A INCRÍVEL TRADUÇÃO

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O "AO1990" e a incrível "tradução" de um livro brasileiro... para português! Luis Pinto-Coelho Parece que "fazia muita confusão" a algumas pessoas o facto de a ortografia não ser igual em Portugal e no Brasil... Resolveram então, uns políticos ignorantes, mandar fazer um "acordo" ortográfico absurdo para uniformizar artificialmente a Língua Portuguesa, cujas variantes, ao longo de 2 séculos, evoluíram naturalmente em formas divergentes, devido a realidades e influências diferentes. Este acordo, estúpido e inútil, é um crime contra as heranças culturais das diferentes nações, para no fim não resolver nada e só lançar confusão. Existem muitas diferenças lexicais e ortográficas entre o inglês falado em Inglaterra, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia e muitos outros países, e não consigo perceber porque é que eles conseguem viver bem com isso, mas, para os países onde se fala português isso parece ser um drama!... Mas o facto é que há muitas diferenças na língua falada – diferenças lexicais e no uso da Gramática – entre Portugal e o Brasil, mas a televisão portuguesa transmite novelas brasileiras sem precisar de legendas. Antigamente líamos em Portugal os "Tio Patinhas" e as "Mônica", editados no Brasil, pela Abril, com uma ortografia diferente da nossa, com construções de frases diferentes e com termos exóticos como "ôba", "legal", "cadê" e "tchau" [ninguém dizia tchau em Portugal antes dos anos 80], mas, com 8 anos de idade, isso não nos atrapalhava. Também tínhamos cá, entre outros livros, a enciclopédia juvenil "Conhecer" (igualmente editada no Brasil, pela Abril) e não nos fazia confusão nenhuma ler "trem" e "ônibus" (que sabíamos que era como se dizia comboio e autocarro no Brasil) nem "canadense" em vez de "canadiano". Mas, segundo parece, actualmente, essas diferenças causavam uma grande confusão e acharam que era preciso fazerem um pacto político (que não tem nada de cultural) chamado "AO1990", que, apesar de o considerarem essencial, levaram mais de 20 anos para aplicá-lo. Queriam à força uniformizar a ortografia (que não uniformizaram nada) mas é um facto que continuamos a ter "ônibus" de um lado e "autocarros" do outro e que palavras como "fato" e "banheiro" têm significados totalmente diferentes nos dois lados do Atlântico. Esta grande negociata foi toda feita – pensava eu e muita gente – para vender muitos livros portugueses no Brasil e livros brasileiros em Portugal. Mas talvez não, ou a coisa parece que não é assim tão simples... ou então deve ser de uma estupidez sem limites! Vejamos, então, este exemplo e o absurdo de tudo isto: Estava eu a acabar de ler um dos livros que trouxe do Brasil – o "Guia politicamente incorreto da história do Brasil" – quando vi uma pilha de livros iguais num expositor de uma livraria em Lisboa. Reparei, com surpresa, que o mesmo livro não era exactamente


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