Beira 90

Page 1

issn 1982-5994

12 – BEIRA DO RIO – Universidade Federal do Pará – Janeiro, 2011

Fotos Alexandre Moraes

Entrevista 25 Anos JORNAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ • ANO XXV • N. 90 • Janeiro, 2011

Alexandre Moraes

Desafios do conforto ambiental "Um admirável mundo novo"

Até a próxima década, todos teremos migrado para o ciberespaço O efeito da popularização da internet no final da década de 1990 pode ser considerado uma revolução de costumes. Estava inaugurada uma nova maneira das pessoas se relacionarem. A web 2.0, os softwares de interatividade e a convergência tecnológica vieram para consolidar essas mudanças. MSN, Orkut, Facebook, Twitter, Myspace e blog são algumas das ferramentas que nos permitem compartilhar informações, acompanhar acontecimentos públicos e privados, reunir pessoas com os mesmos interesses. Isso é o mínimo, pois, no ciberespaço, quase tudo é possível. Apesar de as ferramentas estarem disponíveis, nem todos estão prontos para usá-las. Em entrevista ao Jornal Beira do Rio, a professora Kalynka Cruz falou sobre essa onda tecnológica e as relações sociais, sobre o impacto que a geração de nativos virtuais irá causar no mercado de trabalho e sobre o modo como a universidade deve adaptar-se para conseguir dialogar com os novos alunos, que, de acordo com a pesquisadora, são “mais velozes e menos pacientes!”.

Beira do Rio – A cada momento, surge uma nova ferramenta e, com ela, novas demandas. Ficamos cada vez mais tempo conectados. Até que ponto isso contribui para o estresse e a ansiedade típicos desse novo tempo? Kalynka Cruz – Sempre me preocupa uma pergunta que nos induza a pensar as novas tecnologias como danosas ao ser humano. Há sempre benefícios e malefícios, mas se é para falarmos de alguns malefícios, sim, é verdade que existem aspectos negativos a serem considerados sobre o assunto. Existe uma obrigação social de conexão. Aqueles que não estão conectados, de certa forma, estão à margem de uma sociedade. Por exemplo, onde marcávamos nossos encontros, eu, você? No cinema, no shopping... hoje, os jovens marcam encontros no ciberespaço (nos fóruns, nas redes). Então, se não se conectam, ficam – de certa forma – fora de seu grupo social, desatualizados das conversas. E isso não acontece apenas com os jovens, quantas vezes somos abordados por amigos, familiares que nos interpelam com perguntas do tipo: “por que você não respondeu ao meu scrap?” ou “nunca mais vi você no Orkut”. Então, o estresse que algumas pessoas vivenciam está, na maioria das vezes, relacionado à cobrança externa. Até porque, com as novas tecnologias, fica mais transparente a opção de relacionar-se ou não com outra pessoa.

Beira do Rio – Inicialmente, os grupos formados pela internet eram apenas virtuais. É impressão ou com o tempo a internet passou a ser um ponto de encontro e essas redes foram migrando para o real? Kalynka Cruz – O ser humano já nasce em um grupo. Cresce e busca aproximação por afinidade. Toda a sua vida gira em torno de redes: amigos, trabalho, lazer. Na verdade, primeiro foi a galinha, não o ovo, ou seja, os grupos presenciais migraram para o digital! O homem foi moldando o ciberespaço para caber nele. Na web 1.0, ele tinha um nível baixíssimo de interação, então foi buscar maneiras de se agrupar por interesse e interagir a partir dos fóruns, blogs e redes sociais. Para isso, ele criou a web 2.0. Depois da “ocupação” do ciberespaço, surge a necessidade de se conhecer presencialmente. Então, acontece uma coisa interessante: aqueles que buscaram representações no ciberespaço correram atrás da representação no real. Um exemplo prático é a migração dos amantes do mangá para as redes e depois a saída deles para os encontros presenciais. Ou seja, o grupo já existia, tinha os mesmos hábitos, reunia-se e encontrava-se com outros grupos menores. Depois do ciberespaço, eles conseguiram se fortalecer por intermédio da identificação de um número maior de pessoas interessadas pelo mesmo assunto e, atualmente,

Beira do Rio – Conhecer esses instrumentos (MSN, Orkut, Facebook, Twitter, Myspace, blog) ainda é uma opção ou não há mais como ficar de fora? Kalynka Cruz – Você recebe uma cobrança de manter-se conectado, de dar notícias e satisfações às pessoas com quem se relaciona. Como você vai fazer isso é que é a questão. Por isso eu posso optar por usar o telefone ou acessar as redes sociais complementarmente. Então, na verdade, é uma questão de conforto, de facilidade. Portanto a resposta à pergunta é sim, ainda é uma opção! No entanto, acredito que, na próxima década, isso não será mais opcional, e sim natural. O que vemos hoje, com as convergências tecnológicas, é o presencial hibridizar-se com o virtual. Beira do Rio – A sua pesquisa classificou os usuários do mundo virtual em três categorias: ocasional, excessivo e extremo. O que caracteriza cada um deles? Kalynka Cruz – Essa categorização é apenas um direcionamento sobre perfis, tendências que

cada um de nós tem ao lidar com a tecnologia. O usuário ocasional é aquele que chamamos de imigrante digital, o que não tem muita afinidade com a tecnologia e acessa o ciberespaço por motivos específicos, direcionados, como enviar um e-mail. O excessivo, apesar da palavra parecer pejorativa, é, na verdade, aquele nativo que convive com a tecnologia e essa convivência com o digital excede as obrigações. Para ele, aquele ambiente é natural, então, ele usa e-mail, acessa redes sociais, vê vídeos, baixa conteúdo, entre outras atividades. Já o extremo é aquele que perdeu o controle, que tem uma relação de dependência com a tecnologia. É claro que, dentro dessas tipologias amplas, temos graus que nos levam mais perto de um perfil do que de outro. Beira do Rio – A geração que cresceu com a popularização da internet e fez do ciberespaço o seu playground começa a entrar no mercado de trabalho. Qual será o impacto disso e que conflitos podem surgir daí? Kalynka Cruz – Os benefícios me parecem sempre mais evidentes que os conflitos. O mercado está recebendo profissionais multitask, cognitivamente diferentes. Mas eles não são alienígenas, tampouco super-heróis. Eu diria que eles são os embaixadores das novas tecnologias e têm um savoir faire que lhes permitirá ser mais pró-ativos, criativos e, seguindo um dos princípios dessa nova geração, mais colaborativos. Ou seja, com eles, quem já está no mercado pode fazer essa transição de forma mais tranquila. Eu sou muito otimista quanto a este novo profissional. Beira do Rio – Você orientou um TCC que analisa a utilização de uma história em quadrinhos multimídia como ferramenta de ensino. Diante dessa revolução tecnológica, as ferramentas de ensino precisam ser repensadas? Kalynka Cruz – Se o mundo se transformou, como eu posso usar os mesmos métodos em sala de aula? É preciso, ainda, formar educadores que possam lidar com estes nativos digitais, que são mais velozes e menos pacientes! Mas, antes desse “admirável mundo novo”, inversamente proporcional à sociedade organizada de Aldous Huxley, é preciso garantir o acesso. As tecnologias estão aí, mas nem todos sabem como utilizá-las. Nesse sentido, projetos como UFPA 2.0 (UFPA), Telinha na Escola (Ong Casa da Árvore e Vivo) e Navega Pará (Governo do Estado) são ações importantes tanto para garantir o acesso físico ao ciberespaço, quanto para assegura a qualidade intelectual.

O De acordo com o especialista, o maior desafio dos projetos imobiliários em Belém é garantir o acesso ao vento

Ornitologia

Ver-o-Peso

Livro traz artigos sobre o Mercado Organizados pela professora Wilma Leitão, artigos discutem gênero, relações raciais e patrimônio histórico. Pág. 3

Arquivo sonoro amazônico está disponível na UFPA Instalado no Instituto de Ciências Biológicas, o Arquivo de Sons da Amazônia propõe o desenvolvimento

de pesquisas envolvendo Bioacústica a partir de técnicas não invasivas. Pág. 10

Acervo do Pesquisador

eles têm maior projeção presencialmente.

Alexandre Moraes

Rosyane Rodrigues

Laboratório de Análise e Desenvolvimento do Espaço Construído (Ladec), sob a coordenação do professor Irving Montanar, e o Laboratório de Conforto Ambiental, coordenado pela professora Heliana Aguilar, estão desenvolvendo pesquisas com o objetivo de garantir o conforto ambiental e a eficiência energética às edificações locais. Para isso, é preciso que os projetos arquitetônicos levem em consideração o máximo aproveitamento da ventilação e da luz natural. Princípios da arquitetura bioclimática foram aplicados na Casa Eficiente, construída em Tucuruí em parceria com a Eletrobras/Eletronorte. A residência está totalmente adaptada ao clima da região amazônica. Págs. 6 e 7

Violência

Números que as autoridades desconhecem Canto do bem-te-vi está registrado e disponível para pesquisa

Entrevista

Feira está no imaginário paraense

"Ainda é preciso garantir o acesso às novas tecnologias", afirma a professora Kalynka Cruz. Pág. 12

Opinião Jane Felipe Beltrão passeia por Belém e relembra as mercearias das décadas de 50 e 60. Pág. 2

Medo e impunidade afastam vítimas das delegacias, gerando alto índice de crimes não registrados oficialmente. Pág. 10

Coluna da Reitoria Reitor Carlos Maneschy fala sobre a reestruturação do curso de Medicina da UFPA. Pág. 2


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.