Beira 89

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12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Dezembro, 2010

Fotos Alexandre Moraes

Inclusão social 25 Anos JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO XXV • N. 89 • Dezembro, 2010

Educação

Arqueologia sem glamour e exotismo

Alexandre Moraes

Látex é alternativa de renda O livro Abordando o Passado, do professor Mauro Barreto, desmistifica o processo de pesquisa arqueológica. Pág. 5

Ana Carolina Pimenta

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matriz energética brasileira se apoia bastante na hidroeletricidade, o que ocasiona represamento de rios de norte a sul do País. As mais de duas mil barragens construídas geram energia e, também, muita polêmica. Dados revelam que as enormes extensões de terras inundadas com as represas foram responsáveis pelo deslocamento de mais de um milhão de pessoas e pela destruição da fauna e flora daquelas áreas. Preocupados com os impactos socioambientais que afetam a sobrevivência de populações indígenas e comunidades tradicionais, as barragens passaram a compor os estudos de cientistas sociais, ampliando o debate que antes era exclusividade de engenheiros e economistas. Este mês, a Universidade Federal do Pará (UFPA) sediou o III Encontro Latino-Americano de Ciências Sociais e Barragens. O evento promoveu o diálogo entre pesquisadores, ativistas e responsáveis governamentais pelo planejamento do setor elétrico. Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, a coordenadora do Encontro, Edna Castro, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA), fala sobre os desafios que se colocam para o Brasil e, em especial, para a Amazônia, frente aos grandes projetos hidrelétricos. Beira do Rio – Que motivações os levaram a criar o espaço de debate com a organização do III Encontro Latino-Americano de Ciências Sociais e Barragens? Edna Castro – Os temas abordados no III Encontro Latino-Americano Ciências Sociais e Barragens foram selecionados em função das questões sobre ciência e tecnologia que emergem neste momento em que se retoma, com bastante envergadura, a construção de grandes obras no Brasil. Sempre as grandes empreitadas de engenharia, a exemplo de transposições de rios, construções de diques e hidrelétricas, mobilizam interesses de segmento diversos da sociedade e da economia. No caso do evento, foram discutidos projetos que envolvem cursos d'água. Energia e água, por si, constituem objeto de discussão em esferas da ação política internacional da alta magnitude e importância.

São temas presentes e prioritários nas Cúpulas de Estados e parte essencial na Agenda da ONU, seja na perspectiva da economia, seja na perspectiva dos direitos humanos. Beira do Rio – Como as universidades podem contribuir para ampliar o debate sobre a construção de grandes hidrelétricas e para elucidar polêmicas que atravessam o tema? Edna Castro – Entendemos que uma sociedade em processo de transformação, como o Brasil e a Amazônia, em particular, tem a responsabilidade de estar informada para tomar posições de escolha sobre os projetos, estatais ou não, que irão mudar suas vidas. E as universidades têm papel fundamental na geração desse conhecimento. Significa tornar a sociedade mais bem informada para o exercício da democracia, para fazer suas escolhas. Mais que a qualidade da informação, trata-se, aqui, de conhecimento, de poder captar as diferentes injunções ou propostas em jogo para que seja possível tomar posições mais responsáveis do ponto de vista dos direitos de todos. Por isso o NAEA (UFPA) e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) assumiram a responsabilidade de ampliar esse debate, de explicitar as diferentes posições em jogo nos processos de construção de grandes obras, pois esse tema é objeto de contestação e organização de movimento de atingidos por toda a América Latina. Beira do Rio – Como se dá o surgimento de movimentos organizados resistentes à construção de barragens? Edna Castro – O processo de construção de barragem altera a vida das pessoas, a forma de organização do espaço e a atividade produtiva, gerando conflitos de várias ordens, sobretudo entre grupos sociais localizados nessas áreas. A categoria "atingidos por barragens" surge e se constrói como categoria social no processo de luta de grupos em diferentes regiões do Brasil e em outros países. Aparece como um processo para além do nacional e, muitas vezes, transnacional, no sentido de unificar grupos diferentes pelos impactos sofridos no deslocamento compulsório de seus territórios. Isso aconteceu no Canadá, na Índia, na China, como em muitos países latino-americanos. As mobilizações

dos atingidos por barragens têm essa relação com processos muito comuns e, por isso, confrontam-se com lógicas dominantes no mercado. Beira do Rio – A luta contra a construção de Belo Monte já dura mais de 20 anos e se constitui num caso bastante peculiar. Como se explica a trajetória de resistência dos povos do Xingu? Edna Castro – A proposta de hidrelétricas para o rio Xingu tem uma trajetória de resistência por parte de grupos sociais e étnicos. Aliás, a história do Xingu, pouco conhecida, é singular, pois os povos xinguanos resistiram, por muito tempo, à colonização europeia. Hoje, há outra correlação de forças e retomada de um ethos desenvolvimentista e de compromisso com o progresso, o que coloca todos reféns de interesses que aparecem como nacionais. Os instrumentos de participação da sociedade, como as audiências públicas, ficaram fragilizados. Os conflitos socioambientais, neste caso, são conflitos sobre o uso de bens comuns, mas também assumem essa dimensão subjetiva de processos mais gerais que implicam a própria concepção de respeito, democracia e justiça. Por outro lado, diante de um movimento de privatização, de "mercadorização" da água e dos rios, de interesses econômicos concentradores, é difícil entender decisões que deixam ao largo as ameaças ambientais, a emissão de gases dos reservatórios e as mudanças climáticas. Nessas ocasiões, o diálogo é fundamental. É preciso escutar o que dizem as populações locais e não criminalizá-las. Beira do Rio – O Brasil tem muitos projetos para a construção de barragens. Somente na Amazônia brasileira, estão sendo planejadas mais de 60. O que podemos esperar sobre os impactos dessas grandes hidrelétricas projetadas? Edna Castro – São situações diferentes de uma região para outra no País. Mas, certamente, são as grandes hidrelétricas que envolvem enorme soma de investimentos que provocam maiores impactos nos assentamentos urbanos e nos povoados. É importante, porém, dizer que esses processos de transformação também são provocados pelas médias e pequenas hidrelétricas construídas de forma impressionante em alguns Estados, como Minas Gerais, que possui mais de 450 hidrelétricas.

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Embalagens, porta-lápis, bolsas, mantas de tecido vegetal fazem parte da produção dos ribeirinhos

A

s seringueiras voltaram a sorrir na Ilha do Murutucum, localizada a 30 minutos de Belém. O motivo é a instalação da Unidade Sustentável dos Encauchados de Vegetais da Amazônia, projeto do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, em parceria com o Polo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio).

Moradores da Ilha estão sendo capacitados a confeccionarem artefatos com uma técnica que combina o conhecimento indígena tradicional de manipulação do látex com tecnologias industriais simplificadas e adaptadas para o ambiente florestal. A atividade é alternativa de renda para a comunidade, especialmente, na entressafra do açaí e cacau. Págs. 6 e 7

Biodiversidade

UFPA recupera área de mangue em Bragança

56 espécies foram identificadas

Entrevista A professora Edna Castro discute os impactos sociais causados pelas barragens. Pág. 12

Coluna da Reitoria

Meio ambiente

Além do replantio de 70 mil mudas e sementes ao longo da PA-458, o Projeto desenvolve ações de educa-

ção ambiental nas escolas públicas. Proposta é agregar comunidade, Universidade e Prefeitura. Pág. 9

Acervo do Pesquisador

"Obras alteram a vida das pessoas e a forma de organização do espaço"

Peixes na bacia AraguaiaTocantins Acervo do Pesquisador

As polêmicas em torno das barragens

Biologia

Unidades de conservação e de populações tradicionais são responsáveis pela manutenção da floresta. Pág. 4

Extensão

Oficinas geram renda em assentamento

Erick Pedreira diz o que é necessário para a UFPA dar um salto para o futuro. Pág. 2

Opinião Theodomiro Gama Júnior fala sobre sustentabilidade no município de Castanhal. Pág. 2

Desmatamento na Amazônia Legal

Crianças participam de replantio de mudas ao longo da PA-458

Faculdade de Engenharia Florestal, em Altamira, ensina moradores da comunidade Virola-Jatobá a fazerem biojoias e móveis artesanais. Pág. 3


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