça. Desta correspondência, nasce um namoro, a que meus pais não dão nenhuma importância, afinal, há todo o Oceano Atlântico entre nós. Mas o namoro fica muito sério. E entre os convites à emigração, que o Sr. João faz a meu pai, e a perspectiva de me ver um dia voar para fora de casa, meu pai resolve voltar ao Brasil, que já conhecia. E, estando eu já no primeiro ano de Filologia Germânica da Universidade de Lisboa, peço uma transferência para a Universidade de São Paulo, graças a um acordo recente entre os dois países. 1
2
“Revista portuguesa de banda desenhada. Teve a duração de 556 números, publicados entre 5 de Janeiro de 1952 e 25 de Agosto de 1962. A maior parte das séries publicadas eram de origem europeia, em contraponto ao Mundo de Aventuras, outra revista existente na época, mais virada para a banda desenhada norte-americana. Vários foram os autores portugueses que publicaram trabalhos seus nesta revista, destacando-se Fernando Bento, José Ruy, Eduardo Teixeira Coelho, José Garcês e José Manuel Soares. Teve como único director Adolfo Simões Muller.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Cavaleiro_Andante_(revista). Acesso: 12/09/2011. “As Aventuras de Tintim (no original em francês, Les aventures de Tintin) é o título de uma série de histórias em quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) criada pelo autor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé, em 1929. O herói das séries é o personagem epônimo Tintim, um jovem repórter e viajante belga. Ele é auxiliado em suas aventuras desde o início por seu fiel cão Milu (Milou, em francês). Os dois apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado ao público infantil. Mais tarde, o elenco foi expandido com a adição do Capitão Haddock, entre outros personagens pitorescos.” http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Aventuras_de_Tintim. Acesso: 12/09/2011.
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O retorno ao Brasil
J
osé Marquez chega, com a esposa e a filha, a São Paulo em março de 1967, depois de uma viagem de 9 dias no Enrico C, é recebido pelo Sr. João de Sousa no porto de Santos e entra em um Brasil sob ditadura militar, governado então pelo Marechal Costa e Silva. Carrega cuidadosamente consigo todas as taças, as inúmeras medalhas, camisolas de corrida, o álbum de fotos, folhas e recortes de jornais e revistas, a registrarem grande parte de sua vida esportiva, que chega a mostrar aos netos.
A taça Stadium (para o corredor com melhor média) e outras, ganhas por José Marquez
Em casa, nunca falta o jornal O mundo português, que o mantém a par dos acontecimentos em Portugal.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Tenta refazer a vida numa sociedade com dois portugueses, também residentes na cidade, montando uma fábrica de gira-discos e rádios que, ao fim de um ano, não vai em frente. Chega a desenvolver um dispositivo de limpar velas de carro com o desenho de um pequeno foguete espacial, com o fim de comercializá-lo em sociedade com o Sr. João, mas o projeto não dá certo, porque a mentalidade de preservação do pós-guerra, ainda arraigada nos dois homens, não existe no Brasil, onde as coisas tendem sempre mais e mais a serem descartáveis. Começa a investir de pouquinho na Bolsa e, assim, vai mantendo as posses, numa batalha constante contra a inflação, um fenômeno que não conhecia em Portugal. Uma vez em São Paulo, logo monta para si uma bicicleta de corrida e outra de passeio, conhecida como a “pasteleira”. Depois, parte para a construção de outra bicicleta, também de corrida, com tecnologia avançada, com a qual percorre ao longo dos anos, todos os sábados e domingos, a cidade de lés a lés. Não é uma bicicleta qualquer! A máquina obedece a medidas singulares, que fogem ao padrão, é montada com tubos de aço japonês, mais leve e um tanto flexível, e leva embutidos no quadro os cabos dos freios e das marchas, o que a torna uma bicicleta de menor peso, comparada às congêneres. Deixou de recordação esta bicicleta pintada de verde água (que ainda existe) ao neto mais velho. José Marquez, homem muito reservado, faz poucos mas bons amigos no Brasil. Após o casamento da filha, passa a morar junto dela e do genro e, depois, dos 3 netos homens, que vê crescer, como ele sempre havia querido. Também costuma juntar-se a um grupo de amigos, igualmente ciclistas, no espaço da Cidade Universitária.
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1977 – José Marquez, o primeiro à esquerda, com o grupo de amigos ciclistas na Cidade Universitária em São Paulo
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O retorno ao Brasil
José Marquez, à direita, com Dias Santos, ciclista que pertencera ao Futebol Clube do Porto, na Cidade Universitária em São Paulo, em 1977
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sofre um enfarte do miocárdio, andando de bicicleta em 1981, aos 71 anos, mas nunca parou de pedalar.
José Marquez com a esposa Maria e os netos em 1984. Da esquerda para a direita Rogério Nuno, Pedro Alexandre e João Paulo
Aos 81 anos, falece em casa de um segundo enfarte, em 16 de novembro de 1991. Repousa, junto com a esposa, no Cemitério da Paz em São Paulo, no bairro do Morumbi, Brasil.
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Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa nasceu em Vila Chã de Ourique, Portugal, e é filha única de José Marquez. Em 1965, terminou os estudos secundários no Liceu Nacional de Santarém e, em 1966, ingressou no curso de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo-o terminado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Brasil. Casou-se neste país com Franklim Ribeiro de Sousa e tem 3 filhos brasileiros/portugueses. Fez o Mestrado e o Doutorado em Literatura Alemã e o Pós-Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de Colônia e na USP, onde entrou como professora em 1980. Em 1988, foi pesquisadora visitante do “Deutsches Literaturarchiv Marbach”, em Marbach a. Neckar, e da “Stiftung Preußischer Kulturbesitz”, em Berlim. Foi bolsista do Goethe Institut, do DAAD, da CAPES e do CNPq. Atualmente está aposentada, mas continua seu trabalho de orientadora de Mestrados e Doutorados no Programa de Pós-Graduação em Língua e Literatura Alemã da USP, onde também coordena o grupo de pesquisa “RELLIBRA” – www.rellibra.com.br. Celeste Ribeiro de Sousa publicou, entre outros, Retratos do Brasil. Heteroimagens literárias alemãs; Do cá e do lá. Introdução à Imagologia; Poéticas da violência (org.); Criação e conflito (org.). Curriculum Vitae: http://lattes.cnpq.br/1328501284219527
Copyright 2012 da autora Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, da editora. Título José Marquez, um campeão do ciclismo Editor: Jaime Benutte Produção editorial: ERJ Composição Editorial Capa: Marcelo Paton Impressão e acabamento: IBEP Grafica Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S713j Sousa, Celeste Henriques Marquês Ribeiro de José Marquez : um campeão do ciclismo / Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa. São Paulo : Pátria, 2012. ISBN 978-85-63831-03-3 1. Marquez, José. 2. Ciclistas - Portugal - Biografia. 3. Ciclismo - História. 12-3761
CDD: 927.9662 CDU: 929:796.61
Homenagem a meu pai, que, com seus sprints e records, revolucionou o ciclismo portuguĂŞs de seu tempo
Sumário Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .VI A casa paterna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .1 O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica . . . . . . . . . .11 No Sporting . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15 No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) . . . . . . . . . . . . . . . . . . .21 Na VI Volta a Portugal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 Entrevistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .81 A história do burro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .96 Escritos de admiradoras(es) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .99 Em 1936 e 1937 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 No Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 O grande amor e o casamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 O retorno ao Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147
Apresentação Sou a filha única de José Marquez1, um campeão do ciclismo em Portugal da década de 1930, nasci em Vila Chã de Ourique e vivo, desde 1967, em São Paulo – Brasil. Agora, que estou aposentada e disponho de tempo para revolver as coisas do passado, dando forma às minhas próprias memórias pessoais, eis que, mais uma vez, me deparo com minhas raízes e com a suprema e decisiva importância da presença de meu pai em minha formação e no traçado dos rumos que minha vida haveria de tomar. Hoje, com a necessária distância emocional, posso aproximar-me do homem que não conheci e que haveria de ser meu pai, do homem que chegou a ter grande projeção nacional, e mesmo internacional. O homem, o pai, que conheci e com quem convivi era uma pessoa muito simples, sem vaidade, avessa a autopromoções, disciplinada, séria, altamente seletiva nas amizades, leitora voraz de jornais e de livros técnicos2, extremamente habilidosa, inteligente e ativa − um irrequieto vulcão sereno. Algumas destas características são responsáveis pela tardança desta minha homenagem, que também é uma contribuição, ainda que pequena, à história do ciclismo em Portugal e também no Brasil. Agradeço a João António Esteves Pratas a observação feita há alguns anos sobre o fato de não haver documentação acerca do ciclista José Marquez, observação que não foi esquecida. Ao revolver as coisas do passado, como dizia, volto a encontrar-me com o cofre azul deixado por meu pai. Lá dentro estão guardadas várias coisas, desde documentos a um porta-moedas português de couro com seus últimos escudos e tostões, ali deixados de recordação, alegoria de uma última raiz fincada no país natal.
1
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A mudança de Marquez, nome original constante do Registo de Nascimento, para Marquês, deve-se a uma reforma ortográfica, implementada pelo governo português. Alguns exemplos de sua estante: Electricidade e mecânica, exemplar da revista científica de engenharia prática e de ensino técnico; Cálculo das rodas de muda dos tornos, de Georg Knappe; Tabela de pesos de metais, de F. Campos; Manual de mecânica automóvel, do Eng. Rui de Sousa; Manual do fundidor e Torneiro e frezador mecânicos, ambos da Biblioteca de Instrução Profissional, fundada por Thomaz Bordallo Pinheiro; Micromotor pachancho, da fábrica nacional de pistões “pachancho”; A lambreta: manutenção e reparação, de Francisco R. Landi; etc.
Mas, como ia dizendo, além do cofre azul, feito por ele mesmo, com documentos pessoais e outros objetos, do álbum de fotografias e do amontoado de recortes de jornais e revistas, há também uma série de taças, inúmeras medalhas, uma caixinha de ébano para guardar selos, decorada com motivos florais de prata, e uma imagem da Virgem Maria com os três pastorinhos, também em prata, aplicada sobre um círculo de madeira igualmente de ébano, à laia de moldura, que, imagino eu, também tenham sido ganhas como prêmios. A seleção dos recortes e das fotos desenha, por si só, a perspectiva com que meu pai vivenciou as experiências dos dourados anos 30 de sua existência. Por isso, respeitei a seleção, da qual retirei os exemplos mais representativos, como parte válida para o corpus desta biografia que tento montar neste livro, em sua homenagem e à sua memória. Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa
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Apresentação
Além de documentos pessoais, há também um álbum de fotografias e um grande amontoado de recortes de jornal, a imensa maioria sem data, sem referência à fonte, difícil de ordenar, passados tantos anos. Apenas títulos, reportagens, entrevistas, capas de revista, fotos legendadas de jornal, cartas, postais. Folheando o álbum, por exemplo, é claramente perceptível que começou a ser montado com as fotos e reportagens das corridas no Brasil. Posteriormente, foram-lhe acrescentadas fotografias e recortes de reportagens anteriores, relativas às V e VI Voltas a Portugal. Outras fotografias de eventos desportivos mais recentes vêm em seguida. Tendo terminado o espaço do álbum, José Marquez volta ao início e começa a inserir fotos novas nos intervalos existentes, anulando as distâncias entre o passado e o presente.
1951 – José Marquez e a filha
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
A casa paterna
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a freguesia do Casal do Ouro, nome antigo de Vila Chã de Ourique, no concelho do Cartaxo, distrito de Santarém e província do Ribatejo, em Portugal, nasce no dia 8 de junho de 1910, no fim da primavera e começo do verão, sob o signo de Gêmeos, uma criança do sexo masculino, a quem é posto o nome de José Poucapena Marquez1 ocasião em que os astros, sobretudo Mercúrio, ou Hermes, o mensageiro, ficam em dúvida se devem agraciar o nascituro com uma gloriosa carreira, ou abandoná-lo ao anonimato, à segurança e à tranquilidade da herança paterna, como proprietário de vinhas e olivais, ao abrigo de um casamento burguês-rural aconchegante. Na incerteza (o signo é ambíguo), os astros optam pela junção das polaridades, criando a encruzilhada permanente. São seus pais Manoel Poucapena Marquez, um homem assaz introspectivo, moreno, de olhos castanhos, bastante alto e esguio, sempre com um barrete preto na cabeça, e Maria Santa Martha, uma mulher extrovertida, loura, de olhinhos azuis, de estatura baixa e cheinha, cabeça sempre coberta por um lenço claro. Seus bisavós ou avós paternos (António da Costa Poucapena) ou maternos (Simplício Manaio e Gertrudes Santa Martha) teriam vindo de Leiria, a serviço do Marquês de Nisa (daí a adoção posterior do sobrenome Marquez). Chamava-se o 9º Marquês de Nisa Domingos Vasco Teles da Gama, proprietário da Quinta e do Palácio dos Chavões, local abandonado no meu tempo de menina, onde o povo de Vila Chã costumava passar o dia da Espiga. O Palácio dos Chavões 1
A mudança de Marquez, nome original constante do Registo de Nascimento, para Marquês, deve-se a uma reforma ortográfica, implementada pelo governo português.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
fica localizado dentro da Quinta dos Chavões − herdade com cerca de 180 hectares − na freguesia de Vila Chã de Ourique. Este palacete foi, em seus tempos áureos, umas das mais imponentes residências senhoriais do Ribatejo. Sua fundação data do século XIV, sendo apontada a data de 1345 para a edificação do núcleo primitivo da casa. Sabe-se que, em 1382, era designada como “Casa dos Chavões” e que já estava habitada.2 Ao chegar ao mundo, José já encontra um irmão bem mais velho. O primogênito tem 10 anos e chama-se Manuel, como o pai. Moram, e sempre moraram, rente à rua de terra batida, hoje Rua José Jacinto Nogueira, numa casa simples com uma grande sala de entrada em que há uma mesa de abas, várias cadeiras, uma cômoda enfeitada por duas jarras de vidro, de bocas folhadas e avivadas a ouro, pintadas em fundo azul com ramos de delicadas flores, das quais um exemplar ainda guardo comigo, como relíquia. Além das preciosas jarras, compõem a cômoda dois castiçais de vidro trabalhado, até hoje preservados, e mais alguns bibelots. À direita, há uma arca enorme de madeira preta, onde as roupas são guardadas. E, nas quatro paredes, bem junto ao teto e inclinadas, de modo a serem admiradas com facilidade por quem olhe para cima, encontram-se várias estampas coloridas de belas damas emolduradas. À esquerda, perto da porta de entrada, abre-se a porta que leva ao quarto do casal, preenchido por uma grande cama de ferro trabalhado. Mais à frente, também à esquerda, abre-se outra porta que dá para a cozinha. Aqui chama a atenção a chaminé interna. 2
“Nesta mesma data, o cavaleiro Lourenço Gonçalves, proprietário e possivelmente seu edificador, deixou a propriedade à Igreja de Santo Estevão de Santarém. Até meados do século XV, a ‘Casa dos Chavões’ ficou integrada nos bens do templo escalabitano citado atrás, passando, em 1468, novamente a propriedade particular. Desde meados do século XV foi pertença de vários particulares (Afonso de Matos, Francisco de Matos, Simão de Matos, Diogo de Matos, Francisco Tristão, Manuel Coelho e Ana Lobata). Em 1590, a Quinta dos Chavões tornou-se propriedade de Rui Teles de Menezes, senhor de Unhão. Foi também Rui Teles de Menezes quem, no início do século XVII, propôs obras na estrutura do paço medieval, transformando-o num solar maneirista de grandes dimensões. Nos Chavões esteve também D. Pedro II, sendo este local palco de secretas reuniões dos seus conjurados, e que em 1640 proclamaram a Restauração da Independência, face ao domínio de Espanha. Ao nível estético, o palácio tem um pátio quadrangular central, e desenvolve-se numa planimetria em ‘U’, muito comum na arquitectura senhorial seiscentista. A fachada principal apresenta muitas semelhanças com o palácio quinhentista da Quinta das Torres de Azeitão. O Palácio dos Chavões manteve praticamente intacta a estrutura maneirista ao longo de vários séculos, até que em meados do século XIX, entre 1846 e 1848, D. Domingos Teles da Gama, marquês de Nisa e proprietário dos Chavões, mandou executar obras de alteração na estrutura dos dois corpos laterais. Estes, tal como a fachada posterior da casa, adquiriram uma feição neo-gótica. No conjunto do palácio, estava ainda integrada uma capela, dedicada a Santo Amaro, que ficou destruída num incêndio ocorrido em 1909. O seu actual proprietário adquiriu-o em 1980, na altura em que estava a ser usado como curral de ovelhas e encontrava-se num completo estado de abandono. Actualmente recebeu a designação de Imóvel de Interesse Público.” http:// pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_dos_Chav%C3%B5es. Acesso: 13/09/2011.
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José Marquez com Leonardo Caetano à porta de casa
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A casa paterna
Na parede que desce do teto e a cobre pela metade, bem no meio da trava de madeira de sustentação, está sempre pendurada uma candeia de azeite, que à noite alumia o cômodo. Mas, além desta luz, no inverno, há também a claridade e o calor das brasas da fogueira ali acesa, onde a cada um dos lados costumam sentar-se em banquinhos baixos, chamados mochos, Manoel Marquez e Maria Santa Martha, meus avós paternos já velhos, para conversarem e cismarem. À esquerda de quem entra na cozinha, vindo da sala, há uma outra porta que leva ao quarto dos filhos. Ali estão duas camas de solteiro também de ferro trabalhado. Da cozinha desce-se ao quintal, de tamanho médio, por uma escada de pedra de três degraus. À esquerda ergue-se, sob um telheiro, um forno de cozer pão, e, por cima deste complexo, a figueira de figos roxos abre sua ramagem frondosa. À direita, outro complexo de alvenaria anuncia-se. Pegada à casa, está a adega, onde se encontram barris pequenos de água-pé, fardos de palha e uma grande, bastante grande arca preta, que guarda as amêndoas, provenientes de uma amendoeira existente na vinha “Lourenço”, sempre ansiosamente esperadas, porque um tanto raras na região, bem como outros cereais. Formando um ângulo reto com esta adega, segue-se o palheiro, onde a mula habita, e, mais ao fundo, o grande portão da casa, que dá para uma ruazinha particular entre a propriedade do Manoel Marquez e a de Manoel Botelho, oferecendo também saída para o quintal da Srª. Guilhermina, que com um portão fecha a ruela numa das pontas; a outra ponta desemboca, então, na rua principal.
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Seguindo esta rua principal, vê-se, à esquerda, do lado de cá, fazendo esquina com a Rua hoje denominada Mariano de Carvalho, o sobrado do Sr. Manoel Botelho e, do outro lado, em frente, o casarão do Sr. José Jacinto Nogueira e da Srª. Dona Sara. À direita, do lado de cá do cruzamento, ergue-se o palacete da Srª. Dona Raquel, filha do Sr. Botelho e, em frente, do lado de lá, está o Largo da Memória, o Largo da Igreja Matriz (onde tanto brinquei no intervalo das aulas do curso primário), assinalado pela estátua do anjo, de rosto sério, os braços erguidos, segurando e mostrando, de cima de um grosso pedestal circundado pelos quatro primeiros reis da primeira dinastia, um escudo com cinco quinas. O anjo teria aparecido a D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, travada contra os mouros em 25 de julho de 1139, incentivando-o à luta e acenando-lhe com a vitória.
Largo da Memória em Vila Chã de Ourique com a estátua do anjo que apareceu a D. Afonso Henriques, um dos reis esculpidos na lateral do monumento, acompanhado de seus sucessores
Continuando por esta rua, à esquerda da Igreja Matriz, que leva ao “Casal da Velha”, lá adiante, quando ela se torce à esquerda, sai uma outra ruazinha, sem saída. Ao final dela, há, à direita, uma pequena propriedade, conhecida como “o casal”, onde minha avó Maria Santa Martha lavava a roupa junto ao poço, rodeado por pomar e jardim. Entre as flores, uma trepadeira de flores semelhantes a cúpulas cor-de-rosa de candeeiros de vidro ainda se faz presente em minha memória. Do lado oposto, há a adega que abriga três grandes tonéis com o vinho e várias talhas com o azeite das colheitas domésticas. José Marquez nasce, por assim dizer, junto com a República. 4
No dia 5 de outubro de 1910, é constituído um governo provisório da República em Portugal, presidido por Teófilo Braga, um professor universitário. Com isto, algumas inovações são implantadas no país: a lei dos acidentes de trabalho, as leis de proteção aos filhos, a lei do registo civil. Discute-se o estabelecimento de um horário de trabalho e o direito ao descanso semanal. O ensino primário, secundário, técnico e superior, e até o Exército, são reformados. São criadas as Universidades de Lisboa e do Porto. São abolidos os direitos e títulos de nobreza. A Igreja é separada do Estado. A moeda, que era o “real”, passa a ser o “escudo”. Uma nova bandeira nacional é desenhada e um novo hino é criado. Em maio de 1911, são eleitos 200 deputados para formarem a Assembleia Nacional Constituinte e, em 21 de agosto do mesmo ano, é aprovada a primeira constituição política da República. Em 24 de agosto de 1911, Manuel de Arriaga é eleito primeiro presidente. Mas os partidos políticos não dão trégua, e as mazelas do tempo da monarquia estendem-se à jovem República. Já em 1913, Portugal conhece um segundo presidente: Afonso Costa. O pai de José Marquez, Manoel Marquez, é um médio proprietário e viticultor. O vinho serve ao consumo doméstico, mas é, sobretudo, destinado ao comércio. Já o azeite das oliveiras, plantadas à beira das vinhas, destina-se principalmente ao uso caseiro, vendendo-se o excedente.
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A casa paterna
A revolução, que poria fim à monarquia, estourara quando ele tinha três meses, na noite de 3 para 4 de outubro de 1910. O rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luis Filipe haviam sido assassinados por dois fanáticos republicanos em 1 de fevereiro de 1908, quando a família real voltava do solar de Vila Viçosa a Lisboa. O reinado de D. Carlos, chamado “o Diplomata”, havia sido marcado por muitas decepções e por muitas turbulências. Entre outros, os negros de Moçambique haviam entrado em pé de guerra com os técnicos portugueses, que deveriam estudar o percurso de uma linha férrea nas regiões do Chire e do lago de Niassa. O major Serpa Pinto havia sido enviado em socorro dos portugueses, tendo submetido os revoltosos. A Inglaterra, a quem a pesada presença dos portugueses na África incomodava, enviara ao rei e a seu governo um ultimatum, exigindo sua retirada daquelas regiões. Como não tivesse condições de enfrentar os ingleses, o rei cedera, a população portuguesa ficara indignada, e o célebre mapa cor-de-rosa desapareceria. Revoluções passaram a fazer parte do cotidiano do país. A economia estava estagnada. O príncipe D. Manuel II, segundo filho do rei, chegara a ser aclamado rei e cognominado “o Patriota”, mas diante do desenrolar dos acontecimentos, fora obrigado a exilar-se.
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José Marquez está com 4 anos, quando, em 1914, estoura a Primeira Grande Guerra, em que Portugal, por ser eterno aliado da Inglaterra, é surpreendido por uma declaração de guerra da Alemanha, o que o obriga a enviar, no início de 1917 (ano da revolução dos bolcheviques na Rússia), 55 mil homens ao front francês. No contingente de homens portugueses enviados à França, encontra-se um rapaz de uns 20 anos, Josué Duarte Ruivo, que haverá de ser seu sogro, um rapaz que parte saudável e volta gaseado. Regressa alcoólatra, viciado em nicotina e dono de uma bronquite asmática que lhe haverá de corroer a vida até levá-lo à morte, aos 60 anos3. Josué traz da guerra para a amada, a namorada que, cega de paixão, enfrenta toda a família para com ele se casar, uma canequinha de porcelana branca (que guardo comigo), pintada com um delicado raminho colorido de violetas e vivos dourados, com os dizeres “Think of me” impressos em ouro. Desse casamento, nascerão duas meninas e dois meninos. A menina mais nova, nascida em 30 de junho de 1922, a Maria, haverá de, por obra do destino, arrebatar o coração do atleta já maduro, 12 anos mais velho que ela. Desde cedo, o pequeno José Marquez não mostra inclinação para os cuidados com as vinhas e os olivais. É Manuel, o filho mais velho, quem ajuda o pai nas lides agrícolas. A diferença de idade (e certamente de personalidade) faz com que José e seu irmão partilhem de bem poucos interesses comuns. Enquanto Manuel acompanha o pai às propriedades, que haverá de herdar e que haverão de determinar seu modus vivendi, normalmente, de José, nem a mãe, nem o pai sabem por onde se encontra a brincar, empurrando o arco pelas ruas esburacadas e poeirentas no verão, ou cheias de poças de água e lama no inverno. Porém, mesmo antes da guerra terminar, uma outra revolução estoura em Portugal, liderada por Sidónio Pais, que assume a presidência com a missão de pôr ordem no país, mas como não consegue fazê-lo, acaba assassinado em 1918.
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Leia-se sobre a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra o livro A filha do capitão, de José Rodrigues dos Santos.
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A casa paterna Meninos empurrando o arco. Imagem encontrada na internet.
José Marquez tem, então, 8 anos e frequenta o curso primário. Inteligente, na escola é bom aluno, o melhor da classe, segundo o testemunho de todos os que o conheceram, e também traquinas: contava-se que, no inverno, gostava de tirar pulgas do pelo do cão e colocá-las nas pantufas do professor, que as calçava ao chegar à escola. Divertia-se com as consequências de suas artes. Canto e Castro sucede a Sidónio Pais no governo da nação, enfrenta e sufoca a tentativa da restauração da monarquia, mas renuncia em 1919. Sucede-lhe, então, António José de Almeida. Em 1920, o índice de analfabetismo em Portugal é de 70,5%. Em julho de 1920, José Marquez acaba de fazer 11 anos e de terminar o curso primário com brilhantismo. Mais tarde, passa a compartilhar com os irmãos Caetano − o Jacinto e o Leonardo –, mais velhos do que ele, o entusiasmo pelo ciclismo nacional. Acompanharão juntos pelos jornais as notícias sobre as voltas a Portugal, iniciadas em 1927, e sobre seus vencedores. É por essa época que Manoel Marquez oferece a José sua primeira bicicleta; afinal, a bicicleta é, nesse
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tempo, um meio de transporte bastante popular, e a região de Vila Chã de Ourique é particularmente conhecida por seus ciclistas. O rapaz passa, então, a percorrer a aldeia e os arredores, ficando cada vez mais tempo fora de casa, longe do controle dos pais.
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É, no entanto, um adolescente puxado ao pai, um pouco introvertido, de estatura bem proporcionada, tez clara e olhos expressivos de cor cinza com matizes, às vezes, azulados, às vezes, esverdeados, conforme a luminosidade do ambiente, um sorriso aberto, solar, fazendo duas covinhas nas bochechas, muito franco e simpático, mesmo sedutor, maneiras bastante polidas, muito querido por Leonardo e Jacinto Caetano, grandes e ricos proprietários da região. Serão estes dois homens que o levarão a correr de bicicleta, experiência que o haverá de marcar para sempre.
Da esquerda para a direita: Leonardo Caetano, com o filho pequeno, José Marquez e Jacinto Caetano
No ano de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral fazem a primeira travessia aérea sobre o Atlântico, de Lisboa ao Rio de Janeiro. E, em 1925, ao Presidente da República António José de Almeida sucede Manuel Teixeira Gomes. A entrada de José Marquez na adolescência é, portanto, marcada por uma época politicamente instável e economicamente bastante problemática com moeda desvalorizada, inflação galopante, greves, mas ainda com
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Em 1927, ano da 1ª Volta a Portugal em bicicleta, José Marquez está com 17 anos, quando participa da primeira prova ciclística de sua vida, contra a vontade dos pais, que, afinal, reservavam para o segundo filho um destino semelhante ao do primeiro. José Marquez poderia parecer até um pouco tímido, mas era impetuoso o bastante para ignorar a opinião dos pais. A corrida é organizada na própria aldeia de Vila Chã de Ourique e dela também participam José Maria Nicolau e Ezequiel Lino, nomes que igualmente haverão de alcançar popularidade nacional. Lançam-se à estrada de terra e pó todos os “desportistas”, lutando acirrada e animadamente pela vitória. A certa altura, Nicolau, Ezequiel Lino e José Marquez desgarram-se dos demais e disputam entre si o trecho final. Quem cruza a meta, no entanto, é José Marquez; Nicolau chega em 2º lugar e Lino, em 3º. A notícia em torno da vitória de José Marquez espalha-se pelas redondezas. Não se fala em outra coisa, naquele lugar pequeno de 1927. A vitória alcançada por José Marquez numa prova ciclística, neste ano, tem o dom de acordar neste rapaz da província um secreto e irreprimível desejo de abrir-se ao mundo, de conhecer novas paragens e outras gentes e de deixar para trás a casa dos pais e o destino que lhe haviam preparado. José Marquez não será apenas um ouriquense, ou um ribatejano, ou um português; haverá de ser um cidadão do mundo. A partir deste momento, onde houver, na região ou fora dela, corridas de bicicleta, José Marquez estará presente.
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A casa paterna
liberdade de expressão. Escrevem Eugénio de Castro, Camilo Pessanha, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Jaime Cortesão, Guilherme Faria, Correia de Oliveira, Florbela Espanca. Todavia, esta liberdade que chega a confundir-se com caos, tal o descontrole a que chega a República, demanda freios por parte da população, os quais vêm na forma, a princípio bem acolhida, de uma ditadura provisória, como todas as ditaduras costumam ser. Um artigo publicado em 1924 na Seara Nova traz o sintomático título “Só a ditadura nos pode salvar”. A revolução de 28 de maio de 1926, liderada pelo general Gomes da Costa, dissolve o Parlamento.
O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica
1927 Ainda neste ano de 1927, ano da 1ÂŞ Volta a Portugal, o amigo Leonardo Caetano lembra-o de que seria conveniente filiar-se a um clube da capital e profissionalizar-se. Apresenta-o ao Benfica, e ele acaba por ingressar no clube aos 17 anos.
Da esquerda para a direita: Sra. Ana Caetano, casal Teresa e Leonardo Caetano, com o filho pequeno, e JosĂŠ Marquez
Veste a Camisola Vermelha1 do clube pela primeira vez durante a corrida Lisboa-Tomar, porém não obtém uma boa classificação, ao ficar em 11º lugar. Mais tarde disputa também os “100 km clássicos”, mas não passa do mesmo 11º lugar. Tal classificação, evidentemente, não agrada ao Benfica. O clube quer campeões e, assim, a passagem de José Marquez pelo Benfica quase não é notada.
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Sai do clube e fica um tempo sem participar de provas oficiais, embora não deixe de participar em campeonatos locais amadores. É um período difícil, pois José Marquez, embora decidido a não voltar mais à casa paterna para dividir, junto com o irmão, o trabalho da administração e do cultivo das propriedades, bem como o da comercialização de seus produtos, conforme Manoel Marquez, seu pai, exigia, não recebera convite de outro clube e, portanto, fica solto na vida, aguardando o veredicto do destino. A situação política e econômica do país não está bem. Em 28 de maio do ano anterior (1926), os militares haviam se levantado e perpetrado um golpe de Estado, que dera fim à liberalizante 1ª República, e haviam instaurado um regime ditatorial, com o objetivo de acabar com a instabilidade política reinante. Desta forma, a oposição é obrigada à clandestinidade, os partidos políticos são proibidos, e cria-se em seu lugar um partido único, chamado “União Nacional”. O diálogo político fica inviabilizado − a maioria dos intelectuais (os não conservadores) é jogada à margem do regime, fazendo oposição tímida, ou contestação aberta. O Marechal Carmona é nomeado presidente da ditadura nascente, conhecida como Ditadura Nacional e, em 1928, é “eleito” para o mesmo cargo. Já em 1926, por necessidade premente, fora chamado ao Ministério das Finanças o Prof. Dr. Oliveira Salazar, que então lecionava em Coimbra, na Faculdade de Economia. O trabalho deste homem à frente da tão degradada
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Camisola Vermelha, Camisola Verde-Branca, etc. são peças de vestuário, semelhantes às camisetas ou T-shirts, que funcionam como peças dos uniformes dos diferentes clubes esportistas. A Camisola Amarela, por exemplo, distingue aquele que assume o primeiro lugar numa prova de ciclismo ou se classifica como o primeiro, em tempo, nas várias etapas.
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situação nacional é, no começo e comparativamente, invulgar: equilibra o orçamento, estabiliza a moeda, consolida as instituições republicanas. José Marquez grava em sua memória tal mudança. Os olhos retêm as imagens do caos, das estradas esburacadas e empoeiradas, transformando-se em imagens de ordem e de progresso.
(1930-1932)
Aos 21 anos, José Marquez alista-se como recruta no serviço militar obrigatório em Lisboa, precisamente em 8 de setembro de 1930, e é incorporado como soldado no dia 3 de março de 1931. Na sua Caderneta Militar consta em “habilitações literárias e profissionais” a seguinte anotação: “ler, escrever e contar – corretamente”; no item “aptidões especiais”: “chauffeur”.
José Marquez no serviço militar
Aos 22 anos, em 3 de junho de 1932, é licenciado. Em 1932, Salazar é, dado o prestígio adquirido, nomeado presidente do Conselho de Ministros, que passam a ser escolhidos, sobretudo, entre os civis e na Academia, o que tira do governo os políticos e, supostamente, as inseguranças e as instabilidades. 13
O encontro com o ciclismo profissional em Lisboa, no Benfica
O serviço militar
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A implantação do Estado Novo em 1933, mediante a entrada em vigor de uma nova Constituição, revela um desinteresse geral da população pela política (o número de abstenções na votação do Projeto da Nova Constituição através de plebiscito fora altíssimo), e essa despolitização é até estimulada, pois o Estado Novo não chega a levantar a censura criada durante a Ditadura Nacional. Os efeitos da Grande Depressão de 1929 mal se fazem sentir em Portugal. Ainda assim, essa crise acaba por condicionar todas as prioridades do país ao setor financeiro, em detrimento do econômico e mesmo do político. Os industriais portugueses clamam por desenvolvimento já há algum tempo. A revista Indústria portuguesa fora fundada em março de 1928. A feira de Amostras da Indústria Portuguesa realizara-se em 1929, a Grande Exposição Industrial Portuguesa ocorre em 1932/1933 e o I Congresso da Indústria, em 1933. Slogans propagandísticos da época rezam: “Portugueses, patriotas, preferi produtos portugueses!” ou “Só é bom português aquele que exige e prefere produtos portugueses”. Apesar do surto de crescimento, os rendimentos e os juros provenientes do capital colocado no estrangeiro encolhem, a cotação das exportações cai, as remessas dos imigrantes diminuem e o desemprego aumenta. O povo, entretanto, sente-se mais seguro e o ciclismo funciona como um ímã, atraindo a população para o sentimento comum do orgulho de ser português, sentimento este projetado nos atletas e por eles incorporado. Este redespertar da força da nacionalidade é estrategicamente abalizado e formatado pelo regime. As povoações disputam entre si a honra de serem colocadas no percurso das Voltas a Portugal e de “sediarem” as etapas das corridas.
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No Sporting (1933-1934)
E
m 1933, ano em que Hitler assume o poder na Alemanha, a fama nacional das vitórias de José Maria Nicolau (do Cartaxo) e Alfredo Trindade (de Valada) desencadeia em José Marquez uma saudade tão intensa do ciclismo que o seu antigo entusiasmo retorna, fazendo-o tomar a iniciativa de procurar um clube. Um dia, ao viajar para Lisboa, Marquez encontra-se com Alfredo Trindade. Durante o trajeto conversam, sobretudo, de corridas. E José Marquez confessa-lhe que voltaria de bom grado ao ciclismo profissional. Trindade dá-lhe uma resposta imediata e leva-o para o Sporting. José Marquez está com 23 anos. Em breve, exibe a Camisola Verde-Branca com o leão bordado. Neste clube, disputa várias competições, bem como as provas da 4ª e da 5ª Voltas a Portugal, em 1933 e em 1934. Na 4ª Volta a Portugal, em 1933, classifica-se em 8º lugar. Mas, em 1934, ao participar da disputa dos “100 quilómetros clássicos”, obtém o 2º lugar. Ainda em 1934, ao disputar as “24 horas do Porto”, corta a meta como vencedor. Desta vitória há uma foto em recorte de jornal com a seguinte legenda: “José Marquez, da equipa do Sporting, que venceu a corrida das 24 horas, no Porto [no Estádio do Lima]”.
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Participa ainda do “Campeonato de Portugal de Fundo, dos Independentes” e sagra-se campeão. Deste Campeonato, também há uma foto legendada, que informa: “José Marquês, do Sporting, acerca-se da meta de chegada, e ganha o Campeonato de Portugal de Fundo, dos Independentes”.
Ainda neste ano, vence igualmente o “Campeonato Nacional em estrada”: “José Marquês, o mais rápido dos nossos corredores contra-relógio, ganhou também o Campeonato Nacional em estrada”. Também é o vencedor da corrida em Sobral de Monte-Agraço. Diz o recorte de jornal: “Em Sobral de Monte Agraço, José Marquez, do Sporting C. P. venceu com brilho a prova velocipédica de terça-feira”. Mas, na 5ª Volta a Portugal, ainda em 1934, só consegue o 10º lugar. Desta 5ª Volta há uma foto, tirada em Coimbra, com o atleta fazendo um banho de pés com “Nallysal”. Já na época, a propaganda lança mão do potencial de exposição dos atletas.
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No Sporting (1933-1934) José Marquez é o primeiro à esquerda
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Sua participação na 5ª Volta a Portugal também é testemunhada por uma foto dos corredores na Serra da Estrela em 1934.
José Marquez subindo a Serra da Estrela durante a 5ª Volta a Portugal, em 1934
Desta mesma Volta, em 1934, duas fotos, uma tirada a caminho de Évora e outra a caminho de Bragança, mostram bem as condições em que se corria naquele tempo. 18
A caminho de Bragança
Apesar de algumas boas vitórias, a inexistência de boas colocações nas duas últimas Voltas faz José Marquez sentir a falta de interesse, a indiferença do clube, que está interessado em grandes campeões. 19
No Sporting (1933-1934)
A caminho de Évora
É mais um período difícil que se instaura na vida do ciclista. Chega mesmo, por um momento, a pensar em abandonar o clube e o desporto, mas, no fim, prevalece a imensa paixão pela bicicleta. Precisa, porém, de um clube onde se sinta acolhido, onde haja entrosamento entre ele e o team, o que não havia acontecido até então.
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Ouve de amigos que o Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) é um clube com o perfil que ele procura, um clube que trata com carinho e amizade seus atletas.
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
E
m 1935, com 25 anos, ao ser apresentado ao Clube Atlético Campo de Ourique, é realmente recebido de braços abertos e, de fato, o ambiente afetivo revela-se fundamental para o desenvolvimento das potencialidades de José Marquez. Como diz um texto de Alberto Freitas1, publicado em jornal, “é vestindo a camisola branca e vermelha que Marquez demonstra a sua alta classe de ciclista e todas as suas qualidades de autêntico atleta.”
E o jornal O Mensageiro do Ribatejo2 assim se refere ao atleta em 1935: “[...] José Marquês, o ciclista de formidáveis recursos que revolucionou a velocipedia nacional com suas médias quilométricas, que fizeram ruir estrondosamente alguns ‘records’ antigos”.
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Alberto Freitas foi um jornalista desportivo, um dos fundadores do Clube Nacional da Imprensa Desportiva. O mensageiro do Ribatejo foi um jornal de Vila Franca de Xira, criado em 1930 e extinto em 1941. Um jornal ligado ao Neorrealismo de Alves Redol.
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Como corredor do Clube Atlético Campo de Ourique, o ciclista obtém muitas vitórias entre várias corridas contra-relógio, em que era especialista, e também nos certames que lhe deram o título de “Campeão Nacional”, a saber: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16.
os “50 quilómetros clássicos”; os “100 quilómetros clássicos”; os 160 quilómetros da “Taça de Preparação Olímpica”; o “VIII Giro do Minho”; a corrida Coimbra-Tábua; o “Campeonato Distrital de Fundo”; a “II Volta dos Campões” na Figueira da Foz; a corrida Vila Moreira-Leiria-Vila Moreira; as “Doze voltas à Gafa” (Bombarral); as “Dez voltas à Covilhã”; o “Grande Circuito da Mealhada”; a “XIV prova Porto-Lisboa”; o “Circuito da Bairrada”; o “Campeonato Nacional de Fundo”; os “100 quilômetros contra-relógio”; a “VI Volta a Portugal”.
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A legenda de uma outra foto informa: “Os 50 quilómetros clássicos da U.V.P. – José Marquez, de Campo de Ourique, vencedor dos 50 quilómetros clássicos da U.V.P., com que foi inaugurada oficialmente a época do ciclismo”. Nos “50 quilômetros clássicos”, José Marquez não só é vencedor, como também bate o “record”, com o tempo de 1 hora 32 minutos e 50 segundos. A reportagem de Alberto Freitas no jornal diz: “Boa estreia. Marquez animou-se”. Logo em seguida, José Marquez participa dos “100 quilómetros clássicos” e classifica-se também em primeiro lugar (3h. e 2m.). Diz um jornal: “Depois duma corrida empolgante, José Marquês vence os 100 kms clássicos da U.V.P.”
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No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
A abertura da temporada ciclística é, assim, anunciada pelo jornal: “A nova época de ciclismo em estrada foi inaugurada ontem, sendo os ‘50 quilómetros clássicos da U.V.P.’ disputados por 112 corredores. Excelente vitória de José Marquês” (1h. e 32m. – anotação do atleta).
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Outra reportagem traz o seguinte título:“A partida para os 50km.da U.V.P.– Ao alto o vencedor da prova, José Marquês.” Em outra manchete, acompanhada de fotos, está escrito: Os 100 quilómetros da U.V.P. – Em cima: José Marquês, conduzido por um grupo de admiradores, oferece à objectiva do fotógrafo, o sorriso da vitória. Em baixo: o pelotão da frente subindo a Calçada de Carriche. Reconhem-se, no 1º plano, da esquerda para a direita: Trindade, Nicolau, Ildefonso, Felipe de Melo, Marques e Aguiar da Cunha. Ao fundo: João Gomes, Ladislau, Prudêncio e Valério.
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E ainda: “Os 100 quilómetros clássicos foram ganhos por José Marquez, do Campo de Ourique, que bateu na embalagem final um pelotão de nove corredores.”
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Em outro recorte de jornal, é informado que “José Marquez, do Campo de Ourique, ganhou brilhantemente os 100 quilómetros contra-relógio à média de 37,200” (no Campo Grande).
Na foto de baixo, José Marquez está posicionado no centro
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A vitória de José Marquez na prova de domingo merece ser analisada sob vários aspectos. Cumpre-nos estudar com maior amplitude, já pelo seu valor, já pelas conclusões a que se poderá chegar, a “performance” atlética do brioso corredor do Campo de Ourique e a forma inteligente como ele a conseguiu. Marquez foi, de facto, um tanto feliz no resultado do sorteio. A sua saída atrás de Trindade deu-lhe “moral”, o que numa prova “contrarelógio” é factor muito importante. Mas atribuir-se a proeza do novo “recordman” só a este facto é, quanto a nós, critério absolutamente errado. E senão vejamos: Enquanto Marquez perseguiu Trindade, isto é, desde a partida até Alhandra, o atleta do Campo de Ourique só conseguiu uma vantagem de dois minutos sobre o campeão nacional e um minuto sobre Nicolau. Todavia, quando Marquez terminou a prova, foi creditado com menos cinco minutos do que o segundo classificado, e essa vantagem só foi adquirida depois da desistência de Valada. Isso vem provar que a actuação de Marquez foi sempre brilhante, mesmo quando deixou de ter à sua frente um homem de classe por onde pudesse regular a marcha. E se considerarmos ainda que, no regresso, o vento soprava de frente, facilmente se poderá avaliar o valor da prova do rápido corredor “branco-encarnado”.
Na reportagem de jornal, escrita por Alberto Freitas e anteriormente mencionada, consta ainda que: A forma [do atleta José Marquez] era boa. E o jovem corredor registou novo êxito nos 100 quilómetros, em que triunfou em tempo “record” 3h. 2m. e 57s.: O nome de José Marquez começou, então, a ser admirado. Marquez era um campeão!
Depois, José Marquez disputa “os 160 quilómetros da ‘Taça de Preparação Olímpica’”, sobre a qual também há uma longa reportagem na revista
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Especificamente a respeito desta prova contra-relógio há um pequeno comentário, publicado em jornal, justamente, intitulado “Comentários à prova de 100 quilómetros contra-relógio”, que diz:
Stadium3, com uma colagem de várias fotos ao centro, nas páginas 8 e 9, com o longo título: Os 160 quilómetros da “Taça de Preparação Olímpica” foram ganhos por José Marquês, após uma prova formidável, de inteligência e serenidade, tendo o “record” sido batido por 5 minutos. – A equipa do Benfica, homogênea e integrada no verdadeiro espírito da corrida, venceu com indiscutível merecimento, conquistando definitivamente a Taça.
Segue o texto da reportagem:
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A corrida de domingo teve acentuado brilhantismo, mas ficou estragada em grande parte, por causa de um engano da guarda mais avançada da equipa do Sporting, depois do Cadaval. Até esse ponto, em que os três corredores da frente “leonina” se afastaram do percurso oficial, a luta do Sporting era mais contra o tempo da prova e pela vitória individual, do que propriamente contra as outras equipas concorrentes, devido a ser mais forte e homogênea. E o trio do Sporting ia correndo bem, naquela altura. Foi realmente pena que os corredores se enganassem. Mas é de notar que o facto se deu precisamente num desvio em que as estradas tinham placas indicativas da sua sinalização. Depois do engano, as coisas mudaram por completo. José Marquês ficou, desde logo, vencedor incontestado da corrida, visto que deixara já a equipa, em busca de uma posição individual que correspondesse ao seu valor, apenas levando na sua roda Militão Antunes. E a equipa dos “vermelhos” passou a ter as melhores probabilidades de vitória na galopada final, por isso que estava a correr bem e continuava com os seus corredores de maior categoria – Nicolau, Aguiar da Cunha e Aguiar Martins. Entre eles – Marquês a acelerar a marcha e o Benfica a manter a mesma harmonia – destacou-se ainda um outro
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Stadium: revista portuguesa de todos os sports. Lisboa, 1932-1951. Direção: Carlos da Silveira et al. Edição: J. D. Santos. “O primeiro número da Stadium foi lançado numa quarta-feira, em 17 de Fevereiro de 1932, apresentando no cabeçalho o subtítulo de ‘Revista Portuguesa de Todos os Sports’ e custando um escudo. Sob direcção de Carlos da Silveira e propriedade da Sociedade Stadium, Lda., a nova publicação semanal (saía à quarta-feira, mudando para a segunda-feira no ano seguinte) apresentava uma elevada qualidade gráfica, quer ao nível do design quer da qualidade do papel e da impressão. Foi sob todos os aspectos uma revista inovadora, não só para o jornalismo desportivo, mas para a imprensa em geral. O seu sucesso seria marcante, levando mesmo em 1938 a adoptar, como subtítulo, a frase: ‘O Maior Semanário Desportivo da Península’”. In: PINHEIRO, Francisco. “Imprensa desportiva portuguesa: do nascimento à consolidação (1893-1945)”. Ler História 49, 2005. p. 171-190. Ou: http://www.ceis20.uc.pt/ ceis20/site/UserFiles/Image/FranciscoPinheiroLerHistoria49.pdf, p. 176. Acesso: 15/11/2011.
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corredor – Ezequiel. Abandonado logicamente pelos companheiros, num momento em que a máquina principiara a falhar, o antigo e valoroso estradista “leonino” desenvolveu um esforço que teve muito de admirável, logo que soube do engano da equipe. Entre Lisboa e Carregado De Lisboa ao Carregado, a prova não passou dum bom arranco das melhores equipas, para o esforço de toda a prova. Todas elas se lançaram bem, de princípio, mas encontrando logo pela frente os principais obstáculos da corrida – alguma chuva e uma ventania rija que se prolongou até a descida para o Cadaval. Neste percurso houve, porém, uma equipa desmantelada – a do Belenenses. António Leal atrasou-se antes da Póvoa e não voltou a tomar contacto com os seus camaradas de clube. Até o Carregado, não pudemos encontrar a equipa leonina. Disseramnos que o Campo de Ourique ganhara um minuto de avanço, ao Sporting, mas temos a impressão de que assim não era. Os corredores do Campo de Ourique passaram ali às 9h. e 40m. A passagem dos restantes fez-se como segue: 9h. 47m., Rio de Janeiro (Ladislau, Alvito e Afonso Lopes); 9h. 51m., Belenenses (Mealha e Rosa); 9h. 55m., Benfica (Nicolau, Aguiar da Cunha, Aguiar Martins e Noé); 9h. 56m., Calção (Rio de Janeiro); 9h. 8m., António Leal (Belenenses). Calção veio a desistir pouco depois em Alenquer. Nas ladeiras para o Cercal A parte mais penosa foi, como no ano findo, a que se correu de Alenquer para o Cercal. Caiu ainda chuva. E à chuva e ao vento, juntou-se a baixa temperatura. Neste troço de maior responsabilidade acentuou-se, deste modo, a desagregação das equipas – o Benfica descolou Noé de Almeida, e o Campo de Ourique deixou Nunes de Almeida para trás. Apenas o “cinco” do Sporting se manteve intacto. Um pouco antes do Cercal, levava meio minuto de avanço em relação ao Campo de Ourique. As equipas mantiveram-se, assim, até o Cadaval. A corrida aumentou, porém, de velocidade, quando a caravana cortou para aquela vila, já a descer, ou com menos vento, ou com o vento pelas costas. Depois do Cadaval, é que a luta pela classificação individual entrou a desenhar-se. A um “esticão” mais forte, a subir, correspondeu o atraso de Ezequiel; o ritmo mais veloz do vencedor recuperou José Braz. Ladislau Parreira principiou a série dos “azares”, e o Rio de Janeiro ficou somente com dois homens na frente. Ildefonso Rodrigues teve depois um “furo” e ficou com a máquina desafinada. No resto da prova, andou sempre com pouca confiança e só melhorou para o fim. Antes e depois do engano No desvio que há para Pragança e que leva para a Serra de Ota, Trindade, Felipe de Melo e Joaquim Fernandes seguiram pela frente,
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em vez de cortarem à esquerda. Nós íamos na esteira dos corredores e tivemos a impressão do engano. Dissemos das nossas dúvidas aos tripulantes do carro da Polícia, mas sem resultado. Os corredores continuaram. Inquirimos, no entanto, de algum público, do destino da estrada. Quando tivemos a certeza do engano, avisamos os corredores, mas não lhes dissemos para voltarem, sem falarmos com os agentes da polícia. Chegou, entretanto, o carro de apoio a fazer sinal aos rapazes. Mas era já bastante tarde, porque estavam andados cerca de 5 quilómetros. Felipe de Melo e Joaquim Fernandes viraram rapidamente de rumo, com um belo espírito de sacrifício. Alfredo Trindade, perdida em absoluto a sua “chance” pessoal, foi menos sereno – e desistiu. O resto da prova ficou estragado – para o Sporting, que veio ainda a ter outro “azar”, com a queda de Felipe de Melo, que o forçou a desistir já perto de Lisboa. José Marquês animou mais ainda, a caminho de Torres Vedras. E o Benfica pensou em não perder a “afinação” de movimentos em que marchava. Em Torres Vedras Registemos, entretanto, a ordem de passagem por Torres Vedras: 1º Ezequiel, cerca das 11h. 58m.; 2º José Marquês, um pouco antes do meio-dia; 3º Militão Antunes, com pequena diferença; às 12, Ildefonso Rodrigues; 12h. 03m., José Braz; 12h. 07m., Felipe de Melo e Joaquim Fernandes, em grande andamento; 12h. 12m., Nunes de Almeida; 12h. 16m., Alvito e Afonso Lopes; 12h. 16m. 30s., Aguiar da Cunha, Nicolau e Aguiar Martins. Ladislau Parreira deve ter passado com grande atraso. De Torres para Lisboa A equipa do Benfica apanhou o “resto” da equipa do Rio de Janeiro perto do Carvalhal; e o grupo formado veio a apanhar Nunes de Almeida na subida para o Turcifal. Ficaram, assim, seis corredores, que lutaram grandemente para se desembaraçarem uns dos outros. Alvito e Afonso Lopes chegaram mesmo à ofensiva... O Benfica respondeu mais tarde. Afonso Lopes e Nunes de Almeida cederam; e José Braz veio a ser apanhado. Destacou-se, todavia, na embalagem sobre a meta. No final do percurso, é também de notar o excelente esforço de José Marquês; a recuperação de Ezequiel, depois da subida da Piteira; a galopada valorosa de Joaquim Fernandes e Felipe de Melo; e a dedicação de Ildefonso Rodrigues. José Marquês voltou a ser o grande corredor do ano passado. Sobre o terreno plano que se segue a Loures, veio quase sempre à média de 35 quilómetros. E a subida da Calçada de Carriche fê-la em magnífica disposição. A ordem de chegada e as classificações 13h. 30m. 21s., José Marquês; 13h. 32m. 11s., Ezequiel; 3h. 39m. 44s., Joaquim Fernandes; 13h. 44m. 41s., Ildefonso; 13h. 51m. 57s., Militão 30
Por baixo da colagem de fotos, referente a esta reportagem, há ainda a seguinte legenda explicativa: Do alto e da esquerda para a direita: A equipa do Sporting. – O momento em que Alfredo Trindade, verificado o engano do percurso, resolveu abandonar. – A equipa do “Rio de Janeiro” com Ladislau Parreira – o nº 13 nesta corrida − à frente. – A equipa do Campo de Ourique ainda unida, à passagem da ponte da Couraça, perto do Carregado. – Trindade e Filipe de Melo, atrasados, acabam de constatar que se enganaram no percurso. – Marquês, já assegurado o triunfo, marcha satisfeito. – Os homens do Benfica, sempre unidos, ultrapassaram já adversários de equipas que caminhavam mais à frente. – O “trio” vencedor, Aguiar Martins, Aguiar da Cunha e Nicolau, recebe, no Campo Grande, os aplausos dos seus admiradores. – Marquês ao cortar a meta, e o mesmo e José Braz, pouco antes de entrarem em Torres Vedras.
Em junho, José Marquez participa da corrida Coimbra-Tábua, classificando-se em 6º lugar. E, no dia 16 do mesmo mês, obtém a vitória no “Campeonato Distrital de Fundo”, fazendo os 100 quilômetros em 3h., 3m. e 42s.
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Antunes; 13h. 52m. 31s., José Braz, Nicolau, Aguiar da Cunha, Aguiar Martins e Alvito. Chegaram depois: 11º, Afonso Lopes; 12º, Nunes de Almeida; 13º, Ladislau; 14º, António Rosa (2º) [sic]. Pela ordem dos “tempos” feitos, a classificação ficou como segue: 1º, José Marquês (Campo de Ourique), 4 h. 55m. 21s.; 2º, Ezequiel Damião Lino (S.C.P.), 5h. 02m. 11s.; 3º, José Maria Nicolau (S.L.B.), 5h. 02m. 31s.; 4º, Adelino Aguiar da Cunha (S.L.B.), mesmo tempo; 5º, Joaquim Aguiar Martins (S.L.B.), mesmo tempo; 6º, Joaquim Fernandes (S.C.P.), 5h. 09m. 44s.; 7º, Francisco Simões Alvito (U.C.R.J.), 5h. 12m. 31s.; 8º, Ildefonso Rodrigues (S.C.P.), 5h. 14m. 41s.; 9º Militão Antunes (Campo de Ourique), 5h. 16m. 57s.; 10º, José Braz (Campo de Ourique), 5h. 17m. 3s.; 11º, Afonso Lopes (Rio de Janeiro), 5h. 18m. 14s.; 12º, António Rosa (Belenenses), 5h. 18m. 16s.; 13º, Ladislau Parreira (Rio de Janeiro), 5h. 22m. 41s.; 14º, Nunes de Almeida (C. Ourique), 5h. 23m. 18s. Média do vencedor: 32kms. 503. [...]
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Logo a seguir, José Marquez toma parte na “VII Volta dos Campões na Figueira da Foz” ou nos “50 quilómetros da Figueira da Foz”, obtendo o 1º lugar, em 1h. e 40m. A notícia desta vitória aparece estampada em uma reportagem jornalística, com o título:“A VII VOLTA DOS CAMPEÕES foi ganha brilhantemente 32
Assim é comentado o desempenho do ciclista nesta corrida: Dissemos na nossa crónica de segunda-feira que a VII Volta dos Campeões tinha sido a mais brilhante de todas as provas realizadas na Figueira da Foz. Devemos acrescentar hoje que excedeu em tudo as previsões mais optimistas. Foi disputada com extraordinário entusiasmo, não deixando nunca os corredores de lutar com brio, facto pouco vulgar em provas de circuito repetido, em que os concorrentes se limitam a ganhar os prémios de passagem, para depois fazerem o resto do percurso em marcha moderada. No domingo, após as embalagens na meta, o pelotão manteve sempre uma velocidade razoável. A “performance” obtida pelos corredores é digna de registo, pois o percurso é muito irregular e de mau piso. Iniciar uma prova de 92 quilómetros fazendo a primeira volta em 24m. 40s., manter essa marcha até meio da prova e depois aumentar progressivamente a velocidade a ponto de cobrir as duas últimas voltas em 22m. 25s. é proeza pouco vulgar entre nós. Desportivamente, o resultado final foi justo, traduzindo fielmente a actuação dos concorrentes. Houve corredores que souberam aplicar com inteligência a tática que melhor se coadunava com as características da prova, conseguindo assim manobrar os adversários e batê-los sem defesa possível. José Marquez era, à partida, o grande favorito da prova. Tinha a seu favor a reduzida quilometragem da prova.A ligeira aragem que soprava também não o impedia de desenvolver a multiplicação normal.
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por José Marquez que bateu o ‘record’ da prova. O valor da VII Volta dos Campeões e o mérito da vitória de Marquez”.
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No entanto, a prudência aconselhava Marquez a experimentar as suas possibilidades e a dos adversários. Logo na primeira volta, na rampa a seguir à estrada de Coimbra, o atleta do Campo de Ourique arrancou oportunamente, isolando-se na companhia de Vassalo de Miranda e Rodrigues Silva. Reconheceu que se lhe era possível fugir no troço de percurso menos favorável, a subir e com os adversários ainda frescos, muito melhor o faria numa recta ou numa descida. Adoptou, então, a tática de expectativa sem nunca abandonar a frente do pelotão e impondo-lhe, ao mesmo tempo, o seu “passo” rijo e uniforme. Era esta a forma de melhor responder a todos os ataques que pudessem surgir. Livrava-se, assim, da poeira e de algum “encosto” dos adversários, diminuindo ao mínimo o perigo de quedas. Além disso, podia jogar a cartada decisiva quando lhe aprouvesse. Bem o pensou e bem o fez. O campeão nacional, ao terminar a sexta volta, isolou-se no mesmo sítio onde o fizera na primeira, empregou-se a fundo e ganhou destacado. Se tem guardado o ataque para a embalagem final a adversidade podê-lo-ia perseguir, não lhe deixando empregar as suas qualidades de “sprinter”. Se tem prosseguido na fuga inicial podia ser mal sucedido, pois a prova era violenta. Mas, atacando na altura em que o fez, dificilmente seria batido. Marquez obteve no domingo dois triunfos: a vitória na prova e o êxito na tática adoptada. Houve quem tentasse contestar o mérito da fuga de Marquez, João Rainha e Martins de Aguiar, alegando que o avanço obtido por estes três homens fora devido ao facto de terem fugido ao transpor uma passagem de nível, que se fechara pouco depois para o segundo pelotão. Devemos dizer que Marquez fugiu normalmente, atacando a subir e “descolando” os adversários mercê da oportunidade do seu ataque. Quando chegou à passagem de nível já ia bastante destacado. Houve uma apatia grande entre os homens do segundo grupo, que não reagiram imediatamente, por irem mal colocados, entre homens de “classe” inferior. E então surgiu o inevitável: José Marquez atacou. Seguiram-no os corredores que marchavam à sua retaguarda. Estes três homens, entreajudando-se admiravelmente, iam ganhando sucessivos minutos sobre um pelotão desorganizado e já conformado com a classificação. Numa prova em circuito repetido os atletas devem ter o máximo cuidado na escolha do lugar em que seguem.
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Um homem de “classe” não deve ir “colado” a um corredor de categoria medíocre nem tampouco na cauda do pelotão para não lhe acontecer o mesmo que aconteceu no domingo a Trindade e Contente. As estradas estreitas, um avultado número de corredores e um público por vezes entusiasta em demasia dificultam a perseguição aos fugitivos. Os resultados de domingo são concludentes. Nas duas fugas só apareceram os homens que nunca largaram o favorito de vista. Martins de Aguiar, João Rainha, Rodrigues Silva, Felipe de Melo e Aguiar da Cunha cooperaram em quase todos os ataques. Os dois últimos não figuraram no grupo que se isolou à sexta volta por se lhes terem avariado as máquinas. Aguiar da Cunha, tendo em conta a sua boa prova, seria até um adversário perigoso para Marquez. Os homens de Carcavelos souberam correr com verdadeiro espírito de equipa. Martins de Aguiar tinha conseguido acompanhar os corredores da frente. Felipe de Melo e Rodrigues Silva ficaram em companhia de um núcleo de homens de “classe”, como Nicolau, Trindade, Joaquim Fernandes, Joaquim de Sousa e o figueirense Barbosa, sempre fogoso na sua terra. Felipe de Melo possui boa embalagem final, mas o seu companheiro de club é pouco rápido. Era necessário salvá-lo do ataque dos adversários para classificar a equipa. Havia dois recursos: ou fugirem ambos ao pelotão ou resguardar Rodrigues Silva na embalagem final. Rebocar o grupo dos atrasados seria perigoso. Felipe ainda tentou isolar-se com Rodrigues Silva, “demarrando” três vezes, mas como este corredor não o acompanhava, foi até à recta final, arrancou longe da meta trazendo-o na sua esteira e, por fim, ainda teve fôlego para resistir ao ataque de Joaquim de Sousa. É interessante pôr em confronto a dedicação de certos atletas com o desinteresse de outros. Alguns corredores esquecem-se das suas responsabilidades perante a colectividade que representam, comprometendo classificações e inutilizando o esforço dos companheiros de club. Na Figueira da Foz, enquanto Aguiar da Cunha, Cabrita Mealha, Ildefonso Rodrigues, Domingos Leal e toda a equipa da Parede tentavam vencer a adversidade, prosseguindo na prova a fim de classificar o seu club, e quando Noé de Almeida lastimava não poder continuar por estar bastante ferido, vimos um atleta do Benfica abandonar a luta só pelo facto de seguir um pouco atrasado. É preciso que os corredores saibam corresponder à honra que os seus clubs lhes fazem incluindo-os nas equipas respectivas. Devem, por isso, lutar com brio até o final, para se tornarem dignos da confiança dos dirigentes e não atraiçoarem as esperanças dos seus companheiros.
Na corrida Vila Moreira-Leiria-Vila Moreira, José Marquez classifica-se em 3º lugar. Nas “Doze voltas à Gafa”, fica em 10º lugar. Nas “Dez voltas à Covilhã”, fica em 2º lugar. No “Grande Circuito da Mealhada”, também alcança o 2º lugar. Na corrida Porto-Lisboa, fica classificado em 7º lugar. Porém, no “Circuito da Bairrada”, chega ao 1º lugar.
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No “Campeonato Nacional de Fundo”, realizado em 21 de julho, conforme reportagem, “alcança a mais bela vitória da temporada, conquistando a primeira colocação, ao cobrir os 100 quilómetros em 3h. 4m. e 11s.” Em outra reportagem, assinada por Domingos Moreira4, impressa em letras azuis, com o título “Em competição com Nicolau e Trindade – José Marquez ganhou formidavelmente o campionato nacional. Uma grande prova”, publicada na revista desportiva Stadium, nas páginas centrais 8 e 9, e ilustrada por uma colagem de 14 fotos, lê-se o seguinte: Mudou de corpo a camisola verde-rubra de campião nacional. Desta vez, como há dois anos não sucedia, teve permanência breve no tronco que ornava. Sem motivos de reparo, porque a troca foi absolutamente lógica, e apurados os “tempos”, com a maior parcela de justiça,Trindade largou o símbolo de supremacia máxima do pedal com tanto brilhantismo como o ano passado havia ganho. Substitui-o outro homem cujo corpo não está desafeito a tão alto galardão. Era, dentre a plêiade de candidatos ao título, um dos que maior número de probabilidades reunia, e as provas já prestadas esta época guindavam-no à altura de merecer a vitória, levando tacitamente os seus adversários a aceitá-la sem rebuço. Para maior brilhantismo, do triunfo de um, e mais rara beleza da derrota de outro, a prova foi limpa, sem os vulgares acidentes a interporem-se ao esforço dos estradistas, dando-nos assim a verdadeira luta, de igual para igual, em que não há beneficiados nem lesados, mas sim um bom vencedor e um bom vencido. José Marquês, incontestavelmente o nosso melhor especialista na distância, viu coroado merecidamente o trabalho metódico de bastante 4
Domingos Lança Moreira foi um jornalista desportivo que, entre outros, esteve à frente da direção da revista Stadium, de outubro de 1940 a agosto de 1941.
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tempo, com a conquista do Campeonato Nacional, que, certamente, saberá honrar no decurso da meia época que ainda lhe falta transcorrer. Destituído Trindade, e afastado Nicolau, era Marquês quem mais de direito – se se pode exigir direito num resultado desportivo – merecia a ambicionada camisola. E a lógica, não se afastou do que era lógico... De vinte e três homens que a inscrição acusava, partiram dezanove, por ausência de Valério de Sousa (Lisboa) e dos representantes do Norte, que numa atitude que preferimos não comentar, tão falha de bom senso e consideração ela se nos apresenta, ficaram no Porto à espera dos resultados através dos “placards”. Certamente que os ciclistas não terão culpa dependentes que estão de resoluções e de vontades mais poderosas, mas não nos parece que assim, dentro desta maneira de pensar e de agir, o ciclismo nortenho possa progredir e nivelar-se ao sudista [sulista]. Dois anos seguidos, se não estamos em falta, que o Porto se alheia da competição máxima do ciclismo nacional. Seja pelo que for, não podemos concordar com semelhante procedimento, intérprete de um desinteresse pouco vulgar nos portuenses, sempre decididamente dispostos a comungar em tudo quanto diga respeito ao progresso e à supremacia da sua terra, que é afinal o torrão em que nascemos. Que o bom senso entre nos espíritos alvoroçados. Manuel Neves, representante sadino, foi, segundo o sorteio, o primeiro a abalar. Matematicamente, de dois em dois minutos, largava um candidato ao título, cheio de esperanças, replecto de ilusões. Residia porém a expectativa nos homens considerados favoritos, e que o sorteio quase acasalara, para tornar talvez o duelo mais vivo, mais emocionante, intransigente e incerto. Aguiar da Cunha, o nº 12, Trindade, o nº 15, Nicolau, Ezequiel e Ildefonso Rodrigues, ocupando os números a seguir, César Luiz no 20º e Marquês no 22º, formavam um conjunto, tão unido e tão mutuamente temido, que dir-se-ia ter sido preparado previamente para dar mais realce, beleza intensiva, espetacular e representativa ao esforço máximo dos valorosos estadistas. Na Avenida Alferes Malheiro, estendendo-se pela Portela, até quase Sacavém, o caminho em pedra solta, constitui um atraso para os corredores, que os mais ousados galgavam sofregamente. A primeira parte da corrida é representada pela perseguição de Ezequiel a Nicolau e deste a Trindade. O campeão de 1934, num andamento vivo, ritmado, foge com entusiasmo atrás de Contente, que antes de Alverca está apanhado. Pouco mais ou menos até esta vila, entre os três homens – Ezequiel, Nicolau e Trindade – as diferenças são quase as mesmas. Somente o “vermelho”, com uma multiplicação grande, diminue perto de um
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minuto em relação ao seu rival de sempre, que abrandara num ligeiro período de recuperação. Entretanto à frente e na retaguarda, dois homens, suportando e vencendo melhor que os outros a desvantagem do vento, iam ganhando progressivamente terreno. Eram Cabrita Mealha, o número 8, e José Marquês, o número 22. Este não teve dificuldades em deixar atrás de si o leiriense José A. Bruno, como não levou muito tempo a lobrigar César Luiz, num dia pouco certo. Vila Franca de Xira passou como um relâmpago aos nossos olhos. Mealha, magnificamente embalado, num ritmo que só lhe observamos na segunda metade da V Volta a Portugal, fez-nos pensar, ao confrontar o relógio, que se não abrandasse seria um obstáculo com que os lisboetas não contavam. Nos seis quilómetros que separam a Sevilha portuguesa do Carregado, a corrida tem uma fase decisiva. Marquês galopando vitoriosamente, reduziu já oito minutos dos seus mais directos contricantes. A média oscila entre 32 e 35, numa regularidade tanto mais impressionante quanto é certo que o calor era um adversário algo imbatível... Nicolau furou mas prontamente reparou a avaria, que mais adiante se repetiu. Ezequiel avizinhou-se, distinguiu o benfiquense, apertou ainda mais e alcançou-o. Mas o “vermelho” não cedeu logo; embora com a bicicleta avariada sustentou luta com o sportinguista e no Carregado mudou de máquina, mas Ezequiel não mais se deixou ultrapassar, antes se desembaraçou, pouco depois do controle, estabelecido adiante de Vila Nova da Rainha, onde o primeiro a voltar fora Manuel Neves, seguido imediatamente de Manuel Dias, que depois o ultrapassou. Nicolau, com um atraso considerável, e confiado antes da partida em se reapossar do título, como nos deixara adivinhar, sucumbiu moralmente, abandonando. Paramos no Carregado, onde Marquês já ganhara a Trindade dez minutos, dos catorze de diferença com que saíra de Lisboa. Até o desvio para o Cabeço da Rosa, têm já poucas probabilidades de êxito, segundo os melhores cálculos – todos sujeitos a completo desmoronamento – Aguiar da Cunha, Ezequiel, Ildefonso. César Luiz, sem conseguir acertar o passo, vê-se de companhia com outros, e na altura de atacar a dura encosta, toma lugar no automóvel de apoio. A meio da ladeira o setubalense Manuel Neves, atacado por caimbras e indisposto, desiste, vindo no nosso carro. Na serra do Trancão, Marquês distinguiu a camisola vermelha de Aguiar da Cunha, instantaneamente porém. O campo ouriquense deu neste momento o esticão máximo, em evidente procura de Trindade, sem dúvida o seu ponto de mira. Mas o valadense não se deixou apanhar, galgou a subida de Carriche e entrou no Estádio onde o esperava uma surpresa. Cabrita Mealha, confirmando as 38
Uma outra reportagem de página inteira, encabeçada pelo título “Em competição com Nicolau e Trindade – José Marquez ganhou formidavelmente o campionato nacional. A história dos 100kms do Campionato Nacional de Ciclismo”, é ilustrada por 14 fotos, com as seguintes legendas explicativas: [Foto]1) Mealha, Marquês e Trindade, os heróis da prova, depois da corrida. 2) Marquês em plena carreira e 3) ao chegar ao Estádio em vencedor, 4) 5) e 6) Nicolau inicia as voltas à pista, completa-as e na ida para Vila Nova da Rainha de onde não voltou. 7), 8) e 9) Cenas idênticas às anteriores, mas com Trindade no protagonista. Iniciando a corrida à ida e à volta. 10) À passagem de Manel Dias, do Sporting, no Carregado. 11) Uma parte, da assistência no Estádio do Lumiar. 12) Ezequiel passa no Carregado. 13) Rodrigues da Silva, do Carcavelos, no regresso. 14) Um friso de gentis e mimosas 39
No Clube Atlético Campo de Ourique (CACO) (1935-1936)
nossas previsões, havia ocupado o primeiro lugar, pois fizera 3 horas, 4 minutos e 36 segundos, ao passo que Trindade se quedara em 3, 5 e 13. O título estava no momento no Algarve, apenas restando aos lisboetas a esperança em Marquês, que sabíamos vir a superiorizar-se a Mealha, salvo qualquer contratempo. E assim foi de facto. O “recordman” dos 100 quilómetros contra-relógio surgiu no Estádio como um meteoro, e como um meteoro deu as voltas regulamentares. O público ficou suspenso da voz potente do alto falante, e este anunciou: José Marquês, 3 horas, 4 minutos e 11 segundos. Por uns escassos 25 segundos, o título ficara na capital, restando ao Algarve a consolação de por duas vezes já, a primeira em 1933, e agora, ter estado à beira de uma retumbante vitória. Classificação: 1º, José Marquês (campião de Portugal), do C.A.C.O., 3h. 4m. 11s.; 2º, Cabrita Mealha, Louletano, 3h. 4m. 36s.; 3º, Alfredo Trindade, Velo Club, 3h. 5m. 13s.; 4º, Ezequiel Lino, Sporting, 3h. 9m. 30s.; 5º, Ildefonso Rodrigues, Sporting, 3h. 10m. 33s.; 6º, Rodrigues da Silva, Carcavelos, 3h. 11m. 58s.; 7º, Aguiar da Cunha, Benfica, 3h. 18m. 25s.; 8º, Manuel Dias, Sporting, 3h. 20m. 40s.; 9º, Castelão Romão, Benfica, 3h. 20m. 50s.; 10º, José Anicete Bruno, Leiria, 3h. 21m. 22s.; 11º, Ladislau Parreira, Sporting, 3h. 21m. 40s.; 12º, Eugénio Martins, Campo de Ourique, 3h. 28m. 25s.; 13º, João Rainha, Campo de Ourique, 3h. 29m. 9s.; 14º, José Galvão, Louletano, 3h. 32m. 39s.; 15º, João Silva,Vitória de Setúbal, 3h. 36m. 17s. Desistiram José Maria Nicolau, César Luiz, António Contente e Manuel Jesus Neves.
carregadenses, entusiastas do ciclismo, cujos sorrisos frescos e encantadores foram um bálsamo para quem acompanhou a prova sob a aragem excessivamente abrasadora do último domingo.
Nos “100 quilómetros contra-relógio”, José Marquez também obtém o 1º lugar, com 2h. 42m e 12s. Conforme notícia publicada em jornal, “nos 100 quilómetros contra-relógio, Marquez realizou uma prova fantástica, fazendo o percurso em 2h. 42m. 12s., revelando-se o nosso maior especialista deste género de corrida”.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
E, em outra reportagem, informa-se: Os 100 quilómetros contra-relógio – José Marquez, o valoroso corredor que se está afirmando brilhantemente à frente dos nossos melhores “ases”, entra na meta, fresco e sorridente após a magnífica prova que estabelece um dos mais interessantes “records” nacionais.
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Na VI Volta a Portugal
C
onforme recorte de jornal, Depois, foi a partida para a 6ª Volta a Portugal. Foi esta corrida que popularizou o nome de José Marquez, a prova que o consagrou definitivamente como um grande campeão e como “o melhor ciclista português”.
Nesta VI Volta a Portugal, iniciada em agosto de 1935, José Marquez é o “vencedor moral”, tal como afirmado no jornal O mensageiro do Ribatejo e num postal de M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio, dois admiradores de José Marquez, ou ainda é o “glorioso vencido”, nas palavras do jornalista Alberto Freitas. Diz O mensageiro do Ribatejo: [...] E Marquês, o vencedor moral da “VI Volta a Portugal” em bicicleta, que chegou ao fim coroado com a auréola de grande vencido, despede-se de mim com seu sorriso habitual aquele sorriso que tanta vez o acompanha na vitória. [...]
Dizem os admiradores no postal, mais adiante transcrito na íntegra: Amigo José Marquez [...] Perdeste a Camisola Amarela, devido à má fé do seu novo possuidor, mas em contra-partida, ganhaste-a com leal luta e defendeste-a sempre
lado a lado dos teus mais perigosos adversários, sem te encobrires com a poeira das estradas. És verdadeiramente fidalgo! [...]
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Diz Alberto Freitas: José Marquez, o glorioso vencido da 6ªVolta a Portugal, é um corredor que deixa bem vincado o seu nome na grande prova. O brioso ciclista do Club Atlético Campo de Ourique assinalou a sua passagem pela competição deste ano por uma forma bastante brilhante, digna dum campeão de verdade. José Marquez chegou a Lisboa vencido? Na realidade – sim. Mas pode classificar-se de vencido um corredor que se comportou como José Marquez, um homem que animou a prova desde a partida à chegada, um atleta que demonstrou tanto brio, tanto espírito desportivo, tanta abnegação e tão grande valor? José Marquez é um glorioso vencido, mas é, ao mesmo tempo, um vencedor – porque a sua prova na 6ª Volta a Portugal lhe dá direito a esse título.
Oficialmente, José Marquez chegou em 2º lugar, mas tudo leva a crer que, não fosse a aguda crise de furunculose que lhe atacou braços e pernas no percurso Portalegre-Fundão-Viseu-Pedras Salgadas, teria obtido a 1ª classificação. José Marquez está com 26 anos, acabados de fazer em 8 de junho. Sobre a VI Volta a Portugal, há, no precioso cofre azul e no álbum, várias fotos legendadas e recortes de reportagens. O (difícil) ordenamento dos recortes e das fotos permitiu refazer o percurso aproximado da Volta, bem como particularizar as seguintes 15 etapas: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.
Lisboa – Montemor-o-Novo Montemor-o-Novo – Évora Évora – Loulé Loulé – Tavira Tavira – Faro Faro – Beja Beja – Portalegre Portalegre – Fundão
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Fundão – Viseu Viseu – Pedras Salgadas Pedras Salgadas – Guimarães Guimarães-Porto Porto-Ovar Ovar-Curia Curia-Lisboa
Na VI Volta a Portugal
9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
Trajetória aproximada da 6ª Volta a Portugal em bicicleta
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Sobre a primeira etapa, fica-se sabendo que, tendo ultrapassado Setúbal, “o valoroso estradista José Marquês atravessa, velozmente, Vendas Novas”, a caminho da meta em Montemor-o-Novo. E a 1ª etapa, Lisboa – Montemor-o-Novo, é vencida por José Marquez. É ele o primeiro “Camisola Amarela” desta Volta.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Noticia uma reportagem que, “executando teatralmente o golpe mais fulminante das Voltas a Portugal, José Marquês envergou a camisola amarela. Um ‘sprint’ de 40 quilómetros após 90 de velocidade alta.”
Também na revista Stadium de 28 de agosto de 1935, lê-se: “Vencedor fulminante da primeira etapa da VI Volta a Portugal, José Marquês, ao envergar em Montemor-o-Novo a camisola amarela de favorito, vê realizado um dos maiores sonhos de sua vida!” 44
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Outra notícia informa: “José Marquês corta a meta no Estádio 1º de Maio, em Montemor-o-Novo, vencendo, assim, a primeira etapa da ‘Volta’.”
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José Marquez recebe uma taça pela vitória em Montemor-o-Novo
Em Montemor-o-Novo, José Marquez recebe a primeira taça da 6ª Volta a Portugal, em 1935. Uma outra capa da revista Stadium também estampa as seguintes informações: Confirmando-se como o nosso melhor ciclista da actualidade, José Marquês tem sido uma revelação brilhante excedendo as expectativas com as ruidosas marcas dos seus resultados. A nossa capa foca admiravelmente a linha de elegante corredor do jovem elemento do Campo de Ourique.
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Uma foto de jornal mostra “José Marquês, o favorito da ‘VI Volta’, mergulhando os pés num reconfortante banho de ‘Nallysal’.”
Em um recorte de jornal com o título “José Marquez, um dos grandes favoritos”, lê-se: O vencedor da primeira etapa da VI Volta a Portugal é um nome que ultimamente tem alcançado notável popularidade. Corredor voluntarioso, rápido, bom tipo de atleta, José Marquês tem realizado uma época brilhantíssima, impondo-se como um dos melhores velocipedistas portugueses. Em quase todas as provas da presente época, José Marquez tem obtido os melhores resultados, elevando bem alto as cores do Club Atlético Campo de Ourique. A tal ponto José Marquez se tem distinguido – que o seu nome foi logo incluído entre os dos favoritos da VI Volta a Portugal. Excelente “sprinter”, esta qualidade tem-lhe servido várias vezes para conquistar vitórias magníficas; entre os estradistas portugueses José Marquez deve ser hoje o corredor mais rápido. Contudo, José Marquez não é só um “sprinter”, é também um corredor resistente,
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de músculos poderosos, um homem com a “endurance” necessária aos estradistas, que é capaz de adoptar um “passo” duro e mantê-lo ou acompanhar o mais áspero andamento imposto por um adversário. José Marquez tem 25 anos, pois nasceu em Vila Chã de Ourique a 8 de junho de 1910. Não é um nome novo na Volta a Portugal; já duas vezes participou na grande competição obtendo lugares interessantes. Assim, na IV Volta terminou no oitavo posto; na corrida de 1934 baixou dois lugares. Em ambas as provas José Marquez vestiu o “maillot” verde-branco do Sporting. Este ano o valoroso estradista abandonou a colectividade leonina, ingressando no Club Atlético de Campo de Ourique. No seu novo club, com a sua nova camisola branca riscada de vermelho, José Marquez entrou com o pé direito. Preparado cuidadosamente, em condições físicas excelentes e um notável aperfeiçoamento técnico, José Marquez começou a dar que falar. Colecionou vitórias e resultados honrosos. O seu “maillot” passou muitas vezes triunfante a linha branca da chegada. O seu nome foi ganhando popularidade. Em Março alcançou a primeira grande vitória, batendo o “Record” dos 50 quilómetros clássicos, no tempo de 1h. 32m. 50s. Não ficou por aqui. No mês seguinte Marquez corre os 100 quilómetros e bateu o “record”: 3h. 2m. 57s. Estes triunfos magníficos espevitaram o seu brio de atleta e José Marquez não se contentou com aquelas duas lindas vitórias. Participou nos 100 quilómetros contra-relógio e realizou o tempo fantástico de 2h. 42m 12s. Estas três excelentes vitórias seriam suficientes para consagrar um corredor; mas José Marquez continuou a valorizar o seu livro de campeão. Assim, na corrida Coimbra-Tábua terminou em terceiro lugar, e dias depois conquistou o título de campeão distrital de fundo. E continuou a sua marcha de grande corredor. Na Figueira da Foz triunfou nos 50 quilómetros; no campeonato nacional de fundo cobriu o percurso em 3h. 4m.11s. e bateu todos os adversários, conquistando o seu mais belo título; nas 10 voltas à Covilhã classificou-se em 2º lugar; no circuito da Mealhada chegou em segundo e no Porto-Lisboa terminou em sétimo lugar. A época de José Marquês tem sido, pois, excelente. Quando um atleta consegue realizar uma temporada como José Marquez tem realizado é porque possui, realmente, valor. Marquez iniciou fulgurantemente a VI Volta a Portugal, confirmando as suas brilhantes “performances” anteriores.
E no decorrer da grande prova o intrépido estradista terá bastas oportunidades de se distinguir. Não lhe faltam nem qualidades, nem ânimo, nem valor.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sobre a 4ª etapa, Loulé-Tavira, também vencida por José Marquez, há uma reportagem, intitulada “O valoroso José Marquês que saira em último lugar de Loulé forneceu a nota mais emocionante da corrida”, que noticia o seguinte: Após S. Braz de Alportel, os ciclistas meteram por um lanço de estrada plana, bem construída, e atingiram a descida do Bongado, que, não obstante ter algumas curvas e precipícios todos aproveitaram bem. Este lanço terminou em zig-zag, no ribeiro do Bongado. Depois até Santa Catarina, os ciclistas passaram descidas e subidas, e algumas curvas, com o mesmo entusiasmo; prosseguiram a marcha até Fonte do Bispo, deixando à direita os caminhos para Moncarapacho e Fuzeta, e atingiram o ramal, que, do mesmo lado, conduz a Santo Estevão de Tavira. O sol era quente, e havia muita poeira; mas corria uma aragem agradável, da banda do mar, que muito atenuava aqueles dois males. De resto, o percurso era pequeno – 37 quilómetros – e feito por estrada boa. Ezequiel Lino, que fez um bom percurso, conseguiu alcançar Martins Aguiar, que fez uma etapa má, por se queixar de uma ferida no peito. Também José Maria Nicolau fez uma excelente tirada, pois recuperou meio minuto dos dois que levava de diferença de Ezequiel. Porém, perto de Tavira, fraquejou, e perdeu essa vantagem. Cabrita Mealha perdeu, também um minuto, pois fez todo o percurso com a roda dianteira empenada o que o obrigou a um grande esforço, aumentado com a dificuldade de manter as mãos feridas no guiador. Valério de Sousa, que tivera um “furo” no Alto do Cano à entrada de S. Braz teve outro, e foi ultrapassado por Carlos Domingos Leal. A estes se juntaram Afonso Lopes e Soares Barbara. A nota mais emocionante da prova forneceu-a José Marquês. No desejo de assegurar a “camisola amarela”, pedalou sempre com extraordinária energia. Foi o último a sair de Loulé, mas após a Fonte do Bispo, eram 16 e 32, conseguiu alcançar Cesar Luiz, que saíra dois minutos antes dele. Avalia-se facilmente o esforço dispendido por José Marquês nesta corrida, sabendo-se que Cesar fez uma boa prova. José Marquês e Cesar Luiz marcharam juntos durante algum tempo, e cinco minutos depois, alcançaram Felipe de Melo. Nesta altura, José Marquês deu um “arranco formidável”, para se isolar, mas não o conseguiu.
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Houve luta emocionante no Estádio de Tavira entre Felipe de Melo, Cesar Luiz e José Marquês, que foi afinal, o vencedor da etapa contrarelógio.
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Um outro recorte mostra: “O campião de Portugal, depois de cortar a meta em Tavira, na etapa contra-relógio”.
Vencedor da etapa Loulé – Tavira, José Marquez recebe uma taça e um ramo de flores
E a foto de José Marquez, com a taça e o ramo de flores, sai estampada ainda na capa do Notícias Ilustrado (edição semanal do Diário de Notícias), Ano VIII, série II – 1935, com a seguinte legenda: “José Marquez o primeiro camisola amarela da sexta volta”. Sobre a 5ª etapa,Tavira – Faro, a reportagem intitulada “O valor pessoal e técnico dos quatros vencedores das etapas corridas afirmou-se brilhantemente”, discorre sobre os acontecimentos da seguinte maneira: Até Faro foram quatro os vencedores: José Marquês ganhou duas; e Cabrita Mealha, Ezequiel Damião Lino e Ildefonso Rodrigues, uma cada. Dois homens de Lisboa – e dois do Algarve. Um equilíbrio – até ao sul, pelo menos ... É difícil dizer qual destas vitórias foi a mais bonita. José Marquês ganhou com brilhantismo as duas que figuram no seu “almarés”. Em ambas se afirmou de novo como corredor rápido, voluntarioso e inteligente. A primeira, apresentou-a até com um poder de iniciativa que lhe não tem sido muito freqüente. Procurou, em verdade, a sorte da corrida, na altura que lhe pareceu melhor. 52
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Depois conseguindo bom resultado para a sua “demarrage”, levou tudo de roldão até o final. Na segunda vitória, ao correr em boas condições de referência, brilhou pela regularidade. Foi uma bela prova. Ganhar dois minutos de avanço em 37 quilómetros de percurso é “performance” de valor. Acresce, porém, o valor da média – cerca de 37 quilómetros à hora. José Marquês ganhou duas tiradas. Isso bastava para ser numericamente, o melhor dos vencedores. A posse da “camisola amarela” é outra prova. Devemos, no entanto, acentuar que é, entre os quatro, o que deu mais nitidamente a sensação de favorito. É ainda cedo para prognósticos – e foi pequena a margem de tempo conquistada na terça-feira. Promete, todavia, bastante. E já o prometia antes de iniciar a corrida. Ezequiel Damião Lino merece que o ponhamos no lugar imediato. A sua arrancada teve brilho, mas teve especialmente emoção. As duas etapas iniciais saíram-lhe más. De manhã, uma avaria na máquina. De tarde, má carburação num género de provas em que não pode ainda salientar-se. Era preciso dar confiança aos seus companheiros e ao seu clube. Soube procurar a vitória, com calma e com entusiasmo. Como há dois anos, na Serra da Estrela, tentou alcançar à frente o alto da montanha, para depois se isolar na descida. O ataque saiu-lhe bem. Primeiro lugar na contagem dos pontos para o “Grande Prémio”, e valoroso na galopada para Loulé. Esta fase fica, até agora, na prova deste ano, como a mais emotiva. Cheia, realmente, de beleza. Excelente o resultado obtido – vitória na etapa e subida de dez números na classificação geral. António Cabrita Mealha ganhou bem a vitória que lhe coube. Fugindo à “consigne” da cautela nos primeiros dias tentou fazer a contra-prova do Campeonato Nacional de Fundo, também contra-relógio. E fê-la com êxito, pois conseguiu bater o corredor que mais se distinguira anteriormente. Tentou também, com o mesmo entusiasmo a vitória em Loulé, mas lutou todo o dia com “azares”. Ildefonso Rodrigues teve igualmente um triunfo brilhante, pela sua parte. E conseguiu-o numa corrida que não parecia pouco adaptada às suas características. O conhecimento da estrada serviu-lhe, porém, bastante. Teve, também, o mérito de atacar na altura propícia – na subida que dá para a entrada da sua terra. A sua vitória foi-lhe, por isso duplamente agradável – como resultado de corrida e como estímulo para a carinhosa recepção dos seus conterrâneos.
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Na 6ª etapa, conforme a legenda da foto, “José Marquês passa em Castro Verde, à frente do primeiro pelotão na etapa Faro-Beja”.
Na 7ª etapa, Beja-Portalegre, a resistência física de José Marquez dá os primeiros sinais de que algo não vai bem. Durante a 8ª etapa, Portalegre-Fundão, passando por Vila Velha de Rodão, uma crise de furunculose atinge o atleta em cheio, atacando-lhe pernas e braços. A doença, extremamente dolorosa, inflama grandes áreas de tecidos cutâneos, causando febre. Uma reportagem de jornal dá notícia do sofrimento do atleta: José Marquês, atacado de furunculose e caminhando com dificuldade, voltou a ter uma etapa valorosa. A sua resistência continuou a ser heróica. Energicamente, tenazmente, manteve-se quase sempre na frente da prova e algumas vezes assumindo o “comando”, quando a velocidade baixou. O descanso de hoje deve ser-lhe particularmente útil, para se recompor. Se melhorar, é homem para se bater com Cesar Luiz, na primeira ocasião. O seu momento de crise parece já ter passado. E o terreno plano mais propício às suas qualidades, não demora muito.
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Na VI Volta a Portugal José Marquez é o segundo à esquerda
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José Marquez com curativos nos braços
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O dia de ontem, nas Pedras Salgadas, rompeu luminoso e claro. Acentuou-se a magnífica disposição dos corredores, excepção feita, é claro, de José Marquês, a quem, por causa dos furúnculos, foram feitos enérgicos tratamentos, pois estava em risco de não alinhar. Anteontem ao fim da tarde, no lindo parque das termas, organizouse uma festa desportiva, em que intervieram jornalistas, fotógrafos, massagistas, delegados de clubes, mecânicos, etc. Houve corridas de bicicletas, provas de obstáculos contra-relógio, corridas de três pernas, um desafio de “football” e uma gincana. Serviram de juízes de linha Cesar Luiz, Ezequiel, Aguiar da Cunha, Felipe de Melo e Ildefonso Rodrigues. A assistência, constituída por aqüistas e corredores riu fartamente com as peripécias do festival. A direção do hotel Universal ofereceu um “Porto de honra” aos redactores do Século e a outras pessoas da comitiva da “VI Volta” que, naquele hotel, tiveram o melhor acolhimento. Os aqüistas associaram-se a esta homenagem, sendo O Século muito aclamado. A noite foi de absoluto repouso, e, por isso, ontem, de manhã, todos os concorrentes apareceram cedo e bem dispostos. José Marquês melhorara consideravelmente e estava autorizado pelo médico a participar da corrida, embora o tivesse de fazer em condições de inferioridade física. O animoso rapaz, porém, aceitava a luta em quaisquer circunstâncias. Tinha uma decidida vontade de correr e alcançar de novo a “camisola amarela”, que, na sua própria expressão, já se habituara ao seu corpo... Tal como sucedera com a chegada, a partida dos concorrentes despertou grande interesse entre os aqüistas, os quais, na sua maioria, só almoçaram depois da abalada dos corredores. Queriam gozar, até o fim, o movimentado espetáculo, e surpreender, nos rostos e nas falas dos concorrentes, as possibilidades de vitória. A tirada até Guimarães, de 160 quilómetros, depois de um dia de descanso, podia trazer surpresas, apesar do esforço violento das etapas anteriores, que todos os ciclistas acusam em maior ou menor grau. A concentração começou às 12 horas, na estrada para o Vidago, junto à estação de caminho de ferro. À chamada, que se fez pouco depois, responderam 34 corredores – os que restam de 55 que fizeram a primeira etapa da “Volta”. 59
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Sobre a 10ª etapa,Viseu – Pedras Salgadas, há uma reportagem jornalística de O século intitulada “Nas Pedras Salgadas, alinharam 34 concorrentes dos 55 que fizeram a primeira etapa da ‘Volta’”, informando que
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A seguir, foi entregue a Felipe de Melo, vencedor da etapa ViseuPedras Salgadas, o tinteiro de pau-santo e prata oferecido, como 1º prémio, pela Comissão de Iniciativa das Pedras Salgadas.
José Marquez recebe cuidados médicos nos furúnculos das pernas, em Pedras Salgadas
Uma outra reportagem de jornal faz o balanço das etapas percorridas até o momento, com o título “A média horária que os vencedores das etapas têm atingido na competição”, e oferece revelações preciosas com o seguinte texto: Damos, a seguir, a nota dos vencedores das etapas realizadas, o tempo gasto nos percursos e a média horária que têm atingido: Lisboa – Montemor-o-Novo. – 130.200m. José Marquês (Campo de Ourique), em 3h., 28m. e 17s., à média horária de 35.200m. Montemor-o-Novo – Évora. – 45.500m. Cabrita Mealha (Louletano), em 1h., 16m. e 30s., à média horária de 32.800 m. Foi prova contrarelógio. Évora – Loulé. – 221.950m. Ezequiel Lino (Sporting A), em 7h., 32m. e 37s., à média horária de 29.422m. Ezequiel Lino obteve na
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Resumo: Individual José Marquês ................ Cabrita Mealha ............. Ezequiel Lino ............... Ildefonso Rodrigues ..... Felipe de Melo ............. Cesar Luiz ....................
2 vitórias 1 ” 2 ” 2 ” 2 ” 1 ”
Clubes Sporting ....................... Campo de Ourique ...... Louletano ..................... Carcavelos .................... Velo Club “Os Leões” ...
4 2 1 2 1
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” ” ” ” ”
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Altura dos Cavalos cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”. Loulé – Tavira. – 37.000m José Marquês (Campo de Ourique), em 57m e 23s., à média horária de 38.640m. Foi prova contra-relógio. Tavira - Faro. – 80.400m. Ildefonso Rodrigues (Sporting A), em 2 h, 27m. e 9s, à média horária de 32.760m. Faro - Beja. – 172.700m. Felipe de Melo (Carcavelos), em 6h., 4m. e 5s., à média horária de 28.140m. Beja - Portalegre. – 239.000m. Ildefonso Rodrigues (Sporting), em 8h., 24m e 47s., à média horária de 28.380m. Portalegre - Fundão. – 132.100m. Cesar Luiz (Ferreira do Alentejo), em 4h., 5m. e 17s., à média horária de 30.240m. Fundão - Viseu. – 157.700m. Ezequiel Lino (Sporting A), com 5h., 34m. e 30s., à média horária de 28.260m. Ezequiel Lino obteve na Aldeia de Santa Cruz mais cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”. Viseu - Pedras Salgadas. – 148.800m. Felipe de Melo (Carcavelos), em 6h., 15m. e 50s., à média horária de 23.700m. Felipe de Melo classificou-se em primeiro lugar em Parada de Cunhos onde obteve mais cinco pontos para a classificação do “Prémio da Montanha”.
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Sobre a 11ª etapa, Pedras Salgadas – Guimarães, há uma reportagem de jornal, de final de agosto, que informa o seguinte:
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Desde o início da “VI VOLTA a Portugal”, em bicicleta, até ontem não se registara ainda nenhum desastre. A possibilidade de choques entre os concorrentes ou entre os automobilistas e motociclistas que os acompanham foi sempre evitada, à excepção da queda dum motociclista na Cova da Piedade, pouco antes da partida da caravana para a grande prova. Ontem, infelizmente, registou-se o primeiro incidente grave, que oxalá seja o último. Em conseqüência dele, caiu e ficou ferido numa perna o esforçado ciclista nortenho Francisco Joaquim da Silva, o “Francês”, representante do Académico, do Porto. Muito embora não sofresse ferimentos de gravidade, foi constrangido, por esse lamentável facto, a abandonar a prova, que estava a realizar com brilho e com honra para o seu clube. A não ser esta, forçada por tão imprevista e deplorável circunstância, mais nenhuma desistência se verificou durante a etapa de ontem, apesar da sua extrema dureza. O ciclo das desistências, efectivamente, deve já ter terminado, como previmos, e os actuais concorrentes devem chegar todos a Lisboa, em plena disputa da sensacional prova. Faltam quatro etapas para ficar concluída a “Volta”. E, como de princípio, é prematuro tudo quanto se diga a propósito do vencedor absoluto da prova. Tal como à chegada dos ciclistas às Pedras Salgadas, um pelotão constituído por quinze concorrentes chegou ao mesmo tempo à meta de Guimarães, logo seguido por outros, com diferenças de poucos segundos. Nesta conformidade, os vaticínios continuam a ser falíveis. É certo que Cesar Luiz conseguiu distanciar-se dos restantes competidores, na classificação geral, por uma diferença apreciável de tempo. Essa diferença, porém, pode ser inutilizada, se ele tiver a infelicidade de sofrer dois acidentes cuja reparação lhe roube alguns momentos. A homogeneidade dos corredores mais fortes está por demais reconhecida e tem-se tornado evidente desde as primeiras “tiradas” da “Volta”. Excepto a arrancada formidável de Cesar Luiz em que ele conseguiu vencer uma etapa, tirar a “camisola amarela” a José Marquês e ganhar cerca dum quarto de hora de avanço sobre o seu mais próximo competidor, mais nenhuma proeza deste gênero se registou ainda. Evidentemente, todos devem ter tentado realizá-la. Contudo, nenhum dorme, e, assim, não há probabilidade de surtir efeito qualquer “fuga”. A entrada dos ciclistas no Estádio do Lumiar deve ser, por este motivo, um espetáculo de extraordinária emoção. A vitória da “Volta”, tal como as das etapas, terá que ser disputada ao “sprint”,
perante as aclamações, os incitamentos e o entusiasmo dos milhares de pessoas que hão de aglomerar-se em torno do nosso maior campo desportivo.
A 12ª etapa, Guimarães – Porto, foi ganha por José Marquez.
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O comentário do recorte de jornal informa: “José Marquez, seguido por Felipe de Melo e Ildefonso, e liberto de Cesar, ensaiou, depois de Viana, a corrida veloz que lhe permitiu recuperação de tempo.”
Em outra reportagem de jornal, fica-se ainda sabendo que : Em Viana do Castelo, às 16 e 49, o grupo mantinha-se intacto, sob a direção de José Marquês. Cesar Luiz reduzira a diferença para 2 minutos. Em Espozende, a vinte e três quilômetros deViana, a diferença não ia além dum minuto. A valorosa corrida de perseguição cansou, porém, Cesar Luiz. A partir dessa altura, aumentou gradualmente a distância de Cesar Luiz do grupo fugitivo. Na Póvoa de Varzim, a diferença estava em 8 minutos e permitira que Cesar fosse apanhado por um pelotão.
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José Marquês forçou, porém, o andamento, a ponto de destroçar o pelotão. Martins de Aguiar ficou para trás. Entre a Póvoa e Vila do Conde, atrasou-se Felipe de Melo, por haver caído. Ezequiel cedeu também. Em Vila do Conde passou acompanhado de Cesar, com quatro minutos de atraso. Um só homem agüentou o andamento de José Marquês – Ildefonso Rodrigues. Como na etapa em que José Marquês perdeu a “camisola amarela”, o corredor “leonino” foi o único ciclista que se manteve junto até o final. Já na pista do Lima, procurou adiantar-se ao vencedor. José Marquês não lho consentiu, para ganhar com brilho uma das tiradas mais emocionantes, na prova deste ano. Com a prova de ontem, deve ter-se quebrado a fase de monotonia em que a “Volta” entrara. Houve movimentação e velocidade. Embora o ataque resultasse de desastres e avarias de Cesar Luiz, o que é facto é que foi oportuno e brilhante. As figuras mais salientes foram José Marquês, Cesar Luiz e Ildefonso Rodrigues: José Marquês, pela forma como atacou, sempre que teve oportunidade para o fazer; Cesar, pelas duas corridas de perseguição que se viu obrigado a fazer; e Ildefonso, pela resistência oposta à marcha de José Marquês, até à meta. A etapa de ontem teve, pois, como fases de maior animação e beleza, o ataque e fuga de José Marquês e a valorosa corrida de perseguição que o “leader” fez depois. A chegada ao Porto constitui um belo espetáculo. E, como cena de efeito, merece registo o facto do corredor alentejano ser retirado em braços, por via dos ferimentos recebidos em Braga. Os corredores e a sua actuação na etapa de ontem. José Marquês foi o homem do “dia” na etapa de ontem. Era e é difícil arrebatar a Cesar Luiz, sem nenhum desastre ou nenhuma avaria, os dezanove minutos que levava de vantagem. Cumpria-lhe lutar sempre, até à arrancada derradeira sobre a meta de Lisboa. Mas cumpria-lhe, sobretudo, tentar bater Ildefonso Rodrigues, que o ultrapassara, apesar de não ter ainda chegado à craveira do favorito. Preparando serenamente o ataque ou espreitando a primeira paragem do seu forte adversário, José Marquês, só transitoriamente renunciará à luta, ao combate franco, em campo aberto, com as mesmas armas de valor e entusiasmo. Aguardava-se, somente, que a crise dos furúnculos lhe permitisse voltar à ofensiva. E não renunciou realmente à luta. Provou-o ontem, como o deve provar hoje, em duas etapas que estão dentro das suas características. É, pois, justo destacar a bonita vitória de José Marquês. O corredor ressurgiu quase por completo, após alguns dias de crise e de dúvidas. A sua combatividade foi a nota dominante da etapa depois de Viana do Castelo. Um grande triunfo, que veio mostrar que o seu duelo com
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Cesar Luiz deve animar o resto da prova. Reduziu de seis minutos, o seu atraso em relação a Cesar Luiz; mas não chegou a ultrapassar Ildefonso Rodrigues. José Marquês fez a etapa à média excelente de 32.000 quilómetros. Pela ordem de classificação, no Porto, segue-se, nestas notas Ildefonso Rodrigues. O corredor algarvio fez ontem sentir a sua presença. Não ganhou nova etapa. Pode, no entanto, acompanhar José Marquês, quando ele levou tudo de roldão, a caminho do Porto. Foi o melhor corredor, dentro do grupo que José Marquês arrastou para a “fuga”. Se não pode atacar, soube, pelo menos, defender com galhardia o seu posto, ou seja, o segundo lugar da classificação individual. Cesar Luiz, que Felipe de Melo alcunhou, em Guimarães, de “Rei da Sorte”, registou ontem o seu primeiro dia de infelicidade. A queda de Braga anulou-a, ele, quanto a tempo, pela magnífica corrida de perseguição que executou depois. A segunda corrida de perseguição fê-lo reduzir o atraso, de 5 minutos a um só minuto, até Espozende. O violento esforço despendido cansou-o, todavia. Para o fim, com a companhia de Ezequiel, melhorou um pouco. A sua defesa porfiada, valorosa, exuberante de mocidade, ficou sendo uma das notas mais brilhantes e emotivas do trajeto percorrido entre Guimarães e o Porto. Registado o ressurgimento de José Marquês, o “leader” tem agora adversário capaz de o “puxar”. Felipe de Melo fez também uma boa prova. Acompanhou o galopar de Marquês na altura mais perigosa. Em Vila do Conde sofreu uma queda, que o atrasou bastante. A perda de tempo não foi depois compensada. Classificou-se, todavia, em terceiro lugar, na etapa, e conservou o quarto ponto da classificação geral. Os outros corredores chegaram suficientemente atrasados para que deles não mereça a pena falar. Como noutras etapas, os primeiros classificados na etapa são, de facto, os melhores corredores que não saíram da prova. Até mesmo Ezequiel Lino, o quinto da classificação geral, foi quinto na classificação da etapa. Entre eles, há, no entanto, corredores muito “touch”, não sendo fácil prever o que farão nos últimos três dias deste ano. Não houve alterações profundas na classificação individual. Ezequiel Lino subiu um ponto, trocando a sua posição com a de Martins de Aguiar. Joaquim de Sousa desceu, pirem, alguns números. Fernando de Almeida desceu também.
Em mais uma foto da VI Volta a Portugal há a legenda: “No medalhão: próximo de Esposende, Marquez, Melo (encoberto) e Ildefonso procuram fugir à perseguição de Cesar Luiz.”
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[...] Atravessada a ponte de ferro sobre o rio Ave, a estrada sobe em curvas até a formosa igreja matriz de Azurara. Nesta localidade, os estradistas passaram também entre o entusiasmo popular. Surgiu, depois, a passagem de nível. Como as cancelas estavam fechadas, os corredores atravessaram a linha, a pé. À frente ia Marquês, que continuava a “puxar”. Seguiam-no Felipe de Melo e Ildefonso, que atravessaram aquele ponto às 17 e 57. Depois apareceram Cesar e Ezequiel Lino. Eram 18 e 2. Sete minutos depois passaram Manuel de Sousa, José Braz Junior, Castelão Romão, Roberto de Magalhães e Martins de Aguiar. Um momento mais tarde, passou também, a pé, Duarte Faria. A passagem destes corredores foi difícil, pois estabeleceu-se ali grande confusão com automóveis. No caminho para Modivas, a estrada é de excelente piso e tem rectas apreciáveis, de grande extensão, como a de Mindelo. Ao atravessar Modivas, Felipe de Melo deixou os seus companheiros de pelotão. Um cão embaraçara-se na roda da bicicleta o que provocou uma queda do ciclista, que ficou com a máquina bastante avariada. Pouco depois, os estradistas passaram em Vilar de Pinheiro. O entusiasmo popular foi grande, também. José Marquês e Ildefonso levavam já nesse momento seis minutos de avanço sobre Cesar Luiz e Ezequiel Lino. Este sofreu novo dissabor e teve de abandonar Cesar. Tinha-se soltado a corrente da bicicleta. Sucederam-se umas após outras as pequenas localidades dos arredores do Porto: Águas Férreas e Guardeiros, onde muito povo, principalmente ciclistas, assistia à passagem. Na última localidade registaram os estradistas novos percalços. Duarte Faria “furou” e Roberto Magalhães deu uma queda sem gravidade. [...]
Também em outra reportagem, com o título “A marcha da prova. Alguns comentários oportunos sobre a maneira como foi disputada a etapa Guimarães-Porto”, é informado o seguinte: A corrida voltou ontem a ter um largo período de animação. Um dos corredores que a animou, tornando-se a figura de maior destaque, foi, como previmos, José Marquês. O actual campeão nacional não se conformara ainda com a sua posição, em terceiro lugar. Era, pois, de admitir que ele aproveitasse a primeira oportunidade, para se lançar ao ataque. E foi realmente isso que se deu na etapa de ontem. Cesar Luiz, primeiro em Braga, caiu ali, dentro da cidade. José Marquês tomou imediatamente o comando da prova. O detentor 67
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Em outra reportagem de jornal, menciona-se ainda o que segue:
da “Camisola Amarela” perdeu, com o desastre, dois minutos, e teve a cooperação de Joaquim de Sousa seu camarada de clube. Voltou depressa ao ataque e conseguiu apanhar o pelotão, após 24 minutos de corrida de perseguição, feita em grande velocidade. [...]
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A reportagem intitulada “O balanço da etapa. A posição dos concorrentes ao final da etapa de ontem” relata o desenrolar desta 12ª etapa, com um texto em que se lê: Dissemos ontem que as duas etapas realizadas ultimamente tinham sido duas provas infrutíferas para os primeiros corredores que, daquela forma, continuavam nos seus postos, sem aumentarem ou diminuírem as respectivas diferenças de tempo. Porém, depois da etapa de ontem, já se verificaram alterações, não nos postos que cada um tinha, mas no tempo que existia entre cada um deles. Isto, apenas, quanto aos favoritos, pelo menos, até o quarto lugar. José Marquês ganhou ontem a sua terceira etapa, tal como Felipe de Melo o tinha feito no dia anterior. São apenas estes dois ciclistas que conseguiram, até agora, totalizar três vitórias, e é curioso recordar que Felipe de Melo, ao ganhar a sua primeira etapa, garantiu que ainda queria ganhar mais duas. Fez o que prometeu, e Marquês repetiu a proeza. A prova de ontem foi realizada a uma média excelente e promete, para as etapas seguintes, todas por boas estradas e conhecidíssimas dos corredores uma luta formidável. Os 32:000 metros horários realizados por Marquês, na etapa Guimarães-Porto, foram como que a abertura das hostilidades depois da furunculose que o impossibilitava. Ildefonso deu bem a réplica a Cesar, apesar da sua queda e de ter perdido seis minutos e três segundos, é ainda o corredor considerado “leader” da prova e fará por não desmerecer a confiança que os seus partidários nele têm. A chegada de ontem levou “colados”, até o Estádio do Lima, os dois estradistas de clubes de Lisboa, Marquês e Ildefonso. A luta foi renhidíssima nas três voltas à pista para completar a prova. Nas duas primeiras, continuaram juntos e, na terceira, Marquês conseguiu uma ligeiríssima diferença. Assim, ganhou a etapa. Felipe de Melo chegou, depois daqueles, 5 minutos e 17 segundos, classificando-se em terceiro lugar, e Cesar Luiz em quarto, com um atraso de 6 minutos e 3 segundos. [...]
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A próxima etapa é Porto-Ovar. Na foto a seguir, José Marquez está pronto para a partida .
José Marquez à partida para Ovar ainda com a perna ferida pela furunculose
Esta 13ª etapa, Porto-Ovar, também foi ganha por José Marquez. Sobre esta disputa, há um recorte de jornal com as seguintes informações: [...] Marquez conseguiu, nesta tirada brilhante de Porto a Ovar a magnífica média horária de 38.895 quilómetros. 69
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Vitor Guimarães teve, no princípio da estrada, um “furo”, tendo-lhe um desconhecido emprestado uma máquina. Era visível o desejo que ele tinha de ganhar esta etapa. À saída do Porto, Vitor Guimarães assumiu o comando do primeiro pelotão e travou com o figueirense Alves Barbosa uma emocionante luta. Ambos queriam ganhar esta etapa. Vitor Guimarães por ser do distrito de Aveiro e Alves Barbosa por se encontrar muito próximo da sua terra. Em Ovar,Vitor Guimarães encontrou suas duas irmãs que lhe fizeram uma recepção extremamente cordial, consolando-o da circunstância dele ter entrado em Ovar com uma bicicleta que lhe fora oferecida por um popular qualquer, no momento em que ele tivera um “furo”. A recepção em Ovar foi entusiástica e carinhosa. Em Ovar, a recepção dispensada aos corredores e à comitiva foi verdadeiramente interessante. A Câmara Municipal oferecia uma taça à equipa que se classificasse melhor nesta tirada, taça que foi ganha pelo Sporting Clube de Portugal, e a Comissão de Iniciativa e Turismo ofereceu uma taça destinada ao corredor mais bem classificado na etapa.
Em outra reportagem com o título “A velocidade atingida por José Marquez foi de 38 quilómetros e 100 metros à hora”, as informações são as seguintes:
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Outro relato da etapa Porto-Ovar, intitulado “Venceu José Marquês a etapa contra-relógio, depois de ter ultrapassado Felipe de Melo e de ter alcançado Ezequiel, com quem cortou a meta em Ovar”, apresenta o texto a seguir:
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Em todas as terras do percurso, como já acentuámos, houve grande entusiasmo popular, à passagem dos corredores. O povo saiu à estrada e saudou os ciclistas, animando os que seguiam em más condições físicas, e incitando os que corriam com maior dificuldade. A assistência popular a Victor Guimarães, e o incitamento a Eugénio Martins, antes da sua desistência, provam o interesse e o entusiasmo do povo pela tirada Porto-Ovar. Em Espinho, uma densa multidão formou alas nas ruas. Os ciclistas foram aclamadíssimos. O mesmo sucedeu em Esmoriz. A recepção em Ovar foi apoteótica. A vila estava verdadeiramente em festa, desde a chegada de Floriano Moreira às 13 horas, 57m. e 31s. Na Praça da República, junto da meta, em frente dos Paços do Concelho, a multidão ali reunida manifestou maior entusiasmo. José Marquês e César Luiz foram alvo de especiais atenções. Outro tanto sucedeu a Victor Guimarães, que é de Aveiro, e muito conhecido em Ovar. Às 14 e 20, tinham cortado a meta os primeiros seis corredores. O melhor tempo, nessa altura, era o de António Bernardo, do Sport de Lisboa e Beja, que fizera o percurso em 58 minutos e 48 segundos. Ao chegar à meta, Felipe de Melo foi conduzido ao hospital da Misericórdia, onde lhe fizeram tratamento ao braço. Muitos corredores, após a chegada, se entregaram às mãos dos massagistas, o que despertou admiração no povo que os rodeava. César Luiz, que estava fatigado, pelo esforço que fizera na véspera, mostrava-se, no final da etapa, muito animado e confiante na sua estrela. Até Ovar, José Marquês conseguiu a média horária de 38:100 metros, que é a melhor da prova. José Marquês, quando passou por Felipe de Melo, num gesto de grande camaradagem, que é de toda a justiça pôr em relevo, como abonador do seu caráter e do seu espírito desportivo, tentou, durante algum tempo, “puxá-lo”. O valoroso corredor de Carcavelos, porém, não pôde corresponder ao desejo do leal camarada de luta, e José Marquês abandonou-o, para que a sua classificação própria não perigasse. José Marquês ganhou a etapa, em 56 minutos e 9 segundos de percurso.
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Na passagem de nível de Espinho, Joaquim de Sousa sofreu um pequeno atraso, pois teve de esperar que abrissem as cancelas. Recuperou, porém, o atraso e fez uma boa prova. Próximo a Ovar, Joaquim Fernandes foi alcançado por Manuel de Sousa. Martins de Aguiar, que pedalou sempre com dificuldade, atrasou-se bastante, mas conseguiu, assim mesmo, não ser apanhado por qualquer dos corredores que tinham partido após ele. Ressentido do violento esforço das etapas anteriores, Ezequiel Lino foi alcançado, próximo de Esmoriz, por José Marquês. O grande corredor de Campo de Ourique que já ultrapassara Felipe de Melo, cortou a meta com Ezequiel. Fez uma prova magnífica, sempre com uma regularidade admirável, apesar de se lhe terem partido alguns raios das rodas da bicicleta.
Em uma foto desta etapa, acrescenta-se na legenda a informação “Marquez foi largamente ovacionado à sua passagem em Espinho, onde ganhou um prémio”. Das duas etapas consecutivas ganhas por José Marquez, também parece dar notícia o recorte de jornal abaixo, com o texto: 2º, Cesar Luiz, em 59 minutos e 26 segundos; 3º, Ildefonso Rodrigues, em 1 hora e 20 minutos; 4º, Ezequiel Lino em 1 hora e 35 segundos; 5º, Joaquim de Sousa, em 1 hora, 1 minuto e 16 segundos; 6º, Felipe de Melo, em 1 hora, 1 minuto e 23 segundos. José Marquês conserva, portanto, a “camisola amarela”, pois Cesar Luiz perdeu, nesta tirada, mais dois minutos e três segundos, o que eleva a sua diferença, agora, a dois minutos e nove segundos.
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Sobre a 14ª etapa, Ovar-Curia, igualmente ganha por José Marquez, há um texto que diz:
Em outra reportagem com o título: “A chegada dos corredores à Curia foi assinalada com entusiasmo delirante”, consta o seguinte: Na Curia, defronte do Palace Hotel, juntaram-se muitos milhares de pessoas, algumas vindas dos mais distantes lugares. A animação na linda estância era extraordinária. As bancadas regorgitavam de público, que aguardava impaciente a chegada dos corredores. Entre a assistência figuravam todos os hóspedes do Palace Hotel – onde os ciclistas ficaram alojados – e o Sr. engenheiro Vasconcelos Correia, administrador da C.P. A manifestação feita aos concorrentes da VI Volta a Portugal foi extraordinariamente entusiástica, subindo ao ar muitos morteiros e foguetes. Quando os corredores apareceram, o público rompeu em grandes aclamações, que se tornaram mais vibrantes no momento de José Marquez passar vitorioso a linha de chegada. José Marquez ganhou ao “sprint”, numa boa e emocionante arrancada. O valoroso e intrépido corredor de Campo de Ourique alcançou uma vitória brilhante, que os espectadores souberam apreciar devidamente. Como José Marquez, todos os outros corredores foram aplaudidos e recebidos carinhosamente.
Em outra notícia de jornal, ilustrada por foto, e com o cabeçalho: “José Marquês, do Club Atlético de Campo de Ourique foi o vencedor das duas
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Na VI Volta a Portugal
A energia e o entusiasmo com que os concorrentes da “VI Volta a Portugal” em bicicleta realizaram as etapas Pedras Salgadas-Guimarães e Guimarães-Porto voltaram ontem a caracterizar as etapas PortoOvar e Ovar-Curia. Decididamente, os ciclistas estão apostados em arrancar aos seus músculos o máximo rendimento, para se colocarem nos melhores lugares à chegada a Lisboa. José Marquês, o forte ciclista do Club Atlético de Campo de Ourique, foi o vencedor das duas “tiradas” de ontem. Na primeira contra-relógio, fez uma prova formidável e que não causou surpresa a ninguém, porque todos sabem que as competições deste gênero são as suas preferidas. Na segunda, venceu também ao “sprint”, contra dezassete adversários que cortaram a meta ao mesmo tempo.
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etapas realizadas ontem entre Porto e Ovar e Ovar e Curia da ‘VI Volta a Portugal’ em bicicleta”, pode-se ler o seguinte texto: Os corredores e a sua actuação nas duas etapas de ontem. José Marquês tornou a ser o homem do “dia”, bastante à custa dos recursos próprios, um pouco talvez à custa da tática defensiva a que Cesar Luiz se remeteu, novamente como consequência dos azares sofridos em Braga e Ponte de Lima. O campeão nacional que trouxe outra vez o Campo de Ourique ao lugar de honra de uma grande prova, ganhou ontem duas etapas sucessivas. O facto não constitui proeza vulgar. Mas acresce que ambas as vitórias foram conquistadas com excelente média horária: 38,520 quilómetros, na primeira, e 33,120 quilómetros, na segunda. Para a primeira, era José Marquês o favorito. Em toda a época, tem sido um dos melhores corredores contra-relógio. Apenas perdeu uma prova dessas – a segunda etapa desta “Volta”. É, todavia, de notar que a perdeu, depois do esforço violento da primeira caminhada, ganha por ele, com brilhantismo notável.
Da última etapa, Curia-Lisboa, há uma foto dos corredores atravessando a Serra da Lousã.
Grupo de ciclistas subindo a Serra da Lousã
Há também uma foto de José Marquez cortando a meta, ao chegar a Lisboa em 2º lugar. O 1º caberia a César Luiz.
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Fazendo uma retrospectiva desta VI Volta a Portugal, vê-se que foi José Marquez quem mais acumulou vitórias em etapas, ao todo cinco, o que, em conjunto com o espírito desportivo demonstrado, lhe valeu o epíteto de “vencedor moral” da prova. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15.
Lisboa – Montemor-o-Novo: vencedor José Marquez Montemor-o-Novo – Évora: vencedor Cabrita Mealha Évora – Loulé: vencedor Ezequiel Lino Loulé – Tavira: vencedor José Marquez Tavira – Faro: vencedor Ildefonso Rodrigues Faro – Beja: vencedor Felipe de Melo Beja – Portalegre: vencedor Ildefonso Rodrigues Portalegre – Fundão: vencedor César Luiz Fundão – Viseu: vencedor Ezequiel Lino Viseu – Pedras Salgadas: vencedor Felipe de Melo Pedras Salgadas – Guimarães: vencedor César Luiz Guimarães – Porto: vencedor José Marquez Porto – Ovar: vencedor José Marquez Ovar – Curia: vencedor José Marquez Curia – Lisboa: vencedor César Luiz
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José Marquez chega ao Estádio do Lumiar (hoje José Alvalade) em Lisboa
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É o que informa também a legenda da próxima foto: “José Marquês, o admirável corredor que recolheu a maior simpatia e mais etapas ganhou na Volta”.
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E, em um jornal, aparece uma caricatura sua, desenhada por Pargana, com a seguinte legenda: “JOSÉ MARQUÊS. O intrépido corredor do Club Atlético de Campo de Ourique, segundo classificado na 6ª Volta a Portugal (caricatura de Pargana).”
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Há, a arrematar o desempenho dos corredores desta VI Volta a Portugal em bicicleta, ainda uma longa reportagem do jornal Os Sports1, intitulada “Ensinamentos da 6ª Volta – características dos corredores – defeitos a corrigir e qualidades a aproveitar”, que se refere a José Marquez como um atleta modelo. Diz o texto:
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[...] Analisada a ação de César Luiz naVIVolta a Portugal, vamos agora, em comentários finais, estudar a actuação de alguns concorrentes, procurando ao mesmo tempo chamar a atenção dos “novos” – e até de alguns consagrados – para a forma inteligente como José Marquez se conduziu na nossa maior competição ciclista. Se todos os corredores soubessem aproveitar as suas faculdades naturais, como fez o atleta do Campo de Ourique, estamos certos de que o nosso ciclismo teria já uma razoável cotação internacional. Não faltam entre nós corredores fogosos, com óptimas condições físicas e a índole combativa dos nossos atletas adapta-se admiravelmente às características do desporto velocipédico. No entanto, todas estas faculdades, só por si, são insuficientes para elevar o valor da modalidade. A actuação de José Marquez na VI Volta a Portugal pode e deve servir de modelo a todos os corredores. Marquez, não só soube adaptar-se às características da prova, mas conseguiu, com uma atenção e uma inteligência pouco vulgares, dar à marcha das operações a directriz que melhor lhe convinha. Era ele que impunha a sua táctica, não se deixando vencer nem pela adversidade nem pelos ataques dos adversários. Desde a sua “colocação” nos pelotões, até à forma como dispendeu o seu esforço, tudo foi ponderado por Marquez. Nunca o vimos “engarrafado” no meio de adversários. Nunca deixou de responder a qualquer ataque, por ir mal situado. A segunda ou
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O jornal desportivo Os sports foi publicado em Lisboa de 6/4/1919 a 4/4/1945. “O jornal Os Sports foi para as bancas a 6 de Abril de 1919, apresentando-se aos leitores, em subtítulo, como um ‘Bi-semanário de Propaganda de Educação Física’, propriedade do jornal A Capital, tendo como redactor principal A. de Campos Júnior. [...] Em 30 de Novembro de 1925 assume a chefia de redacção de Os Sports um outro nome mítico do jornalismo e do desporto nacional: Cândido de Oliveira, que passou pouco depois a dirigir o jornal devido à saída de A. de Campos Júnior. Até 1926, Os Sports fez uma ascensão notável, que lhe permitiu efectuar uma mudança de vulto na tipologia do cabeçalho, assumindo-se, em subtítulo, a partir de 1 de Maio de 1926, como ‘O jornal sportivo de maior tiragem e de maior expansão em Portugal’ – nesta altura, o nome de Cândido de Oliveira figurava já no cabeçalho como director (até então fora chefe de redacção).” In: PINHEIRO, Francisco. “Imprensa desportiva portuguesa: do nascimento à consolidação (1893-1945)”. Ler História 49, 2005. p. 171-190. Ou: http://www.ceis20.uc.pt/ceis20/ site/UserFiles/Image/FranciscoPinheiroLerHistoria49.pdf, p.179. Acesso: 16/11/2011.
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Uma carta de José Marquez O simpático e denodado corredor do Club Atlético de Campo de Ourique, que foi inegavelmente a figura mais saliente da 6ª Volta a Portugal em bicicleta, enviou ao nosso prezado director a carta que a seguir reproduzimos: Vila Chã de Ourique, 11-09-1935. 79
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terceira posição, visando os homens de maior “classe” foram seus lugares predilectos. Se o percurso era de mau piso, colocava-se imediatamente na frente do pelotão a fim de se livrar da poeira das covas e dos “encostos”, reduzindo ao mínimo o perigo de quedas. Logo que surgia uma descida, José Marquez não hesitava em tomar o comando da marcha. Utilizando maior multiplicação e tirando partido da sua “souplesse” obrigava muitas vezes os adversários a ceder. Quando a subida era longa, o corredor de Campo de Ourique sabia refrear os ímpetos dos trepadores, impondo à corrida uma cadência mais moderada. Foi assim que Marquez sempre se defendeu. No entanto, quando atacava, a intuição era a mesma, acompanhando-a então a classe de grande corredor. Logo que precisava de isolar-se, Marquez, depois de manter uma marcha veloz durante alguns quilómetros, “demarrava” primeira, segunda e terceira vez, até “descolar” os adversários. Apenas via abrir entre si e o pelotão uma pequena clareira, ei-lo impondo a seu passo rijo e uniforme, desenvolvendo a máxima multiplicação até conseguir um avanço razoável. Só nesta altura abrandava a marcha, regulando-a consoante a distância a percorrer. Nunca tentou “fugir”, queimando energias, trazendo atrás de si o grosso dos pelotões. Só quando os adversários ficavam isolados, lutando em circunstâncias iguais às suas é que Marquez se empregava a fundo. Vimo-lo muitas vezes na frente do pelotão “rebocando” numerosos adversários, mas, nestas ocasiões, embora comandasse a prova, não desperdiçava energias loucamente. A sua cadência, embora rápida, era para ele normal e essa táctica tinha quase sempre a função de aniquilar lentamente os restantes corredores, ou, em último recurso, não consentir que os adversários se recompusessem do esforço de algum ataque anterior. Foi assim que o Marquez esteve quase sempre senhor da situação, sabendo resistir heroicamente à doença e conseguindo um final de prova empolgante. À sua força de vontade, à sua disciplina – pois Marquez é um dos atletas mais disciplinados que temos visto e ao seu brio desportivo deve o Campeão Nacional a maioria dos seus triunfos.
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...Sr. Raul de Oliveira, ilustre director do jornal “Os Sports”: Venho por este meio testemunhar os meus agradecimentos aos jornais organizadores da Volta a Portugal em bicicleta e, em especial, a V. como director da grande competição, pela maneira carinhosa como fui tratado e pelas atenções de que fui alvo durante todo o tempo em que tive a honra de conviver junto de todos vós. Estou também muito reconhecido a “Os Sports” e ao “Diário de Notícias” pela forma como se referiram ao meu esforço durante a 6ª Volta. Ao mesmo tempo, rogo a V. que, em meu nome, felicite o sr. dr. Beirão da Veiga pela sua obra – a Volta a Portugal em bicicleta – pedindo-lhe que não desanime, organizando-a todos os anos para maior desenvolvimento do ciclismo em Portugal. Vivam o “Diário de Notícias” e o “Os Sports”. De V.. etc. José Marquez
Neste ano de 1935, como consta da legenda da foto que ilustra a capa deste livro, José Marquez sagra-se “campeão de Portugal de fundo”, “recordman” da corrida dos “100 quilómetros contra-relógio” e segundo classificado individual na “VI Volta a Portugal” em bicicleta e componente da equipe do Clube Atlético Campo de Ourique, vencedora da mesma prova.
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Entrevistas
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o cofre azul, encontram-se também os textos de três entrevistas. A primeira é concedida a Alberto Freitas, a segunda ao jornal O mensageiro do Ribatejo, a terceira ao Jornal de notícias1. Por último, há uma curta biografia do atleta, de autoria do mesmo Alberto Freitas que, à guisa de apresentação, a antepõe à sua entrevista, anteriormente citada.
Em Faro: José Marquez à direita, de chapéu de palha
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O jornal de notícias foi fundado em 1888, no Porto, e, atualmente, pertence ao Grupo Controlinveste Media e é dirigido por Manuel Tavares.
Entrevista concedida a Alberto Freitas
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Sob o título “José Marquez, glorioso vencido”, assim se alternam as perguntas e as respostas da entrevista concedida a Alberto Freitas: — Quando partiu para a “Volta” levava esperança na vitória? José Marquês com sinceridade: — Parti sem ideia na vitória. Pensava, sim, numa boa classificação; mas longe de mim a ideia de vencer ou mesmo de alcançar o lugar que vim a alcançar. Mas quando comecei a correr vi que podia fazer alguma coisa – e tentei fazer o melhor que me foi possível. Nova pergunta: — A 6ª Volta foi mais difícil do que as outras em que participou? E nova resposta: — Não me pareceu. Se não tivesse tido os furúnculos, teria feito a prova com relativa facilidade. Abordamos agora um assunto interessante: etapas contra relógio e etapas em linha. Marquez sente-se como peixe na água dizendo: — Prefiro as etapas contra relógio. Nestas o corredor faz esforço mas para si próprio. Nas etapas em linha trabalha para os outros. Nas etapas contra relógio o corredor tira benefício do seu próprio esforço; nas outras, sucede muitas vezes os adversários colherem os benefícios do seu trabalho. — A inovação deste ano deve ser mantida, e talvez mesmo ampliada? Uma interrogação a que José Marquez responde: — A etapa mais difícil para mim foi a de Portalegre ao Fundão. Os furúnculos fizeram-me um verdadeiro assalto e confesso que foi necessário muita energia para resistir. — E qual a vitória que mais lhe agradou? — A da primeira etapa. E porque me permitiu vestir logo de entrada a camisola amarela. — Julga que o ciclismo português tem progredido? — Mas sem dúvida nenhuma. O nosso ciclismo acusa grandes progressos e creio que o futuro deste desporto está absolutamente assegurado. A Volta a Portugal tem tido decisiva influência no desenvolvimento do nosso ciclismo e afirmo-lhe que, se não fosse a “Volta”, o ciclismo português não teria saído do marasmo em que esteve tanto tempo. — Entende, assim, que a “Volta” deve ser mantida? — A Volta a Portugal é indispensável ao ciclismo e ao desporto em geral. Acabar com a “Volta” seria acabar com o ciclismo – digo-lhe sinceramente.
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Entrevistas
E continuando: — A “Volta” desperta o maior interesse por todo o País. São quinze dias em que não se fala noutra coisa. Uma prova como esta promove excelente propaganda não só do ciclismo, mas do desporto. Hoje, Portugal já não poderia passar sem a “Volta”. Apesar de hoje ter um nome em grandes letras no desporto nacional, José Marquez conserva a modéstia e a simplicidade dos tempos em que a bicicleta só lhe servia para fazer passeios na sua terra. Ainda nisto José Marquez revela as suas qualidades de verdadeiro desportista. Marquez tem sabido conquistar simpatias com seu ar singelo, com sua conduta disciplinada, com seu trato afável e amizade pelos adversários. Os dirigentes estimam-no sinceramente. E os adversários admiram-no. José Marquez não se envaideceu com as vitórias, respeitando os adversários menos felizes e reconhecendo-lhes o valor. Por isso ele é hoje um nome querido por toda a gente do desporto. Após o belíssimo comportamento de José Marquez na 6ª Volta a Portugal, colhemos do brioso corredor algumas impressões que Os Sports arquiva com desvanecimento. José Marquez corpo miúdo mas alma de grande atleta confiou-nos uma série de ideais interessantes – que são belas fotografias da Volta a Portugal. As suas primeiras frases: — A “Volta” deste ano foi, sob o ponto de vista desportivo, a melhor possível. Julgo, mesmo, que a 6ª “Volta” foi muito superior, sob este aspecto, às outras em que participei. Lançamos uma pergunta: — E a organização satisfez-lhe, sinceramente? José Marquez sem hesitação: — A organização da prova deste ano foi modelar. Mas devo confessar que a organização das provas de 1933 e 1934, em que também participei, me agradaram igualmente. Nunca tive nada a reclamar. Numa afirmação interessante: — E nunca terei, pois a “Volta” é preparada conscienciosamente e organizada com a ideia de bem servir o ciclismo. Faço essa justiça – e todos deveriam fazer. Procuramos, agora, conhecer a opinião de Marquez sobre a sua classificação. O corredor de Campo de Ourique declara: — A minha classificação podia ter sido melhor se os furúnculos não me tivessem atormentado. Isto não quer dizer que eu vencesse, mas somente que teria chegado a Lisboa com menor diferença de Cesar Luiz. Reconheço que Cesar é um grande ciclista e a vitória que obteve está certa. Foi mais feliz do que eu, mas a felicidade também faz parte da prova. A vitória de Cesar foi regularíssima.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
— Se o nosso ciclismo progride, se os nossos corredores revelam qualidades, entende que deveremos participar nos Jogos Olímpicos? — Em minha opinião o ciclismo deve fazer-se representar nos Jogos Olímpicos de Berlim. Temos gente que, bem preparada, pode fazer boa figura. Arriscamos: Se o Marquez for escolhido... José Marquez não deixa concluir a frase e responde: — Se merecer a honra de ser indicado, preparar-me-ei com todo o entusiasmo e vontade, de maneira a conseguir a melhor forma. Satisfeitos com a resposta, mudámos o rumo à conversa e interrogamos: — Qual o dia mais alegre da sua carreira de ciclista? — O dia em que venci o campeonato de Portugal de fundo. É um dia que jamais esquece... — E o mais triste? O rosto de Marquez ensombra-se por momentos. Adivinhamos a luta que se trava no espírito do grande campeão... Mas José Marquez recompõe-se rapidamente e responde com amargura: — O dia mais triste da minha vida desportiva foi o da etapa de Portalegre ao Fundão... Conduzimos Marquez para outro assunto: — Além do ciclismo, interessa-se por outros desportos? — Joguei football e parece que não era desajeitado no lugar de interior esquerdo. Gosto de football e de luta greco-romana. Sempre que posso assisto a espetáculos destes desportos, mas, como vivo longe, isso raramente me é permitido. E fazemos agora a última pergunta: — Tem projetos sobre a sua atividade como ciclista? — Os meus projetos são bem simples. Trabalhar sempre, aperfeiçoarme e disputar as provas com o maior entusiasmo. Este ano é possível que ainda participe nalgumas provas. E para o ano continuarei a correr fazendo o melhor que puder.
Entrevista publicada no Mensageiro do Ribatejo (1935) Esta entrevista é anunciada pelo título “José Marquês: 2º classificado da ‘VI Volta a Portugal’ em bicicleta”. Diz o texto: Há muito tempo que germinava no nosso cérebro a ideia de ouvir José Marquês, o ciclista de formidáveis recursos que revolucionou a velocipedia nacional com suas médias quilométricas, que fizeram ruir estrondosamente alguns “records” antigos.
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E, no passado dia 2, lá fomos em busca do Marquês à sua terra natal: Vila Chã de Ourique. Chegamos. Vila Chã é uma agradável povoação recostada numa pequenina encosta, ladeada por pinhais e vinhedos, que lhe dão um tom de beleza, a beleza característica e predominante do arvoredo. Lá tem também o seu monumento de linhas sóbrias e firmes a mostrar a sua originalidade e as suas glórias. Vila Chã, com o seu sossego, com as suas casinhas muito brancas, com o modo agradável e hospitaleiro de sua população, tem o condão de atrair quem lá vai e o jornalista, por momentos, esqueceu-se de sua missão, para se abandonar nessa tebaida tão agradável, aos seus encantos, como bálsamo das suas atribulações. Dirigimo-nos à casa do sr. Leonardo Caetano, a quem, por amável deferência do nosso prezado amigo sr. Manuel Ascenso, tínhamos sido apresentados. A adega estava aberta. Entramos. Perguntamos por ele. Não estava, mas não se demoraria, disseram-nos. Entretanto, fomos colhendo as primeiras notas para a nossa reportagem: a adega é vasta, recheada de pipas, tendo também algumas talhas para azeite e depósitos subterrâneos; por detrás tem o quintal, que é um mimo – todo flores. Em tudo se adivinha um espírito de verdadeira organização. Daí a pouco Leonardo Caetano chega. Trocam-se os cumprimentos de estilo e ele diz-nos: — O Marquês não está em minha casa, mas nós vamos procurá-lo. E lá fomos em sua demanda. Não custou a encontrar. Estava rodeado de admiradores numa oficina de latoeiro, em palestra despreocupada e vulgar. Juntamente com Leonardo Caetano, entramos, e ele apresenta-nos, dizendo a que íamos. Como tem que se retirar, diz-lhe: — Olha, oh Marquês, é melhor ires com este senhor para o meu escritório e deixem-se estar lá à vontade. E como Leonardo Caetano ordenasse, nós cumprimos e lá fomos para o escritório, que ficava situado na adega a que fiz referência. Acompanha-nos também o sr. António Nunes Barata e todos três entramos. O escritório sobriamente mobilado, denota que pertence a uma pessoa sempre preocupada com os seus negócios. Pelas paredes tem alguns quadros, mas um há que me prende mais a atenção: é Leonor de Caetano com toda a família. Marquês senta-se numa cadeira, recosta-se e amável, com toda a franqueza, diz-nos: — Pode perguntar, estou às suas ordens.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
O assunto mais óbvio seria a Volta a Portugal, mas já tanta coisa se tem dito, que haverá mais para perguntar? No entanto, disparo a primeira pergunta: — Diga-me Marquês, você quando na primeira etapa na “Volta” arrancou para aquele formidável sprint de 40 quilómetros, fê-lo com confiança absoluta de vencer ou foi à sorte? E ele franco, modesto, responde-me: — Atirei-me à sorte, mas depois vi-me destacado e não abrandei, segui sempre no mesmo andamento com a ideia fixa na vitória. — A furunculose foi o pior inimigo que você teve na “Volta”, não é verdade? — Foi, sem dúvida, e apoquentou-me no percurso pior, numa estrada terrível, cheia de covas, onde a máquina tinha uma trepidação irritante, fazendo-me sofrer horrivelmente. E Marquês, com uma sombra de tristeza a toldar-lhe o rosto, mostranos as cicatrizes de dois furúnculos, que mais o fizeram sofrer e diz-me: — Depois destes, já tive mais de duzentos, mas são tratados cuidadosamente logo de início. Aos outros, na “Volta” o que me fez pior foram umas aplicações elétricas que um médico me deu. — O delegado do seu club devia ter-lhe valido de muito, afirmei eu. E ele continuando: — Sim, se não fosse ele e o médico da caravana, sr. dr. Salazar Carreira, nunca teria chegado ao fim. — Depois de perder a camisola amarela, pensou alguma vez em rehavê-la? — Não senhor, não pensei em rehavê-la, logo que a perdi, sem que houvesse um grande azar para o seu possuidor, porque ele também tinha valor para a defender e é preciso contar sempre com o que os outros andam. E disse isto com a maior naturalidade, sem expressões estudadas, com toda a sinceridade. Que grandeza de caráter a deste rapaz que, sendo um grande campeão, sabe ser também um grande desportista. E continuando ainda como se falasse consigo próprio: — Tive pena foi da “Volta” não durar mais uns oito dias, talvez a classificação se modificasse, apesar do Cezar andar com uma sorte formidável. Ele teve tanta sorte que naquela tirada em que perdeu seis minutos até teve a felicidade de se lhe partir o espigão do selim, podendo assim mudar de máquina e produzir muito mais rendimento, o que não podia fazer na outra por ser muito pequenina. — Quais são para si, os melhores homens que temos no ciclismo? A resposta é de certa responsabilidade e Marquês não quer melindrar nenhum dos briosos camaradas de tanta pugna desportiva. Por isso depois de uma grande pausa em que reflete demoradamente diz: — Para mim devem ser os que se classificaram melhor na “Volta”. 86
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A resposta ainda não me satisfaz e insisto: — Até que altura da classificação? Nova pausa, nova reflexão e acaba por responder: — Até o décimo. — Qual a etapa mais difícil que teve? — Foi a do Fundão, pois queria andar e não podia, as dores não mo deixavam fazer. É uma etapa de que me recordarei eternamente. Marquês recosta-se na cadeira e a mesma tristeza de há pouco notase-lhe no rosto, mas mais forte, predominante, o olhar melancólico gira sem rumo pelo interior do escritório. Adivinho a amargura que invadira a alma daquele rapaz atleta forte, que foi vencido pela traição da sua doença e mudo de assunto, perguntando-lhe: — Acha boa a iniciativa das “oito voltas ao Cartaxo” e que ela deve ser mantida? — Absolutamente, porque se noutras terras sem corredores se organizam boas provas, o Cartaxo, terra de corredores, tem a responsabilidade de o fazer. Mas nem todos os cartaxeiros assim o compreendem nem sabem avaliar o formidável esforço que o “Concelho do Cartaxo” tem feito para que as “Oito voltas” sejam um facto. — Em quantas provas participou este ano e quantas venceu? — Até agora participei em dezassete ou dezoito e venci oito. Já percorri este ano, com provas e treinos, dez mil quilómetros. — Quem é o seu orientador nos treinos? — Sou eu e não me dou mal. — Faz ginástica? — Não, não faço. Durante o verão treino na bicicleta e o inverno aproveito-o para descansar. Lembro-me que Marquês é também um grande valor na pista e pergunto-lhe: — A pista tenta-o? — Sim senhor, absolutamente, porque é aí que se pode apreciar e avaliar o esforço e o valor de um corredor. É para lamentar, é que cá não as haja e que os organizadores tanto se esqueçam disso, porque se assim não acontecesse, se houvesse pistas e provas era unicamente a que me dedicava. — Porque não foi este ano às 24 horas no Porto? — Porque no meu club não chegamos a um acordo. Gostava imenso de lá ir; era uma prova que me arrebatava. E com tristeza: Tive pena, mas, deixá-lo, fica para o ano. As horas vão passando discretas e velozes e eu sei que Marquês tem que sair, por isso, entro na fase final desta palestra, perguntando-lhe:
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— Teve prazer ao ter conhecimento do convite que foi feito à U.V.P. para que Portugal se fizesse representar por uma equipa ciclista na próxima volta à França? — Um duplo prazer, como português e como ciclista... E eu, quase sem o deixar acabar, digo-lhe: Deve ter um triplo, pois foi você que com as formidáveis médias motivou esse convite. Marquês confunde-se. A ele não lhe agradam elogios e eu quase me arrependo de o ter feito e responde-me: — A mim não, porque os outros também me acompanharam e demais, não fiz nada que qualquer não seja capaz de fazer. Depois, sobre a ida à França, diz: — Naturalmente, não iremos lá em virtude de naquela prova só correrem profissionais e nós sermos amadores. — E os Jogos Olímpicos, tem mais fé de ir? — Aí os portugueses devem ir. Eu não sei se vou; se for hei-de pôr o melhor do meu esforço para que o nome do desporto português seja guindado à altura que todo aquele que sente bem o nome português, o deseja. Levanto-me. É chegada a hora de José Marquês se retirar e eu dou por terminada a entrevista. — Não deseja mais nada? – pergunta ele amável e delicadamente. — Não José Marquês, não desejo mais nada. As impressões que colhi já chegam para as transmitir aos desportistas de Vila Franca, onde você conta bastantes amizades. Eu e o “Mensageiro do Ribatejo” estamos à sua disposição. E Marquês, o vencedor moral da “VI Volta a Portugal” em bicicleta, que chegou ao fim coroado com a auréola de grande vencido, despede-se de mim com seu sorriso habitual aquele sorriso que tanta vez o acompanha na vitória.
Entrevista ao Jornal de notícias (1935) É do Jornal de Notícias o texto abaixo, assinado por A. M., ilustrado com uma foto de Marquez, e intitulado CICLISMO. José Marquês a maravilha do ciclismo nacional fala ao JORNAL DE NOTÍCIAS – nas vésperas do XIV Porto-Lisboa e do “VIII Giro do Minho”. – Palavras que deixam transparecer o patriotismo de um grande português. – A grande exposição de prémios para o “VIII Giro do Minho” nos Armazéns Nascimento – 10.000 escudos de prémios.
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Disseram-nos: — José Marquês está no Avenida. Acompanhe-nos, porque temos gosto em o apresentar. Conhecemos José Marquês em posição de destaque desde que disputou as “24 horas” do Norte. Marquês foi escalando a torre de marfim mas, apesar de se colocar lá no alto, não perdeu a modéstia que tanto nobilita as pessoas de destaque. É preciso entrevistá-lo: Pois sim!... e resignados a representar mais uma vez o jornal, entramos no elevador do Hotel Avenida. Fomos deparar com o nosso campeão nacional recolhido no seu quarto. Sabem os nossos ciclistas, os nossos directores de ciclismo, os jornalistas de fretes, o que fazia a última maravilha do ciclismo nacional?...Tratava da sua bicicleta 4 dias antes da prova. Se fosse com os nossos “ases”, que aconteceria? Estavam na ginginha, no “João do Grão”, nos tremoços da Betesga, ou a pescar trutas, no Terreiro do Paço. José Marquês, colhido de surpresa, não nos reconheceu ao primeiro golpe. “Jornal de Notícias” ... estas duas palavras foram como o sino de rebate na memória descuidada do “ás”, que no cérebro esconde um desejo: vencer para orgulho de Portugal. O nosso sistema entrevistador – tudo em nós é moderno, futurista, menos a idade, e assim perguntamos e lubrificamos as respostas: — Sou da região do Cartaxo – viveiro de “ases” – Nicolau, Trindade, Cesar Luiz, etc. – resido em Vila Chã de Ourique. Tenho 26 anos e envergo a equipa do Clube Atlético Campo de Ourique, a agremiação que traduz a expressão mais radicada do sacrifício pelo desporto. José Marquês sempre sorridente, com o rosto a traduzir franqueza, faznos recordar o enfant gaté das “24 horas” do Porto; o valoroso lutador na “Volta a Portugal” e o campeão nacional dos 100 quilómetros. A uma pergunta nossa, prenhe de sincero entusiasmo responde-nos: — Não conheço o valor dos corredores franceses, mas creia que tanto eu como todos os corredores portugueses, empregaremos todos os esforços, converteremos o espírito em sangue para alimentar o nosso poder em demanda da vitória, a maior satisfação dos portugueses, creio bem. No semblante do glorioso “ás” passou como num “écran” a velocidade da sua máquina... quase a 39 quilómetros à hora. Todos sabem: Foi José Marquês que fez perder o medo às grandes marchas. Tanto nas provas de quilometragem prolongada, contra relógio ou em corrida rápida, o nosso “ás” fala, ou antes: as suas pernas 89
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Diz o texto:
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ágeis funcionam num cérebro em perfeita regularidade. Enquanto admirávamos o “ouriquense”, que tinha a seu lado José Braz, outro valor que desponta, José Marquês continuava na fiscalização da sua montada; entretanto, Braz escondia a sua no guarda-roupa. José Marquês, voltado delicadamente para outro lado, responde-nos francamente: — TENCIONO DISPUTAR O VIII GIRO DO MINHO QUE O “JORNAL DE NOTÍCIAS” PATROCINA. O simpático corredor, sem aquela vaidade, apanágio de campeões de algibeira, põe-nos à vontade e não se aborrece com o nosso “tiroteio”. — Fui ver os prémios do “Giro do Minho”. Importante, o que há de melhor no país. Já sei que o norte sabe premiar o esforço do corredor. Gosto muito do Porto e se não vim para cá foi porque precisamos olhar para o dia de amanhã. O “Campo de Ourique” é um clube amigo dos seus atletas e não me dou mal por lá... Eram horas de jantar e como quando falamos de ciclismo esquecemonos do tempo e das horas, despedimo-nos com um abraço; não fosse às vezes o campeão nacional não chegar a tempo de alinhar na prova de amanhã. A. M.
Breve biografia de José Marquez Antes de apresentar a entrevista com o título: “José Marquez, glorioso vencido”, atrás transcrita, Alberto Freitas traça como apresentação uma breve biografia do atleta, anunciada pelo subtítulo que aponta para alguns aspectos da vida desportiva de José Marquez: A primeira bicicleta –Vitória sobre Nicolau – O ingresso no Benfica – Interregno – Reaparição... mas pelo Sporting – Um salto para o Campo de Ourique – A 6ª Volta foi a melhor de todas – As etapas contra-relógio – A Volta a Portugal e sua influência no progresso do ciclismo – Os jogos olímpicos – O dia mais alegre e o dia mais triste – Projectos.
Diz o texto: José Marquês, o glorioso vencido da 6ª Volta a Portugal,é um corredor que deixa bem vincado o seu nome na grande prova. O brioso ciclista do Club Atlético Campo de Ourique assinalou a sua passagem pela competição deste ano por uma forma bastante brilhante, digna dum campeão de verdade. José Marquez chegou a Lisboa vencido? Na realidade – sim.
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Mas pode classificar-se de vencido um corredor que se comportou como José Marquez, um homem que animou a prova desde a partida à chegada, um atleta que demonstrou tanto brio, tanto espírito desportivo, tanta abnegação e tão grande valor? José Marquez é um glorioso vencido, mas é, ao mesmo tempo, um vencedor – porque a sua prova na 6ª Volta a Portugal lhe dá direito a esse título. Nem só a vitória enobrece o atleta; a derrota é, muitas vezes, tão bela como o triunfo. E vencedor não é só aquele que alcança primeiro o traço branco da meta; há vencidos que mormente são vencedores. Vitória moral – é uma expressão que o uso demasiado estragou. Mas neste caso de José Marquez não pode haver frase que se ajuste melhor à idéia, que traduza mais fielmente o comportamento deste rapaz, que durante os quinze dias da “Volta” só granjeou amizades e simpatias. O triunfo, que assenta bem a Cesar Luiz, ficaria igualmente bem a José Marquez. A Fatalidade, porém, não quis que José Marquez chegasse a Lisboa em vencedor absoluto. Mas que importa que o bravo corredor de Campo de Ourique não tenha tido à sua chegada a Lisboa uma coroa de louros a cingir-lhe a testa, se ele provou valor às mãos cheias, energia da mais rija têmpera, alma de lutador e, acima de tudo, cérebro pensante, vontade indomável e todas as qualidades que fazem o verdadeiro atleta? José Marquez partiu de Lisboa entre os favoritos da Volta a Portugal e levando na sua bagagem brilhante coleção de vitórias. O corredor de Campo de Ourique, tendo feito uma época de relevo, abalou para a “Volta” em busca do triunfo que melhor coroaria essa época, que seria o melhor epílogo duma temporada brilhantíssima. Não pode chegar a Lisboa em vencedor, não pode concluir a sua campanha de 1935 com a vitória que melhor lhe ficaria, mas nem por isso o prestígio do campeão foi abalado, nem por isso José Marquez deixou de ser um grande atleta. A sua actuação na “Volta” deste ano chega e sobeja para marcar o seu valor, para firmar os seus créditos. Portador da Camisola Amarela durante oito etapas, ele só despiu o cobiçado distintivo quando fisicamente se inferiorizou, quando a doença lhe bateu à porta. Durante algumas jornadas José Marquez lutou desesperadamente contra a doença; por momentos, o atleta parecia ir ser vencido, esfarrapado pelo mal, dominado pela infelicidade. Mas José Marquez reagia, fazia um esforço supremo, chamava todas as suas energias, fincava os dentes – e continuava a sua marcha, por vezes marcha de martírio, verdadeiro Calvário desportivo.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez conseguiu sair vencedor desta luta titânica e quando seus padecimentos se curaram, ainda que incompletamente, o brioso corredor lançou-se decididamente à conquista do terreno perdido, numa ânsia louca de rehaver a preciosa malha que Cesar Luiz lhe arrebatara. Mas o atraso era grande e José Marquez apesar de toda a sua vontade, de toda a sua energia e alma de atleta não pode reconquistar essa camisola que fora o seu sonho de tantas noites e a sua preocupação de todos os dias. A caminhada de José Marquez para Lisboa foi uma caminhada triunfal... Por toda a parte se ouvia gritar: Marquez! Marquez! Apareciam os corredores numa povoação e logo se ouvia perguntar: qual é o Marquez? E vinham informes sobre o desenrolar da corrida ... Marquez vai à frente... Marquez “puxa”... Marquez destaca-se.... Marquez “sprinta”... Marquez chega primeiro... meiro... A 6ª Volta a Portugal terminou consagrando definitivamente este corredor, verdadeiro campeão, ciclista de técnica apurada e dotado de qualidades de autêntico atleta. A primeira bicicleta José Marquez nasceu em Vila Chã de Ourique a 8 de junho de 1910, contando, pois, 25 anos. Filho único, seus pais – Manuel Marquez e Maria Santa Marta – adoravam-no. Faziam-lhe todas as vontades, adivinhavam-lhe todos os desejos. Aos 12 anos José Marquez, que lia nos jornais as proezas dos corredores da época, começou a interessar-se pelo ciclismo. Gostaria de ter uma bicicleta – disse a seus pais. E estes fizeram-lhe a vontade, comprando-lhe uma máquina, mas com a condição de não participar em provas. Durante quatro anos o rapaz limitou-se a passear na sua bicicleta, causando inveja aos outros rapazes da terra a facilidade com que ele pedalava. Todas as tardes fazia o seu passeiozito e aos domingos era certa uma visita aos arredores de Vila Chã. Mas José Marquez já não se contentava com os passeios. Sentia disposição para correr, para medir forças com os ciclistas, cujo nome andava pelos jornais. E, em 1927, contando apenas 17 anos, José Marquez decidiu-se a participar numa prova. A família tentou opor-se, mas José Marquez estava decidido a não voltar para trás.
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O ingresso no Benfica Ainda em 1927, um amigo lembrou-lhe a conveniência de ingressar num club da capital. E propôs-lhe o Benfica. José Marquez aceitou o convite com alvoroço. Na prova Lisboa-Tomar vestiu pela primeira vez a camisola vermelha do Benfica. Nicolau representava Carcavelos e na corrida participaram outros corredores de nome firmado. José Marquez não foi feliz, classificando-se em 11º lugar. E Nicolau desistiu. Mas o corredor de Vila Chã de Ourique não desanimou. Que diabo, não tivera sorte, para outra vez seria... E participou depois nos 100 quilómetros clássicos. À chegada, José Marquez era 11º, tal como na primeira prova. Interregno As classificações do jovem corredor não agradaram ao Benfica. E José Marquez começou notando desinteresse à sua volta. Por outro lado, a família insistia para que deixasse de correr. E tudo isto junto levou o rapaz a desistir de disputar provas oficiais. Despediu-se do Benfica e voltou aos passeios dos tempos da sua primeira bicicleta. José Marquez estava desiludido? Talvez não; estava, antes, aborrecido. Entrara no Benfica com a alma a transbordar de esperança e afinal... 93
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Vitória sobre Nicolau A corrida efectuou-se em Vila Chã de Ourique. Na véspera da prova, José Marquez quase não dormiu. No seu cérebro baralhavam-se bicicletas, camisolas, nomes... Chegou, finalmente, o momento da partida. Ao lado do rapazito de Vila Chã alinharam, entre outros, José Maria Nicolau e Ezequiel Lino, dois nomes que mais tarde tanta popularidade haviam de ter. O grupo de concorrentes lançou-se na estrada. Cada um procurava a vitória. Marquez lutava animosamente ao lado de Nicolau e Ezequiel. Mas, em determinada altura, o estreante destacou-se, ganhou avanço e passou em vencedor a linha de chegada. Nicolau foi segundo e Ezequiel terceiro. A vitória de José Marquez foi coisa falada na terra. Durante uma semana era o assunto obrigatório de todas as conversas. A família, intimamente, estava satisfeita com o êxito do rapaz, mas não queria demonstrar o seu agrado... E afirmava que tinha sido a primeira e a última vez que ele correra... Mas José Marquez tomara gosto à bicicleta – e continuou a participar em provas efectuadas em Vila Chã de Ourique e arredores.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Durante algum tempo, Marquez divorciou-se do movimento ciclista. Não lia jornais para não saber das proezas dos corredores, para não ter pena de não estar entre os que haviam sido seus companheiros. Mas, no princípio de 1933, a saudade do ciclismo pode mais do que tudo. O eco das vitórias de Nicolau chegou até José Marquez. Entusiasmou-se. E a idéia de voltar a correr não mais o abandonou. Um dia a caminho de Lisboa encontrou Alfredo Trindade. Conversaram. Falaram de ciclismo. Discutiram corridas. E José Marquez confessou que lhe agradaria voltar a disputar provas. Trindade não deixou fugir a oportunidade. Convidou Marquez a ingressar no Sporting. Reaparição... mas pelo Sporting José Marquez aceitou o convite. Dentro de pouco tempo vestia a camisola verde branca decorada com o leão. Disputou algumas provas com pouca felicidade. E participou na Volta a Portugal, classificando-se em 8º lugar. José Marquez não desanimou com estas contrariedades. Continuou a trabalhar com entusiasmo e fé. Veio a época de 1934. Marquez partiu novamente para a Volta a Portugal. E chegou a Lisboa em 10º lugar. Disputou os 100 quilómetros clássicos e terminou em segundo lugar. E nas “24 horas do Porto” foi vencedor em companhia de Alfredo Trindade. Boa temporada, sem dúvida. Mas José Marquez sentia que as suas classificações não interessavam verdadeiramente ao Sporting. À sua volta havia indiferença. Nova desilusão... Marquez pensou, primeiro abandonar definitivamente o ciclismo; mas pensou melhor, reconsiderou e resolveu não deixar o desporto que desde miúdo o atraíra. O melhor seria deixar o Sporting e procurar club em que se sentisse mais à vontade. E como desde há muito tempo sabia que o Campo de Ourique dispensava aos seus corredores o maior carinho e amizade, resolveuse a ingressar nessa coletividade. Um salto para o Campo de Ourique José Marquez passou, pois, ao Club Atlético de Campo de Ourique sendo recebido de braços abertos. Foi no Campo de Ourique que José Marquez se revelou, verdadeiramente, um grande campeão. Foi vestindo a camisola branca e vermelha da simpática coletividade que Marquez demonstrou a sua alta classe de ciclista e provando, ao mesmo tempo, todas as qualidades de autêntico atleta. Em Março, José Marquês disputou os 50 quilômetros clássicos.Venceu e bateu o “Record” com o tempo de 1h. 32m. 50s.
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Boa estréia. Marquez animou-se. A forma era boa. E o jovem corredor registou novo êxito nos 100 quilómetros em que triunfou em tempo “Record”: 3h. 2m. 57s. O nome de José Marquez começou então a ser admirado. Marquez era um campeão! Nos 100 quilómetros contra relógio, Marquez realizou uma prova fantástica, fazendo o percurso em 2h. 42m. 12s. e revelando-se o nosso melhor especialista deste gênero de corrida. Em junho disputou a prova Coimbra-Tábua e classificando-se em 6º lugar. E no dia 16 do mesmo mês obteve a vitória no Campeonato Distrital de Fundo, fazendo os 100 quilómetros em 3h. 3m. 42s. E logo a seguir obtém estas classificações: 1º em 1h. 40m. nos 50 quilómetros da Figueira da Foz; 3º na corrida Vila Moreira-LeiriaVila Moreira; 10º nas 12 Voltas à Gafa; 2º nas 10 voltas à Covilhã; 2º Grande Circuito da Mealhada; 7º no Porto-Lisboa; 1º no Circuito da Bairrada. A mais bela vitória conquistou-a no Campeonato Nacional de Fundo, em que cobriu os 100 quilómetros em 3h. 4m. 11s. Depois – foi a partida para aVolta a Portugal, a corrida que popularizou o nome de José Marquez, a prova que o consagrou definitivamente como um grande campeão e como o melhor ciclista português.
A história do burro
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sta história deve-se ter passado em 1935, no ano em que o Clube Atlético Campo de Ourique quase ganhou a Volta a Portugal com José Marquez (2º lugar), ou antes, conforme se pode deduzir de alguns cartões postais e cartas enviados por admiradores do atleta. Consta que, se, no dia da disputa ciclística, um burro zurrasse, a vitória seria do Clube Atlético Campo de Ourique. A história detalhada do fenômeno está on-line no seguinte endereço: http://caco.com.sapo.pt/burro.htm (acesso: 5/12/2011) e diz o seguinte: Esta História passou-se em 1938, foi no ano em que o Campo de Ourique ganhou a Volta a Portugal.Por trás da sede do clube, havia uma quinta com animais e entre eles um burro. Ora os ciclistas tinham uma fé que era, que se o burro zurrasse, eles ganhavam a etapa. E sempre assim aconteceu. Pois bem, na véspera da etapa, o Salazar fez uma comunicação ao país e nesse dia o burro não zurrou, deixando os ciclistas e todos os aficcionados pelo ciclismo ligados ao C. A. C. O. apreensivos. No dia seguinte, de madrugada, lá foram os ciclistas, um pouco desanimados, é claro, todos num carro típico, muito velho, o Vampiro, que se usava na altura para transportar os atletas. Já muito depois de se irem embora, às 10 da manhã o burro zurrou finalmente, e um director da altura, apressou-se a enviar um telegrama para o Benvindo Cardoso, que era um dos organizadores da Volta, e o responsável pela equipe do C. A. C. O., que dizia textualmente: “O burro zurrou stop a vitória é nossa”. E de facto foi! Agora, imagine-se o espanto da rapaziada da altura quando, mais tarde, na sede do
Campo de Ourique, aparece a PIDE1 com uma cópia do telegrama na mão, a perguntar quem era o responsável pelo envio daquilo. Na opinião deles, era ao Salazar que aquela mensagem se referia, ou seja eles pensavam que o burro era direccionado ao próprio Salazar! O Benvindo assumiu as responsabilidades e foi logo preso. Ainda por lá ficou uns dias, até que aquele imbróglio se resolvesse.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Muitos dos cartões enviados a José Marquez fazem referência ao burro.
Aquarela de autoria desconhecida
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A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) foi criada em 1945. Antes dela, havia a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), uma polícia política de caráter secreto, criada em 1933. Observação da autora.
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Escritos de admiradoras(es)
Carta de M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio 4 - 8º - 935 Amigo José Marquez És bem digno do apelido que tens! A lhaneza da tu[a] conducta como adversário ciclista elevam à máxima potência tal apelido, apresentando-te como descendente duma linhagem aonde ficou personalizada a “Lealdade”. Urrah! por ti e pelo teu club! Este porque se viu representado com valentia, e tu porque o soubeste representar com valor, coragem, brio e honrosa lealdade. Perdeste a Camisola Amarela, devido à má fé do seu novo possuidor, mas em contra-partida, ganhaste-a com leal luta e defendeste-a sempre lado a lado dos teus mais perigosos adversários, sem te encobrires com a poeira das estradas. És verdadeiramente fidalgo! Pedimos-te que com tática, prudência, cálculo e boa vontade pelo teu club, deligencies rehaver o símbolo que tão deslealmente te foi tirado, o qual não deveria estar na posse do seu isolado (com poeira) possuidor. Se o azar não respeitar a fidalguia dum Marquez totalmente dito, não desmoreças, muito embora chegasses em último lugar, o que será impossível. Coragem!
Um abraço para V. e mais quatro de cada um dos vossos amigos: M. J. Estevam [?] e R. J. Ignacio para os leais companheiros de primeiro plano:Valerio de Sousa – Filipe de Melo – Ezequiel Lino e M. Aguiar.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Viva Portugal! e Viva o Atlectico Club de Campo d´ Ourique
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
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Cartão postal de Benvindo Cardoso1 Lisboa, 29/8/35 Caro Marquez
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Para lhe passar a neura envio-lhe este postal. Como se [percebe?] que um vencedor, um desportista, um homem que todo o país olha com simpatia, seja neura. Isso não é possível!!! Calma, alegria, boa disposição é que é necessário. Uma má disposição é a pior inimiga que o homem tem, principalmente um atleta. Alegria, muita alegria. Perdeu a camisola!! Paciência, depois a recupera. O que é preciso é não estragar energias. Agarrar-se aos mais próximos adversários e, quando puder, fugir dar-lhes [claro?] se tiver forças para isso. Não esteja pois triste, porque perder e ganhar é desporto. Perde-se hoje! Paciência ganha amanhã. Um abraço do amigo certo Benvindo Cardoso P.S. Alegria – Boa disposição – Calma heis as três coisas de que necessita para ganhar a VI Volta.
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Benvindo Cardoso era o organizador da 6ª Volta a Portugal.
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Escritos de admiradoras(es)
Cartão postal de [?] José Marquez Oxalá Deus e o “Burro” te acompanhem até ao fim. Não deixes fugir a Camisola Amarela e defende-a com brio para tua glória e do teu Club. Deste cantinho de Portugal desejo-te mil felicidades e que saias vencedor desta brilhante Prova. Se fosse rapaz, acompanharia a Volta, dispensando-vos todo o meu entusiasmo! Pela 6ª Volta e por ti: Hurrah!!! [?] 30 – Agosto – 1935 P.S. O burro zurrará sempre!!!
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
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Cartão postal de um[a] desconhecido[a]
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Mestre “Burro” foi surpreendido pela astúcia dos fotógrafos Arnaldo Catarim e Antonio Gomes, quando lia a estupenda média alcançada pelo seu querido pupilo “Zé Marquez” na etapa de “Loulé-Tavira”, e que depois de surpreendido nos confessou que a taça “Stadium” estava já ganha e faria o possível para não desamparar o seu querido pupilo para que ele conservasse até o final o “Maillot Jaune”. E estáse a ver o resultado? Hein! Felicidades a todos e boa viagem! Salvé Marquez!
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Carta da “sempre desconhecida pequenina” Marquesinho Não leve a mal os simples versos que lhe envio, mas quero que veja como há quem pense na sua Triunfante Vitória. Era alegria para muita gente, especialmente para aquela que já se confessou sinceramente ansiosa pela sua Vitória. Aceite os leais Parabéns e atenda o pedido que lhe faz uma desconhecida “Lute para vencer mostrando nisto o seu eterno e escondido valor”. Far-me-á a vontade? Ignoro por completo, mas espero poder gritarlhe bem alto “Avança Marquesinho”.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Da sempre Desconhecida Para ser cantado com a marcha de Lisboa Dedicado ao grande Ciclista José Marquez (Estribilho) José Marquez Não deixes desta vez Ganhar Cesar Luiz esse tão falado rival José Marquez Pensa só uma vez Como é delicioso triunfar em Portugal I Coragem e ânimo é que é preciso E na boca um sorriso Bailando constantemente às raparigas E ouvindo as suas cantigas Perdoa a confissão De um coração Que em ti pensa noite e dia José Marquez meu amor Tu és a minha alegria Ao ver-te triunfador. (Estribilho) II José Marquez não percas a eterna esperança Não há tempestade sem bonança Quero ver-te sorridente e contente Marchando sempre à frente 110
O lugar que tu já ocupas agora Mostra o teu grande querer Escuta bem quem t´implora “Que só faças por vencer E não te deixes perder.”
Escritos de admiradoras(es)
Da desconhecida pequenina
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Ao ciclista José Marquez O recorde das etapas ganhas por v... causou sobremaneira entusiasmo no Norte, principalmente em Braga, a quem consideramos o campeão português, embora a vitória na volta não lhe coubesse. Sabemos que os furos o apoquentaram a [mando?], enquanto que ao homem da camisola amarela o protegeram. Porque se assim não fosse, convencido[s] estamos que José Marquez seria o vencedor. Não desanime pois, porque o Norte faz-lhe justiça. O César Luiz dá-nos uma nota discordante chorando, sempre que tem percalços. Já na volta do ano passado fez o mesmo, quando Izequiel o ultrapassou ao chegar à meta, que em Braga ficou com o pseudônimo de “chorão”, precisamente pela sua falta de persistência e serenidade; o ciclista que é ciclista luta e não chora, assim fazem Ildefonso e Filipe de Melo que consideramos entre Marquez os 3 melhores ciclistas portugueses. É notório que Nicolau e Trindade estão a passar as suas épocas. Avante pois José Marquez. Seu admirador angolano e colonial. Antonio Vieira Sousa [?] P.S. Aprecie o que há de bom por Angola.
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Escritos de admiradoras(es)
Cartão postal de Antonio Vieira Sousa [?]
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Carta de Delio Rodrigues “campeon gallego de ciclismo” Puenteareas 24 Marzo 1936 Sr. D. José Marquez “corredor ciclista” Muy señor mio: Yo gran admirador de V. por la gran actuacion en la pasada Vuelta a Portugal en la que se distinguió por su rapidez resultando por ello vencedor de la mayoria de las etapas, agradeceria infinito de V. me remitiese una fotografia dedicada la
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cual conservaré como recuerdo de el mas especialista de Portugal en pruebas contra reloj.
Escritos de admiradoras(es)
Aprovecho esta ocasion para saludarte con gran cariño. Suyo [?] S. S. Delio Rodrigues “campeon gallego de ciclismo” [t?] España pror[?] Pontevedra Puentareas Galicia
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Foto autografada de José Marquez
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Em 1936 e 1937
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m 1936 e 1937, não há Volta a Portugal.
A Guerra Civil rebenta na vizinha Espanha1 em julho de 1936. Portugal, por via diplomática, apoia a causa nacionalista-fascista de Francisco Franco. Os dois países chegam a assinar, em março de 1939, o Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol. Lembro-me de ouvir em casa comentários sobre a “candonga” praticada nessa época. José Marquez acaba de fazer 27 anos e permanece ligado ao ciclismo, ainda no Atlético Clube Campo de Ourique. No álbum de fotos e no seu acervo de recortes de jornal, há algumas poucas notícias sobre estes anos. Testemunha dessa ligação, por exemplo, é a capa da revista Stadium “(ano V – Lisboa – 20 de Maio de 1936 – Nº 223 – 1$00)”, que estampa a foto de José Marquez ocupando toda a página, com os seguintes dizeres: Confirmando a sua superioridade nas corridas contra-relógio, José Marquês o extraordinário campião nacional, arrancou no domingo um soberbo triunfo. Ei-lo, nas pedaladas derradeiras, subindo sorridente a Calçada de Carriche. (Foto Serôdio, executada com material ‘Ilford’).
1
Conflito oficialmente começado em julho de 1936 e terminado em 1 de abril de 1939, exemplarmente registrado numa tela de Pablo Picasso, conhecida como “Guernica”, que retrata esta cidade depois de ter sido bombardeada por aviões alemães em 26 de abril de 1937, tela apresentada pelo pintor na Exposição Internacional de Paris em 1937.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
[Embora não se tenha qualificado na prova de abertura, realizada no Porto,] no domingo seguinte, os 100 km foram contra-relógio e o José Marquês (Campo de Ourique), um especialista, campeão nacional, fez 2h. 50m. 11s., “dando um banho” (como então...não se dizia) de 5 minutos a Trindade, 7 a Filipe Melo, 8 a Nicolau.... Ao atentar-se nos tempos, surge a idéia do natural paralelo com as marcas que se alcançam agora, mas pondere-se também no que eram os ciclistas e, sobretudo, as estradas desse tempo. No domingo seguinte, 160km de contra-relógio por equipas mas só a equipa do Benfica não se desmembrou (3º, Nicolau...4º, Aguiar da Cunha... 5º, Aguiar Martins), porque José Marquês (Campo de Ourique) e Ezequiel Lino (Sporting) disseram adeus aos companheiros e ficaram 1º e 2º, mas com 7 minutos de diferença entre eles... [...]. [...E] no Circuito Lisboa-Tomar-Figueira-Lisboa, disputou-se o circuito em três etapas, ganhas por Marquês (Lisboa-Tomar),Trindade (Tomar-Figueira) e Aguiar Martins (Figueira-Lisboa) [...]. [...E] por fim, o Circuito das Beiras, a maior prova que se disputou em 1936, em seis etapas, três para José Marquês, uma para cada qual entre Joaquim de Sousa, Ildefonso e Trindade. [...]. [José Marquez era um] bom sprinter, especialista em “contra-relógio”, ganhou muitas corridas, muitas etapas de várias Voltas, foi “camisola amarela” várias vezes, mas nunca ganhou a Volta.
Em 1937, porém, José Marquez está de volta ao Sporting, conforme mostram as “carteirinhas de sócio auxiliar” do clube.
2
Carlos Pinhão foi um jornalista desportivo, um dos fundadores do Clube Nacional da Imprensa Desportiva em Portugal.
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Em 1936 e 1937
A temporada ciclística de 1936 será lembrada mais tarde por Carlos Pinhão2 numa reportagem intitulada “O ciclismo português há 50 anos”, publicada no jornal A bola. Jornal de todos os desportos, de Lisboa, em 4 de agosto de 1986, à página 16. Sobre José Marquez, diz o seguinte:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Diz ainda a reportagem de Carlos Pinhão que as provas disputadas no Porto, na pista do Estádio do Lima, em 1937, foram ganhas por José Marquez (Sporting). A legenda de uma foto de 1937 informa: “José Marquez, o novo campeão nacional de fundo sorri, confiado, no momento de iniciar a prova.” Outra legenda de uma outra foto de 1937 mostra “José Marquez, campeão de Portugal, de fundo, da categoria independente.” Possuo poucas informações da vida pessoal de meu pai durante este período. Sei apenas que era um frequentador assíduo do Parque Meyer e que conhecia todos os artistas da época (Beatriz Costa, António Silva, Nascimento Fernandes,Vasco Santana). O Parque Meyer, ao lado da Feira Popular, é na época a Broadway portuguesa. É um espaço que comporta vários teatros, especialmente, os teatros de revista, de cariz cômico, satírico e de crítica política e social, como o Teatro Maria Vitória (1922), o Teatro Variedades (1926), o Teatro Capitólio (1931), o Teatro ABC (1956). Este espaço, criado nos chamados “loucos anos 20”, foi pensado como pólo teatral de Lisboa e assim se firmou, tendo passado incólume pela censura da Ditadura Nacional e do Estado Novo, sob o regime salazarista, um 122
espaço artístico que haveria de sobreviver bravamente à rádio, ao cinema, ao futebol, à televisão. Era o único lugar onde se podia fazer, sob o véu do humor, crítica ao regime. Em outro mundo paralelo, em 1937, Álvaro Cunhal, comunista português, é preso e submetido a tortura pelo Estado Novo. O teatro e o ciclismo convivem, ao que sei, harmoniosamente na vida do atleta, mas esse convívio denuncia claramente o espírito crítico com que José Marquez se move. Não é um alienado em relação à política do país.
Em 1936 e 1937
Sei também que era um apreciador da pintura realista de José Malhoa. Haveria de levar-me mais tarde, no começo da adolescência, várias vezes às Caldas da Rainha para visitar o museu, onde está exposta a obra do pintor.
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No Brasil
E
m 1938, José Marquez recebe um convite da Federação Ciclista Brasileira para participar da temporada ciclística daquele país, junto com os colegas portugueses Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa. É ano de eleições presidenciais no Brasil, que deveriam se realizar no dia 3 de janeiro. Todavia, Getúlio Vargas1 antecipa-se e dá um golpe de Estado, instaurando (como Salazar e Franco) um Estado Novo e uma nova Constituição, que abre as portas a uma ditadura de feições fascistóides. O convite ciclístico, certamente, está entre as práticas de boa vizinhança entre os dois países. Tanto num, quanto no outro, as palavras “patriotismo” e “patriota” são caras a seus regimes e a seus defensores, palavras que têm o significado manipulado, na sobreposição e confusão entre o conceito de “pátria” e regime político vigente. O visto de entrada, datado de 23/4/1938, é emitido pelo Consulado do Brasil em Lisboa, conforme documento abaixo, que o mostra estampado na carta de Álvaro de Oliveira, Presidente da União Velocipédica Portuguesa (Federação Ciclista Nacional, fundada em 14 de dezembro de 1899, filiada na Union Cycliste Internationale, reconhecida como de utilidade pública,
1
Getúlio Vargas foi presidente da República do Brasil em 3 períodos: como chefe de um “Governo Provisório” de 1930 a 1934; depois, como presidente eleito de 1934 a 1937; e, por último, como presidente do Estado Novo, imposto com um golpe de estado, de 1937 a 1945, quando se suicidou.
agraciada com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo), sediada à Rua Barros Queiroz, 39, 1º, em Lisboa.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Esta carta, de 16 de abril de 1938, é dirigida ao Sr. Cônsul Geral do Brasil em Lisboa, informando sobre um convite feito ao corredor José Poucapena Marquez pela Federação Ciclista Brasileira, com sede no Rio de Janeiro, para tomar parte nas várias provas que ali se realizarão e pedindo a legalização dos documentos, ou seja, do visto, que recebe, assinado pelo cônsul adjunto brasileiro em Lisboa, Sr. Pityguar Fleury de Amorim.
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No Brasil
Chegado ao Rio de Janeiro, José Marquez logo recebe autorização da Prefeitura do Distrito Federal – Diretoria de Fiscalização, datada de 25 de maio de 1938, assinada por seu diretor, Francisco de Souza Dantas, – para transitar de bicicleta de corrida durante a temporada de ciclismo.
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A equipe portuguesa no Brasil é composta por José Marquez, Manoel de Sousa e Aguiar da Cunha. Pelas datas possíveis de recuperar, percebe-se que as primeiras provas da temporada ciclística brasileira são realizadas em outros Estados, começando no Recife, capital de Pernambuco, Estado do Nordeste brasileiro, passando depois à cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais, depois à cidade de São Paulo, no Estado do mesmo nome e, por fim, encerrando as competições, na cidade do Rio de Janeiro, capital do país, à época.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Nesta temporada ciclística brasileira, além dos portugueses e dos brasileiros, também estão presentes corredores do Uruguai.
Da esquerda para a direita: José Maria Trueba, José Guarniary e José Marquez
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No Recife
A capital pernambucana, graças ao esforço da Federação Ciclística Brasileira, assistiu ao espetáculo inédito de uma competição ciclística internacional. Reunindo ali a equipe portuguesa, composta dos pedaladores José Marquês, campeão de Portugal, Aguiar da Cunha e Manoel de Souza, e corredores cariocas, paulistas, mineiros e fluminenses, aquela entidade ofereceu aos pernambucanos oportunidade de presenciar um cotejo sensacional em que eram postos à prova o arrojo, a técnica e o espírito esportivo dos concorrentes. E o panorama do certame teve contornos magníficos, justamente porque, entre os adversários ocasionais, não se observou o menor deslize, portando-se, todos, como verdadeiros sportsmen, na luta emocionante pela conquista da vitória. Na primeira competição, realizada no dia 8, venceu Aguiar da Cunha, tendo o campeão português José Marquês, sido forçado a abandonar a pista por ter sua machina sofrido uma avaria. No segundo confronto, porém, o campeão rehabilitou-se, amplamente, vencendo, depois de um duelo sensacional com seus adversários.
As fotos menores são acompanhadas das seguintes legendas: “José Marquês comanda o pelotão, passando em uma das cabeceiras da pista”; “Os concorrentes em plena corrida”; “Torcedores e manifestações de entusiasmo animam os seus preferidos”.
2
O jornal A noite foi fundado e dirigido por Irineu Marinho, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
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No Brasil
Sobre as corridas no Recife, o jornal A noite2 de 22/5/1938, na página 4, traz a seguinte manchete: “O ciclismo internacional em Recife”. Em letras menores abaixo: “José Marquês, campeão de Portugal, vencedor da prova”. Do lado esquerdo, uma foto enorme de José Marquez na bicicleta. Várias outras fotos menores cobrem a página do jornal, acompanhadas de uma reportagem sobre a prova, a seguir transcrita:
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez de boné branco, ao centro, no Recife
No álbum de José Marquez, há ainda outras fotos: da viagem de navio que levou os corredores do Rio de Janeiro ao Recife e uma em que José Marquez conversa com alguém que, pela comparação de fotos, deve ser um diretor da Federação Ciclística Brasileira.
Em Juiz de Fora Sobre as provas em Minas Gerais, há também uma foto de Juiz de Fora, acompanhada por uma reportagem jornalística, transcrita abaixo: Demonstrando extraordinária perícia e condições physicas excellentes, José Marquês conseguiu ganhar a corrida com boa differença dos demais collocados, como já dissemos. Empolgante sob todos os aspectos a tarde sportiva que a Lyga Mineira de Cyclismo organizou para hontem, com a collaboração do Moto Club Minas Geraes, sob o patrocínio da Federação Cyclista Brasileira. Numerosa assistência se acotovelou ao redor da pista onde se desenrolou a sensacional prova de bicycleta.
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Em Juiz de Fora, José Marquez à frente
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No Brasil
O publico gostou e gostou muito da grande corrida internacional, tendo acompanhado com attenção e enthusiasmo o seu desenrolar, aplaudindo os corredores. José Marquês, o valente campeão de Portugal, demonstrou ser um notável cyclista, vencendo a grande prova com a differença de uma volta sobre o 2º collocado. A proeza do pedalador luso surprehendeu aos “fans” juizdeforanos, que viram em José Marquês um authentico corredor de bicycleta. A corrida internacional foi um espetáculo digno de figurar na história do Sport mineiro como um facto de valor e como um attestado do valor e do trabalho da entidade mentora do Sport do pedal em Minas Geraes. Depois de manter-se no pelotão algumas voltas, a uns 15 minutos do início, José Marquês arrancou espectacularmente e dentro de pouco tempo estava novamente no pelotão, com uma volta de dianteira, distância que guardou até o final, apesar de ter sua machina soffrido um acidente, o que obrigou a atrazar-se algum tempo, enquanto trocou de machina com seu companheiro de equipe Manoel de Souza, que por sua vez recebeu soccorro de Aguiar da Cunha, que havia abandonado a pista.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez conserta a bicicleta
Em São Paulo Sobre a corrida em São Paulo, há uma reportagem com o título garrafal: “José Marquês impôs-se a todos os adversários em S. Paulo”. Consta do texto: S. Paulo, 4 – (Pelo Correio, para o “Diário Português”) – Realizouse ontem nesta cidade a corrida de bicicletas com a participação da equipe portuguesa, cuja actuação se destacou, sobretudo a de José Marquês, campeão de Portugal, que impôs nitidamente a sua classe, vencendo a prova “Criterium”. Pela contagem de 10 em 10 voltas, José Marquês marcou grande diferença de pontos sobre todos os seus adversários. O tempo gasto por Marquês, no percurso de 80 quilômetros, foi de 2h. 16m. 21s. Vitória brilhantíssima do grande
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No Brasil
campeão de Portugal, José Marquês, que, finalmente, mostrou no Brasil as suas grandes qualidades de ciclista. Que carreira de escol! Que escates formidáveis do grande corredor luso! Muito aprenderam, por certo, nossos ciclistas com o correcto campeão lusitano. Impressionante proeza de José Marquês.
Desta estadia em São Paulo, há ainda como lembrança, além das fotos, uma canequinha branca com os seguintes dizeres em verde, ao centro e em círculo: “Associação Portuguesa de Esportes – São Paulo”. Na parte de dentro do círculo há uma cruz, símbolo do clube. Por fora, em letras grandes: “Lembrança 1938 Festas Joaninas”. Trata-se dos festejos ligados ao São João, que se estendem por todo o mês de junho. No lado oposto da caneca, a propaganda do azeite GALLO “o melhor azeite produzido, enlatado e exportando de Portugal.Victor Guedes & Cia. Lisboa”.
No Rio de Janeiro As disputas no Rio de Janeiro incluem uma corrida entre Rio de Janeiro-Petrópolis-Rio de Janeiro e depois uma prova de pista na Quinta da Boa Vista.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez à frente, na pista da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro
Num recorte do jornal A noite ilustrada há uma foto grande de José Marquez com a seguinte legenda: “O campeão ciclista José Marquês, pousando para a objetiva de A noite ilustrada”. Esta foto é acompanhada da seguinte reportagem, intitulada “Só uma coisa: as cores de Portugal”, cujo texto oferece as seguintes informações: A participação de desportistas portugueses em competições realizadas no Brasil, é incontestavelmente um facto digno, sempre, da melhor atenção de todos os compatriotas aqui residentes. Eles trazem a missão de honrar o nome do nosso país; e sempre que o conseguem, são poucos os louvores que se lhes possam fazer. Acaba de encerrar-se no Rio de Janeiro, uma temporada internacional de ciclismo, em que a equipe portuguesa venceu da primeira à última prova. Uma corrida de bicicletas pode parecer, a muitos, coisa de somenos importância. No entanto, diz bem o contrário o entusiasmo dos milhares de portugueses que ao local das provas iam aplaudir os nossos corredores. E esses rapazes que vieram,este ano,defender as cores de Portugal souberam fazê-lo com valentia, brio e consciência das suas responsabilidades.
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Em outro recorte, em que há uma foto legendada, lê-se o seguinte: “[José] Marquês, o campeão português do pedal, sofre um acidente que o obriga a atrazar-se para o necessário concerto de sua maquina, no momento em que era focalizado pela objetiva de A noite.”
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No Brasil
José Marquês, Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa não trouxeram vaidades ou rivalidades individuais. Num entendimento perfeito, estudavam o andamento da competição e cada um deles obedecia ao orientador do grupo, de modo que à equipe pertencesse a vitória. De um ou de outro, era o menos; da equipe é que devia ser o triunfo. Prova-o, depois das corridas anteriores, em que a vitória nem sempre foi preparada pelo vencedor, esse brilhante fecho de temporada que foi a corrida Rio-Petrópolis-Rio. O seu grande herói, Manuel de Sousa, tinha outras vezes contribuído para o sucesso dos companheiros; achando-se agora em situação favorável, graças a um golpe de audácia em que não foi seguido pelos adversários, era a vez de o ajudarem. Eis o que aconteceu. E Manuel de Sousa mereceu bem esse triunfo. O campeão José Marquês dirigiu a táctica da equipe. Ordenou a Sousa que “fugisse”, para “experimentar”. E, ao ver que ninguém mais respondia ao desafio, os dois companheiros de equipe de Manuel de Sousa trataram de manter os restantes, sacrificando embora as suas próprias possibilidades, para que não pudesse mais ser posta em risco a vitória da equipe na colocação de Manuel de Sousa. Depois, na pista da Quinta, ainda entrou em acção o auxílio mútuo e a direcção inteligente da corrida por parte dos portugueses, Manuel de Sousa sentia fadiga. Atrás de Marquês e Aguiar, com bastante atraso, corria o uruguaio Trueba. No pelotão da frente, os três portugueses entreajudavam-se, lado a lado. Podiam os dois aumentar a distância que os separava de Trueba, para impedir este de disputar o segundo lugar; mas deixariam Sousa sozinho, o esforçado Sousa de todas as provas, o que havia de encerrar a série vitoriosa no Rio de Janeiro. Afrouxaram então a marcha, deixaram-se alcançar por Trueba; e as forças equilibraram-se, por fim, no último “sprint” ao chegar à meta. Todos foram grandes corredores. Não eram rivais, eram companheiros, tendo em mira uma só coisa: fazer triunfar as cores de Portugal. Esses rapazes não deram um só exemplo de espírito desportivo. Deram uma grande lição de patriotismo a muitos que, no estrangeiro, inutilizam com rivalidades pessoais o que podia ser um monumento de cooperação e civismo.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
No álbum, há ainda uma foto enorme com os 3 ciclistas, tirada no Rio de Janeiro, talvez capa de jornal, encabeçada por letras garrafais: “Venceu o campeão de Portugal: brilhante vitória de José Marquês.” A equipe portuguesa. Da esquerda para a direita: Manoel de Souza, Aguiar da Cunha e José Marquez
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No Brasil
Há ainda fotos da visita da equipe portuguesa à redação do jornal O globo, no Rio.
Na redação de O globo: José Marquez é o terceiro da esquerda para a direita
No acervo de José Marquez há ainda fotos de outros corredores com autógrafos de homenagem, datadas de 1/8/1938 no Rio de Janeiro.
Na embaixada portuguesa no Rio de Janeiro Sem data, um recorte de jornal com foto dá notícia de um almoço oferecido aos corredores portugueses pelo embaixador e pela embaixatriz de Portugal. Diz o texto embaixo da foto: O sr. dr. Martinho Nobre de Melo3 ofereceu, ontem, na Embaixada de Portugal, como havíamos noticiado, um almoço aos ciclistas portugueses e aos directores da Federação Ciclística Brasileira. Sua Excia. o sr. Embaixador esteve assim, mais uma vez, em contacto com os corredores que muito têm honrado no Brasil o desporto da nossa terra. A fotografia que publicamos foi tirada durante o almoço e nela
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Martinho Nobre de Melo (1891-1985), intelectual, jornalista e político português de origem cabo-verdiana, foi professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e um dos teóricos do corporativismo português. Foi também embaixador de Portugal no Brasil e Ministro dos Negócios Estrangeiros em Portugal, além de reitor da Universidade de Coimbra e diretor do Diário de Notícias.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
se vêem a sra. Embaixatriz de Portugal e o sr. dr. Nobre de Melo; os ciclistas José Marquês, Aguiar da Cunha e Manuel de Sousa; o sr. dr. Avelar Teles, secretário da embaixada; o sr. Hermínio Rodrigues, técnico da equipe portuguesa, e os srs. Alberto Lobão, Raul Pinheiro e dr. Manuel Bernardino, da directoria da F.C.B.
José Marquez está sentado à esquerda do embaixador
José Marquez deixa o Brasil com várias recordações, entre elas, um sagui, que lhe havia sido ofertado, um animal que o deixara encantado e que ainda viverá bastante em Portugal. E, segundo Carlos Pinhão, no artigo “O ciclismo português há 50 anos”, publicado no jornal A bola de 4 de agosto de 1986, p. 16, “nunca os portugueses destes primeiros tempos participaram de uma Volta à França, por falta de dinheiro para sustentar um bom treinador”.
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O grande amor e o casamento
P
or esta época, José Marquez já anda de olho em uma moça de Vila Chã de Ourique, de uns 17 anos, filha e neta de viticultores. A moça tem uma irmã mais velha e dois irmãos mais novos e, em particular, tem uma tia, irmã da mãe, que vive em Lisboa com a família e que, com frequência, visita os parentes na aldeia. Em 1 de setembro de 1939, rebenta, da perspectiva ocidental, a Segunda Grande Guerra. Depois de Hitler ter anexado a Áustria, a Tchecoslováquia e a Polônia, a Grã-Bretanha, a Commonwealth e a França declaram guerra à Alemanha. Ainda me lembro bem dos comentários em família sobre o racionamento de então: de comida, de sabão e de muitos outros itens, mesmo em Portugal, que se mantém oficialmente neutro no conflito, embora se saiba que, por debaixo do pano, colabora com o regime nazista, enquanto também acolhe judeus e dá apoio aos Aliados nos Açores. Um pneu de táxi (a maioria era da marca Fulda, alemã) chega a receber cinco recauchutagens antes de ser substituído.As solas das botas dos homens do campo e dos operários recebem remendos vulcanizados e, por vezes, a sola inteira. Bacalhau só é encontrado no mercado negro. Açúcar, só do “louro”, um açúcar toscamente refinado, vendido em sacos de sisal. Em 1939, com 29 anos, José Marquez ainda permanece ligado ao ciclismo, ainda aparece na capa da revista Stadium de 10 de maio de 1939, num grupo constituído por César, Trindade, Albuquerque, Ladislau e Ildefonso – todos em
José Marquez está embaixo, é o segundo da esquerda para a direita
volta de um leão empalhado. Por debaixo de seus nomes, os seguintes dizeres: “- leões cem por cento e cem por cento as esperanças do SPORTING!” Outro testemunho dessa ligação ao ciclismo faz-se presente numa foto de jornal, com a seguinte legenda:
O grande amor e o casamento
Os corredores franceses que tomam parte na VIII Volta a Portugal [1939], à sua chegada a Lisboa tiveram a recebê-los, além do director da corrida, o nosso camarada Raul de Oliveira, os ciclistas portugueses Marquês, Trindade e Nicolau.
José Marquez é o segundo da esquerda para a direita no grupo
Os corredores franceses são Archambaud, Cosson, Fernand Lesguillon, Laurent, Pariset. Segundo um recorte de jornal, o corredor que mais impressionou os franceses foi José Marquês. Em sua opinião, tem condições para fazer boas provas em França, bem como Alfredo Trindade. Manuel de Sousa também os impressionou agradavelmente. É muito rápido.
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JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez em primeiro plano, à esquerda de Archambaud. Ambos carregam em torno do tórax câmaras de ar dos pneus, para emergências.
Deste ano, há também no cofre azul um convite da Câmara Municipal de Tomar, datado de 9/9/1939, para um jantar oferecido aos corredores do 1º Madrid-Lisboa em bicicleta, no Hotel União. Da ementa, exposta no interior do convite, consta: sopa de pérola, pescada à tomarense, galinha à portuguesa, vitela assada e esparregado, doce, fruta, vinhos regionais, champagne e café.
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José Marquez fez 30 anos em junho. José Marquez está apaixonado por uma conterrânea, ainda menor de idade à época, e, secretamente, com ela troca cartas de amor, cartas que, depois de muitos anos, tive coragem de ler, cartas com as quais me emocionei às lágrimas, sobretudo, com o cuidado extremo e carinhoso desse homem para não macular a reputação da amada. José Marquez espera pacientemente que ela faça 18 anos, para pedir autorização a seus pais para namorá-la. Não é uma aceitação fácil. Minha mãe contava que a tia Florinda opunha-se frontalmente a esse namoro, pois um homem tão mais velho, desportista de profissão e morador na capital de costumes “livres”, não poderia, de modo nenhum, ser um partido decente para a Maria. Deveria, com certeza, já ter por lá mulher e filhos. Mas não tinha. José Marquez é um homem íntegro, com os pés no chão: mora em Lisboa, mas não esquecera suas raízes. A paixão de Maria por José é, por seu lado, também imensa e, tendo ela batido o pé, no dia 10 de junho de 1942, ainda aos 19 anos (fará 20 em
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O grande amor e o casamento
A falta de mais notícias leva a crer que José Marquez não mais participa de Voltas a Portugal e, talvez, se tenha apenas empenhado nas corridas contra-relógio, nos “sprints” em que é, de fato, ás.
30/6) dá o sim ao homem amado, já de 32 anos, acabados de fazer no dia 8. O mês de junho pertence-lhes. Teresa e Leonardo Caetano são padrinhos.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
José Marquez recusa-se a casar na igreja, pois acha o ritual um grande espetáculo sem sentido, motivo pelo qual o casamento civil realiza-se às 10:30 horas, na casa dos pais da noiva, na Rua dos Camarinhos (hoje Marechal Carmona, nº 22), seguido de um almoço, sem alardes, como ele sempre gostou. Não se tiram fotos da cerimônia, para não haver exposição. E José Marquez também não usará aliança, porque é um tanto rebelde e iconoclasta. Minha mãe, uma moça que, junto com a irmã e as amigas, costuma participar de récitas, que o professor primário da aldeia leva ao palco e oferece à comunidade, com tudo isso concorda por amor e admiração. Uma história de Eros e Psiquê sem portentos.
Maria Henriques Ruivo é a segunda embaixo, da esquerda para a direita
Ao casar, José Marquez já tinha montado em Vila Chã de Ourique, num espaço pequeno de sua propriedade, mas central, na Rua Mariano de
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Carvalho, uma revendedora/montadora e oficina de bicicletas. Sei que recusara, pelo menos, a oferta de um emprego na alfândega em Lisboa.
Depois do casamento, José Marquez isola a vida privada dentro de muros altos que manda construir em torno dos 1.500 metros2 do terreno e passa a reformular a casa, forrando os tetos com madeira, construindo uma casa de banho, uma marquise, uma adega e, depois, ao longo dos anos, vai transformando aquela propriedade estéril, de apenas três oliveiras e uma figueira, num paraíso. Até a terra do quintal será toda substituída por terra preta da charneca, para receber um pomar de laranjeiras, um de limoeiros, um de pereiras e macieiras e um damasqueiro, além de várias parreiras de uvas maçã, uvas morango, uvas pretas grandes. O enorme jardim e a horta ficam por conta da esposa. Foram sempre um casal unido e cúmplice. José Marquez recusa o cargo político de presidente da junta de freguesia, para o qual é convidado alguns anos depois, mostrando com o gesto sua postura apolítica. Na verdade, este gesto é, sim, um ato político de grande refinamento, no limiar das fronteiras, quando a política encontra seus limites e se nega a si própria. Recusar esta indicação significa recusar-se a integrar a “União Nacional”, o partido político permitido. Num governo de partido único de direita, José Marquez cultiva uma grande amizade com um comunista cassado pelo regime autoritário do Estado Novo – o professor primário Nascimento Gomes. Olhando para trás e percebendo agora o alcance político destes gestos, é mister acreditar que não devem ter passado incólumes; algum preço deve ter sido pago por eles. Não saberia dizê-lo. Em casa, de política só ouvia piadas e as notícias (censuradas) das páginas dos jornais. Meu pai tinha verdadeira aversão a mexericos, de modo que tudo era muito asséptico entre nós. Gostava de comer misturadas, migas, peixes grelhados: salmonetes, postas de peixe-espada, de sável, com salada, a preferida era de tomate e pimentões assados. Carnes e chouriços só do talho do António Claudino, o único em que confiava. Com o correr do tempo, José Marquez vai ampliando os negócios, expandindo o pequeno espaço empresarial para uma oficina de motos, uma fabriqueta e loja de utensílios domésticos, feitos de folha de flandres, depois abre uma banca
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O grande amor e o casamento
Vai morar numa casa oferecida pela mãe da noiva na Rua hoje chamada Egas Moniz, nº 5.
de jornais e revistas e uma distribuidora de gás (Cidla) de cozinha. E ainda arranja espaço para acomodar em seus múltiplos empreendimentos uma “estação de apoio” às camionetas de carreira da empresa Scalabitana, pertencentes à família Vinagre, de Santarém, no trajeto Santarém-Lisboa-Santarém.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Quando os pais falecem, herda duas vinhas que passam a lhe dar 18 pipas (550l uma pipa) de vinho, que guarda em dois tonéis enormes, vizinhos de seis cartolas onde acondiciona a água-pé, o que o obriga a comprar uma pequena camionete, marca Trojan, que mantém além do carro, depois do Chrysler, sempre um Sinca. Administra tudo com rigor a partir de um escritório envidraçado que mandara fazer na oficina. Tem um empregado, o Damásio, que considera como um filho e que é seu braço direito, de quem foi padrinho de casamento e a quem, depois, batiza o primeiro filho. Mantém, além disso, sempre um ou dois aprendizes. Recordo-me do Manuel João, filho do eletricista, de quem meu pai gostava muito, por ser bastante curioso e por sempre se mostrar muito atento às explicações. Abre, entretanto, um restaurante, que recebe o primeiro aparelho de televisão da aldeia, em sociedade com José Martins, mas, ao fim de dois anos, a sociedade não dará certo. Nunca vi o meu pai parado. Para grande desgosto de minha mãe, nunca tira férias. Sempre está trabalhando em alguma coisa. Chega mesmo a montar uma pequena fundição. Desse experimento, guardo até hoje um cinzeiro no feitio da cara de um gato. É um workaholic da época. Se tem um hobby, esse hobby é viajar. Meu pai gostava de sair a passeio comigo e com minha mãe aos domingos. Saíamos cedíssimo, ainda escuro, e voltávamos também com o dia já findo. Não gostava que nos vissem, por causa dos mexericos, que sempre provocam ruídos na comunicação. E sempre voltava a visitar os lugares outrora percorridos durante as Voltas a Portugal, ou onde tinha disputado corridas. Conheci, assim, o país inteiro, seus principais monumentos e museus. Com o nome reconhecido por todo país, José Marquez formara um pequeno círculo fechado de amigos: entre eles, em Vila Chã, o Leonardo e o Jacinto Caetano, o professor Nascimento, o Francisco Travessa (o Travessa Velho), depois, o seu filho Joaquim, que esteve em nossa casa em São Paulo); no Cartaxo, o Zé das Máquinas (Singer, que também nos visitou no Brasil) e o avô da Maria Lucília Lopes; em Sangalhos, os irmãos Maia, donos de um armazém de peças para bicicletas em Aveiro, onde meu pai se abastecia; 146
na Benedita, o Manuel Agostinho, que passou a lhe fazer as únicas botas de cabedal que gostava de usar, de orelhas nos calcanhares e elásticos laterais; no Porto, o Sr. Capas Penedo, pai da Lili. De tempos em tempos, pelo São Martinho, reunia-os na adega para uma patuscada: fazia uma fogueira dentro do recinto e, ali sobre uma trempe, cozinhavam no vinho lebres e coelhos bravos, previamente marinados em vinha d´alhos, e assim provavam o vinho novo, fermentado nos dois tonéis de carvalho. Mesmo depois de casado, em 1946 (de 1942 a 1945 não se realizam Voltas a Portugal), acompanha de carro a 11ª Volta a Portugal.
O grande amor e o casamento
Em 21 de outubro de 1956, está na inauguração da pista do velódromo de Alpiarça.
José Marquez é o terceiro da esquerda para a direita
Nasci depois de 6 anos de casamento, porque José Marquez não queria filhos. Achava o mundo cruel demais para pôr nele uma criança. A insistência de minha mãe acabou por vencer. Meu pai teve uma influência preponderante em minha educação: sempre tive mais brinquedos de menino: um automóvel de pedais, um triciclo, uma bicicleta, uma moto, lia todos os sábados, desde os 7 anos, O cavaleiro
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andante1 e As aventuras de Tintim2. Nunca exercitei as prendas domésticas. Era meu dever estudar e ter boas notas. Graças a meu pai e ao professor Nascimento, minha voz foi ouvida, e livrei-me de uma internação no Colégio Andaluz, um colégio de freiras em Santarém, conforme desejo de minha mãe, e fui estudar no Liceu Nacional de Santarém. Deveria ter cursado Farmácia, conforme o desejo de meu pai, porém, quis o destino que minha grande paixão pela cultura alemã e por literatura me levasse a outros caminhos, o que foi integralmente respeitado por meu pai.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Em 1957, durante algum tempo, as conversas em casa giram sobre a possibilidade de adoção de uma criança húngara órfã, “fugida da guerra” e, por falta de entusiasmo de minha parte, o assunto vai morrendo. No final do sexto ano do liceu, ao agradecer um presente recebido do filho mais velho do Sr. João de Sousa, acabo por entabular com ele uma troca de correspondência de desdobramentos imprevistos. O Sr. João era muito amigo do Manuel Agostinho, da Benedita, que também era muito amigo do meu pai. O Sr. João tinha uma recauchutagem em Alcobaça, havia-se autoexilado com a mulher e os dois filhos no Brasil, por causa da guerra no ultramar português (na Guiné, em Angola e em Moçambique). Eu conhecera a família, um dia, em visita a Alcobaça. Desta correspondência, nasce um namoro, a que meus pais não dão nenhuma importância, afinal, há todo o Oceano Atlântico entre nós. Mas o namoro fica muito sério. E entre os convites à emigração, que o Sr. João faz a meu pai, e a perspectiva de me ver um dia voar para fora de casa, meu pai resolve voltar ao Brasil, que já conhecia. E, estando eu já no primeiro ano de Filologia Germânica da Universidade de Lisboa, peço uma transferência para a Universidade de São Paulo, graças a um acordo recente entre os dois países. 1
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“Revista portuguesa de banda desenhada. Teve a duração de 556 números, publicados entre 5 de Janeiro de 1952 e 25 de Agosto de 1962. A maior parte das séries publicadas eram de origem europeia, em contraponto ao Mundo de Aventuras, outra revista existente na época, mais virada para a banda desenhada norte-americana. Vários foram os autores portugueses que publicaram trabalhos seus nesta revista, destacando-se Fernando Bento, José Ruy, Eduardo Teixeira Coelho, José Garcês e José Manuel Soares. Teve como único director Adolfo Simões Muller.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Cavaleiro_Andante_(revista). Acesso: 12/09/2011. “As Aventuras de Tintim (no original em francês, Les aventures de Tintin) é o título de uma série de histórias em quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) criada pelo autor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé, em 1929. O herói das séries é o personagem epônimo Tintim, um jovem repórter e viajante belga. Ele é auxiliado em suas aventuras desde o início por seu fiel cão Milu (Milou, em francês). Os dois apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado ao público infantil. Mais tarde, o elenco foi expandido com a adição do Capitão Haddock, entre outros personagens pitorescos.” http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Aventuras_de_Tintim. Acesso: 12/09/2011.
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O retorno ao Brasil
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osé Marquez chega, com a esposa e a filha, a São Paulo em março de 1967, depois de uma viagem de 9 dias no Enrico C, é recebido pelo Sr. João de Sousa no porto de Santos e entra em um Brasil sob ditadura militar, governado então pelo Marechal Costa e Silva. Carrega cuidadosamente consigo todas as taças, as inúmeras medalhas, camisolas de corrida, o álbum de fotos, folhas e recortes de jornais e revistas, a registrarem grande parte de sua vida esportiva, que chega a mostrar aos netos.
A taça Stadium (para o corredor com melhor média) e outras, ganhas por José Marquez
Em casa, nunca falta o jornal O mundo português, que o mantém a par dos acontecimentos em Portugal.
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Tenta refazer a vida numa sociedade com dois portugueses, também residentes na cidade, montando uma fábrica de gira-discos e rádios que, ao fim de um ano, não vai em frente. Chega a desenvolver um dispositivo de limpar velas de carro com o desenho de um pequeno foguete espacial, com o fim de comercializá-lo em sociedade com o Sr. João, mas o projeto não dá certo, porque a mentalidade de preservação do pós-guerra, ainda arraigada nos dois homens, não existe no Brasil, onde as coisas tendem sempre mais e mais a serem descartáveis. Começa a investir de pouquinho na Bolsa e, assim, vai mantendo as posses, numa batalha constante contra a inflação, um fenômeno que não conhecia em Portugal. Uma vez em São Paulo, logo monta para si uma bicicleta de corrida e outra de passeio, conhecida como a “pasteleira”. Depois, parte para a construção de outra bicicleta, também de corrida, com tecnologia avançada, com a qual percorre ao longo dos anos, todos os sábados e domingos, a cidade de lés a lés. Não é uma bicicleta qualquer! A máquina obedece a medidas singulares, que fogem ao padrão, é montada com tubos de aço japonês, mais leve e um tanto flexível, e leva embutidos no quadro os cabos dos freios e das marchas, o que a torna uma bicicleta de menor peso, comparada às congêneres. Deixou de recordação esta bicicleta pintada de verde água (que ainda existe) ao neto mais velho. José Marquez, homem muito reservado, faz poucos mas bons amigos no Brasil. Após o casamento da filha, passa a morar junto dela e do genro e, depois, dos 3 netos homens, que vê crescer, como ele sempre havia querido. Também costuma juntar-se a um grupo de amigos, igualmente ciclistas, no espaço da Cidade Universitária.
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1977 – José Marquez, o primeiro à esquerda, com o grupo de amigos ciclistas na Cidade Universitária em São Paulo
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O retorno ao Brasil
José Marquez, à direita, com Dias Santos, ciclista que pertencera ao Futebol Clube do Porto, na Cidade Universitária em São Paulo, em 1977
JOSÉ MARQUEZ • um campeão do ciclismo
Sofre um enfarte do miocárdio, andando de bicicleta em 1981, aos 71 anos, mas nunca parou de pedalar.
José Marquez com a esposa Maria e os netos em 1984. Da esquerda para a direita Rogério Nuno, Pedro Alexandre e João Paulo
Aos 81 anos, falece em casa de um segundo enfarte, em 16 de novembro de 1991. Repousa, junto com a esposa, no Cemitério da Paz em São Paulo, no bairro do Morumbi, Brasil.
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Celeste Henriques Marquês Ribeiro de Sousa nasceu em Vila Chã de Ourique, Portugal, e é filha única de José Marquez. Em 1965, terminou os estudos secundários no Liceu Nacional de Santarém e, em 1966, ingressou no curso de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo-o terminado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Brasil. Casou-se neste país com Franklim Ribeiro de Sousa e tem 3 filhos brasileiros/portugueses. Fez o Mestrado e o Doutorado em Literatura Alemã e o Pós-Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de Colônia e na USP, onde entrou como professora em 1980. Em 1988, foi pesquisadora visitante do “Deutsches Literaturarchiv Marbach”, em Marbach a. Neckar, e da “Stiftung Preußischer Kulturbesitz”, em Berlim. Foi bolsista do Goethe Institut, do DAAD, da CAPES e do CNPq. Atualmente está aposentada, mas continua seu trabalho de orientadora de Mestrados e Doutorados no Programa de Pós-Graduação em Língua e Literatura Alemã da USP, onde também coordena o grupo de pesquisa “RELLIBRA” – www.rellibra.com.br. Celeste Ribeiro de Sousa publicou, entre outros, Retratos do Brasil. Heteroimagens literárias alemãs; Do cá e do lá. Introdução à Imagologia; Poéticas da violência (org.); Criação e conflito (org.). Curriculum Vitae: http://lattes.cnpq.br/1328501284219527