issn 1982-5994
12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Abril, 2008
Entrevista
Quem não se comunica corretamente se trumbica mesmo
JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO V • No 60 • ABRIL, 2008
Memória preservada em casa mari chiba
A importância da expressão verbal correta nas relações profissionais e a relação entre Jornalismo e Letras são assuntos que o jornalista e pesquisador, ex-professor do curso de Comunicação da UFPA, Oswaldo Coimbra, aborda nesta entrevista. Autor de seis livros de pesquisa jornalística e de uma obra sobre a produção de textos de reportagem, Oswaldo Coimbra trabalhou na Editora Abril e nos jornais “O Estado de São Paulo” e “Folha de São Paulo”. Como professor de Expressão Verbal, lecionou em cursos universitários de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e do Pará. Beira do Rio - Numa época de valorização das linguagens visuais, que importância ainda mantém o estudo da Expressão Verbal? Oswaldo Coimbra - Numa época de proliferação dos códigos audiovisuais, a linguagem verbal não só permanece como a mais adotada pelas pessoas, como ainda se mostra capaz de reaparecer por meio das formas mais avançadas de veiculação de mensagens criadas pela tecnologia, como o cinema, a televisão, a internet. BDR - Como ela consegue isto, na sua opinião? Oswaldo Coimbra - A compreensão trazida pela Lingüística, campo dos estudos do código verbal, de que o signo, através do qual ocorre a mais freqüente forma de comunicação entre os seres humanos, aquela que emprega as palavras, é composto de uma imagem mental - o significado associado convencionalmente a um conceito sonoro - o significante - abriu um campo imenso de convergência entre as diversas formas de linguagens e fez surgir a possibilidade de transferência de uma mensagem criada num código para outro código. Hoje, ninguém se surpreende quando uma pessoa diz que vai fazer uma “leitura” ou uma “releitura” de uma obra cinematográfica ou televisiva, dando a entender que as mensagens recebidas por vias eletrônicas podem e devem ser “traduzidas” para a linguagem verbal escrita ou oral. BDR - Qual a importância disto para quem é obrigado a escrever diariamente, como os jornalistas? Oswaldo Coimbra - Se para alguém que apenas tenha uma necessidade íntima de entender melhor a maneira como
uma pessoa se comunica com seus semelhantes, a compreensão da linguagem verbal é essencial, para um profissional da comunicação, como o jornalista, essa espécie de códigomater deveria se constituir numa área de estudos demorados e permanentes. Portanto, não apenas é desconcertante, como até odiosa para quem tenha um maior compromisso com a formação intelectual dos alunos de Jornalismo a quase inexistência, atualmente, de convívio interdisciplinar entre Jornalismo e Letras.
BDR - Concretamente, como este afastamento das duas áreas, prejudica os alunos de Jornalismo, segundo o senhor? Oswaldo Coimbra - O prejuízo mais grave causado na educação dos alunos pelo distanciamento existente entre uma área de produção de texto, como a de Jornalismo, na qual eles estão imersos, e aquela onde se realizam os mais profundos estudos sobre texto, a de Letras, corresponde à desvinculação da prática de escrever da pesquisa do processo de criação textual - um processo que envolve o desenvolvimento não só de habilidades em lidar com as palavras, como o da capacidade de captar, por meio da percepção, diferentes dados de uma determinada realidade e ainda a de relacioná-los, uns aos outros, através da reflexão. Os cursos de Redação Jornalística, em geral, são pouco eficientes exatamente porque seus ministrantes compreendem a produção textual “As mensagens unicamente como domínio das receitas de eletrônicas confecção de texto criadas pela prática jordevem ser nalística. Estes cursos, ‘traduzidas’ embora muitas vezes para a via oral” instalados fisicamente em locais muito próxi-
Oswaldo Coimbra: “A compreensão da linguagem verbal é essencial” mos dos cursos de Letras, estão muito distanciados dos estudos mais profundos do complexo processo, através do qual um ser humano percebe algo, relaciona sua percepção com outros dados que tenha em sua mente e, por fim, verbaliza isto, criando seu texto oral ou escrito.
tural Humana, através do qual uma pessoa, em qualquer latitude, em sua comunicação interpessoal, tenta contar uma história, defende um ponto de vista ou descreve algo.
BDR - Poderia explicar melhor esta sua última observação? Oswaldo Coimbra - Como os BDR - Que conseqüências isto alunos não aprendem os segredos têm? da narratividade, desvendados pela Oswaldo Coimbra - As barreiras Teoria da Narrativa, deixam de estuque separam as duas áreas: 1º) dar conteúdos essenciais para quem impedem, por exemplo, que os esdeseje se tornar um bom contador de tudantes de Jornalismo, obrigados histórias, capaz de merecer a atenção a enfrentar as dificuldades de se de seus ouvintes e leitores. Como exprimirem com precisão e estilo não se exercitam no uso do discurso nos seus textos escritos e em suas argumentativo, ficam proibidos de exposições orais, adquiram melhor compreender que os dados coletados entendimento do mecanismo, estupara a elaboração de uma reportagem dado pelos lingüistas, podem ser ordenados pelo qual eles criam de um modo que, sem seus próprios vocaa perda do rigor e da bulários; 2º) negam a honestidade intelectueles a possibilidade de al, seu autor pode se lidesenvolver uma consbertar da obrigação de ciência de diversidade criar um texto opaco, lingüística, de modo descolorido, sem força, que pudessem reaprocomo o de um escrivão veitar, sem preconceique apenas quer registos, em suas matérias trar algo, podendo fade perfis, o linguajar zer da oportunidade de típico de um segmento confecção de seu texto, social, por mais disum momento próprio tante que ele estivesse para assumir claramendas chamadas normas te uma posição comcultas da linguagem, bativa, socialmente “Estudantes quando tal linguajar útil e relevante diante enfrentam for caracterizador das de algum problema características sócioesocial, para o qual, a dificuldades de conômicas e culturais opinião pública precise de um indivíduo; 3º) ser alertada. Como não se exprimirem dificultam a percepse aprofundam nas nocom precisão” ção da composição da ções de descritividade, linguagem jornalística, perdem a chance de resultante da fusão de encontrar um método três tipos de linguagens - a analógica eficaz de observação de uma pessoa das fotos e ilustrações, a gráfica da sobre quem tenham, por exemplo, diagramação e a verbal, por sua vez, de escrever um texto de perfil e de composta tanto de regras da norma transposição dela do mundo real culta da linguagem como de elemenpara o universo do texto. Narrar tos da chamada linguagem informal; uma história, sustentar um ponto 4º) preserva nas escolas de Jornade vista, descrever algo ou alguém lismo a ilusão de que suas formas são atos naturais e inevitáveis da de construção de texto fogem das comunicação verbal humana e estão estruturas universais da comunicação permanentemente presentes em toda verbal humana, isto é, a suposição de atividade jornalística. O jornalista é que “leads”, “pirâmides invertidas”, uma espécie de grande conversador, por exemplo, representam algo exque faz uso, no seu trabalho, das clusivo seu, distinto dos moldes tramesmas possibilidades que a lindicionais de construção de discursos guagem verbal oferece a qualquer verbais criados pela História da Culde seus usuários.
Construída na metade do século XVIII, a Casa Rosada foi residência do capitão-engenheiro Mateus José Simões de Carvalho
mari chiba
Pesquisa e extensão
Meio Ambiente
Ciência e tradição em Jararaca
Engenharia Naval da UFPA desenvolve barco ecológico
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O projeto “Eco Barcos para a educação ambiental”, que está sendo desenvolvido pelo curso de Engenharia Naval, é
a mais recente contribuição da Universidade Federal do Pará para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Pág. 8
Professora Eunice Ferreira
mari chiba
Coluna do Reitor
Preconceito
Mulheres excluídas da literatura
O reitor Alex Fiúza de Mello fala sobre reforma administrativa na UFPA. Pág. 2
Opinião A professora Célia Brito escreve sobre a necessidade do português culto. Pág. 2
Entrevista
mari chiba
Raimundo Sena
fotos mari chiba
A linguagem verbal ainda permanece como a mídia mais adotada pelas pessoas
Escavações encontram fragmentos de cultura material indígena anterior ao contato português, na Casa Rosada, um sobrado colonial com mais de 250 anos, que será transformado em sede de um centro cultural para preservação da memória da Cidade Velha. O sobrado, que pertenceu a Mateus José Simões de Carvalho - um capitão-engenheiro que participou, em 1795, de uma junta extraordinária de defesa do Grão-Pará contra uma possível invasão francesa -, finalmente será restaurado, graças a uma parceria públicoprivada, entre a Universidade Federal do Pará e a Companhia Alubar. Págs. 6 e 7
Oswaldo Coimbra comenta a importância da expressão verbal correta nas relações profissionais e a relação entre Jornalismo e Letras. Pág. 12
O novo auditório da Universidade terá capacidade para mil pessoas
Telemedicina
Crescimento
Obras deixam Cidade Universitária mais bonita O ano letivo inicia com muitas mudanças na Cidade Universitária Professor José da Silveira Netto,
Escritoras encontram barreiras para serem incluídas na literatura paraense, aponta pesquisa coordenada pela professora Eunice Ferreira. Pág. 3
que já ganhou novas passarelas e calçadas e em breve terá novos prédios. Pág. 5
Rede de medicina virtual no Pará Pág. 11