SAO PAULO COLONIAL
Do encontro entre os povos indígenas e os povos europeus, marcado por violência e opressão, surge o embrião da cidade. São aldeamentos, igrejas, remanescentes das casas coloniais, sítios, chácaras e sítios arqueológicos que revelam as marcas dos colonizadores e as diversas camadas históricas de São Paulo
A noite veiu… então nasceram os gigantes, heróes das tres côres Trecho de Martim Cererê, do escritor modernista Cassiano Ricardo (1895-1974). O livro narra, em forma de poemas, as origens do povo brasileiro. O verso está transcrito segundo a grafia original, de 1928
Casa do Bandeirante (Casa Velha do Butantã)
[TAIPA DE PILÃO]
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PRAÇA MONTEIRO LOBATO, BUTANTÃ
SÃO PAULO COLONIAL
A taipa de pilão caracterizou a maioria das construções paulistas dos séculos 16 ao 19. É uma técnica construtiva de origem árabe utilizada em paredes e muros e que consiste na compactação de terra úmida entre dois pranchões de madeira removíveis que se mantêm de pé e afastados entre si graças a travessas ou escoras.
A casa singela de paredes brancas e cobertura de telhas, envolta apenas por árvores e vegetação, parece deslocada do seu tempo, a poucos metros da pista local da marginal do Rio Pinheiros, onde carros passam em alta velocidade a qualquer hora do dia. Pois essa casa é um dos exemplos vivos que a cidade possui de seu passado colonial, quando o rio ainda a envolvia, numa curva no lado oposto da entrada atual, muito antes de ser retificado. Ela foi construída entre os séculos 17 e 18 em taipa de pilão, técnica típica da arquitetura colonial, em um terreno que pertenceu ao bandeirante português Afonso Sardinha, também conhecido como “Capitão da Gente de São Paulo”. Originalmente, essas terras eram conhecidas como Uvatantan, ou “terra duríssima” em tupi-guarani. Alguma semelhança com Butantã? Não se conhece bandeirista que tenha vivido nela efetivamente, mas fato é que a “Casa Velha do Butantã” recebeu o nome de “Casa do Bandeirante” durante as comemorações dos 400 anos da cidade de São Paulo, em 1954. Foi quando a Companhia City, responsável pelo loteamento do bairro, doou a propriedade para a prefeitura. Toda a reforma, conduzida pelo arquiteto paulista Luiz Saia (1911-1975) preservou suas características originais: o tipo de varanda, o telhado em quatro águas, as paredes feitas em taipa de pilão. Em 1955, inaugurou-se um museu que veiculava uma idealização da época das bandeiras. Tanto a casa quanto o entorno, hoje Praça Monteiro Lobato, são tombados pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) desde 1982, e pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), desde 1991.
Casa do Sertanista (Casa do Caxingui)
Pouco mais de 3 quilômetros separam a Casa do Bandeirante da Casa do Sertanista. O bairro se torna mais arborizado quanto mais nos dirigimos para o sul, com exemplares remanescentes de Mata Atlântica ao largo do córrego Caxingui. Como se ainda estivéssemos no século 17 (ou mesmo antes), vemos pau-brasil, sibipiruna, guapuruvu, tapiá-guaçu e outras árvores, testemunhas de centenas de anos atrás. É para lá que voltamos observando a casa de paredes amplas e cobertura de telhas, exemplar típico da arquitetura colonial paulista que caracteriza a residência rural do período das bandeiras. Supõe-se que a construção larga e com poucas janelas servisse para proteger contra ataques indígenas. Por muito tempo a construção foi conhecida como “Casa do Caxingui”. Mas quando a Companhia City adquire e repassa o imóvel à
prefeitura — mesmo movimento pelo qual passou a “Casa Velha do Butantã” —, a edificação é restaurada na década de 1960 e ganha uma atribuição específica, que persiste até hoje: sediar uma exposição de objetos ligados à cultura indígena. Daí também o seu novo nome, pelo qual a propriedade passa a ser conhecida dali em diante. Em 1989, a Casa do Sertanista abrigou o Núcleo de Cultura Indígena da União das Nações Indígenas. Logo, instalou-se ali a Embaixada dos Povos da Floresta, que funcionou até 1993, quando o imóvel passou por novas obras de conservação e restauro, sendo ocupada pelo Museu do Folclore Rossini Tavares de Lima de 2000 até 2007. Atualmente o espaço é dedicado a exposições temporárias, e seu acervo anterior compõe o Pavilhão das Culturas Brasileiras no Parque Ibirapuera. PRAÇA ÊNIO BARBATO, CAXINGUI
Casa do Sítio da Ressaca
[PAU-A-PIQUE]
RUA NADRA FAFFOUL MOKODSI, 3, JABAQUARA
SÃO PAULO COLONIAL
Técnica construtiva tradicional da arquitetura brasileira, o pau-a-pique é utilizado ainda hoje. Também conhecido como taipa de mão, é empregado em divisórias internas. É feito com estrutura de madeira roliça, disposta vertical e horizontalmente, fixada com cipós ou cravos e depois preenchida com barro socado.
A casa-sede do Sítio da Ressaca é uma marca do período colonial que se manteve no Jabaquara, assumindo funções renovadas. Se no passado serviu como residência rural, hoje sedia exposições voltadas à memória da presença afro-brasileira na cidade. Três elementos representam heranças do século 18: as paredes em taipa de pilão, o ano de 1719 registrado na porta principal e o tipo de madeira usado tanto nas portas quanto nos batentes — canela-preta, uma das árvores mais resistentes da Mata Atlântica e que se encontra ameaçada de extinção. O sítio, que recebeu o nome de um córrego das proximidades do caminho de Santo Amaro, foi transformado em chácara nos anos 1960, quando todo o bairro foi loteado. Quem se encarregou do restauro da casa, gerenciado pela antiga Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), foi o arquiteto Antonio Luiz Dias de Andrade (Janjão), em 1978. No mesmo conjunto, a poucos metros de distância, encontra-se um moderno prédio de concreto armado e vidro, que abriga o Centro de Culturas Negras do Jabaquara Mãe Sylvia de Oxalá e uma biblioteca especializada na cultura afro-brasileira.
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Casa do Tatuapé
Quem caminha pelas imediações do Tatuapé talvez não imagine que o local abrigue uma construção de taipa de pilão do século 17 no meio de tantas construções recentes. A Casa do Tatuapé destacava-se na paisagem e ficava nas proximidades do Tietê e do córrego do Tatuapé — o primeiro, retificado e o segundo, canalizado. A casa é uma construção em taipa de pilão, com seis cômodos, dois sótãos e um telhado de duas águas. Em inventário datado de 1698, consta o registro da construção do imóvel em um terreno que pertencera ao padre Matheus Nunes de Siqueira, que nomeou Mathias Rodrigues da Silva como administrador de seus bens, a quem restou o crédito de ter sido o construtor da casa. Em meados do século 19, o sítio passou a abrigar uma olaria,
dedicada à fabricação de telhas; com a imigração italiana, a olaria passou a fabricar também tijolos. Em 1945, após a morte de seu proprietário, Elias Quartim de Albuquerque, o imóvel foi comprado pela Tecelagem Textilia. Três décadas mais tarde, a Casa do Tatuapé foi adquirida pela Prefeitura do Município de São Paulo. Entre 1979 e 1980, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), em conjunto com o Museu Paulista da USP, realizou no local uma série de pesquisas arqueológicas e o imóvel passou por obras de restauro. Em 1981, a Casa do Tatuapé foi aberta à visitação pública. RUA GUABIJÚ, 49, TATUAPÉ
Sítio Mirim
As ruínas de taipa às margens do rio Tietê e da linha férrea, na movimentada Avenida Doutor Assis Ribeiro, mal permitem lembrar que ali existia uma casa importante, localizada em um ponto de onde se dominava extensa várzea do rio. São os vestígios da casa-sede do Sítio Mirim — também conhecido como Sítio Comboratybi ou Corumbataí. Construído a partir do trabalho de indígenas no século 17, em taipa de pilão, o Sítio Mirim foi um antigo ponto de paragem, venda e hospedaria que servia aos tropeiros rumo ao Vale do Paraíba, aos exploradores de ouro e àqueles que navegavam o Tietê. As informações mais antigas sobre a construção remontam a 1750, quando nele residiu o guarda-mor Francisco de Godoy Preto. As atividades do Sítio incluíam criação de gado, produção de aguardente e culturas de subsistência. Em 1964, foram feitas as primeiras intervenções de proteção e restauração da casa, que mesmo assim passou anos de abandono, embora tenha sido tombada pelo Iphan. Em 1975, em decisão pouco comum, o imóvel foi desapropriado pela prefeitura. Trabalhos arqueológicos vêm sendo realizados desde os anos 1980. Ainda assim, as ruínas, sem proteção adequada, estão ameaçadas de desaparecerem — e com elas, suas memórias. AVENIDA DOUTOR ASSIS RIBEIRO, 10573, JARDIM MATARAZZO
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Fazenda da Biacica
Situada no extremo leste de São Paulo, margeando as curvas do Rio Tietê, a Biacica ainda guarda vestígios da ocupação portuguesa do início do século 17. Naquela época, o Tietê se chamava Anhembi, e o riacho Lajeado se chamava Imbiacica — de onde muito provavelmente veio o nome da fazenda. O primeiro registro histórico da Fazenda da Biacica cabe ao bandeirante Domingos de Góes, que em 1611 teria recebido as terras como sesmarias — os lotes que a coroa portuguesa cedia aos novos povoadores. Não se tem notícias do uso dessas terras por Góes, mas sabe-se que, dez anos depois, elas foram repassadas aos padres da ordem de Nossa Senhora do Carmo. Os carmelitas tornaram essas terras produtivas e desenvolveram lavouras cultivadas por índios. Construíram também uma capela de taipa, onde guardavam a imagem de Nossa Senhora da Estrela, que ganhou a denominação “de Biacica”. A palavra biacica vem do tupi imbeicica, ou “cipó resistente”, tais como os que se encontravam naqueles rios. Nas primeiras décadas do século 19 a fazenda deixou de ser produtiva e entrou em decadência. Nos anos 1930, a propriedade foi adquirida pelo advogado paulista Levén Vampré, que fez construir uma residência em estilo neocolonial incorpo-
rando a antiga capela como um ambiente de destaque. Entre 1944 e 1978, a chácara pertenceu à família Fontoura, que manteve o uso como moradia. Em 1994, ameaçada por loteamentos, crescimento urbano e ocupações do entorno, a Biacica foi tombada, o que não evitou depredações e furtos de elementos da casa-sede, incluindo remanescentes da
azulejos, produzidos pelo Liceu de Artes e Ofícios quando a casa neocolonial foi construída, que recriam momentos da chegada dos portugueses e da catequização dos índios, e o caminho repleto de jerivás, por onde passeiam tucanos, quatis e aves, parecem alheios ao ritmo da cidade.
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ESTRADA DA BIACICA, 756, JARDIM HELENA
SÃO PAULO COLONIAL
capela situada em seu interior. Hoje, todo o entorno vem sendo preparado para a construção do Parque Linear Várzeas do Tietê, projeto em andamento assinado pelo arquiteto Ruy Ohtake, e o conjunto tombado será restaurado. Da Biacica original, pouco restou, além das velhas paredes de taipa de pilão e a porta principal com a data de “1682”. Os painéis de
Centro de Arqueologia de São Paulo (Sítio Morrinhos)
Uma visita ao Centro de Arqueologia de São Paulo é mais que a chance de ver uma coleção preciosa de artefatos e documentos de séculos passados que passaram muito tempo soterrados. Descobrir o que existia sob essas camadas ganha um toque especial: o museu fica no Sítio Morrinhos, um conjunto arquitetônico sem igual situado em uma colina bucólica na zona norte da cidade. Na casa-sede, o registro do tempo: na porta principal ainda permanece a inscrição do ano em que foi erguida, 1702. Dessa época se reconhece a taipa de pilão e as características da arquitetura bandeirista. No mesmo terreno, no entanto, outras construções foram sendo feitas e anexadas desde a segunda metade do século 19 até o início do século 20. Algumas eram usadas
como senzala, abrigo para animais e oficinas. Exatos 200 anos após sua construção, o Sítio Morrinhos foi levado a leilão e arrematado pelo Mosteiro de São Bento, representado na ocasião pela Associação Pedagógica Paulista. Os beneditinos usavam a chácara nos finais de semana; dessa época resta a camarinha, pequeno quarto usado pelos monges para descanso. Em 1952, o mosteiro fez um acordo com a Camargo Correa S.A. para a realização do loteamento da região que deu origem ao bairro atual, o Jardim São Bento. A partir desse acordo, Sebastião Ferraz de Camargo passou a ser o proprietário do lote e, em 1952, doou o imóvel para a prefeitura. Seu restauro iniciou-se na década de 1980 e completou-se no ano 2000. RUA SANTO ANSELMO, 102, CASA VERDE
Outeiro da Penha
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Ao longo dos séculos a igreja Nossa Senhora da Penha passou por diversas reformas. Em 1982, uma das paredes, que já sofria com problemas de infiltração, veio abaixo em uma tempestade. A igreja seria demolida, mas os moradores conseguiram impedir que isso acontecesse. Em 2004, o Conpresp iniciou o processo de tombamento da Basílica e de outras construções do centro histórico da Penha. Outra importante herança desses tempos coloniais é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, conhecida também como “Igreja dos Escravos”, ou apenas “Igreja do Rosário”. Ela foi construída em taipa de pilão em 1802, com fundos arrecadados por meio de esmolas. No final do século 19 ganhou a torre e o frontão e, em 1920, um anexo. Em 1982, foi tombada pelo Condephaat. Desde 2001 ocorre no local a Festa do Rosário, reavivando antigas tradições da comunidade.
SÃO PAULO COLONIAL
No topo de uma colina em torno da qual se formou o bairro da Penha encontra-se uma igreja que guarda camadas de história. Em 1682, ano de sua construção, havia no local uma ermida de curral de gado que servia aos primeiros povoadores do distrito. O historiador Leonardo Arroyo (1918-1985) relembra que, naquela época, ali chegou para pernoitar um francês, católico, a caminho do Rio de Janeiro. Em sua bagagem, guardava uma imagem de Nossa Senhora talhada em madeira. Na noite seguinte, já distante, o viajante percebeu que algo faltava: a imagem, que ele vinha mantendo consigo ao longo do percurso desde sua terra natal. Voltou ao topo da colina, recuperou a santa no lugar onde havia dormido e prosseguiu. Entendeu aquilo como um aviso: ali deveria ser erguida uma capela em homenagem a Nossa Senhora. Assim foi feito.