Conflitualidade no liberalismo português os casos da maria da fonte e da patuleia

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Conflitualidade no Liberalismo português: os casos da Maria da Fonte e da Patuleia. José Rafael Soares1

Os falhanços da política cabralista O estudo do Liberalismo em Portugal e, mais propriamente, da implantação da Monarquia Constitucional passa, obrigatoriamente, pelo apoio nas fontes impressas. Os periódicos, os panfletos e os folhetins compuseram, em bom rigor, grande parte dos instrumentos de crítica publicada2. O aparecimento da imprensa está relacionado com a invectiva dos seus autores em se intrometerem na discussão pública dos assuntos sem, no entanto, se comprometerem. Haveria a notar o crescimento das publicações em momentos de relativa acalmia política e social, sem nunca se registar a ausência de opinião mesmo nos tempos mais conturbados3. Interessa-nos particularmente o período da Maria da Fonte e da Patuleia. Se o primeiro consistiria numa revolta organizada de camponeses minhotos, o segundo fora uma guerra civil, conduzida por facções políticas distintas. Estes acontecimentos, separados por pouco mais de alguns meses, colocaram o país no centro das atenções mediáticas europeias, mas também viu uma interessante proliferação de textos em solo nacional, quer a apelar à revolta, quer a apelar à contenção. O carácter camponês da revolta da Maria da Fonte — de resto, inquestionável — associou-se a uma rápida mobilização das massas populares, que escolhiam chefes de fila para manobrar uma não menos anárquica estratégia de contagiar as localidades vizinhas4. A guerra civil que se lhe seguiu, instigada pela inércia contractual das 1

Aluno do Mestrado em Ensino de História, Universidade do Minho. Cf. Maria Helena C. Santos, “Imprensa periódica clandestina no século XIX: ‘O Portuguez’ e a Constituição”. Análise Social, XVI (61-62) (1980), p. 429-445. 3 Cf. Maria Filomena Mónica e Luís Salgado de Matos, “Inventário da imprensa operária portuguesa (1834-1934)”. Análise Social, XVII (67-68-69) (1981), p. 1013-1078. De facto, a listagem está incompleta e afasta-se do tema do nosso trabalho, mas, em todo o caso, facilmente nos apercebemos da multitude de opções editoriais em vigor para este período. 4 Cf. Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, Rebeldes e Insubmissos. Resistências populares ao Liberalismo (1834-1844) (Porto: Edições Afrontamento, 2002), p. 564: “O protesto popular dirigiu-se sobretudo contra transformações no domínio religioso e ritual que foram predominantes em relação aos tumultos políticos, tendo-se também ali exprimido uma aguda sensibilidade antifiscal”. Mais acutilantemente, “as populações do Norte não hesitaram em aproveitar os contributos revolucionários do liberalismo no domínio senhorial quer atacando oconventos que cobravam direitos senhoriais como no Douro, quer abandonando o pagamento dos encargos como no Minho, onde a enfiteuse dominava, reagindo por vezes com violência ao seu restablecimento”. 2


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