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12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Setembro, 2009
Entrevista
Integração e desenvolvimento sustentável da Amazônia
JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO VII • N. 75 • Setembro, 2009
Projeto reproduz flores in vitro Alexandre Moraes Fotos Acervo NAEA
Felipe Cortez
BR - Quais são os desafios da universidade amazônica hoje? M.CG. – É muito importante que as universidades da Amazônia lutem por sua liberdade científica. Os pesquisadores
dvem ter liberdade para pesquisar e trabalhar com as suas ciências de base. O Naea, por exemplo, trata de desenvolver sínteses a partir das diferentes disciplinas científicas. Já se faz, portanto, uma síntese das ciências individuais. Eu diria que um segundo passo é transformar uma ciência monolítica em uma ciência integrada, por meio da interdisciplinaridade. E o terceiro passo é saber comunicar, para que a informação chegue aos agentes que tomam as decisões.
BR - Um estudo recente afirma que cerca de 20% do bioma mangue pré-existente na terra já foi devastado pela ação do homem. Contudo, de acordo com o mesmo trabalho, o ritmo dessa degradação tem diminuído, o que seria reflexo da conscientização dos governos sobre o valor desse ecossistema. O segundo Atlas Mundial do Mangue, cuja produção o senhor está coordenando, tem o intuito de potencializar essa conscientização? M.CG. – Sim. O ecossistema mangue é um Os trabalhos dos mais produtivos e importantes que desenvolvidos temos. Ele protege no Naea unem as nossas costas de fenômenos como a os países da erosão e o Tsunami. Nas costas que tiAmazônia nham mangue, por
exemplo, o impacto da onda foi menos sentido do que em costas sem mangue, onde o impacto foi devastador. Para que essa mensagem seja bem compreendida, junto com o Atlas, vamos produzir um Policy Brief, um pequeno livro com um resumo do Atlas e com recomendações, direcionado para quem toma as decisões. Sabemos que os políticos são ocupados, têm pouco tempo para ler artigos e livros científicos, então, é necessário dar-lhes a informação de maneira acessível para que tomem a melhor decisão. Para isso, eles precisam saber o que está acontecendo com o seu país e com o bioma mangue do mundo inteiro, precisam compreender o valor que tem para as pessoas que vivem dos seus recursos. Se passarmos essa mensagem, poderemos, talvez, reverter o atual quadro de deterioração do mangue.
podia salvar, como a Mata Atlântica, por exemplo. Sem os conhecimentos produzidos, ela iria desaparecer por completo. Em São Paulo, a Mata Atlântica é útil, não somente pela beleza da sua floresta, mas também porque, entre outras coisas, sob essa floresta flui um rio que leva cerca de 20 metros cúbicos de água por segundo para a cidade, regando o seu clima, que é o de uma ilha de calor. A perda dessa floresta, portanto, não se refere apenas à biodiversidade, mas também, à vida. Sem ela, uma cidade como São Paulo não vive, sendo esses aspectos que nos obrigam a reconhecer a importância dos conhecimentos gerados pelos estudos sobre desenvolvimento sustentável.
BR - Quais são as perspectivas de Cooperação Sul-Sul e como a UFPA participará dos programas da Unesco nos próxiBR - Do período mos anos? compreendido enM.CG. – A Universitre a Conferência dade tem a vantagem Mundial de Meio de possuir esta CáAmbiente e Desentedra de Cooperação volvimento, a coSul-Sul para o Desennhecida Rio 92, que volvimento Sustentágerou a Agenda 21, vel, coordenada pelo e o III Congresso professor Luis AraMundial de Resergón, dentro do Naea, vas de Biosfera da uma instituição acadêResultados Unesco, realizado mica confirmada. Váem 2008, ocorreram rios convênios estão dependem de mudanças na consendo preparados, já cepção de desenvolestá firmado um com vontade e de vimento sustentável a Indonésia e a Reestabilidade cunhada na década pública Democrática de 1970 pelo Dr. Igdo Congo, com interpolítica nacy Sachs? câmbio de capacitação M.CG. – Sachs já fez e de trabalhos científiuma síntese da situacos sobre modelos de ção atual, projetando-a para o fucooperação. Hoje, a Cooperação turo, e já disse o que teríamos que Sul-Sul tem a vantagem de ser infazer para alcançar isso. Então, o ternacionalmente reconhecida como caminho existe, assim como exisuma maneira de trabalhar conjuntem resultados. Mas muitos resultamente. Temos vários projetos em tados dependem de conjunturas, de vista para a Amazônia, como para vontade e de estabilidade política. todas as reservas de biosfera, o que Penso que o conhecimento gerado chamamos de cooperação intersob a égide do desenvolvimento regional. Também penso em uma sustentável avançou bastante. Em série de encontros no Congo, na algumas áreas, salvou-se o que se Indonésia, na Malásia e no Brasil.
Meio Ambiente
Esgotos transformados em jardins
Sistema alternativo de tratamento de esgoto sanitário incentiva cultivo de flores tropicais na Região Metropolitana de Belém. Pág. 4
Ecologia
No orquidário, as plantas recebem os cuidados adequados e são preparadas para voltarem ao seu ambiente natural
Inovação
Devoção
Pesquisa revela fragrâncias da Amazônia
Santos populares são cultuados à beira do túmulo
Faculdade de Química da UFPA avalia aproveitamento e aplicação dos óleos essenciais de estoraque e priprioca. Págs. 6 e 7
Etnofarmácia
Do Império Romano aos dias de hoje, o sacrifício e a morte violenta continuam sendo as marcas dos santos po-
pulares. Em Belém, Severa Romana, morta em 1900, permanece como a santa popular mais cultuada. Pág. 9
Tartarugas ameaçadas no Rio Xingu
Pág. 10
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Entrevista Miguel ClüsenerGodt, que recebeu o título Doutor Honoris Causa, discute os desafios das universidades do Trópico Úmido. Pág. 12
Mácio Ferreira
Beira do Rio - Como o senhor avalia o desempenho da UFPA na cooperação internacional, uma vez que o senhor é homenageado justamente pela sua atuação no fortalecimento dessa cooperação, no nível Sul-Sul? Miguel Clüsener-Godt – Foi realmente uma honra e um prazer receber este título de Doutor Honoris Causa porque a UFPA não dá muitos desses títulos. A UFPA tem sido um centro de excelência, não somente por divulgar os trabalhos realizados na Amazônia, mas também por capacitar pessoas em todos os níveis e preparar a região para o futuro. Sabemos que os problemas da Amazônia são muito importantes para o mundo: o desflorestamento, a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, as mudanças dos ciclos hídricos. Isso tem uma importância global. Os trabalhos que são desenvolvidos na Universidade e no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) unem os países da Amazônia em seus esforços comuns.
Clüsener-Godt: "Universidades devem lutar pela sua liberdade científica"
SUS reconhece uso de plantas medicinais Pág. 5
Coluna do Reitor Carlos Maneschy fala sobre o avanço das atividades de pósgraduação. Pág. 2
Soure
Proint garante educação inclusiva
Pág. 11
Opinião Túmulo de Severa Romana recebe homenagens no cemitério Santa Izabel
Eduardo Bittar e Jane Beltrão falam sobre Direitos Humanos e Democracia. Pág. 2
Acervo NAEA
Para Miguel Clüsener-Godt, comunicação da ciência é desafio das universidades do Trópico Úmido Em julho, a Universidade Federal do Pará concedeu o seu vigésimo título de Doutor Honoris Causa ao biólogo alemão Miguel Clüsener-Godt, por sua atuação em prol de um melhor entendimento entre os povos, por meio da Cooperação Sul-Sul; da melhoria da gestão ambiental, pela implementação de Reservas da Biosfera nos Trópicos Úmidos; e do fortalecimento do conhecimento, da integração e do desenvolvimento sustentável da Pan-Amazônia. Durante os últimos 17 anos, o trabalho de Clüsener-Godt à frente da coordenação do Programa de Cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento socioeconômico ambientalmente adequado nos Trópicos Úmidos, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), possibilitou o envolvimento e o fortalecimento da cooperação da UFPA com instituições da África, Ásia, América Latina e, em especial, da Pan-Amazônia. O trabalho teve sua relevância reconhecida pela agência das Nações Unidas, que, em 2006, estabeleceu na UFPA a Cátedra Unesco de Cooperação Sul-Sul para o Desenvolvimento Sustentável. Nesta entrevista ao Beira do Rio, o biólogo afirma a necessidade de integração entre os vários campos do conhecimento e as instâncias políticas para a construção de um desenvolvimento sustentável em todo o Trópico Úmido.
F
amosas por suas cores e perfume, as orquídeas estão desaparecendo das ruas de Belém. Normalmente encontradas no alto das árvores, elas são vítimas da coleta indiscriminada e da devastação do seu habitat natural. Para reverter esse quadro, o professor Marco Antônio Menezes Neto, da Faculdade de Biologia da UFPA, vem trabalhando com a reprodução in vitro. Em laboratório, é possível germinar e multiplicar as espécies. O objetivo do projeto é devolver as flores ao meio ambiente, plantando as mudas em áreas de visitação pública. Pág. 3