Beira 63

Page 1

issn 1982-5994

12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Agosto, 2008

Entrevista

“Temos de ter maturidade para acatar a decisão do Consun” O processo de escolha do próximo reitor da Universidade Federal do Pará começou com a publicação dos editais para a eleição. Apesar da Câmara de Legislação e Normas ter decidido pela chamada Lei dos 70%, caberá ao Conselho Universitário definir as regras que vão valer para o pleito. Nesta entrevista ao BEIRA DO RIO, o Prof. Dr. Alex Fiúza de Mello, atual reitor da instituição, explica que o melhor para a Universidade é seguir o que determina a lei, para evitar possíveis contestações judiciais, como no caso da UEPA e da UFRGS. O reitor esclarece a sua posição contrária ao voto universal, pois entende que a democracia na Universidade é de outro tipo e que cabe aos professores a maior responsabilidade nas decisões sobre os caminhos que a instituição deve seguir. Alex Fiúza de Mello fala ainda sobre as vantagens e desvantagens da eleição acontecer em dezembro ou abril, deixa claro que não vai usar a máquina da Universidade em favor de ninguém e que vai defender o nome do eleito junto ao Ministério da Educação, independente de quem seja. BEIRA DO RIO - A UFPA deu “casuísmo” é burla de lei, de regra, e início ao processo eleitoral com a a lei estabelece os 70%. Espero que publicação dos editais para a eleitenhamos maturidade para acatar a ção do próximo reitor. Qual a sua decisão do Conselho Universitário expectativa para esse processo? e os candidatos se submetam às reAlex Fiúza de Mello - O Regimento gras que vão ser definidas. É muito Eleitoral foi apresentado pela Câmara importante para uma Universidade, de Legislação e Normas e deve ser durante a sucessão de um reitor, que executado conforme a Lei 9192, de se discutam idéias, projetos e planos 1995, que determina o peso do voto de trabalho. A Universidade tem dos professores em 70%. O Conselho de ser exemplo de comportamento Universitário pode alterar esse critécivilizado, de disputa de idéias, de rio se assim o desejar. No entanto, há liberdade de expressão e de respeito problemas em diversas universidades mútuo entre os atores políticos. que fizeram isto. Se houver uma contestação judicial, o processo eleitoral BR - Em 1997, houve um tumulto pode ser anulado. Temos como exemna eleição por causa da Lei dos plo o caso da UEPA e, recentemente, 70%, inclusive com intervenção da o da Federal do Rio Grande do Sul, Polícia Federal... que tiveram probleA.F.M.: Em 2001, tammas com o regimento bém prevaleceu a Lei eleitoral e os casos esdos 70% e alguns dos tão na Justiça. Isso é atuais candidatos eram muito desgastante para membros do Conselho uma instituição. Muitas Universitário que apropessoas dizem: “mas a vou a regra de dispusua eleição passada foi ta naquela ocasião. A pelo voto paritário. Isso eleição foi tranquila, não é casuísmo?”. E eu em termos, até que o respondo: não! Primeisegundo colocado enro porque eu tinha me trou na Justiça querenretirado de licença do do anular a eleição, o “Quando fui Consun quando foram que não aconteceu porvotadas as regras do que tudo estava dentro eleito pela jogo - não era ético da lei. Em 2005, apesar eu, como candidato, do voto ser paritário, primeira vez, coordenar o Consun. ninguém foi à Justiça, me submeti à E eu me submeti às isso porque, enquanto regras definidas pelo em 2001, a diferença regra dos 70%, Conselho, sem a minha entre os candidatos presença ou influência. ocasião em que foi de apenas 0,27%, Em 2001, quando fui 2005 foi enorme, eu não era nem em eleito pela primeira vez, não dando margem a me submeti à regra dos contestações. Nesse membro do 70%, quando ainda não ambiente de tensão, o Consun.” era membro do Consemelhor é seguir a lei lho. Em segundo lugar, para que o processo

Localizado no centro da cidade e construído em 1903 para ser a residência do governador Augusto Montenegro, o Museu da UFPA tem arquitetura eclética e um rico acervo de fotografias, livros, cartuns e cartazes. Abriga

ainda milhares de itens do Acervo Vicente Salles, além de estar resgatando a memória da Universidade. Falta apenas ser mais utilizado pela comunidade acadêmica em suas atividades de ensino e pesquisa. Págs. 6 e 7 mácio ferreira

Alex Fiúza de Mello: “‘Casuísmo’ é burla de lei e a lei estabelece os 70%” possa ir até o fim, sem maiores atropelos. BR - Caso a eleição deste ano ocorra em dezembro, haverá seis meses até a posse do próximo reitor. Qual a vantagem desse interstício? A.F.M.: Há vantagens e desvantagens de a eleição ser em dezembro ou em abril. Se for em abril, os candidatos terão mais tempo para fazer campanha e se fazerem conhecer, porém a nomeação vai sair apertada entre maio e junho. Mal vai dar tempo para o novo reitor assumir e montar seu plano de trabalho, conhecer a situação da Universidade. Se for em dezembro deste ano, poderia ser uma desvantagem o pouco tempo até a eleição, mas se para governador e prefeito o tempo é de três meses entre a inscrição e a eleição, então, o mesmo pode valer para a eleição para reitor. A vantagem é que o candidato que vencer saberá, antecipadamente, que será nomeado, terá seis meses para montar sua equipe e colocá-la para estagiar com a atual, para conhecer melhor a situação da UFPA. Quando assumir em julho, vai estar com a equipe madura, discutindo o plano de trabalho e a Universidade não perde tempo. Do ponto de vista da instituição, é positivo que haja esse maior tempo para a transição e que isso se torne normal em nossa cultura interna.

professores. São eles que executam as atividades de ensino e pesquisa e respondem perante à lei. A Universidade é uma república de professores, é uma instituição de ensino. O aluno não pode, por ser maioria, achar que pode definir a política de ciência e tecnologia da Universidade, porque ele não sabe ainda nem fazer pesquisa. Não se pode usar esse argumento para defender que o voto universal é mais democrático, porque a democracia na Universidade é de um outro tipo: é a liberdade de expressão, é a reunião de pares para discutir projetos, é o respeito recíproco, é o professor ensinar ao aluno tudo o que ele sabe para que o aluno seja melhor do que ele amanhã, mas não é deixar que o aluno assuma o lugar dele. Os partidos estão aí e não há problema nisso, pois a Universidade faz parte da sociedade. O que ela não pode é se transformar em partido ou se deixar conduzir por essas agremiações. Quem defende o voto universal, na verdade, defende apenas uma estratégia para chegar ao poder dentro da Universidade. Essa é uma posição minha que vou defender junto ao Conselho Universitário, mas a decisão final será do Conselho.

BR - Já há três nomes apontados como certos na disputa: Carlos Maneschy, Ana Tancredi e Luís Carlos Silveira. O senhor pretende apoiar um BR - Por mais que desses possíveis cana disputa seja pela didatos? reitoria da UniverA.F.M.: O reitor não sidade, há partidos será neutro no procespolíticos infiltrados so. Eu vou apoiar sim, no processo. Aí volta mas meu apoio será “Vou defender a questão da defecondicionado à minha sa do voto universal. função de coordenador junto ao Não haverá risco de do processo eleitoral. tumulto do processo Eu não vou usar a máMinistro da como em 1997? quina da universidade Educação A.F.M.: A universidapara beneficiar A, B de não é a sociedade. ou C. Vou manifestar o candidato Professor não é classe minha preferência e as vencedor da dominante; não exisrazões da minha prefete “divisão de classe” rência, o que não quer consulta, entre professor, aluno, dizer que serei contra funcionário. Classe os outros candidatos. independente social é outra coisa. Tenho a obrigação de de quem seja.” Dizer que o professor garantir a todos os coné classe dominante, correntes que o procesporque os alunos são so será limpo e que o maioria, é uma tese vencedor vai encabeçar completamente equivocada. Na a lista tríplice. E vou defender junto universidade há hierarquias. Quem ao Ministro da Educação o candidato tem responsabilidade para com a vencedor da consulta à comunidade, administração acadêmica são os independente de quem seja.

Sequestro de Carbono

Estudo alerta para o viés comercial

Para pesquisador, o sequestro de carbono pode vir a aprofundar as diferenças entre ricos e pobres no Brasil. Pág. 9

Radiossondagem

Universidade integra o Mini-Barca

Estudantes participaram do projeto que visa conhecer melhor o ciclo hidrológico da região. Pág. 5

O MUFPA vem passando por uma série de reformas para resgatar sua riqueza arquitetônica e facilitar o acesso de todos

mácio ferreira

mácio ferreira

Aflatoxina

Pesquisadores monitoram contaminação no amendoim Estudo realizado por dois pesquisadores da UFPA utilizou grãos de amendoim cru e torrados, além de

seus derivados como a paçoca, o amendoim japonês e o confeitado com chocolate. Pág. 3 mácio ferreira

Casca da uva é rica em flavonóides

Balões foram usados na ação

Pesquisa Marajó

Doenças do coração são prioridade

Projeto do IFCH valoriza saber local

Pág. 11 No total, 22 amostras foram coletadas e analisadas durante oito meses

Estudos antes concentrados em doenças infecto-parasitárias agora se voltam para as doenças degenerativas. Pág. 4

Luz na Amazônia

Progama leva saúde a ribeirinhos

Pág. 8

Opinião Scarleth O’hara analisa, no artigo “Multiculturalismo e Propaganda”, o mito da democracia racial na Publicidade brasileira. Pág. 2

Eleições na UFPA O reitor da UFPA, Alex Fiúza de Mello, fala, em entrevista e artigo, sobre o processo eleitoral da Universidade. Págs. 2 e 12

tarso sarraf

Adaucto Couto

Muito mais que um Museu

fotos tarso sarraf

Reitor explica que os docentes são os que têm maior responsabilidade na administração acadêmica

JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO VI • No 63 • AGOSTO, 2008


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.
Beira 63 by Jornal Beira do Rio - Issuu