Rubens – A aventura apaixonante do rei do barroco

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Rubens A aventura apaixonante do rei do barroco Noventa quadros para mergulhar no essencial da obra do mestre flamengo. Na exposição Rubens, no Museu do Prado até 23 de Janeiro, reencontramos os temas, as técnicas e a carne que marca o universo deste pintor imodesto. Grinaldas de frutas, flores e anjos. Corpos destemidos, vigorosos, lascivos. Biografias insípidas tratadas de modo épico. Há quem o considere erótico, sensual. Há quem pense que tudo nele é encenação e movimento. Por Anabela Mota Ribeiro, em Madrid Rubens, o imodesto: "Por causa da minha natureza, estou talhado para realizar grandes obras, mais do que pequenas curiosidades. Cada um de acordo com o seu dom. O meu talento nunca se intimidou diante de nenhuma empresa, seja qual for o tamanho e o tema." Imodesto? Ou Rubens, o artista lúcido, consciente do seu poder social e valor artístico? Uma grande obra: A Adoração dos Reis Magos. Pintada a pensar em pessoas que a veriam a partir de 30 metros de distância, e que mesmo assim perceberiam o espanto, a admiração, a beleza beatífica da Virgem; e pessoas que a veriam de perto, muito perto, que sentiriam a unha cravada na carne, a dilatação da pele, como se fosse a sua. Peter Paul Rubens (1577-1640) não pintou um quadro intitulado Noli me tangere, da autoria daquele a quem chamava mestre - Ticiano. Mas tudo nos seus quadros parece tangível, ao alcance dos sentidos. A técnica ajuda. Um misto de técnica dos Países Baixos e de Veneza - ou seja, a aplicação de camadas finas em cores transparentes, de modo a que as camadas inferiores fiquem sempre perceptivas; e a técnica veneziana do impasto, de pinceladas densas que cobriam as camadas inferiores. A Adoração começou por ser pintada em Antuérpia em 1609 e foi ampliada em 1629, quando a tela se encontrava em Madrid e Rubens visitava a corte espanhola. A composição dos dois quadros é diferente. Novos personagens, nova coreografia, intensificação do tom operático da cena. A Virgem deixou de ter as formas de deusas da Antiguidade e passou a assumir a imagem de uma mulher frágil, humana, íntima. Já não era uma madonna poderosa. Mais do que tudo: ele, Rubens, é um elemento desse cortejo. Muito há a dizer acerca desta abordagem de Rubens ao episódio da adoração. No caso do artista flamengo, o mais espanhol dos flamengos (e já se vai perceber porquê), pródigo na arte de copiar quadros dos maiores, desconstruir uma composição e a partir dela construir uma nova, incorporar elementos trazidos de viagens, pessoas e livros, dizer a mesma coisa recorrendo a um discurso e a uma encenação diferente era uma prática corrente.


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