ano quatro | nº 26 | novembro / dezembro 2011 | R$ 10,00
AÇÃO | CIDADANIA | AMBIENTE www.plurale.com.br
ARTIGOS INÉDITOS
PATAGÔNIA, AMAZÔNIA E MARANHÃO
FOTO DE LUCIANA TANCREDO/ PINGUIM DE MAGALHÃES EM USHUAIA - PATAGÔNIA, ARGENTINA
POLÍTICA DE RESÍDUOS: QUEM PAGA A CONTA?
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Conte xto
Luciana Tancredo/ Ushuaia, Patagônia Argentina
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PATAGÔNIA:
A LUTA DAS QUEBRADEIRAS DE BABAÇU NO MARANHÃO
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BAZAR ÉTICO PELO BRASIL
24 VIDA SAUDÁVEL
43 PELO MUNDO
47 CINEMA VERDE
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PLURALE EM REVISTA | Novembro / Dezembro 2011
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Foto: Vivian Simonato/ Pedreiras, Médio Mearim (MA)
RICA BIODIVERSIDADE
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CONEXÕES PLURALE: O GESTOR SUSTENTÁVEL, POR NÁDIA REBOUÇAS
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Foto de Vivian Sim
onato, Pedreira
s, Médio Mearim
(MA)
Editorial
, o ã h n a r a M , Amazônia s i a m o t i u m e a i Patagôn
A
o longo de quatro anos, temos procurado apresentar aos leitores de Plurale um mundo em transformação. Assuntos e pautas não nos faltam. Nesta edição de número 26 trazemos um leque de reportagens, artigos e estudos plurais como é nossa abordagem. Luciana Tancredo, nossa editora de Fotografia, sempre aventureira, esteve na Patagônia argentina e se encantou com a rica biodiversidade. Pinguins (como o simpático que ilustra a capa desta edição), lobos marinhos, condor, gambás e tantos outros animais despertaram os olhares curiosos e dão a certeza de que apenas protegendo a biodiversidade será possível assegurar a sobrevivência num planeta cada vez mais em perigo. De Buenos Aires, a correspondente Aline Gatto Boueri, revela, com exclusividade, detalhes da formação do novo Partido de Los Verdes, inspirado no similar brasileiro e no histórico precursor, da Alemanha. Monica Pinho, da Austrália, mostra como funcionam as praias especiais para cachorros e Elisabeth Cattapan Reuter conta o que mudou na vida de quem mora em Hamburgo por ter sido escolhida a Capital Verde da Europa. A também correspondente Vivian Simonato deixou a fria Irlanda para se embrenhar pelo coração quente do Maranhão como parte de sua pesquisa de Mestrado para a Trinnity College, em Dublin. Passou com louvor, muito orgulhando toda a equipe Plurale. Não é para menos: Vivian, sempre en-
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Sônia Araripe e Carlos Franco Editores de Plurale em revista e Plurale em site
tusiasmada, focou comunidade de mulheres quebradeiras de babaçu na pequena Pedreiras, no Médio Mearim (MA). Em emocionante relato, Vivian nos descortina a dura realidade destas mulheres maranhenses, seus anseios, medos e, acima de tudo, esperança. Cid do Nascimento Silva apresenta aos leitores, um encontro regado à poesia que marcou recente viagem aos Lençóis Maranhenses. Do Maranhão para o Amazonas, Isabel Capaverde conheceu projetos de Desenvolvimento Local que estão mudando a realidade de quem vive na Grande Manaus ou na Floresta Amazônica. Flamínio Araripe traz a história incrível de um cearense que tem feito sucesso em terras globais. Estivemos e participamos ativamente também em importantes seminários e fóruns sobre sustentabilidade, como o da Fundação Getúlio Var Vargas, sobre Política Nacional de Resíduos Sólidos, em São Paulo; sobre Redes, organizado pelo SESC-Rio e ainda o emocionante IV Congresso sobre Jornalismo Ambiental, ambos no Rio. Artigos inéditos de Malu Nunes, da Fundação O Boticário, de Rudolf Höhn, presidente da ONG Ação Comunitária e Nádia Rebouças, que trabalha com comunicação para transformação, abordam temas ligados à Sustentabilidade. Tudo isso além das tradicionais Colunas: Bazar Ético, Carbono Neutro, Cinema Verde, Pelas Empresas, Vida Saudável, etc. Aproveitamos para desejar um 2012 de muita paz e energias positivas renovadas. Obrigado pela audiência tão prestigiada. Vamos juntos!
Para quem tem espírito empreendedor, a vida está cheia de oportunidades para realizar mais.
O Grupo Boticário tem uma história de empreendedorismo. Tudo começou com O Boticário, que, em 34 anos, se tornou a maior rede de franquias de cosméticos do mundo e continua se expandindo rapidamente. E a história do Grupo Boticário ganhou um novo capítulo: Eudora. A primeira empresa de cosméticos no Brasil que já nasce no sistema multicanal, com venda direta, lojas-conceito e comércio eletrônico integrado às redes sociais. É assim que o Grupo Boticário segue realizando cada vez mais.
Empresas do Grupo Boticário
www.grupoboticario.com.br
Quem faz
Cartas c a r t a s @ p l u r a l e . c o m . b r
Diretores Carlos Franco carlosfranco@plurale.com.br Sônia Araripe soniaararipe@plurale.com.br Plurale em site: www.plurale.com.br Plurale em site no twitter: http://twitter.com/pluraleemsite Comercial comercial@plurale.com.br Arte SeeDesign Marcos Gomes e Marcelo Tristão Fotografia Luciana Tancredo e Eny Miranda (Cia da Foto); Agência Brasil e Divulgação
Colaboradores nacionais Ana Cecília Vidaurre, Geraldo Samor, Isabel Capaverde, Isabella Araripe (estagiária), Nícia Ribas, Paulo Lima
e Sérgio Lutz Colaboradores internacionais Aline Gatto Boueri (Buenos Aires), Ivna Maluly (Bruxelas), Vivian Simonato (Dublin), Wilberto Lima Jr.(Boston) Colaboraram nesta edição Antoninho Marmo Trevisan, Fábio de Castro (Agência FAPESP), Flamínio Araripe, Letícia Koeler, Luiz Antônio Gaulia, Marcello Casal Jr (Agência Brasil), Maria Augusta Carvalho, Mônica Pinho, Nélson Tucci, Paulo Lima, Pedro Freiria, Pieter Zalis, Roberto Saturnino Braga e Rodney Vergili. Plurale é a uma publicação da SA Comunicação Ltda (CNPJ 04980792/0001-69) Impressão: WalPrint
Plurale em Revista foi impressa em papel certificado, proveniente de reflorestamentos certificados pelo FSC de acordo com rigorosos padrões sociais e ambientais. Rio de Janeiro | Rua Etelvino dos Santos 216/202 CEP 21940-500 | Tel.: 0xx21-3904 0932 São Paulo | Alameda Barros, 122/152 CEP 01232-000 | Tel.: 0xx11-9231 0947 Os artigos só poderão ser reproduzidos com autorização dos editores © Copyright Plurale em Revista
Plurale em revista, Edição 25 “Os quatro anos de Plurale significam imensa contribuição da imprensa para a formação de uma nova consciência sobre a interação do homem com o ambiente e consigo próprio, na busca de um futuro digno e sustentável.” Antoninho Trevisan, Presidente da Trevisan Escola de Negócios e membro do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República), São Paulo, SP “Parabéns à antenada equipe de Plurale em Revista pelos quatro anos de caminhada editorial focados no meio ambiente, cidadania e educação. Eu, que tive a oportunidade de participar recentemente da edição 24 da revista, em uma reportagem sobre a Fábrica Cultural, projeto que mantenho aqui em Salvador, aproveito também para agradecer. Desejo ainda mais assunto e notícia, foco de trabalho de todo jornalista, com o tratamento sustentável e inovador, que é marca da publicação.” Margareth Menezes, cantora, Salvador, BA “Em primeiro lugar, agradeço pela atenção e carinho dedicados na entrevista publicada na Edição 25 de Plurale em revista, realizada pelo jornalista Paulo Lima. A revista em si impressiona muito, tanto em design quanto no material em que ela é feita. Como estudante de Relações Internacionais, adorei que houve um cuidado com a seção de Pelo Mundo, trazendo informações com um enfoque bastante diferente do que aparece na mídia de alta circulação. Gostei muito do artigo sobre vinhos orgânicos, acho o tema bastante relevante. Aliás, a proposta da Plurale é bastante pioneira. Meu artigo favorito foi o a respeito do meio ambiente espacial. O tema se mostrou muito novo, e a abordagem foi bastante interessante. Em suma: adorei. Achei uma matéria ali no meio com uma escritora meio besta um pouco irrelevante, a menina me pareceu meio cabeça-vazia, sei lá... Não pareceu? Se eu fosse editora, não teria chamado aquela Luisa não, viu.” Luisa Geisler, estudante e escritora, Porto Alegre, RS Nota da Redação: Prezada Luisa, foi um imenso prazer tê-la em nossas páginas. Suas letras tão relevantes fizeram grande sucesso. Esperamos tê-la outras vezes aqui. “Ao ler a matéria sobre a origem e as atividades da Náutica Ambiental ficamos muito felizes. Nosso objetivo além de cuidar do meio ambiente
é divulgar essa ideia, e através da vivencia ocorrida nos recifes de Tamandaré, essa ideia irá chegar muito mais longe. Esperamos que outros grupos tomem iniciativas de cuidar e compartilhar a educação ambiental para todos. Trabalhar com amor e por amor faz bem a todos e a natureza agradece! Larissa Vila Nova, Bióloga da Náutica Ambiental, Tamandaré PE “Gostaria de parabenizar a jornalista Sônia Araripe pela excelente reportagem “Hidreletricidade rima com Sustentabilidade?” (edição 24). Diante de um tema controverso, quase sempre tratado de maneira enviesada pela grande mídia, merece especial destaque um texto como este, que pondera as diferentes visões dos atores envolvidos de forma ampla e democrática, sem partidarismos ou meias informações. Parabéns a toda equipe da Plurale”. Oldon Machado, Assessor de Imprensa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Rio de Janeiro, RJ “Sônia, que revista bonita! Parabéns pelos quatro anos e pela Isabella. Um abraço pro Franco.” Orivaldo Perin, jornalista, Rio de Janeiro, RJ “Recebi a revista. Como sempre, muito legal. Que as comemorações sigam pelos próximos 40 anos, pelo menos” Regina Eleutério, jornalista, Rio de Janeiro, RJ “Sônia, obrigada pelas edições que recebi da Plurale. Fiquei muito feliz de ver lindas fotos da Isabella. Muito talentosa! Parabéns!” Maria Teresa Carneiro, Jornalista, Assessoria de Comunicação do Sebrae- RJ, Rio de Janeiro, RJ “Sônia e Equipe Plurale, parabéns pelo quarto aniversário de Plurale! Gostamos demais das reportagens da Edição 25. As fotos tiradas por Isabella em Alagoas e Pernambuco são ótimas! Gostamos muito da reportagem.” Richard Woodhull Jr., consultor, Brevard, Carolina do Norte, EUA “Parabéns pelos quatro anos da Plurale, esse desafio que vocês abraçaram e que, com tanta competência e qualidade, têm levado adiante. Que vários outros anos venham à frente” Cid do Nascimento Silva, engenheiro, Rio de Janeiro, RJ Correção: - Na Edição 25, na matéria “Preservação de corais e peixes-boi” o nome da bióloga Larissa Vila Nova foi incorretamente apresentado como Letícia. E o ano de criação da APA dos Corais foi em 1997 e não 1977, por erro de digitação.
Sustentabilidade é a energia que motiva nossas certificações!
Nossa responsabilidade com o Meio Ambiente se comprova com nossas certificações. Trabalhamos com um Sistema Integrado de Gestão nas áreas Ambiental, de Qualidade, de Saúde e Segurança.
Certificações
Novidades
Aniversário de quatro anos é destaque na imprensa
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s quatro anos de Plurale em revista e Plurale em site foram destaque na mídia nacional. A prestigiada coluna do jornalista Ancelmo Góis, de O Globo, registrou a data e vários outros veículos também. Na Rádio CBN, o jornalista André Trigueiro, em seu comentário sobre meio ambiente, aproveitou a avaliação que fez sobre as palestras e temas do IV Congresso de Jornalismo Ambiental, realizado no Rio de Janeiro, para destacar o trabalho de Plurale. Vários blogueiros e jornalistas também registraram a data em posts nas redes sociais. Agradecemos, emocionados aos colegas. Estamos certos que sem a generosidade de parceiros como estes e tantos outros, Plurale não existiria. Acreditamos que estas são algumas amostras de que estamos na direção certa. Parte de uma caminhada, claro, ainda com muitos passos por serem dados. Mas o público tem reconhecido nosso esforço pela democratização de informações relevantes sobre sustentabilidade. Não é só. Leitores de diferentes cidades e regiões deste Brasil continental acompanham as notícias e artigos de Plurale pelo portal, com atualização diária. As mensagens e comentários que nos chegam também são indicador relevante sobre a opinião de nosso público. A presença dos jornalistas de Plurale também em importantes eventos – palestrando ou moderando – é outra amostra. Em 2012 pretendemos continuar avançando. O novo lay-out do portal tem agradado e as redes sociais – twitter, facebook e blog – conquistam a cada dia novos seguidores. Estamos lançando a versão para Ipad de Plurale em revista. Acompanhe e confira as novidades diariamente em www.plurale.com.br e @pluraleemsite.
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Nos últimos quatro anos, repórteres e fotógrafos de Plurale em revista cruzaram o Brasil de norte a sul para descobrir boas histórias de transformação. De gente simples e aguerrida, protagonista de mudanças que estão apenas começando...
Lima (FAS)
Jardim Gramacho,RJ
Foto de Antônio Batalha (Firjan)
Foto de Antônio
...como a história de Seu Luiz Gonzaga, na Reserva de Uatumã, na Floresta Amazônica (AM), que está aprendendo a escrever graças à Fundação Amazonas Sustentável e tem como objetivo defender as necessidades de sua pequena comunidade...
Tião Santos
Seu Luiz Gonzaga
nheiro LucianPNaSEPi SC Pantanal, MT
Itairan Cardoso Serrinha, BA Foto Nícia Ribas
...distâncias percorridas de barco, de carros fora de estrada e pequenos aviões. Foi assim para mostrar a exuberância do Pantanal em projeto de preservação da ararinha azul e várias outras espécies, trabalho de profissionais zelosos como a bióloga Luciana Pinheiro Ferreira, na RPPN SESC Pantanal...
Foto de Luciana Tancredo
Reserva do Uatumã, AM
...ou do jovem Tião Santos Santos, que cresceu no lixão de Jardim Gramacho (Baixada Fluminense), lutou para mudar não só a sua vida, mas a dos catadores: virou estrela da obra do artista plástico de Vik Muniz e de filme com direito a tapete vermelho de Hollywood...
...neste período também conhecemos diversos projetos inovadores, como o de educação e geração de renda para crianças de comunidade de Serrinha, no sertão baiano, como Itairan Cardoso. Cardoso
Poconé, RP
Com Plurale é assim: vamos onde a notícia está. Para que cada um apresente sua história, capaz de inspirar tantas outras transformações. Plurale: plural até no nome.
Por Graziela Wolfart e Patrícia Fachin, da IHU On-Line
O Maureen Santos,
ASSESSORA DA FASE
COP-17:
“ainda existe uma esperança”
Na avaliação da assessora do Núcleo Justiça Ambiental e Direitos da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (FASE), a conferência em Durban, “demonstrou o compromisso político”
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PLURALE EM REVISTA | Novembro / Dezembro 2011
foto: Christina Rufatto/ Divulgação
Entrevista
compromisso político firmado entre os países que participaram da 17ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (ou COP17), em Durban (África do Sul), demonstra que “ainda existe uma esperança em relação a esse espaço multilateral de discussão”, avalia Maureen Santos. A assessora do Núcleo Justiça Ambiental e Direitos da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo – FASE participou da COP-17 e quando voltou concedeu a entrevista a seguir à IHU On-Line. Em sua avaliação, “do ponto de vista concreto em relação ao problema das mudanças climáticas, os compromissos assumidos ficaram muito aquém das reais necessidades”. Entre as novidades, Maureen destaca a postura da presidente da COP-17, Maite Nkoana-Mashabane, que incluiu nos relatórios as demandas dos países pobres e mais impactados pelas mudanças climáticas. “Do ponto de vista da organização africana, a conferência foi muito positiva e bastante diferente do que estávamos acostumados a ver nos demais encontros. (...) A presidente da COP-17 escreveu um texto paralelo, incluindo essas propostas para que elas sejam discutidas no ano que vem, ou para que, de alguma forma, os países se envolvam com essas temáticas”, relata. A próxima conferência do clima acontecerá no próximo ano, em Catar, mas, na avaliação de Maureen, a escolha pelo país árabe é preocupante, “não só pela questão do petróleo que existe no país, que vai contra toda essa questão climática, mas porque lá há sérios problemas em relação à democracia, à organização social, sindicatos. Isso demonstra uma dificuldade de transparência nas negociações”, conclui. Maureen Santos é formada em Relações Internacionais, pela Faculdade Estácio de Sá, e mestre em Ciência Política, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. IHU On-Line – Quais são as principais decisões e resultados da COP-17? Maureen Santos – Os países conseguiram elaborar um documento, uma plataforma de compromisso político denominada Plataforma de Durban, mas isso não quer dizer que tomaram medidas vinculantes ou legais. De todo modo, o compromisso político demonstra, de alguma forma, que os países têm interesse em continuar neste espaço multilateral de negociação e isso fortalece a conferência. Se eles não tivessem elaborado nenhum documento final, demonstrariam claramente que não veem a conferência do clima como útil para a governança internacional das mudanças climáticas. Se podemos dizer que há algum aspecto positivo resultante da COP-17, diria que é essa demonstração de que ainda existe uma esperança em relação a esse espaço multilateral de discussão. No entanto, do ponto de vista concreto em relação ao problema das mudanças climáticas, os compromissos assumidos ficaram muito aquém das reais necessidades. Por um lado, saiu um adendo para poder continuar o segundo período de compromissos do Protocolo de Kyoto, mas esse adendo não é assinado por todos os países do Anexo 1. O objetivo deste compromisso foi poder segurar
Foto: Divulgação/ COP-17
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Um aspecto positivo foi o fato de não ter saído nenhum mecanismo de financiamento ligado ao mercado ou mercado de carbono para REDD+, nem ter saído um programa de trabalho para agricultura
o Protocolo de Kyoto, ou seja, manter um instrumento vinculante por mais tempo, enquanto os países não conseguem estabelecer outro acordo. Os países também discutiram a implementação do Fundo Verde, mas ainda não decidiram como será feita a gestão desse fundo e, portanto, não chegaram a um acordo sobre este tema, apesar de haver um compromisso político de implementação desse fundo. Também saiu a abertura da discussão sobre o novo regime global de clima, que seria um novo acordo ou um novo protocolo, com negociações para começar no próximo ano, 2012, e terminar em 2015, para que esse novo regime possa começar a ser estabelecido a partir de 2020. Isso em termos de eficácia para a questão do clima é muito complicado. Se formos pegar os dados do Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC, por exemplo, 2020 é um prazo muito extremo para se tomar qualquer medida concreta de enfrentamento à crise climática. Isso demonstra que os países não estão tão preocupados, ou estão mais preocupados com as questões domésticas do que propriamente em pensar num mecanismo multilateral de enfretamento do problema climático. O que vimos na conferência é que os países mais pobres, mais impactados, são os que realmente estão preocupados com as causas das mudanças climáticas e defendiam a implantação de um compromisso coletivo. Dentro dessa plataforma de Durban saiu também um documento sobre o Long-term Cooperation Agreement – LCA, que é o acordo de cooperação de longo prazo, que terminava inicialmente este ano e foi estendida até a COP-18 no ano que vem. As negociações até agora eram feitas em dois trilhos: o Protocolo de Kyoto, no intuito de renovar o segundo período, e o outro sobre o LCA, que é, como dito, o acordo cooperação de longo prazo, e a implementação da convenção como um todo. Esse LCA continua funcionando no próximo ano e acaba no final do ano que vem. Um aspecto positivo foi o fato de não ter saído nenhum mecanismo de financiamento ligado ao mercado ou mercado de carbono para REDD+, nem ter saído um programa de trabalho para agricultura, que esteve presente nas negociações, porém não sendo aprovada sua proposta. Ficou decido que a próxima COP será realizada em Catar, de 26 de novembro a 8 de dezembro de 2012. Vimos essa decisão com muita preocupação, não só pela questão dos com-
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bustíveis fósseis e que vai contra toda essa questão climática, mas porque lá há sérios problemas em relação à democracia que cria sérios problemas para a organização social, para sindicatos. Isso pode significar problemas na participação e transparência nas negociações. IHU On-Line – Como os africanos se posicionaram durante a conferência, considerando que a África é um dos continentes mais atingidos pelas mudanças climáticas? E como você avalia a postura da presidente da COP-17, Maite Nkoana-Mashabane, durante o encontro? Maureen Santos – Várias organizações africanas participaram do processo da conferência. Entre a primeira e a segunda semana de negociação, aconteceu um fórum chamado Espaço dos Povos C-17. Foi também organizado o Toxic Tour pelos movimentos de justiça ambiental local para que nós visitássemos regiões que estão sendo impactadas pelas refinarias de petróleo e de metais pesados. Nós visitamos estas regiões e, em uma escola, conversamos com professores, ficamos sabendo dos impacto e percebemos a diferença da qualidade do ar de uma região para a outra. Aconteceram também algumas manifestações na conferência e outras manifestações do lado de fora, como a marcha do dia 3, que reuniu 10 mil pessoas. Na sexta-feira passada, ocorreu uma manifestação impactante do lado de dentro na hora em que os ministros estavam negociando o acordo. O clima estava tenso e esta manifestação deu apoio para que os países em desenvolvimento não aceitassem as pressões dos países desenvolvidos, que não queriam aceitar nenhuma negociação. Organização africana Do ponto de vista da organização africana, a conferência foi muito positiva e bastante diferente do que estávamos acostumados a ver nos demais encontros. A presidente da COP-17 teve uma atitude muito mais transparente, envolvendo e escutando os países africanos e incluindo a demanda deles e dos países pobres nos relatórios. Inclusive, no sábado pela manhã, quando foram apresentados os dois novos documentos, um deles, que dizia respeito a acordos futuros, incluiu diversas demandas, como a questão de propriedade intelectual que a Índia trouxe para o debate, os direitos da mãe-terra, que a Bolívia apresentou, a questão dos refugiados, e uma série de questões que já vinham sendo discutidas por alguns países, mas que não eram incluí-
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Entrevista das nos textos da conferência. A presidente da COP-17 escreveu um texto paralelo, incluindo essas propostas para que elas sejam discutidas no ano que vem, ou para que, de alguma forma, os países se envolvam com essas temáticas. Alguns países da União Europeia, como a França, tentaram criticar o evento e disseram que a metodologia utilizada pela presidente da COP-17 era muito ruim e que isso estava impedindo os países de chegarem a um acordo. Eles estavam querendo encontrar uma desculpa para mostrar que o fato de não se chegar a um acordo era culpa da presidente da COP-17. IHU On-Line – Como você avalia a prorrogação do Protocolo de Kyoto e a expectativa de os países assumirem metas apenas em 2020? Os países não levaram em conta os últimos relatórios do IPCC? Maureen Santos – De fato, os países não levaram em conta o relatório. Mas a justificativa é de que um acordo para 2015 é mais interessante porque os países terão mais tempo de analisar o novo relatório do IPCC sobre eventos extremos. Mas, na verdade, isso parece muito mais uma desculpa para adiar um acordo, porque eles não levaram em consideração o relatório de 2007. Por outro lado, um acordo para todas as partes com metas vinculantes e sem diferenciação neste momento seria injusto porque os países historicamente emissores de gases ainda não cumpriram sua parte. Pensar em um acordo vinculante para a China, Brasil e demais países em desenvolvimento em 2020 é importante. Mas, neste momento, era necessário que os países do Anexo 1 assumissem suas dívidas históricas. As conferências têm mostrado que, ao longo dos 20 anos, os países estão protelando acordos efetivos, então, não há como saber se em 2020 será assinado, de fato, algum acordo. O Brasil está disposto a assinar esse acordo, até porque o país está em uma situação confortável porque já aprovou metas voluntárias em lei e, provavelmente, aprovará outras metas em uma negociação formal. IHU On-Line – Como a política ambiental brasileira repercutiu em Durban? A aprovação do novo texto do Código Florestal teve repercussão? Maureen Santos – O Itamaraty sempre tem um papel importante nesses encontros e foi visível o apoio que eles deram para a presidente africana da COP-17. A aprovação do novo texto do Código Florestal foi uma vergonha e, no dia anterior à aprovação do novo texto, o Brasil havia apresentado um relatório na COP17, mostrando que o desmatamento havia sido
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reduzido em 11%. No dia seguinte, a aprovação do texto caiu como uma “bomba” na conferência e o país foi muito cobrado. Os demais países quiseram saber como o Brasil iria cumprir as metas, e se o novo Código irá favorecer o desmatamento e anistia de desmatadores. Marina Silva participou de uma conferência de imprensa e disse que achava que o Brasil não conseguiria cumprir as metas. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, respondeu a várias perguntas e disse que, como o Brasil já cumpriu grande parte das metas, não teria tanto impacto até 2020. De todo modo, isso está na contramão do que o Brasil está demonstrando no exterior: a criação de leis internas, criando medidas de enfrentamento nacional, mas, por outro lado, o Congresso aprova uma lei que é uma aberração total em qualquer política ambiental que possa ser algo progressista no enfrentamento dos problemas ambientais do país. IHU On-Line – Qual a mensagem política e ambiental da COP-17? Maureen Santos – A conferência mostrou que estamos diante de uma cilada: são vinte anos de negociações e esse é um período longo para os países não fazerem praticamente nada. A conferência demonstra a dificuldade que os países têm de transcenderem seus interesses nacionais e pensar de que forma eles podem enfrentar o problema das mudanças climáticas, o qual envolve todas as nações. Ao mesmo tempo, o encontro demonstra que, ainda é possível, através da diplomacia não jogar todas as negociações no lixo. A cúpula teria sido ainda pior se os países não tivessem conseguido elaborar um texto comum. A conferência mostra que ainda há chances de dar continuidade às negociações de espaços multilaterais, mas ao mesmo tempo demonstra que essa não é a saída, porque os países não conseguiram criar nenhum mecanismo que possa enfrentar concretamente o problema das mudanças climáticas.
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A próxima Conferência será no Catar. A escolha pelo país árabe é preocupante, não só pela questão do petróleo que existe no país, que vai contra toda essa questão climática, mas porque lá há sérios problemas em relação à democracia, à organização social, sindicatos. Isso demonstra uma dificuldade de transparência nas negociações
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CONEXÕES
PLURALE
O gestor sustentável do século XXI
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NÁDIA REBOUÇAS
título deste artigo não seria entendido há 20 anos. A palavra sustentabilidade causaria surpresa para a maioria e mesmo o conceito de gestor, não tinha a popularidade que alcançou. Nos últimos anos o papel da liderança, do gestor ganhou grande destaque dentro das empresas, do governo, organizações socioambientais e em todas as áreas de ação da sociedade civil. Um pOUcO de história Em 1992, quando aconteceu a Eco 92, no Rio de Janeiro, o conhecimento sobre as ONGs, as questões ambientais e os desafios climáticos ficavam restritos a círculos de especialistas. As ONGs chegaram ao Brasil pelas mãos de intelectuais que sofreram a diáspora provocada pela ditadura. Foram líderes que estimularam o caminho para a democracia e que, depois da anistia, voltaram trazendo um novo conceito de trabalho: trabalhar causas sociais, ambientais e políticas com o apoio financeiro de ONGs internacionais. Uma geração de instituições, nascida nos anos 80, começou a ocupar um importante espaço de pesquisa, análise e denúncia. O sociólogo Betinho, criador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) há 30 anos foi um deles. Chegou ao Brasil com Carlos Afonso trazendo um microcomputador debaixo do braço, o que acabou conferindo ao Ibase o pioneirismo ao lançar o primeiro provedor de internet: o Alternex. Nasceram aí lideranças muito importantes, preocupadas com justiça social. Com a Eco 92 surgiram as ONGs mais voltadas para as ações diretas na sociedade. Com o aparecimento da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e
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pela Vida (1993), campanha que levou os brasileiros a tomarem consciência da fome que atingia parte significativa da nossa população, houve um estímulo definitivo ao voluntariado, expandindo também o conceito de ONG. A formação de líderes na ação social e ambiental foi intensificada. As chamadas organizações não governamentais começaram inclusive a ser financiadas por empresas públicas.
nesse período: Renascer, os Doutores Alegria, o CDI, só para citar alguns exemplos. Descobriram o potencial das mulheres como líderes comunitárias e em muitos projetos sociais investiram na capacidade feminina de geração de renda. A mudança da sociedade fez com que a velha filantropia já não respondesse mais à necessidade de uma par participação ativa das empresas. Nasceu o
Apesar da resistência às empresas, Betinho assumiu a convocação de todas elas a agir contra a fome. Foi a primeira vez que empresários e gestores foram convocados a agir socialmente. O anúncio onde aparecia uma avestruz, publicado gratuitamente em jornais e revistas, foi o primeiro passo para trazer as empresas para a campanha Ação da Cidadania, que mais tarde originou o Comitê da Ação da Cidadania de Empresas Públicas (Coep), Pouco tempo depois, o IBASE lançou o Balanço Social, um modelo de indicadores sociais que conferia às empresas um selo de adesão e compromisso. Para tanto, Betinho perguntava aos empresários qual era a “razão social” da sua empresa? E, a partir de então, surgiram as lideranças empresariais que começaram a influenciar a responsabilidade social empresarial. O empreendedorismo foi e continua sendo um foco importante. Não é possível construir uma nova forma de viver sem líderes. Avina, Ashoka, organizações internacionais, investiram em empreendedores sociais que nasceram
marketing social. Betinho conseguiu envolver as mídias no apoio à sua campanha. Na TV, de 1993 a 1997, foram veiculados cerca de 35 filmes alguns com depoimentos de Gil, Caetano e Tom Jobim. As empresas investiram em promoções e voluntariado, A propaganda começou a construir a imagem de “empresa cidadã”. Ainda não se falava em responsabilidade social, conceito incorporado ao dia a dia das empresas e da sociedade no final da década. Em 1998, surge o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (Ethos), criando pela primeira vez um trabalho estruturado que educa as empresas a refletir sobre o compromisso que deveriam desempenhar na sociedade. Os problemas históricos do Brasil, como a desigualdade e a injustiça social, não eram apenas problemas da esfera governamental, o papel das empresas não compreendia apenas o pagamento de impostos. O Instituto Ethos (que reúne empresas) e o Gife (que reúne institutos e fundações) investiram na educação para os novos tempos.
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As empresas começaram a estruturar seus próprios institutos e fundações, a escolher temas de atuação, a investir em tecnologias sociais, a lançar editais de apoio a ações culturais, sociais e, mais tarde, esportivas e ambientais. De lá para cá vivemos claramente a conquista de um aprimoramento do conceito de responsabilidade socioambiental, mas muitas vezes convivendo com intenções, nem sempre nobres, dessas atividades. O gestOr Os líderes empresariais, estimulados pelos profissionais de marketing e comunicação, começaram a perceber que “ser” responsável, ou “parecer”, podia significar uma estratégia diferenciada e ajudar a construção da imagem da empresa. Muitas começam a fazer o Balanço Social e vão aos poucos entendendo que ele não era o espaço para confirmar seu índice de “bondade”, mas, de fato, para gerar indicadores para sua própria transformação. Ou seja, pela primeira vez fala-se em gestão, já que conhecer a situação atual é o primeiro passo para poder planejar com consciência o futuro. Quantas mulheres na empresa, quantos negros, quais as diferenças salariais, os investimentos em treinamento, saúde e alimentação. Os líderes dos RH co-
Muitas começam a fazer o Balanço Social e vão aos poucos entendendo que ele não era o espaço para confirmar seu índice de “bondade”, mas, de fato, para gerar indicadores para sua própria transformação. meçam a se ver como área de desenvolvimento humano nas empresas e passam a ter um papel mais estratégico. A área de comunicação interna descobre que precisa mudar a consciência dos empregados. São eles que constroem relacionamentos nas comunidades. No início ainda falavam em “comunidades do entorno”, o que claramente demonstrava o egocentrismo do setor. Não se
apresentavam, não pediam licença para entrar. Então surgiram os processos de licenciamento e audiência pública, que iniciaram uma mudança da conversa com as comunidades, mesmo que até hoje muitos entendam a função do relacionamento com comunidades como a ação para “blindar a empresa”. O desafiO de Operar cOm gestOres em fOrmaçãO Nosso planeta gritando por socorro despertou a reflexão dos que atuavam no ambiental e no social e que começavam a construir um novo caminho. Popularizou-se o Triple Botton Line e a percepção de que sem uma nova economia não nascerá uma nova civilização. O conceito sustentabilidade ganhou enorme popularidade, quase afetando a sua credibilidade. Peter Senge adota o termo “desenvolvimento sistêmico” referindo-se ao conceito de sustentabilidade. Conseguir pensar no todo. Desde os meus primeiros artigos sobre o tema, lá na década de 90, afirmo que se não construirmos pontes entre as áreas, entre os setores, entre as pessoas, não conseguiremos construir o novo mundo. Há uma enorme diferença entre ser gestor da sua própria área ou ser um gestor com visão sistêmica. A gestação da economia verde e inclusiva não se cumprirá sem uma nova liderança, sem gestores comprometidos e competentes, nas empresas, no governo e na sociedade civil. Aí estão muitos livros que discutem essa questão. Muitas metodologias de diálogos, de encontros, têm se concretizado na tentativa de formar profissionais que as universidades não produziram na última década. Faltam gestores nas empresas, nas organizações sociais e ambientais e, especialmente, na educação: um profissional preparado para enfrentar problemas, sensível para o que tem vida, que sabe conversar, tem paciência e habilidade de articulação, humildade, que valorize efetivamente as pessoas, livre de preconceitos e que consiga operar a partir de uma visão sistêmica. As empresas assumiram compromisso com a sustentabilidade. Difícil ler
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CONEXÕES a missão ou a visão de grande empresa e não encontrar referências quanto à responsabilidade socioambiental ou sustentabilidade. Até as médias e pequenas empresas já estão mobilizadas para essas questões. Mas ainda é difícil, conhecendo as empresas por dentro, ver isso de fato acontecendo. Presidentes de grandes empresas e alguns líderes perceberam nos últimos anos que não há mais condição de permanecer no mercado sem mudar paradigmas. Não são poucas as mudanças: Coca-Cola e McDonald’s adaptam seu portfólio de produtos para atender à sociedade, que começa a fazer novas escolhas. No entanto, ainda há resistências das empresas, pois manter a fórmula tradicional dos produtos afeta menos o lucro do que investir em novas tecnologias. Para uma geração de executivos que mede suas metas em dinheiro no bolso no final de cada ano a decisão não deixa dúvidas. Muitos “cases” de transformação empresarial nasceram após denúncias. Como na nossa vida pessoal a crise gera mudança. O desastre tem um papel na construção do futuro. Aconteceu com a Petrobras e o vazamento na Baía de Gua Guanabara, com a Nike e está acontecendo nesse momento com a Chevron. Uma nova liderança possibilita a mudança de inúmeras empresas, e algumas pequenas já nascem sustentáveis. Investem em novas tecnologias e no sonho, na visão de novos comportamentos. Isso tem sido muito estimulante. Da mesma forma, me impressiona o número de e-mails que recebo de profissionais insatisfeitos com seus gestores e com o “discurso” das empresas sem “fatos” na realidade. Andamos, mas temos muito para caminhar. Colaboradores começam a escolher empresas para trabalhar considerando o ambiente interno e as possibilidades de fazer seu trabalho ser efetivamente uma oportunidade para mudar o mundo. Aos poucos, o consumidor passa a ser o gestor de seu corpo e de sua mente. Escolhe. Os jovens através das redes sociais têm realmente formas de interferir na sociedade, como tem sido provado ao longo deste ano. Há novas lideranças nas ruas, nas praças e nas redes sociais. A TV já não pauta suas mentes, fogem dela e ocupam a internet. Cada vez temos mais
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PLURALE
interlocutores e menos consumidores, coisa que observo há anos. Aparece uma nova geração de mães que questiona os produtos e a publicidade para seus filhos. O Instituto Alana, que começou há três anos essa luta e se destaca com profissionais jovens, altamente preparados, que poderiam estar em qualquer empresa, mas escolheram trabalhar naquilo em que acreditam. Tudo ficará muito difícil para as empresas que não perceberem que a sociedade mudou e continua a mudar, já que jornalistas e publicitários
As empresas assumiram compromisso com a sustentabilidade. Difícil ler a missão ou a visão de grande empresa e não encontrar referências quanto à responsabilidade socioambiental ou sustentabilidade. sem diploma ou emprego multiplicamse exponencialmente. Fazem por paixão, por acreditar, voluntariamente. Aí encontramos a profunda diferença entre esses grupos ativos da sociedade civil e os empregados das empresas. Um dia me vi perguntando numa palestra: Como conquistar nos nossos empregados o espírito do voluntariado? Não adianta o presidente querer, o diretor ordenar, as missões escritas nos sites se, e especialmente, a liderança das empresas não per perceber o seu papel de gestora, animadora, inspiradora e educadora. A comunicação interna tem conquistado importância estratégica nos últimos anos, exatamente porque saiu do en-
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domarketing para mergulhar na educomunicação. Dra. Ana Luiza Almeida, do Instituto de Reputação, declara com toda razão nas suas palestras: “As empresas hoje só são donas de sua imagem, não mais donas de sua reputação de marca”. A reputação da marca fugiu para a mão dos interlocutores. Quantos gestores têm consciência disso? Muitos CEOs e novos líderes já perceberam. Mas eu escuto afirmações de gestores que às vezes me surpreendem. Ao ver uma frase de Ricardo Voltolini no Facebook e percebo que não sou só eu que me surpreendo: “Quando o principal dirigente diz - entre os mais próximos, claro - que sustentabilidade “custa caro” e que só vai investir em produtos sustentáveis quando o consumidor estiver disposto a “pagar o preço” ou quando o governo oferecer algum tipo de “incentivo”. Bem, ao que tudo indica, essa empresa poderá pagar alto preço pela miopia. Definitivamente estamos longe de estruturas empresarias que contemplam a visão holística na sua gestão. Conseguir somar pode representar uma grande oportunidade para posicionar uma empresa para o futuro. Sustentabilidade é um conceito que fala do todo. Como podemos gerir o todo pelas partes? Construímos um mundo em cima do modelo da dominação, como nos desvenda Riane Eisler no livro O poder da parceria: “No modelo de dominação alguém tem que estar por cima e alguém por baixo (...) o modelo de dominação é desagradável, dolorido e contraprodutivo. No entanto, convivemos diariamente com ele e com suas consequências”. A estrutura das empresas hoje produz dor, desafio, e ra raramente prazer e realização no trabalho. Quando cada um está lutando pelo seu ganha-pão, pelo seu reconhecimento, como vamos construir uma empresa sustentável? Quando o tercerizado ou o for fornecedor, a comunidade é uma coisa e o colaborador é outra? Quando as relações de trabalho são baseadas na desconfiança e não no diálogo ou na parceria? A maioria dos nossos gestores ainda cumpre tabela. “Agora é assim que querem que eu faça e assim vou levando”. Não vai adiantar. Cada um de nós precisa se modificar, enfrentar seus “bichos”.
Fomos treinados para sermos competitivos. Engenheiros não estudam gente, mas hoje devem ser gestores de pessoas. Temos hoje uma quantidade enorme de trabalhadores do PAC que atravessam o país em busca de oportunidades profissionais, sem qualquer preparo. Como vão respeitar o meio ambiente, a popula população local e evitar a proliferação de bebês, prostituição, drogas e violência? Conhecem história do Brasil, geografia, biomas, aprendem ao longo da vida a valorizar espécies animais ou vegetais? O que sabem de geografia humana, sociologia ou de psicologia? E estão lá tratando com índios e quilombolas. Pior, médicos não estudam gente, só máquina. Seres humanos são a mistura de pensares, sentires, quereres. Enquanto não afetarmos nossos profissionais inteiros, no triângulo básico quereres, pensares e sentires, não nos enxer enxergaremos no “outro”. Como podemos sair de São Paulo para trabalhar no Maranhão ou na África e entendermos essas popula populações que vivem no limite da idade média? Consideramos essas pessoas como iguais, realmente? Nem com as comunidades ao lado de nossas casas muitas vezes colocamos atenção e amorosidade. A empresa contrata um diretor de sustentabilidade, outro diretor de meio ambiente, outro para dirigir o instituto e a fundação, outro para cuidar do relacionamento com comunidades, outro para cuidar da comunicação com colaboradores e outro ainda para desenvolver os colaboradores. Eles quase nunca conseguem tra trabalhar sistemicamente. O entendimento do conceito de sustentabilidade se perde nos cargos e egos. Onde está a área de sustentabilidade nas empresas? Como ter uma área para um conceito que envolve tudo? Um diretor de Sustentabilidade que não consegue falar com o diretor Financeiro? Egos e pouca compreensão do conceito atrapalham o caminho. Temos desafios diversos para construir as empresas do futuro e todos eles passam pelas lideranças. São os gestores que podem transformar as empresas, as ONGS e o governo. São os empreendedores de si mesmo e que por isso serão capazes de empreender os novos tempos. Multiplicam-se na sociedade civil os interlocutores do futuro, eles estarão
pressionando para que mudanças efetivas ocorram na próxima década. Precisamos de novos líderes que acordem colaboradores nas nossas organizações. As universidades não conseguem formálos na proporção da necessidade. Muitas empresas investem na educação de seus colaboradores para compensar a ausência de profissionais capacitados. Faltam soldadores e até pedreiros em algumas regiões. Lutamos contra o analfabetis-
de educação. É tudo verdade, mas a gente não gosta que fiquem falando, falando... Porque não ajudam a gente? Por que olham para a gente como olham?” Fui embora pensando numa palavra que as empresas não falam e que poderá fazer toda a diferença para o nosso futuro: amor. Comecei com um pouco de história, não por acaso. É muito importante per perceber o que conseguimos andar em vinte anos. Tenho hoje o prazer de conhecer
mo quando a tecnologia invade todos os processos, e temos ainda o maior desafio: alfabetizar para o futuro, para o mundo que estamos gerando. O desafio do líder gestor hoje é conseguir ter uma visão sistêmica, que seja capaz de se reeducar e educar seu cola colaborador em justiça social, cidadania e profundo respeito pela natureza. Sabemos fa fazer crescimento, estamos longe de saber fazer desenvolvimento sustentável. Numa praça no interior do Maranhão, onde muitas empresas estão investindo, sentei numa cadeira em volta de uma árvore, ao lado de um típico maranhense. Alguém comentou que eu já voltava para o Rio no dia seguinte quando ele comentou: “Por que todo mundo que é legal, boa gente, vai embora?” E eu rapidamente disse: Ué, como você sabe que eu sou legal? “Ah! Porque a senhora olhou para mim. Todo mundo que chega aqui, só reclama, parece que não sabem que vieram para o estado mais pobre do Brasil. Reclamam de tudo, da estrada, da comida, da nossa falta
alguns gestores que perderam o medo de amar gente, natureza, tudo que tem vida. Gerente que é capaz de sentar ao lado de colaboradores para assistir uma aula de responsabilidade social. Engenheiros que tem ideias incríveis de projetos sociais, para diminuir o impacto de seu negócio. Diretores que são capazes de planejar e gerir não só números, mas colaboradores e comunidades. São poucos ainda, mas existem. Perceberam que o nosso planeta pulsa, respira, é vivo. Tentam aprender todo dia a equilibrar seus egos, conseguem estimular parcerias, enfrentam a dificuldade diária da convivência nas grandes corporações com paciência. Sabem, como eu, que não sabemos nada, porque nesse momento precisamos fazer coisas que nunca fizemos. Esses gestores, embriões dos gestores do século XXI, me fazem trabalhar cada vez com mais amor. (*) Nádia Rebouças, sócia da Rebouças & Associados, trabalha com comunicação para transformação
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Colunistas
Malu Nunes
Reservas particulares: aliadas da biodiversidade
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roteger a biodiversidade é responsabilidade dos líderes do Brasil, mas o governo, sozinho, dificilmente será capaz de criar em curto e médio prazos tantas unidades de conservação (UCs) quanto o país precisa para manter íntegras parcelas significativas de seus principais ecossistemas e biomas. A participação da iniciativa privada é, portanto, fundamental para reforçar as ações públicas, e isso pode ser feito por meio do estabelecimento de UCs privadas, as chamadas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Essas reservas, que ainda são pouco conhecidas pela população, carecem ser mais valorizadas, principalmente porque poderão ter sua importância duplicada. As RPPNs se tornarão um dos poucos redutos de natureza conservada se os prejuízos das já frequentes permissões (ou liberações) de uso direto em UCs de proteção integral forem somados à aprovação das mudanças no Código Florestal que flexibilizam a lei e possibilitam mais desmatamentos. Existem no Brasil 1.062 reservas particulares reconhecidas pelos órgãos federal, estaduais e municipais. Elas estão distribuídas por todos os biomas brasileiros e protegem mais de 690 mil hectares. As RPPNs, em área, representam 0,5% dos 136,8 milhões de hectares das demais 846 UCs (310 federais, 503 estaduais e 81 municipais) e 1,34% das UCs de proteção integral. A comparação mostra que as RPPNs são muitas, mas que têm tamanho reduzido. Por isso, elas ganham mais relevância no contexto nacional quando estão estrategicamente localizadas nas imediações de outras UCs, pois, assim, contribuem na formação de corredores de vegetação que mantêm ciclos e fluxos naturais dos ecossistemas – por exemplo, servem de abrigo e pontos de passagem de animais silvestres. Esse corredor será ainda mais efetivo se as diversas UCs não estiverem separadas por imensas áreas desprovidas de vegetação ou por fragmentos florestais isolados, mas sim se as áreas protegidas estabelecidas pelo Código Florestal – a área de preservação permanente (APP) e a reserva legal (RL) – formarem um elo entre elas. No melhor dos cenários, em que a lei é cumprida e há um planejamento da paisagem, cada propriedade tem sua APP conectada com a reserva
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legal; e, essa reserva é limítrofe às das propriedades vizinhas. Forma-se, então, uma grande área de vegetação nativa que se conecta às UCs. Esta é a complementaridade almejada para o sistema nacional de áreas propro tegidas: os esforços públicos e privados integrados na proteção dos ciclos naturais. No entanto, a colocação em prática dessa agregação entre UCs públicas, RPPNs e áreas protegidas (APP e RL) depende de empenho para superar os problemas existentes. Uma lacuna é a deficiência de gestão das UCs públicas. Por mais que alguns órgãos ambientais se esforcem, a criação e manutenção dessas unidades ainda deixa a desejar, pois, há anos, o governo federal carece de uma estratégia integrada de conservação. Além disso, se aprovada da forma como está, a flexibilização do Código Florestal permitirá novos desmatamentos de APP e RL. Esses pontos críticos somente serão
Fotos: José Paiva/ Acervo Fundação Grupo Boticário de Apoio à Natureza
superados se houver priorização das políticas públicas ambientais sobre as políticas econômicas que visam ao desenvolvimento a qualquer custo. A Câmara dos Deputados elaborou um projeto de lei para estabelecer o dia 31 de janeiro como o marco legal de comemoração das reservas privadas. Mais que celebrar o Dia Nacional das RPPNs, espera-se que a data e o próprio projeto de lei sejam pontos de partida para a ampla divulgação dos benefícios dessas UCs e também para discussão sobre incentivos que estimulem a criação dessas áreas e que possibilitem a qualidade na sua implementação. Por exemplo, os proprietários de RPPN poderiam receber mais do que a atual isenção do Imposto Territorial Rural (ITR) e ser priorizados em outras políticas públicas de concessão de crédito; de incentivo à infraestrutura, educação e turismo; e, de estímulo a negócios verdes. Outra alternativa é a aplicação dos mecanismos de pagamento por serviços ambientais (PSA), que recompensam quem conserva a natureza, direta ou indiretamente. Já existem modelos de PSA bem-sucedidos sendo adotados no Brasil, mas eles ainda podem ter uma atuação mais estratégica com vistas a resultados de longo prazo, com a criação de modelos de PSA que recompensem os proprietários que já mantêm reservas privadas no entorno de outras UCs, ou, ainda, modelos que tenham o PSA como
propulsor para criação de RPPNs. Além disso, mais estados, além dos 14 atuais, poderiam aderir ao ICMS Ecológico para beneficiar os municípios que abrigam RPPNs. É preciso sim que as RPPNs ganhem importância no cenário nacional. Contudo, a expectativa é que essa conquista ocorra porque há estímulos para isso e porque a sociedade está conscientizada de que vale a pena conservar, e não meramente pela perda de outras áreas protegidas em propriedades particulares, proporcionada pela falta de cumprimento da legislação ambiental. Nunca é demais ressaltar que somos dependentes de diversos serviços derivados do bom funcionamento dos ecossistemas, como a provisão de água e alimentos. Além disso, as áreas protegidas contribuem de forma efetiva para enfrentar um dos grandes desafios contemporâneos: as mudanças climáticas, que são decorrentes também da emissão de gases de efeito estufa provenientes da degradação de ecossistemas naturais. (*) Malu Nunes é Colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre sustentabilidade. É engenheira florestal, mestre em Conservação da Natureza e diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
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Colunistas
Rudolf Höhn
O equilíbrio
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a mesma forma que para uma empresa ser saudável é fundamental que haja um equilíbrio entre seu ativo e seu passivo, penso que, em relação à Humanidade, é fundamental que haja equilíbrio entre os direitos e deveres de cada cidadão para que se possa pretender um futuro mais saudável para o nosso planeta. Se por um lado pretendemos o direito à nossa liberdade, está, no meu entender, implícito que a contrapartida seria o dever do respeito à liberdade alheia, ou seja, para que haja o equilíbrio social é mandatório que o comportamento humano seja orientado pela educação, pelas leis e sua aplicação efetiva, pelas regras escritas ou não, para que se consiga satisfazer esta equação. Tomemos como exemplo o mendigo que vive nas ruas pedindo esmolas às pessoas que passam. Ele tem este direito? Certamente não, pois está com isto constrangendo as pessoas e portanto afetando o direito delas de ir e vir sem serem incomodadas. É claro que este é um exemplo de um problema de difícil solução, mas que certamente está incluído no direito do governo de arrecadar impostos e obviamente no dever de prestar os serviços correspondentes
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à sociedade, onde o problema citado está inserido. Se a sociedade paga impostos para obter do governo a contrapartida do respeito à sua liberdade, saúde, educação e paz, é obrigação dele priorizar estas áreas antes daquelas que envolvem apenas as pretensões políticas daqueles que deveriam se dedicar prioritariamente àqueles que os elegeram e pagam os seus salários. Exemplos como este infelizmente temos demais: • Por que as pessoas não são atendidas como deveriam quando têm problemas de saúde? • Por que o nível de qualidade do nosso ensino é pior do que em países que têm condição econômica inferior à nossa? • Por que a nossa segurança pessoal deixa tanto a desejar? • Por que as nossas estradas são esburacadas? • Por que os nossos túneis são sujos e mal sinalizados? • Etc., etc., etc. Seria por falta de recursos financeiros, de prioridade adequada ou por falta de gestão? Creio que, se a nossa atenção fosse dirigida para as duas últimas questões, certamente a primeira tenderia a ser melhor solucionada e o equilíbrio entre direitos e deveres mais ajustado. A questão da gestão nos transporta para o nosso sistema político, a democracia, que pressupõe o equilíbrio entre os três poderes e a eleição direta daqueles que ocupam o poder executivo e o legislativo. A sociedade, única responsável pela escolha daqueles que receberão dela a delegação de gerir os recursos que lhe são colocados à disposição, deve ser capaz de valorizar aqueles que realmente agem em seu favor, e não os que estão em busca das suas prioridades e realizações pessoais. Meu pai dizia que o boi não sabe a força que tem, pois do contrário não puxaria a carroça. Assim é a sociedade que, embora não tendo os seus direitos atendidos, não se mobiliza para, com as ferramentas de que dispõe, reivindicá-los. Tomemos como exemplo a questão da saúde. Existe alguma dúvida de que sem ela nada mais é importante? Pois bem, a prioridade dada pelo governo foi por uma melhor distribuição de renda através de programas assistencialistas. Nada contra os programas de assistência à pobreza mas não antes da saúde. De que me vale comprar uma televisão se estou moribundo e não tenho a quem recorrer? O problema que enfrentamos é que uma grande parte da sociedade está mais ligada aos benefícios pessoais de curtíssimo prazo de que possa usufruir do que naqueles estruturais como a saúde, a educação, a segurança, etc. que são as pedras fundamentais para o futuro do nosso país e que, infelizmente, somente se tornam importantes para ela quando delas necessita. É como se o cachorro estivesse correndo atrás do seu próprio rabo. A sociedade acaba elegendo aqueles que lhes satisfaçam os desejos pessoais de curtíssimo prazo em detrimento daqueles que se preocupam em procurar resolver os problemas estruturais do país. Um bom exemplo
é o que está ocorrendo hoje em alguns países da Europa, onde as benesses dadas à sociedade em geral superaram a capacidade desta mesma sociedade de gerar os recursos necessários par atende-los. E hoje quem estaria disposto a sacrificar parte dessas benesses em prol do futuro do país? A sociedade parece esquecer que o dinheiro público pertence a ela e não aos governos. E assim também as estradas, as ruas, as calçadas e toda a infraestrutura do País. Portanto, se queremos um dia que os direitos da sociedade em geral sejam respeitados, é necessário que exijamos dos governantes o foco prioritário nos direitos fundamentais de quem os elegeu. Reclamamos muito e infelizmente agimos pouco. Sendo assim, a pergunta que fica é: - Porque a sociedade não se mobiliza para exigir que os seus direitos sejam respeitados? Principalmente naquelas áreas onde o dever do Estado de prover serviços decentes é inquestionável: • O nível da nossa educação - Existe alguma duvida de que não existe desenvolvimento, cultura, respeito, cidadania, preservação e a própria democracia, sem este ingrediente fundamental? Ou será que isto não interessa a todos? • O atendimento aos que necessitam na área da saúde. Saneamento básico - É claro que esta é uma área desafiante para qualquer Pais, mesmo para o mais desenvolvido, o que não é desculpa para não estarmos muito mais avançados nesta área. Principalmente na prevenção onde os recursos são despendidos de forma mais eficaz. • Segurança pública - Esta é outra área onde, havendo vontade política e a devida prioridade assegurada muita coisa pode ser feita com os recursos disponíveis. • A infraestrutura, para que o País possa almejar melhor nível de competitividade. • Políticas públicas que visem um tratamento adequado das áreas sociais e ambientais. Não creio ser necessário me expandir mais para fazer o ponto de que está claro que a sociedade tem por um lado cumprido com o seu dever pagando impostos elevados e por outro não sendo contemplada com o equilíbrio no atendimento aos seus direitos. Falta por parte da sociedade como um todo a cobrança destes direitos daqueles que por sua delegação são os gestores de seus recursos. Numa empresa, o desequilíbrio entre os ativos e passivos causa problemas sérios, podendo levar à sua falência. Precisamos lutar para que o equilíbrio entre os direitos e deveres da sociedade sejam respeitados dando-nos chance de atingirmos um dia uma vida socialmente mais justa e ambientalmente mais aceitável. (*) Rudolf Höhn é Colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre Sustentabilidade. É Presidente da Ação Comunitária e Sócio-Diretor da E-Hunter. Foi presidente da IBM no Brasil.
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P e lo B rasi l
Um balanço das redes e do social Nícia Ribas, de Plurale em revista De São Paulo (*)
No burburinho dos intervalos do seminário A Sociedade em Rede e a Comunicação, promovido pela Telefônica/Vivo, em São Paulo, dias 5 e 6 de dezembro, misturavam-se sotaques de todos os rincões brasileiros. O público era formado por jornalistas dos estados onde a mega empresa está presente, ou seja, o Brasil todo. Há pouco mais de 13 anos, pelo programa de privatização das telecomunicações, a espanhola arrematou a Telesp, de telefonia fixa em São Paulo, e a Tele Sudeste Celular(Rio, Espírito Santo e Bahia). O campo era tão fértil, que levou à criação de uma nova marca: Vivo, para a operadora celular. Líder de mercado, ela teve grande participação no processo de expansão do número de celulares, que hoje ultrapassa o número de brasileiros, sempre em linha com o estonteante desenvolvimento tecnológico. Agora, o Grupo Telefônica reuniu numa só organização as operadoras fixa e celular, adotando apenas um nome no Brasil: Vivo. Essa integração das empresas e a unificação da marca são consideradas, pelo presidente do Grupo, Antonio Carlos Valente, os fatos mais relevantes de 2011.
Como novidades para os já 85 milhões de clientes, o presidente da Vivo, Paulo Cesar Teixeira anunciou a maior cobertura 3G, chegando a dois mil municípios ainda em 2011; os lançamentos do Vivo Fixo e Vivo Box, no mercado da telefonia fixa e banda larga; a construção do Data Center de Tam-
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boré, chamado de data center verde por ter certificado TIER III do Uptime Institute; e uma nova faixa de freqüência, a 1.800 MHz, que duplica a capacidade da rede e permite que o chip da Vivo funcione em qualquer aparelho de qualquer empresa. No quesito inovação, carro-chefe da empresa, o destaque do ano foi o Wayra, que identifica novos talentos entre os jovens brasileiros. Marcelo Alonso, diretor de Comunicação, orgulha-se: “Tivemos 518 projetos inscritos, selecionamos 10, que em fevereiro de 2012 serão alocados num mesmo espaço, que já estamos chamando de Vale do Silício”. açãO sOcial Na mesma linha de unificação, o Instituto Vivo e a Fundação Telefônica foram integrados, mantendo o empenho em melhorar a vida das pessoas. As prioridades são o combate ao trabalho infantil, educação e aprendizagem, voluntariado e desenvolvimento local. “Nesta nova fase, estamos ampliando nossa área de atuação, com projetos que beneficiam mais de cinco mil crianças nos estados de Pernambuco e Alagoas”, disse a presidente da Fundação Telefônica, Françoise Trapenard.
No Estado de São Paulo, eles se orgulham de terem erradicado o trabalho infantil em Várzea Paulista, beneficiando 10 mil crianças e adolescentes. Outra ação que consideram bem sucedida é a do Voluntariado: “Em 2011 tivemos mais de três mil colaboradores em 12 cidades, trabalhando
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para melhorar a vida das pessoas, no Dia do Voluntariado, sete de outubro.” cOnectividade para tOdOs Ao abrir o Seminário, Valente contou que acabara de voltar do interior de Tocantins, a 130 km de Palmas, onde lançou os projetos Telinha no Cinema e Telinha na Escola, que formam jovens para a produção de conteúdos audiovisuais em mídias não convencionais. Era uma comunidade de 3.700 brasileiros desconectados do mundo. Ele lembrou que até 1995, a Internet estava muito distante das pessoas e que só em meados de 2000 surgiu a conectividade móvel. Em 2010, o tablet chegou para transformar a relação das pessoas com a tecnologia: “o problema é que com a atual política tributária, o acesso ainda é muito restrito porque custa caro; temos como desafio a inclusão das pessoas, principalmente no que se refere aos aplicativos educacionais”. Hoje, 48% dos brasileiros têm computador em casa e 75 milhões são usuários da Internet. Um dos participantes do Seminário, o médico Eugenio Scannavino Netto, apresentou o trabalho desenvolvido pela sua ONG Saúde Alegria, no interior do Pará, com apoio da Vivo: “Levamos telefones celulares para o meio da floresta, onde as comunidades ribeirinhas se mantinham isoladas do mundo; vocês não imaginam a transformação que a chegada da comunicação proporcionou na vida das pessoas!” São 150 comunidades e 30 mil habitantes, que vivem do extrativismo e da pesca. Dr. Eugênio contou que a Rede Mocoronga de Comunicação, com jornais, rádios e emissoras de TV, é tocada pelos jovens das comunidades, utilizando a tecnologia disponibilizada pela operadora, em Belterra. Cada comunidade tem sua rádio e eles já conquistaram espaço numa rádio AM da Região, que retransmite seus programas. Telecentros culturais também foram montados, permitindo o acesso à Internet. (*) A repórter viajou a convite da organização do evento.
Brasil é o 84º do ranking de desenvolvimento humano da ONU IDH 2011: O Brasil e os extremos
Luana Lourenço Repórter da Agência Brasil
O Brasil é o 84° colocado no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 2011, divulgado em novembro pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A lista tem 187 países e o índice varia de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1 o resultado, melhor o desempenho. O IDH 2011 do Brasil é 0,718, colocando o país no grupo de nações com desenvolvimento humano elevado. O índice brasileiro está acima da média global (0,682). Na comparação com 2010, o Brasil subiu uma posição. A Noruega manteve a liderança no ranking, com IDH de 0,943. Em seguida estão a Austrália (0,929) e os Países Baixos (0,910) no grupo de países com desenvolvimento muito elevado. Nas últimas posições, com os piores índices, estão o Burundi (0,316), Níger (0,295) e a República Democrática do Congo (0,286), todos na África Subsaariana. O IDH considera três dimensões fundamentais para o desenvolvimento humano: o conhecimento, medido por indicadores de educação; a saúde, medida pela longevidade; e o padrão de vida digno, medido pela renda. Em 2011, para o Brasil, foram registrados 73,5 anos de expectativa de vida, 13,8 anos esperados de escolaridade (para crianças no iní-
1º
Expectativa de vida
0,943
81,1 anos
IDH
Expectativa de vida
0,718
73,5 anos
IDH
Expectativa de vida
0,286
48,4 anos
Anos esperados de escolaridade
17,3
Anos médios de escolaridade
12,6
Renda Naciona Bruta per capita
US$ 47.557
Noruega
84º
Anos esperados de escolaridade
13,8
Anos médios de escolaridade
Renda Naciona Bruta per capita
7,2
US$ 10.162
Anos médios de escolaridade
Renda Naciona Bruta per capita
3,5
US$ 280
Brasil
187º
República Democrática do Congo
Anos esperados de escolaridade
8,2
FONTE: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud)
cio da vida escolar) e 7,2 anos de escolaridade média (considerando adultos com mais de 25 anos). A Renda Nacional Bruta (RNB) per capita dos brasileiros em 2011 considerada no cálculo do Pnud foi US$ 10.162. Desde a criação do IDH, em 1980, o Brasil registra evolução no índice. Em três décadas, a expectativa de vida do brasileiro aumentou em 11 anos, a média de escolaridade subiu 4,6 anos, mas a expectativa de
anos de escolaridade caiu 0,4 ano. No período, a RNB per capita subiu cerca de 40%. “As dimensões sociais, de educação e saúde foram as que mais causaram impacto no IDH do Brasil e fizeram com que o país ganhasse posições”, avaliou o economista do Relatório de Desenvolvimento Humano brasileiro, Rogério Borges de Oliveira. Entre 2006 e 2011, o Brasil subiu três posições no ranking do IDH, segundo o Pnud.
Maria Kirshner, Cláudia Jenon e Cid Alledi. O grupo se reuniu a convite da sócia do escritório de advocacia Martinelli Fabiane Turisco, do coordenador de RSC da ABRH Luiz Fernando Rodrigues, do Secretário Executivo e membro fundador do CIEDS Vandré Brilhante e da sócia-fundadora da Makemake Tatiana Maia Lins. A ideia é que o comitê interdisciplinar dialogue, de modo independente, a respeito de pontos sensíveis para a compreensão do terceiro setor. Alguns dos temas propostos para análise são:
•Qual o papel do terceiro setor no Brasil? •Qual o peso do terceiro setor na nossa economia? •O que é uma ong séria? •Precisamos de ongs fazendo o que os outros setores da economia não fazem? •Como desenvolver o país de modo sustentável? •Como identificar entidades honestas no terceiro setor? •Quem se beneficia dos repasses de verbas públicas? •Por que há tão pouco uso de incentivos fiscais? O comitê pretende realizar uma série de encontros ao longo de 2012. O primeiro evento está previsto para o dia 06 de março, com o tema: “Qual o papel de cada ator social na nossa economia? Eles estão sendo cumpridos?”. Os participantes saíram do encontro muito animados e pretendem lançar um blog com as discussões.
Comitê Interdisciplinar Diálogos Sociais é lançado no Rio O Comitê Interdisciplinar Diálogos Sociais teve a sua reunião inaugural no fim de novembro, no Rio de Janeiro. A reunião contou com a presença de nomes de peso no estudo e na prática da Responsabilidade Social Corporativa como, entre outros, os professores Patricia Almeida Ashley, Eduardo Rodrigues Gomes, Ana
IDH
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Isabel Capaverde, de Plurale em revista
P e lo B rasi l IBOPE Ambiental chega ao mercado e divulga pesquisa De São Paulo O Grupo IBOPE lançou, no fim de outubro, o IBOPE Ambiental, que atua com serviços voltados aos aspectos ambientais da sustentabilidade. A empresa trabalha de forma sinérgica com o Grupo em duas linhas de negócios distintas. A primeira, de consultoria, desenvolve projetos em segmentos como estratégias de sustentabilidade, gerenciamento e reporte de emissões de gases de efeito estufa para governos, autarquias e setor privado. A outra área de atuação abrange certificações e inicialmente trabalhará nos mercados de carbono, regulados e voluntários, validando e verificando projetos de redução de emissões. Para marcar o lançamento da nova unidade do Grupo, o IBOPE Inteligência realizou uma pesquisa com 400 médias
e grandes empresas brasileiras e multinacionais atuantes no Brasil, dos ramos da indústria, comércio e serviços, para saber como o empresariado vê e trata a questão ambiental. O estudo mostra que 94% dos entrevistados dizem ter conhecimento sobre o assunto. Porém, apenas 48% das empresas ouvidas têm políticas de sustentabilidade com metas e ações planejadas. Outras 45% praticam ações pontuais e 7% afirmam não ter qualquer medida para um modelo de gestão sustentável. Em 52% das entrevistas, as áreas que elaboram e executam as ações são distintas. Das áreas responsáveis pela execução, em mais de 40% das empresas são as equipes de marketing e comercial que geram as ações. “Talvez isso indique que o peso das ações ainda se volte para a imagem da empresa ou de seus produtos, mais do que um comprometimento com o médio e longo prazo”, explica o diretor executivo do IBOPE Ambiental, Shigueo Watanabe. Quando existe um conselho ou comitê de sustentabilidade, quase 20% dos membros não pertencem aos quadros da corporação. “Isso demonstra que começa a existir a percepção de que a amplitude e dinâmica do tema exigem opiniões de pessoas de fora da empresa”, explica.
Jornalista Claudia Cataldi recebe prêmio Baseado na fábula do beija-flor, que diante de um grande incêndio na floresta carregava água no bico, não deixando de dar sua contribuição para o bem comum, a ONG Rio Voluntário entrega anualmente o Troféu Beija-Flor. Em sua 15ª edição, a cerimônia aconteceu na tarde no dia 30 de novembro, no Teatro SESI, no Rio de Janeiro, com a apresentação da atriz Elke Maravilha. A jornalista Claudia Cataldi - colunista de Plurale em site- foi homenageada na categoria Mídia, pelo programa Responsa Habilidade, o qual idealizou e está no comando há cinco anos e recebeu o troféu de Marlon Brum, editor do Jornal Extra. | Novembro PLURALE EM REVISTA EM REVISTA | Julho/Agosto 2010 / Dezembro 2011 26 PLURALE
IV Congresso de Jornalismo Ambiental: reflexão e inspiração Da Equipe Plurale em revista O local não poderia ser mais inspirador e acolhedor: o verde que cerca a Pontifícia Universitária Católica (PUC-Rio), na Gávea, Zona Sul do Rio. Ali, por três dias de novembro (de 17 a 19), cerca de 500 jornalistas profissionais, estudantes, executivos e representantes do Terceiro Setor estiveram reunidos para refletir e dialogar sobre os rumos do Jornalismo Ambiental. Organizado pela Envolverde e Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (Rebia), o IV Congresso de Jornalismo Ambiental (CBJA) reuniu gente de norte a sul do país. Patrocinado pela Caixa, Fundação Banco do Brasil, Fundo Vale, Itaú, Petrobras e Tetrapak, o evento tratou de temas relevantes como o papel da imprensa na cobertura da Rio + 20, a relevância das mídias sociais e como acompanhar a migração para a Economia verde. Vários veículos especializados na cobertura sobre Sustentabilidade apoiaram também o Congresso, como Plurale, Ideia Sustentável, Mercado ético e Portal Carbono Brasil.
Logo na abertura, o economista e professor da PUC- SP Ladislau Dowbor deu o tom de urgência e relevância do encontro.lembrando sobre a crise que o Planeta atravessa, dando sinais claros de esgotamento. Ele destacou o papel importante da mídia neste cenário.” O mundo precisa de melhor governança e acesso à informação”. Em outra palestra, desta vez sobre Cidades Sustentáveis, o jornalista André Trigueiro, editor do programa que leva este nome no Canal Globonews e comentarista da Rádio CBN, destacou a importância do profissional que cobre os temas socioambientais não ser ingênuo e ter sempre um olhar crítico sobre a realidade. “Não podemos fazer um ‘jornalismo poliana’. É preciso revelar o que está errado”, afirma. A outra é formada pelo rumo e pela perspectiva. “Também é preciso mostrar caminhos para a solução do que não está certo. Temos essa missão, especialmente em tempos de crise”, avalia.
No painel sobre rádio e televisão, Sérgio Abranches, editor do site Ecopolítica e comentarista da CBN, destacou que será preciso conquistar cada vez mais e mais público.“Quero falar com os que ainda não estão convertidos, que ainda não entendem o caso. O desafio é mostrar que a grande chance do Brasil está na economia verde, e não nas tecnologias ultrapassadas”. Outro tema debatido foi a cobertura da migração para a Economia Verde. Na avaliação do Diretor da Ideia Sustentável, o jornalista Ricardo Voltolini, várias empresas melhoraram bastante, passando realmente a incorporar a sustentabilidade em seus planejamentos estratégicos, mas esta ainda não é regra geral. “Infelizmente, ainda vemos muito greenwashing”. Voltolini falou sobre o papel de líderes sustentáveis neste contexto, ajudando a inspirar outros empresários. Ele acaba de lançar a Plataforma Lideranças Sustentáveis e livro sobre o mesmo tema pela Editora SENAC. A editora do Caderno Razão Social, de O Globo, a também jornalista Amélia Gonzalez, contou como foi começar há muitos anos a cobertura socioambiental. “Pensavam que estávamos ali para abraçar árvores”, brinca. E destacou que “sustentabilidade não cabe em manchete”. Ao contar sobre os quatro anos da revista e portal, a jornalista Sônia Araripe,
Diretora de Plurale em revista e Plurale em site, destacou o trabalho desenvolvido em diferentes cantos do Brasil e até em viagens internacionais. “Temos procurado mostrar casos de transformação, de protagonismo”, disse. E aconselhou jovens comunicadores a terem mais o hábito de estar nos lugares presencialmente, conversando, entrevistando. “Jornalista tem que gostar de pessoas. Somos do tempo em que a gente ia busca na rua as notícias”.
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Social
Um em cada quatro brasileiros faz ou já fez trabalho voluntário Texto: Da Assessoria de Imprensa da Rede Brasil Voluntário
U
m em cada quatro brasileiros com mais de 16 anos, cerca de 35 milhões de pessoas, faz ou já fez algum trabalho voluntário, é o que aponta pesquisa da Rede Brasil Voluntário, realizada pelo Ibope Inteligência. Destes, 11%, cerca de 15 milhões de pessoas, exercem alguma atividade voluntária no momento e 14% (cerca de 20 milhões) não. A pesquisa foi encomendada pela Rede Brasil Voluntário com o objetivo de analisar o atual cenário do voluntariado no Brasil, após 10 anos da mobilização do Ano Internacional do Voluntário (2001). Em 2011, em todo o mundo, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), se comemora a Década do Voluntariado. “Esta pesquisa nos mostra a evolução do movimento do voluntariado no Brasil”, afirma Maria Elena Pereira Johannpeter, presidente da Parceiros Voluntários (RS). “Há alguns anos, o voluntariado era visto como uma ação apenas de pessoas com boas condições financeiras.
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Atualmente, tanto no Brasil quanto no mundo, as ações voluntárias são entendidas como exercício da cidadania. São cidadãos preocupados com as necessidades de sua comunidade e que compreendem que é preciso haver a união entre governo, empresas e sociedade civil para a solução dos problemas sociais”, completa. A pesquisa foi realizada em duas etapas. O Ibope Inteligência realizou em junho de 2011 a 1ª fase da pesquisa para conhecer a participação da população em ações de voluntariado e para contribuir nos critérios de seleção dos respondentes da etapa seguinte da pesquisa. Nesta etapa, foram entrevistadas 2 mil pessoas. Já a 2ª fase, realizada em novembro de 2011, apenas com voluntários que atualmente realizam alguma ação de voluntariado (um total de 1.550 pessoas), teve como objetivo principal conhecer o perfil do voluntariado brasileiro.
perfil dO vOlUntariadO brasileirO Dos que atualmente realizam alguma ação de voluntariado, 53% são mulheres e 47% homens, com uma média de idade de 39 anos. Dividem-se entre casados (47%) e solteiros (42%). Segundo a pesquisa, a maioria dos voluntários tem filhos (62%) e, em média, 2,5 filhos. Em relação à classe social, a maioria deles é da classe C (43%), seguida pela classe A (40%) e pelas classes DE (17%). Dentre os voluntários, 38% têm Ensino Médio completo ou superior incompleto e outros 20% têm Ensino Superior completo. A pesquisa também aponta que, dos que exercem ou já exerceram o voluntariado, 67% trabalham fora, sendo que 51% destes em tempo integral e 16% meio período. De acordo com Maria Lucia Meirelles Reis, diretora do Centro de Voluntariado de São Paulo, “estes dados mostram que, além dos mais jovens e dos mais velhos, que costumam dispor de mais tempo para atividades de voluntariado, as pessoas mais ocupadas têm se destacado no voluntariado e enxergam cada vez mais os benefícios e a importância de doarem um pouco de seu tempo livre”.
“
Há alguns anos, o voluntariado era visto como uma ação apenas de pessoas com boas condições financeiras. Atualmente, tanto no Brasil quanto no mundo, as ações voluntárias são entendidas como exercício da cidadania. São cidadãos preocupados com as necessidades de sua comunidade e que compreendem que é preciso haver a união entre governo, empresas e sociedade civil para a solução dos problemas sociais.
”
Maria Elena Johannpeter freqUência Segundo a pesquisa, o serviço voluntário é exercido, em média, há 5 anos. Os mais jovens, de 16 a 29 anos, exercem o voluntariado há menos tempo, 3,2 anos, e os de 30 a 49 anos há mais tempo, 5,4 anos. Dos voluntários que atualmente exercem alguma atividade, 54% fazem com uma frequência definida e 46% fazem sem uma frequência definida. Em média, os voluntários dedicam 4,6 horas ao serviço voluntário. satisfeitOs e mOtivadOs A maioria dos voluntários (77%) declarou estar totalmente satisfeita com o serviço voluntário que faz, com destaque para os resultados dos voluntários com mais de 50 anos (83% totalmente satisfeitos) e da classe social DE (86%). Em relação à motivação para o exercício do trabalho voluntário, 67% apontam que o fazem para “ser solidário e ajudar os outros”, 32% para “fazer a diferença e melhorar o mundo” e 32% por motivações religiosas. Dos voluntários entrevistados, 87% declararam que estão totalmente motivados em continuar a exercer o trabalho voluntário. cOnectadOs A pesquisa também mostra que os voluntários são conectados. Do total, 87% dos voluntários têm celular, 64% têm computador, 62% usam a internet
e 53% usam as redes sociais. Do total, 2% declararam que realizam o serviço voluntário à distância. “É muito positivo que os voluntários sejam pessoas conectadas. O que temos assistido é que a capacidade de disseminação das informações de voluntariado e também de mobilização pelas causas têm se multiplicado exponencialmente por meio do uso das mídias sociais”, afirma Fernanda Bornhausen Sá, do Instituto Voluntários em Ação. sObre a rede brasil vOlUntáriO A Rede Brasil Voluntário, criada pelos centros de voluntariado de Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, tem como objetivo reconhecer e expandir o voluntariado no Brasil, apoiar os cerca de 50 centros de voluntariado já existentes e incentivar a criação de movimentos organizados e novos centros.
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Maranhão Simonato, Texto e Fotos: Vivian Mearim (MA) dio De Pedreiras, Mé
R A H N O S JUNTO
mulheres s a d s ta is u q n co s A luta e a açu no coração b a b e d s a r ei d a r queb do Maranhão
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e
stendendo a mão calejada dona Maria* dizia: mulheres trabalhadoras rurais que fizeram da extração do babaçu não “Isso é mão de quem lutou muito a vida insó a atividade econômica, mas também a bandeira de luta para melhomelho teira, minha filha!”. Assim como muitas ourar suas vidas e a vida de suas comunidades. E, mesmo que essa seja tras mulheres brasileiras que vivem na área a primeira vez que esteja ouvindo sobre essas mulheres, garanto que rural do Maranhão, dona Maria começa o dia não será a última, porque as quebradeiras de coco babaçu, como são cedinho, quando a silhueta da palmeira de conhecidas, estão reescrevendo e redefinindo o papel da mulher rural babaçu ainda é um recorte no horizonte, esperando o no Maranhão e demais estados brasileiros, por onde o tapete verde da sol nascer. Casa arrumada e comida pronta, dona Maria palmeira de babaçu se espalha. pega o machado, os filhos mais novos e segue para o pROTAgONiSmO femiNiNO “mato”, para um dia inteiro trabalhando na quebra do fruto. A tarefa é árdua. Depois de juntar o coco babaçu A luta pelo acesso ao babaçu e pela terra se misturam com a hishis em uma pilha, o barulho que vem da tenda improvitória de vida dessas mulheres. Com o olhar perdido no tempo e caca sada, coberta com as folhas da palmeira, é um som beça baixa, dona Sandra nunca esquecerá esquec as marcas profundas que a seco e ritmado, que se estenderá até o pôr do sol. resistência e determinação para ter uma vida melhor lhe deixaram. “A Muitas vezes, meio que sem perceber, dona Maria gente não tinha terra nenhuma e o sustento todo era tirado do babaçu, começa a cantar, e agora o barulho desse trabalho mas, os fazendeiros faziam de tudo para a gente não entrar nas fazendas que separa a casca do babaçu de um lado e amênamên para catar o coco. Um dia mataram meu filho para a gente desistir, ir embora, mas eu nunca fui”. A incerteza de um dia ter acesso à terra, a submissão aos grandes latifundiários - que quando permitiam o acesaces so as fazendas estabeleciam regras onde parte das amêndoas ficavam como “pagamento”-, a pobreza, a falta de informação, o preconceito por serem mulheres, trabalhadoras rurais e, na maioria das vezes, analanal fabetas, poderiam todos terem sido motivos de sobra para desistir. No entanto, a luta individual virou uma luta coletiva, com a mulher como principal protagonista, porque assim como a palmeira-mãe, a mãe queque bradeira deira de babaçu não quer desamparar os filhos. O resultado foi que os obstáculos que podiam ter calado essas trabalhadoras rurais, serviservi ram como combustível para a luta por mais justiça, pela igualdade de direitos e pela obstinação de ter uma vida melhor. “Os filhos da gente quando nasciam já era para morrer porque já vinham desnutridos da barriga de tanto que a gente sofria pra sobreviver. Mãe nenhuma quer ver um filho morrer e daí nós fomos lutando, com orientação da PastoPasto ral da Criança fomos nos unindo para ter mais força e hoje nós temos mesmo”, conta dona Diana, respeitada líder comunitária que também é sócia-fundadora da Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Lago do Junco e Lago dos Rodrigues (AMTR). Nas várias comunidades tradicionais quilombolas cada família tem sua história de luta, retaliação e muita persistência percorrida até chegar na situação em que algumas se encontram hoje, a conquista de um pedaço de terra própria ou doa do outro, é acompanhado de uma das muitas canções que homenageiam e pedem a preservação da palmeira-mãe, como a palmeira de babaçu é carinhosamente chamada. E esse é um carinho coletivo, que parte não só de dona Maria, mas sim de todas as outras mulheres que conseguem garantir boa parte do sustento de suas famílias com a venda da amêndoa do babaçu. Perguntada por que o apelido palmeira-mãe, a resposta é rápida e certeira. “É mãe porque dá tudo para gente. A comida, o carvão, o óleo, a condição para a escola das crianças, o sapato, a roupa... tudo vem da quebra do babaçu. É nossa segurança”. Ao final de um dia inteiro de trabalho, generosa que é, os frutos da palmeira-mãe rendem cerca de 12 quilos de amêndoa, “bem limpinha, sem pedaço de casca”, como dona Maria faz questão de ressaltar, que se transformarão em aproximadamente R$ 12,00. Dona Maria faz parte de uma categoria de
Babaçu (Orbignya phalerata, Mart.) é uma planta da família das palmáceas Arecaceae, dotada de frutos drupáceos com sementes oleaginosas e comestíveis das quais se extrai um óleo, empregado sobretudo na alimentação, remédios, além de ser alvo de pesquisas avançadas para a fabricação de biocombustíveis
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Maranhão
coletiva para agricultura. Mas, junto com as conquistas vieram as responsabilidades e a necessidade de planejamento para fazer o melhor uso possível não só do babaçu, mas também da terra e demais recursos naturais. Como conta dona Diana, “quando a gente luta e tem uma conquista que é um pedaço de chão pra gente trabalhar, a gente precisa lembrar que vai ter outros passos. Quando conquistamos a terra nós éramos todos semi-analfabetos ou analfabetos e, coletivamente, nossa ideia foi montar um grupo técnico para assessorar a gente”.
de Mulheres e Juventude Rural (POMJUR). O POMJUR, juntamente com suas atividades, é um dos muitos programas desenvolvidos pela ASSEMA, popular entre as quebradeiras de coco babaçu e suas famílias. “Eu não sei ler ou escrever, mas adoro esses encontros porque a gente aprende muita coisa”, ressalta dona Benedita, que encanta ao recitar suas rimas entre uma atividade e outra. Tamanha inclusão representa parte importante da concretização dos objetivos da ASSEMA, cuja missão desde que foi fundada, em 1989, é construir coletivamente ações sustentáveis de utilização dos recursos naturais, promovendo qualidade de vida no campo por meio de produção familiar, relações justas de gênero e o respeito às etnias e à diversidade cultural. Inicialmente, a ASSEMA atuava em cinco municípios da região do Médio Mearim (São Luiz GonzaGonza ga, Lima Campos, Esperantinópolis, Lago do Junco e Lago dos Rodrigues). Hoje, essa “associação de raiz” (ou como as agências de desenvolvimento gostam de falar “grassroots association”), também presta assessoria técnica, jurídica, econômica e política a membros de mais três municípios dessa porpor ção central do Estado, sendo Peritoró, Capinzal do Norte e Pedreiras, o que somente confirma o sucesso e aceitação dos programas. Além do POMJUR, a ASSEMA também tem diferentes linhas de atuação para incentivar a prática de agricultura orgânica, dar suporte à comercialização solidária, fortalecer a participação das organizações locais em novas Políticas Públicas e intensifiintensifi car a comunicação, tornando o trabalho da associação mais conhecido tanto
ASSemA, UmA ASSOciA O de “RAiz” Na Igreja do povoado de São José dos Mouras, Linalva finaliza os últimos detalhes para dar início a mais um encontro do Grupo de Estudos das Quebradeiras de Coco Babaçu, que acontece duas vezes ao ano. Contando com uma dose infinita de muito bom humor e esbanesban jando simpatia, ela dá boas-vindas a todos os participanparticipan tes que vão chegando. Dentro do salão as cadeiras dispostas em meio círculo vão sendo ocupadas, no centro está estendida a bandeira da Associação em Áreas de Assentamento do Estado do Maranhão (ASSEMA) e, sobre ela, estão espalhadas diversas revistas que falam de meioambiente, sustentabilidade, direitos da mulher, e muitos outros assuntos que serão discutidos nos próximos dois dias de evento. Linalva é uma das assessoras técnicas da ASSEMA, que trabalha no Programa de Organização
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no cenário nacional quanto internacional. Os frutos dessa empreitada já estão sendo colhidos pelas quebradeiras de babaçu e suas famílias. Graças ao apoio técnico e assessoria da ASSEMA o floco do babaçu (ou mesocarpo), extraído na Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas de Esperantinópolis (COPPAESP), está sendo comercializado com a gigante brasileira NATURA, para ser usado como base das maquiagens. Transcendendo os limites nacionais, o óleo de babaçu, extraído pela Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas do Lago do Junco (COOPALJ), vem ganhando o mundo. Como parte de uma iniciativa de comercialização solidária, o óleo do babaçu é componente importante dos produtos da britânica The Body Shop, garantindo
também melhores retornos financeiros para os associados e ampla projeção da luta pela defesa dos babaçuais. No entanto, outras pessoas em diferentes regiões do Maranhão que ainda sofrem condições de exploração ou pobreza extrema, poderiam também ser beneficiadas por tais iniciativas. Mas, hoje, a expansão dos programas realizados pela ASSEMA dependem de novos apoios financeiros, uma vez que a contribuição de empresas e instituições brasileiras remanesce pequena e ainda 51% dos recursos dessa organização não-governamental (NGO) parte de doadores internacionais, que reconhecem a relevância dos programas em andamento.
“HOJe eU SOU UmA mUlHeR” As conquistas das quebradeiras de babaçu, por meio da ação coletiva são indiscutíveis, principalmente quando consideramos os benefícios que podem ser medidos, como melhoria da condição financeira, moradia e a certeza de coco mida na mesa. No entanto, como dona Ana fala, “babaçu é dinheiro na mão e muito mais”. Nesse caso, mais do que melhores condições financeiras, acompanhando a luta veio também o senso de cidadania, de direitos, de respeito pela mulher, igualdade e maior poder de decisão, começando em casa. “Do jeito que eu fui criada, mulher não resolvia nada, eu não achava que tinha o direito de dar minha opinião, de falar”, conta Joana. Assim como muitas outras mulheres quebradeiras de babaçu, o direito de comercializar e decidir sobre o dinheiro da venda das amêndoas também veio tarde. Se antes de casar era o pai quem vendia a amêndoa e gastava o dinheiro, depois do casamento essa era uma “função” só do marido. Num relato emocionado, Aurora, que já atuou na coordenação da associação de seu povoado, da ASSEMA e do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), relembra um tempo que a mulher quebradeira de babaçu tinha sua voz calada: “Hoje eu sou uma mulher. Eu me tornei uma mulher depois que começamos a nos organizar para lutar pelo babaçu, pela terra, que foi quando ouvi que mesmo sendo mulher eu tinha meus direitos. Antes eu era uma fêmea... podia ser uma jumenta, uma vaca, uma égua, que só servia para reproduzir e trabalhar, porque eu não decidia nada, eu não escolhia nada, nem a roupa que eu usava ou o corte de cabelo que queria”. Hoje, mulheres como Aurora, Joana, Maria e muitas outras não ficam confinadas mais no lar. Elas sabem que tem o direito de expressar suas opiniões para seus maridos, membros das comunidades e políticos; aprenderam a ler e escrever, ou são incluídas em iniciativas em que tem acesso à informação; desenvolveram habilidades de negociação e gerenciamento do dinheiro que ganham e estão muito mais atentas a questões de planejamento familiar e educação, fazendo escolhas que vão muito além de suas casas. Essas mulheres, que hoje tem agendas concorridas, estão desempenhando papel fundamental também na preservação do meio-ambiente, impedindo não só a derrubada das palmeiras de babaçu, mas também ajudam muito na transição para novas práticas de preparo da terra, evitando queimadas e lutando pela eliminação do uso de agrotóxico em suas comunidades. E foi justamente o papel fundamental que a mulher desempenha para proporcionar melhor qualidade de vida a suas famílias, sua condição como cidadã, que me fez chegar até as quebradeiras de coco babaçu. A paixão pelo assunto
me impulsionou a escolher esse tema para minha pesquisa de mestrado em Meio-Ambiente e Desenvolvimento Humano. Mas, sem privilegiar homens ou mulheres, e, sim, promovendo igualdade de gênero, descobri que esse é um assunto muito atual, chamado de “empoderamento feminino” e amplamente defendido por governos e grandes agências de desenvolvimento, uma vez que os benefícios gerados por mulheres são muitos. Nas cinco horas dentro do ônibus pequeno, a caminho do aeroporto de São Luís, lembro e relembro o tempo precioso que passei com as quebradeiras de coco babaçu do Médio Mearim. Gostei do que vi e sei que ainda vamos ouvir falar muito dessas mulheres de fibra. Agora, as muitas palmeiras que me acompanham no meu caminho de volta têm um valor muito mais especial. Entendi a importância da palmeira-mãe na vida dessas mulheres que, sonhando juntas, estão construindo um novo futuro, sólido, com mais igualdade, como deve ser, par partindo da raiz. *Os nomes de algumas entrevistadas foram modificados para preservar suas identidades.
Licor e Sabonete: alguns dos produtos derivados Babacú
AgRAdecimeNTOS
Minha profunda gr atidão a todas as qu coco babaçu que ebradeiras de dividiram comigo suas experiências contarão, para sem e pre, com todo meu respeito. A todos que apoiaram a re alização desse traba lho, cujo produto final é a tese de mes trado em Meio-Am biente e Desenvolvimento Humano, na Trinity College Dublin, Irlanda. Em especial, sou grata aos membros da AS SEMA pela ajuda incondicional, espe cialmente à Linalva Cunha (que além do extremo profiss ionalismo me lembr ou o que é sentirse em casa após an os estando fora do Brasil), aos amigos Àurea Alves, Silvia nete Matos, Dalva , Agenor, Maria Al des e, ao senhor Ild aí aío, pela acolhida du rante a estadia em Lago do Junco.
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Ecoturismo programa uma descida de lancha pelo Rio Preguiças, indo até sua foz no Oceano Atlântico. Após um dia sem novidades e recheado de críticas relarela tivas aos Lençóis Maranhenses, entramos na lancha que nos conduziria pelo Rio Preguiças. Era uma voadeira, veloz, coracora josa e segura. Durante o trajeto o guia foi nos apresentando aquele maravilhoso novo protagonista – o Rio Preguiças. Piscoso em todo o seu percurso, de aproximadamente 50 a 60 kms, o que explicava a razão das crianças locais terem elevado nível de saúde e proteínas, dentes alvos e sadios. Crianças fortes e alegres. Rio sem poluição. Para mim, momo rador do Rio de Janeiro, onde apesar de tudo se conhecer sobre ecossistemas e ecologia e sustentabilidade, e nada se aplicar, tudo ali era de uma beleza paradisíaca. Chegamos a Mandacaru, onde teria a visita ao Farol da Marinha do Brasil, o Farol do Rio Preguiças localizado própró ximo à foz do rio. Vários jovens se aproximaram das lanchas, oferecendo-se como guias. Cada um com sua fala preparada e seu marketing individualizado. Até que o Bruno me chamou a atenção. Ele repetia: “mostro o farol, conto as histórias dos diverdiver sos naufrágios e declamo poesia!”. Cuméquié? Em Mandacaru, um quase adolescente de 10 anos, declama poesia? Vou conferir. A um sinal com a mão, Bruno e seu amiami go João já estavam ao nosso lado. Ao darmos os primeiros passos, eles começaram a declamar a poesia que lhes foi ensinada. Gonçalves Dias. Canção do Exílio.
Noite de Primavera O surpreendente encontro de turistas com o “poetinha” de Mandacaru, nos Lençóis Maranhenses Texto e fotos: Cid do Nascimento Silva, Especial para Plurale em revista De Mandacaru (MA)
A
noite já ia longe, e eu estava inquieto, com a mente dando reviravoltas, pensamentos aceace lerados, revoluções, convulsões, confusões. Não estava preparado para encontrar aquilo tudo no Maranhão. Tolo, quão tolinho era eu. A pensar que o Maranhão era pobre. Surpresa. Maranhão é rico. A pensar que o Maranhão tinha seca. Surpresa. Maranhão tem água o ano todo. A pensar que o Maranhão não tinha agricultura. Surpresa. Maranhão tem hortas, verduras e frutas em abundância. A pensar que o Maranhão não tinha combustível. Surpresa. O Maranhão possui grandes reservas de gás nos seus limites com o Piauí. Tudo isso chacoalhava na minha cabeça naquela noite. Fui para a janela e fiquei recebendo aquela baforada de vento constante vindo do Oceano Atlântico. A noite linda, calma e serena contrastava com os turbilhões que inundavam meus pensamentos. As surpresas tinham sido muitas mas, em especial, a realidade que me foi apresentada pelo Bruno e pelo João. Sim, jovens de não mais do que 10 anos foram os responsáveis por me introduzir naquele mundo maravilhoso de um novo Maranhão. A partir do abraço que nos demos na despedida foi aceso o estopim de avaliação de todas as novidades a mim apresentadas. Eu e minha esposa, Denise, fomos conhecer Barreirinhas e os Lençóis Maranhenses. No dia seguinte, constava do
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“Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.”
Eu fiquei paralisado. Extasiado. Que pedaço de mundo era esse? Que pedaço de Brasil era esse? Quem é a professora desses jovens? Quem é a orientadora educacional desses jovens? Que pedaço de Brasil é esse? O grupo que se dirigia para a visita ao Farol do Rio Preguiças era grande, e já ia lá na frente. Meu anjo da guarda, sempre de plantão, também estava arrepiado com aquela surpresa. E, rapidamente, me apresentou o roteiro. Entreguei nossa máquina para um casal gaú gaúcho que subiria o Farol, e levei o Bruno e João para um quiosque. Pedi um refrigerante para eles, e uma cervejinha para mim e para Denise. Eu
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precisava de coragem e velocidade. Expliquei a eles que eu iria apresentar um novo poema para eles, eles facilmente decorariam, e quando os turistas retornassem, eu os pararia na frente do quiosque, e explicaria que a dupla Bruno e João, declamaria um novo poema. Ao final, eles utilizariam o grande chapéu de Denise, para recolher as contribuições. Eles toparam. Então, mãos à obra. Poeta maranhense: José Ribamar Ferreira Gullar. A Poesia: Uma Voz.
“Sua voz quando ela canta s me lembra um pássaro ma : ndo nta não um pássaro ca .” lembra um pássaro voando Expliquei que o poeta havia feito aque aquela poesia em homenagem a Nara Leão, artista, cantora, jovem, linda que, na época da ditadura, mobilizou-se em favor da classe artística.
Eles foram para um cantinho e dede coraram o texto. Chamei-os para um treino. Eles erraram o verso final. RetorRetor naram. Decoraram. Os anjos da guarda deles ajudaram. Vieram e declamadeclama ram certinho. Os turistas vivi nham chegando. Eu com medo se tudo daria certo. Já possuía um Plano B. Se eles errassem ou gaguejassem, eu completaria, e começaria a bater palmas. Claro que todos seguiriam e me considerariam um louco. Meu Deus me ajudou! Parei naquela viela, abri os braços e os convidei a ouvir o que o BruBru no e João teriam a declamar. Todos pararam. Uma pequena multidão se empertigava para enxergar os dois jovens. Coloquei-os em pé sobre as cadeiras do quiosque. E eles me surpreenderam. Explicaram que o poeta era maranhense, José Ribamar Ferreira Gullar, e também mencionaram que a homenageada com aqueles verver sos era Nara Leão, pois ela tinha se oposto ao regime duro daquela época. Época que eles não viveram e nem conhecem suas agruras, mas que dramáticamente citaram em suas falas. Seguiram declamando o poema. Palmas, palmas e palmas. Eles ficaram super-felizes com o sucesso, que iam se esquecendo do chapéu de Denise. Quando me olharam, sinalizei para o chapéu, e eles foram correndo passar o chapéu, que se mostrou pequeno para a generosa arrecadação, certamente produzida pela emoção e surpresa de em Mandacaru, encontrar-se jovens tão soltos, alegres, felizes, e que declamam poesia. A noite já ia longe, e eu ainda tonto com as surpresas e novidades vividas em Mandacaru. Que pedaço de Brasil é esse? Quem é a professora desses jovens? Que pedaço de Brasil é esse? Que Mandacaru mágico é esse?
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Desenvolvimento Local
As várias faces da A Feira Internacional da Amazônia (FIAM 2011) promoveu o encontro da indústria de eletroeletrônicos, microempresas, povos da floresta e de países vizinhos. Texto e Fotos: Isabel Capaverde, de Plurale em Revista (*) De Manaus e da Comunidade de Bela Vista, no Rio Negro (AM)
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mbalada pelo anúncio da Presidente Dilma Roussef de que os incentivos à Zona Franca de Manaus serão ampliados e prorrogados por mais 50 anos e pela inauguração da Ponte Rio Negro – a maior ponte estaiada do Brasil em águas fluviais e a segunda do mundo, com 3.595 metros de comprimento sendo 400 deles suspensos por cabos – integrando a capital a outros municípios da região metropolitana, aconteceu no final do mês de outubro em Manaus, a FIAM 2011, a Feira Internacional da
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Amazônia batendo recorde na geração de negócios: cerca de US$ 13 bilhões. Promovida pelo Ministério do DesenvolviDesenvolvi mento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) através da SuSu perintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), a feira com o tema “Amazônia e você – o encontro é aqui” reuniu 400 expositores divididos em dois pavilhões, sendo que em paralelo foram realizados seminários sobre assuntos relevanrelevan tes para a região como economia verde, limpa e inclusiva, a produção orgânica, o turismo como fator de sustentabilidade
e até mesmo como a Amazônia é vista internacionalmeninternacionalmen te através da cobertura jornalística. No Pavilhão Principal podiam ser encontrados os produtos das grandes empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM), a área internacional com estandes dos países vizinhos lado a lado com um setor reservado para os negócios regionais e criativos como os orgânicos, as microempresas, as cooperativas, as empresas familiares apoiadas pelo Sebrae e pela Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas - ADS. Negócios como a de FáFá tima Barreto Sales que com o marido, a filha e mais dez funcionários mantém uma microempresa, a Cupuama localizada em Careiro (AM), que desenvolveu um propro duto com gosto e cor de chocolate, mas sem cacau. “Já trabalhamos com polpas de frutas da Amazônia há muitos anos. Somos fornecedores de polpa para o Preme, o ProPro grama de Regionalização da Merenda Escolar. Meu marimari do foi testando o cupuaçu e depois de três anos chegou a um produto feito da semente que tem cor e gosto de chocho colate, mas que não tem cacau em sua composição. BatiBati zamos de Cupulate e breve pretendemos comercializá-lo.
orgânicos, como os licores de jenipapo, açaí, café, taperebá, chichuá e os óleos essenciais de espécies nativas da AmazôAmazô nia, tudo produzido pela Sohervas, outra das expositoras. Para dar cada vez mais visibilidade e credibilidade a toda essa produção regional, o Selo Amazônico estava presente num estande onde a equipe se empenhava na distribuição de folders e na exibição de um vídeo institucional. JustifiJustifi cável, pois a fase é de divulgação. Idealizado pela SUFRA SUFRAMA, o programa de certificação discutido desde 2009, será um referencial de qualidade, segurança, desenvolvimento econômico sustentável e da procedência da matéria-prima dos produtos da Amazônia Brasileira, executado pela FunFun dação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), em parceria com o Instituto Nacional de MetroloMetrolo gia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). Num primeiro momo mento, serão certificados produtos do gênero alimentício e embalagens. Também estão em estudo as biojóias, produtos do pescado como acessórios produzidos com couro de peipei xe, fitoterápicos, fitofármacos, biocosméticos, entre outros. A certificação será voluntária, ou seja, os interessados terão que procurá-la e a meta é que tenha início em 2013.
Na feira já fomos procurados por empresas brasileiras e do Canadá, Estados Unidos e Angola”, contava, enquanto servia copinhos do produto que gelado aplacava o calor e despertava curiosidade de quem bebia e perguntava inin crédulo: “mas não tem cacau mesmo?”. Perto da Cupuama estava a Coomapem – Cooperativa Mista Agropecuária de Manacapuru – que trabalha com fifi bra de juta e malva. A cooperativa foi a primeira a receber a certificação orgânica de fibras vegetais no país. Sacolas ecológicas, bolsas e mochilas feitas a partir de fibras culcul tivadas no município de Manacapuru e redondezas eram a atração do estande e para tristeza do público feminino não estavam à venda. Também chamavam a atenção os alimentos produzidos sem agrotóxico ou fertilizantes, os
ObjetOs carregam a história dO pOvO da flOresta No Pavilhão Amazônia, uma enorme tenda onde nove estados da região expunham produtos feitos com insumos da floresta, o estande do projeto Artesanato Sustentável do Amazonas se destacava. Por iniciativa do governo do estado intermediado pela Empresa Estadual de Turismo (AMAZO(AMAZO NASTUR) em parceria com o Ministério do Turismo, o propro jeto tem como objetivo promover e valorizar os artesãos e a cultura locais, criando oportunidades de negócios e geração de renda, divulgando a riqueza e as belezas do estado. Em meio a colares, bolsas, anéis, pulseiras, roupas, cesces tos e carteiras estava João Alfredo Tolentino dos Santos, mimi neiro de nascimento e que depois de muito rodar por esse
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Desenvolvimento Local
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e profissionais de diversas áreas – design, educação ambiental, empreendedorismo, turismo - para troca de conhecimentos através de cursos de qualificação. Assim eles passaram a agregar valor aos objetos que produzem, aprendendo novas técnicas para manuseio das matérias-primas e também a contabilizar o custo das peças para comercializar sem a intervenção de atraves atravessadores. Hoje os objetos produzidos estão presentes em lojas por todo Brasil e no exterior.
Brasil, chegou ao Amazonas, conheceu uma moça da tribo Sateré-mawá, no município de Barreirinha, por quem se apaixonou e com quem casou. Hoje ele rere presenta os artesãos de Barreirinha – os outros mu municípios atingidos pelo projeto são Manaus, Parintins, Tefé, Novo Airão, Iranduba, São Gabriel da Cachoeira - e disse que o projeto mudou totalmente a vida dos moradores da localidade. “Em dois anos de projeto eles tiveram um aumento de renda de 50% a 70%. A maioria vivia do que plantava, pescava ou caçava. Na verdade, eles praticamente não tinham renda. O propro jeto funcionou como um estímulo para as famílias.
tUrismO cOmO sOlUçãO para preservar Convidados pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, profissionais da imprensa foram conhecer o Parque Estadual do Rio Negro Setor Sul, distante duas horas de barco de Manaus. Uma viagem agradável por um rio largo e de águas calmas, deixando ver pequenas praias nas
Elas conseguiram crescer e melhorar sua qualidade de vida. Compraram geladeira, televisão, telefone e até antena parabólica. Colocaram os filhos na escola e tem outra perspectiva de vida”. Tendo a preocupação de garantir a perenidade dos recursos naturais, o projeto aproximou artesãos
margens. O parque, localizado na margem esquerda do Rio NeNe gro, é uma das 41 áreas protegidas do Amazonas. Áreas onde vivem cerca de 11 mil famílias (formadas em média por cinco pessoas) e que são chamadas de Unidades de Conservação EsEs taduais e classificadas como de Uso Sustentável (33) e Proteção Integral (oito).
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Moradores do Unidade de Conservação Bela Vista (AM)
O parque visitado, que abrange nove comunidades, é de proteção integral. Significa que para garantir a sobrevivência dos moradores e consequentemente, a preservação do meio ambiente, o turismo de base comunitária é a solução. Alcilene de A. Paula, chefe da unidade, falou sobre o potencial turístico da região com trilhas simples, cachoeiras, campinas, campinarana e igapós. Associado a esses atrativos, as comunidades também estão se capacitando para o artesanato – colares, brincos, pulseiras – confeccionado com diversas sementes. Há um modelo de gestão organizacional que está sendo implantado nas Unidades de Conservação através do Centro Estadual de Unidades de Conservação
A artesã Jiovania de Souza Correa
O líder comunitário Francisco Peba
(Ceuc) e que tem algumas premissas como a gestão de pessoas (os moradores precisam ter suas necessidades saciadas, como por exemplo, educação), fiscalização (apesar da logística complicada, fiscalizar a conservação ambiental é preciso) e geração de rendas (criação de conselhos gestores nas próprias comunidades, planejando as ações). Chegando na comunidade de Bela Vista, localizada no Igarapé do Jaraqui, somos recebidos por alguns moradores. Arrumadas debaixo de uma lona de plástico para proteger do sol e do calor que castigava, alguns acessórios e balas de castanha e cupuaçu, feitos pelas mulheres locais. Mas antes de ver os objetos, somos levados por guias a uma caminhada numa trilha de cerca de 30 minutos. Na volta, Jiovania de Souza Correa, uma das artesãs contou sobre o trabalho. “Aqui estamos trabalhando em dois grupos, de seis e quatro pessoas. A maioria são mulheres. Só há um homem que é o que colhe as sementes para a gente. São sementes de açaí, tucum, buriti, paxiuba. Fizemos uma oficina de turismo sustentável. Ainda é tudo muito simples e em pequena escala, porque vocês são o segundo grupo que nos visita”. Observando de perto, Francisco Peba, um senhor de pele curtida pelo sol e olhos verdes, que é o presidente da comunidade de Bela Vista, tomou a palavra e começou agradecendo a visita. Depois disse que tudo ainda está em fase embrionária, mas que estão se organizando e agora com a ponte a chegada do turista ficará mais fácil e rápida, já que eles estão localizados em frente à praia de Araçatuba. “Pegando uma voadeira (espécie de lancha) em 15 minutos o turista estará aqui”. Como bom líder, ele vai acompanhando o grupo da imprensa no retorno ao barco para a viagem de volta a Manaus e contando da luta por melhorias para a comunidade. Está esperançoso. “Sabemos da importância de preservar e queremos preservar, mas precisamos garantir a sobrevivência das famílias que vivem aqui”. (*) A repórter viajou a convite da Organização da Fiam/ através da Suframa.
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Lixo Nabil Bonduki, do MMA (esq) e o Deputado Arnaldo Jardim (dir) abordaram os desafios da implementação da PNRS
Quem pagará a conta? Texto: Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista Fotos: Divulgação/ Ibre-FGV
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pergunta feita pelo deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP), relator do projeto de lei que se transformou – após muito debate ao longo de 21 anos - na tão aguardada Política Nacional de Resíduos Sólidos dá bem o tom de polêmica que ainda envolve o tema. “Quem irá recolher o papel de bala no igarapé lá no interior da Floresta Amazônica?”, questionou o deputado. A resposta é tão complicada quanto os meandros da implementação da Lei. “Colocar tudo em prática não será fácil. Apenas realmente com muito diálogo”, reforçou Arnaldo Jardim, um dos palestrantes da 1ª Mesa Redonda: Resíduos Sólidos no Brasil – Perspectivas e Desafios, organizada no fim de outubro pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, como parte das comemorações de 60 anos da Revista Conjuntura Econômica. Tive o imenso prazer de ser moderadora do evento, a convite dos organizadores. Logística reversa - A questão do papel de bala passa pela logística reversa (quando os fabricantes terão que recolher seus produtos já consumidos), um dos pontos ainda a ser melhor definido nos próximos passos da implementação da PNRS. Não é a única. Os fabricantes de vários produtos mostraram que alguém precisará pagar a conta pela coleta dos produtos já utilizados, como lâmpadas por exemplo.
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Um ano e meio após a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos ainda há muitas questões para serem melhor definidas. Seminário realizado pelo Ibre - FGV abordou vários destes pontos “Esta conta será, de alguma forma, incorporada pelos fabricantes”, explicou André Saraiva, diretor da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que falou sobre o esforço para cumprir e contribui com o que foi acordado, mas também questionou qual é a cobrança sobre os produtos contrabandeados. “Quem irá cuidar do recolhimento de muitos produtos que entram pirateados no Brasil, como pen drives chineses?” Participantes da mesa-redonda deixaram bem claro que este será, sem dúvida, um assunto que passará pelo bolso de todos de alguma forma. “Os brasileiros tiveram o péssimo hábito por muitos anos apenas de abrir uma porta e deixar o lixo do lado de fora ou abrir a lixeira do apartamento e jogar os resíduos por ali. Este modelo não funcionará mais”, advertiu Fernanda Belizário, do Instituto Estre, braço de educação ambiental da Estre, uma das gigantes em reciclagem. O coordenador sênior de Comunicação do Instituto Akatu, Estanislau Maria, advertiu para o consumo desenfreado por parte de brasileiros. “As pessoas compram cada vez mais sem avaliar se realmente precisam disso. O que nos preocupa é que desperdiçam muito e poucos contribuem para o descarte correto do que não querem mais”, advertiu Estanislau. Prefeituras - Algumas prefeituras já estão cobrando taxas pela coleta de lixo e a tendência é que este movimento venha a crescer. Em 2010, os brasileiros jogaram no lixo 61 milhões de toneladas de resíduos sólidos, das quais cerca de 50% ainda tem destinação inadequada. E de acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), 57,6% dos 5.565 municípios possuem algum tipo de coleta
seletiva. Mas não há garantias que a cobertura seja ampla e que o engajamento de todos esteja garantido. Os números assustam e mostram a urgência do tema: apenas 37% das cidades brasileiras contam com aterro sanitário, com os lixões assumindo, infelizmente, a liderança. Será preciso avançar muito e em tempo bem curto. Nabil Bonduki, titular da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA), lembrou que a partir de 2014 será proibido colocar em aterros qualquer tipo de resíduo que seja passível de reciclagem ou reutilização. “Precisamos de uma gestão sustentável. E temos programas para os municípios se adaptarem até lá”, explicou o secretário. De acordo com depoimentos de prefeitos presentes ao encontro, não será fácil achar a melhor solução para se adequar à lei. “Temos sido procurados por fabricantes de incineradores e várias outras tecnologias. Mas cada município precisa saber exatamente a sua realidade e decidir em cima dela”, destacou o prefeito de Diadema, Mário Reali (PT), também presidente do Consórcio Intermunicipal da Frente Nacional de Prefeitos (FNP). Ele contou que a conta do lixo é a maior de sua extensa lista, chegando a R$ 2 milhões mensais. Pesquisa da FGV Projetos para a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), os custos de um aterro sanitário grande, com capacidade de recebimento de duas mil toneladas de lixo por dia, é de cerca de R$ 525 milhões, o que resultaria um custo anual entre R$ 14 e R$ 18 por habitante. Estanislau Maria (esq), do Instiuto Akatu; Adriana Charoux (Idec), Sônia Araripe e Jorge Soto (Braskem)
Espaço para todos - A questão da tecnologia foi muito debatida no evento. Ficou bem claro que há espaço tanto para o desenvolvimento de soluções de ponta – seja através de usinas de reciclagem, de incineradores, aterros sanitários, etc -, como também viabilizar a inclusão social através de cooperativas de catadores. Roberto Laureano Rocha, presidente do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), defendeu maior participação dos catadores no processo e lembrou que não se trata apenas de uma questão social e sim de business e geração de renda. “Os catadores podem se tornar empreendedores , colaborando com a cadeia da reciclagem e assim não haverá uma crise social após o fim dos lixões”, frisou.
Roberto Laureano (dir) e Silvano Costa, do MMA, falaram sobre reciclagem
A Política prevê esta atenção especial para os catadores. De acordo com dados do MNCR, existem hoje no Brasil entre 600 mil a 1 milhão de pessoas envolvidas nesta atividade. O caso do jovem Pedro Luiz Grandi – que participou ativamente na fase das perguntas da Mesa Redonda – é um bom exemplo. Desempregado, encontrou posição como empreendedor individual. Arregaçou as mangas e foi propor a reciclagem em condomínios da Zona Leste de São Paulo. Já implantou o sistema em dois conjuntos habitacionais – com 2,5 mil habitantes cada um- e sonha com mais. Para completar seu engajamento na ação, também faz teatro sobre educação ambiental para as crianças. “São meus grandes aliados. Espero um dia ver todos engajados nesta causa”, diz. Empresas - O diretor do Departamento de Ambiente Urbano do MMA, Silvano Costa, mostrou os desdobramentos de ações em curso para colocar a PNRS em prática. Várias empresas também apresentaram suas soluções e participações para que a PNRS aconteça para valer. Jorge Soto, diretor de sustentabilidade da Braskem, falou sobre o plástico verde e mostrou cases internos como a troca de pallets de madeira por material mais sustentável. Também diretores da Alcoa, Walmart, Souza Cruz, Sabesp e Johnson & Johnson apresentaram cases. Vários atacadistas e varejistas, assim como cadeias de produtos já começam a ter ações no sentido da logística reversa. Em alguns supermercados estão em funcionamento os chamados PEVs, pontos de entregas voluntárias e alguns segmentos, como de fabricantes de pilhas, também há um movimento estruturado de recolhimento. Mas será preciso também envolver cada vez mais os consumidores. Os especialistas deixaram claro que, sem o envolvimento de todas as partes, não será possível viabilizar estas questões tão complexas. O trabalho de “corpoa-corpo” junto a consumidores também tem sido feito com afinco. Institutos e ONGs, como o Akatu, Idec e outros, tem se empenhado nesta tarefa árdua. “O consumidor brasileiro gosta de participar e terá um papel essencial”, concluiu Adriana Charoux, técnica em Consumo Sustentável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC).
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Artigo
Victor Bicca Neto
Brasil, campeão mundial em reciclagem de latas
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Foto: Divulgação/ Cempre
Brasil mais uma vez conquistou o título de CamCam peão Mundial de reciclagem de latas de alumíalumí nio. Cerca de 97% das latas foram recicladas. Mais uma vez, o grande responsável por esse feito foram os chamados “catadores”, que comcom põem esse grande modelo informal da reciclagem no Brasil. O grande desafio que temos é transformar esse modelo informal em formal, garantindo a base da chamada economia verde: redução da pobreza, sustentabilidade ambiental e crescicresci mento econômico. O primeiro passo foi dado no ano passado, quando o ConCon gresso Nacional aprovou a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Agora, a próxima etapa será a aprovação dos chamados acordos setoriais, que terão o desafio de estabelecer os sistemas de logística reversa de diversos produtos definidos na referida Política. Dos cinco acordos setoriais que estão em discussão, o mais complexo é o das embalagens, que envolve o compromisso da destinação adequada de todas as embalagens de alimentos, bebidas, cosméticos, material de limpeza e higiene, dentre outros produtos. Nesse sentido, o Compromisso Empresarial para a Reciclagem - CEMPRE tomou a liderança e apresentou uma proposta de acordo setorial, no qual o objeto do acordo será a fração seca do lixo urbano e cujo fluxo de logística reversa das diversas embalagens será feito através da coleta seletiva urbana. Para a implementação do acordo setorial das embalagens, o setor empresarial constituiu a Coalizão Empresarial da Cadeia de Valor das Embalagens PósConsumo, que contempla de forma inédita 16 grandes associações nacionais, representando os produtores, usuários e comerciantes de embalagens.
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A meta proposta pela Coalizão é apoiar a implantação da coleta seletiva urbana no País, que hoje encontrase implantada em menos de 10% dos municípios do Brasil, e aumentar em 70% a reciclagem da frafra ção seca nos próximos 25 anos. Trata-se de um grande desafio, visto que demandará a formalização de todas as cooperativas de catadores, o fim dos lixões e o aperfeiçoamento da estrutura de catadores hoje existente. Além disso, será necessário triplicar o número de cooperativas, para a incorporação dos catadores hoje trabalhando nos lixões, e aumentar significativamente os chamados pontos de entrega voluntária - PEVs. Até o final do ano, será lançado o edital de convocação do acordo setorial de embalagens, que definirá os parâmetros da discussão do acordo e as metas a serem alcançadas. Enquanto a discussão do acordo setorial, propriamente dita, ocorrerá no primeiro semestre de 2012 . Assim, se tudo correr bem e tivermos um acordo, teremos dado mais um passo em prol da consolidação do modelo de cooperativas de reciclagem. O Brasil, então, terá, durante a discussão da Rio+20, promovido a maior discussão mundial sobre modelos de economia verde e terá dado um exemplo de como, a partir de seus problemas sociais e de resíduos sólidos, transformar vidas, incrementar a economia e promover a proteção ambiental. (*) Victor Bicca Neto é Presidente do Compromisso Empresarial para a Reciclagem – CEMPRE
VIDA Saudável
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Chia, a novidade da hora
Água: um bem precioso
Esta coluna tem procurado apresentar as novidades que costumam fazer sucesso nas prateleiras das lojas de produtos naturais. Já apresentamos o chá verde, o pólen, o noni, o óleo de côco e tantos outros. Desta vez, a estrela é a chia. Não conhece ainda? Originária do México, a chia é uma semente que foi muito consumida por civilizações antigas. Segundo especialistas, tem muito Omega 3, feito a linhaça, além de fibras, potássio, cálcio, magnésio e proteína. Nutricionistas explicam que a chia tem principalmente três funções: desintoxica e ajuda a dar sensação de saciedade, ajudando em dietas de emagrecimento e ainda combate inflamação. É encontrada em grãos, farinha e óleo. O ideal é tomar junto com iogurte ou vitaminas de frutas.
A preservação ambiental está diretamente alinhada com a qualidade de vida do ser humano, e não somente com o cuidado pelo meio ambiente. A água, por exemplo, é o mais precioso recurso provido pela natureza: todas as formas de vida necessitam dela para transportar nutrientes e resíduos, assim como diluir as substâncias absorvidas pelo organismo. No Brasil, cerca de 70% das internações hospitalares pediátricas são oriundas de doenças de veiculação hídrica, como hepatite, leptospirose etc. “As gerações das últimas décadas foram, diariamente, bombardeadas com informações sobre como cuidar do meio ambiente, mas ainda é perceptível que as pessoas de gerações anteriores, e até as mais novas, possuem dificuldade de perceber como suas ações de consumismo, uso irracional da água e o descaso com outras questões ambientais podem influenciar em sua própria vida”, alerta Carlos Eduardo Cassaú, analista de Sustentabilidade da Unimed-Rio.
Consumo consciente em quadrinhos Em dezembro, a história em quadrinhos Vegana foi lançada em São Paulo. A proposta é levar a mensagem sobre a importân importância do consumo consciente e da relação harmônica entre todos os seres vivos. A linguagem é bastante didática e educativa, fazendo com que Vegana dialo dialogue, principalmente, com crian crianças, adolescentes e jovens. Vegana é uma iniciativa do Instituto Nina Rosa, organização independente e sem fins lu lucrativos, que atua na valorização da vida animal. A ilustração foi feita pelo cartunista brasileiro Airon Barreto, diretor do estúdio Cosmic. O argumento e o roteiro foram escritos por Nina Rosa, fundadora do Instituto, Alexandra Lima G. Pinto, professora do Curso de Imagem e Som da UFSCar, e Sonia Felipe, professora de filosofia e ética da UFSC.
Brasileiros estão dispostos a pagar mais por produtos éticos O Grupo Havas, um dos cinco maiores grupos de comunicação do mundo, divulgou os resultados da sua pesquisa Meaningful Brands for a Sustainable Future referentes ao comportamento do consumidor brasileiro. Realizado desde 2008, pela primeira vez o estudo avaliou o impacto pessoal das marcas, ou seja, quanto as marcas impactam na qualidade de vida dos consumidores. No estudo global, foram abordados consumidores de 14 países. Em geral, para os entrevistados, somente 20% das marcas fazem uma contribuição positiva para a qualidade de vida dos consumidores. Esse percentual sobe para 33% no Brasil. No Brasil, foi investigada a percepção dos consumidores em relação a 31 marcas de empresas de diferentes setores da economia: automóveis, finanças, bens de consumo, farmacêuticas, varejo, entre outros. A pesquisa avaliou como os brasileiros percebem o grau de responsabilidade social/ ambiental das grandes companhias, como temas sociais e ambientais afetam sua vida pessoal, os diferentes perfis dos consumidores (devotos, céticos, reféns, críticos, desengaja desengajados), a disponibilidade de se pagar mais por “produtos éticos” e as cinco marcas mais bem avaliadas entre os brasileiros que deram notas para as companhias em 26 atributos referentes à sustentabilidade.
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Social
Programa Redes Comunitárias
completa 10 anos
Iniciativa do SESC-Rio já beneficiou 14.500 participantes de 400 comunidades de todo o estado. Seminário realizado no Rio debateu os principais desafios para ampliar integração Texto: Equipe Plurale em revista. Fotos: Divulgação/SESC-Rio
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Feira com produtos das artesãs
entusiasmo de líderes comunitários – a maioria mulheres, várias na melhor idade - não deixa dúvidas. O programa Redes Comunitárias - lançado pelo Sesc Rio há dez anos – está atingindo seus objetivos, tornando estas lideranças protagonistas não apenas de suas próprias vidas, mas porta-vozes de comunidades inteiras. Lugares tão distintos quanto semelhantes: a iniciativa tem mostrado que, em rede, dialogando muito, é possível sim multiplicar e se fazer ouvido. Mais de 300 destas lideranças estiveram reunidas no Seminário realizado no fim de novembro, na sede do SESC-Tijuca, num local, que por si só, já estimulava a rodada de diálogos. Em meio a muitas árvores e um clima juvenil de quem sabe fazer a sua parte pelo todo, mulheres e homens ouviram palestras, participaram de oficinas e mais do que tudo, compartilharam experiências. O programa Redes Comunitárias, explicou a gerente de Responsabilidade Social Corporativa do Sesc Rio, Helen Pedroso, tem uma proposta básica e eficiente: reunir mensalmente moradores de comunidades em situação de vulnerabilidade social, dar voz a todos, identificar o que estão procurando e o que têm a oferecer, juntando forças e buscando soluções, levantando ofertas e demandas e oferecendo mediação técnica para a efetivação de parcerias. O balanço é positivo, tendo beneficiado 14.500 participantes de 400 comunidades de todo o estado com mais de 1.500 organizações envolvidas e reuniões mensais em 11 unidades do Sesc Rio em todo o estado (Madureira, Tijuca, Santa Luzia, Niterói, Nova Iguaçu, Barra Mansa, Duque de Caxias, São João de Meriti, Ramos, Teresópolis e Nova Friburgo).
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O evento reuniu lideranças, voluntários e organizações sociais que se articulam através das Redes Comunitárias. Além de oficinas e rodadas de diálogo, a programação também incluiu palestras com vários convidados como o consultor especializado em Redes, Augusto Franco; o economista Sérgio Besserman; a empreendedora social Alice Freitas, criadora da Rede Asta e o jovem líder comunitário, Renê Silva, da Comunidade do Alemão, criador do jornal Voz da Comunidade. A mediação foi da jornalista Sônia Araripe, editora de Plurale em revista e Plurale em site. – O seminário celebra os dez anos do Programa Redes Comunitárias, com o objetivo de trazer visibilidade e reforçar a identidade do Sesc Rio como o principal contribuinte para desenvolvimento comunitário do estado. Além de servir de referência para o terceiro setor, o programa foi objeto de estudo de uma pesquisa da Coppe/UFRJ baseada na ergonomia cognitiva, na Teoria das Redes Sociais e da Cooperação e no método de análise argumentativa. Queremos, agora, dar um passo à frente e disponibilizar o programa como uma excelente ferramenta de mediação entre as necessidades das comunidades e o investimento social privado – comentou a gerente de Responsabilidade Social Corporativa do Sesc Rio, Helen Pedroso. Augusto Franco, considerado um dos maiores experts no país em Redes, atuando como consultor de várias empresas, mostrou em sua palestra que este é o caminho da transformação da sociedade. E defendeu um modelo menos engessado do que o atual para viabilizar que informações e diálogos possam fluir. “Se quiser fazer integração, faça uma festa e não uma reunião formal”, brincou o consultor, provocando a plateia que não o deixava pegar o voo de retorno para São Paulo. O economista e ecologista Sérgio Besserman falou sobre a urgência do processo de mudanças no meio ambiente, mas mostrou-se otimista. “Os chineses sempre dizem que há oportunidades em meio a desafios”, lembrou. Ex-presidente do IBGE e do Instituto Pereira Passos (área de es-
O economista Sérgio Besserman e Alice Freitas, criadora da Rede Asta, falaram sobre redes e sustentabilidade, com moderação da Editora de Plurale, Sônia Araripe
tatísticas e planejamento da Prefeitura do Rio), o economista conhece muito bem a realidade das comunidades do Rio. E ficou entusiasmado com o processo de construconstru ção em rede de um novo desenho para o Rio capital e outros municípios. “O que está emergindo é muito positivo”, frisou. Criadora da Rede Asta (veja matéria aqui nesta edição em Bazar Ético), Alice Freitas, contou como tem sido a mobilimobili zação via artesãs de produtos sustentásustentá veis. “É incrível ver a transformação de comunidades a partir do trabalho e dedidedi cação das mulheres”, disse Alice. A meta, contou, é expandir o projeto também para São Paulo em 2012. Ao longo dos dois dias de encontros, o Redes Comunitárias reuniu represenrepresen tantes de comunidades como Maré, Vila Cruzeiro, Alemão, Piscinão de Ramos e
Manguinhos, entre outras, com atuação, também, na Baixada Fluminense, São Gonçalo, Niterói e interior. Durante o evento, foram realizadas várias oficinas para incentivar ainda mais rodas de diálogos. Gilberto Fugimoto, da Assessoria de Projetos Comunitários do SESC-Rio, falou para as lideranças. “Todos têm oportunidade de falar e de ouvir. E, quando cada um sabe quem é quem, o espaço se abre para aprofundamentos de relações e formação de parcerias”, explicou Gilberto. Também foi realizada uma feira solidária com produtos de instituições que freqüentam as reuniões das Redes Comunitárias Sesc Rio. As metas do programa Redes Comunitárias para os próximos anos são aumentar a capilaridade de atuação no estado, fortalecer iniciativas sociais e comunitárias e contribuir para a sustentabilidade das iniciativas sociais.
Gilberto Fugimoto, do SESC-Rio, participa de oficina com lideranças lideranças comunitárias
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Texto: SÔNIA ARARIPE
Asta: tecendo a rede do comércio justo
foto: Christina Rufatto/ Divulgação
Bazar ético
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m belo dia, a jovem protagonista Alice Freitas teve a ideia de empreender fazendo ponte: ajudaria artesãs de cooperativas de comércio justo e solidário a venderem suas produções. Itens que lidassem com reciclagem, criativos e de muito bom gosto. Surgia, então, a Asta, com o sonho de transformar o consumo em uma ferramenta de inclusão social e econômica. Mas como frutificar a rede? A grande ideia surgiu quase por acaso. Em 2007, Alice e suas parceiras já não sabiam de onde iam tirar dinheiro para pagar as contas, acabaram, quase por compulsão – algo que só as mulheres entendem - comprando alguns itens oferecidos pela manicure, que também vendia produtos de beleza como autônoma. Pronto. Surgia a ideia da Rede Asta com suas conselheiras, que vendem os produtos para amigas. Exatamente como as vendedoras de itens de beleza. As conselheiras são tratadas como “embaixadoras” da marca, aquelas que fazem a roda girar, se tornam porta voz dos grupos produtivos para a sociedade. E pode esquecer o conceito de produtos sem graça e bom acabamento. Tudo que é oferecido pela Asta tem gosto, marca, charme. Basta conferir as fotos de alguns itens nesta página para ter certeza. Bijuterias, itens para casa, papelaria e outras novidades são consumidas por jovens e senhoras da sociedade, antenadas que produtos éticos estão super na moda: no Brasil e no mundo. “Vendemos moda e temos uma marca, porque não?”, disse Alice em recente palestra no Rio de Janeiro. falando para plateia atenta, formada principalmente por artesãs. Foi aplaudida com entusiasmo. A Asta também produz brindes corporativos para empresas sempre reaproveitando os resíduos sólidos da própria empresa. O interessante no modelo é que as artesãs definem o valor de cada item e aí a Asta joga um percentual em cima. Mas cada grupo produtivo precisa saber calcular exatamente o valor de seu trabalho. Paternalismo ou instinto maternal, neste caso, não funciona. É preto no branco mesmo. Business de uma forma mais justa. Só há mulheres? Quase todas são artesãs, mas há alguns homens também trabalhando com as peças. Novo site já está no ar e os planos não param por aí. “Pretendemos expandir também para São Paulo, provavelmente ainda em 2012”, conta a fundadora. A julgar pelo fôlego e disposição de Alice, a equipe Asta e as artesãs, ainda vem muita novidade por aí. Contatos: Site com loja virtual: www.asta.org.br Loja: Rua Mário Portela, 253 - Laranjeiras Rio de Janeiro. Aberta de 10h as 18h de 2ª a 6ª-feira, e no 2º sábado do mês.
Este espaço é destinado à divulgação voluntária de produtos étnicos e de comércio solidário de empresas, cooperativas, instituições e ONGs.
Fotos: Divulgação/ Rede Asta
P e lo Mundo
Hamburgo: Capital Ecológica da Europa Texto e foto de Elisabeth Cattapan Reuter, Especial para Plurale em revista, De Hamburgo, Alemanha
Hamburgo – cidade em que vivo desde 1970 - foi escolhida em 2009 para ser a segunda capital ecológica da Europa, honra que antes dela só Estocolmo conseguiu. A cidade alemã é a segunda em tamanho e população de seu país e seus 1,8 milhões acreditam que seu torrão natal é o mais belo da Alemanha. Realmente Hamburgo é uma cidade bela, limpa, rica, bem tratada. Seu porto no Rio Elba é fator de riqueza, mas também de preocupação. Nas últimas décadas o esforço feito pela cidade-estado para melhorar a qualidade ecológica de seu porto tem sido recompensado. E Hamburgo teve a honra de ser a capital ecológica da Europa no ano de 2011. De fato, em volta do porto ficou comprovado que é possível despoluir, foi comprovado
Praias para cachorros Texto e foto: Mônica Pinho - Especial para Plurale em revista, De Perth, Austrália
Desde que cheguei em Perth, me chamou muito a atenção a quantidade de cachorros que
também que um projeto arquitetônico de retomada de construções industriais e moradias é possível e bem recebido pela população. Um exemplo a ilha de Wilhelmsburg. Esquecida, abandonada e mal amada tanto tempo ela tinha se tornado uma quase favela, moradia para os que tinham sido esquecidos pelo progresso. Pois bem essa ilha situada no meio do porto ganhou nos últimos cinco anos um tratamento de rainha . Ela foi escolhida para abrigar uma famosa exposição de jardins na Alemanha em 2013 e Wilhelmsburg depois de passar por um ano como canteiro de obras está se transformando num imenso canteiro de flores e frutas, com prédios residenciais de baixo custo. Ali onde antigamente os estivadores e outros desempregados se frustravam vendo o tempo passar agora vemos carrinhos de crianças, escolas, playgrounds, casas da cultura, terrenos de esporte. Hamburgo está refazendo seu perfil pondo em valor o que tem de tradição ambientando seus bairros dentro de uma economia revitalizada. Entre os temas básicos do renascer ecológico estão alem da revitalização do espaço imobiliário, a mobilidade, a natureza, os espaços verdes, clima e energia. Esse “pacote” fazia parte do programa de governo da última legislatura e embora as eleições estaduais do princípio do ano tenham trazido uma nova equipe e um novo partido ao poder a política ecológica não foi alterada. Só
que alguns projetos tidos como “simbólicos” foram engavetados. Foi o caso no campo da mobilidade a reinstalação de bondes na cidade. O custo da reinstalação de trilhos, fios, mudança de mãos, garagens e formação de condutores foi julgado excessivo em comparação com o ganho ecológico. Outro tema simbólico foi a expansão das ciclovias em detrimento do tráfico automobilístico. As ciclovias que estavam sendo construídas foram terminadas, mas outras não virão nos próximos três anos. A área da energia e de proteção climática gerou novos empregos em Hamburgo. Quem visita a cidade é informado sobre as transformações ocorridas graças ao uso da energia eólica a administração pública faz questão de salientar que prefere esse tipo de energia à gerada pelas usinas atômicas. Sempre achei Hamburgo muito verde, agora mais ainda. No final deste ano como capital ecológica nossa cidade está respirando melhor, o trânsito ficou ainda mais silencioso, as usinas poluentes ganharam filtro, as águas do Rio Elba estão quase aptas a um bom banho de rio. Só que são muito frias… O título de capital ecológica vai em 2013 para Vitória-Gaeteiz no Pais Basco espanhol. Lá tambem vai honrar o esforço feito pela prefeitura para aumentar a sustentabiidade da economia local. Hamburgo aproveitou bem o seu tempo de Capital Ecológica da Europa.
tem na cidade. Sempre que dava as minhas caminhadas pela orla, podia observar as facilities pra turma canina: existe até praias para os cachorros. Na verdade existe uma enorme seleção de parques e praias em Perth onde os cachorros podem se exercitar. São Dog Points, onde tudo foi pensado pra facilitar a vida dos cães. São inúmeros locais espalhados por toda a cidade. Os detalhes vocês podem encontrar no site http://www.vetwest.com.au/ em “dog friendly parks and beaches in Perth”. Confesso que me impressionou o respeito que existe pelos bichinhos. E sem atrapalhar a vida das pessoas que
não gostam de ser incomodadas pelos cães. Se você está caminhando pela orla, pode observar que existem placas dizendo para você sempre manter o seu cão na coleira, afinal, ali, naquele local, vocês está num espaço público, mas dividindo a pista com bebês, idosos e todo tipo de pessoas - uns gostam de bichos, outros não. O mais bacana desses locais é a preocupação com o bem-estar dessa turma: há sempre um local para você banhar o seu cão depois da praia, há uma bacia com água potável para os que têm sede, além de saquinhos para que os donos dos cães recolham as necessidades de seus respectivos cachorros.
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E n s a i o Pinguins
AS CORES E ESPÉCIES DA PATAGÔNIA: NATUREZA PRESERVADA
Fotos:
Luciana Tancredo
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inguins, lobos marinhos, focas e uma infinidade de espécies que encantam os olhos. Sem falar no condor, gambá, ema, carcará e tantos outros. Foi esta grande biodiversidade ainda preservada que encantou nossa fotógrafa aventureira, Luciana Tancredo, na recente viagem à Patagônia, na Argentina. “A impressão que fica é que chegamos a local abençoado, onde o homem ainda não conseguiu devastar e deixar sua marca de destruição”, conta Luciana. Dias inesquecíveis, percorrendo o gelo e também a vegetação rasteira, de estepe, em grupos de ecoturistas amantes da natureza. Luciana apreciou cada detalhe e clicou para os leitores de Plurale em revista um leque de aquecer a alma: como o rosado dos
Lobos Marinhos
Carcará
Ema
Gambá Curicaca
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flamingos quebrando a imensidão da paisagem de tom sobre tom, quase como se fosse uma tela de pintor naturalista. Também árvores retorcidas pela ação do forte vento são chamadas pelos nativos desta região de árvores bandeiras. Em Ushuaia encantou-se com o irresistível charme dos Pinguins de Magalhães, como o que enfeita a capa desta Edição 26. Paredões de gelo, icebergs flutuantes, geleiras se derretendo como resultado do aquecimento global. Luciana conheceu também os “homos de Darwin”, fungo diferente - com cara de maracujá - descoberto por Darwin em suas expedições por estas bandas. Nossa fotógrafa perdeu a conta das variadas cores e formas das flores escondidas em meio à paisagem. “Vale mesmo visitar a região”, recomenda Luciana. Confira as fotos para confirmar como a Patagônia é deslumbrante.
Homos de Darwin
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Flamingos
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Política
O partido que começa a brotar na Argentina
Texto: Aline Gatto Boueri Correspondente de Plurale na Argentina De Buenos Aires
E
m maio de 2011 recebi um e-mail da assessoria de imprensa do Greenpeace Argentina no qual anunciava que Juan Carlos Villalonga se desligava da organização. Seis meses depois, ele me conta qual é a agenda de Los Verdes/Fórum de Ecologia Política – do qual é presidente do Conselho Diretor -, um movimento político que quer se transformar no primeiro Partido Verde da Argentina. O desafio dos Verdes argentinos é fazer com que a dinâmica de atividades, que ainda se assemelha muito à de organizações não-governamentais de caráter ambiental, derive em uma força política capaz de angariar votos e disputar cargos eleitorais. “Estamos gerando uma massa crítica que esperamos fazer crescer em 2012 e chegar à estrutura partidária”, projeta Villalonga.
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Com uma proposta energética sus sustentável e o questionamen questionamento ao modelo extrativista e à expansão da fronteira agrícola, o Partido Verde argentino começa a dar sinais de vida.
partidos verdes inspiraçãO verde A principal inspiração para os Verdes argentinos vem da Alemanha. Quando este país ainda estava dividido, o PV ganhou 1,5% dos votos na primeira eleição parlamentar que disputou na parte Ocidental, em 1980 – chegando a 5,6% três anos mais tarde. Com a reunificação, os Verdes do lado Ocidental se uniram a um tímido Partido Verde do lado Oriental, a antiga RDA. Quando chegaram ao governo federal, por meio de uma coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD), em 1998, os Verdes ficaram aquém das expectativas. Com o PV no governo, a Alemanha participou da guerra em Kosovo e enviou tropas ao Afeganistão. Com o PV no controle do Ministério de Meio Ambiente, as centrais nucleares não deixaram de operar no país, mas houve uma gradual substituição desse tipo de energia por energias renováveis, pela primeira vez. A projeção de Marina Silva como terceira força política nas últimas eleições brasileiras – quando ainda estava filiada ao PV -,
também serve de exemplo para Los Verdes da Argentina, ainda que este país tenha uma tímida história no que diz respeito a partidos com inclinações ambientalistas. Imediatamente depois da ditadura militar, houve uma tentativa de formaforma ção de um Partido Verde, que durou meses. No fim da década de 1980, o Partido Verde Ecologista, com inspirainspira ções religiosas também foi uma expeexpe riência efêmera. Durou alguns anos, mas nunca ganhou expressão eleitoral. Se transformou rapidamente em PartiParti do Humanista, que hoje integra a base aliada do governo de Cristina FernánFernán dez de Kirchner. Villalonga me recebeu na bela cafeteria do Hotel Savoy, a dois quarteiquartei rões do Congresso argentino, no coco ração de Buenos Aires. Com o olhar tranquilo e fala mansa, ele me esperaespera va tomando um café com integrantes do Greenpeace Argentina. Cali, apelido pelo qual Villalonga é conhecido por aqui, é um ambientalista militante de longa data. Logo no início da conversa, fez questão de marcar sua postura. “O ambientalismo foi uma opção claramente política. Minha crítica ao capitalismo, ao industrialismo, é ideologicamente ambientalista.”
Juan Carlos Villalonga, Presidente do Conselho Diretor do Partido Los Verdes
Quando questionado sobre por que a Argentina ainda não tem um Partido Verde, retorna lentamente ao período de abertura democrática sem deixar de citar o PV brasileiro e Fernando Gabeira, “um bom exemplo de militantes importantes que se renovaram e tomaram um novo rumo ideológico.” Segundo Cali, na Argentina isso não aconteceu. “Nossa esquerda não se renovou no período pós-ditadura e isso não facilitou a convergência dos novos movimentos sociais na política partidária”, lamenta. O próprio Cali – que foi parte do Greenpeace Argentina por 16 anos e
chegou a Diretor de Campanhas oror ganização – reconhece que, apesar de ter iniciado sua militância ambiental no período de abertura democrática da Argentina, pensou durante muito tempo que o país não teria necessidade de um Partido Verde. “Achei que os partidos tradicionais sofreriam um processo de decadência e que com isso assumiriam certas reivindicações. Não o fizeram. Com exceção da questão de direitos humanos vinculada às violações que ocorreram durante a última ditadura militar, houve retrocesso na agenda.”
ditadura na argentina, rgentina, militares envOlvidOs env na ditadUra sãO O jUlgadOs Enquanto o Brasil discute a validade valida da Comissão da Verdade, a Argentina tomou a dianteira - e caminha a paspas sos largos - quando o assunto são as políticas de memória e o julgamento dos crimes cometidos durante a última ditadura militar (1976-1983). Em 1985, o país julgou as Juntas Militares que governagoverna ram durante os anos de chumbo, condenando os chefes militares a severas penas. Com isso, a Argentina entrou para a história como o primeiro país a julgar militares em um tribunal civil dentro de seu próprio território. Em 1990, o presidente Carlos Menem anulou o julgajulga mento e anistiou os militares. Em 2006, sob o comando de Néstor Kirchner, a anistia foi considerada inconstitucional e os julgamentos foram ampliados a todos que tiveram participação no regime.
Até hoje a Argentina julga repressores – e faz cumprir as sentenças – por crimes de violação aos direitos humahuma nos, como a desaparição forçada, sequestro e supressão de identidade de bebês (muitos filhos de militantes desaparecidos, alguns nascidos em centros de detenção, foram adotados ilegalmente, muitas vezes pelo próprio assassino, torturador ou sequestrador de seus pais). O governo de Cristina Fernández de Kirchner, que em outubro se reelegeu no primeiro turno com mais de 54% dos votos, é duramente criticado por organizações ambientalistas. Apesar de ter aprovado leis importantes, como a dos Glaciares (Plurale edição 20) e de Proteção aos Bosques, militantes – entre eles Cali – acusam o lobby das empresas de mineração de pressionar para que a primeira não seja aplicada; e o de grandes ruralistas da soja de pressionar para que a segunda não seja aplicada, forçando assim a expansão da fronteira agrícola sobre os bosques nativos da Argentina.
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Política
Curiosamente, a combativa oposição argentina também ficou de fora nesse debate. Durante a última campanha eleitoral – que correu no clima de “já ganhou” antecipado pelas eleições primárias no país (um test drive pelo qual os candidatos passaram em julho) – a questão ambiental, o modelo extrativista e a dependência da soja brilharam por sua ausência. E é nessa brecha que Los Verdes querem entrar na briga por um lugar no sistema político institucional. Cali afirma que esses temas, ausentes na última campanha eleitoral, são parte da agenda pública. “Há uma percepção comum de que o glifosato, usado nos cultivos de soja, faz mal. As pessoas apoiam a preservação aos glaciares, ameaçada pela mineração. A maioria dos argentinos é contra a opção nuclear para a resolução do problema energético. Mas se repararmos bem, o voto não reflete isso. E não é que essas percepções sejam falsas, é que não há maneira de traduzi-las em voto. O que se apresentou como opção eleitoral não representa em absoluto essa opinião.” A questão energética, que não só no Brasil dá pano pra manga, é o calcanhar de Aquiles também da presidenta argentina hoje. O fim do ano está marcado pela campanha de renuncia voluntária aos subsídios que todos que moramos na Argentina receberecebe mos pelo gás, pela luz e pela água. A ajuda governamental barateia a conta de cada usuário, mas está gerando um desequilíbrio no orçamento do país, que deixou de ser autosuficiente em matéria energética ao longo do períoperío do Kirchnerista. Cali, que não é nenhum principianprincipian te, sabe que na hora do vamos ver das urnas, de nada serve contestar sem apresentar um projeto viável. “Tecno“Tecno logicamente, estamos em condições de produzir uma transformação total na matriz energética sem que se apague a luz”, afirma. “Obviamente, isso só é possível se algumas coisas mudam em termos de produção e consumo. NeNe cessitamos um sistema produtivo com outra racionalidade.”
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A proposta dos Verdes hermanos é um consumo sustentável de bens que permita o uso consciente de energia e a viabilidade dos projetos de renováveis. É também uma aposta em um modelo de distribuição mais equitativo. “Em um mundo baseado em energias renováveis não há propriedade de recursos, é uma questão de tecnologia. E não há possibilidade de monopólio de tecnologia, mas sim de recursos energéticos, que é o que passa hoje e fortalece o lobby das empresas petrolíferas, por exemplo. Jamais uma empresa de tecnologia pode chegar a ter o poder de uma petrolífera. O mapa de poder se modifica totalmente em uma sociedade baseada em energias renováveis, que é uma sociedade economica e politicamente mais democrática.” Quanto ao alto custo das energias renováveis, Cali apela a um argumento que tem bastante sentido. “Desde 1908, quando descobriram petróleo na Argentina, essa fonte está sendo subsidiada. Desde então, o Estado fez tudo: explorou, fez refinarias, oleodutos, gasodutos, privatizou. A energia nuclear é financiada desde 1953. Tudo isso faz com que hoje esse tipo de energia seja mais barato, mas é uma conta falsa. O moinho não pode ter o mesmo custo de um tipo de energia que recebeu investimento durante 100 ou 50 anos. Ainda assim, a energia eólica está em condições de competir com as convencionais, isso sem mencionar os custos ambientais.” De fato, a Patagônia argentina é o cenário ideal para a produção desse tipo de energia. Em 2008, o país contava com 13 Parques Eólicos que na média, segundo a Secretaria de Energia, chegavam a um fator de capacidade de 30% (o fator de Belo Monte, por exemplo, é de 40% no projeto). Resta saber se os argumentos de Cali podem ser traduzidos em um apoio eleitoral como o que teve Cristina Fernández de Kirchner nas eleições de 2011. Para isso, vamos ter que esperar mais quatro anos.
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Estante
Por Carlos Franco, Editor de Plurale em Revista
A TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DE WILSON FIGUEIREDO
Por Wilson Figueiredo, Editora Ouro sobre Azul, 220 págs, R$ 85,00 Testemunha privilegiada – como repórter, editor, editorialis editorialista e cronista – de todos os fatos que marcaram a História do Brasil desde o fim dos anos de 1930, o jornalista Wilson Figueiredo, 87 anos, é personagem e protagonista da biografia E a vida continua – A trajetória profissional de Wilson Figueiredo (Editora Ouro sobre Azul). Wilson acompanhou o fim do Estado Novo, registrou a esperança da Constituinte de 1946, relatou a tragédia de Vargas, o surgimento de um novo Brasil no período Juscelino, as loucuras de Jânio, o momento da instabilidade política, os anos de chumbo da ditadura, o renascimento da democracia, as agruras da década perdida e a consolidação do regime democrático. O lançamento do livro marca os 30 anos da FSB Comunicações, onde Wilson Figueiredo se tornou colaborador diário há sete anos.
A ECONOMIA VERDE NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: A GOVERNANÇA DOS ATORES PÚBLICOS E PRIVADOS Organizado por Carina Costa de Oliveira e Rômulo Silveira Sampaio, Editora FGV Direito Rio, 340 págs.
O livro A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável: a governança dos atores públicos e privados reúne propostas e reflexões de especialistas na área ambiental em relação a temas que serão discutidos na Conferência Rio+20 que será realizada em 2012 no Rio de Janeiro. Organizado por Carina Costa de Oliveira e Rômulo Silveira Sampaio, o livro é fruto da Jornada Preparatória organizada pelo Programa em Direito e Meio Ambiente (PDMA) da FGV DIREITO RIO que aconteceu nos dias 24 e 25 de junho de 2011, no Rio de Janeiro. Download gratuito pelo link: http://direitorio.fgv.br/node/2024
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A FUGA DAS MINHOCAS
Por Raquel Ribeiro, com Projeto gráfico de Jean Pierre Verdaguer e Ilustrações de Orlando Pedroso, Editora Nova Alexandria, 40 págs, R$ 30, encomendas pelo email: raquel.ri@uol.com.br Ana Beatriz de Sousa e Sousa, uma minhoca atrevida, incentiva as companheiras a deixar o minhocário onde vivem e se aventurar pela terra árida da cidade de São Paulo. Eis o ponto de partida de A fuga das minhocas, uma história que tem como personagens principais minhocas, baratas e ratos; ou seja, uma turma que entende de lixo. Ao contrário das estrelas do filme A fuga das galinhas, nossas minhocas fogem com facilidade, mas levam um susto atrás do outro ao se darem conta da dura, literalmente, realidade do asfalto. O que mais as espanta é um lixão, mas é ali também onde elas vão ter sua grande aula sobre lixo orgânico.
PROCURA-SE UM MILAGRE
Por Celina Côrtes, Editora Nova Era, 208 págs, R$ 24,90
Procura-se um milagre conta da jornada de três mulheres que percorreram os 250 quilô quilômetros do Caminho Português, que sai da Cidade do Porto e vai até Santiago da Composte Compostela. Trata-se da própria autora e de duas Isabéis; uma rainha santa e outra, uma francesa que busca reencontrar um antigo amor após ter um câncer no intestino. A jornalista Celina Côrtes, ao contar os percursos das três mulhe res, fala também de todas aquelas que sofrem por amor, superam doenças, lutam para serem especiais no mundo. Em um relato envolvente sobre fé, superação e história, a autora entrelaça passado e presente para exteriorizar uma experiência marcante - que atravessou os séculos e que motiva milhares de peregrinos a percorrerem os caminhos que levam a Santiago da Compostela.
Frases
Homenageamos, nesta edição, pensadores, escritores e artistas de todos os tempos que se debruçaram sobre os desafios. Em 2012, diante dos imensos desafios locais e globais que se aproximam, desejamos a todos que estas barreiras possam ser superadas para prosseguirmos em busca de consenso por um planeta melhor para as próximas gerações.
“Que os vossos esforços desafiem as impossibilidades, lembrai-vos de que as grandes coisas do homem foram conquistadas do que parecia impossível” CHARLES CHAPLIN A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio. MARTIN LUTHER KING JR.
O maior desafio de uma mãe é ficar cada vez menor. CLARICE LISPECTOR O maior desafio tanto no nosso século quanto nos próximos é salvar o planeta da destruição. Isso vai exigir uma mudança nos próprios fundamentos da civilização moderna – o relacionamento dos seres humanos com a natureza.
MIKHAIL GORBACHEV O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido “.
“Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir.”
ANTONIO GRAMSCI
NELSON MANDELA
“Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” SÓCRATES 57
Água
oluntária olu do Planeta
E você, vai ficar aí nesse chove não molha?
E você, o que tem feito pela vida?
Foto: Banco de imagens Shutter Stock
inspiração em ação
Parceria:
Patrocinadores diamante:
Patrocinadores ouro:
Apoio:
CINEMA
Verde
ISABEL CAPAVERDE
i s a b e l c a p a v e r d e @ p l u r a l e . c o m . b r
Foto: Marcos Hermes
Rio é palco do 1º FilmAmbiente Em novembro último, o Rio de Janeiro foi palco do 1º FilmAmbiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental que levou para quatro salas de exibição da cidade a mais recente produção internacional de cinema ambiental, com direito a uma estreia mundial e debates com diretores, produtores e ambientalistas. Os vencedores receberam o Troféu Tainá e prêmios em dinheiro. Entre os curtas, o melhor filme ficou com Taba e o prêmio especial com Água; entre os longas, o prêmio de melhor filme foi dividido entre A Caminho da Eternidade (Into Eternity) e Comprar, Trocar, Comprar (The Light Bulb Conspiracy) e o prêmio especial do júri ficou com Vamos Brincar Novamente (Play Again). Já o prêmio do júri popular foi ganho por Ensacola! (Bag It!).
O pregador da sociedade alternativa nas telas Alguém que preferia ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” e que pregava “viva a sociedade alternativa” certamente seria um defensor da causa verde se ainda estivesse vivo. Mas mesmo tendo saído de cena cedo, em 1989, Raul Seixas, cantor e compositor considerado o “pai do rock brasileiro” - em 2008, a revista Rolling Stone promoveu a Lista dos Cem Maiores Artistas da Música Brasileira, cujo resultado colocou Raul figurando na 19ª posição – ainda desperta atenções de milhares de fãs. Tanto que ganhou um documentário: Raul Seixas: o Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, Evaldo Mocarzel e Leonardo Gudel, com estreia prevista para março de 2012 nas principais capitais. O filme, reúne entrevistas de familiares como o irmão Plínio Seixas e d e amigos como Paulo Coelho, parceiro em várias canções, e Waldir Serrão, fundador do Elvis Rock Clube do qual Raul fez parte. As filmagens ocorreram na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Estados Unidos e Genebra. Quem quiser assistir ao trailer do documentário basta acessar o link: http://www.paramountpictures.com.br/upload/extranet/Raul.zip
Atenção cineastas: festival tem prêmio de sustentabilidade As inscrições para o 5º Los Angeles Brazilian Festival – LA LABRFF, que ocorre de 25 a 29 de Abril de 2012, em Los Angeles (EUA), já estão abertas para longas, curtas e documentários e vão até o dia 31 de janeiro. Os filmes inscritos - que devem ter sido produzidos a partir de 2009, serem inéditos na Califórnia, conter legenda em inglês, estar encodados e seu trailer disponível em redes sociais para apreciação do público – concorrem em 18 categorias, entre elas, a de Prêmio Especial Sustentabilidade. Formulário e regras para inscrição devem ser solicitados através do email inscricao2012@labrff.com. O LABRFF tem como principal objetivo divulgar o talento dos cineastas brasileiros em Los Angeles e facilitar a distribuição e divulgação da produção audiovisual brasileira nos Estados Unidos.
Vídeos ambientais para educar Criado pela Imagine Filmes - produtora carioca que desenvolve soluções audiovisuais e tecnologias sociais utilizando a comunicação multimídia – com parceiros e apoiadores, o Vídeo Ambiental é um projeto de educação ambiental que utiliza a linguagem audiovisual como ferramenta para elaboração de um mapa socioambiental da região pesquisada. Pesquisas que durante oficinas se transformam em vídeos disponibilizados no site www.videoambiental.org. Há várias formas de participar dependendo do perfil do interessado: pode ser aluno, professor, Prefeitura/Estado, orientador ou voluntário. Os filmes são muito criativos como, por exemplo, Não destrua a natureza, a história de amigos que se mobilizam para mudar a cabeça de Mateus que planeja incendiar a floresta, uma ficção feita por alunos de uma escola pública de Campo Grande, bairro do Rio de Janeiro.
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P e las Em pr esas
ISABELLA ARARIPE
Itaú Unibanco: Sustentabilidade no mapa O ultimo dia 9 de dezembro foi emblemático para o Itaú Unibanco. Pela manhã se reuniram cerca de 60 especialistas em sustentabilidade para realizar um diálogo sobre a nova estratégia do tema para o banco. Representantes do sistema de defesa do consumidor, ONGs, mercado financeiro, academia entre outros analisaram em primeira mão o novo posicionamento do Itaú, apresentado pela superintendente de Sustentabilidade, Denise Hills, calcado em três pilares: educação financeira, diálogo e transparência e riscos e oportunidades socioambientais. Na semana seguinte, o CEO Roberto Setubal e o comitê executivo do banco aprovaram essa nova estratégia, que foi construída ao Denise Hills longo do ano, com participação de cerca de 150 colaboradores de diferentes áreas de negócio em uma série de workshops colaborativos. A sustentabilidade é mais do que nunca algo transversal no Itaú Unibanco. Está na visão do banco, baseada em performance sustentável: gerar valor compartilhado para os acionistas, colaboradores, clientes e sociedade, garantindo a perenidade do negócio.
Coca-Cola Brasil lança Eco, embalagem que estimula a reciclagem de PET Aliar hidratação e bem estar a sustentabilidade. Foi pensando assim que a Crystal, marca de águas da Coca-Cola Brasil, decidiu lançar no festival SWU, que acontece em novembro, em Paulínia (SP), a garrafa Crystal Eco, que utiliza 20% menos PET que as versões anteriores e até 30% do PET feito a partir da cana de açúcar. Para o restante do mercado, a garrafa chegará a partir de janeiro de 2012. A garrafa Eco, também chamada de crushable, é produzida através do processo de sopro convencional, mas com pré-formas com base diferenciada, de modo que a distribuição e estrutura da garrafa garantam performance mecânica. Para simbolizar mais este avanço tecnológico na sustentabilidade das embalagens, a Crystal convida os consumidores a torcerem as embalagens após o consumo, o que reduz em 37% o volume das garrafas e facilita transporte e armazenagem das garrafas 100% recicláveis. Ao mesmo tempo, a nova garrafa de Crystal também utiliza a tecnologia PlantBottle, na qual até 30% da matéria tem origem no etanol da cana de açúcar, e não no petróleo, reduzindo em cerca de 20% as emissões de dióxido de carbono.
Tetra Pak patrocina projeto de proteção ao peixe-boi amazônico A Tetra Pak inicia em dezembro uma expedição de educação ambiental pelo Rio Uatumã, afluente da margem norte do Rio Amazonas (AM). O projeto “Protegendo a vida na Amazônia” tem o objetivo de levar informações sobre a preservação da fauna regional, principalmente dos peixes-bois, para cerca de 26 comunidades ribeirinhas, onde vivem mais de oito mil pessoas. Segundo Fernando von Zuben, Diretor de Meio Ambiente da Tetra Pak, mais duas expedições devem ser realizadas em 2012, mas as datas ainda não estão definidas por conta das épocas de seca do rio. “Com o lançamento do projeto ainda em 2011, no ano Internacional das florestas, nossa missão é levar o conceito de proteção da biodiversidade em uma das regiões com a fauna mais rica do planeta”, completa Fernando.
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Formatura de jovens no projeto Arredores, apoiado pela Unimed-Rio Ao final de novembro de 2011, um grupo de 280 jovens, crianças e adultos participou de uma formatura especial. Eles receberam os certificados de conclusão de cursos promovidos por três núcleos de educação do Arredores, um projeto apoiado pela Unimed-Rio e conduzido em parceria com a ONG Terrazul. Os participantes do Núcleo Audiovisual, Núcleo de Educação Digital e do Arredores na Escola, que abrangeu três escolas públicas e três colégios particulares, foram as estrelas do evento, realizado no Auditório do Campus Barra da Universidade Veiga de Almeida.
General Water aposta em reuso
Foto de Bruno Tendler/ Divulgação
A General Water, maior concessionária independente de água para grandes consumidores, aposta na Gestão Integrada de Recursos Hídricos para cuidar desde a captação e tratamento da água para fins potáveis e nobres até o tratamento do esgoto para geração de água de reúso qualificada ou descarte nos coletores públicos para grandes clientes como o Centro Administrativo Raposo Itaú Unibanco, Shopping Center Iguatemi, World Trade Center São Paulo, Shoppings Tamboré e Granja Vianna, Grand Plaza Shopping e Faria Lima Financial. Neste novo conceito, ganha destaque o reúso qualificado de recursos hídricos, com o qual é possível gerar economia de até 50% nos custos de água esgoto e transformar o líquido utilizado, novamente, em água limpa. Essa área contribuiu para um crescimento da ordem de 30% no volume de água fornecido pela empresa no último ano.
Lançada no Rio a primeira Bolsa Verde do país Estado, Prefeitura e BVRio assinaram no dia 20 de dezembro, em cerimônia no Palácio Guanabara, um acordo de cooperação para desenvolver um mercado de ativos ambientais, com o objetivo de promover a economia verde no estado. O convênio sela a criação da primeira Bolsa Verde do país, com sede no município do Rio de Janeiro e início de operação previsto para abril de 2012. À frente da empreitada estão a Secretaria de Estado do Ambiente, a Secretaria de Fazenda do Município do Rio e a BVRio (associação civil sem fins lucrativos). Será implantada uma plataforma de negociação destinada a O secretário estadual de Ambiente do Rio, Carlos se tornar referência no país para a comercialização de ativos ambientais. Esses Minc, fala sobre a Bolsa ao lado da secretária ativos vão abranger os bens existentes, como energia renovável ou biomassa, Eduard La Rocque (esq.) mas também os direitos de natureza regulatória relacionados ao cumprimento de obrigações ambientais, como recuperação de áreas florestais, tratamento de resíduos, entre outras ações. “O Rio tem tudo para ser a capital verde do mundo. Essa parceria será de muito sucesso, pois seremos referência internacional econômica e ambiental”, afirmou a secretária Municipal de Fazenda, Eduarda La Rocque,
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Tecnologia
Ceará quer controle da poluição em tempo real no Complexo Industrial do Pecém Tecnologia canadense domina 98% do mercado da Alemanha, 100% no Canadá e 60% nos EUA Texto: Flamínio Araripe, Especial para Plurale em Revista de Fortaleza (CE) / Fotos: Divulgação
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Complexo Industrial do Pecém (CIP), no Ceará, na Região Metropolitana da Fortaleza, com 13.300 hectares nos municípios de São Gonçalo do Ama Amarante e Caucaia, tem como desafio o controle da poluição, que pode constituir ameaça ao turismo nas praias da costa Oeste. A área vai receber termoelétricas, siderúrgica, refinaria, Zona de Processamento de Exportações (ZPE), polo petroquímico e polo eletrometalmecânico. Antes da entrada em operação dos empreendimentos previstos, a Secretaria da Infraestrutura já discute como monitorar em tempo real as emissões de poluentes, enquanto tramita na Assembleia Legislativa o projeto do governo do Estado para definir o modelo de gestão do CIP. O tema foi abordado em workshop nos dias 1 e 3 de novembro, em Fortaleza, com a empresa canadense Lakes Environmental Software, com sede em Waterloo e escritório em Dallas (EUA), capital das empresas de petróleo de capital aberto, que monitora com o Sistema de Gestão de Emissões Industriais (FETS View) a poluição em Houston, Texas, considerado o maior complexo industrial do mundo. A apresentação foi feita pelo presidente da empresa, Jesse Thé, professor adjunto de Sistema de Gestão Ambiental na Universidade de Waterloo, Canadá, cearense há 25 anos no país, naturalizado canadense, com dupla nacionalidade. A Lakes, segundo ele, domina mais de 98% do mercado da Alemanha com o sistema para o cálculo de dispersão de poluentes na atmosfera, necessário para o licenciamento de unidades emissoras. No Canadá, a empresa detém 100% do mercado, mais de 65% nos Estados Unidos e tem clientes nos cinco continentes, informa. A maioria dos clientes da empresa é da indústria petroleira, química e petroquímica, mas também indústrias de papel, minera mineração, farmacêutica e plantas nucleares. Todos os reatores da Coréia do Sul são monitorados 24 horas por dia com a tecnologia cana canadense. A China, que vai construir 50 usinas nucleares, optou por usar o sistema de padrão alemão para modelagem dos reatores. Mas na Alemanha recebeu a indicação da Lakes, que foi contratada pelos chineses e já iniciou o trabalho com o treinamento de técnicos na China, no ano passado, assinala Jesse Thé. O trabalho na China consiste na previsão do espalhamento da radiação em caso de acidentes nucleares, e mesmo dos pequenos eventos que não são considerados acidentes, mas em que houver liberação da radiação. O sistema aponta toda a trajetória, a difusão
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de solução da concentração radioativa considerando o decaimento de partículas por dias ou milhares de anos e a definição da redução. A implantação do FETS View pode ser feita em todo um complexo industrial ou em cada indústria. O sistema requer servidores possantes na empresa ou “na nuvem” da Lakes, que rodam modelagem matemática em escala de terabits e fazem a convergência das infor informações. Quem for dono do sistema controla os dados. Thé observa que o FETS View tem capacidade de analisar simultaneamente 180 poluentes incluindo gases do efeito estufa e pode identificar mais de 10 mil processos que emitem para a atmosfera - poeira, vapores, odores, ácidos e produtos orgânicos -, até fritura de hambúrguer ou ovo, observa. De acordo com Thé, o software tem capacidade de prever mesmo sem ter uma torre de medição ou estação meteorológica. Os dados são coletados dos satélites, assimilados e processados no computador para a definição de qual a máxima concentração e o que causou a emissão. Com estação meteorológica e monitor de qualidade do ar, toda todavia, a qualidade da previsão melhora, e também se incluir monitores sistêmicos em chaminés, tanques ou outros pontos estratégicos. Os medidores são caixas que sugam o ar na atmosfera e analisam a concentração de poluente. O escopo do trabalho – que tipos de dados quer receber - é definido pelo cliente. “Controlamos fonte a fonte a quantidade de todos os produtos que estão sendo emitidos. Pode ser só refinaria, só termoelétrica e só siderúrgica”, detalha Thé. O diferencial do software da Lakes é a modelagem de matemática e o grau de precisão da informação on line atualizada a cada cinco minutos e a capacidade de previsão com cinco dias de antecedência, detalha Thé. O pesquisador e empresário acentua que o sistema é de fácil operação, baseado na web, pode ser instalado em laptop, tablet ou smartphone. O presidente da Lakes explica que 95% de toda previsão atmosférica vem de satélites. A Lakes tem convênio com a agência federal dos Estados Unidos, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que lhe permite obter os dados de satélites e modelos da atmosfera para processá-los com mais detalhes. “Hoje, podemos fazer a previsão mesmo sem que estejam instaladas estações meteorológicas ou torres de monitoramento”, ele afirma. Como exemplo, cita um trabalho que realizou para a Esso no Saara e outro para a Petro Canadá no sul da Líbia. Jesse Thé escreveu as normas técnicas de como fazer os cálculos da poluição na Califórnia e em Seattle (EUA) e nas províncias de Ontário e Oregon, no Canadá, que incluem cálculo de risco, impacto na saúde, agricultura e água potável, entre outros parâmetros. Embora haja consciência ambiental por parte da indústria, ele calcula que, em 80% de todos os casos de implantação de medidas de controle, só se toma cuidado se o governo exigir através de regulamentações. Agem por consciência 10% das indústrias, estima. Em Fortaleza, Thé apresentou o FATS View também numa reunião do Pacto pelo Pecém, no Conselho de Altos Estudos da Assembleia Legislativa. O secretário executivo do Conselho, Eudoro Santana, alerta para a possibilidade de eventos extremos em alguns dos empreendimentos do Complexo Industrial que, mesmo com EIA-Rima, tem de ser constantemente monitorado. Para ele, os empreendimentos a serem instaladas no Pecém vão dobrar o PIB do estado, mas é necessário estabelecer limites da emissão de gases para todas empresas. O diretor de Licenciamento da Superintendência de Licenciamento do Ceará, Ivan Botão, disse que a Semace tem
A esposa de Jesse, Cristiane Thé, arquiteta com mestrado em construção civil na área de matemática, coordena a equipe de implanta implantação com equipe de programadores na Lakes. Também cearense, ela foi a primeira mulher a ganhar medalha de ouro na Universidade de Waterloo pelo desempenho no mestrado, e desenvolveu o FETS View. Engenheiro mecânico na Universidade Federal de Santa Catarina, onde fez o mestrado e tornou-se professor no curso de engenharia da produção, ele concluiu o doutorado na Universidade de Water Waterloo em mecânica de fluidos e transferência de calor, uma ferramenta matemática aplicada à resolução de problemas complexos na emissão de poluentes. No workshop, Thé relatou o caso de uma indústria de níquel no Canadá que, ao atingir o padrão de poluição, era obrigada a parar a produção, com prejuízo diário de US$ 10 milhões. Em média, por ano, ocorriam quatro paralisações, uma perda de R$ 40 milhões. O sistema, disse ele, possibilitou detectar com três dias de antecedência quando vai atingir o limite e, assim, a empresa reduz em 85% a operação quando a natureza não tem condições de dispersar as
emissões e economiza R$ 40 milhões por ano. Em comparação, o sistema custou R$ 200 mil. Em outro caso, uma siderúrgica da ArcelorMittalm do Canadá, foi obrigada pelo governo a trocar o forno de coque. Com base nas previsões feitas pela Lakes, a indústria passou a operar de acordo com a capacidade da atmosfera de diluir os poluentes. Assim, economizou US$ 1 bilhão que custaria a substituição do for forno de coque. Após a apresentação no Ceará com o parceiro brasileiro, Sílvio Oliveira, da Sistema Estudos Climáticos e Ambientais (Seca), Thé fez uma apresentação em Pernambuco para gestores do Porto de Suape e ministrou um seminário de modelagem matemática em São Paulo. Caso a empresa venha a ser contratada no Ceará, ele disse que pretende instalar uma
Foto: Petrobras / Divulgação
interesse no FETS View, que para ele é de grande importância no monitoramento das indústrias que emitem poluentes e contaminam a atmosfera. “Este sistema é interessante por ter online o nível da poluição atmosférica, para poder ser tomada atitude em relação à indústria que estiver em desacordo com o padrão aceitável para a população”, assinalou. Botão avalia que o sistema também vai ajudar no licenciamento das indústrias, quando futuramente implantado pelo ór órgão ambiental. “A Semace já tem uma carga muito grande de trabalho da sua equipe de licenciamento ambiental, e não tem como fazer monitoramento inteligente. O FETS View é fantástico para o órgão ambiental e para o conjunto da população”, ele afirma. Para Felipe Monteiro, gestor ambiental da Superintendência, por sua vez, avalia que o FETS View é interessante porque, assim, o órgão ambiental poderia ter, em tempo real, como está se dando a dispersão de poluentes. Hoje, as próprias empresas fornecem em papel os relatórios relacionados à dispersão de poluentes a cada período de três meses. “Para o Complexo Industrial Portuário de Pecém, ter esses dados online é muito importante”, assinala.
Jesse Thé, professor adjunto de Sistema de Gestão Ambiental na Universidade de Waterloo, Canadá
base de desenvolvimento em Fortaleza, onde, acredita, encontrará os melhores programadores. Embora o estado não tenha recursos minerais, possui a maior riqueza que é o talento do cearense, avalia.
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Produto
Carvão ecológico conquista clientela Novo tipo de carvão ecologicamente correto é composto de resíduos de carvão vegetal à base de Eucalipto, Pinus ou Bracatinga Texto: Tereza Quindere Especial para Plurale em revista Fotos: Divulgação
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a movimentada Cobal do Humaitá (Zona Sul do Rio), um dos points cariocas que não saem da moda há anos, os clientes do Galeto Mania, sentiram a mudança no ar. O delicioso aroma dos assados na brasa perdeu sua antiga e permanente companhia – a fumaça. Restaurantes vizinhos e seus freqüentadores também comemoraram a novidade. Responsável? Um novo tipo de carvão, o único aprovado pelo Ibama, que além de não agredir o meio ambiente oferece a proeza de maior durabilidade e muito menos poluição do ar. Fabricado no Paraná, a partir de matéria-prima procedente de áreas de reflorestamento ou manejo florestal, o produto é um briquete de carvão compactado com aglutinantes naturais, composto de resíduos de carvão vegetal à base de Eucalipto, Pinus ou Bracatinga. Mais de 80% da produção se destina hoje ao mercado internacional, principalmente Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Inglaterra e Japão. No Estado do Rio de Janeiro, a representante exclusiva é a West Agropecuária, de Gilson Bittencourt.
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“Nosso país começa a seguir a tendência mundial que é abolir o carvão que destrói madeiras nobres. O mercado está se abrindo ao novo porque, além de ser 100% natural e ecologicamente correto, o Carvonet tem vantagens operacionais reais. Quem usa, não volta atrás” – diz o empresário fluminense. Irreverente, como denuncia o próprio nome de seu estabelecimento, McGato, maior e mais bem freqüentado restaurante da cidade serrana Miguel Pereira – RJ, Luciano Antônio concorda: “Fizemos pequena adaptação em nossa churrasqueira, mas a durabilidade maior da combustão compensa e muito. Fora não ter as mulheres reclamando de cheiro de carne nos cabelos”. Um dos primeiros supermercados a aderir ao Carvonet, o Crismar, no Jardim Botânico, testemunhou a rápida modificação no padrão de consumo. Conta seu proprietário Marcio Vilachã: “Nossa clientela aqui no bairro é muito exigente e formada por pessoas de bom nível social e bastante bem informadas. Foi só o Carvonet estar na prateleira, com a informação de ser não poluente, que a preferência por ele em detrimento do carvão antigo foi praticamente imediata”. Carvonet é vendido em pacotes de 4kg. Para o atacado, vem em fardos com seis pacotes cada. Contato: West Agropecuária Pelo Site www.westpecuaria.com.br ou pelos telefones (24) 98161468 ou (24) 81440437
CARBONO NEUTRO
SÔNIA ARARIPE
s o n i a a r a r i p e @ p l u r a l e . c o m . b r
ENERGIA SOLAR PARA NORONHA
Foto: José Cruz/ ABr
SEM CONSENSO NA CÂMARA, VOTAÇÃO DO NOVO CÓDIGO FLORESTAL FICA PARA 2012 Agência Brasil
Brasília – Sem acordo sobre o texto do novo Código Florestal, parlamentares sinalizaram que o assunto só entrará na pauta da Câmara em 2012. O novo Código Florestal retornou à Câmara no dia 6 de dezembro, depois de aprovado pelo Senado. A Câmara deverá analisar as alterações feitas pelos senadores, podendo, inclusive, suprimir as alterações e mandar para sanção presidencial o texto originalmente aprovado pelos deputados.
Da esquerda para a direita: Luiz Antonio Ciarlini, presidente da Celpe; o CoronelAviador João Batista Oliveira Xavier e Marcelo Corrêa, presidente da Neoenergia.
O Grupo Neoenergia, por meio da Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), implantará os primeiros painéis de geração de energia solar fotovoltaica conectados à rede elétrica da Ilha de Fer Fernando de Noronha. A concessionária irá instalar as placas solares no arquipélago, em 2012, em parceria com o Comando da Aeronáutica. No total serão investidos cerca de R$ 5 milhões no projeto de ener energia renovável. A ação integra o Programa de Eficiência Energética, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A assinatura do convênio aconteceu no fim de dezembro, no Rio de Janeiro. “Queremos estimular o desenvolvimento e aplicação dessa nova tecnologia na Ilha e contribuir para a preservação do meio ambiente”, afirma o presidente do Grupo Neoenergia, Marcelo Corrêa.
ACIDENTE DA CHEVRON DEVE ENCARECER SEGUROS Por Daniel Fraiha, do Portal Petronotícias
O primeiro tremor foi o acidente da BP, em abril do ano passado, que fez com que o mercado de seguros e resseguros tivesse que arcar com US$ 1 bilhão de despesas, que podem chegar a US$ 3 bilhões dependendo do desenrolar da história. Agora o vazamento da Chevron, no Campo de Frade, na Bacia de Campos (RJ), pode ser mais um agravante para o aumento dos preços e do rigor na hora em que as operadoras forem renovar seus seguros. O coordenador da área de óleo e gás do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB-Brasil Re), Carlos Vinicius Simonini contou ao site Petronotícias o que acha que deve acontecer no mercado. Leia mais em www.petronocias.com.br
ESTUDO AVALIA MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO LIMPO Um dos debates mais persistentes das rodadas de negociações climáticas das Nações Unidas é o de como aprimorar o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permite que companhias e países industrializados comprem créditos de carbono gerados por projetos de redução de emissões de gases do efeito estufa em nações em desenvolvimento.
Fabiano Ávila, do Instituto CarbonoBrasil, com informações da Comissão Europeia
Tentando facilitar as discussões futuras, a Comissão Europeia (CE) apresentou no dia 16 de dezembro os resultados de um abrangente estudo sobre o mecanismo, reconhecendo seus benefícios e apontando suas falhas. O estudo pede que sejam estabelecidos critérios mais rígidos de sustentabilidade e que os créditos provenientes de grandes projetos hidroelétricos em países fora do grupo dos menos desenvolvidos (LDCs) sofram restrições.
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I m a g e m Foto: Isabella
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Araripe- Búzios (RJ)
omo disse um dia o poeta Manoel de Barros, “Um fim de mar colore os horizontes”. Nesta virada de ano, a Equipe Plurale agradece a sua leitura atenta e esta caminhada juntos por quatro anos, rumando para o quinto ano. Que venham muitos outros e que possamos estar sempre juntos, dialogando sobre sustentabilidade! Um Feliz 2012, com muita paz e só energias positivas. Esta bela foto é da jovem Isabella Araripe, clicada em Búzios (RJ), onde a natureza mostra todo o seu capricho em cores e formas. .
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