issn 1982-5994
12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Junho/Julho, 2008
Entrevista
Professores e alunos com necessidades especiais enfrentam novos desafios
mácio ferreira
Coordenadora do Núcleo de Educação Especial do Curso de Pedagogia da UFPA, do campus de Marabá, a professora Hildete Pereira dos Anjos fala sobre o projeto de pesquisa “A experiência de inclusão dos alunos com necessidades especiais nas escolas públicas de Marabá (PA): primeiras avaliações”, que tem como objetivo analisar o discurso dos professores de atendimento especializado acerca da experiência da inclusão escolar dos alunos com necessidades educacionais especiais. Logo de início, ela esclarece que não se usa a expressão “portadores”, argumentando que a pessoa não é portadora de uma deficiência, “mas que sua condição faz parte de sua existência e da elaboração de sua identidade”. Por isso, ela utiliza o termo “necessidades educacionais especiais” para se referir às modificações e adaptações necessárias “nos espaços e fazeres educacionais” e utiliza “pessoa com deficiência”, afirmando que “a deficiência, culturalmente forjada, repercute sobre o bem-estar e o desenvolvimento saudável dessa pessoa”.
produzida, de fato, banaliza o tema e limita o enfrentamento dos processos de produção da deficiência. Posso ser uma deficiente tátil, mas essa limitação encontra muito menos obstáculos do que uma deficiência visual ou auditiva. Agora, por outro lado, reconhecer limitações em si mesmo pode ajudar a compreender o quanto organizamos nosso mundo e nossas atitudes com base em um modelo idealizado do ser humano. Isso ajuda em uma nova compreensão da deficiência.
Beira do Rio - Quais os pontos citacondições, para as novas aprendizados com freqüencia pelos professogens que elas proporcionam. Normalres a respeito dessa questão? mente, as reações de questionamento Hildete Pereira dos Anjos - Os prodos professores à forma como se tem fessores entrevistados oscilam, em feito a inclusão são lidas como um suas falas, entre a passividade, a insecomportamento preconceituoso e gurança e o enfrentamento dos conflireacionário; não é assim que nós as tos gerados pelo processo inclusivo. A interpretamos, e sim, como um compassividade baseia-se, geralmente, em portamento saudável, que coloca em uma crença de que essa clientela ainda cheque as condições em que as escolas pertence a um outro “ramo” da edutêm funcionado e não admite que se cação, a educação especial (historicafaça de conta que está havendo inclumente constituída como uma educação são apenas pela inserção dos alunos à parte), e, ainda que esteja inserida com deficiência na escola. A escola na escola, ainda é responsabilidade será tanto mais inclusiva, quanto mais do pessoal de atendimento especiaquestionadora for, porque permitirá lizado (considerado herdeiro daquela melhores condições de se forjar um tradição). A insegurança é compreencidadão crítico e participativo. Essa é sível, porque a presença desse novo uma necessidade muito especial neste sujeito no cotidiano da escola exige momento histórico. tanto um novo conhecimento técnico (Braile, Libras - Língua Brasileira de BR - A naturalização da deficiência Sinais - e uso de máquinas e softwaé de fato benéfica? Não há o risco de res) quanto uma reestruturação dos banalização do tema? modos tradicionais de fazer educação. Hildete - A naturalização da E os tempos da escola, ainda muito temática (que pode ser expressa na semelhantes aos da fábrica, não têm frase “somos todos deficientes”) sido modificados para não é nem um pouco que o professor tenha benéfica quando imcondições de investir na plica em desconsiderar própria formação. Alem a função da cultura na disso, o processo forprodução da deficiênmativo para a inclusão cia. Em cada cultura, é feito como acréscimo certas limitações são aos demais processos e interpretadas cultunão de forma transverralmente e elaboradas sal. Assim, há formação como deficiências, enpara a educação infantil, quanto que outras são alfabetização, para as traduzidas como qualidisciplinas específicas dades. Não precisar de “A presença desse e também para a incluninguém, por exemplo, são, mas a discussão pode ser tido, na culnovo sujeito no da inclusão ainda não capitalista como cotidiano da escola tura perpassa as demais foruma qualidade, sinal exige um novo mações. Apesar disso, de amadurecimento. percebe-se, em muitas Assim, naturalizar a conhecimento” falas, a disposição para deficiência, retirando-a o enfrentamento dessas do contexto em que é
BR - Qual o sentimento descrito pelos professores entrevistados diante do aluno portador de necessidade especial? A faculdade prepara o profissional para esse tipo de situação? Hildete - Há tanto o sentimento de impotência, o medo de cometer erros graves, o pânico diante da situação nova, quanto o desejo de aprendizagem e o encantamento diante desses seres que, há bem pouco tempo, estavam escondidos das vistas da maioria. Claro que boa parte desse encantamento tem a ver com uma baixa expectativa prévia, herdada de nossa cultura. Parece fascinante ver que pesBR – Como devem soas cegas ou surdas, agir os profissionais na aprendem, participam, sala de aula? discutem, enfim, atuHildete - Naturalam como qualquer “A discussão da mente. É para isso que pessoa.O medo tem eles estão lá. O que a inclusão ainda relação com o sentipessoa com deficiênmento de despreparo. cia busca na escola é não perpassa Existe muito a queixa educação, como todo de que a universidade mundo. A maneira como as demais não os preparou para as escolas têm feito isso formações” essa situação. Mal sacria obstáculos à aprenbem eles que a univerdizagem de quem não sidade sequer preparou ouve, não vê (ou ouve a si mesma. Eu tenho e/ou vê mal), não pode alguns questionamentos à noção de se expressar oralmente, não pode se preparação como uma tarefa teórica, deslocar com agilidade. O trabalho do desagarrada das situações reais. Hoje, atendimento especializado é reduzir colocados diante da reivindicação desesses obstáculos, atuando não apenas sas pessoas de participar da educação, junto à criança deficiente, mas também em todos os seus níveis, nós tentamos ao professor e aos demais alunos. nos incluir na tarefa de modificação Considera-se aqui que o professor do modo como sempre atuamos. Tentambém aprende, e não apenas os alutamos perceber nele fatores que pronos; aprende com a presença do aluno duzem mais exclusão e enfrentar esses deficiente na medida em que se junta fatores. Mas não vejo como faríamos ao pessoal especializado (que também isso sem a presença concreta, entre são professores, na maior parte dos nós, das pessoas cegas e com baixa casos) para criar melhores condições visão, dos cadeirantes, dos surdos, nos de aprendizagem.
orientando e nos questionando, além de serem orientadas e questionadas por nós. BR – O que os professores declaram ser da competência deles no que diz respeito à inclusão do aluno portador de necessidades especiais? Hildete - A questão das competências é ainda bastante polêmica porque, como disse anteriormente, há toda uma herança cultural que remete à deficiência a um gueto, o do atendimento especializado. Assim, dá um certo conforto pensar que há um profissional que não tem as mesmas dúvidas e medos que nós, que lida há mais tempo com essa clientela. Por isso, boa parte das tarefas da inclusão ainda é remetida ao atendimento especializado, às vezes até tarefas cotidianas, como a discussão da disciplina (quando o indisciplinado é o aluno com deficiência). Pela mesma razão, não se espera que esse profissional possa ter uma participação nas tarefas que tradicionalmente têm sido dos demais profissionais da escola regular (nas discussões gerais do projeto pedagógico da escola, por exemplo).
Segurança Alimentar
Pesquisa avalia restaurantes self service Unidades localizadas no centro de Belém são analisadas em monografia da Faculdade de Engenharia de Alimentos. Pág. 11
Infidelidade
Políticos migram pela reeleição
Pág. 9
Demarcação das terras indígenas ainda é o principal desafio
Religiosidade
Cidadania
Carismáticos são tema de livro
O psicólogo Mauricio Rodrigues de Souza analisa os mistérios da Renovação Carismática Católica (RCC) em Belém. Pág. 3
Avaliação
Deavi quer sensibilizar comunidade
Pág. 4
Coluna do Reitor
Programa Multicampi Social é lançado em Breves O Programa capacita e assessora atores sociais, com a participação de estudantes e professores dos campi
da UFPA, para a execução de políticas públicas de assistência social, educação e saúde. Pág 5
Alex Fiúza de Mello escreve sobre a internacionalização da UFPA. Pág. 2
Opinião Heliana Baía Evelin trata do envelhecimento em uma sociedade preconceituosa. Pág. 2
Entrevista A professora Hildete Pereira dos Anjos avalia a inclusão de alunos com necessidades especiais em Marabá. Pág. 12 Estudantes de Medicina orientam sobre doenças contagiosas
mácio ferreira
Hildete dos Anjos: “A escola será tanto mais inclusiva, quanto mais questionadora for”
Nas duas últimas décadas, a questão das terras indígenas continua gerando discussões, mas agora associada à questão ambiental, aos recursos hídricos e às mudanças climáticas. Vinte anos após a promulgação da Constituição-cidadã, o jornal Beira do Rio ouviu a professora e pesquisadora Eneida Assis, diretora adjunta da Faculdade de Ciências Sociais, sobre os avanços introduzidos pela Carta Magna de 1988, em relação aos povos indígenas. Págs. 6 e 7
mácio ferreira
Tamiles Costa
Índios ainda lutam por direitos fotos mácio ferreira
Realizada no Campus de Marabá, pesquisa mostra a interação nas salas de aula de escolas comuns
JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO VI • No 62 • JUNHO/JULHO, 2008